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Souza, Claudia Teresa Vieira de . Características sóciodemográficas, comportamentais e vulnerabilidade à infecção pelo vírus da imunodeficiência humana em homens que fazem sexo com homens do "projeto Rio". [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 50 p.

ANEXO 2

 

PROGRAMA DE PREVENÇÃO DE DST/AIDS

NÚCLEO DE EPIDEMIOLOGIA

HOSPITAL EVANDRO CHAGAS

INSTITUTO OSWALDO CRUZ

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ

 

 

RESPOSTA PÚBLICA À CONVOCAÇÃO DE

VOLUNTÁRIOS ATRAVÉS DA MÍDIA (ANÚNCIOS

CLASSIFICADOS) PARA O "ESTUDO DE INCIDÊNCIA DO

HIV NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO"

 

Avaliação global da resposta da população do Estado do Rio de Janeiro (municípios do Rio de Janeiro e Niterói e cidades da Baixada Fluminense) à campanha da FIOCRUZ de mobilização (por meio da Mídia impressa) de voluntários para o estudo de incidência do HIV (Coorte de indivíduos soronegativos). O recrutamento foi realizado através de anúncios classificados publicados em três veículos jornalísticos de grande circulação na região ("O Globo", "O Dia" e "Jornal do Brasil"), nos dias 7 e 8, 15 e 16 (sábados e domingos) de janeiro de 1995.

O atendimento aos leitores no período relacionado foi feito pela equipe do Programa (Dione Peluso, Luís Roberto, Helena Martins, José Carlos Monteiro, Paulo Starling Brandão, Claudia Teresa Vieira de Souza)

Consultas ao Programa no período de 9 a 31 de janeiro: 170 pessoas. O cadastramento posterior não foi computado para fins estatísticos.

Telefone usado: o do Programa (260-9749)

 

Introdução

Como parte do processo de mobilização de voluntários para o "Estudo de Incidência de Infecção pelo HIV", no Estado do Rio de Janeiro, os responsáveis pelo Programa de Prevenção de DST/AIDS da Fundação Oswaldo Cruz decidiram publicar em veículos jornalísticos de grande circulação anúncios classificados destinados à população em geral e a homossexuais e bissexuais em particular. Esta estratégia, adotada há décadas por instituições de pesquisa e multinacionais da indústria farmacêutica dos Estados Unidos e da Europa, só raramente é posta em prática no Brasil, por razões científicas, éticas e sobretudo culturais. Assim, ao tomar esta iniciativa no Rio de Janeiro, o Programa de Prevenção de DST/AIDS colocou-se numa posição pioneira, a nível de Estado. É oportuno frisar que a convocação de voluntários por meio de anúncio nos foi indiretamente sugerida pelos pesquisadores do Programa de Prevenção de São Paulo, que desenvolveram recentemente esta experiência, com resultados diferentes.

A medida se inseria no contexto de uma campanha ampla de mobilização de voluntários, que incluía divulgação do Programa através de ações pró-ativas junto a organizações não-governamentais e à mídia convencional (entrevistas e matérias informativas em televisão, rádio, jornal e revista) e difusão em possíveis centros de recrutamento (hospitais, postos de saúde, etc.). Tais ações asseguraram ótimo espaço aos projetos de pesquisa de vacina e sócio-comportamental (Coorte), mas funcionavam antes de tudo como apresentação das nossas propostas, da natureza do teste vacinal e da investigação da disseminação do HIV entre homossexuais e bissexuais. Para o recrutamento propriamente dito, precisava-se de uma intervenção mais direta com vistas a se obter resposta igualmente direta do público-alvo. Daí a adoção da estratégia de mobilização por meio de anúncio.

O texto do anúncio foi discutido pela equipe (formada pelo coordenador, o coordenador de relações externas, a psiquiatra, as médicas, os psicólogos, os enfermeiros e o grupo de apoio técnico-administrativo), que levou em consideração os fatores e os objetivos das pesquisas em desenvolvimento no Núcleo de Epidemiologia do Hospital Evandro Chagas, unidade do Instituto Oswaldo Cruz, da FIOCRUZ. Uma vez discutidos os termos do texto a ser veiculado, ele foi aprovado para difusão nos matutinos "O Globo", "Jornal do Brasil" e "O Dia" nos dias 7 e 8, 15 e 16 de janeiro de 1995, sábados e domingos respectivamente. A resposta ao anúncio foi considerada surpreendente, altamente positiva, tanto em termos quantitativos como em termos qualitativos. E, na avaliação da equipe, este processo estimulou uma fecunda reflexão sobre a mobilização de voluntários para os grupos a serem estudados dentro das coortes.

Características do anúncio

O anúncio, em duas medidas, foi publicado nas seções de "Medicina e Fisioterapia" das páginas de classificados. A escolha dessas seções, que inserem comunicados médicos e dão informações sobre clínicas e terapias, foi estratégica: elas aparecem ao lado dos classificados de serviços sexuais (termas, massagens, encontros, etc), consultados por parcela expressiva do público-alvo do Programa (homossexuais e bissexuais). Ao contrário do que foi feito pelo Projeto Bela Vista, da Secretaria de Saúde de São Paulo, optamos por não divulgá-lo na seção de "Termas e Massagens", para evitar que o leitor associasse o anúncio a mais um serviço sexual. (O que, ainda assim, ocorreu, conforme se verificou quando do atendimento às consultas dos interessados em informações sobre o anúncio).

O texto aprovado para a publicação-experimental constava de um título - "Sexo seguro" e informações genéricas sobre os objetivos de um estudo destinado a garantir uma prática sexual sem maiores riscos. Na íntegra, ele informava o seguinte: "Prática sexual sem risco é o objeto de nosso estudo. Estamos pesquisando o assunto com a participação de voluntários masculinos ativos ou passivos. Os colaboradores receberão assistência de saúde de alto nível, preservativos e orientação sobre sexo seguro. Todos os exames e as todas as consultas são gratuitos e rápidos. A instituição pesquisadora garante sigilo total aos voluntários. Nosso trabalho é oficial e funciona como programa preventivo de saúde. Esclareça suas dúvidas pelo telefone 260-9749 (das 9h às 16h)".

Repercussão

Desde as nove horas da manhã da segunda-feira, dia 9, multiplicaram-se ininterruptamente as consultas telefônicas. Embora no anúncio se informasse que o atendimento seria até 16 horas, inúmeras pessoas solicitaram explicações até 19h45m. Os membros da equipe que respondiam aos interessados usaram um questionário - "Perfil de Clientes que Solicitam Informações" - para registrar dados dos leitores. Na quase totalidade, as chamadas eram de homens (homossexuais e bissexuais, sendo alguns, segundo eles, heterossexuais). Mas houve casos de mulheres, de clínicas que tratam de distúrbios sexuais, de entidades religiosas e, certamente, de grupos que conduzem pesquisas semelhantes.

De modo geral, todos queriam maiores explicações sobre os termos e o conteúdo do anúncio, muitos pediam informação sobre locais de testes anti-HIV, alguns relatavam situações experimentadas com parceiros, outros indagavam sobre formas de prevenção. No atendimento, que durava em média cinco minutos, a equipe recomendava quase sempre que os interessados comparecessem ao Hospital Evandro Chagas para conhecer de perto o Programa e discutir sua adesão à Coorte. A receptividade foi, à primeira vista, estimulante, na medida em que um número expressivo (pelo menos 60%) se mostrou disposto a vir ao HEC.

Merece ser ressaltado que a expressiva maioria dos interessados tinha lido o anúncio no "Globo" (mais de 90) , seguido de "O Dia" (50) e, mais abaixo, o "Jornal do Brasil" (cerca de 30). Esta estatística confirma dados já observados e comprovados por outros segmentos de anunciantes (setores imobiliário, automobilístico, empregos etc): O Globo" é o jornal com o mais alto índice de leitura no Estado, vindo depois "O Dia". Esta avaliação deverá orientar futuras publicações de anúncios do Programa.

No segundo dia de atendimento, terça-feira, como se previa, houve uma redução do número de consultas. Mas, ainda assim, o total contabilizado (cerca de 20 chamadas) revelou-se surpreendente. Dessa vez, a maioria dos leitores tinha tomado conhecimento do anúncio em primeiro lugar através do jornal "O Dia", seguido do "JB", vindo em terceiro o "Globo". Houve casos também de gente que obteve a informação via noticiário de TV (é possível que alguns pauteiros de telejornais tenham-no lido).

Do terceiro dia em diante, graças a matérias publicadas na televisão e nos jornais, dando conta da iniciativa da FIOCRUZ foram mantidos os números iniciais de consultas. Na segunda semana, muitos dos interessados eram pessoas que tinham lido os primeiros anúncios e procuravam apenas confirmar as consultas anteriores. A partir daí houve uma queda sensível e já esperada no número de telefonemas que, entretanto, prosseguiram até o começo de abril.

Avaliação

Da experiência com a veiculação do anúncio em páginas de classificados de jornais do Rio, a equipe extraiu algumas lições, a serem discutidas dentro do Programa, com vistas ao aprimoramento de futuras ações desta natureza. A primeira é que funciona efetivamente a mobilização direta da população-alvo. O interesse público se manifesta imediatamente, julgando-se pelo alto índice de consultas por telefone. Mas a resposta concreta (comparecimento ao HEC dos candidatos a voluntários) se processa lentamente. Supõe-se que muitos dos interessados checam com amigos informações a respeito das pesquisas da FIOCRUZ antes de aparecer. Enquanto outros examinam com a equipe horários mais compatíveis de atendimento (já que trabalham no Centro da cidade ou moram em municípios vizinhos).

O fato de a resposta pública ter tido um caráter espetacular (levando-se em consideração que, pelos critérios estatísticos dos institutos de pesquisa, foi altíssimo o número de consultas) não significa que devamos necessariamente nos concentrar neste tipo de convocação, porque ainda estamos empenhados em recrutamento através de grupos organizados (leia-se ONGs como ATOBÁ, AGANI e outras menores) e de acordos e convênios com entidades do serviço público (centros de saúde e postos médicos) da Baixada Fluminense (Nova Iguaçu particularmente) e do próprio Rio de Janeiro. Acrescente-se a isso que esperamos multiplicar os voluntários a partir da divulgação dos próprios voluntários e de sua participação nas oficinas de sexo seguro

Convém assinalar que as ligações dos clientes foram muitas vezes prejudicadas pela queda de linhas, interrompendo-se a comunicação. Isso mostra, por outro lado, que para cada consulta, devemos ter pelo menos uma outra não concretizada, devido a problemas de linha/comunicação. Ressalte-se igualmente que todo o atendimento foi feito através de apenas uma linha telefônica (o 260-9749) pela qual é difícil operar.

Resultou da experiência inicial uma outra constatação, já devidamente corrigida : a existência de um discurso mais homogêneo, coerente, estratégico por parte da equipe do Núcleo de Epidemiologia (leia-se Programa de Prevenção de DST/AIDS) que participa da "operação anúncio". Ou seja, precisou-se definir uma estratégia comum de persuasão do leitor-cliente/voluntário, que passou a incluir, entre outros ítens: tempo de duração do atendimento, tópicos a destacar na conversa, informação preliminar sobre o perfil do candidato a voluntário que nos interessa, idade, etc.

Psicólogos, médicos, enfermeiros e demais funcionários do Programa, orientados sobre esses procedimentos, conseguiram evitar desencontros em relação aos objetivos a atingir na etapa de recrutamento via "anúncio classificado. Graças a essa providência, adotada conjuntamente pelo pesquisador e a equipe, foram abertos novos caminhos para ações mais efetivas quando da publicação de futuros anúncios. Finalmente, tornou-se evidente a necessidade de discussões mais amplas sobre algumas das expressões a serem empregadas no texto de anúncios futuros (como "ativo e passivo", "trabalho oficial") e o horário de atendimento, que não pode ser apenas até 16 h, como constou no rol de informações inseridas no texto.

 

 

Levantamento e análise dos dados:

Coordenação de Relações Externas

 
 
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