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Claro, Itamar Bento. Gestão comunitária: estudo de uma nova articulação estado/sociedade civil no parque proletário de Vigário Geral. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2002. 110 p.

Capítulo 3

 

A experiência de parceria com o poder público na área da saúde em Vigário Geral

Para melhor situar o leitor em relação ao contexto do estudo, segue-se uma sucinta descrição dos fatos que antecederam a assinatura do convênio, de modo a caracterizar o momento em que ocorreu a parceria da SMS com a comunidade de Vigário Geral.

CENÁRIO

"O carro avança com dificuldade pelo labirinto tortuoso e esburacado da favela de Parada de Lucas, no subúrbio do Rio de Janeiro. A cada cinqüenta metros, o motorista repete a mesma pergunta: "Onde fica o Ciep Mestre Cartola?" A pergunta é útil e inútil ao mesmo tempo. Ele sabe exatamente onde quer chegar. A repetição serve para avisar os "soldados" do tráfico de drogas de que aquele carro desconhecido se dirige à escola. Funciona como um salvo-conduto nesse território explosivo e miserável, onde cabras passeiam entre poças de lama, procurando qualquer coisa para comer. Estamos em terreno dominado pela quadrilha chamada de Terceiro Comando; Vigário Geral, mais adiante, pertence ao Comando Vermelho. Entre as duas favelas fica a escola." (Prado, 1999)

Até pouco tempo atrás, esse seria o relato de todas as pessoas que se dirigissem de carro ao Parque Proletário de Vigário Geral, pois a única estrada possível era por dentro da comunidade de Parada de Lucas, sob o poder jurisdicional da facção rival ao Comando Vermelho, que domina Vigário Geral. Em março de 2001, com a inauguração do Viaduto de Vigário Geral, a comunidade ganhou mais liberdade de ir e vir, e o reduzido número de moradores que possui automóvel não precisa mais se arriscar cruzando a comunidade rival para ter acesso ao mundo exterior à favela. Com o inauguração do viaduto, a comunidade tem mais facilidade de acesso aos serviços assistenciais, pois pode contar agora com transportes coletivos – kombis – cujo itinerário inclui os bairros vizinhos. Já não precisa mais subir as escadas da Passarela Verde, que passa por cima da linha férrea – único acesso para quem quer chegar ao Parque ou de lá sair sem cruzar a comunidade de Parada de Lucas –, o que limitava o trânsito sobretudo de idosos e deficientes.

Anterior à construção do viaduto de acesso à comunidade, a história do Parque Proletário de Vigário Geral foi profundamente marcada pelo episódio da chacina ocorrida em 1993, quando 21 moradores foram assassinados. Esse fato foi determinante para a construção do cenário que a comunidade apresenta no momento atual, como demostram algumas frases escritas pelos participantes do Curso de Capacitação de Gestores Comunitários:

"Depois da tragédia, descobriu-se que a comunidade carecia de investimento na área social, educativa e sanitária."

"Antes era pior, não tínhamos liberdade de nos comunicar com Parada de Lucas e os tiroteios eram mais constantes. Foi preciso que inocentes morressem para criar uma nova realidade."

"Após a morte de 21 moradores, coisas que nem sonhávamos em nossa comunidade hoje são realidade."

No momento atual, apesar de o Parque Proletário de Vigário Geral ainda ser considerada uma das comunidades mais violentas do Município do Rio de Janeiro, verifica-se a construção de uma nova realidade, bastante diversa da existente antes do lamentável episódio. Atualmente a comunidade pode contar com a presença de algumas organizações que oferecem aos moradores oportunidades em diferentes áreas:

  1. Grupo Cultural Afro-Reggae: ONG que se propõe a resgatar a cidadania dos jovens moradores das favelas, promovendo e fortalecendo a cultura negra, oferecendo alternativas à criminalidade e, principalmente, transformando a violência em música, dança, canto, arte, poesia.
  2. Fundação Municipal Lar Escola Francisco de Paula – Funlar: Programa da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social SMDS, que presta atendimento a pessoas portadoras de qualquer tipo de deficiência que residam em comunidades de baixa renda do Município do Rio de Janeiro.
  3. Projeto Vida Nova: Programa de ação social prioritário da agenda da Secretaria de Ação Social e Cidadania do Estado do Rio de Janeiro com o objetivo de promover a educação de jovens de comunidades populares da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
  4. Creche Coração de Génève: ONG destinada ao acolhimento de crianças de zero a três anos de idade em parceria com a SMDS;
  5. Mini-Posto de Saúde: Parceria da SMS com a ONG Movimento Organizado de Gestores Comunitários para o atendimento da atenção básica das comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas;
  6. Mogec – Organização Não Governamental Movimento Organizado de Gestores Comunitários: Além da administração do Posto de Saúde de Vigário Geral, a ONG Mogec ainda tem programas de alfabetização para a terceira idade, de incentivo à leitura para crianças, reforço escolar, da multimistura e de capacitação profissional para jovens de 16 a 21 anos.

Todas essas organizações contribuem para a construção de uma nova realidade na comunidade, seja proporcionando diversão, cultura, atendimento à saúde ou como fonte de geração de renda, possibilitando aos moradores maior interação e participação em assuntos de interesse coletivo; práticas cotidianas favorecedoras da formação de tradições cívicas que, segundo a teoria do capital social (Putnam, 1996), podem influenciar fortemente o desenvolvimento econômico e o bem-estar social. Sendo assim, espera-se que as relações sociais impulsionadas por essa nova realidade possam vir a fomentar a construção de "círculos virtuosos" capazes de preservar as inovações construídas e não permitam que os "círculos viciosos" perpetuem a exploração e a violência (Putnam, 1996:177).

Segundo Kliksberg (1999), é possível considerar que um dos problemas básicos enfrentados pelos moradores das comunidades periféricas é a exclusão social, que dificulta severamente o acesso aos mercados de trabalho e de consumo, tornando impossível a integração social e favorecendo a configuração de círculos perversos. O autor, no entanto, considera que a democratização da cultura pode romper esses círculos, mediante a criação de espaços acessíveis aos setores desfavorecidos, possibilitando canais de integração inéditos

Portes & Landolt ( apud Reilly, 1999), porém, afirmam que a exigência de maior capital social como solução para os problemas das áreas carentes das cidades parte de um diagnóstico errado do problema e pode conduzir ao esbanjamento de recursos e a novas frustrações.

"Não é a falta de capital social, e sim a falta de recursos econômicos concretos – a começar por trabalhos decentes – que está subjacente à situação dos grupos urbanos empobrecidos. Mesmo aceitando que o fortalecimento das redes sociais e da participação comunitária contribuiriam para superar os traumas de pobreza, ninguém saberia dizer como se poderiam alcançar esses resultados. Indubitavelmente, tanto os indivíduos como as comunidades podem beneficiar-se enormemente com a participação e a confiança social, mas os resultados variam dependendo dos recursos que se obtenham, de quem se beneficia com eles e do que se pede em troca." (Portes & Landolt apud Reilly, 1999:408)

 

No entanto, talvez seja possível que essas novas instituições possibilitem a criação de um "nicho de sociabilidade e vida pública" capaz de proporcionar mais segurança na comunidade (Vaitsman, 1997). De acordo com Vaitsman, as mudanças culturais fazem parte de processos socioeconômicos, políticos e institucionais que afetam os segmentos de formas diversas:

"a mudança, além de diferenciação, pode conformar similaridades, ainda que tangenciais, à medida que produz novos universos comuns (...) novos contextos prático-simbólicos, nos quais os atores sociais interagem, disputam e compartilham situações, trocam idéias, emoções, sentimentos, discursos, numa circulação permanente de valores, idéias, imagens". (Vaitsman, 1997:317)

Dessa forma, a participação em distintos contextos e jogos discursivos implicaria simultaneamente produção de similaridade e de diferença, possibilitando que os moradores da comunidade de Vigário Geral participem de universos comuns, os quais poderiam estimular a produção de círculos virtuosos.

 

O Mini-Posto de Saúde de Vigário Geral, objeto de análise deste estudo, foi inaugurado no início de 1995, por intermédio da ONG Médicos Sem Fronteiras, e, desde o princípio, representou um importante nicho de vida pública na comunidade. A ONG MSF é uma organização não governamental que teve sua origem na Europa, em 1971, com o objetivo de oferecer ajuda às vítimas de catástrofes naturais, guerras, epidemias e aos excluídos socialmente, desenvolvendo ações no campo da saúde e da assistência social. Trata-se de uma instituição reconhecida pelos trabalhos executados em áreas de risco e grande violência (Informativo Médicos Sem Fronteiras, 1999).

Em dezembro de 1994, a ONG MSF iniciou suas atividades no interior da comunidade de Vigário Geral, com a implantação de um ambulatório básico de atenção à saúde. Conforme à filosofia de que a realização de um trabalho no interior das comunidades de baixa renda precisa possibilitar a formação de lideranças comunitárias capazes de conduzir as instituições e os movimentos locais, a organização estabeleceu desde o início um tempo definido para sua atuação na comunidade.

"A comunidade de Vigário Geral, entretanto, possuía uma frágil história de participação comunitária e política. A ausência de experiências definidas e concretas nesse campo impedia a viabilização de um espaço plural de consulta, avaliação e planejamento do próprio trabalho, espaço embrionário de um movimento que amadurecido poderia vir a viabilizar a gestação de serviços sociais e comunitários pela própria comunidade." (MSF, 1999:09)

Diante dessa ausência de capital social capaz de viabilizar a participação imediata da comunidade na gerência da unidade de saúde, verificou-se a necessidade de capacitar lideranças locais para a gestão do ambulatório de saúde e assistência. Dessa forma, a ONG MSF propôs à Secretaria Especial do Trabalho do Município do Rio de Janeiro e à União Européia a realização do Curso de Capacitação de Gestores Comunitários – CGC, visando garantir a continuidade do trabalho implantado na comunidade.

A organização ONG MSF encerrou sua gestão no Posto de Saúde em março de 1998, após ter assegurado a continuidade do trabalho na comunidade mediante a assinatura de um convênio entre a Secretaria Municipal de Saúde do Rio Janeiro e a ONG Mogec, organizada pelos moradores da comunidade de Vigário Geral que participaram do CGC, com o objetivo específico de assumir a gestão do miniposto de saúde após a assinatura do convênio com a prefeitura.

HISTÓRICO

A realização dos primeiros convênios com uma ONG para gestão de uma unidade básica de saúde na AP 3.1 ocorreu em 1996, quando o então subsecretário municipal de saúde, Dr. Ronaldo Gazolla, em conjunto com a Assessoria Jurídica da SMS, viabilizou uma nova forma de contratação de recursos humanos, mediante a realização de um convênio com a Associação de Moradores da Comunidade Nova Holanda e com a ONG Movimento Maré Limpa (Borga, 1999).

Essa parceria entre a SMS-RJ e a comunidade no Complexo da Maré foi motivada, segundo o relato da então coordenadora da AP 3.1, pelos seguintes fatores: 1) altos índices de violência registrados na área em conseqüência do forte domínio do tráfico de drogas ilícitas; 2) tentativa de não aumentar a folha de funcionalismo com concurso público; 3) interesse do então secretário de saúde em experimentar a co-responsabilidade do gerenciamento com a sociedade civil; e 4) o propósito de iniciar um projeto com a participação do agente comunitário de saúde – ACS, que na época não figurava no quadro de carreira do município nem era reconhecido pelo Ministério da Educação enquanto categoria profissional.

Em 1996, no momento em que foram assinados os dois primeiros convênios, o Complexo da Maré não tinha a organização comunitária que apresenta atualmente, quando conta com uma grande gama de organizações não governamentais que realizam serviços na área de saúde, educação e esportes. Esses convênios foram firmados com as duas entidades que naquele momento estavam mais bem estruturadas: a Associação de Moradores de Nova Holanda e a ONG Maré Limpa, esta última criada em função do projeto de despoluição da Baía de Guanabara desenvolvido pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

A experiência de parceria entre a SMS e a comunidade realizada no Complexo da Maré para gestão de um serviço de saúde abriu caminho para a implantação de novas experiências de gestão comunitária. Dessa forma, possibilitou que, em 1998, a ONG Médicos Sem Fronteiras repassasse para o Município do Rio de Janeiro, por meio de um convênio com a prefeitura, o prédio em que funcionava a unidade de saúde implantada pela organização no Parque Proletário de Vigário Geral.

Esse posto de saúde repassado pela ONG MSF à Secretaria de Saúde do Município do Rio de Janeiro foi construído no mês de janeiro de 1995, quando a organização iniciou sua primeira experiência em áreas empobrecidas e violentas no município, com projeto que visava implantar um serviço de atenção à saúde para a população infanto-juvenil, financiado pelo Programa da União Européia para a Infância Desfavorecida em Meio Urbano.

A filosofia da ONG MSF é desenvolver programas com princípio, meio e fim. Segundo seus boletins informativos, todo o trabalho desenvolvido em Vigário Geral foi baseado na tríade: atender, consolidar e repassar o posto de saúde de uma forma responsável (MSF, 1999). Seus coordenadores avaliam ser muito nociva a atuação de algumas ONGs que se perpetuam nas comunidades. "Quando iniciamos um trabalho, programamos nossa saída para a entrada do poder público", aponta Elaine Monteiro, coordenadora social da ONG no Rio. E foi com o objetivo de repassar a unidade de saúde ao município que elaboraram em 1997 o Curso de Capacitação de Gestores Comunitários – CGC, originalmente previsto para aqueles moradores de Vigário Geral que assumiriam a gestão da unidade a partir de sua municipalização, seguindo o que estava indicado no Plano Trienal da ONG MSF (1995/1997), que previa a participação da comunidade na futura gestão do posto.

O CGC teve como objetivos: "1. definir uma metodologia de trabalho que formasse gestores sociais/comunitários em uma discussão plural e participativa com equipamentos comunitários regionais (governamentais e não governamentais); 2. estimular a formação de novas experiências sociais nas comunidades de origem dos alunos; 3. fortalecer os movimentos comunitários locais a partir de uma sólida capacitação política e administrativa e 4. sistematizar o debate acerca da Participação/Organização Popular e do Desenvolvimento Comunitário" (Médicos Sem Fronteiras, op. cit.).

Esse curso acabou por beneficiar não apenas os moradores de Vigário Geral, mas também as comunidade de Parada de Lucas, do Morro de Santa Marta, da Vila do João e de Costa Barros. Durante oito meses os alunos, selecionados entre os inscritos para o curso nas respectivas comunidades, participaram de algumas experiências comunitárias e foram monitorados por assistentes sociais na criação e execução dos projetos que visavam à identificação das necessidades locais e à implementação de atividades nas comunidades.

Com o propósito de envolver os moradores na realização de atividades de cunho social, com o intuito de capacitá-los para o gerenciamento de trabalhos sociais a serem desenvolvidos em suas respectivas comunidades, esse curso teve ainda, com relação a Vigário Geral, o objetivo específico de capacitar os moradores para a gestão do posto de saúde local.

Encerrado o CGC, foi organizada pelos moradores de Vigário Geral, sob a orientação da ONG MSF, uma organização não governamental de nome Mogec – Movimento Organizado de Gestores Comunitários, com o objetivo de assumir a gestão da unidade de saúde na comunidade. Dos oito moradores de Vigário Geral que realizaram o curso, dois foram contratados para a gestão da ONG, ocupando os cargos de coordenador de projeto e de coordenador administrativo. No posto de saúde, foram admitidas outras duas pessoas para trabalhar como gestores comunitários, e os demais alunos foram contratados para a função de agentes comunitários de saúde. A ONG MSF continuou com a coordenação do posto de saúde pelo período de três meses, até que estivesse pronta a documentação necessária para a assinatura do convênio de parceria com a SMS-RJ, passando a responsabilidade da gestão do posto de saúde para a ONG Mogec.

A realização do CGC e a conseqüente organização da ONG Mogec foram duas grandes contribuições da ONG MSF em Vigário Geral, pois capacitou e instrumentalizou os moradores locais para a gestão da unidade de saúde, o que constituiu um diferencial com relação aos demais convênios realizados na AP 3.1, que foram assinados com as associações de moradores sem que houvesse prévia capacitação dos gestores.

Sendo assim, o CGC constituiu uma inovação de grande relevância para a realização do convênio que possibilitou o desenvolvimento de atividades de cuidados primários em saúde no miniposto localizado no Parque Proletário de Vigário Geral em abril de 1998. Por outro lado, a coordenadora da área ressalta que a experiência adquirida com os projetos de gestão comunitária realizados na Maré, área em que se verificou elevada instabilidade com relação à permanência dos dirigentes das associações de moradores em decorrência da forte influência do narcotráfico, também contribuiu para a escolha de uma ONG na gestão da unidade de saúde em Vigário Geral.

A ocorrência de problemas nos convênios firmados com as associações de moradores, ocasionados em grande parte pelas freqüentes mudanças de seus presidentes, os quais eram os responsáveis pela gestão das unidades de saúde, levou a coordenação da AP 3.1 – CAP 3.1, a concluir que a parceria com ONGs que tivessem alguma experiência na realização de trabalhos referentes à promoção e educação em saúde poderia ter mais eficiência e estabilidade.

MINI-POSTO DE SAÚDE DO PARQUE PROLETÁRIO DE VIGÁRIO GERAL:

UMA PARCERIA ENTRE A SMS E A ONG MOGEC

O miniposto de saúde em Vigário Geral foi organizado com os objetivos de "estruturar uma porta de entrada para os programas implantados nas unidades básicas de saúde da área, prestar assistência integral a usuários cujos problemas de saúde não tenham estruturação como programas, desenvolver ações programáticas nível I e garantir assistência familiar para domicílios de riscos", contando fundamentalmente com o trabalho de agentes comunitários de saúde (SMS/CAP 3.1, 1998:2).

O desenvolvimento de ações programáticas do Tipo I compreende: acompanhar o crescimento e desenvolvimento de crianças menores de três anos (puericultura), diagnosticar e tratar doenças sexualmente transmissíveis, realizar preventivo e exame de mama em maiores de 40 anos, organizar banco de preservativos para sadios com ações educativas periódicas, incentivar o aleitamento materno, a prevenção de desidratação e a vigilância nutricional, realizar pré-natal de baixo risco, dar assistência integral ao hipertenso leve e ao portador de diabetes mellitus tipos I e II sem uso de hipoglicemiante, promover ações educativas para familiares dos portadores de hipertensão e diabetes, criar grupo de planejamento familiar, prestar assistência domiciliar a portadores de hipertensão arterial severa e moderada com mais de 50 anos, bem como a recém-nascidos de risco (SMS/CAP 3.1, op. cit.).

No convênio (em anexo) que estabeleceu as bases de cooperação entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a ONG Mogec para o desenvolvimento de atividades de cuidados primários de saúde no miniposto localizado no Parque Proletário de Vigário Geral, ficou deliberado que as obrigações da ONG seriam:

  1. manter os dois imóveis de propriedade do município, em que funciona o miniposto de saúde;
  2. manter em exercício o quadro de pessoal de nível superior e auxiliar necessário ao desenvolvimento das atividades de cuidados primários;
  3. elaborar e remeter mensalmente à Coordenação da Área de Planejamento da Saúde 3.1 relatórios técnico e administrativo sobre as atividades desempenhadas, para que seja efetuado o repasse;
  4. contribuir com o município na definição e recomendação relativas às normas sobre assuntos correlatos e conexos às atividades desenvolvidas;
  5. designar coordenador para responsabilizar-se pelas atividades técnico-administrativas junto à Coordenação da Área de Planejamento da Saúde 3.1;
  6. acatar as determinações técnicas e administrativas da supervisão da SMS;
  7. garantir o acesso ao atendimento de ambas as comunidades (Vigário Geral e Parada de Lucas), viabilizando as estratégias necessárias.

Como obrigações do município, o convênio institui:

  1. destinar e manter, na medida de suas disponibilidades orçamentária e financeira, equipamento e material permanente de consumo, incluindo medicamentos para o bom funcionamento do miniposto;
  2. apoiar, por intermédio das unidades municipais de saúde da Área Planejamento da Saúde 3.1 as atividades dos referidos ambulatórios;
  3. utilizar as unidades municipais de saúde da Área de Planejamento da Saúde 3.1 nos casos que demandem atenção médica especializada, análises clínicas laboratoriais e radiologia;
  4. desenvolver programas de treinamento em cuidados primários de saúde destinados ao pessoal auxiliar e de nível superior da área de saúde;
  5. supervisionar e fiscalizar a execução das atividades previstas no convênio e apreciar as prestações de contas, por intermédio da Coordenação da Área Planejamento da Saúde 3.1;
  6. repassar os recursos financeiros necessários à execução das atividades estabelecidas no convênio.

Observa-se a existência de uma cláusula no convênio estabelecendo que as responsabilidades e os encargos para com o trabalhador são atribuições que cabem às instituições conveniadas. No entanto, a Coordenação da AP 3.1 tem realizado algumas interferências nas questões trabalhistas, com a preocupação de não permitir que ocorram em Vigário Geral os mesmos problemas verificados nas unidades de saúde do Complexo da Maré, cujos gestores comunitários – presidentes das associações de moradores da Maré – demitem e contratam funcionários sem consultar a Coordenação da AP 3.1, estabelecendo uma política clientelista, pondo em risco a qualificação dos profissionais contratados e, por conseqüência, a qualidade dos serviços prestados à população.

O instrumento jurídico dá autoridade ao gestor comunitário, seja ele o dirigente da associação de moradores ou da ONG, para selecionar, contratar ou demitir tanto os profissionais de nível superior quanto auxiliares, não cabendo nenhuma interferência da Coordenação da AP 3.1 em relação a esse processo. A Coordenação, no entanto, argumenta a necessidade de que ela se responsabilize pelo processo seletivo e avalie a contratação dos profissionais de saúde para que possa assegurar a qualidade da assistência junto à população local e assumir as atribuições que lhe cabem como órgão responsável pelo estabelecimento e fiscalização dos parâmetros técnicos.

Na viabilização do projeto a CAP 3.1 procurou estabelecer um trabalho fundamentado em uma proposta de ação programática e nos pressupostos do Pacs, preconizado pelo Ministério da Saúde com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população atendida, trabalhando em parceria com os diversos segmentos sociais. Isso configurou uma orientação diversa da adotada pela ONG MSF que, apesar de contar com agentes comunitários de saúde na realização de visitas domiciliares, enfatizava o atendimento ambulatorial.

A implantação do trabalho organizado com base nas metas e objetivos dos programas de saúde preconizados pela SMS e ainda com gerência administrativa formada por pessoas oriundas da própria comunidade ocasionou grandes mudanças na unidade de saúde em Vigário Geral e originou variados conflitos. Os profissionais de nível superior viam com muita resistência o fato de a gestão da unidade de saúde estar a cargo de pessoas que não possuíam formação técnica; por outro lado, nos gestores comunitários prevalecia a idéia de que os profissionais não conheciam a realidade local.

Nesse conflito, os gestores comunitários tendem a desacreditar de qualquer inovação proposta pelos profissionais, alegando que tais objetivos não dariam certo por estar distantes da realidade local. O sentimento de que o outro não se importa ou não conhece porque não mora na comunidade está sempre presente na fala dos gestores entrevistados, para os quais o saber formalmente instituído dos profissionais da área de saúde representa um conhecimento distante da realidade por eles quotidianamente vivenciada.

As cobranças que passaram e ser realizadas pelos gestores comunitários na unidade de saúde, como, por exemplo, o controle do horário de entrada e saída, causaram muitos conflitos com os profissionais, que não estavam acostumados a essas exigências durante a gestão da ONG MSF. Tais cobranças eram tidas como uma interferência indevida na autonomia profissional, e o fato de serem feitas por pessoas de nível técnico e mesmo moradores locais acirrava o conflito. Os gestores, por sua vez, justificavam sua atitude alegando que a eles cabia responder perante a coordenação da AP 3.1 sobre as questões relacionadas ao cumprimento da carga horária exigida.

Por outra parte, a inserção de sanitaristas com competência no planejamento, na coordenação técnica, na organização e na avaliação dos programas e da unidade de saúde constituiu um diferencial entre o posto de saúde localizado em Vigário Geral e as unidades das demais comunidades da área, que não possuíam, na época, esse profissional em seu quadro de funcionários. A contratação de sanitaristas vinculados diretamente à Coordenação de Saúde, admitidos de forma estratégica para viabilizar a implantação dos programas segundo o modelo proposto pela SMS, possibilitou mais controle sobre as ações dos gestores comunitários responsáveis pela administração da unidade.

Essa contratação foi uma iniciativa da CAP 3.1 por considerar que o desenvolvimento de um projeto de comunidade iria abraçar outros programas de saúde e, portanto, deveria contar com um profissional habilitado para assumir a coordenação técnica, capacitado para trabalhar com os indicadores de saúde preconizados pela SMS, além de instruir os demais profissionais no cumprimento das metas estabelecidas.

A presença de um sanitarista como coordenador técnico contribuiu para diluir os conflitos entre os profissionais de saúde e os gestores comunitários, o que é significativo para o fato de reclamações com relação à gerência administrativa de Vigário Geral não serem freqüentes na CAP 3.1, levando a então coordenadora da área a concluir que a ONG Mogec não interfere tecnicamente no trabalho realizado. No entanto, como será observado adiante, os profissionais de saúde fazem afirmações contrárias.

 
 
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