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Cornélio, Renata Reis. A formulação da decisão no nível estratégico de uma organização pública: um estudo sobre o processo decisório na SMS-RJ. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 131 p.

CAPÍTULO 2: O PROCESSO DECISÓRIO NO SUS:

No âmbito da saúde, à luz das políticas propiciadas pelo processo de Reforma Administrativa do Estado, o nível local tem se apresentado como um espaço propício para o estudo no campo do Planejamento e Administração em Saúde.

A definição de novos papéis para cada esfera de governo, no tocante às competências e responsabilidades da atenção pública à saúde vem se reafirmando na prática, no sentido de tornar operacionais os preceitos da legislação do SUS.

A Constituição Federal de 1988 apresenta no capítulo sobre a Seguridade Social na seção II, os parâmetros fundamentais que irão direcionar as políticas de saúde, modelando o SUS, enfatizando a municipalização e estabelecendo o terreno das discussões políticas e técnicas nas diferentes esferas governamentais.

Sob o lema: "Saúde direito de todos e dever do Estado", o acesso às ações e serviços de saúde passa a ser universal e a integrar uma rede regionalizada e hierarquizada, constituindo um sistema único de saúde organizado a partir das seguintes diretrizes: descentralização, atendimento integral e participação da comunidade.

O processo de descentralização é estimulado rumo à constituição de um sistema unificado e hierarquizado. Os estados e municípios passam a dispor diretamente de mais recursos fiscais, embora ainda não tenha havido um maior detalhamento acerca do volume de recursos e os tipos de serviços colocados sob responsabilidade local.

De maneira gradual, esta configuração das políticas de saúde tem lançado novos elementos na arena das discussões técnicas e políticas nas diferentes esferas governamentais, tais como a municipalização do sistema e a incorporação de novos atores ao processo decisório através da disseminação dos Conselhos de Saúde.

"Com a progressiva regulamentação dos procedimentos da política setorial, foram encurtadas as distâncias entre técnicos graduados , Secretários e Ministros. Desta forma o processo decisório tornou-se mais complexo, observando-se a proliferação de conflitos entre os diversos grupos e associações que disputam os recursos públicos destinados à área da saúde. Nestes novos arranjos, os conselhos de saúde e as comissões entre gestores governamentais adquirem peso específico crescente." (Cosems-RJ,1997: 15)

O objetivo deste capítulo é visualizar os reflexos da Política Nacional de Saúde no processo decisório municipal.

Para tanto, buscar-se-á identificar como está sistematizado o processo decisório no SUS. Será feita uma breve descrição das principais instâncias decisórias que se configuraram após a institucionalização das Leis e das NOBs que compõem o conjunto de princípios e diretrizes responsáveis por sua operacionalização nos três níveis de gestão; Federal, Estadual e Municipal; enfocando, principalmente, o nível local, objeto deste estudo.

O arcabouço jurídico-institucional da Constituição de 88 para o SUS, é complementado pelas leis 8.080 e 8.142, ambas de 1990, que tratam respectivamente da organização dos serviços e da participação comunitária. A operacionalização desta legislação tem sido feita através de diversas portarias do Ministério da Saúde, destacando-se as Normas Operacionais Básicas (NOB) de 1991, 1993 e 1996.

A Lei 8.080, promulgada em 19 de setembro de 1990, define os papéis institucionais de cada instância governamental nos planos de gestão, estrutura de financiamento e regras de transferência de recursos entre os diferentes níveis de governo, entendidos como gestores do sistema em sua esfera de competência. Também prevê como atuação do SUS a definição e execução das ações de saúde do trabalhador, assistência terapêutica, corporal e farmacêutica, e as vigilâncias sanitária e epidemiológica.

Estabelece princípios e diretrizes para as ações e serviços de saúde: universalidade de acesso; integralidade e igualdade na assistência; direito à informação, inclusive quanto ao potencial dos serviços a seus usuários; utilização da epidemiologia para estabelecer prioridades; alocação de recursos e orientação programática; participação da comunidade; descentralização político-administrativa com direção única em cada esfera de governo, enfatizando a descentralização para os municípios e a regionalização e hierarquização da rede de serviços; integração executiva das ações de saúde, meio ambiente e saneamento básico; recursos financeiros, tecnológicos, materiais e humanos da União, Estados e Municípios, na prestação de serviços de assistência à saúde da população; capacidade de resolução dos serviços em todos os níveis de assistência; organização dos serviços públicos evitando a duplicidade de meios para fins idênticos.

Com relação à organização, direção e gestão do SUS, a Lei estabelece os seguintes princípios: direção única exercida em cada esfera de governo, pelo Ministério da Saúde na União, pelas Secretarias de Saúde nos Estados, Distrito Federal e municípios, sendo que, no caso dos Municípios, estes ficam autorizados a constituírem consórcios para desenvolver em conjunto as ações de saúde que lhes sejam correspondentes.

Criação de comissões intersetoriais de âmbito nacional, subordinadas ao Conselho Nacional de Saúde, integradas por ministérios e órgãos competentes, e entidades representativas da sociedade civil com a finalidade de articular políticas e programas de interesse para a saúde.

Esta Lei, define atribuições e competências à União, Distrito Federal, Estados e Municípios, comuns ou específicas, demonstradas no quadro abaixo:

Quadro 1: Lei 8.080: Definição de Atribuições e Competências

UNIÃO

ESTADOS

MUNICÍPIOS

  • Papel de caráter normativo;
  • Controle e fiscalização;
  • Promover a descentralização para estados e municípios dos serviços e ações de saúde de abrangência estadual e municipal.

  • Descentralização para os municípios dos serviços e ações de saúde;
  • Prestar apoio técnico e financeiro aos municípios;
  • Controlar, acompanhar, avaliar e executar ações do meio ambiente, saneamento básico, ambiente de trabalho, insumos e equipamentos, laboratórios e hemocentros, controle de qualidade para produtos e substâncias de consumo humano, vigilância sanitária de portos, aeroportos e fronteiras em colaboração com a União;
  • avaliar e divulgar os indicadores de morbi-mortalidade no âmbito estadual.
  • Planejar, organizar, controlar e avaliar ações e serviços de saúde e sua execução;
  • Todas as ações dos Estados em âmbito municipal.
  •  

    Fonte: Ministério da Saúde,1990.

    A Lei discorre ainda acerca do funcionamento e participação complementar dos recursos humanos, financiamento e gestão financeira dos serviços públicos e privados de assistência à saúde.

    No tocante à transferência direta de recursos entre os fundos de saúde em caráter automático e imediato, uma série de vetos governamentais impostos pelo governo Collor de Mello, inviabilizaram sua implementação.

    Ainda em 1990, foi promulgada a Lei 8.142, em 28 de dezembro. Esta Lei dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do SUS, e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde.

    Criam-se novas instâncias de decisão e controle social, uma vez que são introduzidos na arena de discussão das políticas públicas de saúde a representação paritária de segmentos diferenciados da sociedade (representantes do governo, profissionais de saúde, prestadores de serviço e usuários), com o estabelecimento de fóruns e conselhos de âmbitos Federal, Estadual e Municipal.

    O quadro a seguir mostra as instâncias criadas e seus papéis na configuração de uma proposta para a política de saúde apontadas pela Lei 8.132:

     

    Quadro 2: Lei 8.142: Criação de Novas Instâncias de Decisão e Controle Social

    Instâncias de Decisão/Controle Social

    Definição do Papel

    Conferência de Saúde

     

     

    • representação paritária de vários segmentos sociais;
    • avaliar a situação de saúde;

     

     

    • propor diretrizes para a formulação da política de saúde nos níveis correspondentes, convocada pelo Poder Executivo ou pelo Conselho Nacional de Saúde.

    Conselhos de Saúde

     

     

    • órgão colegiado composto em paridade por representantes do governo, profissionais da saúde, usuários e prestadores de serviço;
    • formulação, controle e execução da política de saúde nas instâncias correspondentes, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros;
    • decisões homologadas pelo chefe do poder legalmente constituído em cada esfera de governo.

    CONASS e CONASEMS

    (Conselhos de Representação dos Secretários de Saúde)

     

     

    • representantes dos Estados e Municípios no Conselho Nacional de Saúde;
    • interlocutores oficiais do MS com relação à Política de Saúde.

    Fonte: Ministério da Saúde, 1990.

    Com relação aos recursos financeiros, esta lei propõe o repasse de forma regular e automática para Municípios, Estados e Distrito Federal, referentes à cobertura das ações e serviços de saúde para investimentos na rede de serviços, cobertura assistencial ambulatorial e hospitalar e demais ações de saúde.

    Há um estímulo claro à criação dos Conselhos de Saúde e de outros instrumentos tais como: Fundo de Saúde, Plano de Saúde, Relatórios de gestão, Contrapartida de recursos para a saúde no respectivo orçamento, Comissão de elaboração do Plano de Carreira, Cargos e salários (PCCS), colocando-os como um dos pré requisitos para que as instâncias de governo possam receber seus recursos. (Ministério da Saúde, 1990)

    A Lei aponta ainda, para uma tentativa de controle e acompanhamento da aplicação dos recursos repassados aos Estados e Municípios, através de um sistema de auditoria do Ministério da Saúde.

    A primeira de uma série de três Normas Operacionais Básicas, a NOB 91 é criada na tentativa de tornar operacionais os preceitos das Leis 8.080 e 8.142, e ordenar a transferência de recursos.

    Criam-se as figuras do município e Estado habilitados através de estímulos financeiros àqueles que se enquadram às exigências estabelecidas tais como: hierarquização da rede sanitária e criação de Fundos e Conselhos de Saúde.

    Os Estados e Municípios não aderiram imediatamente à esta NOB, pois os não habilitados continuaram a receber transferências do SUS. Não houve um grande impacto pois os incentivos desta NOB não eram regulares. Somente após dois anos de vigência chegou-se a um número razoável de municípios habilitados que se constituíram na base do conceito de gestão que se formou a partir de 1993.

    As resoluções da IX Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1993, vem originar o documento: "Descentralização das Ações e Serviços de Saúde: a Ousadia de Cumprir e Fazer Cumprir a Lei".

    Este documento, produto do Grupo Especial para Descentralização (GED), constituído no âmbito da Secretaria Executiva do Ministério da Saúde, buscou elaborar propostas que pudessem viabilizar o processo de implantação do SUS com prioridade para a descentralização.

    "A tarefa inicial deste grupo, constituído por técnicos pertencentes a diversas áreas do Ministério da Saúde, foi buscar a construção de uma unidade conceitual e operacional em relação ao processo de descentralização que resulte em diretrizes para orientar as decisões de todas as áreas do Ministério da Saúde." (Ministério da Saúde, 1993: 11)

     

     

     

    Quadro 3: Principais Pressupostos do GED

    Descentralização

    • envolve redistribuição de poder e de recursos;
    • redefinição de papéis das 3 esferas de governo;
    • reorganização institucional;
    • reformulação de práticas;
    • novas relações: níveis de governo e controle social.

    Diálogo Negociação e Pactuação entre os atores que constituirão a base de legitimação das decisões

    • imediata implantação de Conselhos de Saúde paritários e deliberativos;
    • ação integrada entre os gestores do sistema nos três níveis de governo:

    Esfera Federal, o Ministério da Saúde, CONASS e CONASEMS através da Comissão Intergestores Tripartite;

    Âmbito Estadual, representantes das secretarias estaduais e membros das entidades representativas dos secretários municipais de saúde através das Comissões Intergestores Bipartites.

    Flexibilidade e Gradualidade do processo de transformação do sistema de saúde

    Previsão de um período de transição até que se desorganizem as antigas práticas e que se instaurem as novas.

    Redefinição de um novo modelo assistencial para o SUS

    • Utilização da epidemiologia para o estabelecimento de prioridades;
    • Controle social, através dos Conselhos de Saúde;
    • Acesso às informações e dados em saúde;
    • Acesso gratuito a todos os níveis de complexidade do sistema;
    • Implantação de um sistema de referência e contra-referência;
    • Hierarquização e regionalização da rede de serviços;
    • Participação complementar dos serviços privados;
    • Ações individuais e coletivas, visando a promoção, prevenção, cura e reabilitação em saúde;
    • Ampliação das ações de caráter preventivo e melhoria qualitativa do atendimento ambulatorial, visando a redução das internações;
    • Incorporação das atividades de vigilância em saúde como parte da rotina dos serviços, incluindo ações voltadas ao ambiente e à saúde do trabalhador.

    Efetivo Controle Social

    • controle social sobre a ação governamental em todos os níveis exercido através do Conselhos de Saúde e das Conferências de Saúde.

    Elaboração de uma Política de Recursos Humanos

    • formação, capacitação e reciclagem de pessoal;
    • elaboração dos PCCSs.

    Patrimônio

    descentralização da rede federal dos serviços de saúde para Estados e Municípios.

    Financiamento

    responsabilidade dos três níveis de governo;

    quatro questões primordiais ao bom funcionamento do SUS: 1. ampliação da receita,2. racionalização do custo de assistência e vigilância em saúde, 3. erradicação do desperdício, 4.eliminação da corrupção.

    Fonte: Ministério da Saúde, 1993.

    O documento redefine as competências das três esferas de governo, tornando mais precisas as determinações da Lei 8.080/90, chamando a atenção para a estratégia de implementação do SUS que possui dois pressupostos básicos:

    "1) a necessidade de assegurar flexibilidade ao processo, de modo a permitir a consideração das diferentes realidades estaduais e municipais.

    2) a exigência de um processo negociado, que assegure viabilidade política à execução das medidas operacionais." (Ministério da Saúde, 1993: 19)

    O alcance da descentralização deve se dar de maneira pactuada entre os gestores das três esferas constituindo-se em um processo de transição. Neste processo coexistem três situações diferentes no tocante à configuração e gestão do sistema: transicional incipiente, transicional parcial e transicional semi-plena. Situações progressivas, mas não necessariamente sequenciais de gestão dos Estados e Municípios para o SUS.

    A partir das diretrizes principais deste documento, o Ministério da Saúde estabelece a NOB 93, que representa um divisor de águas marcante na política sanitária dos anos 90.

    A NOB 93 apresenta como item centrais: a execução do SUS descentralizada por níveis de gestão incipiente, parcial e semi-plena.

    Na gestão incipiente, os municípios assumem imediatamente ou gradativamente, de acordo com suas condições técnico-operacionais, a responsabilidade sobre a contratação e cadastramento dos prestadores; controla a utilização dos quantitativos de AIH e procedimentos ambulatoriais prestados por unidade; controla e avalia os serviços ambulatoriais e hospitalares públicos e privados; incorpora à rede de serviços ações básicas de saúde, nutrição, educação, vigilâncias epidemiológica e sanitária; desenvolve ações de vigilância de ambientes e processos de trabalho e assistência e reabilitação ao acidentado ou portador de deficiência ocasionada pelo trabalho.

    Para assumir a condição de gestão parcial, o município deve se responsabilizar por todas as ações previstas na gestão incipiente. A mudança está no repasse de recursos, passando a receber mensalmente recursos financeiros correspondente à diferença entre o teto financeiro estabelecido e o pagamento efetuado diretamente pela esfera federal às unidades hospitalares e ambulatoriais públicas e privadas existentes no município. (COSEMS-RJ, 1997)

    Na condição de gestão semi-plena, o Município assume a total responsabilidade sobre a gestão da prestação de serviços públicos e privados e o gerenciamento de toda rede pública existente no município, à exceção das unidades hospitalares de referência que estejam sob o controle estadual; assume a execução e controle das ações básicas de saúde, nutrição, educação, vigilâncias epidemiológica e sanitárias e saúde do trabalhador em seu território.

    Com relação ao repasse de recursos, recebe mensalmente o total dos recursos financeiros para custeio correspondente aos tetos ambulatorial e hospitalar estabelecidos.

    Os requisitos estipulados para o enquadramento dos municípios às três formas de gestão, incentivam a criação do Conselho Municipal e do Fundo Municipal de Saúde, além de estimular o estabelecimento de contatos entre os Municípios e as Comissões Intergestoras Bipartites.

    Para os Estados, a NOB 93 prevê a condição de gestão parcial, onde os Estados devem assumir a responsabilidade por uma programação integrada com seus municípios no tocante à manutenção de serviços e investimentos, além de gerir os recursos de investimentos próprios e os transferidos pela esfera federal.

    O controle da rede de serviços públicos e privados também fica sob custódia do Estado, respeitando as condições de gestão dos municípios, da redistribuição de cotas ambulatoriais e hospitalares. Assim como, coordenar a rede de referência estadual e os sistemas de alta complexidade, controlar as políticas relativas ao tratamento fora de domicílio, órteses e próteses ambulatoriais e medicamentos especiais, ações de vigilância epidemiológica, hemocentros, rede de laboratórios de saúde pública, e saúde do trabalhador.

    Os recursos financeiros correspondentes ao conjunto de unidades hospitalares e ambulatoriais próprias, contratadas em caráter suplementar e as dos municípios que não estiverem enquadrados nas condições de gestão incipiente, parcial e semi-plena, são repassados mensalmente.

    A NOB 93 estabelece, para o gerenciamento do processo de descentralização do SUS, alguns foros de negociação e decisão estruturados e articulados. Mais uma vez entram no cenário da política nacional de saúde novas instâncias de decisão que podem, de alguma forma, emitir reflexos no processo de tomada de decisão das diferentes esferas de governo.

     

    Quadro 4: NOB 93: Principais Instâncias Decisórias

    Níveis de Governo

    Instâncias de Decisão

    Âmbito Nacional

    • Comissão Intergestores Tripartite - formada paritariamente por representantes do Ministério da Saúde e dos órgãos de representação do conjunto de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS) e o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS), com o objetivo de auxiliar o Ministério da Saúde na elaboração de propostas de implantação e operacionalização do SUS, estando submetido ao Conselho Nacional de Saúde.

    Conselho Nacional de Saúde - é o órgão deliberativo na formulação de estratégias e controle da política nacional de saúde.

    Âmbito Estadual

    Comissão Intergestores Bipartite - formada por dirigentes da Secretaria Estadual de Saúde e o órgão de representação dos Secretários Municipais de Saúde do Estado, COSEMS, sendo que, o secretário de saúde do município da capital é membro nato desta comissão. É a instância privilegiada de negociação e decisão quanto aos aspectos operacionais do SUS.

    Conselho Estadual de Saúde - é permanente e deliberativo, atuando na formulação de estratégias e controle da execução da política estadual de saúde.

    Âmbito Municipal

    Conselho Municipal de Saúde - é permanente e deliberativo, atuando na formulação de estratégias e controle da da execução da política municipal de saúde.

    Fonte: Ministério da Saúde, 1993.

     

    A articulação entre estes foros se dá da seguinte maneira: os aspectos operacionais do processo de descentralização no âmbito estadual são regulamentados pela Comissão Bipartite. No caso de divergências não superadas, estas são submetidas ao Conselho Estadual de Saúde. Caso este não exista, será submetido à Comissão Tripartite. Se, algumas das partes se considerar prejudicada pela decisão, seja da Comissão Tripartite, seja do Conselho Estadual, o problema poderá ser levado ao Conselho Nacional de Saúde.

    A NOB 96, mantém a definição de papéis entre os poderes Federal, Estadual e Municipal, além de reforçar a capacidade de gestão dos municípios, onde as transferências fundo a fundo são ampliadas para todos os municípios habilitados para as ações básicas. Esta NOB redefine os modelos de gestão, instituindo critérios de enquadramento dos municípios mais avançados em sua estrutura criando níveis de gestão Plena da Atenção Básica e Plena do Sistema Municipal, para onde deveriam convergir os municípios habilitados em gestão semiplena pela NOB 93. Para os Estados são criados os níveis de gestão Avançada e gestão Plena.

    A NOB 96 busca "a plena responsabilidade do poder público municipal. Assim, esse poder se responsabiliza como também pode ser responsabilizado, ainda que não isoladamente." (Ministério da Saúde, 1996: 7)

    Desta forma, fica estabelecida a criação de um SUS municipal, "um conjunto de estabelecimentos, organizados em rede regionalizada e hierarquizada, e disciplinados segundo subsistemas, um para cada município." (Ministério da Saúde, 1996: 9)

    A gerência de serviços, neste sistema, pode ser estatal ou privada, mas a gestão é de competência exclusiva do poder público.

    É importante destacar aqui, a diferenciação de conceitos entre gerência e gestão: "gerência é conceituada como sendo a administração de uma unidade ou órgão de saúde (ambulatorio, hospital, instituto, fundação, etc), que se caracteriza como prestador de serviços ao sistema. Por sua vez, gestão é a atividade e a responsabilidade de dirigir um sistema de saúde (municipal, estadual, ou nacional), mediante o exercício de funções de coordenação, articulação, negociação, planejamento, acompanhamento, controle, avaliação e auditoria." (COSEMS-RJ, 1997: 79)

    A criação do SUS-municipal, possibilita um grande passo rumo à descentralização e à responsabilização dos municípios. No entanto, dada a realidade objetiva diferenciada dos municípios, há que se tomar certos cuidados frente ao risco de crescimento desordenado de um município em detrimento de outro, podendo ameaçar a integridade do SUS.

    Neste sentido, os Estados assumem um papel fundamental de mediar a relação entre os sistemas municipais, atribuindo, desta forma, responsabilidades aos fóruns intergovernamentais:

    RESPONSABILIDADES

    Comissões Intergestoras Tripartite e

    Bipartites

     

    Comissões Intergestoras Tripartite e

    Bipartites

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Comissões Intergestoras Bipartites

    • apreciação das composições dos sistemas municipais de saúde;
    • pactuar os tetos financeiros dos municípios;
    • programações entre gestores e a integração entre as esferas de governo;
    • articular a relação entre gestores nos diferentes níveis do sistema- as conclusões das negociações pactuadas, são formalizadas em ato próprio do gestor respectivo. As que se referem a matérias de competência dos Conselhos de Saúde são submetidas a este para aprovação. As demais devem ser encaminhadas no prazo máximo de quinze dias para conhecimento e avaliação da parte que se julgar prejudicada, inclusive no que se refere a habilitação do Estados e Municípios à habilitação das condições de gestão desta norma.
    • mediação entre os municípios, no caso de haver uma demanda por serviços de um município de menor porte, para um com maior capacidade resolutiva, implicando na alocação dos recursos do município demandante para o demandado, e então é submetida ao Conselho de Saúde correspondente.

    OBS: No caso de um impasse, é o gestor estadual que decide sobre os problemas surgidos na execução das políticas aprovadas.

     

    Conselhos de Saúde

    • composição e ratificação das programações entre os sistemas municipais.

    Conselho Estadual de Saúde

     

    • alocação de recursos para os municípios

    O custeio das ações e serviços de saúde é responsabilidade das três esferas de governo. Os recursos provém da União, Estados, Municípios, do Distrito Federal e de contribuições sociais cujas principais fontes são a Folha de Salário (Fonte 154), Faturamento (Fonte 153 e COFINS) e o Lucro (Fonte 151/Lucro líquido).

    As fontes fiscais são destinadas praticamente à cobertura de despesas com Pessoal e Encargos Sociais.

    Nas esferas Estaduais e Municipais, além dos recursos do próprio tesouro há os recursos transferidos da União que devem ser previstos no orçamento e identificados nos Fundos de Saúde para execução de ações previstas nos respectivos Planos de Saúde e PPI (Programação Pactuada e Integrada).

    Com relação às transferências Intergovernamentais, os Recursos de Investimento são alocados pelo Ministério da Saúde a partir da apresentação pela Secretaria Estadual da programação de prioridades e investimentos negociada na Comissão Intergestores Bipartite e aprovada no Conselho Estadual de Saúde. Os Recursos de Custeio são repassados pela esfera Federal configurando o TFG - Teto Financeiro Global, definido por Estados e Municípios com base na Programação Pactuada e Integrada (PPI), que é o instrumento essencial de reorganização do modelo de atenção e da gestão do SUS, explicitando o pacto estabelecido entre as três esferas de governo.

    No tocante ao Custeio da Assistência Hospitalar e Ambulatorial, a NOB 96 prevê duas modalidades de repasse de recursos: Transferência Regular e Automática Fundo a Fundo e Remuneração por Serviços Produzidos.

    No que diz respeito à transferência de recursos fundo a fundo, que consiste na transferência direta do Fundo Nacional de Saúde aos fundos estaduais e municipais, a NOB 96 determina diferentes formas de atuação:

    Modalidades Fundo a Fundo:

    Formas de Atuação:

    Piso Assistencial Básico (PAB)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    é um montante de recursos financeiros destinado ao custeio de procedimentos e ações de assistência básica, de responsabilidade tipicamente municipal. O elenco de procedimentos custeados pelo PAB, é proposto pela CIT e votado no Conselho Nacional de Saúde. É observado o perfil de serviços disponíveis na maioria dos municípios, para o progressivo incremento desses serviços, até que a atenção integral à saúde esteja plenamente organizada em todo país.

    Incentivo aos Programas de Saúde da Família (PCF) e de Agentes Comunitários de Saúde (PACS)

    Serão acrescidos determinados montantes ao PAB, sempre que estiverem atuando integralmente junto à rede municipal, equipes de saúde da família ou de agentes comunitários de saúde, ou estratégias semelhantes que garantam a integralidade da assistência, avaliada pelo Ministério da Saúde com base em normas da direção nacional do SUS.

    Fração Assistencial Especializada (FAE)

    É um montante destinado a procedimentos ambulatoriais de média complexidade, medicamentos e insumos excepcionais, órteses e próteses ambulatoriais e Tratamento Fora do Domicílio (TFD), sob gestão do Estado.

    Teto Financeiro de Assistência ao Município (TFAM)

    É um montante que corresponde ao financiamento do conjunto das ações assumidas pela secretaria municipal. Destina-se ao custeio dos serviços localizados no território do município (a não ser aqueles excluídos da gestão municipal por negociação da CIB).

    Teto Financeiro da Assistência ao Estado (TFAE)

    Corresponde ao financiamento do conjunto das ações assistenciais sob a responsabilidade do Estado.

    Índice de Valorização de Resultados (IVR)

     

     

     

     

     

    É a atribuição de valores adicionais equivalentes a 2% do teto financeiro da assistência ao Estado, transferido automaticamente do Fundo Nacional ao Fundo Estadual, como incentivo à obtenção de impactos positivos sobre as condições de saúde da população.

    Remuneração por Serviços Produzidos

    consiste no pagamento direto aos prestadores estatais ou privados contratados e conveniados, contra apresentação de faturas, referente a serviços realizados conforme programação e prévia autorização do gestor, de acordo com valores fixados em tabelas editadas pelo Ministério da Saúde, incluindo as seguintes modalidades:

    • Remuneração de Internações Hospitalares;
    • Remuneração de Procedimentos Ambulatoriais de Alto Custo/Complexidade;
    • Remuneração Transitória por Serviços Produzidos;
    • Fatores de Incentivo e Índices de Valorização;

    Piso Básico de Vigilância Sanitária (PBVS)

    responsabilidade especificamente municipal, sendo transferida ao Estado quando este se responsabilizar por municípios não habilitados; e ao Índice de Valorização de Impacto em Vigilância Sanitária (IVIS), transferidos aos Estados como incentivo de resultados de impacto significativo.

    Remuneração por Serviços Produzidos Transitoriamente

    o Programa Desconcentrado de Ações de Vigilância Sanitária (PDAVS), que consiste no pagamento direto às Secretarias Estaduais e Municipais por serviços de competência exclusiva da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, com demonstrativos aprovados na Tripartite e no Conselho Nacional de Saúde.

    Custeio das Ações de Epidemiologia e de Controle de Doenças

    Teto Financeiro de Epidemiologia e Controle de Doenças (TFECD), que cobre os procedimentos SAI/SUS cujo elenco de valores são definidos em negociações na Tripartite nas modalidades: Fundo a Fundo, segundo as condições de gestão; Remuneração por Serviços Produzidos, que são pagos às Secretarias Estaduais e às Secretarias Municipais, observadas as condições de gestão estabelecidas a partir desta NOB e Transferências por Convênio, visando estimular as atividades de epidemiologia e controle de doenças, custeio das operações especiais e o Financiamento de Projetos de Cooperação Técnico Científica.

     

    A NOB 96 estabelece novos modelos de gestão para Municípios e Estados.

    No caso do Municípios, estes podem pleitear duas condições de gestão: Plena da Atenção Básica e Plena do Sistema Municipal.

    Para ser enquadrado na gestão plena da atenção básica, o município deve provar junto à CIB o preenchimento dos seguintes requisitos:

    • Funcionamento de Conselho Municipal de Saúde;
    • Funcionamento do Fundo Municipal de Saúde;
    • Plano Municipal de Saúde com e compromisso de participar da programação pactuada para alocação de recursos através da CIB;
    • Comprovar dotação orçamentária do ano e dispêndio do ano anterior;
    • Formalizar, com aprovação do Conselho municipal de saúde, o pleito de habilitação;
    • Dispor de Médico formalmente designado para as autorizações prévias;
    • Comprovar capacidade de vigilância sanitária e epidemiológica;
    • Comprovar disponibilidade de RH para supervisão e auditoria da rede.

    Ao ser habilitado, o município terá as seguintes prerrogativas:

    • Transferência automática do PAB;
    • Transferência automática do PBVS;
    • Transferência automática para as ações de epidemiologia e controle de doenças;
    • Todas as unidades básicas de saúde (estatais e/ou privadas) estabelecidas no município ficam subordinadas ao Gestor Municipal.

    Para atender aos requisitos da gestão plena do sistema municipal municipal, são necessários os itens anteriormente apontados com os seguintes acréscimos:

    • Relatório de gestão anterior à solicitação;
    • Oferta, no território, de todo elenco de procedimentos do PAB, além de apoio diagnóstico em patologia clínica e radiologia básica;
    • Comprovar a estruturação de equipe para auditoria e supervisão da rede, dos profissionais e dos serviços.

    Ao ser habilitado, o município terá as seguintes prerrogativas:

    • Transferência regular do TFA;
    • Normatização complementar do pagamento dos prestadores;
    • Transferência fundo a fundo do TBVS;
    • Remuneração dos serviços de vigilância Sanitária de média e alta complexidade e do PDAVS;
    • Subordinação à gestão municipal das unidades estabelecidas em seu territorio;
    • Transferência de valores pelas ações de epidemiologia e controle de doenças.

    Para os Estados, a NOB estabelece as modalidades de gestão Avançada e Plena.

    Para ser enquadrado em qualquer uma das modalidades os Estados devem assumir as seguintes responsabilidades:

    • Elaboração da Programação Pactuada e Integrada;
    • Plano Estadual de Saúde, que deve ser negociado na Bipartite e aprovado no Conselho Estadual;
    • Gerência das unidades estatais de hemoterapia e de laboratórios para controle de qualidade, para Vigilância Sanitária e Vigilância Epidemiológica;
    • Política de hemoterapia;
    • Organização do Sistema de Referência e da Câmara de Compensação de AIH;
    • Política estadual de assistência farmacêutica, articulada com o Ministério da Saúde;
    • Normatização da administração da oferta e do controle dos serviços de alto custo;
    • Cadastro atualizado;
    • Cooperação técnica e financeira com os municípios objetivando a descentralização;
    • Política de Integração das ações de saneamento às ações de saúde;
    • Coordenação das atividades de vigilância epidemiológica e de controle de doenças;
    • Coordenação das ações de Vigilância Sanitária;
    • Execução da Vigilância Sanitária nos municípios não habilitados;
    • Execução da alta e média complexidade da Vigilância Sanitária;
    • Execução do PDAVS.

    Requisitos comuns para habilitação em uma das duas modalidades:

    • Conselho Estadual de saúde;
    • Comissão Intergestores Bipartite;
    • Fundo Estadual de Saúde;
    • Plano Estadual de Saúde, com programação, estratégias e critérios;
    • Relatório de gestão do ano anterior ao pleito, aprovado no Conselho Estadual de Saúde;
    • Comprovar a transferência de gestão hospitalar e ambulatorial aos municípios habilitados;
    • Comprovar SNA;
    • Capacidade técnica, administrativa e condições materiais;
    • Dotação orçamentária do ano, e dispêndio do ano anterior como contrapartida;
    • Formalização do pleito à Comissão Intergestores Tripartipe, aprovada no Conselho Estadual de Saúde;
    • Criação do Comitê Interinstitucional de Epidemiologia;
    • Funcionamento da Vigilância Sanitária;
    • Funcionamento da Vigilância Epidemiologica;

    No caso de pleitear a Gestão Avançada, o Estado tem que assumir as seguintes responsabilidades e requisitos específicos:

    • Contratação, controle, auditoria e pagamento dos serviços sob gestão estadual da FAE;
    • Contratação, controle, auditoria e pagamento dos prestadores de serviço dos municípios não habilitados;
    • Ordenamento do pagamento dos demais serviços sob gestão do Estado;
    • Operação do SAI/SUS.
    • Programação pactuada e integrada ambulatorial, hospitalar e de alto custo com referência intermunicipal, contendo os critérios utilizados;
    • Ter 60% dos municípios habilitados ou 40% habilitados abrangendo 60% da população do Estado.
    • Ter 30% do TFA comprometido com transferência regular e automática dos municípios.

    Ao ser habilitado, o Estado terá as seguintes prerrogativas:

    • Transferência regular e automática dos recursos da FAE e do PAB relativo aos municípios não habilitados;
    • Transferência do PBVS dos municípios não habilitados na NOB 96;
    • Transferência do IVISA;
    • Remuneração por serviços produzidos em Vigilância Sanitária.

    No caso de pleitear a Gestão Plena, o Estado tem que assumir as seguintes responsabilidades e requisitos específicos:

    • Contratação, controle, auditoria e pagamento aos prestadores de serviço sob gestão estadual;
    • Operação do SAI/SUS e do SIH/SUS;
    • Comprovar implementação das ações ambulatoriais de alto custo;
    • Mecanismos de controle de serviços;
    • Ter 80% dos municípios habilitados ou 50% de municípios habilitados onde residam 80% da população do estado;
    • Comprometer 50% do TFA em transferências.

    Ao ser habilitado, o Estado terá as seguintes prerrogativas:

    • Transferência regular do TFE;
    • Transferência regular do IVR;
    • Transferência regular do PBVS;
    • Transferência regular do IVISA;
    • Remuneração dos serviços de Vigilância Sanitária;
    • Normatização, pactuada na CIB e aprovada no CES, dos pagamentos dos prestadores;
    • Transferências de recursos para epidemiologia e controle de doenças.

    A descentralização da atenção à saúde tem sido lentamente implementada. A municipalização é que tem se apresentado como a forma concreta deste processo.

    No entanto, faz-se necessário destacar alguns obstáculos que podem descaracterizar as finalidades do processo de municipalização:

    Em primeiro lugar, os municípios não possuem um poder decisório concretamente estabelecido pelas instâncias formais de decisão no SUS. Na maioria das vezes, como observamos nas descrições das NOBs, os recursos às decisões são tomadas nas comissões Tripartites, o que, na prática, pode não garantir a participação do município afetado.

    Em segundo lugar, é importante observar como de fato, está ocorrendo a municipalização, principalmente com relação à definição do montante de recursos que cada município deve receber. Transferir responsabilidades sem alocação de recursos pode comprometer o processo em andamento.

    "Embora a descentralização possa ser observada por diversos ângulos, pode-se dizer que, no caso da política da saúde no Brasil nos anos 90, ela tem caminhado a passos largos em direção à municipalização. No plano da administração pública, no entanto, este processo varia muito conforme cada prefeitura. Em certos casos, observa-se apenas uma desconcentração de atividades do nível central para o local, sem uma distribuição concomitante de recursos e autonomia de decisão; em outros nota-se a transferência de tarefas específicas para organismos não governamentais ou empresas privadas." (COSEMS-RJ, 1997: 56)

     
     
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