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Ruzany, Maria Helena. Mapa da situação de saúde do adolescente no Município do Rio de Janeiro. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 113 p.

CAPÍTULO 3

Mapa da situação de saúde do adolescente no Município do Rio de Janeiro

 

Ruzany M.H. *, Andrade C.L.T. **, Esteves M.A.P. ***, Pina M.F. ****, Szwacwald C.L. *****

*Professor Assistente, Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

** Mestranda da Escola Nacional de Saúde Pública.

*** Pesquisadora do Departamento de Informação em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública.

**** Pesquisador Adjunto, Departamento de Informação em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública.

***** Pesquisador Titular, Departamento de Informação em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública.

 

 

RESUMO: O objetivo deste artigo é apresentar o estudo sobre a apreciação das condições básicas das Unidades de Saúde (US) com relação ao Programa de Saúde do Adolescente (PROSAD) do Município do Rio de Janeiro, para a prestação do atendimento integral aos adolescentes de 10 a 19 anos, frente a seus principais agravos de saúde. Tendo como unidade geográfica de análise as Regiões Administrativas (RA) deste município, foi aplicado um questionário estruturado aos responsáveis pelas US/PROSAD em 70 US. A seguir, as US foram estratificadas através de um índice que sintetizasse as condições básicas deste atendimento. O estudo espacial realizado constituiu-se de três mapas temáticos: 1) densidade demográfica da população adolescente (1991), em cada RA, e a estratificação das US de acordo com a pontuação recebida; 2) distribuição das taxas médias de mortalidade por armas de fogo entre adolescentes do sexo masculino (1991-1995) e a localização de favelas; 3) distribuição das taxas de fecundidade em adolescentes (1995-1997).

Observou-se que nas áreas de maior concentração populacional de adolescentes está o maior número de US que não participam do PROSAD. Nas redondezas da Zona Portuária concentram-se os aglomerados habitacionais das favelas e os índices mais elevados de mortalidade por armas de fogo. As RA com maior número de favelas e as de baixa renda apresentam as maiores taxas de fecundidade. Conclui-se que, para aumentar a efetividade deste programa, deve-se levar em consideração as áreas de maior demanda populacional e os locais onde estão concentrados os principais agravos à saúde deste grupo etário.

Palavras-chave: Adolescência, organização de serviços de saúde, análise espacial.

 

 

ABSTRACT: The objective of this study is to examine the basic conditions of public health centers in terms of the integrated services they provide to adolescents (age10-19) as part of the city government’s Adolescent Health Program. Administrative regions (districts areas of the city) were used as the unit of analysis, and a structured questionnaire was administered in 70 public health centers. Subsequently, the public health centers were stratified according to the basic conditions of each clinic visit. A spatial study, including three thematic maps, was also developed, as followed: 1) the demographic density of the adolescent population per administrative region (using 1991 figures), as well as a mapping of public health centers by their ranking; 2) the median rates of mortality by firearms among adolescents boys (1991-1995 figures) per administrative region and the dwellings (favelas) distribution; 3) adolescent fertility rates (1995-1997 figures) per administrative region. We observed that in administrative regions with the highest concentration of adolescents, the health centers do not collaborate with the Adolescent Health Program of the city of Rio de Janeiro. The areas near and around Rio’s port area had the highest rates of deaths by firearms. Those administrative regions with the largest groups of low-income dwellings had the highest rates of adolescent fertility. We conclude that to improve the effectiveness of the city’s Adolescent Health Program, the municipal government should take into account the demand for services, the local health problems and the concentration of the adolescent population.

Keywords: Adolescence, Health services organization, Spatial analysis.

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

A saúde do adolescente, em nível internacional, vem recebendo atenção especial desde o início do século XX, quando profissionais de saúde observaram que este grupo populacional merecia estudos aprofundados pelas suas particularidades. Desde então, profissionais de saúde de alguns serviços, em diferentes países, passaram a desenvolver serviços específicos de atenção à saúde deste grupo etário. Recentemente, esta área de interesse tornou-se uma subespecialidade, tanto médica quanto de outras categorias profissionais, nos Estados Unidos, Austrália e alguns países da América Latina (1).

Os profissionais de saúde para atender esta clientela, além de lidar com questões da especialidade médica, têm que trabalhar também com questões na esfera comportamental. Isto é devido à necessidade da prestação do atendimento integral na medida em que as conseqüências do uso de drogas, das práticas sexuais desprotegidas e da violência urbana passaram a fazer parte, com freqüência, do elenco de problemas deste grupo populacional (2).

Nesta perspectiva, observando o movimento internacional de interesse no adolescente e considerando este segmento populacional como de risco social, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) passou a apoiar iniciativas de criação de programas na América Latina (3). No Brasil, os primeiros passos na atenção à saúde do adolescente foram dados há mais de 20 anos com a criação de serviços pioneiros no Rio de Janeiro e em São Paulo (4). Com o apoio da OPAS, a partir de 1989 o Programa de Saúde do Adolescente (PROSAD) foi implantado pelo Ministério da Saúde, tornando-se um programa nacional com normas e prioridades definidas.

O PROSAD, no Município do Rio de Janeiro, teve suas bases programáticas publicadas em 1986 pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) - portanto antes da criação do Programa em nível nacional - através de uma portaria que vinculou ao Programa de Saúde Escolar os atendimentos aos adolescentes com idade até 18 anos. Decorridos 14 anos de sua implantação, faz-se necessária uma análise da adequação deste programa.

O objetivo deste artigo é apresentar o estudo sobre a apreciação das condições básicas das Unidades de Saúde (US) do Município do Rio de Janeiro para a prestação do atendimento integral de adolescentes de 10 a 19 anos, tendo como unidades geográficas de análise as regiões administrativas deste município.

 

Metodologia

Para o estudo das condições atuais do desenvolvimento do PROSAD do Município do Rio de Janeiro, realizou-se um inquérito epidemiológico na rede pública ambulatorial de saúde, utilizando-se um questionário estruturado para a coleta de dados.

Realizou-se, primeiramente, um pré-teste em um serviço universitário de atenção ao adolescente, procedendo-se uma reformulação dos quesitos mal compreendidos. A seguir, 30 alunos de graduação - bolsistas de pesquisa - de diversas categorias profissionais, entrevistaram os responsáveis pelo PROSAD ou os coordenadores das US, nas unidades sem PROSAD implantado.

O questionário foi organizado em conjuntos de itens, de acordo com o interesse dos aspectos a serem estudados. Parte do questionário foi baseada na publicação da OPAS "Avaliação de serviços de atendimento ambulatorial de adolescentes - Estimativa de complexidade e Condições de eficiência" (5). Os seguintes tópicos foram abordados: dados de identificação do estabelecimento; participação no PROSAD e em projetos especiais; organização do serviço; equipe multidisciplinar; atividades especiais.

Nos dados de identificação das US, foram contemplados os seguintes aspectos: localização por bairro e Região Administrativa (RA); tipo e grau de complexidade da estrutura dos serviços. Foram consideradas como participantes do PROSAD todas as US que estivessem desenvolvendo qualquer atividade relativa ao atendimento ao grupo populacional em estudo, mesmo que esta participação estivesse limitada a um projeto ou algum aspecto do atendimento. Os projetos referem-se a ações pontuais desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) nas US, com financiamentos de organizações nacionais e internacionais. São eles Horizontes, Sinal Verde, Vista essa camisinha e Educarte.

Para a análise das condições consideradas básicas à atenção integral, utilizou-se uma pontuação referente a alguns itens fundamentais (6). Estes itens são: 1) participação em projetos; 2) profissionais capacitados; 3) realização de reuniões de equipe; 4) espaço físico disponível; 5) disponibilidade de insumos básicos; 6) acolhida do adolescente na porta de entrada; 7) avaliação de emergências; 8) disponibilidade de normas por escrito; 9) retorno garantido; 10) promoção de saúde; 11) atenção à saúde reprodutiva; 12) atenção ao usuário de drogas; 13) atenção à vítima de violência; 14) atenção aos meninos e meninas de rua.

Algumas variáveis foram selecionadas para descrever a abrangência do atendimento prestado, criando-se uma pontuação que variou de zero a três (Quadro I). A soma dos escores atribuídos a cada condição básica estabelece um índice que sintetiza as condições de atendimento de cada US, podendo atingir um máximo de 30. A escala de valores permitiu identificar as US em condições de prestar atendimento qualificado.

 

Quadro 1: Distribuição dos escores atribuídos de acordo com os critérios para cada

variável

Itens de avaliação

Variáveis

Escores atribuídos

 

 

3

2

1

0

1. Participação no PROSAD

Participa em alguma atividade

-

-

Sim

Não

2. Participação em Projetos

Horizontes

 

 

 

 

 

Sinal Verde

Todos Projetos

2 projetos

1 projeto

Nenhum

 

Vista essa camisinha

 

 

 

 

 

Educarte

 

 

 

 

3. Profissionais capacitados

Médicos

 

 

 

 

 

Enfermeiros

Todos Capacitados

Pelo menos 2

Pelo menos 1

Nenhum

 

Assistentes sociais

 

 

 

 

 

Psicólogos

 

 

 

 

4. Reuniões de equipe

Uma vez por mês

-

-

Sim

Não

5. Espaço físico disponível

Consultório

-

Ambos

Pelo menos 1

Nenhum

 

Sala para atividade de grupo

 

 

 

 

6. Insumos básicos

Balança

 

 

 

 

 

Antropômetro

Todos Insumos

Pelo menos 2

Pelo menos 1

Nenhum

 

Aparelho de pressão

 

 

 

 

 

Tabelas de peso e altura

 

 

 

 

 

Estágios de Tanner

 

 

 

 

 

Ficha clínica

 

 

 

 

7. Porta de entrada na US

Profissional de saúde

-

Ambos

 

 

Outro

 

Profissional Administrativo treinado

 

 

P. Administrativo

Treinado

 

8. Avalia a emergência/ US

Médico ou Enfermeiro

Médico ou

Assistente social

-

Outro

 

Assistente social

Enfermeiro

 

 

 

9. Normas por escrito

Equipe conhece sempre

-

-

Sim

Não

10. Retorno garantido

 

-

-

Sim

Não

11. Promoção de Saúde

Existe promoção de saúde

Todos

Atividades sem material educativo

Existem atividades

Não

 

Nas escolas

 

 

 

 

 

Material educativo - sempre

 

 

 

 

 

Equip. disponíveis - sempre

 

 

 

 

12. Saúde Reprodutiva

Existe ativ. de saúde reprodutiva

 

 

 

 

 

Contraceptivos disponíveis sempre

Todos

-

Existem atividades

Não

 

Consulta da mãe no dia da consulta do filho

 

 

 

 

 

Atenção ao pai

 

 

 

 

13. Usuários de drogas

 

Existe atenção especial ao usuário de drogas

-

Ambos

Existe atenção

especial

Não

 

Atendimento à família

 

 

 

 

14. Atenção à vítima de violência

Existe atenção especial à vítima de violência

-

-

Sim

Não

15. Meninos e meninas de rua

Prestam atendimento

-

-

Sim

Não

 

A análise estatística foi realizada através do "software" SPSS (7).

A análise espacial levou em conta as 26 regiões administrativas que constituíam o Município do Rio de Janeiro em 1991. Foram realizados mapas temáticos com indicadores relacionados à saúde do adolescente, tendo como unidade geográfica de análise a RA. Os mapas digitais utilizados foram obtidos do projeto SIG/FIOCRUZ (8).

O primeiro mapa temático estabelece a distribuição espacial da densidade demográfica da população adolescente, calculada pelo número de indivíduos na faixa etária de 10 a 19 anos, em 1991 (9), dividido pela área (em km2) de cada RA. Em uma segunda camada foi sobreposta a estratificação das US, segundo os escores que sintetizam as condições básicas para o atendimento de adolescentes de acordo com os critérios descritos no Quadro I.

O segundo mapa temático refere-se ao estudo espacial da taxa média de mortalidade por armas de fogo, no período de 1991-95, entre adolescentes do sexo masculino (10 a 19 anos), residentes no Município do Rio de Janeiro. As populações foram estimadas através dos dados do Censo Demográfico de 1991 (9) e da Contagem da População de 1996 (10). Para construir a categoria de óbitos por armas de fogo, consideraram-se todos os óbitos por causas externas provocados por armas de fogo classificados nas seguintes rubricas do Código Internacional de Doenças - CID-9 (11): "homicídio com armas de fogo" (CID 965) e "lesão por armas de fogo da qual se ignora se acidental ou intencionalmente infligida" (CID 985). No mesmo mapa, foram sobrepostos, em uma segunda camada, os limites de favelas do município.

O terceiro mapa temático descreve a distribuição das taxas de fecundidade em adolescentes de 10 a 19 anos, calculadas pelo número de nascidos vivos (NV) entre mulheres de 10 a 19 anos, no período de 1995-97 (SINASC - dados cedidos pela Secretaria Municipal de Saúde), dividido pelo total de mulheres nesta faixa etária (10).

 

Resultados

 

A rede de saúde do Município do Rio de Janeiro compreende 78 unidades. Das 70 US visitadas neste estudo, 49 US participam do PROSAD. Dentre as 49 US que desenvolvem atividades do PROSAD, 43 US são de nível primário, seis de nível secundário e quatro US foram classificadas com os dois níveis de atenção. Quanto ao envolvimento em projetos especiais, 46 US participam. Destas, 30% integram o Projeto Sinal Verde, 50% o Educarte e 93% o Vista essa camisinha.

Entre as 21 US que não participam do PROSAD, 57% são de nível primário e 33% de nível secundário, sendo que algumas US não se autoclassificaram por nível de atenção. Quanto aos principais motivos de não terem implantado o PROSAD, os responsáveis por 10 US (48%) alegaram falta de treinamento técnico da equipe, de membros da equipe interdisciplinar e de demanda interessada. A falta de tempo dos profissionais e a demora no atendimento aos adolescentes, em virtude da abrangência de assuntos a serem abordados, foram outros motivos citados.

No que diz respeito à pergunta do que seria necessário para implantar o PROSAD, mais da metade dos entrevistados referiram treinamento técnico. Os demais alegaram a necessidade de parcerias com organizações governamentais e não governamentais (ONG), ter adolescentes interessados, além de apoio da direção de suas unidades.

Em quase todas as RA existe alguma US que participa do PROSAD. São exceções as seguintes regiões administrativas: Portuária (RA-1), Rio Comprido (RA-3), Paquetá (RA-21) e Pavuna (RA-25), como mostra a Figura 1.

Na Tabela 1, pode-se apreciar a distribuição das US participantes do PROSAD segundo equipe interdisciplinar, categoria profissional, capacitação e disponibilidade para o atendimento no PROSAD. Cabe ressaltar que as categorias profissionais que estão mais disponíveis e que foram capacitadas em maior número são as de médicos e de enfermeiros. Seguem-se os psicólogos e assistentes sociais, enquanto os demais profissionais participam do PROSAD em número bem reduzido. Embora seja fundamental para o bom funcionamento do programa a presença do usuário nas equipes interdisciplinares, verifica-se que somente cinco US contam com o adolescente integrando as equipes de forma rotineira, sendo que nenhum deles recebeu capacitação.

Tabela 1: Equipe multidisciplinar, capacitação profissional e

disponibilidade para o atendimento no PROSAD

Categorias

Profissionais

Número de US com PROSAD e capacitação profissional

Número de US com PROSAD

 

Sim

Não

Com Profissionais disponíveis

Sem Profissionais disponíveis

Médicos

21

5

26 (53%)

23 (47%)

Enfermeiros

21

3

24 (49%)

25 (51%)

Psicólogos

14

2

16 (33%)

33 (67%)

Assistentes Sociais

16

3

19 (39%)

30 (61%)

Odontólogos

6

4

10 (20%)

39 (80%)

Terapeuta ocupacional

3

1

4 (8%)

45 (92%)

Psicopedagogos

3

1

4 (8%)

45 (92%)

Aux.de Enfermagem

3

7

10 (20%)

39 (80%)

Adolescentes

0

5

5 (10%)

44 (90%)

 

 

 

Na Tabela 2 encontram-se as unidades com PROSAD distribuídas segundo os itens escolhidos para obtenção do índice que sintetiza as condições básicas. Destacam-se os seguintes resultados: 22,4% participam em todos os projetos; 28,6% têm a equipe mínima capacitada; em 28,6% os profissionais reúnem-se uma vez por mês; 63,3 % contam com espaço físico disponível; 16,3% contam com todos os insumos básicos considerados fundamentais para a prestação da atenção integral; em 40,8% a porta de entrada é avaliada por profissional de saúde ou administrativo treinado; 51% médicos ou enfermeiros avaliam os casos de emergência; 32,7% têm normas escritas - que estão disponíveis - e a equipe as conhece e utiliza; em 77,6% os adolescentes atendidos têm retorno garantido; 18,4% fazem promoção de saúde; 6,1% têm todos os critérios para prestarem atenção adequada quanto à saúde reprodutiva; 2% atendem de forma especial usuários de drogas; 22,4% têm atendimento especial a vítimas de violência e 32,7% atendem meninos e meninas de rua.

Tabela 2: Distribuição (%) das 49 Unidades de Saúde com PROSAD segundo os escores

atribuídos às condições básicas para a prestação da atenção integral ao

adolescente no Município do Rio de Janeiro, 1999.

Condições Básicas

 

Escores Atribuídos

 

3

2

1

0

Participação em Projetos

22,4

32,7

34,7

10,2

Profissionais capacitados

28,6

30,6

32,7

8,2

Reuniões de equipe

-

-

28,6

71,4

Espaço físico disponível

-

63,3

18,4

18,4

Insumos básicos

16,3

49,0

12,2

22,4

Porta de entrada na US

-

40,8

30,6

28,6

Avalia emergência na US

51,0

8,2

-

40,8

Normas por escrito

-

-

32,7

67,3

Retorno garantido

-

-

77,6

22,4

Promoção de Saúde

18,4

67,3

8,2

6,1

Saúde Reprodutiva

6,1

57,1

4,1

32,7

Usuários de drogas

-

-

2,0

98,0

Atenção à vítima de violência

-

-

22,4

77,6

Meninos e meninas de rua

-

-

32,7

67,3

 

 

Chama a atenção que somente uma US tenha alcançado a pontuação de 22, para um índice máximo de 30 pontos. Em geral, pode-se verificar a seguinte distribuição: 12% boas, com índices entre 20 e 22; 45% regulares, com índices entre 15 e 19; 43% precárias, com índices menores que 15. As demais 21 US, sem o PROSAD implantado, foram consideradas de índice zero (Figura 1).

Ainda neste mapa, pode-se apreciar a relação entre a distribuição populacional de adolescentes por região administrativa e as US categorizadas de acordo com os índices que sintetizam adequação nas condições de prestação de atenção integral. Observa-se que nas áreas de grande concentração populacional, localizadas nas RA Penha, Méier e Rio Comprido, está o maior número de US que não desenvolvem atividades do PROSAD. Destaca-se também a RA Campo Grande, que apresenta baixa densidade populacional, dispondo, no entanto, de elevado número de US com diferentes níveis de condições de atendimento do PROSAD.

No segundo mapa (Figura 2), verifica-se que as taxas de mortalidade por armas de fogo em adolescentes do sexo masculino têm uma distribuição peculiar, delimitando três áreas distintas no município: 1) Zona Portuária e redondezas - Centro, Rio Comprido, São Cristóvão, Inhaúma, Ramos e Penha - índices de mortalidade por armas de fogo mais elevados, no patamar a partir de 70 óbitos por 100.000 habitantes -, onde concentram-se também os aglomerados habitacionais das favelas; 2) limites da região metropolitana (denominada Zona Oeste) - índices intermediários, com taxas de 40 a 69 óbitos por 100.000 habitantes - onde existe grande concentração de pobreza e as áreas de favelas estão mais esparsas; 3) zona litorânea - taxas mais baixas, de zero a 39 óbitos por 100.000 habitantes, área de melhor nível sócioeconômico.

No terceiro mapa (Figura 3), verifica-se que algumas RA caracterizadas pela presença de áreas faveladas, referidas no mapa anterior - Portuária, São Cristóvão, Ramos -, apresentam também elevadas taxas de fecundidade em adolescentes. Contudo, as RA de Santa Cruz, Campo Grande e Anchieta, habitadas por uma população de baixa renda, também registram taxas de fecundidade com patamares elevados. As RA com menores taxas de fecundidade são as próximas à orla marítima.

 

Discussão

A rede pública de saúde que participa do PROSAD é diversificada. Conta com serviços de alta complexidade (por exemplo hospitais), bem como serviços com poucos recursos para prestar atendimento à população (por exemplo Unidades de Atendimento Clínico Primário de Saúde - UACPS). Este fato deve ter contribuído, em parte, para o fato de existir, na mesma rede de serviços, grande variedade de condições de atendimento nas US, classificadas de boas a precárias. Todavia, causou estranheza a presença de um número significativo de US em que os profissionais não tinham como proposta a participação no PROSAD. Esta constatação merece uma reflexão. Por que muitos profissionais dos serviços de saúde não estão comprometidos com o desenvolvimento de um programa que está calcado na abrangência de ações e que apresenta várias interfaces de trabalho interdisciplinar?

Muitos profissionais de saúde não sentem motivação para se dedicar à população adolescente, baseando-se, às vezes, nos dados epidemiológicos que apontam baixas taxas de morbidade. Não se dão conta de que as taxas de mortalidade decorrentes de causas externas são as mais elevadas de todos os grupos etários (12). Observa-se em nível mundial que estas taxas não somente estão elevadas, como também apresentam uma tendência de incremento (13, 14). As taxas de mortalidade - registradas - por causas externas na faixa etária de 10 a 19 anos, no Município do Rio de Janeiro, em 1996, foram 74 % do total de óbitos (SIM/MS). Contudo, vale lembrar que grande parte destes óbitos precoces poderia ser evitada através de medidas preventivas (15).

Dentro dos critérios para o estabelecimento das condições básicas para a prestação da atenção integral, alguns itens foram incluídos a fim de identificar como estavam constituídas as equipes, percentual de participação e capacitação dos profissionais envolvidos com o PROSAD. Neste contexto, além do baixo percentual de profissionais capacitados, evidenciou-se a pouca participação dos adolescentes nas equipes de saúde. Cannon (16) enfatiza que os programas poderiam beneficiar-se da presença dos jovens, para o melhor conhecimento de suas necessidades, implementação e avaliação das atividades.

Como rotina para integração das equipes multidisciplinares, frente ao trabalho com os adolescentes, a pesquisa procurou saber se os profissionais se reuniam periodicamente. Maddaleno e colaboradores (17) apontam que a atenção à saúde do adolescente, pela sua própria natureza biopsicossocial, requer o trabalho de profissionais de diferentes disciplinas. A integração da equipe interdisciplinar permite a ampliação das possibilidades da prestação da atenção integral, melhorando a resolução dos problemas. Como nem sempre é possível contar com equipes complexas, os autores sugerem a formação de redes intersetoriais com outras instituições comunitárias.

A presença de taxas elevadas de mortalidade de adolescentes do sexo masculino por armas de fogo e a localização das favelas nas redondezas da Zona Portuária do Município do Rio de Janeiro evidenciam a possibilidade de haver uma inter-relação entre violência e concentração residencial de pobreza. Todavia, nestas áreas, onde os adolescentes mais sofrem com as repercussões da violência urbana, localizam-se as unidades com menor número de profissionais capacitados para atendê-los.

A literatura científica há muito correlaciona as elevadas taxas de mortalidade por causas externas neste grupo etário e a falta de atenção adequada. Blum(18) e Flisher(19) enfatizam a grande vulnerabilidade dos adolescentes do sexo masculino e propõem a melhora de sua atenção de saúde e das condições ambientais.

Frente às causas evitáveis de morte neste grupo etário e a dificuldade de atenção a essa problemática, Lyra (20), em estudo na Região Sudeste do Brasil, indicou a importância dos programas de saúde para adolescentes, suas famílias e comunidades. Na Espanha, Taracena (21) demonstrou a distribuição geográfica da densidade populacional, bem como a relação entre a mortalidade de adolescentes e os problemas de conduta. Ele questionou de quem seria a responsabilidade pelo cuidado deste grupo, designando os adolescentes como os "desconhecidos abandonados".

A estratégia do estudo da distribuição populacional e problemas epidemiológicos por área geográfica tem sido utilizada para a orientação de políticas públicas (22). Neste contexto, vale lembrar a falta de profissionais de saúde para trabalhar com adolescentes em comunidades - muitas delas convivendo com a violência oriunda do comércio ilícito de drogas e armas - diante da constatação de que grande número de unidades da rede não presta atendimento a esta clientela, principalmente nas áreas de maior concentração populacional.

No âmbito dos principais problemas da população adolescente, a RA Zona Portuária e adjacências, além da grande densidade populacional e das elevadas taxas de mortalidade por armas de fogo, apresenta as maiores taxas de fecundidade.

Estudo realizado na Escócia indica um aumento das taxas de fecundidade em adolescentes nas áreas de piores condições sócioeconômicas deste país (23). Da mesma forma, Stern (24) ressalta que no México os setores mais pobres apresentam uma tendência de crescimento das taxas de fecundidade na adolescência, independente da idade da primeira gravidez. Enfatiza que somente poderão ter sucesso os programas que visem à diminuição da gravidez na adolescência quando houver melhores condições locais na estrutura social, econômica e cultural. Estas ponderações mostram que, para atuar neste problema de saúde pública, os serviços de saúde terão que ir além do atendimento clínico, buscando parcerias com os outros setores, para ter melhor efetividade.

Nos Estados Unidos, Gould (25) aventa a possibilidade, a partir do reconhecimento dos locais de maior necessidade, da criação de fóruns de debates para discussão e planejamento com líderes comunitários e representantes de instituições no nível local. Propõe inclusive a criação de um consenso com relação ao desenvolvimento de programas de prevenção desenhados para ser operados no contexto comunitário. Considerando que o nível local é a instância de maior descentralização do sistema político administrativo, Moreno (26) sugere que os responsáveis por instituições desse nível deveriam organizar-se, porque possibilitaria maior articulação intersetorial e interfaces entre serviços e usuários.

As condições limitadas de atenção aos adolescentes na rede reforçam a importância do desenvolvimento, ou melhoria, das atividades para prevenir os agravos de saúde. Somente o sujeito poderá modificar seu estilo de vida. Para que ele se comprometa com a própria saúde e de seus pares, torna-se necessário convencê-lo dos determinantes de seus problemas (27). Por isso, os profissionais de saúde deveriam atuar de maneira antecipatória aos agravos, informando e intervindo preventivamente de forma eficaz (28).

Embora o PROSAD do Município do Rio de Janeiro tenha vivido uma trajetória de implantação independente, algumas situações referentes à sua implementação precisam ser ajustadas. Ressalte-se que o presente trabalho contou com a cooperação dos profissionais que integram as equipes, bem como do gerente do mesmo. Contudo, alguns aspectos não foram estudados por dificuldades diversas. Dentre elas, a falta de informatização de algumas unidades, que inviabilizou a obtenção de dados como encaminhamentos externos e internos; produtividade - por exemplo, matrículas novas de adolescentes do último mês -, demanda atendida de adolescentes em todas as US do município. Outra limitação foi a impossibilidade da realização das entrevistas em todas as unidades da rede, decorrente algumas vezes da incompatibilidade de horário entre os responsáveis e os entrevistadores.

Como proposta, vale mencionar a possibilidade da implementação de um modelo de atenção ao adolescente, dentro dos princípios do Sistema Único de Saúde (29), na RA Campo Grande, Zona Oeste, que conta com uma rede de serviços em diferentes níveis de condições para prestar atendimento. O objetivo seria demonstrar que é possível melhorar a integração e a efetividade dos serviços. Sugere-se a construção de um modelo com a participação da comunidade, inclusive os adolescentes, privilegiando as ações de promoção da saúde, atuação intersetorial e organização de um sistema de referência e contra-referência.

Conclui-se que, para diminuir a morbi-mortalidade da população adolescente no Município do Rio de Janeiro, os responsáveis pelas US da rede deveriam levar em conta os aspectos geográficos de concentração populacional e os principais agravos de saúde deste grupo etário. Deveriam também atuar de maneira preventiva e com atividades sistemáticas de promoção de saúde. Desta forma, seria possível desenvolver um programa adequado às necessidades de saúde desta população.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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