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Carvalho, Silvia Barbosa de. As virtudes do pecado: narrativas de mulheres a "fazer a vida no centro da Cidade". [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 89 p.

2. As Mulheres da Vida: Algumas Teorias

A sociedade chama as prostitutas de "mulheres da vida", "rameiras", "meretrizes", "vadias", "piranhas", "mulheres de vida fácil", "mariposas", "perdidas". Todas as prostitutas negociam, de forma explícita, favores sexuais em troca de dinheiro, desrespeitam a máxima de ser o sexo uma dádiva a ser oferecida ao, e, às vezes, compartilhada com, o homem amado, de preferência dentro dos sagrados laços do matrimônio (Gaspar, 1988; Rago, 1996; Kirsch, 1998; Roberts, 1998).

Sair com vários homens, não escolher o parceiro, cobrar pelos serviços, expor a perda da virgindade, circular em um mundo, ainda hoje, masculino, parece pôr as prostitutas em desvantagem em relação às mulheres ditas "de família", para as quais os códigos de conduta moral são rígidos, marcados pela submissão e pela subserviência a um companheiro. Quer sejam identificadas como sofredoras - mulheres que o sofrimento e a violência levam ao "mau caminho" - quer sejam consideradas pecadoras, levianas e dissimuladas, continuarão em desvantagem em relação aos demais. Se as razões para a prostituição derivam de um pecado social ou individual (Rago, 1991) não importa, pois, quem pertence a este universo manter-se-á "fora" do "bom caminho", à margem do meio-social (Castro, 1993).

A prostituição tem sido amplamente discutida no âmbito da medicina, da criminologia, da vigilância sanitária, das doenças sexualmente transmissíveis, da epidemiologia, das representações. Alteram-se os adjetivos, mas a versão final leva quase sempre ao mesmo fim: segregação. E o tratamento varia conforme o olhar dos estudiosos.

A teoria do desvio, de Goffman (1975), é muito utilizada para definir as identidades marginais. O termo desviante implica a idéia, pré-estabelecida, de uma norma social dominante, que o sujeito desvirtuou, cujas regras perverteu (Bacelar, 1987; Versiani dos Anjos Jr., 1980; Espinheira, 1984). Em consequência, o sujeito deve ser discriminado, e discrimina a si mesmo, já que o desvio não é apenas uma das facetas de sua personalidade mas responde por seu todo.

A dimensão da prostituição como escolha de sujeitos desejantes, históricos, é abordada de forma diluída, sob uma visão basicamente higienista (Versiani dos Anjos Jr., 1980; Engel, 1986; Gomes, 1994; LILACS, 1997). Nessas publicações, em um considerável número de relatos se atribui a prostituição a problemas relacionados a pobreza, doença familiar, viuvez, violência, abandono pelo marido, necessidade de criar os filhos, necessidade de cuidar e sustentar doentes e outras questões relativas à dinâmica familiar ou, ainda, a falta de opção de trabalho no mercado formal; e esse discurso discurso é corroborado pelas mulheres.

A miséria econômica é vista, no Brasil, como um dos principais motivos de ingresso no mundo da prostituição, segundo Gaspar (1988). Mas nos Estados Unidos, é possível considerar a prostituição uma escolha pessoal por um trabalho independente. Na França, a prostituição estaria, via de regra, ligada à figura de um aliciador e aconteceria por "engano", "inocência" ou "falta de informação" das mulheres envolvidas. Não existe, portanto, uma explicação constante para o assunto.

Outra visão é a da sexualidade perversa (Castro 1993; Rago, 1996; Gaspar, 1988) segundo a qual as "características naturais femininas" seriam desvirtuadas e levadas a extremos e resultariam em uma perversão de valores e condutas, de cunho individual. A perspectiva psicopatológica é também presente nesses discursos: disfunções, problemas de personalidade, levariam mulheres à prostituição.

Ao lado de todas as explicações para essa profissão, e dos preconceitos em torno de quem a pratica, não existe uma intenção clara de se erradicar a prostituição. Ao contrário, a luta de forças dá-se no terreno da reclusão das mulheres em zonas, certas ruas das cidades, ou a seus arredores, (Castro, 1993; Rago, 1996; Espinheira, 1984, Roberts, 1998; Wolf, 1998). Essa prática seria um "mal necessário", parte constituinte de sociedades calcadas na desigualdade de bens e consumo.

A sobrevivência da prostituição dependeria, exclusivamente, das diferenças nas estruturas das sociedades e ajudaria a manter a ordem burguesa. Com a industrialização, e a maior interação das famílias com o espaço público, tornou-se necessário o controle das "sexualidades vagabundas" - existiria alguma que não é? - em contraposição às "sexualidades sadias"- existiria alguma doente? - representantes do universo familiar (Castro, 1993; Rago, 1996; Espinheira, 1984; Versiani dos Anjos Jr.,1980). Essa cisão está presente no discurso das mulheres. "Para que vocês existam aí fora, é necessário que a gente exista também".

A divisão dos mundos em " mundo das prostitutas" e o das "mulheres da sociedade"; o público e o privado, regula as trocas subjetivas dos grupos sociais; quem pertence a um não pode circular impunemente pelo outro, sob pena de ser apontado como desviante. Esses mundos são excludentes, a cisão sustenta a ordem social, a destruição de um implicaria na falência do outro (Gomes, 1994; Goffman, 1987). E a necessidade de controle dos corpos passa também pela necessidade de controle do espaço físico, subjetivo e institucional. (Castro, 1993; Engel, 1986; Rago, 1996).

Paralelamente às perspectivas de um destino fatalístico, sem retorno, marcado por uma certa constância discursiva, a singularidade dos sujeitos humanos remete à diversidade dos sentidos, sentidos construídos por cada indivíduo na sua relação com o mundo.

As regras e a valorização moral e de condutas, próprias de nosso tempo, compactuam com o contexto político, econômico e social também no que se refere à sexualidade. Cada cultura lida com a sexualidade de um modo específico, representa a sexualidade segundo suas possibilidades internas e a capacidade de articulação das forças de seu grupo social (Boltanski, 1989). A sexualidade pode ser entendida, assim, como um fenômeno que tem expressão entre indivíduos de grupos com valores e atitudes específicos, e está inter-relacionado com o contexto destes grupos, circunscrito a um lugar psicológico (Valadares, 1994).

A prostituição não foge aos ditames destas grupalidades, e recebe uma carga cultural, afetiva e simbólica coerente com o contexto que a cerca. Amplamente estudada, considerada "a profissão mais antiga da humanidade", a prostituição possui várias modalidades e intensidades, reguladas pela singularidade de sujeitos concretos, históricos, desejantes, cuja multiplicidade de leituras, de traduções do espaço simbólico denuncia a relatividade da verdade das palavras (Blikstein, 1990). A realidade desafia-nos, a todo instante, com uma diversidade de sujeitos mutantes, revolucionários, dinâmicos, de sujeitos a construir, a cada momento, novas formas de expressão nos grupos (Querolin Neto, 1997).

2.1 As Mulheres na Vida: Um Olhar sobre a Atualidade

Sem dúvida as desigualdades econômicas e sociais fomentam a exploração e o comércio do sexo. Mas a prostituição apresenta diferentes nuances entre as classes sociais, e assim, sugere a relativização de sua ligação com a miséria da população(Versiani dos Anjos Jr., 1980; Castro, 1993; Moraes, 1996; Wolf,1998; Szterenfeld e Fonseca, 1996).

A prostituição masculina, até alguns anos atrás não muito comentada, é hoje um mercado em ampliação nas grandes cidades (Perlongher, 1987).

É cada dia mais freqüente a propaganda da prostituição nos meios de comunicação. Anúncios em jornais e revistas (de forma explícita ou velada), sites na Internet, anúncios na televisão, relações eróticas por telefone, etc.

Aumenta o número de agências de promoção de encontros entre as mulheres e os clientes, cresce o número de call gilrs, scort gilrs e de garotas de programa (Gaspar, 1986; Moraes,1986; Szterenfeld e Fonseca, 1996). Nesse mercado, circulam garotas das mais variadas classes sociais, muitas com formação universitária e domínio de mais de um idioma. A beleza, o luxo e o mistério acerca do trabalho fazem parte do negócio e contribuem para uma carreira de sucesso. Essas garotas não se consideram prostitutas, embora o produto final de sua negociação seja o mesmo.

A diferença entre as prostitutas de luxo e o baixo meretrício (Moraes, 1995) não é tão grande quanto as primeiras gostariam de acreditar. As diferenças principais dizem respeito às identificações e ao culto à beleza. Para uma garota de programa, a garantia de uma carreira de sucesso e de muitos fregueses é o sigilo. E muitas são convidadas para participar de festas, convenções e eventos diversos na companhia de executivos, empresários e turistas, espaços em que se exige uma postura que em nenhum momento as identifique como prostitutas.

Para continuar no mercado, as garotas precisam diferenciar-se por atributos físicos e sociais. É necessário vestir as roupas da moda, conhecer os lugares da moda. O culto à beleza e a preocupação com os ditames da moda fazem parte do cotidiano dessas mulheres. Em uma sociedade em que "ser bonita" e "estar bem vestida" é quase um sinônimo de realização pessoal, sucesso e felicidade (Gaspar, 1986; Wolf, 1992), fugir a esses padrões é uma ameaça às possibilidades de trabalho.

Entre as mulheres que fazem prostituição de rua, esses critérios são outros. Ao invés do segredo em torno da atividade, é preciso deixar claro quem você é, e o que faz. Além de escolher um local da cidade reconhecido como lugar de prostitutas (Ribeiro e Mattos, 1996), o cliente precisa saber identificar quem é e quem não é prostituta naquele contexto.

Do ponto de vista econômico, a pesquisa realizada por Szterenfeld e Fonseca (1996) nas áreas da Praça Tiradentes e da Central do Brasil, no centro do Rio, e na Praça do Pacificador, em Caxias mostra que definir a prostituição de rua como prostituição de baixa renda não condiz com a realidade, já que a renda vai depender do desempenho das mulheres, do tipo de freguês e do ponto de trabalho.

Com relação à beleza e à moda, as diferenças também se mostram. Entre as mulheres na rua é mais difícil explicar o sucesso no trabalho, pois existem mulheres em idades variadas e estilos completamente diferentes. Mulheres muito bonitas, mulheres feias, novas, velhas, negras, mulatas, brancas, gordas, magras, baixas, altas, etc. Algumas se vestem segundo nossa imagem interna da prostituta: roupas extravagantes, muitos colorares e pulseiras. Mas a maioria das mulheres da vida veste roupas comuns, sem muita irreverência. Conseguir clientes, enfim, não depende de estereótipos, sobre beleza e vestuário.

Essa pluralidade indica a capacidade dos sujeitos de romperem com estereótipos, no terreno do desejo. Por mais que a cultura tente aprisionar o sujeito em uma "maneira correta" de desejar, linearidade alguma explica o desejo e as escolhas do sujeito, seja a prostituta, seja o cliente.

A prostituição feminina tem movimentado diversas lideranças. A prevenção e a saúde aproximam grupos afins mas não podem ser os únicos objetivos de um trabalho a pretender o sucesso. Assim, a partir das discussões sobre saúde e prevenção, o Grupo Fio da Alma, por exemplo, tem ampliado as reflexões sobre a mulher, suas escolhas, afetivas e políticas, e a luta pelo seu bem estar.

A docilidade dos corpos, e a resignação dos discursos, não cabem diante da revolução individual de cada sujeito, neste universo onde as profissionais do sexo garantem seu espaço no "mundo de fora". Nas ruas constroem-se singularidades, segundo diferenciações, dissociações e interações (Espinheira, 1984) que ultrapassam as perspectivas da patologia, do desvio ou do "mal necessário" à sociedade familiar burguesa. O caminho aqui é pensar a prostituição como possível expressão de singularidade, não só nos grupos sociais em que a miséria, a necessidade ou a dor são a vivência do cotidiano.

A Rede Internacional de Profissionais do Sexo (www.walnet.org/nswp) busca entender a complexidade das relações de trabalho na prostituição e diminuir a distância entre homens e mulheres. As discussões sobre classe, raça, gênero, na construção de uma identidade feminina, poderiam ser ampliadas para permitirem uma visão mais rica da sexualidade. Embora essas tendências ainda sejam mais fortes na teoria do que na prática, apontam caminhos para a compreensão do tema.

Para Jo Doecema (2) (1999), coordenadora da Rede, na área de Recursos Humanos, o feminismo tende a ver todas as questões ligadas às mulheres como opressão de gênero. Mas as profissionais do sexo desafiam esta visão, pois apontam para problemas mais importantes que os de gênero, como por exemplo: a pobreza, a ausência de direito social, a desigualdade no acesso aos serviços, as limitações para o exercício de uma sexualidade plena, a violência, a erotização infantil, etc.

Esta última visão permite uma reflexão mais profunda sobre o poder e sobre as relações entre homens e mulheres. Se existe um campo para a discussão sobre a legitimidade do trabalho prostitucional, é preciso considerar legítimo, também, o desejo masculino, é preciso contrapor os campos do desejo masculino e feminino para além das diferenças de gênero. As relações humanas transcendem as diferenças de genêro e apontam para a dimensão do desejo, desejo que transborda, que desafia nossas explicações. Assim, se existe um movimento de oferta feminina, existe também algo relacionado a esta oferta que desperta o desejo e as fantasias masculinas em torno do universo prostitucional.

O feminismo, e as profissionais do sexo (Doecema, 1999) oferecem indícios, ainda, para se entender como a indústria do sexo funciona. O silêncio, dos governos, em relação ao tráfico de mulheres tem ligação com o medo do estranho, com a complacência ante a ilegalidade e com a alegação, de uma cultura que justifica a violência como discurso corrente (Wolf,1992), de que se a mulher se prostitui, corre riscos que "as outras" não correriam.

Mesmo com toda a liberação sexual, o desejo feminino continua preso aos ideais do amor. Para a geração do sexo livre é clara a divisão entre as formas dignas de lidar com o corpo e a sexualidade e as outras possibilidades "não tão dignas". No terreno do discurso esta divisão é considerada como ultrapassada, mas "uma boa moça sabe muito bem que tem que respeitar seu corpo, não se denegrir".

O mesmo horror que se associa à figura da prostituta, se revela também em torno do homossexualismo masculino. Se as mulheres passam boa parte do tempo ameaçadas pelo estigma da prostituta, para os homens uma ameaça também existe. A qualquer sinal de "fraqueza", "delicadeza", "frescura", os homens, podem ser tachados de homossexual, "bicha", "gay", "frutinha", "boiola", "paneleiro" e outros adjetivos mais. O homem precisa manter uma atitude rígida, no estilo "homem não chora", para não correr o risco de receber algum destes apelidos.

A prostituição, ainda hoje, representa uma parcela das fantasias - masculinas e femininas - de liberação sexual, pois a modernidade e a liberdade sexual não garantem a vivência de uma sexualidade livre. Vivê-la passa por uma outra ordem de relação com o mundo, onde o sujeito habita um lugar (Valadares, 1994) e, a partir deste lugar, constrói seu lugar como sujeito.

Para além da cultura do risco e da aventura, e da necessidade, ou não, da mulher prostituir-se, deve prevalecer o direito de cada um sobre o uso do seu corpo. E esse uso não pode estar sob o domínio do outro, mas precisa ser uma escolha do sujeito.


2- N.A.: Informações colhidas no Seminário Feminismo e Movimento das Prostitutas: Conflitos e Contribuições, realizado em 03/09/1999 no auditório do Hospital São Francisco de Assis, RJ.

 
 
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