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Palma, Alexandre. Ciência pós-normal, saúde e riscos dos aeronautas: a incorporação da vulnerabilidade . [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2002. 236 p.

Capítulo I: INTRODUÇÃO

 

O presente estudo trata dos riscos e agravos à saúde e segurança dos aeronautas brasileiros. Seu início ocorreu através da participação em pesquisas na área de fisiologia do trabalho com pilotos e comissários de grandes jatos apoiadas pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI(1)), quando eu trabalhava em um laboratório por ela financiado.

De um modo geral, estas pesquisas estavam regidas por um paradigma, cujas bases pautavam-se em três aspectos característicos: a) determinação biológica de causa e efeito; b) centralização no posto de trabalho; e, c) responsabilidade do trabalhador. Estes "modos de olhar" em nada surpreendem, uma vez que a literatura que corrobora estas formas de análises mostrava-se, nesta área, bastante hegemônica.

Ao perceber, contudo, que estes estudos pareciam não dar conta da complexidade da saúde dos aeronautas, inquietava-me e reclamava a necessidade de se romper com este viés estritamente biológico. De fato, entendia que se fazia necessário outras formas de abordagem.

Assim, a partir da bibliografia que propõe outros caminhos na condução da ciência, tentei argumentar a inadequação do paradigma hegemônico, bem como, apresentar uma proposta de análise dos problemas por outras vias.

Um destes caminhos, seguramente, era o de incorporar o contexto da organização e do processo de trabalho nas investigações. Os estudos financiados pela OACI, citados anteriormente, buscavam principalmente, analisar indicadores que demonstrariam uma suposta "carga de trabalho"(2). Assim, indicadores fisiológicos aferidos em laboratório e no próprio trabalho eram privilegiados. Entre os primeiros, utilizava-se o consumo máximo de oxigênio, a variação da freqüência cardíaca e a pressão arterial em esforço, alguns marcadores bioquímicos, entre outros; no segundo caso, baseava-se na freqüência cardíaca aferida durante toda jornada, incluindo aí o momento da apresentação, a preparação, o vôo propriamente dito e a apresentação no lugar de chegada.

Outros indicadores também eram importantes e anotados a cada minuto, para posterior comparação com a freqüência cardíaca. Neste caso, a quantidade de tempo em que o trabalhador ficava de pé, andando, sentado ou deitado; os gestos; os procedimentos técnicos etc. eram anotados e, posteriormente, calculados em percentuais da freqüência cardíaca máxima, para identificar a intensidade do esforço físico.

A conclusão que se chegou é que a "carga de trabalho" era perfeitamente suportável, estando inclusive abaixo dos limites fisiológicos do homem. Porém, parecia claro que este tipo de análise não fornecia uma dimensão real do trabalho. E por duas razões. A primeira, porque as conseqüências do trabalho não estão, necessariamente, associadas aos parâmetros utilizados para medir o esforço físico. Uma segunda, decorrente da primeira, referia-se ao "modo de olhar", descontextualizado, inclinado a descobrir padrões e tendências "certas", que especula uma noção tão óbvia de verdade, a qual não me fazia parar de pensar nela. Talvez, até, estas análises estejam "corretas" num sentido restrito. Porém, uma informação limitada, arrancada do contexto, pode ser por demais enganadora.

Um outro caminho, não tão imediatamente incorporado, tratava exatamente desta segunda questão: a reflexão sobre a natureza da realidade. Daí que logo se formulou algumas questões fundamentais. Que modelo poderia ser utilizado para tentar escapar deste terreno movediço? Isto é, como evitar a utilização de uma direcionalidade genuína, de uma causalidade? De fato, a determinação de causa e efeito é uma tentação, acredito, para quase todos os pesquisadores.

Mais tarde, contudo, aprendi que o grande problema não estava nas determinações em si, mas no modo, freqüente e equivocado, com que se encara os achados. Como um "ponto final"! A pretensão da ciência em decidir finalmente sobre um assunto, sem dúvidas, de modo tão óbvio e decisivo fez Machado de Assis nos deliciar com o personagem Dr. Simão Bacamarte em "O Alienista".

A questão fundamental, aqui, não é exatamente a previsibilidade. Como ensina Gould (2001), o fenômeno pode ser previsível, quer surja de modo direto de uma causa ou indiretamente como uma conseqüência. Contudo, o autor reforça que a questão-chave está centrada na natureza e caráter da explicação dada.

Além disto, embora, possamos ser capazes de aplicar alguma (ou o máximo de) objetividade, as decisões são, na verdade, repetidamente subjetivas e nossos preconceitos, quase sempre, engolfam nossas incertezas. Era preciso, então, tentar dar conta também desta questão.

Foi neste sentido, que a construção deste estudo seguiu em direção às propostas de pensar a complexidade dos fenômenos, notadamente, pautou-se no modelo teórico de Funtowicz & Ravetz (1994 e 1997), uma vez que este era um modelo que buscava dar conta das situações de risco.

Um outro caminho exigia a reflexão sobre vulnerabilidade, seja ela individual; seja contida na organização e processo de trabalho, ou ainda nos espaços sócio-econômicos mais amplos. Este movimento acabou por levar à reorganização do modelo proposto por Funtowicz & Ravetz.

A proposta metodológica utilizada, para tanto, passou por observações do trabalho real desenvolvido pelos aeronautas; entrevistas semi-estruturadas aplicadas junto aos trabalhadores; conversas com especialistas; coleta de dados epidemiológicos no Centro de Medicina Aeroespacial (CEMAL) do Comando da Aeronáutica; levantamento dos dados sobre acidentes; e, identificação da posição dos países no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Um posterior tratamento estatístico será dado nas associações entre alguns destes dados.

Os problemas postos, por fim, foram: a) Qual a análise que se pode fazer da saúde e segurança dos aeronautas brasileiros?; e, b) O que se propõe como modelo de análise para investigações em saúde e segurança, que abarque a complexidade do sistema estudado?.

O objetivo geral deste estudo é, então, propor um modelo tridimensional de análise de agravos à saúde e riscos de acidentes, a partir do modelo bidimensional de Funtowicz & Ravetz (1994 e 1997), já existente. Ao adicionar uma terceira dimensão, da vulnerabilidade, busca-se incorporar a incerteza e complexidade nas análises e gerenciamentos dos problemas ocorridos com os indivíduos ou grupos potencialmente excluídos ou enfraquecidos.

É possível colocar que a principal contribuição deste estudo está em reconhecer que as análises sobre saúde e acidentes têm de considerar a vulnerabilidade a qual estão expostos determinados grupo sociais. A partir da integração da terceira dimensão, da vulnerabilidade social, ao modelo de Funtowicz & Ravetz (1994 e 1997) pretende-se que um novo modelo possa ser utilizado nas análises sobre acidentes, bem como, nos campos de Saúde Pública e Saúde do Trabalhador.

Assim, a proposição deste modelo poderá ser útil, na medida em que pode contribuir para um novo modo de olhar e analisar os problemas decorrentes de acidentes e saúde, além de poder ser utilizado como material didático para novos trabalhos.

Dentro da categoria profissional (aeronautas) escolhida para pesquisa, de um modo geral, os estudos incidem sobre as análises biológicas, onde os riscos são verificados isoladamente, e dentro de um contexto de responsabilização do trabalhador, como aquele que pode desencadear os acidentes. Assim, parece estar sendo desconsiderado o exame das categorias sociais.

Os riscos de acidentes ou à saúde devem, de fato, estar associados às condições de realização das atividades. Os acidentes aéreos não podem ser analisados isoladamente, fora do contexto que o constituiu. Um acidente atinge uma quantidade maior de indivíduos e trabalhadores e seu impacto não recai somente sobre as vítimas e famílias dos passageiros implicados. A queda de aviões sobre as cidades é, decerto, uma catástrofe urbana, cujo ônus recai sobre toda a sociedade.

Por outro lado, e talvez mais que qualquer outro, o acidente aéreo expõe a fragilidade da sociedade tecnológica industrial. Neste sentido, a falha "humana" parece ser uma noção moral e jurídica, de conteúdo negativo e que atribui ao trabalhador a responsabilidade pelo não-atendimento considerado correto das regras e tarefas a executar. Assim, o trabalho justifica-se, também, por desafiar o que "todos sabem", e que em geral vem a ser equivocado: a suposta culpa do trabalhador.

Contudo, embora a presente investigação se dê com a categoria profissional dos aeronautas, pretende-se que os resultados do estudo estendam-se a diversas situações. Sua aplicação poderá ocorrer nas análises sobre saúde pública, saúde do trabalhador ou dos riscos de acidentes.

Finalmente, a estrutura do estudo segue, além deste capítulo introdutório, um segundo capítulo que trata de revisar a literatura a respeito de três tópicos gerais: aviação, ciência e risco. Um terceiro capítulo versa sobre o modelo do estudo a ser proposto, bem como, os métodos utilizados. O capítulo seguinte busca discorrer sobre as "descobertas" da presente pesquisa. E, um último capítulo é reservado às considerações e conclusões sobre o estudo.


1 - OACI: Organização da Aviação Civil Internacional, órgão pertencente à ONU e responsável pela aviação civil.

2 - Neste sentido verificar Moreira et al.. (1995).

 
 
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