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Carvalho, Aline de Mesquita. Demência como fator de risco para queda seguida de fratura grave em idosos. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 82 p.

CAPÍTULO 4

RESULTADOS

 

4.1- Circunstâncias das quedas

Em relação ao período do dia em que os idosos caíram, não houve diferença significativa entre aqueles com e sem demência. A maioria das quedas (quase 90%) ocorreu nos períodos da manhã, tarde e noite, e o restante, apenas 10,22%, na madrugada (tabela 1). A quase totalidade dos idosos (99,26%) foi submetida a cirurgia em decorrência da queda e fratura.

Tabela 1: Distribuição das quedas por período do dia, entre idosos com ou sem demência.*

 

Período

Demência

Não Sim

Total

c 2

p

Manhã

28 (33,34 %)

18 (33,97 %)

46 (33,57 %)

   

Tarde

26 (30,95 %)

18 (33,96 %)

44 (32,12 %)

   

Noite

22 (26,19 %)

11 (20,75 %)

33 (24,09 %)

0,60

0,897

Madrugada

8 (9,52 %)

6 (11,32 %)

14 (10,22 %)

   

Total

84 (100,0 %)

53 (100,0 %)

137 (100,0 %)

   

*2 casos sem informação

Na tabela 2 é possível observar diferença estatisticamente significativa do local em que ocorreu a queda, entre os grupos de idosos com ou sem quadro indicativo de demência. Entre os idosos suspeitos de demência, 77,78% caíram em casa, enquanto no outro grupo, essa proporção foi de 55,29%.

 

Tabela 2: Distribuição das quedas por local de ocorrência, entre idosos com e sem demência.

 

Local da queda

Demência

Não Sim

Total

c 2

p

Casa

47 (55,29 %)

42 (77,78 %)

89 (64,03 %)

   

Rua

29 (34,12 %)

12 (22,22 %)

41 (29,50 %)

9,91

0,007

Outros

9 (10,59 %)

0

9 (6,47 %)

   

Total

85 (100,0%)

54 (100,0 %)

139 (100,0 %)

   

 

Entre os 139 casos, 96 precisam usar óculos, dos quais cerca de 70% não estavam fazendo uso do mesmo no momento da queda.

Em relação ao cômodo de ocorrência, as quedas aconteceram principalmente no próprio quarto, na sala e na área externa. Entretanto, é importante assinalar que, enquanto 20% dos idosos com demência caíram no banheiro, isso só foi observado em 7,8% dos idosos sem demência (RR=2,6; IC=0,83 – 7,87, p=0,09). Outra diferença importante observada na tabela 3 é que entre idosos com demência apenas 7,5% caíram na área externa contra 35,3% dos idosos sem demência, resultado coerente com o observado na tabela 2. Vale ressaltar que houve perda dessa informação entre 48 idosos.

Tabela 3: Distribuição das quedas por cômodo de ocorrência, entre idosos com e sem demência.*

 

Cômodo

Demência

Não Sim

Total

c 2

p

Próprio Quarto

9 (17,65 %)

10 (25,0 %)

19 (20,87 %)

   

Sala

9 (17,65 %)

9 (22,5 %)

18 (19,78 %)

   

Cozinha

6 (11,76 %)

7 (17,50 %)

13 (14,29 %)

   

Banheiro

4 (7,84 %)

8 (20,00 %)

12 (13,19 %)

11,37

0,045

Corredor

2 (3,92 %)

2 (5,00 %)

4 (4,40 %)

   

Área externa

18 (35,30 %)

3 (7,50 %)

21 (23,07 %)

   

Varanda

3 (5,88 %)

1 (2,50 %)

4 (4,40 %)

   

Total

51 (100,0 %)

40 (100,0 %)

91 (100,0 %)

   

*48 casos sem informação.

No que diz respeito às atividades realizadas no momento da queda, o que se destaca nos dois grupos é o elevado número de quedas enquanto os idosos andavam, cerca de 50% do total, seguido com grande diferença pela atividade subindo ou descendo escada, que ocorreu em aproximadamente 16% das quedas. Algo em torno de 18% dos idosos com demência caiu enquanto passava da posição sentada para a de pé (levantando), sendo que esse número foi de 4,71% entre os idosos sem demência (RR=3,9; IC=1,30 – 11,92, p=0,008).

Tabela 4: Distribuição das quedas por atividade/posição no momento da ocorrência, entre idosos com e sem demência.

 

Atividade

Demência

Não Sim

Total

c 2

p

Parado

9 (10,59 %)

5 (9,26 %)

14 (10,07 %)

   

Andando

43 (50,59 %)

25 (46,30 %)

68 (48,91 %)

   

Andando e virando o corpo

4 (4,71 %)

1 (1,85 %)

5 (3,60 %)

   

Da posição sentada para de pé

4 (4,71 %)

10 (18,52 %)

14 (10,07 %)

10,52

0,230

Sentando

2 (2,35 %)

2 (3,70 %)

4 (2,88 %)

   

Deitando

2 (2,35 %)

1 (1,85 %)

3 (2,16 %)

   

Subindo/ descendo escada

13 ( 15,29%)

9 (16,67 %)

22 ( 15,83%)

   

Correndo

2 (2,35 %)

0 (0,00 %)

2 (1,44 %)

   

Outras

6 (7,06 %)

1 (1,85 %)

7 (5,04 %)

   

Total

85 (100,0 %)

54 (100,0 %)

139 (100,0 %)

   

O percentual de quedas ocorridas em superfície molhada foi de 26,67%, e daquelas causadas por tropeço foi de 23,53%, sendo que em ambos os casos não houve diferença significativa para o caso de apresentar ou não demência. Do total de idosos que caíram, 55,8% estavam usando chinelos.

Os ossos mais fraturados foram fêmur (55,8%), braços, mãos e/ou cotovelos (13,04%), perna e/ou tornozelo (9,42%), joelhos (5,8%) e bacia (4,35%).

4.2- Características de casos e controles

4.2.1- Variáveis sócio-demográficas

Na tabela 5 são apresentadas as distribuições de freqüência de algumas variáveis sócio-demográficas para casos e controles. Através das variáveis sexo e idade é possível verificar a eficácia do pareamento adotado. Em relação à primeira variável, 26,62% dos casos e 27,48% dos controles são do sexo masculino. A pequena diferença ainda encontrada (estatisticamente não significativa) foi devido à não formação de algumas tríades. No caso da idade, foi encontrada uma média de 70,8 anos entre os casos (DP=7,13) e 69,9 anos entre os controles (DP=7,13), com t=1,24 e p=0,22.

Numa primeira análise exploratória, somente duas variáveis sócio-demográficas apresentaram diferenças significativas entre casos e controles: estado conjugal e morar sozinho. Em relação ao estado conjugal, entre os controles mais da metade eram casados, enquanto entre os casos essa proporção foi de 28,06%. Portanto, entre os casos o número de idosos que viviam com um(a) companheiro(a) era bem menor que entre os controles. E ainda, cerca de 1/5 dos casos moravam sozinhos, contra 1/10 dos controles.

Cerca de 13% do grupo estudado não era alfabetizado, não se observando diferença entre casos controles. A categoria de escolaridade primário (incompleto e completo) concentrou cerca de 80% dos idosos. Dezesseis por cento trabalhava, e 50% obtinha seu sustento pela aposentadoria, seguidos por aqueles que recebem pensão (45%). Neste ítem, sustento financeiro, as diferenças observadas são em relação ao sexo. Dentre os homens, 83,78% recebia aposentadoria contra 37,2% das mulheres (c 2=69,9 e p=0,000). Já aqueles que recebiam pensão representavam 61% das mulheres e apenas 3,6% dos homens (c 2=107,4 e p=0,000). E ainda, 12% das mulheres e 27% dos homens trabalhavam (c 2=15,7 e p=0,000). Vale lembrar que neste ítem mais de uma opção poderia ser escolhida.

Tabela 5: Características sócio-demográficas de casos e controles

 

Variável

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

Sexo

Masculino

Feminino

37

102

26,62

73,38

74

191

27,92

72,08

0,01

0,780

Idade

60 ------ 64

65 ------ 69

70 ------ 74

75 ------ 79

80 ------ 84

85 ------ 90

 

32

35

27

26

15

4

 

23,02

25,18

19,42

18,71

10,79

2,88

 

70

67

56

45

21

6

 

26,43

25,28

21,13

16,98

7,92

2,26

 

 

1,68

 

 

 

0,891

Estado conjugal

Casado

Viúvo

Separado

Nunca Casou

 

39

63

16

21

 

28,06

45,32

11,51

15,11

 

133

96

19

17

 

50,18

36,23

7,17

6,42

 

 

38,25

 

 

0,000

Alfabetizado

Sim

Não

 

116

23

 

83,45

16,55

 

234

31

 

88,30

11,70

 

1,85

 

0,174

Escolaridade

Primário incompleto

Primário

Ginásio

Científico

Universitário

 

43

45

13

11

2

 

37,72

39,48

11,40

9,65

1,75

 

103

88

18

22

1

 

44,40

37,93

7,76

9,48

0,43

 

 

 

3,54

 

 

 

0,473

 

Tabela 5 (Continuação)

 

Variável

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

Mora sozinho

Sim

Não

29

110

20,86

79,14

25

240

9,43

90,57

10,29

0,001

Trabalha

Sim

Não

 

18

121

 

12,95

87,05

 

47

218

 

17,74

82,26

 

1,55

 

0,214

Sustento financeiro*

Trabalho

Aposentadoria

Pensão

Ajuda

Aluguéis/Investimentos

Outras fontes

 

19

71

56

47

5

2

 

13,67

51,08

40,29

33,81

3,60

1,44

 

47

131

127

72

8

4

 

17,80

49,43

47,92

27,17

3,02

1,51

 

1,14

0,10

2,15

1,94

0,10

0,00

 

0,286

0,753

0,143

0,164

0,754

0,956

*Mais de uma opção poderia ser escolhida.

4.2.2- Variáveis antropométricas e ligadas à saúde

Entre as variáveis ligadas à saúde o Índice de Massa Corporal categorizado apresentou alguma diferença entre casos e controles, com valor de p limítrofe (0,050). Houve um maior número de idosos abaixo do peso e com peso normal entre os casos do que entre os controles (somando as duas categorias, 60,61% e 43,69%, respectivamente). Já entre os controles houve um maior número de idosos com sobrepeso e obesos (somadas as 3 categorias, obesidade I, II e III). Sendo assim, os idosos acima do peso foram mais freqüentes entre os controles que entre os casos (respectivamente, 56,31% e 39,39%).

As médias do IMC entre os casos foi de 24,67 (DP=4,35) e entre os controles 26,01 (DP=4,73), com teste t=2,37 e valor de p=0,02.

Aproximadamente 60% dos idosos disseram ter uma saúde boa, seguidos daqueles que consideraram sua saúde razoável (29%). Dentre os problemas de saúde mais comuns nestes grupos estão o reumatismo (55%), a hipertensão (44,67%), diabetes e problemas de coração (ambos com cerca de 18%).

 

Tabela 6: Variáveis antropométricas e ligadas à saúde entre casos e controles

Variáveis

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

IMC*

Baixo peso

Eutrófico/Normal

Sobrepeso

Obesidade I

Obesidade II

Obesidade III

6

54

26

12

1

0

6,06

54,55

26,26

12,12

1,01

0,00

5

85

83

24

8

1

2,43

41,26

40,29

11,65

3,88

0,49

 

 

11,08

 

 

 

0,050

Saúde

Excelente

Boa

Razoável

Ruim

 

14

86

32

2

 

10,45

64,18

23,88

1,49

 

21

152

83

7

 

7,98

57,80

31,56

2,66

 

 

3,56

 

 

0,314

Tonteiras

Sim

Não

 

37

102

 

26,62

73,38

 

65

200

 

24,53

75,47

 

0,21

 

0,646

Problemas de Saúde**

Diabetes

Coração

Hipertensão

Hipotensão

Derrame

Parkinson

Epilepsia

Labirintite

Reumatismo

 

 

24

24

56

8

15

2

1

12

69

 

 

17,39

17,27

40,58

5,80

10,79

1,44

0,72

8,63

49,64

 

 

51

50

124

16

18

1

2

30

153

 

 

19,25

18,87

46,79

6,04

6,79

0,38

0,76

11,32

57,74

 

 

0,21

0,16

1,42

0,01

1,94

1,39

0,00

0,71

2,41

 

 

0,650

0,693

0,234

0,923

0,163

0,238

0,966

0,400

0,120

Tabela 6 (Continuação)

 

Variáveis

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

Osteoporose

Sim

Não

 

16

120

 

11,76

88,24

 

28

235

 

10,65

89,35

 

0,11

 

0,735

Incontinência urinária

Sim

Não

 

 

44

94

 

 

31,88

68,12

 

 

79

186

 

 

29,81

70,19

 

 

0,18

 

 

0,668

* IMC= peso/(altura)2.

**Mais de uma opção poderia ser escolhida

4.2.3- Atividades da vida diária

Houve diferenças estatisticamente significativas entre casos e controles quanto à proporção dos idosos capazes de realizar a maior parte dos ítens pesquisados no que se refere às atividades da vida diária. Os controles mostraram-se mais autônomos, com exceção do item "cortar as unhas dos pés", no qual a diferença entre os dois grupos não foi significativa.

Tabela 7: Realização de atividades da vida diária entre casos e controles

 

Variáveis

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

Sair de casa utilizando transporte

105

75,54

225

85,23

5,76

0,016

Sair de casa para curtas distâncias

107

76,98

241

90,94

14,89

0,000

Preparar própria refeição

117

84,17

250

94,34

11,33

0,001

Comer sua refeição

128

92,09

264

99,62

17,97

0,000

Arrumar casa/cama

119

85,61

242

91,32

3,13

0,077

Tomar remédios

119

85,61

258

97,36

20,17

0,000

Vestir-se

127

91,37

262

98,87

14,35

0,000

Pentear cabelos

127

91,37

264

99,62

19,95

0,000

Caminhar em superfície plana

129

92,81

264

99,62

16,00

0,000

Subir/descer escadas

108

77,70

225

84,91

3,27

0,071

Deitar e levantar da cama

128

92,09

263

99,25

15,01

0,000

Tomar banho

125

89,93

264

99,62

23,97

0,000

Cortar unhas dos pés

98

70,50

204

76,98

2,03

0,155

Pegar ônibus

98

70,50

210

79,25

3,85

0,050

Ir ao banheiro em tempo

116

83,45

241

90,94

4,98

0,026

 

4.2.4- Riscos domiciliares (tapetes)

Em relação à presença de riscos domiciliares (tapetes) houve apenas dois ítens com diferença entre casos e controles, e ainda assim com significância limítrofe, que foram a presença de tapete no corredor (p=0,095) e na varanda (p=0,087), ambos com maior ocorrência entre os controles. Não foi encontrada diferença significativa entre número de tapetes nos cômodos de idosos com e sem demência.

Tabela 8: Existência de tapetes em diferentes cômodos da casa entre casos e controles

 

Variáveis

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

Próprio quarto

28

20,44

50

19,01

0,12

0,733

Outro quarto

14

10,22

26

9,92

0,01

0,926

Sala

52

37,96

105

39,92

0,15

0,702

Banheiro

51

37,23

93

35,36

0,14

0,712

Corredor

5

3,65

21

7,98

2,79

0,095

Cozinha

39

28,47

76

28,90

0,01

0,928

Varanda

6

4,38

24

9,13

2,93

0,087

 

4.2.5- Quedas e fraturas

Investigando preliminarmente a ocorrência de quedas e fraturas no ano anterior, houve uma diferença estatisticamente significativa apenas nas quedas, que ocorreram em 48,92% dos casos e 32,08% dos controles. Dentre os que caíram no ano anterior, não houve diferença no número médio de quedas entre casos e controles - respectivamente 2,10 (DP=1,48) e 2,13 (DP=1,97), p=0,52. Ao menos nessa etapa da análise, não parece haver variação na ocorrência de fraturas no ano anterior entre os dois grupos.

 

Tabela 9: Quedas e fraturas no último ano, entre casos e controles

 

Variáveis

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

Quedas no ano anterior*

Sim

Não

 

68

71

 

48,92

51,08

 

85

180

 

32,08

67,92

 

11,00

 

0,001

Fraturas no ano anterior

Sim

Não

 

 

15

1122

 

 

10,95

89,05

 

 

17

240

 

 

6,61

93,39

 

 

2,25

 

 

0,134

* Variável dicotomizada a partir da variável contínua número de quedas no ano anterior.

4.2.6- Uso de tabaco, cafeína e álcool

Entre os casos, 21,58% fazem uso de tabaco, 97,12% de café e 31,65% de álcool, enquanto entre os controles esses números são respectivamente 12,83%, 87,55% e 23,77%. Além disso, o consumo de álcool nas 24 horas anteriores à queda é cerca de 2,5 vezes maior entre os casos.

Tabela 10: Consumo de tabaco, café e álcool entre casos e controles.

 

Variáveis

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

Tabaco

30

21,58

34

12,83

5,24

0,022

Café

131

97,12

232

87,55

4,49

0,034

Álcool

44

31,65

63

23,77

2,91

0,088

Freqüência do uso de álcool

< 1dia/semana

1-2 dias/semana

3-4 dias/semana

5-6 dias/semana

Todos os dias

 

 

23

12

1

2

5

 

 

53,48

27,91

2,33

4,65

11,63

 

 

38

11

2

0

12

 

 

60,32

17,46

3,17

0,00

19,05

 

 

 

5,37

 

 

 

0,252

Álcool 24 h antes da internação

Sim

Não

 

 

12

127

 

 

8,63

91,37

 

 

9

256

 

 

3,40

96,60

 

 

5,07

 

 

0,024

 

4.2.7- Uso de medicamentos

A freqüência do consumo de alguns medicamentos nas 24 horas anteriores à queda variou entre casos e controles. A proporção de usuários de dois tipos de medicamentos foi superior entre os casos: benzodiazepínicos e miorrelaxantes. Entretanto, os medicamentos diuréticos, digitálicos e anti-ácidos foram mais consumidos entre os controles. Nos outros não foi encontrada diferença estatisticamente significativa.

Em todo o grupo estudado, os remédios mais consumidos foram analgésicos (32,26%), bloqueadores de canais de cálcio (17,66%), anti-inflamatórios (14,43%) e diuréticos (14,18%), inibidores da ECA (11,66%), miorrelaxantes (10,20%) e benzodiazepínicos (9,95%).

Tabela 11: Consumo de medicamentos nas 24 horas que antecederam a queda, entre casos e controles

 

Variáveis

Casos

N %

Controles

N %

c 2

p

Anti-ácido

4

2,88

19

7,22

3,19

0,074

Anti-alérgico

0

0,00

2

0,76

1,06

0,303

Alfa-bloqueador

4

2,88

11

4,18

0,43

0,511

Anti-depressivo

1

0,72

3

1,14

0,16

0,686

Anti-gripal

1

0,72

1

0,38

0,21

0,646

Anti-inflamatório

23

16,55

35

13,31

0,77

0,379

Analgésico

43

30,94

87

32,95

0,17

0,680

Beta-bloqueador

7

5,04

16

6,08

0,19

0,667

Bloqueador de canais cálcio

30

21,58

41

15,59

2,25

0,134

Benzodiazepínico

19

13,67

21

7,98

3,28

0,070

Cálcio

1

0,72

3

1,14

0,16

0,686

Colírio (glaucoma)

1

0,72

2

0,76

0,00

0,964

Diurético

10

7,19

47

17,87

8,52

0,004

Digitálico

0

0,00

7

2,66

3,77

0,052

Inibidor da ECA

14

10,07

33

12,50

0,52

0,470

Laxante

2

1,44

10

3,80

1,75

0,185

Miorrelaxante

19

13,67

22

8,37

2,79

0,095

Nitratos

4

2,88

8

3,04

0,01

0,927

Vitamina D

1

0,72

1

0,38

0,21

0,646

Vasodilatador

5

3,60

4

1,52

1,79

0,181

Outros

43

30,94

88

33,33

0,24

0,625

* 2 idosos não haviam tomado medicamento no dia anterior.

4.3- Associação entre demência e queda seguida de fratura

A análise bivariada mostrou associação positiva entre a presença de demência e quedas seguidas de fraturas graves em idosos. O odds ratio (OR) foi de 2,0 (IC 95%=1,23 – 3,25; p=0,005).

4.3.1- Variáveis potenciais de confusão ou interação

O OR acima referido foi obtido sem que houvesse controle de outras variáveis que pudessem estar interferindo na relação entre demência e queda seguida de fratura. Para uma melhor investigação de tal relação, foram selecionadas inicialmente todas as variáveis estudadas cuja associação com a variável resposta (queda) apresentasse um OR significativo (p<0,05) ou com nível de significância limítrofe (0,06<p<0,10). Em seguida foram calculadas os OR entre tais variáveis e demência (como variável dependente) somente no grupo de controles, o qual deve representar a experiência de exposição na base populacional de onde vieram os casos. Os resultados obtidos podem ser vistos na tabela 12. As variáveis cujos OR foram estatisticamente significativos, ou alcançaram significância limítrofe para a associação com demência e quedas foram consideradas como variáveis potenciais de confusão para esse estudo. Estado conjugal, auto-avaliação da saúde, quedas no ano anterior, consumo de álcool e uso de anti-ácido nas últimas 24 horas foram as variáveis que preencheram os critérios acima.

 

Tabela 12: Associação de queda e de demência (no grupo controle) com variáveis potenciais de confusão.

 

Variável

Queda

Demência*

OR

IC 95%

p

OR

IC 95%

p

Estado Conjugal

Casado

Viúvo

Separado

Nunca casou

 

1,00

2,41

2,92

4,30

--------

1,361- 4,252

1,318 - 6,454

1,973 - 9,392

-------

0,003

0,008

0,000

 

1,00

4,04

1,06

1,74

 

-----------------

2,160 - 7,540

0,283 - 3,972

0,515 - 5,873

 

--------

0,000

0,932

0,373

Mora sozinho

2,43

1,344 – 4,406

0,003

1,44

0,593 - 3,516

0,419

Saúde **

0,64

0,397 – 1,027

0,064

2,26

1,273 – 3,995

0,005

Obesidade***

1,93

1,125 - 3,326

0,017

0,64

0,327 - 1,247

0,189

Reumatismo

0,63

0,395 - 1,009

0,055

0,80

0,460 - 1,404

0,443

Quedas no ano anterior

1,80

1,236 - 2,841

0,003

1,63

0,916 - 2,899

0,097

Fumo

2,01

1,122 - 3,585

0,019

1,074

0,474 - 2,433

0,865

Café

2,53

1,091 - 5,881

0,031

0,54

0,252 - 1,176

0,122

Álcool

1,83

1,068 - 3,150

0,028

0,30

0,127 - 0,686

0,005

Álcool (24h)

3,22

1,185 - 8,767

0,022

0,84

0,170 - 4,144

0,830

Anti-ácido

0,35

0,112 – 1,101

0,073

****

****

****

Benzodiazepínico

1,92

0,972 – 3,798

0,061

0,68

0,221 - 2,108

0,507

Diurético

0,35

0,169 – 0,731

0,005

1,52

0,761 - 3,021

0,236

* somente entre os controles

** 2 categorias: saúde razoável e ruim contra saúde ótima e boa

*** 2 categorias: magro(ou abaixo do peso) e acima do peso(ou obeso)

****não foi possível o cálculo do OR, pela presença de células vazias

Para investigar o papel de cada uma dessas 5 variáveis sobre a associação entre demência e queda seguida de fratura, estas foram incluídas isoladamente num modelo de regressão logística. Comparou-se então o OR não ajustado com aquele obtido na regressão. Esses resultados encontram-se na tabela 13. Observa-se que, ao se controlar pelas variáveis "estado conjugal" e "uso de anti-ácido" nas últimas 24 horas, o OR sofreu uma redução de aproximadamente 10% da sua magnitude. A variável "quedas no último ano" alterou pouco o OR bruto. Portanto, essas variáveis, quando não controladas, provocavam um aumento discreto na força da associação entre demência e queda seguida de fratura. O oposto foi observado para as variáveis "uso de álcool" e "estado de saúde geral".

 

Tabela 13: Odds Ratio bruto e ajustado por cada uma das variáveis de confusão

 

Variáveis

OR

IC 95%

p

Demência

2,00

1,23 – 3,24

0,005

Demência e estado conjugal

1,81

1,09 – 3,02

0,023

Demência e quedas no ano anterior

1,92

1,18 – 3,15

0,009

Demência e saúde

2,20

1,32 - 3,67

0,003

Demência e álcool

2,13

1,30 – 3,48

0,003

Demência e Anti-ácido

1,85

1,12 – 3,05

0,015

 

Após investigar-se o papel de cada variável potencial de confusão isoladamente, construiu-se um modelo logístico onde incluíram-se essas variáveis visando controlar para a ocorrência de efeito conjunto de confusão - joint confounding (Kleinbaum et al, 1982). Através desse modelo obteve-se um OR de 1,82, cujo intervalo de confiança de 95% excluiu o valor nulo (Tabela 14). Não se observou a presença de interação multiplicativa de demência com nenhuma das variáveis presentes na tabela 13, nem com as variável idade e sexo.

Com o intuito de melhorar a precisão do OR estimado investigou-se o efeito da retirada das co-variáveis do modelo sobre a magnitude da associação e sobre a amplitude do seu intervalo de confiança. Embora a retirada das co-variáveis, de modo geral, não tenha produzido alterações importantes sobre a magnitude do OR obtido no modelo saturado (ver tabela 14), optou-se por manter essas variáveis no modelo já que não houve um ganho importante na precisão dessa estimativa, conforme também se pode observar na tabela 14. Em síntese, optou-se por uma postura mais conservadora (cautelosa), de apresentar a associação entre demência e queda seguida de fratura grave, controlando-se por variáveis potenciais de confusão, sem prejuízo para a precisão desse resultado. Assim, concluiu-se pela presença de uma associação entre demência e quedas seguidas de fraturas graves (OR=1,82; IC95% 1,03 - 3,23; p=0,04) que independe do sexo, idade, estado conjugal, estado de saúde, consumo de álcool, consumo de anti-ácido nas últimas 24 horas e ocorrência de quedas no ano anterior.

Tabela 14: Odds Ratio obtidos num modelo de regressão logística saturado e OR do mesmo modelo sem cada uma das co-variáveis

 

Modelo

OR

IC 95%

p

Saturado

1,82

1,03 - 3,23

0,040

Sem estado conjugal

1,99

1,16 – 3,43

0,013

Sem quedas no ano anterior

1,94

1,10 – 3,40

0,021

Sem saúde

1,67

0,97 – 2,88

0,065

Sem álcool

1,76

1,00 – 3,10

0,051

Sem Anti-ácido

2,05

1,18 – 3,57

0,011

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