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Ponte, Carlos Fidelis da. Médicos, psicanalistas e loucos: uma contribuição à história da psicanálise no Brasil. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 205 p.

1. INTRODUÇÃO

Esta dissertação tem como objeto de análise a constituição e o delineamento do campo psicanalítico no Brasil no período compreendido entre as três primeiras décadas do século XX e o início dos anos oitenta. Orientada, em suas linhas gerais, pela perspectiva da sociologia das profissões e pelos estudos de Pierre Bourdieu e Robert Castel, a abordagem selecionada focaliza de modo privilegiado os processos de institucionalização e profissionalização da psicanálise, particularmente no que se refere à criação das sociedades filiadas à Associação Piscanalítica Internacional (IPA), não se detendo entretanto em aspectos relacionados à epistemologia do saber analítico enquanto disciplina.

Meu interesse por estes referenciais surgiu em 1992, ano em que ingressei na equipe do centro de documentação da Casa de Oswaldo Cruz, onde tenho participado de projetos interdisciplinares que têm por objeto de investigação as trajetórias de constituição dos campos das ciências biomédicas e da saúde. O envolvimento com estas iniciativas suscitou-me uma série de questões referidas à seleção e operacionalidade de teorias e métodos de abordagem, levando-me a perceber a análise sociológica da profissionalização da atividade científica como um recurso importante para a compreensão dos conflitos e das tendências observadas nos processos de conformação e de desenvolvimento daqueles ramos de atividades.

A opção pelo tema da investigação foi despertada pela pesquisa que realizei, entre 1991 e 1994, junto à Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, e que consistiu, num primeiro momento, na abordagem simultânea de duas frentes de trabalho distintas mas complementares: a organização do arquivo da instituição e a montagem de um programa de história oral tendo por base o registro de depoimentos de seus sócios fundadores.

No decorrer do trabalho com os depoentes e a partir do acervo arquivístico e bibliográfico que me serviu de base para a montagem dos roteiros de entrevistas, confrontei diversas interpretações sobre a história da psicanálise em nosso país. Neste percurso constatei, tanto na fala dos entrevistados quanto na documentação consultada, a ausência de uma reflexão sistematizada sobre a mudança de postura em relação aos potenciais usos da psicanálise, verificada entre o período de sua introdução no Brasil, particularmente nas décadas de 1920 e 1930, e a etapa de institucionalização e hegemonia das sociedades filiadas à Associação Psicanalítica Internacional (IPA), que se estende de meados dos anos 40 até a primeira metade da década de 1970.

Importa ressaltar que, no Brasil, durante as décadas de 20 e 30, são numerosas as referências sobre a aplicação das idéias de Freud em áreas como as da medicina, do direito, da educação, da literatura e das artes plásticas. Naquele período, a psicanálise era vista como acessível a todos aqueles que por ela se interessassem, estando portanto abertas as portas para sua incorporação por diferentes categorias profissionais, bem como para as diversas óticas sobre sua utilização no campo social. Com a institucionalização que, no caso em pauta, preconizava como condição de habilitação para o ingresso no processo de formação a posse de um diploma de medicina, restringiu-se não só o mercado psicanalítico, como também o leque de possibilidades de sua utilização e de seu desenvolvimento. Tornaram-se limitadas, dessa forma, as múltiplas aplicações que poderiam derivar de um diálogo mais intenso com diferentes tradições disciplinares.

Foi justamente a exclusão de outros segmentos profissionais deste universo o aspecto que mais chamou minha atenção. Inebriado pela imagem construída e projetada pelo discurso do saber psicanalítico, não compreendia (e sobretudo não me conformava) como uma disciplina com tamanho potencial pudesse, a priori, ser objeto de apropriação exclusiva por parte de uma única categoria que, além do mais, me parecia estranha ao conhecimento produzido pela psicanálise. Intrigava-me o fato de que a ciência nascida de uma forte contraposição aos limites da perspectiva organicista tão valorizada pela medicina estivesse presa à órbita de influência da corporação que lhe fora intensamente hostil.

Movido, entre outras razões, por esta ordem de questionamentos, me dispus a investigar os motivos que deram origem ao quadro que tanto me inquietava. Bastante entusiasmado com esta proposta de trabalho, imaginei desenvolvê-la a partir do mapeamento das várias vertentes do conhecimento psicanalítico, buscando identificar possíveis elos entre algumas delas e a tradição médica local. No entanto, cedo descobri que a tarefa a que me propus se apresentava por demais complexa e muito acima de minhas reais possibilidades. Verifiquei, por exemplo, que obviamente me faltavam os conhecimentos básicos sobre a teoria psicanalítica, imprescindíveis à realização de meus largos propósitos iniciais. Percebi então, como é comum à maioria dos menstrandos, que deveria definir melhor o objeto da pesquisa, diminuindo significativamente suas pretensões.

Neste sentido, optei por restringir meus objetivos aos processos de institucionalização e profissionalização da psicanálise no país, sem me fixar com maior profundidade em considerações sobre as discussões internas ao campo acerca da legitimidade científica das correntes abrigadas no interior das sociedades brasileiras vinculadas à Associação Psicanalítica Internacional, tomando como pressuposto que estas, apesar das críticas que lhes possam ser dirigidas representavam e ainda representam, aos olhos da sociedade e de grande parcela da intelectualidade, o saber instituído por Freud.

Deste modo, sem pretender minimizar aspectos intrínsecos à teoria e à pratica psicanalíticas, reduzindo a questão a condicionantes externos, creio que o esforço de compreensão das circunstâncias que levaram à situação de exclusão, a que me referi, deve considerar também o ambiente cultural e a organização de interesses que agiram, e ainda agem, no interior e nas fronteiras do campo psicanalítico. Neste sentido, empreender uma investigação sobre a teia de relações que abrange o surgimento e a configuração do mercado psicanalítico, bem como o processo de profissionalização do psicanalista, apresenta-se como um dos caminhos que, no meu entender, permitirão um melhor enquadramento dos usos e possibilidades da psicanálise em nosso meio.

Ao propor como tema de Dissertação de Mestrado a institucionalização e a profissionalização deste saber e sua posterior circunscrição no campo da medicina, busco localizar e compreender os canais de introdução e difusão iniciais da psicanálise no país, bem como levantar os elementos que concorreram para a exclusão temporária de outras categorias profissionais do universo da psicanálise enquanto profissão.

Para a realização dessa proposta, pretendo focalizar dois pontos que considero relevantes para a compreensão da dinâmica de relações que procurarei tecer: a constituição de um mercado para a psicanálise e a construção de sua autonomia frente às instâncias reguladoras do Estado e de outros campos de conhecimento e da sociedade.

O trabalho objetiva ainda investigar a participação da Associação Psicanalítica Internacional na etapa de institucionalização da psicanálise no Brasil, procurando verificar seu papel na constituição da legitimidade e autonomia das sociedades a ela vinculadas frente ao Estado e às demais instituições e áreas do conhecimento.

Por último, desejo manifestar minha expectativa de que este trabalho venha a contribuir para estudos comparativos em história e sociologia das profissões, assim como para a reflexão sobre o modo pelo qual a profissionalização de determinada área do conhecimento pode influir na sua conformação e alcance.

 
 
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