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Silva, Carlos Eduardo Rodrigues da. O processo de trabalho da limpeza e coleta do lixo hospitalar na emergência do Hospital Municipal Paulino Werneck. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 97 p.

CAPÍTULO III

RESULTADOS E DICUSSÃO

III . 1 – RESULTADOS DAS ENTREVISTAS

III . 1 . 1 – CARACTERIZAÇÃO SÓCIO - ECONÔMICA

DA POPULAÇÃO ESTUDADA

Foram utilizados os seguintes indicadores para caracterizar a população estudada: distribuição etária, horário de trabalho, salário mensal líquido, renda familiar líquida, nível de escolaridade, número de filhos, número de pessoas que residem no mesmo domicílio, tempo de trabalho nesta empresa de conservação, tempo de trabalho no Hospital Municipal PaulinoWerneck, manutenção de outra atividade remunerada, tempo necessário para o deslocamento de casa para o trabalho e o meio de transporte utilizado.

 

DISTRIBUIÇÃO ETÁRIA:

Em relação a idade referida pelos 26 trabalhadores (Tabela 1), a faixa etária predominante é em torno de 36 a 41 anos, sendo o de menor idade 23 anos e o de maior idade 59 anos.

 

Tabela 1. Distribuição etária dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97).

IDADE (EM ANOS)

N

%

< 30

3

11,5

30 – 35

4

15,3

36 – 41

8

30.7

42 – 47

7

26,9

48 – 53

3

11,5

54 – 59

1

3,8

TOTAL

26

100

 

 

HORÁRIO DE TRABALHO:

O turno com o maior quantitativo de pessoal é o primeiro (de 7:00 às 15:00 horas; (Tabela 2), com 12 trabalhadores (46,1 %). O plantão noturno possui 4 trabalhadores (15,4 %), todos do sexo feminino, e com escala de 12 horas de trabalho, por 36 horas de descanso, sendo duas trabalhadoras em cada noite, alternadamente. Entre as 19:00 e as 23:00 h. existe uma superposição de turnos fazendo com que haja, neste intervalo, um total de 14 trabalhadores.

 

Tabela 2. Horário de trabalho dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97)

HORÁRIO DE TRABALHO

N

%

7:00 às 15:00

12

46,1

15:00 às 23:00

10

38,5

19:00 às 7:00

4

15,4

TOTAL

26

100

 

 

SALÁRIO MENSAL LÍQUIDO:

Em relação ao salário mensal liquido recebido, 25 trabalhadores recebem entre R$ 121,00 a R$ 240,00 líquidos por mês (Tabela 3); e que apenas um trabalhador (3,9 %), relata receber menos do que um salário mínimo nacional.

 

Tabela 3. Salário mensal líquido dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97).

SALÁRIO MENSAL
(salários mínimos *)

N

%

< 1

1

3,9

1 – 1,4

13

50,0

1,5 – 2

12

46,1

TOTAL

26

100

* O salário mínimo em dezembro de 1997 era de R$ 120,00

 

RENDA FAMILIAR LÍQUIDA:

Onze trabalhadores (42,3 %), responderam que não sabiam qual era a sua renda familiar. Os resultados dos 15 que responderam a pergunta estão apresentados na Tabela 4.

 

Tabela 4. Renda familiar líquida dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97)

RENDA MENSAL (em salários mínimos)

N

%

< 3

8

30,7

3 – 5

2

7.6

5 – 7

5

19,2

Ignorado

11

42,0

TOTAL

26

100

A maioria absoluta dos trabalhadores (61,5 %), declarou não possuir outra atividade remunerada além do trabalho no hospital.

 

NÍVEL DE ESCOLARIDADE:

Sobre o nível de escolaridade relatado pelos 26 trabalhadores da empresa de conservação (Tabela 5), foi observado que o maior quantitativo pertence aos 13 trabalhadores (50,0 %), que possuem até a 4ª série do 1º grau completa. Dois trabalhadores (7,69 %), afirmaram nunca ter estudado.

 

Tabela 5. Nível de escolaridade dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97)

NÍVEL DE ESCOLARIDADE

N

%

Nunca estudou

2

7,6

1ª á 4ª série

13

50,0

5ª á 8ª série (incompleta)

6

23,0

1º grau completo

2

7,6

2º grau completo

3

11,5

TOTAL

26

100

 

 

NÚMERO DE FILHOS:

Em relação ao número de filhos referido pelos trabalhadores da coleta interna do lixo hospitalar (Tabela 6), tem-se que o maior quantitativo é o representado pelos 10 trabalhadores (38,5 %), que possuem entre três e quatro filhos. Em contrapartida, temos um trabalhador (3,8 %), que relata possuir sete filhos.

 

Tabela 6. Número de filhos dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97)

NÚMERO DE FILHOS

N

%

Sem filhos

4

15,4

1 – 2

8

30,8

3 – 4

10

38,5

5 – 6

3

11,5

7 ou mais

1

3,8

TOTAL

26

100

 

 

NÚMERO DE PESSOAS QUE RESIDEM NO MESMO DOMICÍLIO:

A respeito do número de pessoas que residem no mesmo domicilio que os 26 trabalhadores da empresa de conservação (Tabela 7), tem-se que o maior quantitativo é o representado por dois grupos: um deles possui sete trabalhadores (26,9 %), que referem residir com 4 à 6 pessoas; e o outro deles, também com sete trabalhadores (26,9 %), que referem residir com apenas mais uma pessoa.

 

Tabela 7. Número de pessoas que residem no mesmo domicílio dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97)

Nº DE PESSOAS NO MESMO DOMICÍLIO

N

%

Sozinho(a)

1

3,8

1

7

26,9

2

4

15,3

3

4

15,3

4 à 6

7

26,9

> 6 pessoas

3

11,5

TOTAL

26

100

 

 

TEMPO DE TRABALHO NESTA EMPRESA DE CONSERVAÇÃO:

Ao avaliar-se o tempo de trabalho nesta mesma empresa de conservação, referido pelos 26 trabalhadores (Tabela 8), tem-se que dez trabalhadores (38,5 %), estão há mais de 10 anos prestando serviços para esta mesma empresa, o que não significa que tenham trabalhando durante todo este tempo no Hospital Municipal Paulino Werneck, ou mesmo em um só outro local. A rotatividade neste tipo de atividade em geral é elevada. O grupo de trabalhadores estudado, de certo modo, constitui uma exceção entre os trabalhadores de limpeza e conservação.

 

Tabela 8. Tempo de trabalho nesta empresa de conservação (Nov/Dez 97)

TEMPO DE TRABALHO (ANOS)

N

%

< 1

3

11,5

1,0 – 3,0

5

19,2

4,0 – 6,0

2

7,6

7,0 – 10,0

6

23,0

> 10

10

38,5

TOTAL

26

100

 

TEMPO DE TRABALHO NO HOSPITAL

MUNICIPAL PAULINO WERNECK:

Em relação ao tempo de trabalho no Hospital Municipal Paulino Werneck (Tabela 9), os dois maiores grupos são os que contém sete trabalhadores (26,9 %). Apesar de existirem no HMPW 10 trabalhadores que estão na mesma empresa há mais de 10 anos, o grupo de trabalhadores que está há mais de 10 anos no H.M.P.W., é representado por apenas 3 trabalhadores ( 11,5 %).

 

Tabela 9. Tempo de trabalho no Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97)

Tempo de Trabalho (anos)

N

%

< 1

5

19,2

1 – 3

7

26,9

4 – 6

7

26,9

7 – 9

4

15,3

>/ 10

3

11,5

TOTAL

26

100

 

 

TEMPO NECESSÁRIO PARA O

DESLOCAMENTO DE CASA PARA O TRABALHO:

Em relação ao tempo necessário (ou gasto), em minutos, para que os 26 trabalhadores da empresa de conservação locomovam-se de suas residências para o trabalho no hospital, ou de volta para casa (Tabela 10), observa-se que o grupo mais representativo é composto por 11 trabalhadores, e que correspondem a 42,3 % da amostra e necessitam de no máximo 30 minutos para a realização deste deslocamento. Apenas um trabalhador (3,9 %), necessita de mais do que 120 minutos para o referido translado. Dois trabalhadores, que correspondem a 7,7 % da amostra, revelaram não saber, quantos minutos são necessários para ir ou voltar do trabalho.

 

Tabela 10. Tempo necessário para o deslocamento de casa para o trabalho

(Nov/Dez 97)

TEMPO EM MINUTOS

N

%

< 30

11

42,3

30 – 60

5

19,2

61 – 90

3

11,5

91 – 120

4

15,3

> 120

1

3,8

Ignorado

2

7,6

TOTAL

26

100

 

O principal meio de meio de transporte utilizado pelos trabalhadores é o ônibus, sendo que 38,5 % utilizam 2 ônibus para o translado casa – trabalho

 

Tabela 11. Meio de transporte utilizado para o translado casa - trabalho referido pelos 26 trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97)

MEIO DE TRANSPORTE

N

%

Caminhada

6

23,0

1 ônibus

10

38,5

2 ônibus

8

30,7

3 ônibus

1

3,9

1 trem e 2 ônibus

1

3.9

TOTAL

26

100

 

 

III . 1 . 2 – OS ACIDENTES DE TRABALHO

Para falar dos acidentes ocorridos com os 26 trabalhadores que realizam a limpeza, conservação e coleta interna do lixo na Emergência do HMPW foram utilizados os seguintes indicadores: acidentes de percurso acontecidos com o trabalhador, acidentes de trabalho ocorridos com o trabalhador no emprego atual, tipos de acidentes de trabalho ocorridos com os trabalhadores e os acidentes de trabalho ocorridos com os colegas no trabalho atual.

 

ACIDENTES DE PERCURSO:

O acidente de percurso, em uma definição simplista, é aquele acontecido com o trabalhador no translado casa-trabalho-casa. Conforme apresentado na tabela 12, vinte e um dos trabalhadores (80,8 %), relatam não ter sofrido nenhum tipo de acidente de percurso desde que estão lotados no Hospital Municipal Paulino Werneck.

 

Tabela 12. Acidentes de Percurso acontecidos com o trabalhador (Nov/Dez 97)

ACIDENTE

N

%

Sim

5

19,2

Não

21

80,8

TOTAL

26

100

 

Dos cinco acidentes de percurso relatados, três ocorreram em ônibus (60 %), sendo o restante quedas.

 

ACIDENTES DE TRABALHO:

Em relação aos acidentes de trabalho, o maior quantitativo da amostra, representado por 19 trabalhadores (73,1 %), relata não ter sofrido nenhum tipo de acidente desde que começou a trabalhar no Hospital Municipal Paulino Werneck. Dos sete trabalhadores que relataram ter sofrido algum tipo de acidente (Tabela 13), cinco deles (71,4 %), informaram ter tido corte produzido por material perfurocortante, como agulhas e bisturis, descartados em locais inadequados, na opinião deles. Três dos trabalhadores acidentados (42,9 %), informaram ter tido mais do que três acidentes de trabalho; dois trabalhadores (28 %), acidentaram-se duas vezes e os outros dois restantes, acidentaram-se uma única vez.

Quanto ao primeiro atendimento e ao registro dos acidentes de trabalho, tem-se ainda que dos sete trabalhadores que relataram ter sofrido algum tipo de acidente de trabalho, quatro deles, informam que não tiveram nenhum tipo de atendimento médico ou de qualquer outro profissional de saúde, e consequentemente não existe boletim de atendimento e/ou registro de acidente de trabalho. Os três trabalhadores restantes, informaram que tiveram atendimento médico e de outros profissionais, como também boletim de atendimento, em todos os seus acidentes de trabalho. Informaram ainda que apesar do relatado, não houve registro de acidente de trabalho.

 

Tabela 13. Causas de acidente de trabalho ocorridos

com o trabalhador no emprego atual (Nov/Dez 97)

CAUSAS DE ACIDENTES

N

%

Corte produzido por material perfurocortante descartado em local inadequado

5

71,4

Escorregou e caiu

1

14,3

Corte na mão produzido ao utilizar palha de aço

1

14,3

TOTAL

7

100

 

 

OS ACIDENTES DE TRABALHO OCORRIDOS

COM OS COLEGAS NESTE TRABALHO:

Em relação a possibilidade de qualquer um dos trabalhadores da empresa, ter presenciado ou tido conhecimento de algum acidente ocorrido com os seus colegas de trabalho, quinze trabalhadores (57,8 %), disseram não ter presenciado, ou souberam de qualquer acidente de trabalho ocorrido com seus colegas, neste emprego.

 

III . 1 . 3 - A PERCEPÇÃO DE RISCOS DOS TRABALHADE O USO DE EPIs

A respeito da percepção dos 26 trabalhadores que realizam seu processo de trabalho na limpeza e coleta interna do lixo da emergência, foram utilizados os seguintes indicadores: Percepção dos riscos existentes na realização do seu processo de trabalho, quanto ao descarte de material perfurocortante em local adequado, quanto a possibilidade de contrair alguma doença ocupacional, quanto à possibilidade do esforço desprendido ser em demasia, quanto as causas dos acidentes ocorridos no local de trabalho, sobre o que é preciso mudar para melhorar as suas condições de trabalho, quanto a sua satisfação pessoal em relação ao seu trabalho e em relação a opinião das pessoas à respeito da função exercida por eles.

 

PERCEPÇÃO DOS RISCOS:

Sobre a percepção dos riscos existentes tanto no seu ambiente de trabalho, quanto na realização do seu processo de trabalho, pelos 26 trabalhadores da empresa de conservação, tem-se que a maioria absoluta dos entrevistados, representado pelo grupo de 24 trabalhadores que correspondem ao percentual de 92,3 %, responderam que percebem a existência do risco em sua atividade de trabalho.

 

PERCEPÇÃO QUANTO A ADEQUAÇÃO DO DESCARTE

DE MATERIAL PERFUROCORTANTE:

Em relação a adequação do descarte de materiais considerados como cortantes ou perfurantes (Tabela 14), como por exemplo, agulhas e bisturis, pelos diversos profissionais da equipe de saúde que atuam na emergência, à saber Médicos, Odontólogos, Enfermeiros, Auxiliares de Enfermagem e Técnicos de Laboratório, tem-se que, na opinião dos 26 trabalhadores que realizam o trabalho de coleta interna do lixo hospitalar, e que são os principais interessados em que corretas práticas de biossegurança sejam adotadas, tanto pelos profissionais da equipe de saúde que atuam na emergência, na utilização do local adequado para o descarte de perfurocortantes; quanto por eles próprios, para maior segurança e proteção de sua saúde, 14 trabalhadores (53,8 %) consideram que o descarte de material perfurocortante é realizado de maneira correta, mesmo não conhecendo o contido nas normas.

Todos os trabalhadores que responderam SIM ao questionamento sobre a adequação do descarte de perfurocortantes, acrescentaram que este procedimento (descarte em local correto) é bastante recente, e que a prática anteriormente utilizada era o descarte em local inadequado.

 

Tabela 14. Percepção quanto a adequação do descarte de material perfurocortante, efetuado por Odontólogos, Médicos, Enfermeiros, Auxiliares de Enfermagem e Técnicos de laboratório (Nov/Dez 97).

PERCEPÇÃO

N

%

Adequado

14

53,8

Inadequado

9

34,6

Variado (adequado/inadequado)

3

11,5

TOTAL

26

100

 

 

DOENÇA OCUPACIONAL:

Quanto a percepção dos 26 trabalhadores da limpeza, conservação e coleta interna do lixo no Hospital Municipal Paulino Werneck a respeito da possibilidade de contrair alguma doença ocupacional advinda do seu trabalho em ambiente considerado insalubre (Tabela 15), a grande maioria (65,4 %), respondeu que está consciente quanto a possibilidade de contrair alguma doença em função do seu tipo de trabalho. Nesta entrevista 10 trabalhadores informaram ter tido doenças respiratórias durante o trabalho no HMPW.

 

Tabela 15. Percepção dos trabalhadores quanto a possibilidade

de contrair alguma doença ocupacional (Nov/Dez 97)

PERCEPÇÃO

N

%

Sim

17

65,4

Não

8

30,8

Ignorado

1

3,8

TOTAL

26

100

 

 

PERCEPÇÃO QUANTO AO ESFORÇO FÍSICO

PARA A REALIZAÇÃO DAS TAREFAS:

Em relação a observação do pesquisador sobre o fato do o esforço físico para a realização de grande parte das tarefas ser considerado em demasia, a grande maioria dos trabalhadores, representado por 18 deles, correspondendo a 69,2 % da amostra, respondera que consideravam o esforço físico para a realização das tarefas em excesso., principalmente nos dias de faxina geral.

 

PERCEPÇÃO QUANTO AS CAUSAS DOS ACIDENTES DE TRABALHO:

Em relação a percepção dos trabalhadores, a respeito das possíveis causas dos acidentes de trabalho eventualmente ocorridos com eles (Tabela 16), durante a execução de seu processo de trabalho, neste hospital, temos que um grupo de 13 trabalhadores, que correspondem a 50 % da amostra, responderam que os acidentes ocorridos com eles próprios, ao realizar suas tarefas são devido ao descuido ou falta de atenção do próprio trabalhador. Os trabalhadores deste estudo não tiveram nenhum treinamento em serviço na área de segurança no trabalho.

 

Tabela 16. Percepção dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck, quanto as causas dos acidentes ocorridos no seu local de trabalho (Nov/Dez 97)

PERCEPÇÃO

N

%

Descuido ou falta de atenção do trabalhador

13

50,0

Descuido da equipe de saúde no descarte de material perfurocortante

5

19,2

Má Qualidade dos sacos de lixo

1

3,8

Ignorado

6

23,1

Falta de material adequado

1

3,8

TOTAL

26

100

 

 

MELHORIA DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO:

A respeito do que seja possível fazer para melhorar suas condições de trabalho no hospital (Tabela 17), sete trabalhadores, (26,9 %) preferiram não responder a pergunta; quatro trabalhadores, (15,7 %) da amostra, disseram que as condições de trabalho melhorariam, se recebessem um aumento em seus salários.

 

Tabela 17. Percepção dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck, à respeito do que é necessário fazer para melhorar as condições de trabalho (Nov/Dez 97).

NECESSÁRIO

N

%

Melhores equipamentos

2

7,8

Plantão diurno

3

11,8

Aumento do salário

4

15,7

Diminuição do esforço físico

2

7,8

Aumento do quantitativo de pessoal

1

3,9

Atenção ao trabalhador

1

3,9

Melhorar a limpeza

1

3,9

Oportunidade para estudar

1

3,9

Mais amor

1

3,9

Ser compreendido

1

3,9

Valorização do trabalhador

1

3,9

Ignorado

1

3,9

Não responderam a pergunta

7

26,9

TOTAL

26

100

 

 

SATISFAÇÃO PESSOAL EM RELAÇÃO AO TRABALHO

DE LIMPEZA E CONSERVAÇÃO HOSPITALAR:

Em relação a satisfação pessoal dos 26 trabalhadores que atuam na conservação da Emergência do HMPW, 22 trabalhadores (84 % da amostra) estão satisfeitos com o tipo de trabalho que executam, apesar dos inúmeros motivos que teriam, com certeza, para serem insatisfeitos.

 

PERCEPÇÃO EM RELAÇÃO A OPINIÃO DA POPULAÇÃO

A RESPEITO DA SUA ATIVIDADE:

A respeito da opinião das pessoas sobre a função exercida por estes trabalhadores (Tabela 18), 15 trabalhadores (57,7 %), referem que as pessoas acham boa a função exercida por eles, e apenas um trabalhador, que corresponde a 3,8 % da amostra, relata que as pessoas de um modo geral acham que a função exercida por ele é perigosa.

 

Tabela 18. Percepção dos trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck, quanto a opinião da população

a respeito da sua atividade (Nov/Dez 97)

OPINIÃO

N

%

Boa

15

57,6

Normal

2

7,6

Criticam

4

15,3

Ignorado

4

15,3

Perigoso

1

3,8

TOTAL

26

100

 

 

USO DE EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL:

A respeito do uso dos equipamentos de proteção individual (Tabela 19), verificou-se que, ao contrário do que foi observado pelo pesquisador durante o trabalho de campo, a maioria dos entrevistados, 24 trabalhadores (92,3 %), responderam que sempre usam os equipamentos de proteção individual durante a realização do seu processo de trabalho. Apenas um trabalhador (3,8 %), respondeu que só utiliza os referidos equipamentos algumas vezes. O mais interessante é que este trabalhador que diz usar os equipamentos de proteção individual apenas algumas vezes, foi um dos trabalhadores que durante a observação do pesquisador no período do trabalho de campo, estava na maioria absoluta das vezes utilizando luvas e botas.

 

Tabela 19. Uso de Equipamentos de proteção individual (botas e luvas) fornecidos pela empresa, referido pelos 26 trabalhadores da empresa de conservação do Hospital Municipal Paulino Werneck (Nov/Dez 97)

EQUIPAMENTOS

N

%

Algumas vezes

1

3,8

Sempre

24

92,3

Nunca

1

3,8

TOTAL

26

100

 

HISTÓRIA VACINAL:

Em relação a história vacinal dos trabalhadores, a respeito de ter sido imunizado com alguma dose da vacina Anti –Tetânica, que fornece imunização por 10 anos, se administrada em três doses, com um intervalo mínimo de dois meses entre as doses, ou a vacina Dupla, que fornece imunização contra tétano e difteria, com a mesma posologia e com o mesmo prazo de proteção, observou-se que apenas 11 trabalhadores (42,3 %), tomaram pelo menos uma dose da referida vacina. Caracterizando, assim um quadro que não garante a proteção contra o perigo do tétano acidental, representado pelo risco de acidentes produzidos por material perfurocortante, no descarte inadequado desses materiais.

Torna-se importante ressaltar, que destes 11 trabalhadores citados, todos tomaram a referida vacina por conta própria e que não existe, nem por parte da empresa contratante quanto pelo hospital, qualquer política de incentivo à vacinação profilática.

 

III . 1 . 4 – DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Alguns autores, como por exemplo, Laurell e Noriega (1989) e Anjos et al. (1995), consideram importante avaliar o desgaste operário. Uma das formas de analisar este desgaste do trabalhador, talvez seja o tempo gasto diariamente no trajeto residência/trabalho (vide tabela 10). Nesta pesquisa observou-se que um número significativo dos trabalhadores gasta mais de 2 horas no translado casa-trabalho-casa. Este tempo gasto no translado somado ao esforço físico para a realização das tarefas, desgasta o trabalhador.

Em relação aos acidentes, observa-se que nos casos de todos os sete trabalhadores que relataram ter sofrido algum tipo de acidente de trabalho, não foram feitos os registros dos mesmos. A primeira impressão que se tem é que neste tipo de trabalho não ocorrem acidentes, o que infelizmente, baseado no exposto anteriormente, não é a realidade. Torna-se importante ressaltar que a grande maioria dos trabalhadores que responderam não ter sofrido nenhum acidente de trabalho, neste emprego, não consideram pequenas quedas, cortes ou perfurações nos membros inferiores produzidos por material pérfurocortante, como sendo acidente de trabalho. Este pensamento talvez seja explicado, pelo fato de que na opinião deles, estes acidentes, quando acontecem, é por culpa do próprio trabalhador, por ter sido descuidado.

Sendo assim, não é acidente de trabalho, porque não foi por culpa do "patrão" ou pelas condições de trabalho impostas por estes.

Velloso (1995) descreve que em determinadas situações, o acidente de trabalho pode estar vinculado à doença profissional e que o surgimento e a evolução de determinada enfermidade, por exemplo, problemas de coluna devido ao levantamento e carregamento de peso, aumentará a probabilidade da ocorrência de acidentes como torções, contusões e lombalgias.

Possas (1987) faz referência à questão da sub-notificação dos acidentes de trabalho, intensificada depois do advento da lei Nº 6.367. A partir dessa lei, a Previdência Social (INPS), transferiu a responsabilidade do pagamento dos primeiros 15 dias após a ocorrência do acidente para a empresa. Sendo assim, o INPS, passou a pagar o benefício a partir do 16º dia, caso a licença não termine e o trabalhador não retorne às suas atividades normais.

Devido ao fato de que na grande maioria dos acidentes não haver afastamento do trabalho ou período de licença superior a 15 dias, a empresa não informa a ocorrência desses acidentes, contribuindo assim para a sub-notificação. Esta conduta (ou política), inclusive fortalece a campanhas, algumas vezes enganosas, adotadas por algumas empresas, e que tem como título: "Nesta empresa há "x" dias não acontecem acidentes com afastamento".

Faleiros (1992), em relação a dicotomia existente entre o ato inseguro x condições inseguras, relata que a teoria de culpabilização põe a responsabilidade da ocorrência dos acidentes nos trabalhadores, provocando na opinião pública a falsa impressão de que o trabalhador é descuidado, desviando assim, a avaliação e/ou observação das precárias condições de trabalho.

Na atual pesquisa, 17 trabalhadores (65,4 %), responderam estar conscientes quanto a possibilidade de contrair alguma doença em função do tipo de atividade exercida por eles (Tabela 15). Nesta mesma entrevista, aproximadamente 40 % dos trabalhadores, afirmaram ter sido acometidos de doenças respiratórias durante o tempo que desenvolvem suas atividades profissionais no Hospital Municipal Paulino Werneck. Paradoxalmente, a maioria dos trabalhadores apesar de estarem conscientes da possibilidade de contrair alguma doença no ambiente de trabalho, quando estas acontecem, não estabelecem o nexo causal.

Após a avaliação da percepção dos trabalhadores quanto a possibilidade de contrair alguma doença ocupacional, realizou-se um cruzamento com o nível de escolaridade e com a faixa etária. Observou-se que quanto maior a escolaridade e menor a idade, maior a percepção quanto a possibilidade de contrair alguma doença ocupacional.

Tanto a afirmação contida nas respostas de metade dos trabalhadores, quanto as definições de acidente de trabalho, ato inseguro e condições inseguras, nos faz crer que a adoção da teoria da culpabilização por parte do trabalhador, ou seja, a dicotomia existente entre as questões relativas ao "ato inseguro x condições inseguras", ainda persiste, não se conseguindo avançar significativamente neste aspecto.

Em acordo com o relatado, os trabalhadores da limpeza, conservação e coleta interna do lixo hospitalar do HMPW, em sua grande maioria, representados por 18 trabalhadores (69,2 % da amostra), consideram o esforço físico desprendido por eles, para a realização do processo de trabalho, como sendo excessivo.

A respeito do período de proteção oferecido pela vacina Anti-Tetânica, um trabalhador informa que em sua opinião esta imunizado até o final de 1998, dois trabalhadores relatam que estão imunizados por 10 anos e oito trabalhadores ignoram por quanto tempo estão imunizados (protegidos) contra o Tétano acidental.

O esquema básico da vacina dupla adulto, que protege o trabalhador contra o Tétano e a Difteria, é composto por três doses da vacina, com um intervalo entre as doses de 02 meses e após o esquema completo, o trabalhador deverá tomar uma dose de reforço a cada 10 anos. Nenhum trabalhador relata ter sido imunizado com alguma dose da vacina contra Hepatite B.

 

III . 2 – RESULTADOS E DISCUSSÃO DAS OBSERVAÇÕES

III . 2 . 1 - TRABALHO PRESCRITO E TRABALHO REAL

Neste momento analisaram-se os resultados obtidos nas comparações realizadas entre o trabalho prescrito, que neste estudo, é o composto pelas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas, referentes a resíduos sólidos e resíduos de serviços de saúde; pelas Normas Regulamentadoras (NRs) e pelo edital de concorrência para prestação de serviços e por manuais técnicos sobre limpeza e resíduos; e o trabalho real, representado pelas entrevistas, observações do pesquisador e pela filmagem em vídeo.

Durante a avaliação realizada no trabalho de campo, percebeu-se que o que é preconizado pelas normas técnicas (trabalho prescrito) é diferente do que informam, como sendo a realidade desenvolvida (trabalho real), a encarregada e os trabalhadores e também é diferente do que foi observado pelo pesquisador (trabalho real).

 

III . 2 . 2 - A ORGANIZAÇÃO E A DIVISÃO DO TRABALHO

O quantitativo de trabalhadores, dos diversos turnos, na maioria das vezes, não são fixos nos setores ou serviços, ou seja os trabalhadores atuam em todas as dependências do hospital em sistema de rodízio. Esta lotação dos trabalhadores pelos diversos postos de trabalho é feita mediante uma escala de serviços, que pode ser diária, semanal ou mensal. Isto se faz necessário, segundo a encarregada responsável pela empresa de conservação, devido à necessidade de serviço, pois é preciso substituir os trabalhadores que estão de folga, férias ou com licença médica.

Anteriormente, até o final de Dezembro de 1996, quando terminou o governo do então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Sr. Cesar Maia, o quantitativo dos trabalhadores da empresa terceirizada e prestadora de serviços responsável pela limpeza, conservação e coleta interna do lixo, era maior, tornando assim, diferente a jornada de trabalho, a divisão do trabalho, e também a distribuição dos trabalhadores nos diversos postos de trabalho.

Esta mudança no quantitativo de trabalhadores, segundo a encarregada da empresa de conservação, lotada no HMPW, ocorreu em função da diminuição dos trabalhadores contratados para fazer o serviço de limpeza e conservação, à pedido do contratante, baseado na clausula 11.1 do edital de prestação de serviços, no qual relata que o quantitativo de trabalhadores lotados no hospital poderá ser acrescido ou diminuído de acordo com as necessidades de serviço da unidade. Devido a diminuição do quantitativo de trabalhadores, a jornada de trabalho se tornou intensificada, dificultando inclusive o cumprimento do trabalho prescrito com a utilização de um efetivo menor de trabalhadores.

 

III . 2 . 3 - O PROCESSO DE TRABALHO

O processo de trabalho da limpeza, conservação e coleta interna do lixo hospitalar no Serviço de Emergência, começa às 7:00 horas da manhã, com a passagem do serviço ou de plantão pelas trabalhadoras do turno da noite para os trabalhadores do primeiro turno do dia. Neste momento, as trabalhadoras da noite informam para os colegas que estão iniciando no horário, como estão as condições do ambiente (ou área física) da Emergência, ou seja qual foi o trabalho realizado no período e o que eventualmente não pode ser feito.

Após esta rotina descrita, os trabalhadores irão providenciar a realização do que for preciso ser feito, que normalmente, inicialmente é esvaziar o lixo contido nos baldes dos carrinhos de curativo e/ou nos baldes individuais dos pacientes acamados, de cada uma das três salas de atendimento de urgência (sala de homens, de mulheres e de crianças), como também das salas de Raio X, de atendimento odontológico de urgência, de grande emergência, da ortopedia, do laboratório e da recepção Este lixo é transportado, por um dos trabalhadores, em sacos plásticos até um recipiente grande de plástico com tampa e forrado por saco plástico grande denominado "flexão", que fica na porta de cada uma das salas de atendimento. Este lixo será transportado para uma área física aberta localizada ao lado da sala dos médicos. A seguir estes resíduos serão depositados em latões de 200 litros e transportados por um trabalhador com o auxílio de um carrinho, para uma outra área aberta na entrada de emergência do hospital. O lixo permanece neste local, até ser recolhido pela firma terceirizada, especializada em coleta de lixo hospitalar, contratada pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (COMLURB) para realizar o serviço de coleta externa do lixo.

Após o procedimento, os trabalhadores fazem uma limpeza superficial, denominada pela encarregada, como manutenção de rotina, em todas as oito salas e que consiste em realizar varredura manual, que é o ato de passar pano molhado enrolado em um rodo no piso das salas e dos dois corredores internos e um externo, a lavagem dos banheiros, limpar pontos de oxigênio, bancadas, parapeitos de janelas, carrinhos de curativos, vidros das janelas, além de determinados pontos da parede que por ventura estejam sujos de sangue.

Durante o restante da jornada, seja diurna ou noturna, os trabalhadores continuam a realizar a manutenção de rotina, que consiste em efetuar a limpeza todas as vezes que for necessário, como por exemplo, quando acontece um atendimento de emergência na qual o ambiente físico fique sujo de sangue ou de alguma espécie de resíduo sólido ou liquido.

Dentre as atividades desenvolvidas pelos trabalhadores, inclui-se uma denominada "Faxina geral da Emergência". Esta atividade consiste, como o próprio nome sugere, em um espécie de faxina geral, que ocorre algumas vezes por mês, em dias da semana alternados. A encarregada da limpeza relata que "a lavagem geral da Emergência ocorre em dias alternados para não prejudicar muito o trabalho da equipe médica", e que seriam necessários seis trabalhadores para a realização desta tarefa, porém com o advento da redução do quantitativo de pessoal, atualmente apenas quatro trabalhadores atuam na área a ser lavada. Na observação do pesquisador durante a execução desta tarefa pelos trabalhadores, evidenciou-se que a realização desta atividade com um quantitativo menor de trabalhadores, significa uma perda no padrão de qualidade.

Estes quatro trabalhadores escalados para a faxina são considerados, na opinião da encarregada, ao contrário de alguns outros, como sendo práticos, ágeis, eficazes, possuidores de uma visão ampla. Assim, estes trabalhadores são capazes de controlar a duração da atividade, podendo ser mais rápidos ou mais lentos dependendo da demanda e das características na emergência. A encarregada conclui, dizendo, que estes quatro trabalhadores cansam-se muito mais do que os outros que estão executando outra atividades.

Em relação a observação da encarregada geral, sobre a limpeza de unidades hospitalares, o manual normas técnicas para prevenção da transmissão da AIDS (1989), relata que "a freqüência e os métodos de limpeza variam de acordo com a área do hospital (ou unidade de saúde), o tipo de superfície a ser limpa e a quantidade e o tipo de contaminação existente". Para o referido manual, superfícies como pisos, mesas e suportes de soros, entre outros, devem ser limpos regularmente. Sempre que ocorrer qualquer contaminação produzida por fluidos corpóreos, como também, após a desocupação do leito pelo paciente, é importante promover a devida desinfeção com hipoclorito de sódio a 0,5%. E que para paredes e cortinas, a limpeza é recomendada somente em casos onde a sua contaminação seja visível.

A encarregada, descrevendo o processo de lavagem geral do Setor de Emergência, diz que quando vai haver a referida faxina, normalmente, são deslocados outros trabalhadores para ajudar os que já estavam lotados naquele turno e local. Em geral, de 2ª à 6ª feira, em todos os turnos no período diurno, estão escalados para trabalhar na Emergência dois funcionários. Sendo assim, torna-se necessário deslocar mais dois trabalhadores que estavam lotados em outro setor, para completar os quatro, considerados como quantidade mínima, na opinião dela, para a realização da tarefa. Se esta faxina ocorrer em um Sábado ou Domingo, só haverá um funcionário da empresa de conservação escalado na emergência. Serão necessários então, o remanejamento de três trabalhadores. Neste caso, serão utilizados um trabalhador do sexo masculino que estava no pátio, um trabalhador do sexo feminino da maternidade e outra do centro cirúrgico.

Em relação ao tempo necessário para a realização da faxina geral da Emergência, a encarregada diz que "se nós não tivermos que parar o serviço, devido a entrada de uma emergência mesmo (grifo do autor), a faxina leva em torno de uma hora." A expressão grifada nesta fala, faz referência ao fato de que um percentual bastante razoável dos atendimentos realizados neste setor, não serem considerados como atendimentos de emergência, ou seja, são atendimentos que não necessitam de rapidez de resolução, que poderiam ser absorvidos pelo ambulatório e que por algum motivo esta demanda foi reprimida. Para a concretização da previsão de que a realização desta tarefa será em uma hora, a encarregada diz que nem todas as salas estão incluídas nesta lavagem, apenas as três salas para atendimento das emergências de homens, mulheres e crianças, o posto de enfermagem, as salas de ortopedia e grande emergência e os dois corredores. O laboratório e a sala do Raio X tem a sua faxina uma vez por semana, em dia alternados, e a sala de atendimento de urgência odontológica tem a sua limpeza geral todas as quintas feiras, à partir das 15 horas. Nesta faxina, são lavados o piso e os colchões, como também providenciadas a limpeza de parapeitos e janelas, entre outros.

A respeito da realização da tarefa, a encarregada, relata, que os trabalhadores escalados para a faxina sabem previamente quando a mesma acontecerá e ficam aguardando apenas que a encarregada responsável pela atividade informe o horário do início da mesma.

Antes de iniciarem-se os preparativos para a realização da referida lavagem, um dos trabalhadores vai ao setor, para certificar-se se a atividade pode ser realizada naquele momento. O critério mais importante e que vai determinar se a realização da tarefa é possível naquele dia e horário, é a constatação, pelo trabalhador da empresa ou a informação, de alguém responsável pela equipe de saúde que esteja trabalhando naquele momento, de que não há um número excessivo de pacientes acamados/internados ou de pacientes, em estado que necessite de cuidados, sendo atendidos naquele momento. Caso alguma dessas situações esteja ocorrendo, a limpeza geral não será realizada naquele momento, e sim em outro horário ou até mesmo em outro dia, pois segundo a encarregada geral, "a prioridade é sempre o conforto do paciente, inclusive é por isso que esta limpeza geral é realizada em dias alternados".

Segundo a encarregada, supondo que o dia para a realização da lavagem geral, seja um sábado, às 10:30 da manhã, um dos trabalhadores do turno já terá ido a Emergência verificar a viabilidade da realização da tarefa e se os outros trabalhadores depositaram todo o material necessário, como baldes, rodos, sabão, etc, na porta da primeira sala à ser lavada, por exemplo a sala de atendimento de urgência para mulheres. Neste momento, os trabalhadores entram na referida sala e começam a faxina geral. Enquanto um dos funcionários começa a lavar os parapeitos das janelas, os outros vão executando outras tarefas, como limpar as macas, os aparelhos de pressão, arrastando as mesas, limpando colchões, entre outras. Nesta atividade, cada um dos funcionários tem uma função pré-determinada até chegar ao momento de lavar o piso, que é a última parte do trabalho, dentro desta sala, pois depois será feito a mesma coisa nas outras salas e também serão limpos os corredores.

A faxina geral de cada uma das salas sempre começa por um dos cantos frontais ao banheiro. Isto tem como objetivo que a água que é utilizada para a lavagem das salas, seja puxada ou levada, com o auxílio de rodos, para o banheiro, onde existem ralos, e não escorra para o corredor principal, que dá acesso a todas as outras salas.

No caso da lavagem da sala do posto de enfermagem, que fica localizada entre as salas de atendimento de urgência de homens e urgência de crianças; da sala de atendimento de urgência ortopédica, que fica localizada em um corredor lateral, de frente para a sala da equipe médica de plantão; e da sala de grande emergência, que fica de frente a sala de emergência de homens, que não possuem banheiro e nem ralo paro o escoamento, esta água será puxada com o auxílio de rodos, por toda a extensão dos corredores até um local, na área externa, que possua um ralo. Após puxar toda a água desses setores, é necessário passar pano seco em todo o piso, para que o mesmo fique completamente seco. Neste momento, ao passar o pano seco no piso, caso a água que sai, ao torcer o pano, esteja suja, torna-se necessário limpar este piso novamente, até que o piso esteja totalmente limpo. Sendo assim, perde-se muito tempo nesta atividade, além do desgaste físico dos trabalhadores.

A encarregada, diz também, que durante a realização da lavagem geral é feito o trabalho mais pesado, bruto; e que na execução desta tarefa existem muitas dificuldades, como por exemplo, lavar tetos, arrastar macas com pacientes acamados e suportes com soros que estejam fazendo hidratação venosa em veias periféricas ou subclávias. Quanto maior for a ocupação das macas, mais difícil será à realização do processo de trabalho. Sendo assim, convencionou-se que quando o paciente está acamado, é da equipe de enfermagem a responsabilidade de realizar a limpeza de colchões.

Diariamente, todo o hospital, com exceção da área administrativa e da cozinha, são varridos, com a utilização de um pano molhado envolvido em um rodo.

No Serviço de Emergência, segundo a encarregada, como em toda área hospitalar onde exista paciente internado, não se pode usar nenhum produto que contenha cheiro.

Esta encarregada finaliza, relatando que na opinião dela, em relação a carga de trabalho, a diferença das enfermarias para a emergência, é que nas enfermarias apesar do serviço ser mais pesado para os trabalhadores da limpeza que estão escalados naquele turno e setor, este trabalho pesado é realizado apenas pela manhã, sendo necessário, a partir disto somente a conservação, ao contrário da Emergência, onde o serviço executado pelos trabalhadores escalados neste setor é apenas o de manutenção.

 

III . 2 . 4 - AS CONDIÇÕES DE TRABALHO

Os riscos evidenciados durante a realização da filmagem deste processo de trabalho, foram agrupados de acordo com o descrito por Mattos (1992), e citados por Velloso (1995), em: Químicos, Físicos, Biológicos, Sociais, Ergonômicos e Mecânicos.

 

RISCO QUÍMICO

Da mesma forma do que o observado por Velloso (1995) em trabalhadores da coleta domiciliar de lixo, os trabalhadores deste estudo também estão expostos a agentes como poeiras, gases e substâncias líquidas diversas, inclusive explosivas e/ou inflamáveis, muitas vezes armazenados em locais inadequados, como por exemplo, próximo a Bico de Bunsen. Algumas dessas substâncias tem efeitos irritantes, sistêmicos, corrosivos e carcinogênicos.

 

RISCO FÍSICO

Em relação a este tipo de risco, observa-se que no Serviço de Emergência do HMPW, a ventilação natural, quanto a artificial são insuficientes. A iluminação natural e artificial são inadequadas.

 

RISCO BIOLÓGICO

Estão representados pelo contato diário e prolongado com diversos agentes de patogenidade variada e que podem desencadear patologias crônicas e agudas, e em muitas ocasiões por diversos fatores, não é estabelecido o nexo causal. Estes trabalhadores estão expostos ao contato com líquidos e/ou secreções corpóreas, como também, eventualmente a fragmentos de tecidos.

 

RISCO SOCIAL

Velloso (1995), citando Mattos (1992), faz referência aos Riscos Sociais, como sendo decorrentes de fatores ligados as relações de produção, como falta de treinamento, jornada de trabalho, horas extras, trabalho noturno, revezamento de turmas, entre outros.

Dentre as considerações possíveis, baseado na observação do pesquisador, vale ressaltar a questão do treinamento inadequado e muitas vezes inexistentes para a realização de algumas tarefas, a jornada de trabalho intensificada, devido a diminuição de trabalhadores e consequentemente a alteração da jornada de trabalho e a observação do fato de que existem apenas 4 trabalhadores, todas do sexo feminino, no turno da noite, sendo 2 trabalhadoras em cada noite, perfazendo uma carga horária de 12 horas de trabalho, quase sempre sem as devidas pausas, para 36 horas de "descanso", incluindo-se neste período, o tempo necessário para o deslocamento casa x trabalho e vice-versa, o trabalho doméstico, além do eventual trabalho extra, representado por vendas diversas, faxinas, entre outros.

 

RISCO ERGONÔMICO

Para Mattos (1992), os Riscos Ergonômicos estão relacionados ao mal posicionamento imposto ao trabalhador para a realização das tarefas em função de uma má organização das tarefas e dos postos de trabalho. O autor ainda cita que o transporte e o levantamento de cargas pesadas, leva o trabalhador a ter posturas e tensões corporais inadequadas devido a execução de tarefas mal projetadas.

Durante a filmagem da "faxina geral" pode-se observar e registrar que diversos pesos são levantados de forma desnecessária e com comprometimento para a saúde do trabalhador. Este excesso de peso que o trabalhador arrasta ou levanta para a realização das tarefas, torna-se ainda mais excessivo em dias de faxina geral. Na avaliação da maioria dos trabalhadores atos como, por exemplo, arrastar camas ou macas, inclusive com pacientes acamados sobre elas ou então levantar e/ou arrastar sacos plásticos ou recipientes coletores de lixo, são considerados por eles como atividades não comprometedoras da sua própria saúde. Como mais um exemplo deste tipo de risco, observou-se a manutenção de posturas inadequadas ou perigosas, adotadas pelos trabalhadores em escadas ou suspensos em janelas, para, na opinião deles, a execução de "um bom trabalho".

 

RISCO MECÂNICO

Velloso (1995), relata que os riscos mecânicos estão representados pela possibilidade de existir acidentes com ou sem lesão, decorrentes do manuseio de máquinas e instrumentos, como também outros impactos mecânicos.

Na avaliação realizada pelo pesquisador observou-se que em diversas situações, durante a realização do processo de trabalho, o profissional esta exposto a acidentes, tais como derrapagens e/ou quedas, devido ao piso estar molhado e não ser anti-derrapante; a quedas, durante o transporte de cargas ou por estar em escadas, sem a devida proteção.

Existe ainda, a possibilidade de acidente elétrico, representado por uso de substâncias liquidas na limpeza de paredes e tomadas, estas últimas, em certas ocasiões, apresentando Benjamins que ligam diversos aparelhos.

 

III . 2 . 5 –TRABALHO PRESCRITO E TRABALHO REAL

A LAVAGEM GERAL DA EMERGÊNCIA,

SEGUNDO A OBSERVAÇÃO DO PESQUISADOR

Durante os preparativos para a realização da lavagem da Emergência as atividades desenvolvidas foram idênticas as descritas pela encarregada. A partir do início da atividade ocorreram diversas situações não descritas pela encarregada (página 74) ou então realizadas de maneira diferente do trabalho prescrito.

Ao contrário do que disse a encarregada, a respeito da lavagem geral do Setor de Emergência, em uma observação realizada em um Sábado, pela manhã, haviam apenas duas trabalhadoras e uma encarregada na realização da referida tarefa, totalizando três trabalhadoras. Além desse fato, foi observado que em desacordo com o que estabelece a NBR 12.810 (1993), que faz referência ao uniforme e relata que este " Deve ser composto por calça comprida e camisa com manga, no mínimo de ¾, de tecido resistente e de cor clara, específico para o uso do funcionário em serviço, de forma a identificá-lo de acordo com a sua função", das três trabalhadoras responsáveis por realizar a faxina, apenas duas estavam vestindo o uniforme completo e os EPIs adequados (botas de cano longo e luva de borracha). A terceira trabalhadora, ao contrário das outras duas, usava roupa comum, de uso geral na rua, portanto não adequado a tarefa e a sua atividade em área hospitalar. A referida indumentária citada, constituía-se de uma bermuda tipo jeans e uma blusa de malha sem mangas.

O processo de trabalho, inicia-se mais uma vez, contrariando o que relata a encarregada geral, com a lavagem do piso realizado por uma das trabalhadoras, simultaneamente com a limpeza dos utensílios em geral realizada por outras duas trabalhadoras. O piso, como disse a encarregada, é lavado de uma das extremidades da sala em direção ao banheiro (nas salas que o possuem), onde esta localizado o ralo. Na lavagem do piso são usados: vassoura de piaçava, para através de fricção retirar a sujeira acumulada; rodo, para retirar a água em excesso; e uma máquina, semelhante a uma enceradeira doméstica e que é utilizada para espalhar o sabão neutro e completar a limpeza manual realizada pela trabalhadora com a vassoura. Além do relatado, são usados também simultaneamente baldes e mangueiras de água, usados pela mesma trabalhadora.

Durante a lavagem do piso a trabalhadora aproveitava e esfregava as paredes. A faxina continuava, com a lavagem das paredes, que era realizada com a mesma vassoura de piaçava que fora utilizada no piso, com o uso de esponjas, baldes e mangueira de água. Da mesma forma, o mesmo pano que foi usado para lavar o piso e as paredes, foi utilizado para limpar equipos de soro, macas, colchões, mesas e vidros das janelas. Enquanto a faxina estava sendo realizada, objetos como o flexão e os carrinhos de curativo, entre outros, permaneciam no corredor principal da emergência, na entrada da sala que estava sendo lavada. Estes objetos atrapalhavam a circulação de pacientes e trabalhadores da equipe de saúde.

Durante a observação da realização do processo de trabalho da lavagem geral da sala de Emergência de mulheres, ocorreu um atendimento de emergência, e mais uma vez a conduta estabelecida demonstrou ser de forma diferente do relatado pela encarregada geral e considerada, por ela, como trabalho prescrito, tanto por parte os trabalhadores da empresa de conservação, quanto dos profissionais de saúde, responsáveis pelo atendimento. Segundo a referida encarregada, ". . . atualmente apenas quatro trabalhadores atuam na área à ser lavada. Estes quatro trabalhadores escalados para a faxina, são considerados, na opinião da encarregada, ao contrário de alguns outros, como sendo práticos, ágeis, eficazes, possuidores de uma visão ampla e capazes inclusive de perceber o tempo que deve durar a atividade, quando serem mais rápidos ou ainda o momento exato que é necessário interromper a atividade, devido ao início de um atendimento de emergência no local onde ocorre a faxina".

Na realização desta faxina, deu entrada no hospital, uma senhora sentindo-se mal. Após resolvido as questões burocráticas referentes ao boletim de atendimento da emergência, pelo setor de recepção, a referida paciente foi atendida por uma das médicas que estava de serviço e que considerou o caso como necessário de internação. A usuária foi rapidamente acomodada em uma das macas disponíveis. A médica continuou, junto com uma auxiliar de enfermagem, a providenciar o tratamento necessário. Após a devida prescrição médica, a auxiliar de enfermagem, preparou a medicação, puncionou uma veia periférica no membro superior direito da paciente, pendurou o frasco de soro em um suporte e logo após providenciou a administração de medicamentos através do equipo do soro. Apesar do que foi relatado, o processo de trabalho das três funcionárias não foi interrompido, nem por iniciativa própria, como também não houve solicitação à este respeito por parte das profissionais da equipe de saúde envolvidos no atendimento. O trabalho da auxiliar de enfermagem, continuou normalmente, enquanto simultaneamente, as trabalhadoras da empresa de conservação, passavam a máquina para lavar o piso, produzindo assim, um barulho considerável, como também arrastavam móveis e realizavam a limpeza das paredes e vidros, ao redor da maca onde a usuária acima descrita acabava de ser internada.

Ao final deste processo de trabalho, todos os materias e equipamentos, que estavam na porta da sala, no corredor principal, onde é realizado a triagem, foram recolocadas nos seus devidos lugares.

A limpeza e lavagem geral observados na sala do Serviço de Emergência teve início às 12:54 horas e terminou às 13:23 horas, ou seja, teve a duração de 29 minutos, sem contar o tempo necessário para separar e organizar o material necessário para a realização da tarefa. A encarregada geral disse que "se nós não tivermos que parar o serviço devido a entrada de uma emergência mesmo (grifo do autor), a faxina geral leva em torno de uma hora". Ao observar-se que para a faxina geral de apenas uma sala são necessários, aproximadamente 30 minutos, e que no mesmo dia e horário são realizados a faxina geral em mais cinco salas, pode-se concluir que para o trabalho total nas seis salas, seriam necessários aproximadamente 3 horas com o quantitativo de 3 trabalhadores. Ao utilizar-se quatro trabalhadores, número considerado ideal pela encarregada, provavelmente seriam gastos aproximadamente 2 horas para a realização da atividade. Na avaliação do pesquisador, para obter-se qualidade na faxina geral seriam necessários 4 trabalhadores e aproximadamente 2 horas de trabalho.

Na filmagem em vídeo realizada pelo pesquisador, da atividade denominada faxina geral da Emergência, ocorrida na sala de mulheres, e executada por três trabalhadores, que utilizaram para a realização deste processo de trabalho, vassouras, rodos, panos de limpeza, baldes, produtos químicos, 1 mangueira e 1 máquina para lavar o chão, não foi utilizado escada para a limpeza de janelas ou locais mais altos. Para a realização destas tarefas o trabalhador utilizava-se de cadeiras ou mesas. A limpeza desta sala, que é retangular, foi realizada no sentido mais distante da mesma em direção ao banheiro, com o objetivo de utilizar o ralo contido nesta dependência.

Para um melhor entendimento da discordância existente entre a norma e o trabalho realizado, será descrito a realidade observada a respeito do ambiente e do processo de trabalho e comparado com o que preconiza a bibliografia.

Como descrito anteriormente, na observação do pesquisador a respeito do processo de trabalho, a jornada de trabalho começa às 7 horas da manhã, com a passagem de plantão feita por uma das trabalhadoras que estavam de plantão no horário noturno (e que estavam responsáveis pela limpeza, conservação e coleta interna do lixo de todo o hospital), para os dois trabalhadores responsáveis pelo primeiro turno do dia no Serviço de Emergência do hospital. Caso seja um fim de semana ou feriado, haverá apenas um trabalhador da empresa de conservação atuando na Emergência.

Após este procedimento habitual, será realizado a revisão do que necessita ser feito e a retirada do lixo. Estes resíduos são transportados de todas as salas, nem sempre com o uso de algum tipo de carrinho. Este fato contraria a NR 17 que determina que: "Não deverá ser exigido nem admitido o transporte manual de cargas, por um trabalhador, cujo peso seja suscetível de comprometer a sua saúde ou sua segurança" (Portaria MTb n° 3.214, de 8/06/1978). São transportados em pequenos sacos plásticos ou nas embalagens adaptadas pelos trabalhadores, feitas com folhas de jornais, em forma de cone que forram os baldes. Isto contraria a norma NBR 12809 (ABNT, 1983) que determina que todo resíduo classificado como infeccioso, deve ser devidamente acondicionado em saco branco leitoso, de acordo com a NBR 9190 (ABNT, 19 ) até um recipiente grande de plástico com tampa e forrado por um saco plástico grande, de 60 litros, preto, denominado "flexão". Este recipiente fica localizado na entrada de cada uma das três salas de atendimento de urgência, onde o lixo é depositado e permanecerá até o momento que um outro trabalhador, que neste caso é sempre do sexo masculino, retire-o, com o auxílio de um carro e leve-o para uma determinada área física, aberta, sem cobertura, que fica localizada ao lado da sala dos médicos, processo que poderia ser considerado como "coleta interna I".

Segundo a NBR 12.807 de Janeiro de 1993, a coleta interna I é a operação de transferência dos resíduos do local de geração para a sala de resíduo. Esta unidade hospitalar não possui a referida sala para resíduos. Neste local, os sacos plásticos de 60 litros são colocados em latões de 200 litros, forrados por plástico e transportados através de uma operação que poderia ser denominada de "coleta interna II". Segundo a mesma norma este procedimento consiste na transferência dos resíduos da sala de resíduo para o abrigo de resíduo ou diretamente para o tratamento. Não existe na unidade pesquisada um abrigo de resíduos. Este lixo é somente depositado em caçambas da COMLURB, localizadas ao lado do portão, que serve de entrada para ambulâncias e também para duas áreas internas utilizadas como estacionamento pelos funcionários do hospital. O lixo contido nas caçambas da COMLURB não está totalmente acondicionado em sacos plásticos. Muitos desses resíduos estão soltos em cima, ao redor das referidas caçambas, ou pelo chão, o que além da estética, do odor desagradável e da proliferação de vetores, está em desacordo com o que preconiza a norma referente a forma de armazenamento externo. Esta norma relata que os recipientes lacrados contendo resíduos devem ser armazenados em local denominado abrigo de resíduos, mesmo quando depositados em contêineres; e que não é admitido a permanência de resíduos que não estejam acondicionados nos devidos sacos plásticos (NBR 12.809).

Em relação à geração e à segregação, temos na norma regulamentadora responsável pelos resíduos de serviços de saúde (NBR 12.809), que todos os trabalhadores de serviços de saúde devem estar capacitados para segregar corretamente os resíduos, além de conhecer o sistema de identificação utilizado. Todo resíduo, após desprezado, tem que ser acondicionado em saco plástico rígido e identificado, como também a importância do local de acondicionamento estar próximo ao local de geração.

No HMPW, a realidade é um pouco diferente do que preconiza esta norma. Grande parte dos trabalhadores não estão capacitados para separar corretamente os resíduos, como também não conhecem o sistema de identificação utilizado. Em muitas ocasiões foi observado pelo pesquisador que caixas de papelão de embalagens originais de soro eram utilizadas como recipientes para acondicionamento de material perfurocortante. Este fato era devido a inexistência da caixa própria para este fim, em alguns períodos, ou por desconhecimento da pessoa responsável pela manutenção da mesma, do perigo existente nesta improvisação. Outra observação importante sobre este fato é a questão da falta de identificação destas caixas improvisadas. Isto além de contribuir para que os profissionais responsáveis pela geração destes resíduos perfurocortantes aleguem desconhecimento da existência de um recipiente próprio para o descarte, desprezando assim, este tipo de resíduo no lixo comum. A adoção dessa práticas tornaram mais perigoso o processo de coleta interna para os trabalhadores.

Em relação ao manuseio e acondicionamento de resíduos, a NBR 12.809 relata que no manuseio de resíduos hospitalares, os trabalhadores envolvidos em todas as etapas deste procedimento devem usar equipamentos de proteção individual (EPIs) e que todo recipiente destinado a resíduos deve ter um fechamento que impossibilite vazamentos.

Baseado no exposto anteriormente, observou-se, durante o trabalho de campo, por diversas ocasiões o não uso, por alguns dos trabalhadores, dos equipamentos de proteção individual adequados para a realização das diversas atividades que compõem o processo de trabalho com resíduos. A constatação deste fato além de contrariar a referida norma regulamentadora, contraria também o referido pelos trabalhadores nas entrevistas, onde observou-se que 24 trabalhadores, ou 92,3% da amostra informaram usar sempre os equipamentos de proteção individual (EPIs).

A prática do acondicionamento dos resíduos em recipientes corretamente fechados, evitando-se assim vazamentos, não é uma constante no HMPW. Em todas as fases do gerenciamento dos resíduos, desde a sua geração, até o acondicionamento interno final, foram observadas falhas.

Segundo a Norma Regulamentadora referente a Ergonomia (NR-17) na coleta interna I, o transporte dos sacos plásticos contendo resíduos deve ser realizado de forma a não produzir acidentes ou esforço físico em demasia para o trabalhador. A NBR 12.809 relata que o trabalhador deve lavar as mãos ainda com as luvas, e depois de retirar as mesmas, colocando-as em local apropriado. As mãos devem ser lavadas antes de calçar as luvas e após retirá-las. Do relatado, apenas o processo de lavagem das mãos que não é contemplado a contento. Este fato talvez seja explicado pela falta de treinamento em serviço, como também pelo desconhecimento por parte do trabalhador da importância desta prática para a manutenção tanto da sua saúde como da saúde de todos.

A respeito do armazenamento interno dos resíduos, a NBR – 12.809 relata que as unidades geradoras de resíduos devem possuir uma sala apropriada para o acondicionamento dos recipientes de resíduos. Esta sala deve obedecer tanto às normas e padrões do Ministério da Saúde (1977), referentes a construções e instalações de serviços de saúde, quanto aos seguintes requisitos: possuir uma área mínima de 4 metros quadrados, com espaço suficiente para a entrada dos carros de coleta; o piso e as paredes devem ser revestidos com material liso, resistente, lavável e impermeável; possuir um ralo sifonado que deverá ser ligado a rede de esgotos; abertura para ventilação de, no mínimo, 1/20 da área do piso e não menos que 0,20 metro quadrados, ou algum tipo de ventilação mecânica que proporcione pressão negativa; possuir um lavatório e torneira de lavagem; e ponto de luz.

Para os pequenos geradores, que não possuam atividades de internação, o que não é o caso do HMPW, é facultativa esta sala de resíduos, devendo-se assim, encaminhar os recipientes diretamente para o abrigo de resíduos.

Como relatado anteriormente, o HMPW não possui a sala de resíduos. Os mesmos ficam armazenados, ao final do que poderia ser chamado de coleta interna I, em uma área física aberta, sem cobertura, localizada ao lado da sala dos médicos.

A coleta interna II, segundo a NBR – 12.809, tem que ser planejada utilizando-se o menor percurso possível, no mesmo sentido, não provocar ruídos, evitando-se a coincidência dos fluxos de roupas limpas, pessoas, alimentos, medicamentos e outros materiais. Quanto aos EPIs necessários para os trabalhadores que realizam esta parte da coleta, devem ser utilizados os mesmos utilizados na coleta interna I, acrescentando-se apenas um avental impermeável.

Devido a arquitetura do HMPW, o hospital apresenta corredores e acessos com pouco espaço físico disponível para a circulação, o que dificulta a existência ou a execução de um planejamento específico para o fluxo diferenciado de pessoas, alimentos, roupas em geral, medicamentos e outros materiais. Quanto aos EPIs necessários para a coleta interna II, nem sempre são usados os mesmos da coleta interna I. O avental impermeável, por exemplo, não ë fornecido pela empresa. Não sendo assim, utilizado pelos trabalhadores da coleta interna I.

O abrigo de resíduos, inexistente no HMPW, deve possuir as seguintes especificações: ter construção em alvenaria, ser fechado, com aberturas teladas que possibilitem uma área de ventilação mínima correspondente a 1/20 da área do piso e não menos que 0,20 metros quadrados. Tanto o piso quanto as paredes devem ser revestidos de material liso, resistente, lavável, impermeável e possuir a cor branca. Deve possuir porta com abertura para fora e proteção interior que dificulte a entrada de qualquer vetor. Necessita apresentar ponto de água, preferencialmente quente e sob pressão, ralo sifonado, iluminação artificial interna e externa e ponto de esgoto sanitário. Sua localização deve permitir, com facilidade, a coleta interna e externa; deve possuir em local de fácil visualização o símbolo de identificação de acordo com a natureza do resíduo e ser dimensionado de forma que possa comportar o armazenamento de resíduos em quantidade igual ao de três dias de produção (NBR 7500: ABNT, 19 ).

Segundo o manual Normas técnicas para prevenção da transmissão da AIDS, "a rotina de limpeza de cada área das unidades de saúde e hospitais deve ser cuidadosamente discutida com os profissionais encarregados de executá-la, evitando-se acidentes pessoais e a contaminação entre áreas diversas". Esta rotina de limpeza não é discutida em nenhum momento com os trabalhadores do HMPW, ao contrário do que orienta a norma, a rotina de trabalho é imposta pela empresa de conservação. Sendo assim, perde-se a oportunidade de evitar acidentes e contaminações cruzadas entre áreas hospitalares diversas, como também perde-se a oportunidade de resgatar o saber operário.

Quanto ao material de limpeza necessário para a realização das tarefas, a encarregada relata, que a lavagem é feita apenas com água e sabão neutro e que "em caso de alguma infecção, são usados produtos químicos como, por exemplo, o Germiquil e Marcofem. Quem determina o uso desses produtos, é a enfermagem. Em casos de pacientes aidéticos, é usado Hipoclorito de Sódio". Além desses produtos, no processo de trabalho da coleta interna do lixo, da limpeza e conservação hospitalar, são usados panos, vassouras de piaçava (que são utilizadas apenas para lavar pisos e paredes), entre outros.

O manual normas técnicas para a prevenção da transmissão da AIDS (1989),determina que a desinfeção mecânica, que é a técnica utilizada para a limpeza de superfícies lisas contaminadas com sangue, deve ser feita com um pano de limpeza embebido em hipoclorito de sódio. Em casos onde haja contaminação grosseira, visível a olho nu, a área deverá ser inicialmente coberta com desinfetante e a mistura formada deve ser removida com um pano. Caso seja utilizado álcool, a superfície deverá ser limpa várias vezes, visto que este produto evapora rapidamente. Este procedimento de limpeza, como todos os outros, deve ser efetuado utilizando-se luvas de borracha. Como visto na norma, a utilização do Hipoclorito de sódio, deve ser uma constante, e não apenas em situações que envolvam pacientes aidéticos.

 
 
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