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Palma, Alexandre. Ciência pós-normal, saúde e riscos dos aeronautas: a incorporação da vulnerabilidade . [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2002. 236 p.

Capítulo II: MODELO DO ESTUDO

 

2.1. ESTRUTURA DE REALIZAÇÃO DO ESTUDO

Neste estudo foi feito um levantamento sobre os riscos de acidentes e agravos à saúde no trabalho em aviação civil comercial. A população e amostra estudada será a dos aeronautas brasileiros de grandes jatos. A categoria dos aeronautas abrange os pilotos, co-pilotos, engenheiros de vôo e os comissários, isto é, aqueles profissionais que realizam suas atividades ocupacionais a bordo de uma aeronave.

Os dados serão coletados para análise mediante:

  1. observação da realização do trabalho real pelos aeronautas, em seus postos. Isto permitirá compreender mais profundamente o trabalho dos aeronautas e confrontá-lo com o trabalho prescrito;
  2. entrevistas com pilotos e comissários, buscando levantar dados sobre o próprio trabalho, que talvez não tenha sido verificada pelas observações; sobre incidência de problemas de saúde para posterior confrontação; bem como, outros dados não observáveis (vida sócio-familiar, expectativas na profissão etc);
  3. coleta, a partir de fontes primárias, de dados epidemiológicos do coletivo dos comissários e pilotos brasileiros. Estes dados serão obtidos junto ao Centro de Medicina Aeroespacial (CEMAL) do Comando da Aeronáutica. A classificação das doenças dar-se-á em função da "Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10);
  4. identificação dos indicadores de produtividade, dos últimos 20 anos, através dos "Anuários do Transporte Aéreo" com dados estatísticos e econômicos. Estes relatórios são produzidos anualmente pelo Ministério do Transporte e são considerados os dados oficiais da aviação civil comercial;
  5. levantamento dos dados sobre acidentes em aviação comercial de grandes jatos, a partir de dados publicados anualmente pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). Este levantamento poderia servir para confrontar os dados entre os países desenvolvidos e os denominados em desenvolvimento.
  6. levantamento da posição dos países junto ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), para posterior confrontação dos dados internacionais.

 

2.1.1. A análise quantitativa

As análises quantitativas dar-se-ão mediante o confronto dos dados coletados. Para tanto, serão necessários tratamentos estatísticos apropriados.

Para confrontar os valores obtidos de afastamento definitivo e/ou temporário do trabalho, entre pilotos e comissários e entre gênero utilizar-se-á o teste de Qui-quadrado.

O confronto entre o número de acidentes e o número de aeronautas dar-se-á mediante a utilização de um teste t de student, para observações pareadas(3).

A análise de variância (ANOVA) será utilizada para verificar as diferenças entre a quantidade de acidentes aeronáuticos e os conjuntos de países agrupados pela classificação do IDH.

A investigação epidemiológica transcorrerá mediante a modalidade de estudo de coorte retrospectivo. A partir da "Odds Ratio" poder-se-á verificar a força de associação entre a exposição ao trabalho e o aparecimento de doenças (Pereira, 1995b).

 

2.1.2. A análise qualitativa

A construção de outras formas de investigação deve-se ao desejo de analisar a aplicação de alguns métodos no estudo sobre a saúde dos aeronautas. Mais especificamente, na tentativa de identificar as interseções entre as condições e organização do trabalho da aviação comercial e a saúde dos aeronautas.

Uma das formas de se abordar a relação entre as condições e organização do trabalho e as questões de saúde dos profissionais envolvidos advém dos estudos epidemiológicos. A validade deste tipo de estudo reside no grande número de casos, na quantificação dos problemas, na testagem e confirmação de hipóteses a respeito do processo saúde e doença, entre outros. Entretanto, segundo Boudon (1989) os métodos quantitativos, cujo caráter comum é o de pressupor a observação de uma população de objetos comparáveis entre si, possuem algumas limitações e cita que "quanto mais complexos são os contextos que analisamos, mais difícil é determinar os fatores de semelhança e de dessemelhança e dar às relações estatísticas observadas um significado inequívoco".

É neste sentido, então, que o problema do sofrimento e aflição dos aeronautas também devem ser estudados pelas análises qualitativas. Embora, o estreitamento dos dados fornecidos pelo viéses quantitativos e qualitativos permita uma melhor compreensão da complexidade de que trata a questão da saúde dos trabalhadores, a construção deste tópico destina-se a discussão dos métodos qualitativos a serem utilizados para estudar a saúde dos aeronautas.

Contudo, discutir a metodologia não é tarefa simples. Decerto, cada método apresentará suas limitações e particularidades, porém o que se traz de cada um deles? Não é preciso utilizar-se de cada forma de análise na íntegra, mas utilizá-lo naquilo que ela pode mais contribuir. Além disso, segundo Gould (2001), ao considerar o sistema como um todo, novos modos de interpretação devem ser explorados. É partindo desta premissa que se pretende pôr os métodos qualitativos em discussão.

Um eixo comum a todas as formas de análises que aqui serão apresentadas é a importância dada as experiências dos atores sociais. Os discursos, os saberes, os modos de se relacionarem e de como se relacionam com e no trabalho concorrem para facilitar a compreensão do campo saúde-trabalho.

a) Etnometodologia

Como crítica da sociologia positivista, a etnometodologia apresenta-se aqui como uma possibilidade de análise das relações de trabalho. Este modo de investigação parte do questionamento de toda forma de determinismo e entende que as ações humanas compreendem uma certa comunicação e racionalização, e por isso são observáveis e relatáveis.

É deste modo, então, que há uma valorização dos gestos, dos comentários aparentemente irrelevantes, das "gracinhas", pois existe aí uma inteligibilidade coletiva que pode fornecer pistas para os pesquisadores.

Embora, não se possa dizer que se trata de "etnometodologia", Antonio Candido, em seus "Parceiros do Rio Bonito" (1975) buscou compreender os meios de vida num agrupamento de caipiras. Combinando, muitas vezes, as orientações de sociólogo, ao buscar dados históricos e estatísticos; com as de antropólogo, ao reconstituir através de informantes o modo de viver do coletivo, este autor ora recorre a descrição, aos detalhes, a uma visão que abranja todos os aspectos da cultura; ora vale-se de amostras representativas dos grandes números, pelas médias, por certos aspectos da cultura.

Mas o que é de grande medida neste estudo é o interesse pelos detalhes significativos que se constitui em elemento fundamental. Sua elaboração está na certeza de que o senso do qualitativo é uma condição eficiente, e que a decisão do pesquisador, desenvolvida pela racionalização e o contato com a realidade viva dos grupos, é tão importante quanto a técnica de manipulação dos dados.

É neste sentido, aliás, que o próprio autor comenta que analisar um determinado grupo social por meio de números referentes à mobilidade, produção, área das propriedades, é tarefa do demógrafo ou economista. "O sociólogo, porém, a pretexto de buscar o geral fareja por toda a parte o humano, no que tem de próprio a cada lugar, em cada momento, não pode satisfazer-se neste nível" (Candido, 1975; p.19).

Ora, semelhante atitude parece estar presente nos estudos de etnometodologia apresentados por Coulon (1995). Guardadas as devidas diferenças, a etnometodologia mostra que se tem a disposição a possibilidade de apreender de maneira adequada aquilo que se faz para organizar a existência social.

A perspectiva de pesquisa em etnometodologia nos estudos sobre os aeronautas pode ser importante devido à possibilidade de ampliar a compreensão dos modos de viver e se organizar desta categoria profissional.

Ao se debruçar sobre as atividades práticas torna-se possível apreender os métodos que estes trabalhadores utilizam para dar sentido e, simultaneamente, realizar suas ações rotineiras.

Partindo da análise sobre as práticas sociais, dos comportamentos de senso comum, das crenças, da organização social, a etnometodologia poderia contribuir para a compreensão das tensões resultantes entre os diferentes modos de gestão da relação entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Neste sentido, aproxima-se do Movimento Operário Italiano e da Psicodinâmica do trabalho e incorpora as experiências e fala dos atores sociais.

Contudo, na etnometodologia as construções se dão em diálogo com estes atores. De certo modo, não há diferenciação ou confronto entre os conceitos e as experiências. Latour et al. (1997) lembram que a etnometodologia é o lugar de tomar os atores sociais, em suas práticas, como os únicos sociólogos competentes. Contudo, o autor chama a atenção para a dificuldade de se superar os discursos ordenados. Para ele, a observação direta no trabalho de campo permite, em parte, resolver este problema.

Para os estudos sobre os aeronautas, a etnometodologia pode construir um conhecimento a partir das observações das jornadas de trabalho, dos deslocamentos em aeroportos, das conversas entre tripulantes, dos gestos, enfim da produção de linguagem destes atores.

Desta forma de interpretação é possível também compreender os códigos vividos por estes trabalhadores, sua produção e atualização. Utilizar este procedimento metodológico implica, então, compreender a cultura do grupo estudado.

Além da hierarquia e do papel de representante da empresa que o piloto exercia, as diferenças econômicas contribuíam para dar certos entendimentos, mesmo que provisórios, aos comportamentos observados. Neste sentido, pode-se exemplificar com dois fatos: a) os comissários fazem uma xepa(4) no avião para evitar gastos com alimentação fora do local de residência; b) os comissários realizam contrabando(5) de diferentes produtos para poderem aumentar a rentabilidade ao final do mês. A partir destes dois exemplos, é possível indagar sobre o modo como as pessoas constróem a ordem do mundo. Novamente se depara com a possibilidade de encontrar na etnometodologia a contribuição para a compreensão de uma cultura tão particular e complexa.

b) As Representações Socias

A partir dos textos de Sato (1993) e Herzlich (1991) opta-se também por discutir a contribuição das "Representações Sociais" ao processo saúde e doença em suas relações com o trabalho.

Segundo Herzlich (1991), o termo foi proposto por Durkheim para enfatizar a especificidade e primazia do pensamento social em relação ao pensamento individual, considerando que a representação coletiva não se reduz à soma das representações dos indivíduos que compõem o grupo social.

Para ambas autoras, a linha de trabalho parece convergir para a existência, em cada grupo social, de um discurso sobre a saúde e doença, que não é desvinculado do conjunto das construções mentais de expressão. Neste sentido, a doença parece adquirir uma significação.

Entretanto, esta forma de análise reconhece, identifica, descreve os problemas relacionados ao trabalho, mas permanece em um estado de desconhecimento, uma vez que não se aprofunda nas razões daqueles problemas ou nas saídas encontradas pelos trabalhadores. De certo modo, as representações sociais não sustentam a realização de intervenções, já que se limita à descrição do fenômeno sem, no entanto, aprofundá-lo.

Como forma de análise, as representações sociais poderiam ser utilizadas para desvelar as representações que os trabalhadores fazem a respeito do trabalho. O modo como o grupo social constrói um determinado conjunto de saberes, que expressam a identidade deste grupo; os códigos utilizados; ou ainda, a linguagem destes atores sociais, poderiam ser úteis para a compreensão imediata dos atributos deste grupo.

No caso dos aeronautas, pesquisas recentes caminharam por esta perspectiva para tentar mapear os fatores estressantes do trabalho dos pilotos e comissários (Ribeiro et al., 1994 e Assis, 1996) e parecem ter servido para compreender genericamente o grupo dos aeronautas, seus códigos (hierarquia, uniforme, posição no posto, etc.), linguagem (fraseologias, comunicações internas e externas, etc), saberes, etc. Estes estudos tornaram-se úteis para "quebrar o gelo" do absoluto desconhecimento dos modos de ser das profissões; para as tomadas de decisões futuras; para construção de novos estudos; entre outros.

Mais recentemente ainda, na elaboração outro estudo (Assis, 1998), serviu para apreender as representações que os trabalhadores da aviação faziam a respeito dos lazeres, bem como do significado que estes obtinham frente a vida social do trabalhador da aviação.


3 - O teste t de student pareado é um procedimento estatístico que possibilita testar os dois grupos de dados dos mesmos indivíduos, isto é, os dados antes e depois da aplicação de um tratamento.

4 - O termo "xepa" aqui é utilizado por ser um termo bastante utilizado pelos trabalhadores. Os comissários, em geral, buscam levar para os hotéis os lanches, salgadinhos, amendoins, refrigerantes, etc. oferecidos aos passageiros para que se possa realizar a alimentação sem gastar suas diárias. Este mesmo procedimento não é muito utilizado pelos pilotos. Apenas em uma única ocasião pôde ser observado tal fato e aí se tratava de uma refeição de lagosta oferecida aos passageiros da primeira classe.

5 - Embora admitido pelos comissários, o termo "contrabando" não é utilizado entre eles. Como não podem fazer compras, já que não têm direito a cota de importação, os comissários trazem ilegalmente produtos eletrônicos de pequeno porte, perfumes, brinquedos, CDs e revendem a preços vantajosos para eles próprios e para os consumidores. Contudo, eles arriscam-se a perder toda mercadoria e até o emprego ao realizarem tal prática.

 
 
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