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Pietrukowicz, Marcia Cristina Leal Cypriano. Apoio social e religião: uma forma de enfrentamento dos problemas de saúde. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 117 p.

Capítulo IV:

Análise Final e Conclusão

4.1 - Discussão

A análise aqui apresentada, refere-se aos resultados tanto das entrevistas, quanto dos dados obtidos na observação participante, e registrados em diário de campo.

As atividades da casa espírita se subdividem em duas linhas de trabalho:

  • Social - com atividades voltadas a prestar assistência através da caridade, que é um dos fundamentos da doutrina.
  • Espiritual - que são os trabalhos voltados para o âmbito espiritual, através da doutrinação, esclarecimentos sobre a doutrina, o estudo e o desenvolvimento da mediunidade.

Espiritual e social trabalham juntos.

O objetivo das atividades é o esclarecimento, fazer com que cada pessoa entenda a si mesmo e a vida - é o crescimento interior da pessoa - fazer ela refletir sobre os seus problemas, dar apoio, acolhida às pessoas e as suas demandas.

Funciona como uma espécie de lar, onde acolhe, abriga, acalenta - seria esse um dos objetivos.

Isso é feito da seguinte maneira:

  • A pessoa chega pela primeira vez à casa, é encaminhada para o plantão de entrevistas, que através da conversa, do diálogo fraterno, se recomenda, que ela faça o tratamento das oito semanas consecutivas, assistindo à preleção e recebendo o passe (reunião pública) ou, se for um caso de cirurgia espiritual, esta é encaminhada na 4a semana do tratamento do passe. É feita a cirurgia na própria casa espírita. Dependendo do caso e da conversa, também se recomenda que ela participe de alguma atividade social da casa.

As conversas do plantão de entrevistas são individuais, e nelas relatam-se as mais diversas ordens de problemas: saúde, separação, mortes, filhos, emprego, conflitos, etc.

Um fato relevante é com relação à identificação, o acolhimento e o sentimento de pertencimento que as pessoas buscam e acabam encontrando. Antes de começar as atividades, as pessoas na medida em que vão chegando, se cumprimentam, conversam, algumas até expõem os seus problemas. A pessoa que fica responsável pela recepção é sempre a mesma naquele horário, assim, as pessoas acabam, encontrando nela um referencial. Chegam, a cumprimentam, conversam com ela, falam das suas dificuldades, dos seus progressos, e quando esta por algum motivo não está, logo perguntam o que aconteceu para ter faltado.

É interessante o clima entre as pessoas e o ambiente na casa espírita. Você se sente em um local tranqüilo, calmo, as pessoas conversam mais moderadamente, risos são dados mas sem escândalos, é um clima mesmo de paz e tranqüilidade, num local onde às vezes nos assustamos porque ouvimos tiroteios, já que o fundo da instituição dá para a favela.

Os temas das preleções são diversos, porém sempre ligados ao Evangelho segundo o Espiritismo e às passagens bíblicas. Porém, sempre reforçam a importância de se ter bons hábitos, um comportamento moral adequado, praticar o bem e a caridade, não alimentando sentimentos negativos como a raiva, a angústia, a tristeza, a desarmonia, o egoísmo, etc., porque esses sentimentos só trazem negatividade para o ser humano. O enfoque de saúde está no equilíbrio entre os sentimentos e as emoções, e o corpo. Nas preleções isso é muito falado, e alguns dizem que a partir do momento em que a mente é acometida desses sentimentos negativos, desequilibra o corpo sendo um passaporte para as doenças. O emocional, assim como os comportamentos, são evidenciados nas preleções.

Em dias de ciclos de estudos, antes de começar a atividade, se percebe um clima de alegria e descontração entre as pessoas que participam. No momento do canto não é obrigatória a participação, mas os dirigentes estimulam as pessoas a irem para o salão porque em seguida é lida a crônica espírita, logo depois são dados os avisos e é feita a prece, e todos devem estar presentes. Alguns chegam em cima da hora da prece porque estão vindo do trabalho.

Muitas pessoas que estão ali participando dos ciclos de estudos, vieram à casa a fim de resolverem os seus males ou por curiosidade. Vieram em busca de paz ou de esclarecimentos, por intermédio de alguém, um parente, amigo, vizinho, trabalhador da casa, e passaram a freqüentar as reuniões públicas, a partir do despertar do interesse em participar dos ciclos de estudos, como uma forma de buscar o conhecimento e esclarecimento sobre a doutrina, e de estarem mais em contato com a casa espírita.

Na cirurgia espírita existe todo um preparo, tanto dos pacientes quanto do ambiente, para que a cirurgia possa acontecer. Mais do que preparar o local, os médiuns também devem estar bem preparados emocionalmente para atuarem nessa atividade. Por exemplo, nos dias de passe eles não devem comer carne, e sim fazer uma alimentação leve para passar bons fluidos para os pacientes.

O início de uma sessão espírita requer a existência de um ambiente espiritual adequado, garantido pela conduta e ação dos espíritos, pelos procedimentos rituais da fase inicial das sessões e pela presença de forças espirituais amigas e protetoras. Assim, são recomendados leitura de uma mensagem, o silêncio, a prece seguida de pouca luz e a atenção às palavras do dirigente, ou seja, reflexão em tudo aquilo que está sendo dito.

A pontualidade é extremamente valorizada. Em todas as salas há relógios e pontualmente as atividades têm o seu início.

Todas as sessões são oferecidas semanalmente. No caso das reuniões públicas que são abertas a todos, são oferecidas em dois ou três turnos.

Existe uma classificação para as pessoas que vão ao centro espírita: os freqüentadores que vêm ouvir e participar das atividades, e os colaboradores que trabalham nelas. Dos que freqüentam a instituição, a maioria acaba se tornando espírita, passando a freqüentar mais as atividades, se tornando um dos colaboradores com o tempo. Os colaboradores, estes se já não vieram de outra casa espírita, se tornaram espíritas após conhecerem a instituição e começarem a participar dos estudos se tornando médium da casa.

A mediunidade, segundo Cavalcanti (1983), se refere ao permanente contato que se exerce de diversos modos, indo de maior a menor intensidade de relação entre espírito encarnado e desencarnado. O médium é a figura central mediadora entre o plano espiritual e o material.

No espiritismo as doenças são explicadas a partir de uma visão segundo a doutrina. Por exemplo, as doenças que implicam num defeito físico, normalmente são entendidas como cármicas, ou seja, é o resultado de ações más e são simultaneamente punições e redenção de crimes e maldades cometidos em vidas anteriores. É o que eles chamam de resgate de vidas passadas, e que por isso o indivíduo tem que passar, estando presente a idéia de merecimento, da fé em obter a cura e de se curar de todos os males, e evoluir espiritualmente.

A água fluidificada é destinada a equilibrar a mente e restaurar as energias. É uma espécie de remédio que deve ser tomado como tal, em pequenas doses durante o dia, assim, a pessoa adquiriu equilíbrio e paz. É utilizada sempre que uma pessoa está doente ou quando precisa melhorar a harmonia do lar, mudar o comportamento desviante e as atitudes.

O princípio do tratamento do passe é uma forma de harmonização do ser humano, através da imposição das mãos de um médium no receptor. Segundo Gomes (1999:7-8), o passe é um recurso terapêutico no auxílio às pessoas, sendo um instrumento de transmissão de energias dentro da visão espírita.

O passe é uma transmissão de energias positivas de uma pessoa para outra. É uma troca fluidica entre o plano espiritual e o material. Segundo Cavalcanti (1983:102), existem três tipos de passe:

  1. O passe espiritual, que é dado pelos espíritos que com seus fluidos, atuam diretamente sobre o espírito encarnado;
  2. O passe magnético, onde as energias transmitidas são do próprio médium, que doa seu fluido positivo;
  3. O passe mediúnico, no qual a figura do médium é central, sendo o veículo para os fluidos que os espíritos doam. Porém, nesta transmissão, o médium acaba doando um pouco dos seus próprios fluidos. Também se chama magnetismo misto.

Assim, o passe tem duplo sentido: o físico (orgânico) e o moral (espiritual), como uma espécie de socorro fraterno aos que sofrem do corpo e da alma.

Cavalcanti (1983: 139), diz que os espíritas defendem-se se distinguindo de religiões que adotam rituais, sacrifícios, pais-de-santo, cultos fetichistas, magia-negra ou macumba. Os espíritas valorizam a sua vertente cristã. Assim, o Kardecismo e a Umbanda se diferenciam em suas concepções particulares do que seja pessoa humana e do mundo em que ela existe.

... o espiritismo é antes uma experiência social na qual se produz e se problematiza um determinado comportamento individual. Pois é exatamente a concepção distinta do que seja o comportamento individual, do que seja o indivíduo portador de seu comportamento, o que distingue, entre outras coisas, o Espiritismo da Umbanda. A experiência da mediunidade no espiritismo remete à concepção da pessoa nessa religião (Cavalcanti, 1983:138).

Analisando os resultados das entrevistas, a demanda da instituição é bem diversificada, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, o que as pessoas vêm buscar são questões que de certa forma, pode estar relacionadas com a saúde e o bem estar do indivíduo. A busca é por resoluções, paz e tranqüilidade, meios que possam proporcionar um bem estar físico a partir do controle das emoções. Num primeiro momento, essa busca está relacionada com a paz interior, a calma e a tranqüilidade, fatores que proporcionam bem estar ao corpo físico.

Esta busca está em torno de questões que a medicina e os centros de saúde não proporcionam, pois de certa forma, não há "remédio" para algumas aflições como os conflitos familiares, o alcoolismo, o vício em drogas, o desemprego, questões relacionadas ao cotidiano da vida das pessoas. É a busca pelo conforto e a solidariedade, do apoio social que vai repercutir no bem estar e no sentido para a vida. Esses aspectos de alguma forma, os espaços religiosos procuram abarcar através das atividades desenvolvidas dentro e fora do âmbito institucional.

Alguns autores como Arrossi (1994), Barrios (1999b), Dressler (1994), Andrews et al., (1978 apud Arrossi, 1994) e Spiegel (1997), trabalham com a categoria de apoio social, remetem à importância do apoio oferecido entre familiares, parente e amigos, e o quanto estas relações favorecem o indivíduo no enfrentamento de seus problemas. Assim, no que se refere aos meios pelos quais as pessoas recorrem em momentos de angústia, tristeza e ansiedade, a resposta foi pela procura por meios ou símbolos religiosos como: Deus, Jesus, Maria, prece, porque são meios utilizados pela religião nos momentos de dificuldades, mas também utilizados em momentos de agradecimentos, de alegrias, pois trazem o conforto de se pensar positivo para pedir coisas boas, e o meio pelo qual a fé se estabelece e fortalece os seres humanos. Como aborda Parker (1996), a fé está ligada à vida concreta.

No espiritismo se evidencia muito a prece, pois ela faz parte de todas as atividades realizadas na casa espírita, seja qual for, atividade social e principalmente espiritual. A prece é valorizada e incentivada na medida em que é um veículo de diálogo com Deus e Jesus, é o meio de se obter forças, energias vindas do céu e "luz para superar as dificuldades e encontrar respostas para as suas questões".

Nos momentos de fragilidade, há sempre alguém ou algo a quem recorrer, a quem se apoiar, e esse apoio de forma sistemática, é a possibilidade de contornar esses momentos difíceis. Segundo Spiegel (1997), a presença de amigos e de pessoas queridas pode proteger o organismo das conseqüências do estresse; e quanto mais amigos melhor, pois de alguma forma as pessoas têm a possibilidade de trocarem experiências, se sentem menos sozinhas e desprotegidas, e podem se ajudar mutuamente.

A percepção sobre o tipo de apoio que recebem da instituição, demonstrou que essa ajuda é do tipo emocional, sentimental, no sentido em que se sentem acolhidos, e no clima de solidariedade e amizade presentes entre as pessoas da casa. Alguns falam de ajuda espiritual, que seria através do "fornecimento de energias positivas" para o indivíduo.

No momento em que se encontra um espaço com as portas abertas, o apoio, o acolhimento e, principalmente, a possibilidade de um lugar com alguém que vai ouvi-lo, orientá-lo, proporcionando conforto e bem estar, a partir do momento em que ela não se sente sozinha e que pode contar com a ajuda das pessoas que estão ali. Evidenciam a busca pelo apoio emocional, educacional ou informativo.

A instituição, no nosso entender, oferece os três tipos de apoio que abordamos no capítulo 1 deste trabalho. O apoio instrumental ou material, é oferecido nas atividades voltadas a dar assistência à comunidade local, ou seja, alimentação, vestimentas, brinquedos e utensílios de casa, instrumentos necessários que ajudam essas famílias carentes.

O apoio educacional é oferecido através de palestras, preleções, entrevistas, que têm a finalidade de trabalhar questões pertinentes, de cunho educativo e informativo.

O apoio emocional é oferecido nas atividades como: aulas de trabalhos manuais, reuniões públicas, entrevistas, ciclos de estudos, que de certa forma, as pessoas que participam estão buscando algo que complemente a sua vida ou então estão em busca de meios para solucionar os seus problemas, angústias e sofrimentos. Nestas atividades são oferecidas atenções, uma palavra amiga que pode proporcionar um certo conforto, mesmo que seja momentâneo, e bem estar. Assim, com o tempo, na medida em que passam a freqüentar sistematicamente essas atividades, as pessoas acabam expressando suas vivências cotidianas, suas aflições e angústias. Surge assim o espírito de cooperação, apoio mútuo, solidariedade e pertencimento. São trabalhados a auto-estima e os sentimentos, podendo surgir assim, a sensação de aceitamento e controle das situações mais difíceis.

Durante o trabalho de campo, num dia pude observar como isso acontece na casa. Era uma quarta-feira no horário da reunião pública. Eu estava conversando com algumas pessoas que trabalham na casa, quando entrou uma jovem que participa toda semana das atividades da instituição. Ela entrou e sentou, em seu semblante havia uma certa tristeza e melancolia. Ao perceberem que ela não estava bem emocionalmente, uma das pessoas que estava conversando comigo se dirigiu a ela para tentar conversar; em seguida, outra também se aproximou dela para saber o que estava se passando, por fim ela começou a chorar, e logo a levaram para a sala de entrevistas para ser entrevistada. Ficou por lá aproximadamente 30 minutos e ao sair estava com um semblante mais calmo.

O relevante nesta história foi a preocupação demonstrada por todos ao perceberem que ela não estava bem, e o pronto atendimento em tentar ajudar de alguma forma. Casos como este são relatados pelos entrevistados que observam esse acolhimento, e a percepção das pessoas quando alguém que entra na casa não está bem emocionalmente. Assim, a iniciativa em ajudar às pessoas é algo observado e evidenciado pelas pessoas.

Com relação aos objetivos e finalidades do plantão de entrevistas, segundo os entrevistados da Casa Espírita, a "fonte" de manutenção da saúde está no encontrar a si mesmo e melhor encarar o cotidiano. Nos momentos de dificuldades, a tendência do indivíduo é se fechar, tanto para expor os seus problemas quanto para as soluções (Gasparetto & Valcapelli, 2000). Assim, a casa espírita abre um espaço para estas questões, não que vá dar respostas imediatas às preocupações, mas apoio e uma abertura, um espaço para que a pessoa exponha o que lhe está angustiando.

Analisando a fala dos entrevistados, a saúde deve ser adquirida e ser prevenida através dos cuidados com o corpo, com o comportamento e as atitudes, pois as emoções, os sentimentos, o equilíbrio corpo e mente, são aspectos que vão refletir na saúde. A visão dos entrevistados está em equilibrar o corpo e a mente através da obtenção da paz, da harmonia, de energias positivas, para se ter saúde. A relação mente X corpo são fundamentais ao equilíbrio, pois as emoções podem ser meios que podem ocasionar o surgimento de algumas doenças, a partir do momento em que estão afetadas, desequilibradas, alteradas, proporcionando assim sintomas no corpo: "o corpo é quem paga"(1).

Segundo os espíritas há duas formas de doenças:

  • As do corpo físico - em que a medicina tem grande sucesso na cura. São os problemas de saúde que com o tratamento na medicina convencional, com a medicação se tem a cura, porque está relacionada diretamente com o corpo físico. As doenças aqui relacionadas ao universo material têm a ver com a atuação do homem (Gomes, 1999);
  • As cármicas - que são trazidas pelo espírito em decorrência de vidas passadas (encarnações passadas). Essas só o tratamento espiritual pode curar, pois nesses casos se trata o espírito no plano do perispírito, assim as cirurgias mediúnicas têm grande efeito. As doenças relacionadas com o universo espiritual têm a ver com a atuação religiosa (Gomes, 1999).

De acordo com Rabelo (1998), a passagem da doença à saúde nos rituais utilizados pelos espaços religiosos, "pode vir a corresponder a uma reorientação mais completa do comportamento do doente, na medida em que transforma a perspectiva pela qual este percebe seu mundo e relaciona-se com outros" (p. 47). Segundo esta autora, alguns estudos têm se voltado a compreender sobre os rituais utilizados por esses espaços: "os doentes são conduzidos a uma reorganização da sua experiência no mundo" (p. 47). A cura pode ser entendida como um processo de "persuasão que envolve a construção de um novo mundo fenomenológico" (p. 49). Assim, o doente redireciona a sua atenção a novos aspectos relacionados a sua vida e passa a perceber a sua experiência de vida a partir de um novo sentido.

As terapias religiosas proporcionam aos seus adeptos respostas para algumas aflições porque estão mais próximas da realidade deles, e promovem a aceitação e compreensão de seus problemas quando não conseguem resolvê-los, na medida em que oferecem ajuda explicitamente para os diferentes problemas do cotidiano individual. Essas terapias segundo Rabelo (1993), não implicam o abandono do tratamento médico, pois o que ocorre é uma divisão de responsabilidades, onde uma intervém onde a outra não é capaz, e vice-versa.

Segundo Parker (1996: 274), de uma forma geral e com suas distinções, todas as práticas religiosas "... apontam para uma eficácia simbólica em função das necessidades básicas do presente".

De acordo com Spiegel (1997), as terapias ajudam as pessoas a entenderem melhor os seus sintomas físicos como expressão de seus conflitos emocionais, aprendendo a enfrentar o estresse e a desenvolver estratégias saudáveis para lidar com ele. Segundo esses autores, as crenças religiosas são fundamentais na luta contra doenças graves como o câncer, e ajudam a encontrar um significado para a doença e como lidar com ela. "O apoio social de uma comunidade religiosa, por exemplo, pode ser um fator importante na produção de um efeito positivo da espiritualidade na luta contra o câncer" (1997: 81).

Praticamente todos da Casa Espírita têm uma conotação voltada para a saúde, ou seja, trabalhar a saúde do indivíduo, porque fazem com que ele cresça, evolua e fortaleça o seu "interior", favorecendo assim o equilíbrio e a harmonia.

Todas as atividades propõem uma melhoria na saúde, por buscarem o entendimento, o esclarecimento, o bem estar e o equilíbrio entre o emocional e o corpo.

Para os entrevistados, é trabalhando a auto-estima, a essência do indivíduo, que muitas acabam se descobrindo e encontrando o equilíbrio para manter a saúde. Está também presente a questão de encontrar um sentido de vida e de trabalhar a saúde de forma preventiva. A idéia de prevenção presente nas atividades é feita de forma contínua, proporcionando o equilíbrio entre corpo e mente através da recuperação do indivíduo; recuperar o bem estar, a auto-estima, equilibrando comportamento, bons hábitos e a alimentação. É um trabalho sendo realizado de forma gradativa e contínua, pois para eles na medida em que a pessoa consegue o que quer, ela não deve abandonar, mas sim continuar mantendo para fortalecimento do corpo.

A proposta de apoio, de acolhida e de carinho, denota o que realmente a pessoa precisa, que é de um espaço em que possa ser ouvida e compreendida. A permanência, a insistência, a continuidade e a perseverança, são fatores importantes nesta questão. O fato de encontrar um caminho para resolver as suas aflições, e de dar um novo sentido à vida, se percebendo enquanto ser atuante, que tem o seu potencial, se sentindo útil e capaz de várias realizações são aspectos importantes a serem trabalhados nos momentos em que o sofrimento é o que mais aflige o indivíduo. O próprio aspecto de participar de alguma atividade e recuperar esses aspectos, já denotam uma melhoria no bem estar do indivíduo.

A busca da população pelos espaços religiosos, se dá pelo alívio dos seus males, sofrimentos e a cura dos problemas de saúde. Segundo Valla (1999b), direta ou indiretamente, a questão da saúde está presente, tanto na busca pela cura, quanto pelo aspecto do apoio social.

A religião oferece através de seus espaços e de seus ritos, a acolhida, o apoio e a solidariedade. É possível ajudar as pessoas tornando a vida delas significativa, com mais coerência e sentido, descobrindo a possibilidade de contornar situações difíceis e controlar o seu próprio destino.

A idéia de aderência e fé como instrumentos que viabilizam os indivíduos a possíveis descobertas da valorização é o importante papel que cada um pode desempenhar na resolução dos seus problemas e aflições. Para Parker, a fé oferece sentido à vida, e o espaço religioso é "... onde se manifesta a presença sagrada do sobrenatural, garante um âmbito simbólico onde buscar consolo e encontrar energias morais e orientação para enfrentar a incerteza apresentada pela angustiosa situação..." (1996:275) e essa situação é vivenciada no cotidiano.

Os graus de confiança e de pertencimento, também são evidenciados por alguns autores como Arrossi (1994), Santos & Marcelino (1996), Spiegel (1997), Valla (1998, 1999) entre outros, em estudos sobre o apoio social, e estão também relacionados com o aspecto religioso, onde estes espaços procuram valorizar os sentimentos de confiança e de pertencimento entre os seus adeptos.

Na medida em que o isolamento é vencido a partir da participação nas atividades, ressurge no indivíduo o otimismo, a esperança e o restabelecimento da confiança. No momento em que as pessoas se vêem em situações de estresse, algumas acabam se fechando e se isolando do convívio com outras pessoas. Assim, na medida em que encontram o apoio, vão se sentindo confiantes e pertencentes, e interagindo socialmente passam a se sentir mais prontas para enfrentar esses eventos estressantes (Spiegel, 1997).

O pertencimento está no clima que se sente dentro da instituição; a satisfação das pessoas, a iniciativa de ajuda demonstrada pelas que trabalham na instituição, a harmonia, a amizade, a solidariedade e o acolhimento. Está presente também na fala dos entrevistados, a idéia de "paz", que podemos dizer momentânea, quando falam que ao entrar no Centro Espírita, o sentimento que têm é de paz e tranqüilidade, como fatores protetores durante a permanência na instituição.

Este pertencimento não é só com relação às pessoas que participam das atividades, mas com aquelas que trabalham na instituição. O comprometimento em atuar frente às atividades e de atender a todos, e principalmente, no compromisso que todos acabam assumindo através da responsabilidade de um planejamento prévio, para que todas as atividades transcorram dentro dos objetivos institucionais. Isso faz com que cada vez mais o envolvimento seja maior. E esse envolvimento faz com que cada um reproduza a idéia de construir uma família e criar um elo de ligação entre todos.

Segundo Luz (2000), a cooperação, a cordialidade, a solidariedade e o prazer de estar em contato com outras pessoas, favorecem a integração e as relações em grupo. As pessoas que interagem bem com amigos, vizinhos, e familiares, tendem a ter relacionamentos positivos com médicos e profissionais de saúde, pois se apresentam independentes, ativos e valiosos, se sentem confiantes e com força de vontade (Spiegel, 1997).

Geralmente, as pessoas doentes se sentem desprotegidas, desamparadas, desesperadas, isoladas e se sentem fragilizadas devido aos problemas que vêm passando. A partir do momento em que passam a freqüentar grupos, conviver com outras pessoas, criando o vínculo da amizade, do pertencimento, seja em grupos religiosos, de apoio terapêutico e organizações, têm a possibilidade de sentirem que podem se ajudar mutuamente, aumentando assim a capacidade de contornarem situações difíceis. Trata-se, de acordo com Minkler (1985, apud Valla, 2000), da noção de empowerment, ou seja, processo onde indivíduos, grupos sociais e as organizações têm a possibilidade de ganhar mais controle sobre os seus próprios destinos e para quem a vida tem mais sentido.

A relevância das atividades para os entrevistados está em proporcionar melhorias ao bem estar do indivíduo. Neste ponto, observamos o que o Barrios (1999b) chama de efeitos diretos e indiretos do apoio social no bem estar do indivíduo, pois na medida em que o apoio aumenta, aumenta a resistência com relação aos abalos emocionais. E ao interagirem entre si, o apoio mútuo é percebido como "troca de energias", criando essa resistência aos abalos emocionais.

Segundo Spiegel (1997:288): "sentir-se apoiado pelos outros pode servir como amortecedor, atenuando a produção de hormônios do estresse durante situações traumáticas"(2). Estas questões também nos remetem para um aspecto presente nas religiões, de um modo geral, porém, com suas especificidades, que são os rituais utilizados nas sessões e atividades. Esse ritual e o seu conteúdo mágico oferecem sentidos, aliviam as angústias e tensões, e possibilitam o fortalecimento revitalizando o indivíduo na busca de soluções para os seus problemas (Parker, 1996: 283). A preparação do ambiente, o clima de tranqüilidade, a música cantada, as mensagens utilizadas, a própria prece, oferecem um clima que envolve as pessoas e as tranqüilizam, fazendo-as se sentirem mais calmas e aliviadas.

Em todas as reuniões públicas são distribuídas mensagens, e estas são tiradas de livros espíritas que falam sobre diversos assuntos, porém, estão voltadas para o bem estar, a saúde, o comportamento, a moral, no sentido de fazer as pessoas refletirem mais sobre a vida, os seus problemas e as soluções.

A percepção de perspectiva de vida demonstrou que a saúde é um fator importante ao pensar no futuro e prosperidade. Segundo Luz (2000:5): "a saúde é vista como recuperação da vida e da alegria individuais e coletiva", na medida em que a saúde é um fator importante na esperança de um futuro próspero.

O interessante é a valorização da pessoa, o crescimento profissional, pessoal e espiritual, as perspectivas futuras são positivas, as pessoas se sentem motivadas e esperançosas em ter uma vida boa a partir do momento em que os problemas e as dificuldades estão sendo superados; o desânimo é um fator que não aparece nas respostas.

O apoio social é um fator que contribui na perspectiva de um futuro próspero, pois a partir do apoio recebido seja de amigos, grupos religiosos, familiares e outros grupos de apoio, as pessoas têm a possibilidade de contornarem as situações estressantes, e podem compartilhar nesses grupos, suas aflições e angústias. Na medida em que o apoio social acontece de forma sistemática, a possibilidade de superação desses eventos estressores é ainda mais evidente.

4.2 - Conclusão

Com este trabalho, verificamos que a Associação Espírita Francisco de Assis, através de suas atividades, desenvolve um trabalho, que para nós, é expressão do apoio social. Este estudo mostra que como entidade cujo objetivo é primariamente professar uma religião, o Centro Espírita, através de seu espaço, procura de alguma forma tratar o sofrimento difuso, ao contrário dos Centros de Saúde e outras instituições, cujo objetivo é a atenção primária à saúde, que não conseguem dar conta dessa demanda trazida pela população.

Através desse procedimento, os centros espíritas acabam por atuar, de uma forma ou de outra, sobre a saúde, sobrepondo papéis como os das instituições médicas. Além disso, aparentemente têm a possibilidade de promover também em parte, e de uma certa forma, a prevenção de saúde ao adoecimento.

Os espaços religiosos, e mais precisamente a instituição estudada, com suas "portas abertas" e como expressão de apoio social, oferecem alternativas ao enfrentamento de sofrimentos do corpo, da alma e daquilo que mistura as duas dimensões da perda da saúde no homem, o que os profissionais de saúde chamam de sofrimento difuso. Aparentemente, também oferecem condições de auxiliar na prevenção de enfermidades relacionadas com o emocional, que poderiam surgir a partir de eventos de estresse, pelos abalos emocionais e como conseqüência das condições de vida.

O apoio social nestes espaços é promovido tanto pelos participantes que interagem entre si, quanto pelos dirigentes religiosos. A busca por esses meios religiosos pode ser entendida como uma busca pela melhoria da sobrevivência na terra, relacionada aos problemas e dificuldades enfrentadas no cotidiano.

A Associação Espírita Francisco de Assis, como aqui entendido, parece não se preocupar com a quantidade de atendimentos, mas sim, com a sua qualidade e com a proposta de buscar resolutividade aos casos que surgem.

Embora este seja um aspecto que também preocupe o sistema de saúde, a resolutividade voltada para o modelo de medicar, até por falta de condições em atender de outra forma a esta demanda, torna contrastante, e ao mesmo tempo, complementa a ação nestas duas esferas de atenção à população: a religiosidade e a do serviço médico formal. Isto é de tal forma que, como verificado nas entrevistas, mesmo que o indivíduo esteja adequadamente atendido e medicado, ou que se trate de um caso "incurável", como das doenças crônico-degenerativas, a procura pelo centro espírita se dá porque ela vai além da busca da cura, ela se constitui na busca do alívio. Este se dá no âmbito do apoio social, independente da ação médico curativa.

Embora em muitos casos as organizações da sociedade civil indiquem caminhos, elas não substituem o governo, nem esse é o seu papel. Por outro lado, a capacidade de um Centro de Saúde em prestar atendimento à população, é muito maior do que a demanda. Através de suas ações e, principalmente, na sua busca crescente por espaços religiosos ditos alternativos para enfrentamento dos problemas relacionados com a saúde, a população mostra o papel importante que a religião vem desempenhando como complemento dos serviços médicos estruturados.

Há uma grande dificuldade em aceitar que as classes populares são capazes de produzir um conhecimento e de organizar e sistematizar seus pensamentos sobre a sociedade e suas necessidades. A fala da população sobre o centro espírita e seu papel, tanto considerando os usuários como os trabalhadores, assinalam sua importância como espaço auxiliar aos projetos individuais de recuperação da saúde, para aqueles, que se sentem integrados à doutrina espírita.

A forma com que as pessoas relatam uma experiência indica concepções pessoais de mundo, e assim, outro aspecto importante é que os profissionais de saúde e a população, não vivem a mesma experiência da mesma forma. As experiências da doença e do sofrimento difuso são percebidos de modo muito diferente pela população (cada indivíduo, independentemente) e pelos profissionais de saúde. Essa fratura divide abordagens, objetivos terapêuticos, conceitos de "cura", "atendimento ou atenção", e assim por diante.

No centro espírita esta vivência, saberes e objetivos parecem ser mais compartilhadas.

Muitas das vezes, o trabalho do profissional na comunidade é prejudicado porque seus objetivos e diretrizes são técnicos e se projetam para o futuro daquela comunidade, enquanto a população está preocupada é com o presente, o sofrimento real, vivenciado. Os saberes da população são elaborados sobre experiências concretas a partir do que está sendo vivenciado. Segundo Valla (2000b: 16), "nós oferecemos nosso saber porque pensamos que o da população é insuficiente, pois não é visto como equivalente, mas como igual, igual ao nosso". Entretanto, não é diferente no centro espírita, ali também um saber e uma solução são oferecidos e aceitos, no que se refere à vida, à conduta, à saúde.

Talvez a grande diferença entre o Centro de Saúde e o Centro Espírita, no que se refere à satisfação e adesão obtidas no caso de sofrimento difuso, seja a maior capacidade deste último em ouvir e integrar as pessoas ("usuárias", "pacientes", "doentes", "sofredores") um sistema de relações mútuas de apoio social em que todas se sentem, de certa forma, parte do problema, mas também de sua solução.

Devemos levar em consideração a experiência de vida e fala das pessoas, o que o centro espírita, como meio alternativo de enfrentamento dos problemas de saúde, de certa forma, consegue atingir o que a população busca, ou seja, consegue de alguma forma atender a demanda dessas pessoas, pois mesmo sem resolver os seus problemas por completo, fornece mais que a cura, o acolhimento, o conforto, a solidariedade, ou seja, apoio social.

Essa busca por esses espaços, pode ser vista como a busca por algo que dê mais sentido à vida tornando-a mais plena. Poderia ser também a busca de algo que torne a vida mais coerente, e o sofrimento e a doença como parte aceitável da vida. É bem provável que a busca por esses espaços, signifique hoje também, o refúgio da crise, no sentido de proteção, abrigo e acolhida da desordem social existente, já que o sofrimento difuso transcende a doença física e se enraíza no social.

Para Valla (1999), o apoio social além de oferecer uma contribuição para a crise de saúde no Brasil, é um instrumento para compreensão do que está se produzindo através da religiosidade, cujo incremento é um ponto de reflexão sobre as demandas da população, inclusive no que se refere à saúde.


1 - Isso está relacionado com o que alguns autores como Valla (1999, 2000), Barrios (1999), Casal (1974), Spiegel (Goleman & Gurin org, 1997), entre outros, que trabalham com a relação mente e corpo, a partir da categoria de apoio social que tem como uma das premissas que o desequilíbrio emocional pode ocasionar o surgimento da doença, como vimos no Capítulo I.

2 - Se quiser saber mais sobre os efeitos dos hormônios do estresse, ver Goleman & Gurin 1997, Equilíbrio corpo e mente: como usar sua mente para uma saúde melhor. Ed. Campus.

 
 
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