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Souza, Claudia Teresa Vieira de . Características sóciodemográficas, comportamentais e vulnerabilidade à infecção pelo vírus da imunodeficiência humana em homens que fazem sexo com homens do "projeto Rio". [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 50 p.

3 - ESTA TESE: DESCRIÇÃO DA SUA FORMA E CONTEÚDO

 

3.1 - Descrição:

Optou-se em apresentar esta tese de doutoramento sob a forma de coletânea de artigos publicados submetidos a revistas indexadas, que abordarão as características sócio-demográficas, comportamentais e vulnerabilidade à infecção pelo HIV em "Homens que fazem Sexo com Homens", utilizando dados do projeto "Estudo Piloto de Incidência do HIV entre Homens: Preparação para a Eficácia da Vacina Preventiva contra o HIV no Rio de Janeiro/Brasil" ("Projeto Rio").

Optamos em incluir na coletânea o artigo "Incidência do HIV no Rio de Janeiro - I. Estratégias de recrutamento e dados sociodemográficos de uma coorte de homossexuais e bissexuais masculinos soronegativos para o HIV no Rio de Janeiro, Brasil", apesar do autor principal ser o coordenador do projeto, pois foi esta a primeira descrição científica do "Projeto Rio".

A partir dos temas centrais evidenciados na entrevista de linha-de-base (baseline) estudamos aqui: 1) a auto-percepção de vulnerabilidade à infecção pelo HIV; 2) o desejo de participação em ensaios vacinais anti-HIV e; 3) a associação do status socioeconômico e uso de crack/cocaína com sexo anal desprotegido.

 

3.2 - Programas de Avaliação de Vacinas - Breve Histórico da Experiência Brasileira:

A rápida disseminação do HIV na população mundial, principalmente nos países em desenvolvimento, levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a criar um programa para avaliação da eficácia de vacinas contra o vírus e/ou a síndrome da imunodeficiência adquirida em diferentes áreas geográficas, levando em consideração as características epidemiológicas específicas de cada região. Esta iniciativa tinha (e tem, agora em parceria com a UNAIDS) a finalidade de reforçar o desenvolvimento de políticas globais de enfrentamento da epidemia. No delineamento de testes de eficácia de substâncias candidatas a vacinas, é de suma importância avaliar tanto a incidência da infecção pelo HIV quanto as características sociodemográficas e comportamentais em grupos ou em populações no qual o protótipo de vacina seria testado.

A OMS interessava-se antes de tudo em apoiar experiências vacinais nas regiões em desenvolvimento. Através de estudos preliminares, vários países satisfaziam os critérios epidemiológicos e operacionais propostos pela OMS. Em setembro de 1991, o Programa Global de AIDS/Comitê de Desenvolvimento de Vacinas da OMS decidiu-se por quatro países: Brasil, Tailândia, Uganda e Ruanda (mas Ruanda foi descartada pouco depois devido à emergência de uma guerra civil).

As negociações com o Brasil começaram em agosto de 1991, quando uma missão da OMS visitou nosso país para examinar a possibilidade de incluí-lo entre os países onde seriam avaliadas as vacinas anti-HIV. Nessa visita, a delegação da OMS reuniu-se com autoridades do Ministério da Saúde e representantes de organizações não-governamentais (ONGs) brasileiras, além de cientistas brasileiros que vinham tratando da problemática da AIDS.

O programa brasileiro de vacinas anti-HIV/AIDS foi criado, assim, a partir da demanda externa do Programa Global de AIDS da OMS, iniciando-se no segundo semestre de 1991. Em junho de 1992, através de portaria ministerial, foi criado o Comitê Nacional de Vacinas. Em setembro de 1992, a Coordenação de DST/ AIDS do Ministério da Saúde e 21 instituições de saúde estabeleceram critérios e questionários a serem preenchidos pelos consórcios de instituições de saúde que desenvolveriam os ensaios.

No Brasil foram selecionados três centros para experiências de vacinas anti-HIV: Rio de Janeiro - "Projeto Rio"; São Paulo - "Projeto Bela Vista" e Belo Horizonte - "Projeto Horizonte", com apoio financeiro do Programa Nacional de DST/AIDS e OMS/UNAIDS. Posteriormente, foi instituído um quarto centro ("Projeto Praça XI"), também no Rio de Janeiro, com o apoio dos National Institutes of Health.

 

3.3 - O Estudo de Incidência da infecção pelo HIV entre "Homens que fazem Sexo com Homens" no Rio de Janeiro: "Projeto Rio".

Existiam, à época, no Brasil, quatro centros de preparação para estudos fase III de vacinas anti-HIV: Rio de Janeiro/Fundação Oswaldo Cruz - "Projeto Rio" (coorte composta por 675 participantes até julho/1999), São Paulo - "Projeto Bela Vista" (coorte composta por 907 participantes até abril/1999); Belo Horizonte - "Projeto Horizonte" (coorte composta por 585 participantes até setembro/2000) (Carneiro et al., 2000) e Rio de Janeiro/Universidade Federal do Rio de Janeiro - "Projeto Praça XI" (coorte composta por 750 participantes até abril/1999) (Harrison et al., 1999). O "Projeto Rio" encerrou suas atividades em julho de 1999, enquanto o "Projeto Bela Vista" vem redirecionando seus objetivos em anos recentes (Brasil, 2000 b).

Nestes centros estão (foram) sendo conduzidos estudos preparatórios de acompanhamento de voluntários não-infectados pelo HIV, com o objetivo de estimar as taxas de incidência para a infecção pelo HIV e avaliar a viabilidade de estudos fase III de avaliação de eficácia de vacinas anti-HIV/AIDS no país.

Definiu-se que a população-alvo deste estudo seria constituída por homens que fazem sexo com outros homens. A escolha desta população se deu em função de que este é um dos setores da população brasileira mais vulnerável à infecção pelo HIV e até hoje um dos mais atingidos pela epidemia. Além disso, trata-se de uma população com reconhecida capacidade para introduzir mudanças de comportamento no sentido de diminuir a transmissão do HIV, que passou a defender seus direitos e responsabilidades diante desta epidemia global, através da conscientização e da obtenção e difusão de informações a respeito da problemática em questão.

A importância dos estudos preliminares de preparação de coortes para estimar a incidência do HIV e avaliar a aderência dos voluntários e as suas características sócio-demográficas e comportamentais, é fundamental para a obtenção de dados concretos referentes à dinâmica e abordagem da epidemia em nosso país. Ademais, estas coortes poderão ser usadas para a testagem futura de produtos vacinais, sobretudo, para estudos fase III de eficácia de vacinas anti-HIV/AIDS.

O "Projeto Rio" esteve inserido no Programa de Prevenção em DST/AIDS, desenvolvido pela Coordenadoria Epidemiologia e Avaliação do Centro de Pesquisa Hospital Evandro Chagas, da FIOCRUZ, financiada pela Coordenação Nacional de DST/AIDS, Programa Global de AIDS/UNAIDS, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e FIOCRUZ, e aprovado pela Comissão de Ética da Fundação Oswaldo Cruz.

Os critérios de elegibilidade para a entrada na coorte foram: homens que relataram ter praticado sexo com homens nos seis meses anteriores à entrevista inicial, ter de 18 a 50 anos de idade, apresentar sorologia negativa para o HIV e concordar e assinar o termo de consentimento esclarecido e informado (Anexo 1).

Os voluntários foram recrutados através de estratégias combinadas, principalmente através de recrutamento pelos próprios voluntários do estudo e organizações não-governamentais (ONGs), através da mídia e referenciados de serviços de saúde (Anexo 2).

Inicialmente eram fornecidas informações sobre os objetivos e métodos a serem utilizados. Posteriormente, era preenchida a ficha de triagem do voluntário, com um número de identificação e as solicitações de exames laboratoriais (sorologias para o HIV, sífilis, hepatite tipo B; hemograma completo) e aplicado um pequeno questionário sobre abordagens gerais, opiniões e atitudes sobre saúde. Na entrevista de retorno, era fornecido o resultado da sorologia para o HIV. Os indivíduos infectados pelo HIV eram encaminhados ao Posto de Saúde mais próximo de sua residência e os soronegativos eram convidados a participar do estudo. Aceito o convite, era sempre dada aos participantes à oportunidade de discussão do termo de consentimento esclarecido e infiormado da sua aceitação final ou não de participar do estudo.

O instrumento utilizado e analisado nos diferentes artigos que integram a presente coletânea foi o questionário denominado "Sócio-comportamental" (genericamente denominado questionário KAPB/Knowledge, Attitudes, Practices, Beliefes) elaborado pelos membros da equipe dos três centros de pesquisa (Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo) (Anexo 3).

Os questionários foram aplicados por uma equipe multidisciplinar, especificamente treinada e designada para esta atividade. O questionário constou de um total de 100 perguntas (abertas e fechadas) sobre características sociodemográficas, conhecimentos, crenças, atitudes, preferência sexual, práticas e prevenção as IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis)/AIDS. As perguntas abertas foram analisadas e deram origem a alternativas codificadas a posteriori, permitindo a análise estatística.

Em todos os três artigos optou-se por trabalhar não com a totalidade das questões, considerando aquelas mais importantes em relação a cada análise. No entanto, cada etapa de análise foi precedida por análises exploratórias de todo o banco de dados.

Quanto aos exames laboratoriais, foram coletadas amostras de sangue dos voluntários, por punção venosa, de aproximadamente 10 ml, para sorologia para o HIV, a hepatite tipo B e para sífilis. Em cada um dos tubos constava o número de identificação dos voluntários.

A sorologia para o HIV, a sorologia para sífilis e o hemograma completo foram realizados pelo Laboratório de Imunologia do Centro de Pesquisa do Hospital Evandro Chagas e a sorologia para a hepatite tipo B foi realizada pelo Departamento de Virologia da FIOCRUZ.

Para a sorologia para o HIV foram utilizados 2 kits de princípios diversos, ambos utilizando o método Enzyme-Linked Immunoassay (ELISA). Outro método utilizado como método confirmatório foi a imunofluorescência indireta (IFI), kit produzido pelo Departamento de Desenvolvimento Tecnológico em Biomanguinhos/FIOCRUZ. Em caso de resultados duvidosos/indefinidos foi utilizado o Western Blot (Cambridge, Biotech, Worcester, M.A., E.U.A).

O sorodiagnóstico para sífilis foi realizado através do método de floculação, Veneral Disease Research Laboratory (VDRL) com confirmação através do Treponema Hemaglutination Assay (TPHA), e a sorologia para hepatite tipo B, utilizando diferentes marcadores virais (anti-HBc, anti-HBs e HbsAg).

 

3.4 - Processamento e análise dos dados:

A análise estatística foi realizada a partir de um banco de dados construído no software Foxpro (2.0) e analisado (freqüências, medidas de associação e diferentes testes estatísticos) através do pacote SPSS 7.5 para Windows 95. Foi definido como nível de significância igual a 0.05 para os testes univariados de associação. Na análise univariada, a associação com a variável dependente foi avaliada através do teste qui-quadrado, com correção de Yates, e calculados os intervalos de confiança de 95% para os "odds-ratios". Para variáveis contínuas e discretas, utilizou-se o teste T de Student. O teste exato de Fisher foi usado quando necessário. Na análise multivariada, foi utilizado o método "stepwise" de ajuste da regressão logística. O nível de significância para a variável de inclusão foi 5% e 10% de nível de significância para exclusão na análise multivariada da regressão logística.

 
 
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