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Pietrukowicz, Marcia Cristina Leal Cypriano. Apoio social e religião: uma forma de enfrentamento dos problemas de saúde. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 117 p.

Capítulo III:

A pesquisa e seus resultados

3.1 - A Ambientação e o desenrolar da pesquisa

Neste item dois pontos interessantes são relatados: o primeiro diz respeito a minha chegada à instituição e o segundo é sobre o interesse das pessoas em participar das entrevistas.

Sobre a escolha do local para realização do trabalho de campo, falamos na introdução desta dissertação, logo, registramos aqui a nossa primeira visita à instituição que foi acompanhada pelo professor Dr. Victor Vincent Valla e pela pesquisadora e Mestra Sônia Acioli, que anteriormente foi responsável pela visita à instituição para elaboração do cadastro. Fomos recebidos por alguns membros da direção como a Diretora Social Marilena, a Tesoureira Valéria, entre outros, para um primeiro contato e pedido de permissão para desenvolvimento do trabalho. Posteriormente nos reunimos novamente para melhor esclarecimento sobre o trabalho, e nesta segunda reunião estavam presentes a Vice-diretora Social Iara, a Vice-diretora Espiritual Belinha, além dos que participaram da primeira reunião.

A partir deste momento passei a freqüentar a instituição em algumas atividades como a campanha do quilo e as reuniões públicas, com a finalidade de conhecer as linhas de trabalho da instituição e de estar mais em contato com as pessoas, tanto aquelas que trabalham na casa espírita quanto as que participam das atividades.

Após a qualificação do Projeto de Dissertação de Mestrado, foi dado início ao trabalho de campo e a permissão para que eu participasse de qualquer atividade desenvolvida na instituição. Assim como fiquei grata pela confiança e receptividade que todos tiveram comigo, assumi o compromisso de que após a defesa da dissertação, apresentar os resultados da pesquisa na instituição, a todos aqueles que se interessem pelo mesmo.

Durante todo o período em que estive na casa espírita sempre fui bem recebida, e todos demonstravam interesse em saber do andamento do trabalho e de conversar sobre algumas questões que envolvem a relação religiosidade e saúde.

Nas minhas idas à instituição para o trabalho de campo, de todas as pessoas que procurei entrevistar, somente uma pessoa se recusou.

Todas as outras pessoas que foram abordadas receberam muito bem a minha pesquisa, alguns até me procuraram por iniciativa própria se candidatando à entrevista (em participar da pesquisa). O tema saúde e religião, pude observar, sensibiliza muito as pessoas, elas se mostram interessadas em ouvir e falar sobre estas questões. Isso nos remete a uma questão em que, no Centro Espírita as pessoas têm uma outra concepção de tempo, ou seja, o tempo não é um fator que os leve a não aceitar participar da entrevista, seja por vários motivos que as pessoas considerem, diferente de você parar uma pessoa na rua para uma entrevista e esta argumentar que não pode por causa do tempo, e também porque este é um meio de divulgação da Instituição a que eles pertencem.

Após o término do trabalho de campo, continuei ainda uma vez na semana, em contato com a instituição por dois motivos: um pelo compromisso de retornar com os resultados, assim minha presença daria as pessoas a confiança de que seria cumprido o compromisso; e segundo porque talvez houvesse necessidade de retomar algumas entrevistas.

3.2 - Metodologia utilizada no trabalho de campo

Para elaboração deste trabalho, tornou-se fundamental o levantamento, estudo e sistematização de parte de uma bibliografia referente à categoria apoio social, saúde, religiosidade e classe popular, com a finalidade de se ter um suporte teórico sobre a temática a ser investigada e problematizada.

Como instrumento de coleta de dados foram realizadas entrevistas semi-abertas, com a finalidade de obter informações contidas nas falas dos entrevistados, que constou de pessoas que trabalham na instituição, assim como algumas que procuram as atividades do centro espírita. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas para análise.

Outro método de coleta de informações e análise utilizadas foi a observação participante, que é realizada através de um contato direto do observador com o fenômeno a ser observado, com a finalidade de obter informações sobre a realidade e o contexto do objeto a ser investigado (Neto, 1994). A importância desta técnica está na possibilidade de captar vários detalhes, situações ou fenômenos diretamente ligados à realidade.

Paralelamente à observação participante, destacamos o uso do diário de campo, que segundo Neto (Minayo org., 1994:63):

... esse diário é um instrumento ao qual recorremos em qualquer momento da rotina do trabalho que estamos realizando. Ele, na verdade, é um "amigo silencioso" que não pode ser subestimado quanto à sua importância. Nele diariamente podemos colocar nossas percepções, angústias, questionamentos e informações que não são obtidas através da utilização de outras técnicas.

Assim foi realizada a observação participante, juntamente com o diário de campo. Dentre a gama de atividades desenvolvidas pela instituição, escolhemos como atividades a serem observadas, as seguintes:

  • Aulas de trabalhos manuais - turma de pintura em tecido, de crochê, de ponto de cruz e de artesanato
  • Reuniões públicas
  • Ciclos de estudo
  • Cirurgia espiritual
  • Campanha do quilo
  • Atendimento à gestante

Assim a cada dia da semana havia uma atividade diferente a ser observada e participada.

O retorno do trabalho será após a Defesa da Dissertação na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, que deverá ser apresentado também na Associação Espírita Francisco de Assis, com os resultados obtidos.

Esta pesquisa oferece a possibilidade de gerar conhecimento para entender questões relacionadas ao tema, no sentido de aliviar e prevenir problemas que afetem o bem-estar dos sujeitos da pesquisa e de outros indivíduos. A pesquisa não oferece nenhum risco aos participantes, na medida em que estes têm todo o direito de participar ou não. Estes não serão identificados por nome e endereço, apenas serão obtidos como dados pessoais a idade, o sexo, o bairro onde mora e a profissão/ ocupação.

Foi feita uma análise qualitativa de todos os dados obtidos nas coletas de informações, em consonância com os objetivos desta pesquisa. Participamos das atividades desenvolvidas na Associação Espírita São Francisco de Assis, tanto as de cunho social, quanto as espirituais. Para todas as atividades foi elaborado um diário de campo, constando todas as observações realizadas seguindo um roteiro de observação.

O contingente populacional entrevistado foi de pessoas que trabalham na instituição, assim como as pessoas que procuram o Centro Espírita e que participam das atividades oferecidas. Dentre as pessoas que trabalham na instituição, foram selecionadas a participar do trabalho, atores chaves, na medida em que não são todas as pessoas que trabalham diretamente com as pessoas que participam ou que procuram o Centro Espírita, ou seja, não estão diretamente ligados ao atendimento da demanda. Para identificarmos esses atores chaves, partimos da pergunta formulada por Deslandes (Minayo org., 1994: 43), "quais os indivíduos sociais têm uma vinculação mais significativa para o problema a ser investigado?" Sendo interessante caracterizar essas pessoas, tanto as que trabalham quanto as que participam das atividades oferecidas.

Das pessoas que trabalham na Instituição, foram entrevistados: médiuns, atendentes do plantão de entrevistas, vice-diretora espiritual e a diretora social. Com relação aos critérios de inclusão e exclusão dos entrevistados, foram entrevistados:

  • Os trabalhadores da casa - foram incluídos nesta categoria aqueles trabalhadores da casa que desenvolvem atividades mediúnicas, e principalmente que atuam no plantão de entrevistas, já que esta atividade exige um treinamento específico com a Diretora Espiritual, na medida em que ela atua diretamente com a demanda vinda à instituição.
  • As pessoas que procuram e participam das atividades da casa - estão incluídos todos aqueles que participam das atividades da casa espírita e aqueles que procuram a instituição. Estão incluídos também os médiuns da casa que não atuam no plantão de entrevistas, mas que participam das atividades mediúnicas e dos ciclos de estudo, que é uma exigência da própria diretoria da casa.

Todos os dados foram coletados durante as atividades, sempre antes de começarem ou ao término de cada sessão. O período de coleta de dados foi de abril a junho de 2000, e todas a s entrevistas foram realizadas dentro do espaço institucional.

Foram entrevistadas as pessoas que participam das seguintes atividades:

  • Aulas de trabalhos manuais
  • Reuniões públicas
  • Estudos doutrinários
  • Tratamentos específicos e cirurgias espirituais

A amostra de entrevistados foi de: 16 entrevistas com as pessoas que freqüentam e participam das atividades da casa; e 06 entrevistas com os trabalhadores da casa.

Segundo Minayo (1992 apud Minayo, org. 1994: 43), uma "amostragem boa é aquela que possibilita abranger a totalidade do problema investigado em suas múltiplas dimensões".

Os roteiros de entrevistas para essas duas categorias foram diferentes. Para os trabalhadores da casa procuramos abarcar questões referentes à percepção deles sobre alguns aspectos como: a demanda da população que procura a instituição, o objetivo e a finalidade das atividades oferecidas pela instituição principalmente o plantão de entrevistas, as atividades que propõem uma melhoria na saúde dos indivíduos e a relação entre práticas espíritas e a saúde. Já com os freqüentadores da casa, procuramos investigar os motivos que os levaram a procurar uma instituição religiosa, a sua inserção na instituição e percepção de mudança na sua vida após passar a freqüentar a Casa Espírita, a relevância dessa participação na sua vida, a percepção sobre problema de saúde e a procura pelo Centro de Saúde em caso de doença e alguns aspectos como o apoio que recebe da instituição, o pertencimento e a confiança.

A análise dos dados seguiu basicamente o roteiro de observação participante e os roteiros de entrevistas. Ambos os roteiros seguem de acordo com os objetivos desta pesquisa, e estes devem ser alcançados a partir dos dados coletados.

Seguindo com a análise dos dados obtidos, as entrevistas foram analisadas a partir de categorias, que de acordo com Gomes (Minayo org, 1994:70) "... as categorias são empregadas para se estabelecer classificações. Neste sentido, trabalhar com elas significa agrupar elementos, idéias ou expressões em torno de um conceito capaz de abranger tudo isso". Podendo ser utilizado em qualquer tipo de análise em pesquisa qualitativa.

As estratégias adotadas na análise de dados qualitativos foram:

Todos os dados obtidos deverão ser mapeados através da transcrição das fitas gravadas, releitura do material coletado, organização dos relatos e dos dados registrados no diário de campo (Minayo, 1994).

Assim, a análise dos dados seguiu de acordo com a seqüência abaixo (Triviños, 1987):

  1. Primeiro fazer uma leitura atenta das respostas de cada pergunta;
  2. Em seguida fazer uma segunda leitura das respostas que permitiu sublinhar as idéias principais, e que de alguma forma apresentam algum fundamento teórico;
  3. Fazer uma listagem das respostas por categorias respondentes e por pergunta, originando assim numa só lista de respostas;
  4. Classificação das respostas por perguntas, esta análise preliminar das respostas permitiu detectar divergências, conflitos e pontos coincidentes.

Após a classificação das respostas por perguntas, formamos grupos de análise (ou seja, categorias), no sentido de agruparmos as perguntas por grupos de análise, de acordo com as perguntas que apresentavam relação entre si. Assim formamos os seguintes grupos de análise:

Grupo A: Procura de Apoio

  • Demanda da população que procura o Centro Espírita
  • A quem recorrer em momentos de angústia
  • Percepção sobre ajuda que recebe da instituição
  • Tipo de apoio
  • Qual o objetivo do plantão de entrevistas

Grupo B: Saúde e Doença

  • Saúde, doença e cura
  • Percepção de problema de saúde: medicina oficial e Centro Espírita
  • Práticas espíritas e a saúde
  • Atividades que propõem uma melhoria na saúde

Grupo C: Inserção e Pertencimento

  • Tempo que freqüenta e as amizades
  • Grau de confiança e de pertencimento
  • Inserção ao Centro Espírita
  • Busca pelo espaço religioso

Grupo D: Mudanças e Benefícios

  • Percepção de mudança após freqüentar a instituição
  • Relevância das atividades e benefícios recebidos
  • Perspectiva de vida

Segundo Minayo (org.,1994: 26): "... o tratamento do material nos conduz à teorização sobre os dados, produzindo o confronto entre a abordagem teórica anterior e o que a investigação de campo aporta de singular como contribuição".

Neste momento tivemos a consciência de que os dados foram construídos a partir de questionamentos que fizemos sobre eles, com fundamentação teórica. A partir do que é relevante, são construídas as categorias específicas. Essas categorias são estabelecidas a partir da coleta dos dados, visando classificá-los no trabalho de campo (Minayo org., 1994).

Assim os resultados serão apresentados a partir destes grupos de análise. Para a análise procuramos também identificar nas entrevistas alguns pontos chaves do apoio social, ou seja, os aspectos que envolvem o apoio social, como:

  • Informação
  • Ajuda material
  • Sistemática
  • Pessoas já conhecidas
  • Reciprocidade
  • Manutenção e prevenção
  • Aumento da capacidade de contornarem situações de estresse
  • Apoio emocional
  • Apoio informativo
  • Evitar maus hábitos
  • Sentido de vida
  • Acolhimento
  • Pertencimento
  • Confiança
  • Apoio mútuo

Todos aspectos centrais do apoio social, e que foram abordados no início deste trabalho.

A análise final procurou estabelecer articulações entre os dados e os referenciais teóricos presentes na pesquisa, respondendo aos objetivos, promovendo assim, "relações entre o concreto e o abstrato, o geral e o particular, a teoria e a prática" (Minayo org., 1994, p. 79).

Analisamos as entrevistas procurando o que havia de comum nas falas dos participantes, não nos interessando citar os nomes das pessoas entrevistadas. De certa forma, isso nem seria necessário já que essas falas reunidas formam no geral um conjunto homogêneo de idéias. Consideramos importante não tanto o que as pessoas estão dizendo, mas o que significa a fala delas. O que está em questão não são as pessoas individualmente, mas sim o conjunto como um todo e a demanda da população que procura os Centros Espíritas e a relação entre religiosidade, apoio social e saúde.

No esforço de analisar as entrevistas, agrupamos idéias que nelas aparecem com freqüência, dessa forma identificando vários tópicos que se relacionam com a questão do apoio social, da religiosidade e a saúde.

3.3 - Resultados

Esta pesquisa visa compreender a busca da população aos espaços religiosos como alternativa de resolver os seus males e sofrimentos, e os efeitos do apoio social no bem estar dos indivíduos que freqüentam esses espaços. O local para realização do trabalho de campo foi um Centro Espírita Kardecista, localizado numa região da Zona Norte do município do Rio de Janeiro, no bairro de Higienópolis, pertencente à X Região Administrativa (Ramos), parte da área de planejamento 3.1. O bairro é residencial, localizado próximo à Fundação Oswaldo cruz, cercado por um complexo de favelas, como Manguinhos, Mandela de Pedra I e II, entre outras.

Os resultados aqui apresentados tratam tanto das entrevistas feitas com as pessoas que trabalham na casa, quanto com as que participam das atividades da casa, juntamente com os dados obtidos na observação participante e registrados em diário de campo.

3.3.1 - Dados da observação participante

A seguir descreveremos cada atividade participada, seguindo de comentários das observações descritas em diário de campo.

1 - Campanha do Quilo

Acontece uma vez por mês, sempre no último domingo, sempre às 9 horas. São ao todo 80 famílias cadastradas que recebem todo mês, mediante a participação na atividade, uma bolsa de compras com gêneros alimentícios, uma bolsa de roupas e de brinquedos.

1o momento: Preparar o local para receber as famílias.

Toda a equipe de trabalho se reúne antes para preparar o local para receber as famílias. Geralmente chegam uma hora antes do horário de começar a atividade.

2o momento: Entrada das pessoas.

Na portaria fica uma pessoa responsável por entregar a cada um, a sua ficha com o número e nome da pessoa responsável por receber a doação. Na medida que vão recebendo a sua ficha, vão entrando.

Neste momento a pessoa responsável pela portaria, sempre pergunta, caso algum familiar tenha faltado, qual o motivo. Segundo as pessoas que trabalham nesta atividade eles, visam a participação de todos da família, pai, mãe, filhos e agregados.

A idéia é fazer com que as pessoas não vão a instituição apenas para receberem a doação, mas que elas participem também de alguma atividade. Nesta atividade participam pessoas de qualquer religião, pois a coordenação não cobra das pessoas que se tornem espíritas.

3o momento: Divisão das pessoas por grupos de idade.

  • Crianças pequenas
  • Crianças maiores
  • Jovens
  • Adultos (são formados dois grupos - que são separados pela numeração do cartão)

Cada grupo vai para uma sala com um coordenador, que através de um cronograma de temas, faz um trabalho de "evangelização", com a finalidade de "educar", ou seja, transmitir palavras de fundo moral. São debatidos temas como bons hábitos, drogas, família, educação, alcoolismo, etc.

Segundo uma das coordenadoras de grupo, procura-se não discutir a fundo questões ligadas aos aspectos da doutrina espírita, pois há pessoas ali de várias religiões. Antes de começar a palestra e ao terminar, é feita uma prece. Este momento dura cerca de 30 a 40 minutos.

Enquanto as pessoas estão nas salas assistindo à palestra, no pátio são arrumadas as mesas e cadeiras para servir o sopão. Esse sopão é preparado no dia anterior pelas pessoas que trabalham nesta atividade.

4o momento: Sopão.

As pessoas se sentam nas cadeiras e são distribuídos os pratos com a sopa. Ao final o que sobra é dividido em latas de alumínio e entregues às pessoas que quiserem levar.

5o momento: Entrega dos donativos - bolsa de alimentação, leite, bolsa de roupas, brinquedos e calçados.

Os cartões de identificação são numerados para que as pessoas se organizem melhor para receber os donativos. Assim, no momento em que se inicia a entrega dos donativos, a cada mês, a numeração se diferencia, porque ao final no corredor por onde passam para receber, ficam à disposição algumas roupas, calçados e brinquedos que sobram e ficam à livre escolha.

Todos os donativos são arrecadados pelo Centro Espírita, e os jovens da Mocidade (como são chamados os jovens da instituição - na faixa etária dos 15 aos 21 anos), são os responsáveis em preparar as bolsas no dia anterior.

Cada família ao ser cadastrada, em sua ficha consta o número de pessoas residentes na mesma casa, o manequim que vestem e o número para o calçado, assim, ao separarem as roupas nas bolsas por família são colocadas as roupas correspondentes a cada um daquela família, e em cada bolsa fica o nome e o número correspondente a cada cartão.

Num outro mês, observei a conversa entre uma coordenadora de grupo com uma senhora que é assistida. Esta contava os problemas que vinha passando com o marido viciado em drogas. Segundo ela, tudo o que ouvia ali nas palestras proporcionava um fortalecimento para enfrentar o dia-a-dia; seu marido era violento e não aceitava a separação, porém ela tinha consciência de que não havia outra alternativa senão essa, pois não conseguia mais viver daquela maneira. A ajuda material e as orientações que recebia dali, lhe davam forças para conseguir sustentar os filhos e se livrar do marido, que até aquele momento não morava mais com ela e os filhos, porém ela vivia em constantes ameaças dele. A fala dela era muito interessante, pois relatava que através das palestras que ela assistia e do apoio que a instituição dava, é que lhe veio a força necessária para dar um "basta" em tudo o que vinha passando. E a partir de agora, ela queria arrumar um emprego para poder sustentar os filhos.

2 - Reunião Pública

Acontece:

Dias

Horários

Segundas-feiras

15 horas

20 horas

Terças-feiras

9 horas

Quartas-feiras

15 horas

20 horas

1o momento: Chegada ao Centro Espírita.

A porta da instituição fica aberta, as pessoas vão entrando e aquelas que estão indo pela primeira vez passam pela recepção, e caso queiram, são encaminhadas ao plantão de entrevista - isso fica a critério de cada um. Geralmente essas pessoas vão por intermédio de alguém que conhece a instituição ou que já a freqüenta. O atendimento no plantão de entrevista começa sempre uma hora antes da preleção. Aqueles que são encaminhados à entrevista recebem um número e esperam a sua vez de serem atendidos. Na recepção fica uma pessoa responsável para orientar, ordenar as pessoas para a entrevista e marcar presença nas fichas.

Ao fazer a entrevista, é feita uma ficha com o nome, endereço e data da inscrição. Esta ficha tem uns quadrinhos numerados de um a oito. Cada número corresponde a uma semana de passe - e a cada presença é assinalado o quadro correspondente à semana. São oito semanas consecutivas para o tratamento do passe. A cada semana a pessoa deve procurar o responsável pela recepção e dar o seu nome para que este coloque a presença na ficha, é muito importante que a pessoa não falte uma semana sequer, pois seria como se quebrasse a corrente.

Nos casos de cirurgia espiritual, as pessoas devem seguir este mesmo procedimento, sendo que na quarta semana de passe é marcada a cirurgia para a semana seguinte. Funciona como uma espécie de preparação para a cirurgia. A cirurgia é realizada sempre às sextas-feiras, às 19 horas, na instituição(1). É necessário que antes e depois as pessoas continuem participando da reunião pública por causa do passe.

No pátio da instituição fica uma mesa com duas caixas de madeira:

  • Uma com papéis em branco para serem usados nas intenções;
  • E uma outra dividida em três partes: uma para pedidos simples, a outra de pedidos para pessoas doentes e a terceira de pedidos para pessoas que já desencarnaram.

As pessoas vão até esta mesa e escrevem a quem estão destinando as suas orações e preces. Quando faltam apenas cinco minutos para começar a preleção, esta caixa é levada para o salão principal.

As pessoas antes de irem para a preleção, depositam suas garrafas de água em uma estante que fica no corredor de acesso ao salão. Eles dizem que a água recebe fluidos positivos e deve ser consumida pela pessoa correspondente ao nome que está na garrafa. É uma espécie de tratamento com água purificada, a chamada água fluidificada(2), que traz bem estar e equilíbrio ao corpo através dos fluidos positivos que recebe. Deve ser consumida por pessoas que estão passando por algum tipo de problema, seja de saúde, emocional, desarmonia no lar, depressão e ansiedade, problemas estes de fundo emocional. Elas devem pegar as suas garrafas após receberem o passe (na saída).

2o momento: Preleção.

Pontualmente no horário, entra no salão a equipe que fará parte da atividade, ou seja, o coordenador do trabalho, o dirigente, a pessoa que lê uma mensagem para preparar o ambiente e o prelente, todos ficam sentados de frente para a platéia em uma mesa.

Antes de começar, o dirigente cumprimenta a todos e convoca a pessoa responsável em preparar o ambiente para que o faça através da leitura de uma mensagem. Após essa leitura, o dirigente apaga as luzes do salão, ficando apenas acesas duas lâmpadas auxiliares, porém bem fraquinhas, fazendo a prece em seguida. A seguir, acendem-se as luzes e começa a preleção que dura de 30 a 40 minutos. Na preleção são falados temas referentes ao Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec; alguns temas são tirados de livros espíritas e também de passagens bíblicas.

Com relação ao prelente, geralmente são previamente agendadas as pessoas que farão a palestra e o assunto a ser abordado. Este planejamento é feito pela diretora do departamento espiritual. O prelente pode ser um trabalhador da casa, como também alguém de fora que costuma percorrer os Centros Espíritas dando palestras.

Ao terminar a explanação, o dirigente apaga as luzes do salão mais uma vez, e em seguida é feita a prece. Ao final as luzes são acesas, mas nem todas, e as pessoas ficam em completo silêncio esperando a hora de receber o passe. Todos que estão à mesa saem e vão para a sala dos passes, apenas o prelente é quem sai da sala rumo ao pátio da instituição, pois neste momento o seu trabalho terminou.

3o momento: Passe.

A organização para o passe se dá por uma pessoa que fica responsável em conduzir as pessoas aos poucos (geralmente em grupos, de acordo com o número de médiuns que estão trabalhando) para a sala de passes. Após receberem o passe, as pessoas vão saindo aos poucos.

Antes de começar a preleção (mais ou menos 30 minutos), os médiuns devem estar na sala reservada, se preparando para o trabalho. Eles ficam sentados, lendo algum trecho de um livro espírita, esperando a hora de começar a preleção e em seguida o passe. Geralmente em dias de trabalho eles devem ingerir uma alimentação leve, evitando comer carne vermelha, pois segundo eles, pode interferir na hora do passe já que a carne vermelha é de difícil digestão e contém muitas toxinas, e para dar o passe é preciso que o corpo esteja bem equilibrado e com bons fluidos para que no momento em que as mãos são postas no passe sejam transmitidos fluidos positivos ao receptor.

O que é o passe? Segundo Gomes (1999), é um instrumento de transmissão energética, e chama-se imposição das mãos o ato de um médium colocar ambas as mãos abertas sobre a cabeça e o corpo do receptor, é um recurso terapêutico no sentido de proporcionar um auxílio às pessoas que o recebem.

Depois que todos saem, começa no salão principal a segunda parte dos trabalhos, que é a comunicação com os espíritos de pessoas que já desencarnaram. Nesse momento é feita a organização dos médiuns que ficaram sentados à mesa para receberem os espíritos, os médiuns que vão trabalhar no diálogo com os espíritos e o dirigente da sessão. Segundo os espíritas, essa atividade é o diálogo fraterno entre os espíritos e os médiuns, e o trabalho de doutrinação dos espíritos é um canal de ligação entre o plano material e o plano espiritual. Esta sessão leva em torno de 30 minutos, para iniciar é feita uma prece convocando os espíritos a virem conversar, e para terminar segue-se o mesmo ritual, apenas pedindo para que os espíritos voltem ao plano espiritual. Assim é encerrado o trabalho daquele horário.

Em todas as vezes em que fui à reunião pública, havia em média, quatro ou cinco pessoas a serem entrevistadas. O tempo de duração de uma entrevista era de mais ou menos trinta a quarenta minutos, dependendo do caso.

A maioria das pessoas deposita na caixa seus pedidos.

As pessoas que freqüentam esta atividade de dia são geralmente homens e mulheres mais idosos, talvez aposentados, alguns jovens também se fazem presentes, a maioria mulheres. À noite, esse perfil já é um pouco diferente, na maioria adultos, homens e mulheres; os jovens também estão presentes em maior número do que de dia. Percebi que várias pessoas vêm do trabalho e antes de irem para suas residências, participam da atividade da casa espírita.

No pátio ficam arrumados em estantes, livros espíritas, fitas de vídeo sobre vários temas e cartões de mensagens, que são vendidos como forma de arrecadar verbas para a instituição. Assim, muitas pessoas que chegam cedo para a reunião pública, geralmente depositam logo os seus pedidos de prece na caixa. Em seguida, se não ficam conversando com alguém, ficam examinando os livros que estão à disposição. À noite, esse processo já é um pouco diferente; geralmente as pessoas chegam no horário de começar a preleção, e muitas vêm direto do trabalho.

Segundo os espíritas, a doutrina de Allan Kardec (que foi o decodificador do Espiritismo), prega a relação ciência, assistência e estudo: este é o tripé do Espiritismo. É uma religião de base filosófica que busca explicações em algumas ciências como a Física.

Há toda uma rotina a ser cumprida pelos médiuns nas reuniões públicas. Trinta minutos antes de começar a preleção, os médiuns se reúnem na sala deles para se prepararem para os trabalhos daquele momento. São lidos trechos de livros espíritas e feitos comentários. O silêncio das pessoas e a música suave são aspectos importantes neste momento. No salão onde as pessoas ficam também se ouve música suave. Após o passe, as pessoas saem e os médiuns ficam. Estes agora se preparam para o diálogo fraterno, alguns médiuns são convocados a sentarem à mesa para servirem de canal de contato com os espíritos, e os outros ficam como doutrinadores daqueles que vão conversar com o espírito. O dirigente da sessão faz uma prece e convoca os espíritos a virem se comunicar, e é ele quem estabelece o tempo para esta sessão. Na medida em que os espíritos vão se comunicando, um médiun se aproxima para conversar. Ao final é feita nova prece e os espíritos retornam ao seu plano. Assim é encerrado o trabalho daquele momento. Isso acontece no salão onde é feita a preleção.

3 - Atendimento à gestante: orientação médica, social e evangélica

Acontece: Terças-feiras às 14 horas.

As gestantes assistidas são cadastradas na última terça-feira do mês. É exigido pela equipe que coordena a atividade, fazer o acompanhamento do pré-natal em algum posto de saúde, assim elas devem apresentar o cartão do exame, para que no 8o mês gestacional recebam o enxoval para o bebê.

1o momento: Entrada das gestantes.

No pátio da instituição é arrumado todo o material de doação - roupas, sapatos, brinquedos e utensílios de cama, mesa e banho. As gestantes ao entrar escolhem o que querem levar, sem criar tumultos nem confusão.

2o momento: Ida para o salão principal para assistirem à palestra.

Após escolherem o que querem levar, as gestantes são encaminhadas ao salão principal para início da palestra.

3o momento: Prece.

A coordenadora recebe as gestantes e faz a prece para iniciar a atividade - neste momento a sala é escurecida e todos ficam em silêncio para que a coordenadora faça a prece.

4o momento: Palestra.

Para a palestra são convidadas pessoas de fora, que falam sobre temas que estão relacionados à gestação, maternidade, aborto, parto, cuidado com o bebê, saúde e assuntos ligados à educação, a crença em Deus, etc.

O palestrante tem de trinta a quarenta minutos para falar, ao final é feita a prece, pela coordenadora, para encerrar a atividade.

Com o tempo o grupo vai mudando, no sentido em que as mulheres que estão prestes a ter o filho não participam mais da atividade, e assim, novas gestantes vão aparecendo. O grupo é bem diversificado, são mulheres de várias idades, algumas já estão no décimo filho, outras no primeiro ou segundo, como no caso das adolescentes, porém, todas carentes e moradoras da área. Alguns segmentos das grávidas continuam a freqüentar a instituição, outras acabam não retornando mais.

Num dos dias em que estava lá, a Maria José que é coordenadora do grupo, me chamou para conversar com uma gestante que estava muito aflita. Era um caso de uma gestante portadora de sífilis, e esta já era a sua segunda gestação com a doença. A sua preocupação era que, na primeira gestação ela não fez pré-natal, e na hora do parto quando descobriram que ela estava com sífilis, teve algumas complicações, resultando numa internação de aproximadamente trinta dias para tratamento dela e do bebê. Por sorte, o bebê não teve nenhuma seqüela. Nesta gestação (a segunda) ela está sendo acompanhada pelo pré-natal, e estava fazendo o tratamento para a doença, já que estava infectada. Procurei ouvi-la e esclarecer sobre a importância deste tratamento, já que esta doença tem cura, e do pré-natal na detectação de algumas doenças e possíveis complicações no parto, visando o bem estar dela e do bebê, ressaltei também a importância do marido dela fazer os exames e se tratar também, pois ela poderia ficar curada com o tratamento, porém o risco de ser contaminada de novo seria muito grande se ele não se tratasse, por ser a possível fonte de contágio.

O enxoval é entregue às gestantes ao final da atividade. O comparecimento toda semana é primordial para receber o enxoval. Esta atividade acontece toda terça-feira às 14h.

4 - Aulas de trabalhos manuais

Acontece:

Dias

Horários

Atividades

Terça-feira

14:00 às 16:30 h

Pintura em tecido

15:00 às 17:00 h

Ponto de cruz

Sexta-feira

14:00 às 17:00 h

Crochê

14:00 às 17:00 h

Artesanato

Cada atividade tem um professor responsável pela turma, que geralmente é composta de cinco a dez alunos, dependendo do professor. O professor arruma a sala, e todo o material utilizado, a instituição compra ou recebe de doação. Tudo que é produzido pelas turmas é vendido nos bazares e no Chá Fraterno, organizado pela instituição, como forma de arrecadar verbas para a casa espírita. Em algumas turmas, ao terminar a aula, se faz a prece, em outras é lida uma mensagem tirada de um livro sobre otimismo, que para eles não deixa de ser uma prece.

Os alunos são sempre os mesmos, e se reúnem semanalmente na mesma sala. Algumas pessoas dizem que participam das aulas há dois, três, quatro anos, e relatam ser uma espécie de terapia, pois não gostam nem de faltar a uma aula sequer.

Na turma de pintura em tecido, uma das alunas me relatou que teve problemas sérios com depressão, e que aquelas aulas estavam lhe ajudando a sair daquela situação.

Nesta mesma turma, observei que as pessoas não gostam de tocar no assunto doenças, todas conversam sobre vários temas, e quando começa a se falar em doença, logo alguém muda de assunto propositadamente.

As turmas são alegres, as pessoas conversam o tempo todo. A professora de crochê procura sempre estar incentivando as pessoas nos pontos de crochê e parabenizar pelo progresso no que elas estão fazendo.

A professora de artesanato também é muito expansiva e comunicativa, está sempre alegre, brincando, levantando o astral de todas as alunas.

Já a professora de pintura em tecido, faz questão de toda semana levar café para servir às alunas.

As turmas são de mulheres, porém a faixa de idade é muito variada, tem pessoas de 30, 40, 50 anos, como também adolescentes de 16, 18, 20 anos.

A maioria das pessoas mora próximo ao Centro Espírita ou em bairros vizinhos ao local onde se situa a instituição.

5 - Estudos Doutrinários:

Acontece:

Dias

Horários

Quinta-feira (1o, 2o, 3o e 4o ciclos)

15:00 às 16:30 h

20:00 às 21:30 h

Sábado (1o e 2o ciclos)

18:00 às 19:30 h

A partir das 19:30 h, no salão, é realizado o momento de descontração com cantos religiosos. São aproximadamente vinte minutos, depois é lida uma crônica espírita tirada do livro de Francisco Xavier - "A Sombra do Abacateiro". Após este momento, a sala é escurecida e é feita a prece. Em seguida, o grupo se divide nos ciclos - quem é do primeiro, do segundo, do terceiro e do quarto ciclos - cada grupo vai para uma sala com o dirigente. Nas salas são realizadas aulas sobre os ensinamentos da doutrina espírita. Os ciclos funcionam de acordo com o grau de dificuldade dos temas sobre a doutrina, assim, se inicia no primeiro e vai até o quarto ciclo, que é o mais complexo. Alguns, depois de fazerem todos os ciclos, retornam ao primeiro como uma forma de continuar estudando a doutrina. Geralmente, no terceiro e no quarto ciclos começam a desenvolver a mediunidade de cada aluno.

Os ciclos são como "catequese espírita": estudos feitos sobre a doutrina, que vão aumentando a complexidade com o passar dos anos. A cada ano a pessoa passa de um ciclo para outro, e cada ciclo tem a duração de um ano. No 4o ciclo são desenvolvidas as manifestações mediúnicas de cada um, através da psicografia e psicofonia. Começa a desenvolver a mediunidade e cada um passa a ter uma atividade maior, se engajando nas atividades espíritas, participando do grupo de médiuns da casa.

O relevante desta atividade é que na medida em que as pessoas vão chegando, estas se cumprimentam, pois praticamente se conhecem, porque aquelas que já começaram os estudos fazem parte da mesma turma; por ser uma atividade que tem continuidade, apenas as pessoas que estão no 1o ciclo é que estão iniciando, assim logo de início não se conhecem, mais com o passar das semanas, já começam a se integrar aos grupos e a fazer amizades.

Algumas pessoas nem fazem muita questão de logo que chegam irem lá para o salão, para o momento do canto, preferem ficar ali no pátio conversando com os colegas e amigos que vão chegando.

Todos os médiuns da casa são obrigados a participar dos ciclos de estudo, seja dirigindo (ou coordenando) um grupo dos ciclos de estudo, seja fazendo parte de um dos grupos. A questão do estudo é muito importante para quem segue a doutrina, pois não deve nunca parar de aprofundar os estudos e nem tão pouco parar de ler sobre a doutrina. Daí o aspecto de religião intelectualizada, como algumas pessoas falam do espiritismo, pois para ser um adepto deve estar sempre informado e estudando a doutrina.

A dinâmica dos ciclos de estudo é da seguinte forma: as pessoas ao chegar ao Centro Espírita e passar pela entrevista, são convidadas a participar do 1o ciclo de estudo que é sobre a base do espiritismo; é uma fase bem inicial sobre algumas das questões que permeiam a doutrina, com a finalidade de dar um esclarecimento inicial sobre ela. Se a pessoa continuar freqüentando, e gostar, no ano seguinte vai para o 2o ciclo que é a continuação. O 3o ciclo já começa a tratar de questões mais aprofundadas sobre a doutrina, como o desenvolvimento da psicografia e psicofonia. O 4o ciclo já trata de questões relacionadas à mediunidade e ao treinamento desta manifestação.

No 3o e 4o ciclos, as pessoas que participam começam a trabalhar nas atividades espirituais da casa, como o desenvolvimento da mediunidade. Para dar passe é preciso que o médium faça um curso preparatório para passe com a diretora espiritual (que acontece num final de semana previamente agendado), assim como para trabalhar no plantão de entrevistas, os médiuns fazem um curso preparatório, também com a diretora espiritual, e este médiun deve estar bem preparado para trabalhar no plantão de entrevistas, por ser uma atividade que trata diretamente com a demanda e sofrimento das pessoas que procuram a instituição.

Fui convidada para participar de uma reunião que acontece no início do ano com os coordenadores de ciclos de estudo. Esta reunião é feita pelas diretora e vice-diretora espiritual, que organizam o calendário anual e o planejamento das aulas dos ciclos de estudo. Todo o material e a organização das aulas são entregues nesta reunião aos coordenadores. Várias questões foram debatidas e as que me chamaram a atenção foram:

  • A entrada e evasão das pessoas na casa espírita: muitos são os que entram, porém há também o abandono de pessoas. Assim, foi falado da necessidade de se procurar saber os motivos que levam essas pessoas a abandonar a instituição e propor um retorno.
  • Um dos coordenadores trouxe uma questão interessante: a importância de se desenvolver um trabalho voltado a tratar, mediante o evangelho dos espíritos e a da própria Bíblia, pessoas com problemas depressivos e emocionais. Seria formado um grupo de pessoas voluntárias para trabalhar com esses casos, fazendo visitas domiciliares, tratando desses casos na tentativa de tirar essas pessoas do estado em que se encontram, como uma alternativa para esses problemas. Muito se foi discutido sobre esta proposta, porém o Presidente da instituição Sr. Ricardo, propôs a este coordenador que fizesse um projeto com esta proposta e como seria realizado este trabalho, para ser encaminhado à reunião de diretoria para ser discutido e avaliada a possibilidade de se realizar tal trabalho. Porém, tanto a diretora espiritual quanto o presidente da casa, ressaltaram a importância desta equipe ser formada por pessoas qualificadas e experientes para trabalhar com esses casos, pelo fato de se tratar de problemas não só espirituais, mais psicológicos e físicos, e não ser qualquer pessoa que poderia fazer parte desta equipe de trabalho.

6 - Cirurgia Espiritual e tratamentos específicos

Acontece: Sextas-feiras às 19 horas.

1o momento: Preparação para início do trabalho.

As 18:45h, dá-se o início deste trabalho, com a reunião dos médiuns que trabalham nesta atividade. Eles se reúnem na sala de passes para se prepararem para a cirurgia espiritual. É colocada uma música bem suave - numa forma de preparar o ambiente, deixando todos bem tranqüilos e serenos. O coordenador inicia com a prece e logo após é lida uma mensagem de um livro de Chico Xavier. Após esta leitura são feitos comentários sobre o tema que envolve o texto, em seguida é feita nova oração, de acordo com a leitura.

2o momento: Diálogo fraterno.

Momento de comunicação dos médiuns com o mundo espiritual - através de uma oração, são convocados os espíritos que queiram se comunicar, pedindo a Deus que os encaminhe para aquele ambiente. Neste momento, os médiuns estão todos sentados (as cadeiras são postas de um lado e do outro da sala, assim os médiuns ficam sentados uns de frente para os outros), de olhos fechados. A sala é escurecida, apenas uma meia luz fica acesa. A única pessoa que fica de pé é o coordenador do trabalho.

O silêncio é total, alguns minutos depois começam a se perceber as primeiras manifestações de algum espírito no corpo de um dos médiuns. Na medida que isso acontece, o coordenador convoca um médium - que não está em transe - para dialogar e doutrinar aquele espírito.

Passado o tempo, que foi de 15 ou 20 minutos, para os espíritos se manifestarem, o coordenador deu por encerrado o momento, perguntando a todos os médiuns se estavam bem, e em seguida fez a oração para que todos os espíritos retornassem ao plano espiritual, agradecendo a Deus aquela oportunidade de conversar com Eles.

Passado este momento, o coordenador faz a convocação para o trabalho cirúrgico; primeiro convoca os médiuns que irão para a sala de cirurgia, depois os que vão para a preparação dos pacientes e o papel que cada um vai desempenhar, e por fim, os que sobram permanecem na sala apenas em oração e meditação.

3o momento: Preparação dos pacientes para a cirurgia espiritual.

Neste momento, no salão principal, já se encontram as pessoas que passarão pela cirurgia. O coordenador da noite junto com dois médiuns, dirigem-se para o salão a fim de dar início a este momento. Os outros médiuns permanecem na sala de passes em meditação. No salão são lidas uma mensagem e uma passagem bíblica, que previamente são escolhidas pela diretora espiritual. É uma espécie de ritual para preparar, não só os pacientes, como também o ambiente. Ao final, é feita a prece e são lidos os nomes e os endereços (onde as pessoas se encontram naquele momento), de todos os pacientes que passaram por aquele tratamento espiritual, não só os que estão presentes, como também os que estão nos seus lares ou em hospitais, onde será feita a cirurgia à distância. Ao final, é lida uma mensagem e um texto tirado de um livro espírita.

4o momento: Cirurgia espiritual.

Os médiuns que foram convocados ao trabalho na cirurgia se dirigem à sala, e lá se organizam da seguinte forma:

  • A sala possui duas camas dispostas em um dos lados da sala. As camas são cobertas por um lençol, um travesseiro e um lençol para cobrir. Há um ventilador no teto que fica o tempo todo ligado, porém, em velocidade baixa. A luz é bem fraquinha e o silêncio toma conta do ambiente.

Ao lado, fica a sala do repouso que é para onde vão os pacientes que acabam de passar pela cirurgia. Lá eles permanecem por 10 ou 15 minutos, e tomam um cálice de água fluidificada.

A dinâmica da cirurgia é feita da seguinte maneira:

O plantão de entrevistas é o momento em que se avalia se o caso é ou não de cirurgia. Assim, os casos de cirurgia são encaminhados a uma nova entrevista, na quarta semana do tratamento de passe. Nesta entrevista, recebem todas as recomendações para serem feitas antes e após a cirurgia, uma delas é a de não comer carne no dia da cirurgia, fazer apenas uma refeição bem leve no almoço à base de legumes e verduras, e depois não ingerir nada sólido, só água, e manter repouso após a cirurgia, e no dia seguinte a cada hora, deve beber um cálice de água fluidificada. Isso tudo é dado por escrito ao paciente.

É recomendado também, que durante a semana após a cirurgia, o paciente não coma carne de maneira nenhuma, só legumes, verduras e frutas, e oito dias após a cirurgia, o que eles chamam de "curativo", o paciente deve, no horário em que é desenvolvido o trabalho na casa espírita (o trabalho de cirurgia espiritual), fazer repouso e não receber ninguém para que o ritual se complete através dos fluidos dos espíritos que serão emitidos a ele.

Retornando ao momento da cirurgia, depois que todos se acomodam na sala, é feita a entrada de dois pacientes por vez para início do ritual. Dois médiuns os acomodam nas camas, e um terceiro faz uma prece dando início a sessão. Neste momento, pude observar que todos os médiuns ficam sentados de olhos fechados e com as palmas das mãos abertas para cima. O silêncio é pleno e cada sessão dura de 15 a 20 minutos, sendo atendidos dois pacientes por vez. Quem controla o tempo são as duas pessoas que ficam na sala de repouso, assim, os pacientes são levados com a ajuda delas e dos médiuns para a sala de repouso e permanecem por lá por mais ou menos 10 minutos. Neste dia, foram realizadas apenas três cirurgias, assim, quando entrou o terceiro paciente, a segunda cama foi arrumada e fechada por uma cortina.

5o momento: Fim dos trabalhos da noite.

Após este momento, os médiuns retornam à sala de passes ao encontro dos outros que ficaram. Neste momento, todos esperam em silêncio e com pouca luz, o retorno do coordenador, do médium que fez a prece no salão e das duas pessoas que ficaram na sala de repouso. Após o retorno de todos, é finalizado o trabalho da noite. Como era a primeira vez que estava assistindo ao trabalho, me foi dado um espaço para esclarecer as minhas dúvidas.

Em seguida, foi aberto o espaço para os médiuns comentarem o que sentiram e o que perceberam durante as sessões.

A atividade do dia termina com a prece, ao final do relato das pessoas, por volta das 21 horas.

Os pacientes após a sessão cirúrgica saem da cama com o auxílio de alguém, pois eles ficam sonolentos, como se estivessem anestesiados, sem, é claro, terem tomado nenhum tipo de anestésico. Assim, eles devem estar acompanhados por algum parente ou amigo, para que possam retornar a seus lares.

Os relatos dos médiuns sobre a cirurgia são interessantes, pois quem atua na cirurgia são espíritos, geralmente de médicos. O que acontece é o desdobramento, que de acordo com o relato dos médiuns, o espírito sai do corpo encarnado e a matéria percebe e vê isso acontecer.

3.3.2 - Dados obtidos nas entrevistas

Foram entrevistados oito homens e 12 mulheres.

Entrevistar as mulheres foi mais fácil do que os homens, pois geralmente estes vão mais à instituição à noite, e quando chegam já está quase na hora de começar as atividades. Já com as mulheres não ocorre desta forma, porque estas vão mais à tarde. A idade dos entrevistados variou entre 20 e 73 anos, a maioria moradores de bairros vizinhos à Casa Espírita, como Maria da Graça e Manguinhos, porém, alguns moram em bairros afastados como, Ilha do Governador, Tijuca e Largo do Machado. Quanto à profissão e ocupação, a maioria são donas de casa e aposentados, porém, apareceram pessoas com formação profissional em nível superior, como advogado, assistente social, enfermeira, fonoaudióloga e odontólogo.

Todos afirmaram que são praticantes da doutrina.

Essa caracterização de quem trabalha e freqüenta, nos remete a um aspecto colocado por Giumbelli (1995) sobre o Espiritismo, que é uma religião que se distingue das outras por apresentar entre seus adeptos, um alto índice de escolaridade e de renda familiar. Sendo considerada como uma religião intelectualizada por esses aspectos, e por valorizar a leitura e o estudo como principais pontos para qualquer adepto, estes foram dados que nos chamaram a atenção, pois as pessoas ali inseridas, procuram ler, se interessam em estudar a doutrina e é muito diversificada a condição social.

A seguir, apresentaremos os resultados seguindo os grupos de análise construídos:

Procura de Apoio

No que se refere à demanda da população, segundo os entrevistados, esta é bem diversificada e está relacionada à busca de paz, tranqüilidade, equilíbrio, alívio para as dificuldades e aflições, e orientação. Alguns casos são de pessoas com problemas relacionados ao desemprego, às insatisfações, desarmonia no lar, problemas ligados a conflitos sociais e familiares. Porém, nesta gama de questões, estão também alguns casos de curiosos, pessoas interessadas em conhecer ou aprofundar o conhecimento sobre a doutrina espírita.

A demanda é por resoluções, paz, tranqüilidade, meios que possam proporcionar um bem estar físico, a partir do alívio dos sofrimentos. Essa busca é expressa na fala de um dos entrevistados: "... eu acho que todas vêm buscar alívio das aflições, aquela dor que remédio nenhum não passa", outro diz que: "... perdeu um ente querido, um marido saiu de casa, o filho rebelde, esses vêm em busca de uma palavra amiga, até mesmo achando que a gente vai resolver os problemas deles...".

Assim, a diversidade da demanda é bem aparente, pois atendem a diversos tipos de casos.

O segundo ponto deste item se refere a quem recorrer em momentos de angústia, aflição e desespero. A maioria das pessoas responderam que recorrem a Deus, Jesus, Maria e à prece, pois são meios utilizados pela religião nos momentos de dificuldades, mas também utilizados em momentos de agradecimentos e de alegrias, é o meio que traz um certo conforto, e é o instrumento pelo qual a fé se estabelece aos seres humanos, pelos vínculos com estes símbolos.

Também apareceu nas respostas, a procura por amigos íntimos, parentes como, pai, mãe, irmão(ã), marido, pessoas próximas e que de certa forma vão demonstrar carinho, afeto e confiança para ouvir, aconselhar e guardar segredo.

A percepção sobre ajuda que recebem da instituição, é afirmada por todos, pois segundo os entrevistados, ela proporciona meios para sair da depressão, apoio e acolhimento. Recebem também orientações e esclarecimentos. Todos afirmam receber algum tipo de ajuda, e essa ajuda é do tipo material, emocional e informativo. À medida em que se sentem acolhidos, um clima de solidariedade e amizade se faz presente entre as pessoas da casa espírita. Alguns falam de ajuda espiritual, que seria através do fornecimento de "energias positivas" para o indivíduo, como afirma um dos entrevistados: "... você vem, muitas vezes a gente vem assim pesada, você vem chateada, às vezes nervosa, e eu saio daqui parece que estou nas nuvens, entende? É assim mesmo, uma higiene mental, realmente é ótimo". Um outro respondeu que: "... com certeza é a forma de se recepcionar, o abraço, uma palavra amiga. A primeira vez que fiz a entrevista aqui, eu fiquei impressionada como a pessoa identificou as minhas fragilidades naquele momento".

Esta entrevista que essa pessoa relata, é o plantão de entrevistas que é a atividade porta de entrada da instituição. O plantão de entrevistas se propõe a abrir um espaço em que as pessoas possam usufruir, no sentido de falarem dos seus problemas e dificuldades, com a confiança de que será sigiloso, e buscar alternativas que possam dar um caminho à resolução, como relata um dos entrevistados: "É um espaço fechado em que as pessoas podem se abrir e contar os seus problemas, suas dificuldades, com a certeza de que os seus segredos jamais serão revelados".

Segundo os entrevistados, "não estão ali para dar soluções, mas indicar caminhos que possam chegar a elas". Neste momento, são dados conselhos, esclarecimentos sobre a doutrina e incentivo para que a pessoa passe a freqüentar a casa espírita.

Saúde e doença

Para os espíritas, a saúde é um bem estar físico, mental, e espiritual. Equilíbrio entre mente e corpo, e está relacionada com os hábitos cotidianos e o controle emocional. Segundo os entrevistados, a saúde está relacionada ao comportamento, hábitos cotidianos e a paz interior. "É com o corpo são, a mente equilibrada, que se tem saúde". Presente na fala de um dos entrevistados: "a saúde deve ser vista de forma ampliada, deve-se unir todas as cadeiras da medicina para tratar o paciente", procurando assim integrá-lo como um todo e não ser analisado a partir de suas partes individualmente. A saúde é um bem estar físico, emocional e espiritual.

A doença é o acometimento que pode levar a problemas mais sérios, a partir do momento em que há um desequilíbrio no corpo como um todo, desequilíbrio de ordem emocional. Como aparece em uma das respostas: a "enfermidade que atinge o corpo físico, é a ausência de saúde, e tem relação com o meio ambiente, com os excessos, com a conduta, o comportamento, os sentimentos". Para estas pessoas, e de acordo com a doutrina espírita, são vários os fatores que estão relacionados com a doença, e para os médiuns a doença está relacionada a duas origens principais: pode ser de origem material ou espiritual.

A cura, por sua vez, está relacionada com um processo - existem fatores que levam à cura, relacionada com a paz, o amor, o fazer o bem e a fé em Deus. Porém, também está relacionada com o equilíbrio, com a harmonia e a aceitação à doença. Para se ter a cura, deve-se trabalhar com o íntimo do indivíduo. É o alívio de um mal, é o alcançar o estágio de equilíbrio emocional, mental e sentimental.

Do ponto de vista da doutrina espírita, para se alcançar a cura, há todo um processo ritual. É uma tarefa pedagógica entre os espíritos obsessores ( que são os causadores das enfermidades) e os médiuns. No espiritismo, boa parte das enfermidades é interpretada como sendo causada por esses espíritos obsessores, que provocam a doença na medida em que ignoram a maneira correta de agir.

Assim, a cura como diz um dos entrevistados, "seria alcançar este estágio de equilíbrio emocional, mental ou sentimental, conforme a visão de cada um".

A percepção do problema de saúde para alguns dos entrevistados, está relacionada ao destino, ou seja, suas respostas estão voltadas para uma visão espírita sobre doença, que afirmam ser algo cármico, uma forma de resgate do que aconteceu em vidas passadas. "O indivíduo tem que passar por isso, para crescer espiritualmente". Porém, a grande maioria afirma que problema de saúde está relacionado diretamente com o corpo e a mente. O equilíbrio é fundamental para controle das emoções, assim como o comportamento e os cuidados com que cada um deve ter com seu corpo.

Essa relação mente e corpo é muito presente nas respostas, e o equilíbrio das emoções aparece como fator importante na manutenção da saúde, como nas seguintes respostas: "Está relacionado com o corpo e a mente, tranqüilamente, por experiência própria devido a muitos problemas que eu já passei,... foi assim, prejudicou muito a minha saúde, devido a meu estado mental... de acordo que eu melhorei a minha cabeça, meu pensamento, a minha mente; meu otimismo estava guardado, então melhorou muito a minha saúde". Segundo uma outra entrevistada: "Olha, o problema de saúde começa tudo no sistema nervoso,... eu sempre fui uma pessoa saudável, nunca tive nada, depois que meu marido teve esse problema de saúde, minha filha me aprontou uma, eu já tive de tudo que você possa imaginar". E ainda um terceiro entrevistado diz que: "Nós temos grande parcela de culpa em deixar que essas doenças ocorram... porque você se deixa levar por muitas coisas que acontecem no seu dia-a-dia, e com isso você vai transmitindo doença para o físico, sem mesmo perceber".

A relação entre Medicina Oficial e Centro Espírita, é percebida por todos como uma relação de complementaridade. Apenas dois entrevistados afirmaram que ainda não procuraram a Casa Espírita para tratamento de doenças, apenas procuram a medicina convencional em casos de alguns probleminhas de saúde. Porém, observamos com as respostas que o tratamento com a medicina oficial está em primeiro lugar, e o tratamento realizado no Centro espírita é complementar ao da medicina, porque vai tratar a mente, as emoções e o espiritual, e a medicina trata do corpo físico e dos sintomas das enfermidades.

Assim, cada qual trata do que é de sua responsabilidade, e o sucesso das terapias religiosas está na adequação à realidade do paciente, e da sua relação com o mundo místico. Os sistemas religiosos têm grande sucesso porque ao invés de partirem de explicações reducionistas, como acontece na medicina oficial, partem de explicações em que os estados desordenados e confusos do paciente são organizados em um todo coerente. O tratamento religioso procura trabalhar o indivíduo como um todo, reinserindo-lhe em um novo contexto de relacionamentos.

A relação entre as práticas espíritas e a saúde, "está em buscar harmonia, equilíbrio e, através das atividades, descobrir a melhor maneira de viver bem e de ter o equilíbrio entre mente e corpo para se ter saúde", sendo esta uma das falas dos entrevistados.

Esta relação está na complementação que uma pode proporcionar à outra. Elas devem ser paralelas e complementares, na medida em que uma não deve se dissociar da outra. Em primeiro lugar está a medicina oficial, convencional, que vai tratar de todos os aspectos que cabem a ela, que ela consegue dar conta e tem grande sucesso. Em segundo lugar está a "medicina espiritual" que vai tratar os problemas que eles relacionam como sendo do espírito, cármico.

Problemas relacionados com as emoções, como depressão, ansiedade, estresse, devem ser assistidos por ambas as medicinas, por serem casos que requerem um tratamento demorado e que nem sempre com a medicação se resolvem, mas precisam de um de fundo terapêutico, em que vai trabalhar a valorização do indivíduo, os seus sentimentos, a auto-estima, proporcionando um bem estar e uma conseqüente melhora no quadro clínico.

Muitos são os casos que procuram a instituição como meio de solucionar algum tipo de problema de saúde, e a instituição, através de suas atividades, buscam a melhor forma de contornar e resolver o problema.

Em alguns casos, como o de depressão, as pessoas são encaminhadas a trabalharem em atividades sociais, como a sopa na rua, as aulas de trabalhos manuais, a campanha do quilo, o atendimento à gestante, etc., no sentido de fazerem com que elas se sintam úteis através de suas potencialidades, ocupando o seu tempo com atividades que proporcionem prazer, alegria e distração.

Assim, segundo os entrevistados, praticamente todas as atividades, de alguma forma têm a proposta de trabalhar a saúde. "Elas buscam trabalhar o indivíduo, o seu interior, as suas aflições e angústias, fazendo com que cada um encontre as respostas e os esclarecimentos quanto às questões mais pertinentes".

"As pessoas que se inserem nas atividades da casa, passam a entender melhor os acontecimentos e a se sentir mais úteis, na medida em que trabalham em prol da melhoria dos outros, e com esse trabalho acabam proporcionando um bem estar para si".

Inserção e Pertencimento

Ao referimos sobre o tempo que freqüenta a instituição, houve uma variação entre três, quatro meses a quinze anos. As pessoas que estão há menos de um ano na casa, participam da reunião pública, e somente um entrevistado que freqüenta a casa há mais ou menos dez meses, vem três vezes na semana.

À medida em que aumenta o tempo de freqüência à instituição, as pessoas acabam se engajando em várias atividades: participam da reunião pública, dos ciclos de estudos, dos trabalhos sociais e espirituais.

Somente um entrevistado que freqüenta a Casa há 15 anos, só participa da reunião pública uma vez na semana. A seguir, apresentaremos um esquema relacionando o tempo que freqüentam e a quantidade de vezes que vêm à casa por semana:

  • Menos de um ano na casa - apenas uma vez por semana:

Somente um entrevistado que há dez meses freqüenta a casa, afirma vir três vezes na semana - vem à reunião pública, ao ciclo de estudo.

  • De um a cinco anos - a freqüência aumenta para duas ou três vezes na semana:

A penas um entrevistado que continua freqüentando a casa uma vez na semana, afirma que tem pouco tempo disponível.

  • De cinco a quinze anos ou mais - a freqüência aumenta para duas, três ou mais vezes na semana:

Dos entrevistados que têm mais de cinco anos que freqüentam a casa, apenas três falaram que participam uma vez na semana, são freqüentadores da reunião pública e afirmam não faltarem uma semana, pois sentem falta quando isso acontece.

Os que freqüentam a casa mais de uma vez na semana estão inseridos nos ciclos de estudos.

Todos os que entrevistamos, afirmam que pelo menos uma vez na semana vão a instituição, e que não podem ficar sem ir, pois "sentem uma falta muito grande, um vazio, como se faltasse algo".

Outro aspecto relevante é com relação ao interesse pela leitura, pela informação, e isso pude perceber durante as entrevistas e a permanência das pessoas na casa. Nos horários de atividades, as pessoas demonstram interesse pela leitura espírita, estudar a doutrina e ler as mensagens que são entregues nas atividades.

Com relação às amizades conquistadas na instituição, a maioria afirma conhecer as pessoas, e com o tempo vão formando vínculos de amizades. Quando perguntamos "o que leva a ter essas amizades ?" as respostas são pela admiração que têm pelas pessoas que trabalham na instituição, seja pela confiança que elas demonstram, seja pelos contatos que vão sendo estabelecidos, isso faz com que cada vez mais os círculos de amizades vão se formando.

Assim como as amizades construídas no ambiente institucional, está o grau de confiança e pertencimento. A confiança é percebida através das orientações recebidas, no acolhimento e na proposta de ajuda por todos aqueles inseridos na instituição. A sinceridade também é percebida através dos atos das pessoas que estão trabalhando na casa. Estes aspectos são percebidos e relatados pelos entrevistados, segundo alguns: "É a amizade, assim eu confio nas pessoas, eu sei que se eu contar alguma coisa, as pessoas não vão ficar sabendo. Porque quando eu estou precisando de um conselho, de uma palavra amiga, ou estou em dúvida de alguma coisa, eu posso confiar".

Esse clima de amizade faz com que as pessoas criem afinidades e confiança no outro, favorecendo assim um ambiente de contato permanente entre as pessoas. Um outro entrevistado fala da esperança e paciência, como objetivo de todos aqueles que ali estão inseridos, e esta esperança denota a confiança entre as pessoas "... é o bate papo, você conversar, encontrar as pessoas, a esperança. ‘Espera mais um pouco, tenha paciência’, às vezes o problema da gente é enorme, as pessoas falam para ter paciência, mas daqui a pouco a gente vê que se não tivermos paciência, aí é que você não vai resolver aquilo". Outro fator para a confiança está no contato entre as pessoas, que de certa forma é sistemático, elas acabam se tornando conhecidas, interagindo entre si. Esse contato permanente faz com que as amizades sejam estabelecidas e a confiança percebida.

Outra questão presente é o pertencimento, que é evidenciado através do apoio encontrado nas pessoas e o querer bem a todos. Alguns relatam que sentem como se a instituição fosse parte do seu lar, pois conhece a todos como se fosse da família, ou seja, é parte integrante.

Para outros, a instituição está aberta a todos no sentido de acolher sem discriminação. Neste aspecto de acolhimento, a forma com que são recebidos denota o aspecto do pertencimento, pois se sentem pertencentes, porque são acolhidos e recebidos com carinho e atenção. O compromisso de vir à casa espírita com o objetivo querer algo e conseguir.

A inserção ao Centro Espírita se dá através da indicação de alguém, seja amigo, vizinho, familiar, ou algum freqüentador da casa. Outro aspecto relatado é o que alguns chamam "pelo processo dor", ou seja, ligado a vários fatores, dentre eles, doença, problemas familiares, conflitos emocionais, angústia e sofrimentos.

É a idéia de busca por meios que representem a real condição de vida, e que dê respostas aos seus problemas e aflições. Essa inserção através da indicação de alguém, reflete a idéia de procura por meios que estejam mais próximos da realidade cotidiana de cada um.

Um ponto relevante na entrevista, foi com relação a questão referente à busca pelos espaços religiosos, ou seja, os motivos que os levaram a ir à instituição. As respostas apontaram para: a busca de paz e tranqüilidade, assim como a necessidade de apoio e de sustentação para entender os problemas do cotidiano; a busca de informação, esclarecimentos e de conselhos, respostas as suas questões e dúvidas sobre alguns aspectos relacionados ao cotidiano; a busca de consolo, a doutrina de certa forma procura esclarecer e dar consolo aos seus adeptos. Estão presentes também, a busca de meios que resolvam os seus problemas.

Alguns falam que a inserção na instituição espírita se dá apenas por dois motivos: um pelo amor, ou seja, interesse em conhecer, estudar a doutrina, pois essas pessoas já têm um conhecimento prévio dela, seja por já ter ouvido falar ou já ter lido um livro espírita; querer conhecer mais sobre a doutrina; e pelo processo dor, que são todos aqueles casos em que a pessoa está passando por algum tipo de sofrimento que, direta ou indiretamente, está relacionado com a saúde. Neste aspecto, aparece a busca por outros recursos, não só da medicina oficial, mas por meios que dêem uma certa resolutividade aos problemas de saúde.

Ao perguntar sobre a inserção ao Centro Espírita, não ficou muito claro sobre a busca pelo espaço religioso, porém, ao questionarmos sobre os motivos e o que vieram buscar participando das atividades da instituição, ficou claro que estão relacionados com os problemas e as situações cotidianas e, principalmente, na busca pelo equilíbrio e pela paz como são evidenciados.

Mudança e benefício

Todos os entrevistados afirmam perceber alguma mudança, porém, esta mudança está no indivíduo, e não necessariamente na vida, mas vai refletir na vida da pessoa que passa por uma transformação: o indivíduo passa a ver as coisas (ou talvez o seu sofrimento) de outra forma, com a possibilidade de um novo sentido à vida.

As respostas estão em torno da mudança ocorrida na visão sobre os problemas, no comportamento e nas atitudes e, principalmente, nas soluções desses problemas, no estar equilibrado para tomar decisões que julgam corretas sem entrar no desespero, e de entender a si mesmo e aos outros. É uma mudança não só no individual, mas no coletivo também, pois a partir do momento em que o indivíduo se sente mais motivado e valorizado, o seu relacionamento com os outros também passa a ser diferente, principalmente com as pessoas que os cercam, porque vai refletir no coletivo.

A paciência, a tolerância, o equilíbrio e a paz são evidenciados, ou seja, o fortalecimento do indivíduo: "não sou mais indeciso, medroso, inseguro, hoje estou fortalecido, revigorado e compreendo mais as coisas que acontecem, estou mais preparado para enfrentar os problemas da vida cotidiana". Alguns afirmam que as relações com familiares sofreram mudanças a partir do momento em que essa mudança é percebida por eles próprios, e repercutiu em um melhor relacionamento entre os membros da família.

Segundo os entrevistados, o benefício que as atividades trazem é no campo do individual, é o conforto, o bem estar, o revigoramento, a energia que precisam para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia, a superação dos problemas de saúde e, principalmente, o fortalecimento para entender os outros e saber conviver com eles.

Nas entrevistas, as pessoas relatam que a importância dessas atividades está na troca do que elas chamam de "energias negativas por energias positivas". Isso está presente no ambiente entre as pessoas e na satisfação de estarem em contato umas com as outras.

Algumas pessoas ainda relatam que, na medida em que os problemas e as dificuldades aumentam, percebem a necessidade de aumentar o número de idas à casa espírita. Isso denota a importância e a necessidade de estar mais em contato com as pessoas. Sem contar com a satisfação, o prazer de estar em contato com pessoas da instituição, de se sentir acolhida, pertencente, querida e amada.

Outro aspecto relevante nas entrevistas, foi com relação à perspectiva de vida, ou seja, a partir de evidenciar a inserção, a busca pelo espaço institucional, as mudanças observadas e os benefícios que as atividades da casa espírita proporciona, as pessoas demonstraram uma certa alegria de pensar num futuro próspero. A expressão delas ao falar da perspectiva futura, era de alívio, de pensar num futuro com paz, alegrias e superar os problemas. No rosto de cada um estava a esperança de dias melhores e a alegria de pensar num futuro cheio de esperanças.

A perspectiva de vida está pautada em esperanças, prosperidade, paz, aspectos, que segundo os entrevistados, são fundamentais para se ter uma vida tranqüila, feliz, harmônica. E a saúde aparece como fator primordial para um futuro próspero, seguido de paz.


1 - Mais à frente relatarei todo o processo da cirurgia espiritual.

2 - Retornaremos a falar sobre a água fluidificada mais à frente. Para saber mais sobre o assunto ver Cavalcante (1983).

 
 
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