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Pietrukowicz, Marcia Cristina Leal Cypriano. Apoio social e religião: uma forma de enfrentamento dos problemas de saúde. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 117 p.

Capítulo I:

Apoio Social, Saúde e Religiosidade...

1.1 - Apoio Social e Saúde

A discussão da categoria teórica metodológica de apoio social, teve seu início em intensos debates sobre saúde pública, nos EUA, em relação ao chamado social support. Sua definição envolve uma gama de fatores inter-relacionados, dentre eles as redes sociais, as relações íntimas e as relações comunitárias. Assim, apresentaremos a definição de apoio social, segundo alguns autores pesquisados.

Para Barrios (1999b) o apoio social inclui qualquer atividade que permita num espaço de tempo compartilhar com familiares, amigos, grupos religiosos, entre outros grupos, ou com qualquer pessoa que ofereça um apoio afetivo ou material. A importância desta categoria está na manifestação da solidariedade e no efeito benéfico como expressão de saúde para as pessoas que participam das atividades.

Barrios (1999b) aponta para um dado interessante sobre o apoio social que é assinalado desde a antiguidade, pois segundo este autor, a Bíblia refere-se sobre isso:

...Pero aquel que tiene bienes de este mundo, y ve a su hermanos padecer necesidad, y cierra contra él sus entrañas de conmiseración ?çomo podrá habitar el amor de Dios en él? Hijos míos, no amemos de palabra ni de la lengua, sino de obra y en verdad... (1 Juan 3:17, 18, apud Barrios, 1999b: 166).

Assim, o apoio social comporta um valor ético e político que é expresso, segundo Barrios, no Livro dos Gálatas "... Porque toda la Ley queda cumplida en un dicho a saber: ‘Tienes que amar a tu prójimo como a ti mismo’..." (Gal 5:14, apud Barrios, 1999b: 167).

Outra questão que este autor aponta é com relação ao conceito de apoio social, sobre o qual não existe uma definição universalmente aceita, pois alguns autores propõem definições que abrangem três níveis de análise: comunitário, redes sociais e relações íntimas que incluem o estudo sobre o apoio social. Outros autores apresentam definições baseadas na existência de quantidades de relações sociais. Entre as relações mais estudadas, estão o estado civil e a existência de freqüência de contatos com amigos e familiares (Barrios, 1999b).

Sin embargo solo a existencia de relaciones no implica la seguridad de apoyo. Por ello, otro tipo de definiciones enfatizan las funciones que cumple el apoyo social, y coincidem en considerar este concepto como um constructo multidimensional con distintas categorías, siendo las principales la provisión de apoyo emocional, apoyo material e apoyo informacional. Todos estos aspectos forman parte de lo que se entiende por apoyo social, y todos ellos deben incluir en las definiciones (Barrios, 1999b:167).

Arrossi (1994), apresenta diversos conceitos de apoio social, segundo estudos epidemiológicos de corte transversal e longitudinal. A maioria dessas investigações encontra uma associação clara entre apoio social e desenvolvimento de problemas depressivos. Nesta discussão a autora apresenta alguns pontos a serem considerados na análise dos conceitos de apoio social:

  1. Com relação à bibliografia sobre apoio social e a heterogeneidade dos conceitos, definições e instrumentos para medi-los.
  2. Necessidade de analisar as variáveis que têm sido utilizadas na mensuração de apoio social.

A partir destes pontos, Arrossi (1994) apresenta um quadro com a seleção de estudos e as variáveis utilizadas em cada um deles, fazendo uma distinção entre as investigações referentes ao apoio emocional e apoio instrumental, as que consideram a presença objetiva do apoio social, e as que consideram a percepção subjetiva, e os trabalhos que medem a ajuda em amplo espaço de tempo, e os que referem-se a ajuda somente em momentos de crise.

Ao analisarmos o apoio social, devemos levar em conta as especificidades existentes em cada país, principalmente os fatores que caracterizam a vida das classes populares do Terceiro Mundo, como por exemplo, pessoas vivendo em assentamentos irregulares sem infraestrutura adequada de serviços, desemprego, subemprego, ruptura familiar, violência, que são partes do cotidiano da vida dos pobres urbanos das cidades do Terceiro Mundo. Há necessidade de um marco conceitual que incorpore as inter-relações mais complexas dos diferentes fatores do estresse (Arrossi, 1994). As condições de vida, as relações estabelecidas entre as pessoas, o cotidiano e o ambiente em que vivem são fatores importantes a serem analisados quando se fala em apoio social, são aspectos que para algumas pessoas podem afetar a saúde e o bem estar.

De acordo com Dressler et al., (1997), a associação entre apoio social e os efeitos na saúde têm recebido consideráveis atenções, porém a dimensão cultural do apoio social não tem sido investigada amplamente.

Algumas pesquisas têm usado a teoria cultural derivada da testagem de hipóteses em relação ao efeito do apoio social em diversos grupos culturais. Inicialmente evidenciam a percepção de apoio entre amigos, vizinhos e parentes, especialmente entre homens, para quem estas relações são importantes, têm uma forte correlação e resultado benéfico à saúde. A segunda evidência é com relação às comunidades afro-americanas nos EUA, onde a relação do apoio entre parentes e amigos é muito importante, tanto para as pessoas jovens quanto para as idosas, ou seja, é um recurso especial, relevante tanto para jovens quanto para idosos face aos estressores específicos a que estão submetidos (Dressler et al., 1997).

Segundo Valla (1999, 1998) a categoria de Apoio Social se define como sendo qualquer informação, falada ou não, e/ou auxílio material, oferecidos sistematicamente por grupos e/ou pessoas que já se conhecem, que resultam em melhorias no campo de saúde-doença.

Outro fato a ser abordado sobre o apoio social, que é um processo de reciprocidade que gera benefícios tanto para a pessoa que recebe, quanto para quem oferece o apoio, possibilitando que ambas tenham o controle e o sentido sobre suas vidas e destinos - noção de empowerment (Minkler, 1985 apud Valla, 1998), trazendo melhoras significativas à saúde das pessoas.

Esta categoria tem um papel na manutenção da saúde, na prevenção das doenças e na própria convalescença, partindo da premissa que exerce efeitos diretos e indiretos sobre o sistema imunológico do corpo, no sentido de proporcionar um aumento na capacidade das pessoas de contornarem situações como o de estresse e os seus sintomas. Assim, faz parte da mesma premissa que o desequilíbrio emocional é um fator que, em grande parte, ocasiona o surgimento da doença. Segundo Barrios, alguns estudos têm demonstrado a influência dos estados emocionais e as variações do sistema imunológico, que quando afetados possibilitam as manifestações de enfermidades devido a baixa imunidade, ou seja, as doenças podem surgir porque inicialmente as emoções interferem no sistema de defesa do corpo (Barrios, 1999b).

O apoio social também exerce uma função mediadora, contribuindo na manutenção da saúde, e permite que as pessoas contornem a possibilidade de adoecer como resultado de determinados eventos da vida, como a perda do emprego, ou da capacidade de trabalhar, o falecimento de uma pessoa querida, uma ação de despejo, etc (Valla, 1998).

Bairro (1999b), refere-se às hipóteses de duas formas de atuação ou dois tipos de efeitos do apoio social na saúde e no bem estar do indivíduo:

1o) Efeitos diretos - o apoio social tem efeito direto sobre o bem estar, independentemente do nível de estresse - maior o nível do apoio social, menor mal estar psicológico; e menor grau de apoio social, maior incidência de transtornos, independentes dos acontecimentos vitais estressantes. Esta hipótese sugere que o apoio social e a saúde estão linearmente relacionados.

2o) Efeitos indiretos - o apoio social funciona como um moderador de outras forças que influenciam no bem estar. Esta hipótese afirma que quando as pessoas estão expostas a estressores sociais, estes tenderão a exercer efeitos negativos, mais ainda nas pessoas cujo nível de apoio social é baixo.

...según esta hipótesis, sin estresores sociales el apoyo social no tiene influencia sobre el bienestar: su papel se limita a proteger a las personas de los efectos patogénicos del estrés. En este paradigma, el apoyo social es esencialmente un moderador del estrés (Bairros, 1999b:168).

Cassel (1974), levanta a hipótese de que pessoas que não têm posições sociais privilegiadas, com a vida caracterizada por problemas sociais e desordem familiar, são mais susceptíveis a terem problemas de saúde relacionados ao estresse. Em estudos (Cassel, 1974), identificou-se conseqüências na saúde, como por exemplo, negros e migrantes que mudam de cidades, sofrem preconceitos e um certo desprezo, têm fatores que interferem nas condições de saúde. A sensação de não conseguir controlar a própria vida e a de isolamento social, podem estar diretamente relacionados ao processo saúde-doença. Porém a proposta do apoio social mostra que as conseqüências desses fatores não são necessariamente aplicadas a todas as pessoas afetadas da mesma maneira.

Este mesmo autor apresenta algumas hipóteses com relação aos fatores psicológicos na etiologia das doenças. Essas hipóteses partem de estudos feitos em laboratório com animais, e que devem ser levados em consideração nos seres humanos. Chama a atenção para os fatores ambientais que são importantes na etiologia das doenças, como o ambiente social, a desorganização social e familiar, o estresse e as questões ligadas a posições desprivilegiadas na sociedade, que alteram o estado emocional, causando um desequilíbrio do corpo, alterando os mecanismos homeostáticos, mudanças no sistema nervoso, e desequilíbrio emocional (Cassel, 1974).

Também para Greenfield (1987) evidências recentes têm demonstrado que o estresse tem papel importante na produção de doenças. As condições de vida, o crescimento populacional, as migrações para a cidade, a rápida industrialização, o colapso da estrutura da sociedade tradicional e a distribuição do sistema que reforça a separação tradicional entre ricos e pobres, segmentos da população desamparada e sem esperança, levam as pessoas a estarem expostas aos problemas de estresse, a partir do momento em que o estado emocional desequilibra o organismo tornando o indivíduo mais suscetível.

O apoio social pode ser medido ao nível da interação social/ participação, a partir do envolvimento das pessoas com os grupos comunitários, instituições, associações, etc e das relações íntimas e pessoais, através dos laços afetivos e emocionais com que são estabelecidos e evidenciados (Gottlieb, 1985).

Assim, segundo Valla (1998: 157), "um envolvimento comunitário, por exemplo, pode ser um fator psico-social significativo no aumento da confiança pessoal, da satisfação com a vida e da capacidade de enfrentar problemas". Desta maneira poderia se pensar na participação social como tendo efeito benéfico no sistema de defesa do corpo e na diminuição da suscetibilidade à doença.

Partindo de todos esses conceitos e da abrangência deste termo, definimos apoio social como um processo de interação entre pessoas ou grupos de pessoas, que através do contato sistemático estabelecem vínculos de amizade e de informação, recebendo apoio material, emocional, afetivo, contribuindo para o bem estar recíproco e construindo fatores positivos na prevenção e na manutenção da saúde. O apoio social realça o papel que os indivíduos podem desempenhar na resolução de situações cotidianas em momentos de crise.

De acordo com alguns autores consultados, classificamos o apoio social em três tipos:

  • Apoio emocional - está relacionado com os sentimentos, as emoções e a estima; as pessoas ao participarem de um grupo, passam a expressar os seus sentimentos e a se relacionar com os outros participantes. Estão aqui presentes os sentimentos de estima, de pertencimento e de confiança, pois com este tipo de apoio as pessoas acabam expressando seus medos, angústias, dores, ansiedades, tristezas, etc. Surge aqui uma forte sensação de aceitação e controle ao encararem as situações mais difíceis e irem além delas (Spiegel, 1997).
  • Apoio material ou instrumental - qualquer tipo de prestação de ajuda direta ou de algum tipo de serviço que propicie ajuda material, financeira, etc.
  • Apoio educacional ou informativo - estruturam-se no enfoque informativo educacional que é dado sobre vários assuntos, de acordo com os objetivos ou interesses do grupo. Geralmente estes grupos são formados por pessoas que buscam informação, conselho, esclarecimentos, conhecimentos sobre algum assunto, ou algo que os ajude a resolver os seus problemas. Esse tipo de apoio possibilita a troca de informação entre as pessoas, o sentimento de pertencimento entre os participantes e fornece a percepção de que os sentimentos do indivíduo são compreendidos e aceitos.

O apoio social oferece às pessoas, tanto para quem recebe quanto para quem oferece, afeto através de expressões de união, respeito e admiração, afirmação, ajuda. Sentimentos de proximidade emocional e de pertencimento a um grupo que partilha e expressa seus interesses e afinidades. Reforço do valor individual, da competência e capacidade individual. Reafirmação da confiança e aliança entre as pessoas, relacionado ao sentimento de segurança sentido pelo indivíduo; em relação à prestação de cuidados, orientação, conselhos e informação através da responsabilidade referente ao bem estar de todos.

O apoio social a ser investigado neste trabalho é aquele que interfere no processo saúde-doença, pressuposto na unidade corpo e mente, e parte da importância em se perceber que uma das origens da doença pode estar num desequilíbrio emocional.

Estudos têm mostrado que técnicas terapêuticas produzem efeitos benéficos à saúde, principalmente no combate aos problemas cardiovasculares, estresse, insônia e ansiedade (Luz, 1997). Este mesmo autor, em 1997, ressalta que atividades com "medicinas alternativas" vêm obtendo resolutividade em programas nos serviços públicos de atenção médica, diante da demanda da clientela, em relação a doenças crônicas, e a explicação para isso está no modelo diagnóstico terapêutico dessas práticas. Estas práticas se caracterizam em atividades desenvolvidas por grupos, sejam terapêuticos, de relaxamento, em que técnicas terapêuticas são usadas como forma de tratamento alternativo, paralelo ao tratamento médico.

David Spiegel (1995; 1997), tem desenvolvido nos EUA uma série de pesquisas relacionando o apoio social e o bem estar físico. Nestas pesquisas avaliou as relações entre apoio social e taxa de mortalidade e os seus benefícios à saúde, a partir de quatro tipos de apoio social: estado civil, contato com pessoas da família e amigos, participação em grupos religiosos e filiações a outros grupos.

Especificamente, a probabilidade de morte entre indivíduos com menos ligações sociais era o dobro da probabilidade de morte entre os indivíduos com laços mais fortes, mesmo quando se levou em conta hábitos como o tabagismo, consumo de álcool, atividades físicas, obesidade e uso de programas de prevenção (Spiegel, 1997:284).

A pesquisa mais importante realizada foi em pacientes femininos com câncer de mama. Ao final, verificou uma forte correlação entre apoio social e aumento na sobrevida dessas pacientes, e a importância dos grupos de apoios terapêuticos realizados nos hospitais.

Com relação ao estresse, que pode ser provocado por vários fatores como o desgaste excessivo do trabalho, horários irregulares impostos pelo trabalho (que muitas das vezes é precário e terceirizado), a falta de oportunidade no mercado de trabalho, os salários baixos, entre outras questões de ordem social, familiar e econômica (Valla, 1998, 1999). Fatores de ordem emocional como angústia, ansiedade, baixa auto-estima, também podem causar os mesmos efeitos.

De acordo com Miguélez (1999:18), o estresse emocional tem conseqüências negativas pois: "En primer lugar, disminuye el sistema inmunológico Del cuerpo y lleva al mismo tiempo a un desequilibro hormonal que tiene como resultado una gran producción de células anormales".

Para Barrios (1999a) o estresse psicológico é o resultado de uma relação entre sujeito e ambiente que é avaliado pelo indivíduo como "amenizante" ou "transbordante" de seus recursos e que põe em risco o seu bem estar. Este autor em seu texto "Eventos estresantes y benefícios secundários de la enfermedad", apresentado no II Curso Nacional Teorico Practico de Aplicacion Clinica y Social de la Psiconeuroinmunologia, descreve os efeitos do estresse no organismo, principalmente no que se refere à imunidade do corpo. Mas esses efeitos podem variar de pessoa-a-pessoa, na medida em que há uma relação com a percepção e o conceito que se tem sobre a realidade que se vive.

Aunque muchas personas pueden experimentar serios estresores durante sus vidas, no es justamente el estrés sino la manera de reaccionar ante el estrés lo que hace la diferencia en la susceptibilidad ante la enfermedad (...) en algunos casos, esas normas limitan la habilidad de las personas para el afrontamientos con el estrés, hasta el punto que el estrés parece confurdirse con problemas irresolubles. El resultado puede ser depresión, desesperanza, desespero, sentimiento de indefensión total (...)" (Simonton, 1994 apud Barrios, 1999a:107).

Castiel (1993), apresenta uma discussão sobre o arcabouço teórico-conceitual do estresse, segundo vários autores, classificando-os em psicológico e social, frente a pesquisas epidemiológicas do estresse. E expõe as dificuldades dos instrumentos epidemiológicos em lidar com as questões e os problemas de saúde, na medida em que o conceito de estresse se encontra em ampla expansão. A nós cabe apenas citar o estresse como um fator importante nos problemas de saúde relacionados com as emoções, principalmente relacionando-o com a parte significativa da demanda da população aos Centros de Saúde.

A medicina psicossomática procura estudar os aspectos psicológicos e a sua relação com as doenças. O moderno uso desse termo psicossomático remete a antigas concepções: a importância dos fatores psicológicos na causa das doenças e uma visão integral de ser humano. E essa disciplina se interessa pelo estudo das relações entre os aspectos do corpo físico, ou "soma", e do psíquico (Miguélez, 1999). Porém para Kirmayer (1988), as desordens psicossomáticas são incorporadas pela biomedicina como fatores sem legitimidade na doença; são relacionadas com distúrbios mentais, sendo tratadas separadamente por psiquiatras.

Cabe perguntar se o exercício do apoio social, com suas implicações em aumentar as defesas (imunidades) do corpo, não funciona em relação à saúde justamente porque dirigi-se ao homem e não às suas doenças.

Segundo Spiegel (1997), há um conjunto de teorias que sustentam a idéia de que o apoio social traz conseqüências físicas, influenciando o comportamento das pessoas, ou seja, o apoio social ajuda as pessoas a evitarem maus hábitos que podem comprometer os sistemas imunológico, nervoso e cardiovascular, dificultando o domínio do sofrimento físico pelo organismo. Isso ocorre na medida que a partir da convivência em grupo, as pessoas tendem a adquirir bons hábitos cotidianos, tais como parar de fumar, alimentar-se melhor e abandonar vícios graves, o que segundo o autor, acontece com os pacientes que fazem parte de grupos terapêuticos de alguns hospitais.

Spiegel (1997), em uma pesquisa na Stanford University procurou trabalhar com dois grupos de doentes de câncer de mama avançado, onde ambos recebiam o tratamento médico, mas apenas um recebia também a atenção de um grupo terapêutico, em sessões semanais de 90 minutos. Com o passar do tempo se verificou que as mulheres que freqüentavam o grupo de apoio social, mostravam-se incentivadas, planejavam estratégias para superar os problemas do dia-a-dia, e juntas enfrentavam a morte das demais.

Ao final de alguns anos se observou que os grupos haviam ajudado emocionalmente as mulheres, cujo aumento na sobrevida foi em média de 18 meses a mais. Isso significou que as mulheres que recebiam apoio social puderam viver o dobro do tempo.

Spiegel quis mostrar com esta pesquisa, não que o apoio social seja a solução e o remédio para os problemas de saúde, mas que de certa forma, ele pode ajudar no tratamento sem medicalizar, apenas como um fator que possibilite às pessoas, melhor enfrentarem os seus problemas, amenizando a dor e o sofrimento, diminuindo a ansiedade e a depressão, tornando-as mais estáveis emocionalmente. O grupo de apoio não foi a cura do câncer, mas a possibilidade de viver mais e melhor. "A terapia parecia influenciar a capacidade de seus organismos de voltar a combater fisicamente" (Spiegel, 1997:292).

O apoio social não oferece um antídoto mágico, mas deve ocorrer em conjunto com o tratamento médico tradicional, através de um acompanhamento, sem substituí-lo (Spiegel, 1997).

A própria categoria de apoio social trabalha com a questão da prevenção, segundo Spiegel (1997) o apoio social não implica a cura de doenças, mas sim no aumento da sobrevida nos casos de doenças crônicas, e com as doenças ligadas as emoções, proporcionam um aumento na capacidade de contornarem as situações de estresse, oferecendo melhor saúde emocional e física (Valla, 1998, 1999; Santos & Marcelino, 1996).

Essa idéia de prevenção, porém, se apresenta diferente da visão idealizada na área da Saúde Pública.

De acordo com a história da saúde no Brasil, o projeto de Medicina Preventiva surgiu aproximadamente na década de 50, baseado em um projeto pedagógico, voltado para a formação de sanitaristas, ou seja, profissionais capacitados a trabalharem com esta nova vertente de transformação das práticas de saúde para prevenir seu surgimento, ao menos tratá-los.

O termo "Promoção de Saúde" inicialmente foi caracterizado com um nível de atenção da medicina preventiva, mas com o tempo seu significado foi mudando, passando, mais recentemente a representar um enfoque político e técnico no processo saúde-doença-cuidado (Buss, 1999).

A partir dos vários autores consultados e relatado o efeito benéfico do apoio social na saúde e bem estar dos indivíduos, tanto para quem recebe quanto para quem oferece o apoio. A idéia de prevenção da saúde é abordada por vários autores, e assim parece operar no Centro Espírita estudado.

  • Cassel (1974):

Evidencia que grupos pequenos de pessoas amigas, "conhecidas", produzem soluções aos problemas cotidianos, ou seja, a importância do contato social no equilíbrio das doenças. Segundo este autor a adaptação ao meio social e ao ambiente é fator que podem diminuir a suscetibilidade às doenças. Variação do meio ambiente social e os efeitos na saúde: mudanças em grupos, qualidade de grupos de afinidades - demonstrou ser acompanhado por mudanças no sistema adreno-cortical - mudanças em alguns desses hormônios - podem alterar marcadamente os mecanismos homeostáticos do corpo e na resposta para uma larga variedade de estímulos (hormônios que interferem no equilíbrio do corpo).

  • Hammer (1981, apud Santos & Marcelino, 1996):

Poderia ser sempre considerada como contribuição positiva para a saúde mental e o bem estar humano.

  • Lin e Ensel (1989 apud Santos e Marcelino, 1996):

Definem: suporte social consiste num processo pelo qual os recursos numa estrutura social permitem satisfazer necessidades em situações quotidianas e de crise.

  • Para Brugha (1993, apud Arrossi, 1994):

Aqueles aspectos das relações sociais que se pensa tem um efeito benéfico para a saúde física e mental. Os países do terceiro mundo, devido a heterogeneidade social e cultural são relevantes para os estudos realizados nesses países. As condições sociais, ambientais e econômicas são importantes para serem levados em conta nesses estudos. O suporte social deverá estar assim relacionado com aspectos das relações sociais que conferem um efeito benéfico à saúde física e psicológica do indivíduo. O autor refere ainda que estes aspectos não correspondem tanto às necessidades materiais dos indivíduos, mas antes às necessidades especificamente pessoais das relações sociais, particularmente no que diz respeito aos seus componentes mais subjetivos (intensidade, confidencialidade, reciprocidade, interação).

  • Sheldon Cohen & Leonard Syme (1995):

A idéia que emerge do conceito de apoio social - que isso beneficia a saúde e bem estar, seja diretamente ou por causa dos efeitos moderados e negativos do estresse e outros riscos na saúde individual e bem estar. O apoio social contribui na habilidade preditiva no efeito da saúde.

  • Para Santos & Marcelino (1996):

O apoio social constitui importante fator de proteção e promoção da saúde mental.

  • Para Spiegel (1997):

A partir de estudos realizados entre pacientes com câncer evidenciaram algumas questões sobre o apoio social:

    • Os grupos ajudam emocionalmente as pessoas;
    • A intensidade do apoio social proporcionado às pessoas, e as influências na forma como o organismo enfrenta a doença. Viver melhor significava viver mais;
    • O apoio social ajuda as pessoas a evitarem maus hábitos;
    • Pessoas que têm bons relacionamentos com parentes, amigos e vizinhos, têm bons relacionamentos com médicos e outros profissionais de saúde;
    • O sentir-se apoiado pelos outros pode servir de amortecedor, atenuando a produção de hormônios do estresse durante situações traumáticas;
    • Os estudos laboratoriais evidenciam que o apoio psicossocial pode trazer efeitos positivos para a atividade do sistema imunológico;
    • Apoio social oferece melhor saúde emocional e física;
    • As pessoas que participam desses grupos se sentem:

- com menos medo

- menos ansiosas

- mais estáveis emocionalmente

- menos isoladas

- preocupadas umas com as outras

    • Ao auxiliarem-se mutuamente nos grupos de apoio, os doentes também podem engrandecer seu próprio sentido de valor;
    • O apoio social não é a cura para doenças, mas uma ajuda no tratamento de doenças crônicas como o câncer, e para os portadores de doenças ligadas ao emocional, significa vida melhor, ou seja, melhora no bem estar dos indivíduos;
    • Aspectos do apoio social:

- capacidade para enfrentar os problemas;

- percepção de que não são as únicas pessoas a passarem por tal problema, ou que outras pessoas passam por problemas piores - não é a única - não deve se isolar;

- redefinição dos valores pessoais e demonstração de cuidado pessoal.

    • Descobriu-se em pesquisas, que a prática da reza em pacientes religiosos, produz as mesmas mudanças fisiológicas observadas na meditação. Hoje se recomenda que os pacientes religiosos usem essas preces quando desejarem evocar a resposta de relaxamento.

  • Para Barrios (1999):

Para este autor, o apoio social se define como qualquer atividade que permita compartilhar com qualquer pessoa ou grupo, ofereça apoio afetivo ou material. Incluem vários níveis de análise: comunitário, redes sociais e relações íntimas. Possui efeito benéfico sobre a saúde e bem estar do indivíduo.

O apoio social exerce efeitos diretos e indiretos à saúde das pessoas, como citado anteriormente.

  • Para Valla (1998, 1999):

O apoio social tem um papel importante na manutenção da saúde e na prevenção de doenças, e como forma de facilitar a convalescença, exerce um efeito direto sobre o sistema imunológico (Bermann, 1995; Cassel, 1974 apud Valla, 1998, 1999, 2000a), agindo como efeito tampão, no sentido de aumentar a capacidade das pessoas de lidar com o estresse. Outro resultado do apoio social seria sua contribuição no sentido de criar uma sensação de coerência da vida e de controle sobre a mesma, o que por sua vez, afeta o estado de saúde das pessoas de uma forma benéfica. Diminuindo o apoio social diminui, o sistema de defesa pode ser afetado, fazendo com que o indivíduo se torne mais suscetível à doença. Em momentos de muito estresse, o apoio social contribui para manter a saúde das pessoas, pois desempenha uma função mediadora.

Assim, a partir de tudo que foi observado pode-se concluir que o apoio social proporciona mais saúde. Se estiverem sozinhas ao se sentirem doentes, as pessoas tendem a se preocupar mais com a doença, com os problemas vivenciados. A partir do momento em que o apoio social começa a operar, as pessoas mudam de comportamento, aumentam a capacidade de enfrentar situações difíceis e dolorosas, sua auto-estima é evidenciada e descobrem o potencial que têm, e aumentam a possibilidade de uma vida melhor. Os riscos de adoecer por problemas ligados aos fatores psicológicos tendem a ser reduzidos.

Na medida em que o indivíduo consegue controlar as emoções, quando ele sente que não está só, que encontra apoio e carinho, e principalmente meios de extravasar o que sente, e a possibilidade de perceber alternativas para lidar melhor com as situações de estresse, o funcionamento orgânico também pode melhorar, sendo referidos nas entrevistas a sensação de paz e melhora, se não física, ao menos emocional.

1.2 - O sofrimento difuso

Cummings (1997) conceitua "pacientes somatizadores" - as pessoas cujos problemas médicos são manifestações físicas de conflitos emocionais inconscientes.

Como a energia na física, o estresse causado por esses conflitos não pode ser destruído, mas pode ser transformado, e os somatizadores o transformam em sintomas físicos que eles conseguem reconhecer com mais facilidade do que as questões psicológicas (p. 191).

Entre os somatizadores têm uma questão um pouco incomum, os seus sintomas físicos têm origem quase exclusivamente psicológica. Eles não conseguem expressar sentimentos como angústia, ansiedade e desânimo apenas em palavras, expressam-nos também em percepções somáticas, ou seja, nas sensações. Assim acabam "escolhendo uma doença" de forma inconsciente, "em alguns casos, o paciente escolhe uma determinada enfermidade porque ela representa o melhor símbolo de sua condição emocional" (Cummings, 1997: 193).

Embora esses pacientes não tenham nada físico e sim emocional, seu sofrimento é verdadeiro. E em muitos casos eles procuram vários médicos em busca da cura, ou então buscam outros meios que lhes proporcionem um alívio a esses sintomas ou até a resolução. A dificuldade técnica em definir num prazo curto a diferença entre uma causa física e uma causa emocional para a "doença", e ainda, o fato de haver concretização física, ou seja, somática na forma de disfunções orgânicas e até lesões, faz com que muitas vezes anos de tratamento sejam investidos sem que se perceba que haveria outros caminhos para o controle da situação de recuperação da saúde.

Pesquisas mostram que os ambulatórios estão cheios desses tipos de pacientes, que sem um tratamento adequado, continuarão a sofrer (Cummings, 1997), na medida em que esses casos requerem maior tempo hábil para serem tratados e que o nosso sistema de saúde de certa forma, não consegue dar conta desses casos.

Da forma como os serviços de saúde organizam-se, priorizando a produção em detrimento da qualidade do atendimento, isso colabora para que os profissionais de saúde acabem se adaptando a esta realidade. Escutar o paciente, procurar entender o que realmente se passa com ele, recuperar o componente instintivo da parte médica, poder ter tempo longo de contato para perceber os fundamentos de uma dada condição de doença, e finalmente considerar a possibilidade da doença ser uma somatização, são algumas condições para a melhora da atenção à saúde. Logo:

... os sujeitos percebem a urgência de retomada da humanização das práticas de saúde, no sentido de olhar o indivíduo como sócio-histórico e portanto dinâmico e não como um pacote de sintomas (Ogata &Furegatto, 2000:8).

Miguélez (1999) em seu texto "Un enfoque paradigmatico de la medicina", propõe uma nova discussão sobre o modelo biomédico, estabelecendo um novo paradigma da medicina a partir de uma concepção de ser humano como "un todo ‘físico-químico-biológico-psicológico-social-cultural-espiritual’ que funciona maravillosamente y que constituye nuestra vida y nuestro ser" (Miguélez, 1999: 13).

Frente a esta discussão o novo enfoque:

Las ciencias médicas tendrán que ir más allá de su visión parcial de la salud y de la enfermedad. Esto no significa que deban ser menos científicas, por el contrario, se necesitará un paradigma de la salud mucho más amplio, que incluya las dimensiones individuales, las sociales y las ecológicas (Miguélez, 1999:18).

Outro ponto importante nesta discussão é a relação médico-paciente, como abordamos no item anterior. Segundo Guimarães (2000), esta relação foi sendo progressivamente desvalorizada como recurso terapêutico pela biomedicina. Na medida em que no serviço de saúde o médico não mantém um vínculo com os pacientes que ele atende, a relação passa a ser entre a instituição e o paciente.

O médico e o paciente não partilham da relação enquanto indivíduos dotados de subjetividade. O médico é o representante da ordem médica, e o doente tem que amoldar seu sofrimento à objetividade do discurso médico. (...) Ao mesmo tempo em que o doente, como indivíduo, se apaga diante da doença, o médico enquanto pessoa, também se apaga diante das exigências do seu saber (Almeida, 1998: 88, apud Guimarães, 2000:2).

Assim o diagnóstico representa o enquadramento da subjetividade do doente à ordem médico. O próprio discurso médico conduz o paciente a ser o mais objetivo possível no relato de seus sintomas, induzindo assim a que o paciente traduza seu sofrimento.

Em muitos casos o tratamento que é demandado pelos pacientes implica em cuidados e atenção à pessoa enferma, aspectos importantes para o restabelecimento da saúde. Mas nos serviços públicos de saúde, os médicos não costumam ater-se ao discurso de seus pacientes, não procuram investigar as causas reais das queixas, pois eles não dispõem de tempo. Muitos médicos consideram o discurso do paciente por ser "subjetivo" e "impreciso" (Guimarães, 2000) e, tendo dificuldade de lidar com ele para tomar decisões terapêuticas, acabam por não levar em conta o seu relato.

Assim esses pacientes somatizadores, ou seja, pacientes cujos problemas aparentemente físicos, são manifestações de conflitos emocionais inconscientes, demandam um certo tempo e uma certa intuição por parte do médico em diagnosticar o seu real problema, que em alguns casos acabam necessitando de alguma terapia para conseguir alcançar um resultado satisfatório.

Esses tratamentos demandam tempo e investimento que em muitas das vezes o sistema público de saúde não dispõe, logo fica difícil tratar casos como esses. Desta forma, as terapias alternativas de saúde, como os espaços religiosos, os grupos organizados, as sessões de psicoterapia (Cummings, 1997), e outras formas alternativas de tratar a saúde, dispõem de fatores que podem ajudar a resolver esses casos.

Sendo assim, essas pessoas tendem a buscar meios alternativos de tratar os seus males, e dentre os lugares procurados estão os espaços religiosos, pela oferta de meios que possibilitem o acolhimento, e que dêem um certo significado e atenção ao que a pessoa está sentindo, e que em muitas das vezes, se aproxima da real condição do indivíduo.

1.3 - O Sistema de Saúde

A maior mudança na história da medicina foi com a revolução cartesiana. Antes de Descartes, os terapeutas se voltavam para a interação de corpo e alma, tratando os seus pacientes levando em conta seu meio ambiente social e espiritual, considerando o paciente como um todo, levando em consideração um contexto esotérico, mágico e religioso (Sayd, 1998). Com a filosofia de Descartes (e o desenvolvimento da medicina) esse quadro se alterou com a divisão entre corpo e mente, gerando a concentração dos médicos no corpo como uma máquina, desvalorizando os aspectos sociais, psicológicos e ambientais da doença.

No século XX, essa tendência fragmentadora da ciência biomédica ainda persistiu, caracterizando a medicina nesta época, a progressão da biologia até o nível molecular (Miguélez, 1999). Durante este século, houve várias descobertas, como as vacinas, a penicilina, os medicamentos psicoativos (a cortisona que constituiu um potente agente anti-inflamatório), entre outras descobertas ao longo do tempo.

Com o avanço nas descobertas dos princípios ativos dos medicamentos, a medicina acabou tendendo a se limitar a aspectos parciais dos fenômenos.

O final do século XIX e século XX foram marcados pela redução significativa, porém isso foi creditado somente às realizações da ciência médica, devido aos avanços da moderna medicina científica, e de imediato não foi levado em conta que, durante este período, ocorreram outras mudanças, como as melhorias nas condições de higiene e saneamento básico, a importância da nutrição e a influência do meio ambiente sobre a vida do indivíduo.

Hoje, com as mudanças no perfil epidemiológico da população, observamos não apenas um retrocesso no declínio de muitas das taxas de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias, e por outro lado um crescente aumento nas taxas de mortalidade por causas externas e por doenças crônicas. Muitas das enfermidades não transmissíveis são conseqüências do processo de transformação das sociedades modernas, colocando em risco os grupos populacionais (Teixeira, et al., 1998).

Essas doenças da modernidade denominadas "doença da civilização", estão relacionadas ao estresse, às dietas ricas em gordura e açúcar, ao uso de drogas como álcool, maconha, cocaína e seus derivados, a vida sedentária e poluição ambiental, características da vida moderna (Miguélez, 1999). Buss (1999) chama a atenção para a transição epidemiológica no Brasil, que se caracteriza pela prevalência de doenças relacionadas ao estilo de vida, problemas ambientais e as fármacos-dependências que surgem com a modernidade, e que exigem uma profunda transformação do modelo assistencial de saúde para lidar com estas questões.

Com a mudança no perfil das doenças, a estrutura biomédica se vê em dificuldades de lidar com as mesmas, ligados a medicalização e ao conceito de saúde, que hoje estão mais próximos da perfeição. De fato não há uma piora nas condições de saúde, mas uma cultura de adoecimento e do sofrimento.

Logo observamos uma crise de duplo sentido: de um lado, no modelo de saúde (biomédico) que não consegue resolver os problemas de saúde que a população apresenta, por outro lado, uma crise no sistema de saúde que não consegue atender à população devido a precariedade de suas estruturas, com maior interesse no presente trabalho, os Centros de saúde, para onde recorre a maior parte da população de baixa renda.

Questões como nutrição, emprego, densidade populacional e moradia, não são suficientemente discutidas nas escolas de medicina, havendo pouco espaço para a assistência preventiva e a promoção à saúde na medicina moderna. Entretanto, ao propor prevenção e promoção à saúde, o médico deveria estar mais atento à relação médico-paciente, e deste último com o meio ambiente físico e social, já que o fenômeno da cura envolve uma interação corpo, mente e meio ambiente.

A divisão cartesiana influenciou a prática de saúde também no que se refere à especialização profissional, e como decorrência hoje, o médico cuida do corpo e o psiquiatra da mente. Essa divisão proporcionou uma desvantagem na compreensão de muitas doenças, a divisão dos campos especializados tende a concentrar e separar conhecimentos, e assim, na literatura psicológica é debatida e documentada a importância dos estados emocionais para a doença, e a literatura médica se fundamenta nos aspectos da fisiologia da doença.

O modelo biomédico não consegue responder às insatisfações das pessoas, pois difunde a idéia de que o corpo humano é uma máquina que pode ser analisada em termos de suas peças e de que a doença é um mau funcionamento deste mecanismo sendo estudada segundo a biologia celular, molecular etc. Neste modelo a função do médico seria de intervir física e quimicamente para consertar os defeitos do organismo (Miguélez, 1999). A discussão sobre saúde torna-se muito reduzida ao mau funcionamento dessas pequenas partes do corpo.

Segundo Guimarães (2000), durante o processo de afirmação da racionalidade científica, que com base na cultura ocidental moderna houve progressivamente "uma separação entre dois termos que constituem o núcleo central da medicina, isto é, a arte de curar - tekné, e o conhecimento das doenças - episteme" (p.1). Com essa separação a prática da medicina ocidental foi sendo gradativamente reduzida à técnica, dando importância ao conhecimento das doenças e deixando de lado a arte de curar. Em afinidade com a arte de curar está a categoria de intuição, mais um instrumento a auxiliar o médico e o paciente nos processos de diagnose e terapêutica. Esta categoria é usada por Guimarães (2000) como uma concepção que inclui além do conhecimento sobre as doenças, uma atenção médica apurada, centrada no momento da consulta e no indivíduo doente como um todo (físico, emocional, espiritual ou mental).

O foco de análise será direcionado ao momento da consulta, quando estão colocadas as condições para que o curador possa interagir com seu paciente e que, neste processo de troca, possam emergir determinados signos que se constituam em elementos chaves para a viabilização da cura (Guimarães, 2000:2).

Caprara & Franco (1999), propõem uma reflexão sobre a humanização da prática médica, principalmente da relação médico-paciente, no processo de reconhecimento da necessidade de uma sensibilidade frente ao sofrimento do paciente. Assim, reitera-se a proposição de que a imagem profissional, responsável pela promoção da saúde, ao considerar o paciente como um todo, social, psíquico e físico.

Por outro lado, paralelamente às dificuldades e limitações impostas pelo modelo biomédico, há a crise dos serviços médicos, uma questão atual e afetando criticamente uma cidade como o Rio de Janeiro.

Com o que chamamos de sucateamento do setor público de saúde no Brasil: os Centros de Saúde não dão conta da demanda da população, em termos de resolutividade dos problemas de saúde, por diversos fatores como a falta de equipamentos básicos necessários em atendimentos de emergência, número reduzido de profissionais, os baixos salários que esses profissionais recebem e o número excessivo de pacientes a serem atendidos, entre outros motivos, que têm provocado uma reação de abandono do serviço público por esses profissionais.

As mesmas causas da falência dos serviços de assistência à saúde sacrificam a população usuária. As condições de vida, alimentação, higiene, o desemprego, as jornadas excessivas de trabalho, o desgaste físico e mental, entre outros problemas, levam a população a adoecer e procurar os serviços de saúde, na tentativa de uma assistência e resolutividade de seus problemas, muitos deles de depressão, angústia, estresse, e etc. (Valla, 1998, 1999). Para que os serviços de saúde contemplem as reais necessidades da sociedade, seria necessário atender também às suas necessidades sociais, compreender a fala dessas pessoas, levando em conta a experiência de vida de cada um, e as soluções que buscam espontaneamente para os seus problemas. Seria necessário mais do que medicina.

Será que o sistema de saúde no Brasil daria conta de atender a todos esses casos, satisfatoriamente? Mesmo que a oferta de atendimento à saúde garantisse serviços de boa qualidade, resolveria tais problemas? Será que seria função dos serviços de saúde compensar tantos problemas sociais?

Uma alternativa parece ter sido as formas não clássicas de assistência à saúde. Segundo Luz (1997), formas de medicina alternativa (ou saúde alternativa), atualmente têm grande penetração nos centros urbanos, tanto nas camadas médias quanto nas camadas populares e são percebidas como "alternativas", "paralelas" ou "complementares" à biomedicina.

Mesmo os pacientes que se tratam pela medicina convencional freqüentemente buscam as medicinas espirituais da umbanda, do candomblé e dos centros kardecistas, utilizando-as sincreticamente como forma terapêutica popular (Luz, 1997:26).

A busca de meios alternativos de lidar com a saúde não é a negação e nem o abandono das terapias oficiais, mas sim a complementação um do outro que em muitos casos são procurados simultaneamente pelo paciente (Rocha, 2000).

Canesqui (1992), complementa que essa relação ("medicina oficial" e "medicina popular") é também de oposição, na medida em que os meios de obtenção de cura por esses sistemas ‘não oficiais’, aproximam-se mais da representação que as classes populares fazem sobre o corpo e a sua relação com o universo social, "permitindo-lhes subtrair parcialmente a visão de mundo das classes dominantes, detida pela medicina erudita" (p. 177).

Luz (1997), chama a atenção para a gama que envolve este termo, que inclui não apenas as medicinas tradicionais culturais, como também as medicinas orientais e homeopática. A autora apresenta a definição do termo "medicina alternativa" segundo a Organização Mundial de Saúde (em 1962):

... uma prática tecnologicamente despojada de medicina, aliada a um conjunto de saberes médicos tradicionais. Foi proposta como "alternativa" à medicina contemporânea especializante e tecnocientífica, no intuito de resolver os problemas de adoecimento de grandes grupos populacionais desprovidos de atenção médica no mundo (Luz, 1997:15).

Muitos jornais e revistas têm publicado artigos sobre formas alternativas que podem proporcionar bem estar. São matérias falando sobre o poder de técnicas orientais de relaxamento e massagens, que produzem efeitos benéficos à saúde. Técnicas de introspecção e meditação resultam em um aumento na energia física e declínio de hormônios que causam o estresse (Parcias, 1998, apud Valla, 1999:6). Situações de tensão, ansiedade, competição, estresse e baixa auto-estima, produzem no organismo uma certa carga emocional, que podem provocar alguns efeitos na saúde do indivíduo. Para saber conviver com as relações quotidianas, o ser humano precisa de um certo equilíbrio emocional para que o organismo não seja afetado.

1.4 - A busca da população e os Espaços Religiosos

Para conviver num mundo como o nosso e enfrentar os problemas do dia-a-dia da vida urbana, tem-se constatado que mesmo quem tem mais recursos para utilizar serviços médicos melhores, como a classe média, busca como alternativa para cuidar da saúde, a homeopatia, os florais de Bach, as massagens terapêuticas, vegetarianismo, meditação, técnicas orientais, a religião, em suas diferentes formas. Os Centros Espíritas, as Igrejas Evangélicas, a Igreja Católica, a Umbanda e outras, também são tradicionalmente, espaços onde se busca através de diferentes formas, alívio para a saúde, os problemas ou ambos.

Logo, cabe aqui analisar essas formas alternativas de enfrentamento dos problemas de saúde, representadas pela busca do espaço religioso como solução ou atenuante ao sofrimento físico entendido como doença.

Segundo Valla (1998:165):

... os pobres, percebem nas igrejas formas alternativas de cuidar da saúde. Uma segunda premissa seria que, embora essa busca seja inicialmente individual, o benefício para a saúde viria através da coletividade, onde o conjunto de fiéis criariam um ambiente de aconchego e solidariedade através dos rituais, fazendo com que as condições para o apoio social passem a existir.

Muitos são os fatores que contribuem para a relação religião e saúde: a urbanização crescente, principalmente com as migrações e imigrações, significando, às vezes, a perda do seu lugar de origem e a procura da identidade com o local; a ênfase na privatização da assistência médica; a insatisfação da população com os serviços de saúde e o refúgio da crise e da desordem que as classes populares procuram nas igrejas (Valla, 1998).

De acordo com Parker (1996), a vantagem adicional do serviço de saúde alternativo, principalmente os espaços religiosos, rezadeiras e curandeiros disponíveis nas comunidades, é a sua maior acessibilidade, pois está aberta a todos que precisam de algum tipo de ajuda, e o seu preço é muito menor do que os da medicina moderna profissionalizada, quando lhes são cobrados.

Segundo estudiosos das classes populares, há uma tendência em compreender a fala e as ações dessas pessoas segundo a categoria de carência, onde por um lado, é reforçada a idéia de associá-la à pobreza e miséria, assim sendo interpretada como carência de alguma coisa, e por outro lado, de empobrecer a análise na medida em que nem sempre carência é falta de algo material ou está concretamente relacionada com a pobreza. Não é por ser pobre que se está necessitando de algo.

Outra categoria a ser analisada é a de intensidade, que para algumas pessoas o que pode ser visto como carência pela associação à pobreza, para outros pode ser visto como intensidade, ou seja, como idéia de iniciativa, de autonomia, de viver a vida mais plenamente, mais intensamente, pois nem tudo que está aparentemente relacionado com pobreza é carência, mas talvez seja uma concepção de vida, ligada a idéia de intensidade (Valla, 1998).

Para trabalhar com estas categorias nas interpretações sobre as classes populares e a relação com a religião, pois o que pode ser visto como forma de amenizar e resolver um problema material pode ser resultado de uma necessidade de viver mais plenamente, ou seja, a busca de intensidade. A proposta do apoio social se insere neste contexto, na medida em que pode tornar a vida mais coerente, e procurar dar uma explicação, um sentido à vida do indivíduo.

A busca da população por meios que dêem um significado ou resolutividade aos seus problemas, suas angústias, e que de certa forma, seja pela intensidade, algo que complemente e dê sentido à vida.

Também devemos tentar compreender a fala da. Nós, profissionais, temos uma dificuldade em entender e aceitar que pessoas de comunidades carentes possuem um saber próprio, e são capazes de produzir um conhecimento a partir de suas próprias experiências quotidianas.

Os saberes da população são elaborados sobre a experiência concreta, a partir das suas vivências, que são vividas de uma forma distinta daquela vivida pelo profissional. Nós oferecemos nosso saber porque pensamos que o da população é insuficiente, e por esta razão, inferior, quando, na realidade, é apenas diferente (Valla, 1998:167).

As classes populares buscam meios de se defender do capitalismo selvagem, buscam formas de sobrevivência e meios que lhes dê forças para enfrentarem os problemas do dia-a-dia. Segundo Parker (1996:272), na medida que a sociedade capitalista nega os direitos legítimos e priva de oportunidades de trabalho e de bem-estar, não resta ao indivíduo outra alternativa que não seja de recorrer a outras formas de sobrevivência. Neste sentido, a religião popular adquire sentido pleno, como meio paralelo e complementar de sobrevivência de forma simbólica.

A busca da religião por segmentos da sociedade se dá para alívio dos seus sofrimentos e males, como também pelo conforto e solidariedade do apoio social. Observamos que esta busca não é feita somente pelas classes populares, mas também pelas classes médias da população. Mas as classes médias não se restringem apenas aos espaços religiosos procura também às técnicas orientais, as terapias, massagens, etc.; já as classes populares que não dispõem de recursos financeiros para aliviar os seus sofrimentos, restringe sua busca aos meios que não exigem investimentos financeiros.

As religiões possuem um significado social, uma "eficácia simbólica" diante dos problemas e dificuldades que as pessoas enfrentam diariamente (Parker, 1996). A fé oferece um sentido à vida, oferece consolo, energias e orientações ante as situações de angústia, de incerteza familiar. Esta fé ligada à vida concreta dos que nela depositam a sua crença.

Em todo tipo de religião, está implícito um problema central: salvar o homem da incerteza, dar sentido à sua vida no mundo e além dele, numa palavra, integração do sagrado com o profano (Zuluaga, 1985, apud Parker 1996:275).

A religião aparece como uma garantia à sobrevivência e proteção simbólica, oferecendo amparo aos que sofrem e consolo aos que choram. Em alguns lugares ainda se vê a rezadeira o curandeiro disponível a atender em casos de emergência. Através da reza e dos curativos feitos com ervas, por exemplo, dizem curar as pessoas sem cobrar nada, apenas pelo fato de terem recebido o "dom de Deus".

Segundo Costa-Rosa (2000), um dos fatores da eficácia das "práticas místico-religiosas" está na sua sintonia com as visões de mundo de seus adeptos, e também a procura de espaços religiosos, uma iniciativa dos interessados, parece desempenhar importante papel na adesão.

... a adição de sentido é instrumentada através da fé como um meio de engajamento dos indivíduos na solução dos seus problemas, o que propicia uma atitude que parece derivar-se para a vida como um todo (Costa-Rosa, 2000:7).

A fé é o alimento que dá à vida esperanças de dias melhores e ajuda a enfrentar as experiências mais dramáticas do cotidiano, possibilitando uma adaptação à estrutura modernizante do capitalismo selvagem. A religião popular segundo Parker (1996), em suas várias manifestações, contribuem para a reprodução da vida e na proteção dos que a atacam, dotando um novo sentido à vida, não só para sua sobrevivência, mas também é fonte de energias na recuperação da dignidade humana, identificando as pessoas como "filhos de Deus".

Segundo Minayo (1998), embora se manifestem de diferentes formas, as explicações religiosas sobre saúde/doença têm raízes históricas profundas e temporais, mantem-se nas representações sociais dos sujeitos ocupa um lugar em seus discursos e toma novas formas e espaços em suas vidas. Assim a saúde e sua prevenção são tidas como processos contínuos de seus rituais e crenças, e são estabelecidas através da adesão e participação nas atividades direcionadas a estes fins.

A busca da religião, enquanto meio de superação do sofrimento e de aquisição de forças para manter a vida, denota o desejo de tentar superar as desigualdades e injustiças e a busca de integralidade humana (Ogata & Furegatto, 2000:11). Sendo assim, uma forma de resistência frente a realidade vivida.

É no espaço religioso que se estabelece a identidade religiosa, cultural e social, nesses espaços rituais comunitários que se restabelecem os laços de identidade e de solidariedade da comunidade (Parker, 1996). As pessoas que ali se sentem pertencentes, trazem em si uma gama de relações e vínculos que vão além da amizade, do companheirismo, da solidariedade e do apoio mútuo. Elas acabam por se identificarem umas com as outras na busca de se ajudarem mutuamente.

Assim, a religião dá todo um sentido à doença, à cura e à saúde. A complementaridade entre religião e medicina também é observada por Loyola (1984), que analisou as opções terapêuticas na Baixada Fluminense. Mesmo havendo essa complementaridade entre medicina e religião, a supremacia é da religião que busca todo um referencial mágico para a doença. Assim a medicina cuida do físico e a religião do espiritual, principalmente nos casos de saúde mental, como mostra Ruth Rocha (2000), em seu trabalho sobre a trajetória terapêutica de usuários de serviços psiquiátricos e adeptos da Umbanda.

Neste contexto, percebemos a necessidade de relacionar as práticas de Grupos Espíritas com a saúde, como alternativa e ajuda no enfrentamento de seus problemas; e essas práticas espíritas são, em parte, expressões do apoio social.

E, a meu ver, mesmo que o sistema de saúde brasileiro funcionasse plenamente, mesmo se atendesse toda a população satisfatoriamente, as pessoas continuariam a procurar os espaços religiosos a fim de encontrar solidariedade, acolhimento e conforto.


1- Isso faz parte de uma discussão realizada em reuniões de supervisão de estágio no Hospital Universitário do Fundão, setor de Serviço Social, e teve como base o texto: "Modelo Biomédico", s/d - sem autoria.

2 - Na disciplina de Tópicos em Endemias, Ambiente e Sociedade I, oferecida pelos professores Victor Valla e Eduardo Stotz, na ENSP, nos foi dada uma palestra com uma senhora que é rezadeira na Comunidade do Grotão no Rio de Janeiro.

 
 
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