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Teixeira, Marcia. Desenhos alternativos de incorporação e gestão do trabalho médico na SMS do Rio de Janeiro: as experiências dos hospitais Lourenço Jorge e Salgado Filho. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 141 p.

Capítulo 3

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.1- Procedimentos Metodológicos

O objetivo central deste trabalho foi a caracterização das alternativas de incorporação e gestão do trabalho, a partir de novos cenários organizacionais implementados no interior do SUS. No contexto mais amplo, tais experiências surgem num cenário de intensos debates em torno das novas propostas da organização do trabalho e com o questionamento acerca da relação Estado-Mercado, marcados principalmente pelas propostas de revisão das funções do Estado e de medidas reformuladoras da administração pública.

Considerando-se a necessidade de tornar este trabalho exeqüível, bem como preocupados em compreender melhor a dinâmica dessas transformações, foram escolhidos duas experiências em instituições hospitalares do município do Rio de Janeiro: Hospital Salgado Filho e Hospital Lourenço Jorge, focalizadas a partir da gestão do trabalho médico. Tal escolha está pautada na centralidade que estes exercem nas instituições de saúde e por serem atores-chaves no processo de implementação de atuais formas de gestão de trabalho no SUS , na medida em que, de múltiplas maneiras, exigem e em certos momentos se organizam exigindo mudanças nas relações de trabalho.

O estudo, de caráter descritivo(9) e comparativo, baseou-se na observação comparada de como vêm sendo formuladas e processadas as inovações de incorporação e gestão do trabalho médico nos dois hospitais estudados. Optou-se pela utilização de tal abordagem, pelo fato desta permitir, segundo BADIE & HERMET (1993:15), a elaboração de um inventário de semelhanças e diferenças comprováveis, transformando este inventário em condutor de uma explicação de processos sociais. Onde se têm suficientes pontos comuns para pertencer a mesma categoria e tornar válida a comparação e, ao mesmo tempo, se distinguirem de maneira a tornar útil a mesma.

Ao mesmo tempo que pretendeu estabelecer correlações entre os atuais projetos de gestão de recursos humanos na saúde, as tendências nas formas de incorporação e gestão do trabalho e as medidas previstas nas agendas políticas da reforma administrativa no tocante as relações laborais.

Utilizou-se também a proposta de MISHRA (1977:6), segundo a qual, para compreender adequadamente os problemas da política social e contribuir para suas soluções, é preciso identificar melhor o contexto social onde estas ocorrem, ou seja, identificar a complexidade da relação entre a política e uma realidade social determinada. Assim, a gestão municipal da saúde no Rio de Janeiro e suas experiências de gestão do trabalho tornou-se o locus privilegiado desse estudo.

O acompanhamento dos novos desenhos de gestão e incorporação do trabalho pela SMS privilegia a análise de indicadores que passam a constituir um novo sistema de avaliação de resultados dos hospitais do município. Este inclui, entre outros indicadores: o tempo médio de permanência (TMP), rotatividade do leito, taxa de ocupação por serviço, além dos indicadores de mortalidade institucional e número de cirurgias e consultas ambulatoriais por serviço. (anexo1)

A avaliação da satisfação da clientela também tem sido acompanhada pela SMS, através de pesquisas de opinião realizadas pelo IBOPE, junto aos hospitais municipais. Nelas são levantadas informações sobre o perfil e os índices de satisfação dos usuários em relação aos atendimentos de emergência. (anexo 2)

Nesses estudos (realizados pela SMS), que analisam as experiências implantadas nos Hospitais Lourenço Jorge e Salgado Filho, os resultados alcançados em termos de produtividade do trabalho e de satisfação dos usuários, nas duas experiências, têm superado a expectativa da gestão municipal. E a divulgação dos desses resultados tem estimulado a comparação entre as unidades hospitalares da rede municipal, reforçando uma característica comum às experiências alternativas de gestão que é a competitividade entre os atores envolvidos na gestão dessas unidades. MACHADO (1999:176)

Embora a introdução desses indicadores processo de avaliação dos serviços nos hospitais representem um avanço importante, acreditamos que essas experiências também necessitem ter observadas as alterações que se operam no plano das relações de trabalho. Assim, o estudo foi guiado por questões como: Que pactos institucionais entre os profissionais e gestores estão sendo construídos? Em que medida as inovações têm afetado a composição das equipes de saúde? Qual a expectativas dos diversos atores em relação aos dois desenhos de gestão de RH? Qual o grau de adesão dos profissionais a esses desenhos? De que forma a posição dos atores pode influenciar nos resultados dessas experiências?

Sendo assim, coube o esforço para identificar os principais fatores que contribuíram no município para o surgimento dessas experiências e que expectativas têm, e como se posicionam, os principais atores (gestores do municipais do SUS, gestor das unidades, profissionais e suas entidades representativas) nelas envolvidos.

O objetivo de compreender de que forma passam a interagir os sujeitos (no nosso caso, gestores e profissionais) sob novas formas de se incorporar e gerir o trabalho no interior dos serviços de saúde, levantou a necessidade de imersão no dinamismo próprio do cotidiano das organizações que ora passam por transformações. O plano de análise microorganizacional foi então selecionado, por permitir a identificação da estrutura e funcionamento dos serviços a partir das posições desses atores.

Dessa forma, nosso estudo de campo, realizado entre os meses de maio a dezembro de 1998, privilegiou a pesquisa qualitativa, sendo a investigação empírica baseada em entrevistas gravadas, utilizando-se um roteiro semi-estruturado. (anexo 3)

Pesquisas em fontes secundárias também tornaram-se necessárias, como documentos institucionais relativos às experiências (projetos, decretos, pareceres, termos de compromisso), dados de acompanhamento da produtividade nos hospitais, disponibilizados pela Secretaria Municipal de Saúde, além de um levantamento nos periódicos e jornais da corporação médica (Jornais do CFM, os conselhos regionais de SP e RJ, AMB e do Sindicato dos Médicos do RJ - no período de Jan/1996 a dez/1998).

Definiu-se como interlocutores, um representante do quadro gestor do município (no caso o superintendente de indicadores gerenciais, por sua participação ativa no processo decisório da política de gestão hospitalar dos hospitais estudados e por ser responsável pelo acompanhamento da produção desses hospitais), além das direções dos hospitais envolvidos na pesquisa e quatro profissionais médicos em cada unidade. Prevendo-se inicialmente um total de onze entrevistas.

Com a pesquisa de campo, foi possível contatos com profissionais que ocupam funções intermediárias na gestão dos hospitais: No caso do Hospital Lourenço Jorge, foram realizados contatos com a coordenação de recursos humanos do hospital e com a coordenação administrativa da Cooperar-saúde no hospital. No Hospital Salgado Filho, foram realizados contatos com a chefia de administração, com a chefia de recursos humanos, com a chefia de epidemiologia e com funcionários do setor de pessoal do hospital.

A seleção de profissionais médicos, obedeceu ao critério de: a) pertencerem a especialidades significativas, em termos numéricos; b) de especialidades presentes nos dois hospitais estudados, e c) não pertencerem aos serviços de destaque do hospital (neurocirurgia no Salgado Filho e ortopedia no Lourenço Jorge). Respeitando tais critérios, selecionamos profissionais de especialidades distribuídas entre os vários tipos de atenção. Assim, foram escolhidas as especialidades: anestesia, cirurgia geral, clínica médica e pediatria.

O quadro das entrevistas pode ser resumido:

Gestão Municipal:
- (gestor 1): Superintendência de Indicadores Gerenciais - Dr.Valmi Peçanha.

Hospital Lourenço Jorge:

- (gestor 2) Gerência Médica - Dr. Luiza Nahmias C. da Silva
- (1) Anestesista
- (1) Cirurgião geral
- (1) Clínico geral
- (1) Pediatra

Hospital Salgado Filho:

- ( gestor 3) Diretor do Hospital - Dr. Flávio Adolpho Silveira
- (1) Anestesista
- (1) Cirurgião geral
- (1) Clínico geral
- (1) Pediatra

Com o representante da gestão municipal em nosso trabalho, tematizamos questões sobre: a) o ponto de partida do processo decisório para implementação das experiências nos hospitais; b) sobre a expectativa da gestão municipal em relação aos dois projetos; c) a forma como tem acompanhado as experiências; d) a avaliação dos resultados alcançados nos hospitais, e) sobre a possibilidade de ampliação dessas experiências na rede municipal.

Com os gerentes das unidades estudadas abordou-se questões relativas a: a) ao processo de implantação das mudanças na forma de incorporação e gestão do trabalho; b) a introdução do regime 40 horas/sem; c) o impacto da experiência frente a rede de serviços do município; d) avaliação da direção sobre os resultados alcançados; e) consequências que a experiência atual trouxe para a gestão do trabalho em termos de: controle do cumprimento da carga horária (principalmente para os médicos), absenteísmo, problemas com lotação e reposição de profissionais, e f) relação desses profissionais com os demais membros da equipe.

O conjunto de questões que envolveu as entrevistas com os profissionais médicos abordou: a) a posição desses em relação a forma de gestão adotada no hospital; b) os determinantes de suas escolhas por trabalhar na unidade; c) sua avaliação sobre as mudanças de regime de trabalho de 40 horas e no processo e trabalho introduzidas no hospital; d) avaliação sobre as formas de vínculo e remuneração .

O tratamento do material empírico teve início com a transcrição integral das entrevistas e seleção de conteúdos específicos que serviram de base para a descrição das experiências aqui observadas. Assim, a análise das entrevistas focalizou alguns itens que compõem o centro do nosso estudo, são eles: perfil dos servidores, regime de 40 horas semanais, rodízio dos médicos entre os diferentes momentos de atenção (emergência, rotina e ambulatório), controle sobre o trabalho médico, sistema de remuneração, reposição do quadro médico e relação dos hospitais com a rede de serviços.


9 - Para YALAOUR et Al. Uma investigação descritiva é aquela que expõe e revela características de determinada população ou determinado fenômeno. Pode também estabelecer correlações entre variáveis, não tendo o compromisso de explicar os fenômenos que se descrevem. Para os autores estudos descritivos permitem uma visão panorâmica sem sacrificar a profundidade da análise.

 
 
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