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Cavalcante, Fátima Gonçalves. Pessoas muito especiais: a construção social do portador de deficiência e reinvenção da família. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2002. 393 p.

Capítulo 3 - Reinvenção do destino: a história de Davi

3.1 Introdução

Neste terceiro estudo de caso, apresento a experiência de um casal de classe popular cujo único filho apresentou uma psicose infantil nos primeiros anos de vida. Uma análise genealógica evidenciou histórias de violência em duas gerações, levando ao aparecimento da psicose na terceira geração, surgindo com um meio de "escape" de um destino violento. É um caso surpreendente pela forma selvagem com que a psicose se manifesta numa criança tão pequena e pelo modo como a mãe lutou, com todas as suas forças, para buscar no mundo social os meios de ajudar seu filho a se tornar um ser civilizado. A carência de recursos internos e externos, a ausência de apoio familiar e uma história de abuso levaram essa mãe a procurar apoio em variadas instituições sociais. Foi, sobretudo, apostando na possibilidade de transformação das relações entre as pessoas que esta jovem mulher foi em busca de práticas sociais que favorecessem a reconstrução de sua interioridade e da interioridade de seu filho. Beneficiada por uma conjuntura de reforma sanitária e reforma psiquiátrica, ela encontrou num hospital psiquiátrico público do Rio de Janeiro um apoio que integrou ações da saúde mental e da educação. No entanto, o que mais chama atenção, nesta história, é a variedade de alternativas sociais que a mãe foi capaz de mobilizar. O sucesso deste caso, que conduziu a uma inesperada cura, só pode ser explicado pela articulação entre saúde, educação e religião, mediada por pessoas altamente mobilizadas para que essas reformas se tornassem reais para os pacientes e uma mãe absolutamente determinada à busca de alternativas para seu filho. Tudo isso mostra que a reinvenção da saúde não está restrita apenas ao "setor", mas ao contrário, pode ser reconstruída "no território da vida social", numa perspectiva holista, global e complexa.

"Como Jesus disse, não se pode colher figos de cardos, nem uvas de espinheiros. Da mesma forma, não se pode colher gente de um mundo que não dá gente. Nosso mundo dá gente da mesma maneira que a macieira dá maçãs e que a videira dá uvas. Somos sintomáticos de um ambiente extremamente organizado e complexo" (Watts, 2001, 21,22).

O mito familiar que esta história apresenta, ou seja, o imaginário do qual extrai o sentido da vida, faz eclodir justamente um conflito entre a árvore e o fruto. Como proteger um novo fruto de uma árvore genealógica que só reproduzia ‘frutos estragados pela violência’. Na impossibilidade de se ‘desconstruir’ a árvore, pois não se pode alterar as próprias origens, a saída inconsciente foi "descaracterizar" o fruto através da psicose infantil, um transtorno do desenvolvimento que desagrega a organização do ego e altera o contato com a realidade. A seguir, irei mostrar o processo de reconstrução do "filho-fruto" e a reinvenção do seu destino.

3.2 Eixo metodológico e referencial teórico

Saúde e educação para todos no ano 2000

Essa história se desenvolveu no entorno de questões ligadas à Saúde Mental e à Educação numa conjuntura de reformas sociais , em meio a algumas importantes bandeiras de luta: a desistintucionalização e a inclusão social, processos que convergem e se complementam. Além desse cenário ampliado, o caso foi acompanhado numa instituição psiquiátrica e numa escola especial e, por essa razão, julguei necessário descrever brevemente a história das reformas na saúde e na educação, contextualizando o momento institucional que gerou condições para que um surpreendente sucesso fosse alcançado.

No campo da Educação Especial passou-se a valorizar a idéia de uma escola inclusiva, aquela que se propõe a gerar condições para que todos os estudantes se desenvolvam independente de sua limitação. Parte-se do pressuposto de que o convívio do portador de deficiência com a criança normal e vice-versa trará maior benefício para ambos, porque o deficiente precisa ser acolhido em seu valor integral, e aqueles que convivem com pessoas diferentes terão oportunidade de desmistificar a excepcionalidade e desenvolver o respeito às diferenças (Xavier, 1999). Na Saúde Mental há o reconhecido movimento em prol de uma desinstitucionalização, da desconstrução do aparato manicomial no contexto da reforma psiquiátrica brasileira, sobretudo a partir da década de 80. Essa nova bandeira ganha ainda maior legitimidade social com a aprovação em 2001, no congresso nacional, da Lei 8/91 do Deputado Paulo Delgado que regulamenta a superação gradual do modelo de internação em manicômios pela criação de serviços substitutivos, que preservem a inserção social das pessoas. O cenário de mudanças e o esforço social e político para implementá-la produziu novas concepções e práticas de saúde. Segundo Rotelli desisntitucionalizar é reconhecer que "o objeto da psiquiatria não pode nem deve ser a periculosidade ou a doença (entendida como algo que está no corpo ou no psiquismo de uma pessoa). Para nós, o objeto sempre foi a "existência sofrimento dos pacientes e sua relação com o corpo social". O mal obscuro da Psiquiatria está em haver constituído instituições sobre a separação de um objeto fictício - a doença - da existência global, complexa e concreta do paciente e do corpo da sociedade" (Rotelli, 1990, 90). Por essa razão, o objeto da desinstitucionalização é a ruptura do modelo clínico e de uma relação mecânica causa-efeito na análise da constituição da loucura.

Galimberti (1984) diz que "o olhar médico não encontra o doente, mas a sua doença, e em seu corpo não lê uma biografia, mas uma patologia na qual a subjetividade do paciente desaparece atrás da objetividade dos sinais sintomáticos que não remetem a um ambiente ou a um modo de viver ou a uma série de hábitos adquiridos, mas remetem a um quadro clínico onde as diferenças individuais que afetam a evolução da doença desaparecem naquela gramática de sintomas, com a qual o médico classifica a entidade mórbida como o botânico classifica as plantas" (Galimberti, 1984 apud Rotelli, 1990, 93).

O projeto da desinstitucionalização coincide com a reconstrução da complexidade do objeto que o modelo clínico e asilar havia simplificado. O enfoque não é mais a cura, a reparação, mas a produção da vida e a reprodução social das pessoas. É preciso "reinventar a instituição" para que identifique situações de sofrimento e opressão, rearticulando-as ao corpo social, a partir de trocas, novos papéis, encontrando "outros modos materiais de ser para o outro, aos olhos do outro"( Rotelli, 1990, 94). Esta invenção só poderá ser viabilizada no aproveitamento da singularidade das pessoas e em sua articulação com as práticas sociais.

A idéia de direito social concebida em termos de Bem-Estar Social (Welfare Sate), que passou a ser valorizada no cenário das reformas sociais, leva ao conceito de "cidadania", uma noção que reconhece a existência de uma "igualdade humana básica": o direito à liberdade de ir e vir, à justiça, ao bem estar econômico, à segurança, à ação coletiva, à participação e ao exercício do poder político. Ao se buscar um padrão de vida adequado para viver em sociedade, a idéia de cidadania se transforma num pacto social com direitos e deveres (Marshall, 1967). No campo da Saúde Mental, a concepção ampliada de uma "saúde cidadã" se associou à idéia da desinstitucionalização. Para desisntitucionalizar seria preciso produzir uma transformação que começasse pelo manicômio. Seria preciso transformar os modos nos quais as pessoas eram tratadas, para poder, então, minorar o seu sofrimento. Isso requereria um deslizamento do objeto "doença", para a "existência-sofrimento de pacientes concretos". Seria preciso inventar a saúde e, para isso, a mobilização de ações e de comportamentos que emancipassem a estrutura inteira do campo terapêutico (Rotelli, 1990)

"Os principais atores do processo de desinstitucionalização são antes de tudo os técnicos que trabalham no interior das instituições, os quais transformam a organização, as relações e as regras do jogo exercitando ativamente o seu papel terapêutico de psiquiatras, enfermeiros, psicólogos, etc... Sob esta base também os pacientes se tornam atores e a relação terapêutica torna-se uma fonte de poder que é utilizada também para chamar à responsabilidade e ao poder os outros atores institucionais" (Rotelli, 1990, 31). Veremos adiante a atuação estratégica de técnicos da saúde mental numa transformação institucional.

A prática efetuada no campo da Educação Especial antes dos anos 90, esteve pautada no "modelo médico da deficiência" que destacava a doença ou a incapacidade a ser reabilitada. Como conseqüência, as instituições se especializaram em atender as pessoas por tipos de deficiências em escolas especiais, centros de reabilitação, oficinas protegidas, clubes e associações desportivas especiais. Passaram a perseguir o ideal da normalização em prol de uma maior integração social, em oposição à exclusão social, ideologia que considerava os deficientes totalmente incapazes e inúteis. Mendes (1994), esclarece que o princípio da normalização tem como pressuposto básico a idéia de que o portador de deficiência tem o direito de construir um estilo ou padrão de vida compatível com aquilo que é típico de sua própria cultura. Os limites deste modelo ganharam visibilidade, como aponta Sassaki (1999), quando a normalização foi confundida com o preceito de que deveria se tornar normais as pessoas deficientes. Na década de 70 a normalização procurou oferecer condições de vida, semelhantes à do resto da sociedade, muitas das vezes criando um mundo separado, embora parecido. Na década de 80 e início dos anos 90, quando as pessoas deficientes se organizam para lutar por seus direitos, as organizações de vanguarda começam a difundir a idéia de que a prática da integração social, que insere o deficiente muitas vezes em ambientes separados e protegidos, é insuficiente. Havia desde aquele momento, a idéia de que apenas o esforço unilateral de investir no deficiente, na família e na instituição especializada não é suficiente para acabar com a discriminação social e propiciar igualdade de oportunidades (Sassaki, 1999). A idéia de uma desinstitucionalização mais plena, nos termos apresentados por Rotelli (1990), ganha visibilidade na área da educação especial. Aqui também é preciso inventar novas práticas, fazendo deslizar a ênfase antes dada à "cura", para um projeto de "invenção da educação" e de "reprodução social do portador de deficiência".

A partir dos anos 90 ganha força um "modelo social da deficiência", quando a sociedade é chamada a refletir sobre como ela cria problemas e sublinha a desvantagem quando mantém ambientes restritivos, bens e objetos inacessíveis do ponto de vista físico, políticas e práticas discriminatórias, desinformação sobre os direitos desse grupo social. Como aponta Sassaki (1999) uma nova pauta de condições deve ser desenvolvida para que um portador de deficiência possa fazer parte de uma sociedade inclusiva: (1) autonomia domínio físico ou social dos vários ambientes que a pessoa necessita freqüentar; (2) independência - capacidade e prontidão para tomar decisões sem depender de outras pessoas, fazendo uso de informações disponíveis. A independência pode ser pessoal, social ou econômica; (3) empowerment - processo pela qual uma pessoa ou um grupo de pessoas usa o seu poder pessoal, inerente às possibilidades e limites de cada um, para escolher, decidir e assumir o controle de sua vida; (4) equiparação de oportunidades - processo pelo qual os sistemas sociais (meio físico, habitação, saúde, educação, trabalho, vida cultural e social) são feitos acessíveis para todos (ONU, 1983); (5) inclusão social - "processo pela qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. A inclusão social constitui, então, um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas, e a sociedade, buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre as soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos" (Sassaki, 1999, 41). O processo de inclusão, assim definido, pode contribuir para a construção de uma nova sociedade, desde que hajam transformações no ambiente físico e na mentalidade das pessoas.

Em 1994, a Conferência Mundial sobre Educação de Alunos com Necessidades Especiais, realizada em Salamanca, na Espanha, defendeu a idéia de "uma educação para todos" e adotou um princípio norteador de que "as escolas comuns deveriam acomodar todas as crianças, fossem quais fossem suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas e outras" (Xavier, 1999, 53). Anteriormente, a "semente do conceito sociedade inclusiva foi lançada em 1981 pela própria ONU quando realizou o Ano Internacional das Pessoas Deficientes (AIPD)" (Sassaki, 1999, 165), em defesa de uma participação plena e igualitária. Em 1977, a Conferência de Alma-Ata, organizada pela OMS havia se tornado um "marco pelo reconhecimento dos direitos humanos de todos os povos do mundo em relação à saúde, com o lema, "Saúde para todos no ano 2000" (Santos & Westphal, 1999, 75).

A Constituição brasilieira possui uma legislação específica para a pessoa portadora de deficiência. A lei 7.853, de 24 de outubro de 1989 regulamenta as normas para assegurar os direitos das pessoas portadoras de deficiência quanto à educação, saúde, trabalho, lazer, previdência social, amparo à infância e à maternidade, entre outros que propiciem bem-estar pessoal, social e econômico (Bieler, et al, 1990). No artigo 2o, na área da educação, ficam estabelecidas: "a inclusão, no sistema educacional, da Educação Especial como modalidade educativa"; "a inserção, no referido sistema educacional, das escolas especiais, privadas e pública"; "oferta, obrigatória e gratuita, da Educação Especial em estabelecimentos públicos de ensino"; "matrícula compulsória em cursos regulares de estabelecimentos públicos e particulares de pessoas portadoras de deficiência capazes de se integrarem no sistema regular de ensino"; entre outros. Na área da saúde, fica estabelecida a necessidade de: "criar uma rede de serviços especializados em reabilitação e habilitação; a garantia de acesso das pessoas portadoras de deficiência aos estabelecimentos de saúde públicos e privados, e de seu adequado tratamento neles, sob normas técnicas e padrões de conduta apropriados"; "o desenvolvimento de programas de saúde voltados para as pessoas portadoras de deficiência, com a participação da sociedade e que lhes ensejem a integração social", entre outros (Bieler, et al, 1990, 31-32).

A luta pela "Saúde como Direito à Vida"

Tendo tido oportunidade de participar, na qualidade de servidora pública federal, do II Congresso Interno do Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII), no período de 29 de junho a 3 de julho de 1992, pude conferir de perto a efervescência dos profissionais da saúde na busca de reformulação da assistência psiquiátrica. Esse congresso constituiu um marco na formulação de micro-políticas de saúde implantadas nessa instituição na década de 90. O referido congresso realizou-se por ocasião da gestão do Dr. Carlos Augusto de Araújo Jorge. A seguir, descrevo um trecho do convite para participação neste evento: "A Comissão organizadora responsável pela promoção do II Congresso Interno do CPPII ‘CPPII na luta pela saúde como direito à vida’ convida V. Sra. a participar deste evento. A realização do II Congresso Interno do CPPII, visa garantir através de ampla discussão com o conjunto de seus trabalhadores e a comunidade, a transformação das práticas assistenciais desenvolvidas, possibilitando assim a construção de propostas alternativas que avancem no sentido do Fim do Manicômio, oferecendo condições mais dignas de atenção à população" (texto extraído do Relatório Final do evento). O momento histórico da sociedade brasileira, mormente do setor saúde favorecia a emergência de práticas inovadoras.

No bojo da reforma sanitária, da reforma psiquiátrica e da realização desse congresso interno foi aprovada a proposta de implantação de uma Escola para Crianças e Adolescentes Psicóticos no próprio CPPII. A iniciativa envolveu o CPPII, o Instituto Helena Antipoff e a Secretaria Municipal de Educação, favorecendo a integralidade de ações em saúde e educação. A escola seria destinada a alunos portadores de psicose e autismo dos 03 aos 17 anos incompletos, teria capacidade para atender 50 alunos, com dez turmas de cinco crianças. Ficou estipulado que 80% das vagas seriam para clientes matriculados no ambulatório do CPPII e 20% para o Instituto Helena Antipoff. Haveria duas equipes, uma da área da educação, formada por um corpo de professores, pessoal de apoio e de direção; e outra da área da saúde, constituída por uma equipe multiprofissional.

A seguir relaciono os objetivos pretendidos pela nova escola:

(a) com a clientela - oferecer um conteúdo educacional mínimo; socializar e preparar para situações reais da vida; promover integração na rede regular de ensino, num prazo mais curto possível; atender às especificidades clínicas da clientela, através de equipe multiprofissional; adaptar um curriculum próprio; desinstitucionalizar, evitando o modelo da doença;

(b) com a família - favorecer a compreensão dos mecanismos que influenciam no desenvolvimento da doença; conscientizar à família acerca de sua importância como um agente terapêutico e integrador (dados obtidos do Projeto Original, a "tese" defendida no II Congresso Interno do CPPII).

Desde então, foi implantada a Escola Municipal Dr. Ulysses Pernanbucano no CPPII. Uma instituição, dentro de um hospital psiquiátrico, nasceu homenageando um dos consagrados psiquiatras da história brasileira que tanto beneficiou a área infantil. "Em 1918, Ulysses Pernambucano defende no Recife a tese ‘Classificação das crianças anormais - A parada do desenvolvimento intelectual e suas formas: a instabilidade e a astenia mental", defendendo a necessidade do atendimento médico-pedagógico (Gil, 1994). Sua escola criará raízes e será, posteriormente, um dos pilares da Psiquiatria brasileira"(Assumpção Jr., 1995, 32). Essa nova escola reacendeu a o debate sobre a necessidade de tratar a deficiência como questão do campo da educação também, resgatando um elo que ficou perdido no tempo: a antiga Escola Basílio de Magalhães.

A essa altura, não posso ir adiante sem fazer um importante resgate histórico desta outra escola que já existiu nesse espaço hospitalar, cuja memória é transmitida por Ruth Loureiro Parames, professora de música e musicoterapeuta. Tendo sido criada com a orientação e a colaboração de Helena Antipoff, que formou e encaminhou professores, a escola foi inicialmente implantada dentro da UHNPI/ Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Posteriormente, ganhou um espaço próprio, tendo sido transferida para o Pavilhão Ana Nery, onde recebeu o nome de "Escola Basílio de Magalhães", tendo sido solenemente inaugurada pela então primeira dama Sara Kubitschek, esposa do presidente Juscelino Kubitschek. A escola especial se destinava a portadores de deficiência múltipla que eram acompanhados em regime de internação, na unidade infantil, época em que predominava o modelo hospitalocêntrico. Posteriormente, a escola passou a acompanhar crianças de vários diagnósticos, em regime ambulatorial. Na ocasião se pensava que era importante o deslocamento das crianças internas para um espaço independente, inclusive pela oportunidade de convivência com as outras, assistidas no ambulatório. As crianças tinham uniforme, paletó de tecido de lã e guardachuvas para dias frios e chuvosos, faziam passeios e recebiam gostosos lanches, relembra Ruth. A escola foi "desmontada" no período da ditadura pós-64, tendo sido reduzida a um setor de "praxiterapia", até desaparecer no tempo.

Quinze anos depois, na década de 80, inicia-se, no CPPII, uma reforma do modelo assistencial hospitalocêntrico, na gestão dos diretores Dr. Juarez Montenegro Cavalcante e do Dr. Manuel Faustino. Esse processo teve seu período de crise e descontinuidade, tendo sido retomado nos anos 90, através dos congressos internos e de uma dinâmica de democratização da gestão. Um dos ícones desse movimento nos anos 90 foi o projeto do Centro Comunitário, idealizado e implantado pelo Dr. Anníbal Coellho de Amorim na gestão do Dr. João Paulo Bastos Hildebrandt, a partir de parcerias entre organizações não-governamentais, governos municipais e a sociedade civil organizada, oferecendo atividades recreativas, esportivas, culturais e de lazer. O Centro Comunitário passou a atuar na lógica da desconstrução manicomial, da participação comunitária e do controle social, procurando transformar o imaginário social da doença mental. Hoje, após uma década de existência, esse Centro possui, uma rádio comunitária, a Revolução FM, com 50% da programação feita por clientes e ex-clientes, de alcance em 16 bairros do subúrbio da zona norte do Rio de Janeiro, tendo sido premiada pela UNESCO e pela MARCA (Associação Mundial de Rádios Comunitárias). O CPPII se transformou "numa grande encubadora de projetos", diz o Dr. Anníbal. "Inaugurava-se uma nova era ... dos muros altos e da exclusão social caminhamos a passos largos para desconstruir a idéia da instituição como ‘casa dos horrores’, ‘onde se entra e não se sai’ (...) Do atendimento exclusivo à doença mental chegamos à promoção da saúde mental, oferecendo opções não necessariamente medicalizadas para atender às demandas da saúde da comunidade (interna e externa)" (Amorim, 2000, 291; Amorim, 1997).

Este contexto de transformação asilar e reconstrução de parceria entre a Saúde e a Educação, situa-se na efervescência da Reforma Psiquiátrica. No final dos anos 70, há a retomada dos movimentos populares e da redemocratização; o debate sobre a loucura sai dos muros do asilo, vai para as universidades e passa a ser de domínio público em meio a denuncias da imprensa que noticiava o problema da violência institucional e da segregação. Com os Tabalhadores em Saúde Mental engrossando as instituições no início dos anos 80, a Reforma Psiquiátrica vai sendo construída por quem atuava e enfrentava as contradições do modelo asilar. Com a gigantesca campanha das Diretas Já, a promulgação da Nova Constituição e a eleição direta para presidente da república, os anos 80 trazem a retomada definitiva do processo democrático. O Movimento da Reforma Psiquiátrica buscou ampliar as discussões técnicas para uma perspectiva política e social e, a exemplo do Movimento Sanitário, procurou produzir mudanças no sistema de saúde. Em 1987 surgiu, num Congresso em Bauru, o Movimento da Luta Antimanicomial que intensificou as discussões e procurou produzir transformações mais radicais. Nos anos 90 houve a consolidação do processo democrático e a demonstração da capacidade de superação da sociedade brasileira. Nesse período, consolidou-se a organização e implantação do Sistema Único de Saúde, importante bandeira de luta do Movimento Sanitário, com a criação de mecanismos de participação popular e controle social, através dos Conselhos de Saúde, numa tentativa de democratizar Estado e Sociedade ( Yasui, 1998).

A escolha de uma família da classe popular

O CPPII, inicialmente instituição federal do Ministério da Saúde, situado no Rio de Janeiro, foi municipalizado a partir do ano 2000 na gestão do Dr. Edmar de Sousa Oliveira, ganhando um novo e emblemático nome: "Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, em homenagem à ilustre psiquiatra, fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente e formadora de gerações de profissionais, tornando-se um ícone da psiquiatria de vanguarda. Uma mulher à frente do seu tempo, soube selar um encontro definitivo entre arte e loucura, e esculpir uma estética da dor e da vida a partir do sofrimento psíquico. "Quando Nise da Silveira publicou ‘Imagens do Inconsciente’, a psiquiatria tradicional foi abalada sem piedade. Foi um marco. Um livro extraordinário, de uma singularidade tal, que causou espanto e admiração. Fruto de anos e anos de intensa pesquisa, escrito em prosa exemplar, as ‘Imagens’ perturbaram pela rara e estranha beleza. Era uma denúncia total, sem meias palavras (...) O asilo era posto em xeque" (Lucchesi, 1995, 11).

Há cinco anos, fui procurar Dr. Márcia Adriene, médica que trabalhou na equipe de implantação da Escola Municipal Dr. Ulysses Pernambucano. Descobri que a equipe da saúde ganhara um espaço próprio, próximo à escola, denominado PAICAP, Programa de Atendimento Interdisciplinar à Criança Autista e Psicótica. Naquela ocasião, o PAICAP atuava favorecendo elos de ligação e comunicação com essas crianças através de várias oficinas: ‘Música’, ‘Corpo em Movimento’, ‘Artes’, ‘Letras, Números, Formas e Cores’. A assistência especializada a autistas e psicóticos, que integra saúde e educação foi uma iniciativa pioneira na rede pública do Rio de Janeiro (Cavalcante, 1996).

Naquele tempo eu desenvolvia uma pesquisa para o curso de mestrado, e embora fosse funcionária do CPPII e atuasse como Diretora do Centro de Estudos (CETAPE), eu não tinha nenhuma inserção direta no PAICAP e desconhecia sua clientela. Solicitei autorização a Dra. Márcia Adriene para apresentar a pesquisa e entrevistar algumas mães que viessem a se interessar. A investigação visava a conhecer a experiência de famílias com crianças "anormais" e representou a primeira etapa do trabalho que se desdobrou até esta análise que ora apresento. Na ocasião, sete mães foram entrevistadas, conforme foi detalhado em Cavalcante (1996). Entre elas uma me chamou a atenção de um modo especial. Sua fala era rápida, cheia figuras de linguagem e riqueza de detalhes. Ao invés de um enfoque interiorizado, ela parecia se descrever através da sociedade. A história era densa, continha uma dificuldade vultuosa. Só consegui lhe formular perguntas em "conta gotas". Cinco anos depois, quando retorno para entrevistar as mesmas mães, numa segunda fase da pesquisa, descubro que seu filho havia tido um progresso espantoso, para a surpresa da equipe de saúde e de educação. Eu estava à procura de uma família da classe popular que pudesse ter construído uma "história bem sucedida". Conversei com a Dra. Márcia Adriene sobre o critério de inclusão e ela considerou que esta parecia se enquadrar naquilo que eu buscava.

Após a conversa, a médica me pediu que aguardasse um pouco para contatar essa mãe. Há poucos dias antes ela chegara aflita ao programa e parecia estar vivendo algum tipo de crise. Aguardei até que Dra. Márcia me liberasse para realizar esse primeiro contato e poder averiguar a pertinência de inclusão de tal família, caso houvesse interesse de sua parte em partiicipar da pesquisa. Finalmente tive oportunidade de conversar separadamente com Míriam e Eliseu. Comentei sobre os desdobramentos do primeiro estudo, expliquei sobre a nova etapa da pesquisa e apresentei o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Curiosamente nesse primeiro contato, Miriam já deu sugestões para a divulgação do meu estudo, dizendo que eu deveria fazer muitos cartazes, espalhar pelos ônibus, postos de saúde, escolas e no metrô. Comentou sobre o comercial de TV com o Antônio Fagundes que falava sobre o autismo e lhe chamou muita atenção. Eu lhe disse que também andava entrevistando as mães da AMA, responsáveis pela elaboração desse comercial, conforme está detalhado no próximo capítulo.

Míriam compreendeu os riscos do estudo e ilustrou o seu entendimento com uma estória: "Uma moça costumava ver, todos os dias, através de sua janela, a vizinha do lado lavando roupa. Ela observava e comentava com o marido que a vizinha não sabia lavar roupa direito. O mesmo comentário se repetia dia após dia, e a vizinha sempre dizia: ‘um dia irei lhe ensinar como se lava uma roupa’. O marido só escutava. Um belo dia, a moça acordou, olhou pela janela e disse: ‘nossa, como as roupas da vizinha estão claras hoje!’. O marido respondeu: ‘é que eu acordei cedo e limpei os vidros’". Este exemplo, conclui Miriam, mostra que tudo depende do ponto de vista. Eliseu, por outro lado, valorizou o cuidado que eu pretendia ter ao descrever o estudo numa linguagem mais simples e comentou: "este estudo ajudará a devolver a ‘alma’ às histórias, garantindo uma mensagem viva".

Além da evidente sensibilidade de ambos, as razões para a escolha desta família são:

(1) existência de uma criança com psicose infantil beneficiária de um serviço público, que integralizou ações de saúde e educação com resultados satisfatórios para o seu desenvolvimento; (2) um caso de criança deficiente a quem foi propiciada inclusão escolar e social ; (3) uma família da classe popular que mobilizou toda a sua força e o seu afeto para ajudar o filho especial. Devo destacar aqui também que recorro ao uso de pseudônomos para proteção da imagem familiar, conforme acordado proviamente no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Recorte de estudo: a pluralidade considerada como unidade

Schramm (1998) enfatiza em suas aulas, tanto quanto em seus escritos que "é o ponto de vista que cria o objeto". Considerando a epistemologia genética de Piaget quando afirma que "conhecer é um fazer, uma forma adaptativa, não um espelhar algo ‘lá fora’ independente de um sujeito concreto", Schramm sinaliza que o ato de conhecer é um processo de construção da realidade. Portanto, no intuito de reconstruir a complexidade do objeto e ‘devolver a alma às histórias’ é necessário olhá-lo sobre vários ângulos num recorte diacrônico, para alcançar o passado que nos atravessa a todos, e atingir também um recorte sincrônico, que pode ser entendido como nossa história recente, aquilo que nos remete, até certo ponto, ao nosso presente.

Num recorte diacrônico irei focalizar: (1) a biografia da família; (2) a genealogia do casal; (3) a história de tratamento do Davi, filho único do casal; (4) a história de inserção de Davi, na Escola Especial Ulisses Pernambucano e sua subseqüente inserção na rede regular de ensino; (5) a história de apoio religioso no Grupo Espírita André Luiz, suporte social de grande importância para Davi e sua mãe. Num recorte sincrônico verei: (6) O momento atual da família, de Davi, incluindo algo de seu contexto, como uma visita ao Grupo Espírita e ao seu atual colégio; (7) a história da investigação e a interação entre a pesquisadora e os diferentes atores.

Tomando como base o preceito kantiano, extraído da Crítica da Razão Pura, de que "a tolalidade não é outra coisa senão a pluralidade considerada como unidade" (Japiassu & Marconde, 1990, 236), deter-me-ei em descrever cada uma das partes que irá compor a pluralidade final deste capítulo: (1) o núcleo familiar com sua história e seu atravessamento transgeracional; (2) o casal com sua representação da vida familiar e do filho especial; (3) a mãe travando na busca hercúlea de ajuda para o filho; (4) o menino especial, no processo de desenvolvimento em interação com os cuidados de instituições públicas; (5) a médica psiquiatra que narra a história do tratamento; (6) as professoras e a trajetória de inserção escolar; (7) o grupo de evangelização e seu apoio; (8) a pesquisadora em interação com o universo da pesquisa.

Nessa segunda etapa da pesquisa, retorno ao Instituto Municipal Nise da Silveira não mais como funcionária, apenas como pesquisadora. Mesmo assim, minha primeira identidade profissional marcou o modo como fui chamada por Miriam, Eliseu e Davi : "Dra. Fátima".

3.3 Um olhar retrospectivo sobre o normal e o patológico

A retomada de uma vida normal: "deixa eu ser social"

Antes de me levar à sua casa, Míriam me previne que mora num lugar barulhento. Na vizinhança existem usuários de drogas e pessoas consideradas perigosas. Ela passa, cumprimenta e segue adiante. Nos finais de semana os trailers ficam lotados, vendendo aperitivos e bebidas. No dia-a-dia, costumam bater muito em sua porta. Isso se explica porque seu apartamento é o primeiro do térreo e volta e meia ela é solicitada para abrir a porta do prédio. O casal mora num conjunto habitacional. Eliseu esclarece que esse agrupamento de edifícios foi construído pela COHAB (Cooperativa Habitacional), há mais de trinta anos, quando a política habitacional decidiu pela transferência de moradores de vários morros situados em áreas nobres da cidade do Rio de Janeiro para o subúrbio da zona norte e da zona oeste, liberando espaço para importantes construções arquitetônicas destinadas as classes média e alta na zona sul da cidade. Eliseu ainda se lembra do período em que veio com sua família morar no novo prédio, há pouco mais de trinta anos atrás. Deixara para traz uma casa de estuque, com acabamento em barro e apenas dois cômodos, sala, cozinha e um quartinho, para ocupar um apartamento com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, fato considerado por ele e por toda a família como um progresso importante, na ocasião. Atualmente, esse conjunto habitacional é visto como um lugar violento: "Muita gente já morreu aqui dentro. Já chegou a existir uma boca de fumo, mas um policial conseguiu acabar com ela e com a prática de extermínio. De uns oito anos para cá, a violência amenizou bastante. Quando ele era criança não tinha liberdade para brincar como hoje seu filho Davi já tem".

Sem muita cerimônia, Miriam me levou a conhecer o seu apartamento. É pequeno: sala, quarto, cozinha e banheiro. Tudo estava muito bem arrumado. A cozinha, embora pequena, é bem equipada. Ao final está o fogão, depois a geladeira, o freezer, um pequeno armário de parede, uma mesa onde se guardam utensílios de uso cotidiano. Ela me explicou que compra as carnes, corta e vai retirando conforme o consumo diário. Miriam tem um raciocínio prático que utiliza muito bem para facilitar sua rotina. Na sala há um sofá-cama, com uma televisão em frente, uma mesa redonda ao lado, e uma pequena poltrona. As paredes exibem fotos do Davi, diferente pôster mostrando as feições de um menino muito bonito, desde pequeno até hoje. Miriam diz que seu filho é vaidoso, mas, por enquanto, ainda não quer saber de namorar.

Davi estava com dez anos, quando esse estudo teve início. Fez questão de me mostrar seu quarto, sua cama, sua TV acoplada ao videogame. A mãe refere que essa cama foi uma conquista importante. Ela comprou um colchão anatômico de ótima qualidade, para oferecer conforto ao filho. Davi procurava saber junto aos pais se a prestação seria paga corretamente, se ele não corria o risco de perder o colchão. O pai havia ficado desempregado, num passado recente e família viveu momentos difíceis, o que talvez explica a apreensão de menino. Em seu quarto ainda há outro sofá-cama. Assim o casal, quando necessário, tinha a opção de dormir no quarto com o filho, ou na sala, mantendo alguma privacidade. Curiosamente, o único quarto da casa ficou reservado para o filho, que ocupa lugar de destaque na família. Nesse dia, Davi ligou a TV e, como era época de eleições, aproveitou para formular algumas opiniões: "Se pudesse eu votaria em mim mesmo para prefeito e meus pais seriam os vereadores". Nessa brincadeira, acabou ratificando minha primeira impressão de que ele ocupa um lugar central e superior a todos os demais interesses da família.

Com a melhora real do filho, Miriam estava retomando sua vida profissional. Tem trabalhado como vendedora de móveis e chegou a participar de várias feiras referentes ao assunto, organizadas na cidade do Rio de Janeiro. Ela também estava voltando a cursar o 2o grau. Essa sua nova inserção produz algumas modificações na rotina familiar. Como Eliseu só trabalha após o almoço, ele passou a cuidar do filho todas as manhãs e a levá-lo para o colégio. Em seguida, a madrinha o apanha e o deixa na casa da avó paterna até Miriam chegar, realizando-se assim uma rotina "normal" de muitas famílias. No entanto, para chegar a esse dia-a-dia aparentemente comum, Miriam, Eliseu e Davi passaram pelas mais variadas intempéries e tiveram que apelar para inúmeras instâncias sociais em busca de ajuda, como narro neste estudo. Por dez anos seguidos Miriam teve que levar Davi a muitos lugares, em função de seu tratamento, mas agora considera que chegou a sua vez de investir em si.

Fui convidada para assistir a aula de natação do menino num centro de recreação popular. Fomos no meu carro e Davi me perguntou se a trava eletrônica do mesmo explodia como um trovão. Através de gestos e tremores com o corpo, ele representou o efeito de um trovão. Enquanto isso, eu me interrogava se Davi não teria tido a experiência de "explodir como um trovão", pensamento que hoje aparece como uma fagulha, uma lembrança remota, preso e contido dentro de um simples enunciado. Miriam descreve algumas manias que seu filho apresentou: "ele só queria pegar o mesmo ônibus; queria ir sempre pelo mesmo caminho, andar pela mesma rua. Num dia, travou as pernas de um modo que não houve jeito de andar. Isso o protegeu de assistir a um assassinato que aconteceu momentos depois". Diz que hoje o seu filho gosta de tirar fotos, mas aos 6 anos não aceitava nem de pousar para fotografias e nem de se olhar no espelho. Hoje chega a ser inconveniente, ao querer participar de todas as fotos, e quando a mãe reclama, diz: "Deixa eu ser social".

Vestido de sunga e sem o roupão, Davi faz umas poses engraçadas enquanto eu o fotografo. Depois o vejo seguindo para a piscina. Lá, aguarda sentado num banco, junto às demais crianças. A aula é feita com crianças "normais" e Davi se porta como uma delas, muito bem ambientado. Três fileiras são formadas. Uma a uma, meninos e meninas mergulham na piscina e vêm nadando, cada qual com sua prancha. É preciso ter o cuidado para manter um certo alinhamento entre todos. O professor de natação conduz o trabalho num tom sério e severo. Davi e outras crianças "levaram umas broncas". Ele passou a ficar mais concentrado e evitou esbarrar novamente em alguém. Ao fim, Miriam o aguarda com o seu roupão. Era hora de voltar para casa, almoçar e se preparar para o colégio. Nessa ocasião, estava cursando a terceira série primária em escola regular.

Retorno à casa de Davi e conheço os seus brinquedos. Ele possui uma coleção variada de bonecos, super heróis, alguns sofisticados que se transformam em pessoas ou em animais, a depender do conjunto de apetrechos adicionados: são os "Djmons". Davi transforma seu boneco em homem ou animal, com bastante destreza. O manejo do brinquedo é difícil, eu mesma não seria capaz de fazê-lo com facilidade. Ele se orgulha desse controle recém adquirido e me mostra sua destreza manual como se estivesse pensando: "olha o que sei fazer". Num dos bonecos algo emperra e ele insiste como quem não quer se dar por vencido. Seu pai interveio: "Não é uma questão de força Davi. Pense e veja o que você precisa fazer". O menino parou e fez outros tipos de tentativas. O pai lhe deu tempo suficiente para tentar por si, mas quando notou que ele não conseguia, ofereceu ajudar. Mas também não conseguiu. A tarefa era mesmo difícil.

Miriam conta sobre um passeio que fez com seu filho ao zoológico. Davi gostava de conversar com os macacos e os imitava tão bem que parecida se comunicar com eles. Eu me pergunto se o nosso "menino selvagem" que virou cidadão, ainda traz dentro de si um pouco desse lado "animal", antes aprisionado numa "selva de pedra", como dizia sua mãe. Em visita ao Museu Nacional, ele ficou impressionado com o efeito de doenças que deformam o rosto das pessoas. Já havia experimentado o sabor de uma "deformação social" e conseguira, a muito custo, reconstruir sua nova face social, da qual hoje se orgulha.

Miriam está às voltas com o efeito pós-tempestade da doença do filho. Percebe-se ressentida com o marido pelas vezes que ele saia e chegava tarde, mantendo uma vida social, enquanto ela "só servia" para cuidar do filho, nas fases mais difíceis. Sua oportunidade de emprego e de estudo é uma forma dela "resgatar o respeito consigo mesma". De certo modo, parece que chegou a sua vez de "ir à forra". Na noite passada, foi ela quem saiu para se divertir, deixando o filho com o pai. Acerca do casamento, comenta: "Agora ou vai ou racha".

O erro deles é ter a cara "normal" e a "cabeça perturbada".

Em casa enquanto cozinhava, Míriam fazia uma retrospectiva de como se sentia diante da doença do filho: "O erro deles é ter a cara ‘normal’ e a cabeça perturbada". Míriam compara isso com a maçã, bonita por fora, mas podre por dentro. Ela se queixa e se recente da cobrança social que enfrentava quando seu filho estava doente. Como ele tinha as feições perfeitas, ela é quem acabava sendo duramente discriminada. "O preconceito impede que as pessoas vejam o outro como ele realmente é", acrescenta. Ela acredita que se seu filho tivesse uma cara "ruizinha", uma dificuldade para falar, talvez as pessoas fossem mais indulgentes. "Maluco tinha que ser proibido de entrar no ônibus", frase que Míriam escutou de uma senhora de mais de cinqüenta anos, ao que respondeu: "Talvez a senhora preferisse um grupo de fanqueiro ou de prostitutas para lhe roubar ou passar uma navalhada". Míriam diz que se ‘jogavam pesado’, ela igualmente dava o troco. Depois suspeitou que estava sendo percebida como "maluca" também, pois a pessoa ficou com medo dela. No entanto, comenta que até hoje ainda não conheceu uma pessoa normal. O que é ser normal?, interroga. Considera que seu problema é falar o que pensa, por isso a chamam de perturbada. "Talvez se eu dissimulasse, vivesse mais de fachada, fosse mais fácil".

Nas festas em família, quando seu filho fazia algo inusitado, todos iam em cima dele. Hoje, ela diz que ‘não atura mais’, pois sabem que se "chatearem, solta os bichos". Ela conclui: "ninguém me poupa, porque vou poupar as pessoas?". Comenta que aquele jogo social de ficar disfarçando é muito pior, machuca muito mais, pois, apesar da anormalidade, ela sempre teve consciência de que seu filho tem direitos como qualquer pessoa. Mas diz que esse embate social a cansou muito. Houve época em que ela tolerou muita coisa. "Quando a pessoa está lá embaixo, gostam de te pisar ainda mais, como se faz com a barata, quando se pisa e esmaga a cabeça". Na verdade há sim, uma vivência de esmagamento e de despedaçamento experimentada nas relações sociais, o que evidencia um profundo sofrimento, muita raiva e muita revolta. Míriam parece usar as armas de que dispõe como defesa, é ofensiva com as palavras, direta, sem rodeios e com isso desconcerta o jogo social, com seus disfarces e seu padrão de etiquetas. Por um lado, enfrenta a vergonha de saber que "seus defeitos" não estão escondidos, como assinala Goffman (1980). Por outro, há uma idéia de "estigma" implícita nas expressões "cabeça perturbada" ou "maçã podre".

Segundo Goffamn (1980), o termo estigma foi criado pelos gregos e era atribuído a sinais corporais, feitos no corpo com cortes ou fogo, como meio de marcar uma pessoa em que se evidenciava algo de mau ou de extraordinário em seu status moral. Atualmente, o termo ainda é utilizado, porém, é aplicado mais propriamente à desgraça do que ao sinal físico aparente. Para o autor tanto uma diferença importante, quanto uma diferença insignificante, pode fazer que uma pessoa seja estigmatizada na sociedade. Algo identificado como estranho afeta o status social e o indivíduo será percebido de forma depreciada, como no caso de uma deformidade física, de alteração de caráter, de distúrbio de comportamento, de doença mental, de desvio sexual, de radicalismo político, de diferenças de raça, de nação e de religião. A idéia de estigma, portanto, pode ser aplicada a uma infinidade de situações onde se observa algum tipo de desvio. A pessoa estigmatizada sofre intensa discriminação e passa a ingressar numa nova carreira moral.

É importante esclarecer que o termo "anormal" já foi utilizado como um conceito que abarcava um amplo conjunto de alterações da infância, pela Psiquiatria do começo do século XX. Assumpção Jr., citando o estudo de Cirino (1992), descreve os termos do decreto governamental 7680, aprovado em Minas Gerais, no ano de 1927: "O regulamento de Assistência e proteção a menores abandonados e delinqüentes" através do qual "consideram-se anormais todas as crianças que, por qualquer razão, se acham em condições de inferioridade e não podem adaptar-se ao meio social em que se destinam a viver. Serão assistidos e sujeitos a tratamento especial; os anormais por déficit físico, os anormais por déficit sensorial; os anormais por déficit intelectual; e os anormais por déficit nas faculdades afetivas". (Assumpção Jr, 1995, 41-43). Portanto, o termo "anormal" esteve diretamente associado a classificações nosológicas, tendo entrado em desuso, tal qual fora aplicado no começo do século. Perdeu sua associação direta à classificação diagnóstica, e passou a ser incorporado pelo senso comum a partir de uma associação implícita à idéia de "déficit", "inferioridade" e "inadaptabilidade". Assim, enquanto o anormal lida com o desconforto de ter os defeitos a olhos vistos; o normal mantém os defeitos escondidos, mas pode a qualquer momento, se ver exposto a uma brecha vergonhosa, caso alguma falha fique evidenciada, no entendimento de Goffman (1980). É este ponto exatamente que a série " Os Normais" da Rede Globo de televisão encenada pelos atores Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães tenta evidenciar, mostrando "os defeitos nossos de cada dia", desmascarando, o mito social da normalidade e explicitando a idéia de que "somos todos anormais" de alguma forma e em algum momento. Este estudo desmistifica o imaginário discriminador, mostrando que ter uma anormalidade explícita não significa ser inferior e nem inadaptável e que ninguém (a não ser em casos limites) está irremediavelmente aprisionado pelo déficit.

A patologia na visão de Canguilhem (1990) impõe dificuldades ao princípio normativo da vida, de instituir novas normas em prol de uma maior adaptação e, por isso, é tão necessário o trabalho de compensar o déficit, minimizá-lo e potencializar áreas de competência, para favorecer novas adaptações. O autor propõe que existe uma margem de possibilidades no organismo que o leva a produzir condições de enfrentamento da doença, fato que tem sido demonstrado neste estudo. Como pude ilustrar anteriormente, a doença toma o organismo como uma totalidade viva e assim constitui uma nova forma de vida. Isso ficou muito claro, por exemplo, no caso do Dionísio quando ele inicialmente se "adapta" a uma forma autista de viver, uma defesa construída numa direção patológica, pela agressividade de suas crises convulsivas a seu organismo tão frágil. No entanto, com o apoio especializado, que atendeu às suas necessidades, foi possível minimizar o múltiplo déficit e fazê-lo interagir com o mundo e com a vida, ajudando-o a reconstruí-las no sentido de uma normalização.

Birman (1991) assinala que Foucault, ao contrário de Canguilhem, não focaliza o indivíduo, mas o organismo em suas múltiplas relações no espaço social, destacando a imposição de normas feitas pela medicina, processo a que chamou de "normalização". Como o caso do Dionísio ilustrou tão bem, a normalização médica pode assumir uma feição "franquistaniana" quando feita de forma desarticulada e quando o sujeito é picotado em sintomas e sinais. Mas pode também construir uma resposta "reparadora" quando focaliza, como diz Rotelli, a "existência-sofrimento", e desloca o foco na "doença" para mirar a "pessoa" que sofre.

Pelbart (1989) assinala que a medicina do século XVIII referia-se mais à noção de "saúde" do que a de "normalidade". Não havia a noção de "normal", como sinônimo de funcionamento orgânico regular. A medicina ontológica desenvolveu a noção de doença como uma entidade que ocupava o corpo e precisava ser expulsa para que a pessoa recobrasse a saúde. Foucault fez duas rupturas epistemológicas neste olhar: (1) ao introduzir o olhar clínico e fazer emergir a medicina dos sintomas; (2) ao tomar a anatomia patológica como ponto de partida para as suas indagações. No primeiro aspecto, o olhar clínico funde num só registro sintoma e significado da doença. Aqui não há mais sentido de essência, a doença se esgota em seus sintomas, e o tempo, por sua vez, será necessário para sua classificação e configuração diacrônica. No segundo, a autópsia passa a ser aquilo que revela a verdade da doença. A morte revela o processo vital.

Míriam utiliza a categoria "perturbação" lado a lado com a categoria "doença". Duarte (1998) propõe o cotejamento de ambas em estudos de construção social da pessoa. Ambos assinalam, ela do ponto de vista da experiência e do mundo da vida, ele, enquanto antropólogo, que a idéia de sofrimento é mais ampla do que a de doença, porque enquanto a última fica restrita aos sintomas e sinais, a primeira se refere aos seus efeitos, podendo significar uma dor física ou uma dor moral. O termo perturbação permite relativizar, na visão de Duarte, tanto a idéia de doença, quanto a de sofrimento, na medida em que pode ou não incluir as anteriores, ao mesmo tempo admitindo situações muito mais amplas, que acabam sendo reconhecidas como "patológicas" em nossa cultura. Neste caso específico, Míriam utiliza o termo perturbação de um modo polissêmico, ora como o efeito de uma doença na mente de uma criança, que é "invisível" em certa medida, pois não está estampada no rosto, e é "visível" em outra, porque se manifesta na devassidão de um comportamento "anti-social"; ora como o efeito de um estigma, de uma marca que a mãe carrega consigo um filho marcado por uma anormalidade mental e todos os transtornos sociais que isso produz; ou ainda, como o efeito de alguém que diz o que pensa e contraria as etiquetas sociais e o jogo de aparências.

"Tudo na vida é uma mistura de dor e amor", diz Miriam. "Tudo na vida tem dois lados e ninguém é inocente", conclui a nossa filósofa do cotidiano. Ela considera que só se julga o outro pelo que se está vendo. "Não é assim", afirma taxativamente, e do mesmo modo que Wittgenstein havia dito, ela também afirma: "As vezes o melhor é calar, ficar na sua". Mas esse calar não pode assumir o sentido de uma intimidação. No caso do filósofo austríaco, calar diante do que não se sabe é sinal de sabedoria. Para Miriam, calar pode ser uma estratégia para pensar, medir e decidir o que fazer. "Às vezes é preciso ter coragem de meter o pé na porta e entrar. Depois a gente vê o que acontece". Isso é seu modo de dizer que aprendeu a não ter medo. Como está viva, precisou criar estratégias de proteger seu filho, cuja saúde atual agradece. Diz que sempre pensou que ele tivesse problemas, mas que não era burro. No entanto, ele dependia de uma oportunidade e ela a buscava sem descanso. Se ninguém desse a ele uma oportunidade para descobrir o que podia fazer, para desvendar os seus limites e a sua capacidade de vencer barreiras, como haveria de demonstrá-lo? Muitos "nãos" vieram como resposta, mas conta uma das chaves de seu sucesso: "Não posso aceitar o primeiro não como resposta. Se me dão um ‘não’, terão que me explicar o porquê. A todo momento eu tenho que dar explicação, por que eu não posso exigir explicação? Pago imposto, sou patriota. Ele tem os direitos dele como qualquer criança". Aqui, Miriam mostra a clareza e a consciência de sua própria cidadania e da cidadania de seu filho, o direito de ter uma vida civilizada, de ter acesso a todo o tipo de ajuda social de que a sociedade dispõe.

"No sertão, está se criando um novo tipo de população, os ‘gabirus’, com no máximo 1 metro e 30 centímetros de altura, pernas atrofiadas, fruto de uma desnutrição em massa e da miséria social. Se cada pesquisador resolvesse fornecer o alimento diário para duas crianças, dando água potável, ao invés de barrenta, oferecendo banho e higiene certa, o alimento na hora certa, os compostos vitamínicos, os levasse para a escola para desenvolver a mente, tirasse as crianças do trabalho forçado, esse quadro poderia ser alterado", acrescenta a nossa "sanitarista" formada na escola da vida, com vívida consciência da carência da população. Mas tudo isso Miriam comentava, enquanto cuidava da cozinha e da casa.

Psiquiatria e Psicose Infantil

Miriam foi buscar ajuda no CPPII, pela primeira vez, em agosto de 1992. Ela veio encaminhada pela Pestalozzi para a unidade infantil, a UHVR/ Unidade Hospitalar Vicente Resende. Davi tinha 2 anos e 8 meses. Foi feita uma avaliação multiprofissional pela equipe de triagem: pela fonoaudiologia, psicologia, neurologia e psiquiatria infantil. Em leitura do prontuário, feita com a ajuda da psiquiatra de Davi, a Dra. Márcia Adriene, extraio algumas descrições: "Paciente inquieto, não para sentado, não atende solicitação, exibe uma linguagem não inteligível. Não há relato de perda de consciência, embora o EEG apresente uma disritmia. O sono é agitado (...) A responsável afirma que Davi é agitado desde os 5 meses, batia-se para ir ao chão. Quando fica nervoso, as veias do pescoço se dilatam. Torna-se agressivo quando contrariado.(...) A gravidez não foi planejada, mas foi bem aceita. A mãe ficou muito nervosa durante a gravidez por problemas familiares, e, por isso, sentia muitas dores e sentia a criança se mexer muito dentro da barriga. O bebê estava com o cordão umbilical enrolado no pescoço e passou um pouco da hora de nascer".

O nascimento de todo o bebê é vivido como uma prova pela família. Em condições normais, ele possui equipamento neurobiológico para metabolizar essa prova. No entanto, por causa dos riscos ambientais e em face da vulnerabilidade somato-psíquica, pode ocorrer uma situação traumática para a mãe e o bebê, durante o nascimento. A criança é um ser novo dotado de semelhanças e diferenças em relação a alguns membros da descendência. Angústias da mãe podem aflorar na relação com o bebê até mesmo durante a gestação. Carel (1998) chamou de "traumatose perinatal", a um estado de desassossego intenso sentido pela mãe durante a gravidez, com a presença de percepções quase alucinatórias de um bebê grandioso, ou em alguns casos, de um ventre vazio. Na aproximação da data do parto, continua o autor, a angústia costuma se ampliar e pode até chegar a um sentimento de morte iminente. Paralelamente, o pai pode apresentar um tipo de regressão ou rivalidade com o futuro filho, a ponto de se desorganizar ou de se excluir, não ocupando mais o papel de terceiro na díade mãe-bebê. "Chamo traumatose a este estado de angústia da catástrofe, da confusão, da desorganização interna, no qual o indivíduo sente sua vida física e psíquica" (Carel, 1998, 102). Esse estado não pode perdurar por muito tempo e uma solução encontrada para isso costuma ser qualificada com uma "solução de geração". No bebê são projetadas angústias de catástrofes geradas na relação com seus pais quando sua mãe também era bebê. "A solução entre geração, então, contém, como a solução delirante, um fragmento de verdade-realidade histórica deformada, relativa à transmissão entre gerações dos estados de desespero" (Carel, 1998, 102). Um crença delirante aparece como tendência a renegar a filiação que se instaura. Ela é passageira e se transforma quando o bebê nasce. Não mais objeto do delírio da mãe, o recém-nascido é melhor situado no âmago de um pesadelo acordado. Carel esclarece que na solução de geração muitas vezes o bebê é tomado como se fosse uma reduplicação de outro ancestral e o trabalho psicanalítico, nesse caso, consiste em mostrar que a criança é um novo ser dotado de semelhanças e diferenças. O que é problemático na história familiar de Míriam, não é tanto a identificação com algum ancestral, mas a identificação com toda a sua ancestralidade. O que ficou intolerável foi a identificação dos "outros em nós", que seu filho passou a representar, como um ascendente de sua linhagem familiar.

Míriam veio pedir ajuda, trazendo consigo um filho de quase três anos. Possivelmente, ela não encontrou, de imediato, o apoio que procurava, em que pesasse a gravidade do caso, pois ela só retornou para um tratamento duradouro quando seu filho já estava com cinco anos, momento em que seu desespero era insustentável. Dra. Márcia suspeita que Míriam tenha recorrido a outros lugares antes de procurá-la pela segunda vez. Àquela altura Davi permanecia sofrendo de sono agitado e seu comportamento estava muito agressivo. Após avaliação psiquiátrica, sua médica concluiu que se tratava de um caso de "psicose infantil" e com o uso da medicação, o sono se normalizou.

O pai participava pouco do tratamento, comenta a Dra. Márcia. Em seguida, lê o relato de um dos seus atendimentos, que apresento sinteticamente: "Davi é enjoado para comer. Toma banho sozinho, se veste, se calça sozinho, é vaidoso. Controlou os esfíncteres com um ano e meio, faz uso do banheiro sozinho. Brincadeiras prediletas: gosta de bonecos, brincadeiras de luta e filmes de guerra. Os brinquedos são guardados na mochila. Às vezes os atira pela janela, arranca suas cabeças e depois fica triste. Procura a companhia de outras crianças, mas é agressivo nas brincadeiras. Os pais lhe batem quando agride outras pessoas. Gosta de imitar a mãe nas tarefas domésticas e quando o pai está em casa, aos domingos, ele não o larga. A mãe diz que, apesar de sua irritabilidade, ele é carinhoso. O pai é brincalhão e carinhoso com o filho. O casal mora com os sogros num dos quartos. O avô por ser doente, é nervoso. A mãe fala de sua impaciência: tem vontade de ir embora, deixar tudo para traz ou até de se matar, e ao filho também. O relacionamento com os sogros não é bom, há um excesso de crítica".

Dra. Márcia diz que ficou muito assustada, ao escutar o enunciado da mãe de que a solução seria a morte. Isso ocorreu num momento em que Míriam não vislumbrava nenhuma possibilidade de ajuda. Abalada, desabafou e chorou muito. Foi um pedido de ajuda extremado, uma forma de dizer que não estava agüentando mais. "Você me ajude porque estou a ponto de me matar", enunciado que aparece no auge do desespero.

A categoria diagnóstica "psicose infantil" foi chamada por Beuler de "esquizofrenia infantil", no começo do século XX. Em 1911, Beuler faz uma revisão de toda a patologia, aceitando a classificação de Kraepelin, mas rejeitando o termo "demência precoce" e o substituindo por "esquizofrenia". Considerou que uma das características básicas desse tipo de quadro psiquiátrico é a fragmentação da personalidade. Portanto, o novo termo era mais adequado, pois, "esquizo" significa divisão, fragmentação e "frenes" espírito, mente. Além disso, como esses casos também apareciam em idades mais avançadas, o termo "precoce" não deveria ser aplicado. Entres os casos estudados por Bleuer, 5% apresentavam o início da esquizofrenia antes dos 10 anos de idade (Grünspun, 2000, 289). É bom esclarecer que a esquizofrenia que acomete adolescentes e adultos, contrariamente ao tipo infantil, é a mais freqüente das psicoses crônicas e aparece numa taxa de morbidade de 0,36 a 0,85% da população (Henri Ey, 1981). Uma outra terminologia sugerida por Soifer (1992, 245) é a "dissociação psicótica da personalidade". Nos casos agudos, diferentemente daqueles que têm uma evolução crônica, a autora também utiliza o termo "situações psicóticas".

Grünspun (2000) divide a psicose infantil em três grupos: (1) autismo infantil precoce, um quadro que aparece antes dos três anos; (2) esquizofrenia infantil, um grupo heterogêneo que inclui causas orgânicas e psicogênicas e aparece entre 3 e 8 anos; (3) esquizofrenia, um tipo de psicose que se assemelha a dos adultos, com mania e depressão, e aparece após os 9 a 10 anos. Embora esta publicação de Grünspun seja bem atual, o autor não faz nenhuma referência aos estudos mais recentes sobre autismo, sobretudo aqueles feitos a partir dos anos 70, quando essa síndrome passa a ser considerada um déficit cognitivo e, portanto, como distúrbio do desenvolvimento, não devendo mais ser incluído no grupo das psicoses. Na nova concepção, o autismo não se apresenta mais como um defeito de organização ou desorganização da personalidade (Assumpção Jr. & Pimentel, 2000; Araujo, 2000), tema que desenvolvo no próximo capítulo.

É interessante poder fazer um contraste entre um caso de psicose infantil com outro de autismo, ilustrar suas diferenças e mostrar as "fraturas" temáticas que persistem quando descrições patológicas clássicas são feitas, sem se levar em contar o recente debate nacional e internacional. A essa lentidão do meio científico em rever seus possíveis "equívocos", associa-se a prática de uma massa de profissionais formados numa tradição de atuação, pautada na nosologia clássica, perpetuando possivelmente um olhar "errôneo", sobre essas várias formas de sofrimento.

Tanto do ponto de vista histórico, quanto em comparação com outros casos patológicos da infância, a esquizofrenia infantil é a mais rara, segundo Grünspun (2000). Possivelmente, as falhas do processo diagnóstico são responsáveis pelo pequeno número de casos encontrados, assinala o autor. Kraepelin dizia que 3,5% de pacientes adultos com esquizofrenia podem ter apresentado sinais clínicos da doença desde a infância, mas os estudos evolutivos, feitos, sobretudo, a partir dos anos 40, ainda não puderam comprovar essa hipótese. A esquizofrenia infantil é mais comum em meninos do que em meninas. Após os 14 anos, as mulheres são igualmente afetadas. Grünspun (2000) cita um estudo de 2227 casos, feito por Rao, que observou maior incidência em primogênitos.

As psicoses infantis se manifestam dentro de uma evolução relativamente normal da criança, interrompida de modo progressivo ou abrupto, pela instalação de graves distúrbios de conduta, havendo uma parada ou um retrocesso do desenvolvimento. A sintomatologia atua, sobretudo, na motricidade, afetividade, linguagem e processos intelectuais. Muitas vezes, há o predomínio de hiperatividade que pode levar a atos agressivos incontrolados. A criança age de forma desorganizada, às vezes,se isola, outras vezes se apresenta de um modo exagerado, com reações de ansiedade ou pânico (Grünspun, 2000). O comportamento da criança psicótica é estranho, ilógico e pode exibir uma intensa destrutividade em relação a objetos e a ela mesma. Ele costuma se coçar até se machucar ou bater com a cabeça contra a parede ou o chão, provocando ferimentos. Em síntese, o quadro de psicose infantil exibe uma desorganização da conduta, em face de falhas graves na organização da personalidade. Por essa razão, a criança psicótica apresenta um "movimento contínuo, acelerado, sem um fim útil, associado a condutas incomuns e à falta de conexão social e de afetividade" (Soifer, 1992, 242).

A psicose infantil que afetou Davi situa-se na categoria das esquizofrenias infantis, perturbando seriamente as funções do seu ego, ou destruindo-as ou ainda impedindo que elas se desenvolvessem. A perda total ou parcial das funções do ego equivale à perda do ego. Sem elas, a criança se sente incapaz de se relacionar com o meio externo e seu mundo interno fica profundamente perturbado. "A perda do ego representa a perda da identidade como ser humano vivo" (Grünspun, 2000, 290). Na brincadeira descrita pela Dra. Márcia, quando Davi arrancava a cabeça dos bonecos, ele representava, simbolicamente, sua perda de identidade. Assim, a dissociação cabeça-corpo, feita no brinquedo, era a meta-mensagem de sua própria cisão egóica. Essa alteração brutal da identidade causa pânico, algo que é ainda mais intenso do que a ansiedade, levando à desagregação da personalidade. A criança vai perdendo o contato com o mundo e vivendo suas fantasias num mundo subjetivo, exteriorizando-se através de símbolos, de um modo bizarro. A primeira função psíquica lesada é a senso-percepção, podendo haver alucinações, o que leva a gestos ou mímicas estranhas, indicando que está vendo algo ou alguém que a assusta; ou delírios, quando acredita naquilo que sua senso-percepção defeituosa mostra, por causa de uma falha na ideação e no juízo crítico. Observa-se grande dificuldade de atenção e concentração. Pode haver uma afetividade embotada ou alterações emocionais: a criança costuma sentir euforia quando maltratada e dor quando acariciada (Grünspun, 2000).

Entre os métodos terapêuticos indicados estão: o uso de medicação, psicoterapia, apoio familiar, estimulação foniátrica, psicopedagogia, esporte, artes, música, entre outros. "A experiência clínica indica que as curas que se conseguem nos casos devidamente tratados são reais e duradouras" (Soifer, 1992, 244). Grünspun descreve que essa clientela pode se beneficiar de: (a) psicoterapia individual - processos terapêuticos voltados para aspectos lúdicos, situacionais, interpretativos, verbais e não-verbais, orientados no sentido do ego; (b) psicoterapia grupal - trabalho que requer um terapeuta e vários co-terapeutas, para atuar na formação de mecanismos construtivos e na inibição da agressividade descontrolada; (c) terapêutica de condicionamento operante - quando teorias da aprendizagem são aplicadas aos distúrbios de comportamento; (d) terapêutica educacional - desenvolvimento de habilidades que favoreçam o crescimento intelectual, associado à imagem corporal ou ao esquema corporal, muitas vezes conduzidos por professores, com supervisão psiquiátrica. A psicoterapia de orientação psicanalítica e de orientação não-diretiva da Escola Rogeriana é uma abordagem que consegue bons resultados (Grünspun, 2000).

 

Maternagem psiquiátrica: é dificil ficar sozinho

Dra. Márcia iniciou um atendimento sistemático e prolongado de Davi quando ele já estava com quase cinco anos e se mostrava muito agressivo. Batia com a cabeça na mesa e em todos os lugares, chutava tudo e todos. Deixava os seus bonecos sem cabeça e, desse modo, acrescenta a médica, mostrava que também havia "perdido a cabeça". Era preciso dar-lhe condições de extravasar toda aquela energia e ajudá-lo a se organizar. Por isso, recomendou-lhe a natação e iniciou seu processo de inserção na Escola Municipal Dr. Ulysses Pernambucano. Dra. Márcia comenta que durante o seu atendimento, Davi jogava os brinquedos pela janela, enquanto ela tinha o cuidado de ir com ele catar um a um, trazendo-os todos de volta. Era preciso fazê-lo retornar com esses objetos de modo que pudesse reintegrar em si, as partes do "eu" jogadas fora.

Davi ingressou na Escola Municipal Dr. Ulysses Pernambucano em 1994, pouco tempo depois do seu início de funcionamento. Apoiá-lo foi um dos grandes desafios que a escola enfrentou nos seus primeiros anos. Ele foi introduzido numa turma de jardim da infância e sua primeira professora, Mariusa, é a atual Diretora da Escola. Por causa da intensa agressividade que exibia, houve época em que foi pouquíssimo tolerado. As professoras tinham dificuldade de ficar com ele, pois batia, chutava e agredia a tudo e a todos. Elas se questionavam se realmente ele deveria ficar naquele jardim de infância, porque de certa forma colocava em risco outras crianças. "Ele agia como se fosse um guerreiro. Ele estava travestido de guerreiro. Ele era o único que estava ali para fazer a justiça dele. Uma vez ele enfiou uma caneta nas costas do professor de educação física como se estivesse dando uma facada", dizia a médica. Esse era o conteúdo de suas fantasias imaginárias, de seu mundo próprio. Mas através de jogos imaginativos, com o passar do tempo, Davi foi sendo ajudado a se estruturar e a se organizar.

Davi passou a ser atendido a cada quinze dias por sua psiquiatra e, semanalmente, fazia psicoterapia individual com uma estagiária de psicologia. Após um ano de apoio, integrando estratégias de saúde e educação, Míriam demonstra satisfação com a grande melhora observada em seu filho. A essa altura, Davi estava com 6 anos. Em seu prontuário, encontro algumas descrições que espelham a nova fase : "Ele está mais organizado com os seus objetos, passou a ter um relacionamento solícito com os adultos que o visitam. Já brinca com as crianças. Gosta de pagode como o pai. Também gosta da música da evangelização, dança e canta no ritmo. Faz natação com crianças normais e sabe nadar usando uma prancha. Gosta de desenhar e fazer colagem na escola. Ele faz desenhos em que inclui a polícia, a grade e representa a escola como uma fortaleza". Dra Márcia conta que uma de suas alucinações recorrentes, na época, era a imagem da escola pegando fogo, o que o deixava muito aflito e o fazia gritar muito: "Fogo, fogo, incêndio. A escola está pegando fogo, a escola está pegando fogo!".

A melhora também foi observada na relação mãe-filho. Míriam passou a assumir uma postura afetiva e educacional diferente com Davi, valorizando e reforçando o seu bom comportamento, aprendendo a exercer uma função organizadora, a definir papéis, a estabelecer trocas e a manejar conflitos. Apesar das melhoras, a mãe sentia ainda que seu filho apresentava dificuldades para lidar com limites. Nessas horas, comenta a psiquiatra, Míriam tendia a ameaçá-lo com idéias que envolviam polícia e o risco de ser preso. Tais conteúdos do discurso materno serão mais bem entendidos, mais a frente, quando a história genealógica da mãe for apresentada.

Dra. Márcia faz questão de descrever uma sessão terapêutica que muito bem representa a nova fase do Davi, ocorrida num espaço do PAICAP, denominado Casa Cor, em 1995: "Davi chegou um pouco agitado na sala de TV. Jogou as almofadas no chão e dizia que estava bagunçando tudo. Ele e eu fomos para a sala, sentamos no chão e começamos a brincar com os bonecos de ficção. Davi pede para procurar os braços de um boneco. Fomos procurar e o encontramos no pátio. Davi vai para o balanço e fala que o pai bebe cachaça e a mãe bebe cerveja. Ele inventa a estória de Joãozinho:‘ um menino que fica com muito medo de ficar sozinho, é muito desorganizado e não gosta de fazer nada certo’. Terminada a sua estória pede para retornar à sala e ali permanece só por alguns instantes. Abre a porta e pede para a sua médica entrar. Depois a leva para o pátio interno, tranca a porta e diz: ‘é ruim ficar sozinho". Que momento bonito, rico e revelador! Nessa etapa, Davi já demonstra consciência de si e nota os efeitos de seu comportamento: se quiser, ele pode ‘bagunçar’ as coisas, ou se preferir, pode reintegrar, devolver os braços ao boneco, devolver as partes de si que vão de encontro ao mundo. Ele também demonstra consciência do clima, da tensão estrutural de sua família, a questão do ‘álcool’, que entra como um perigo, uma ameaça, um risco de desintegração. Descobre o papel da linguagem e amplia sua possibilidade de simbolização. Não se restringe ao espaço de uma sala, mas transita por toda a Casa Cor que se torna continência para a sua comunicação e expressão. Todo esse espaço é "dele". Metaforicamente, todo um espaço interno é dele. Tem a chave que pode trancar a porta para se manter sozinho ou para abrir a possibilidade de troca e contato com o mundo, a partir da realidade. Felizmente, opta por sair de seu universo imaginário, e diz: "é ruim ficar sozinho". Descobre que pode ter o controle do seu próprio mundo. Esse momento tão emblemático pôde ilustrar os efeitos de um ego em processo de reestruturação.

Outro momento que muito sensibilizou a médica ocorreu no período em que Eliseu, pai de Davi, ficou desempregado, passando enorme penúria material. Certa vez, conta ela, Davi veio lhe pedir uns papéis. "Pra que você quer uns papéis?" pergunta. ‘Porque eu vou vender umas coisas minhas e quero por uns papéis na minha janela e anunciar. Eu quero ajudar a minha família que está sem dinheiro", responde, num enunciado que Dra. Márcia comunica em sorriso: "Não era mais o Davi que atirava coisas pela janela". E conclui: "Ele teve uma grande melhora nesse processo todo, conseguiu se organizar, ampliou sua socialização. Passou a procurar e a interagir com as crianças. Algumas ainda o acham esquisito. Hoje, quando há alguma restrição, ele conclui que o problema não é dele. É das outras crianças que vêem nele um comportamento diferente".

Nessa retrospectiva, Dra. Márcia considera que não apenas Davi, mas também sua mãe foi ajudada: "Míriam precisava de um lugar em que ela pudesse se organizar, tanto ela quanto o seu filho. Naquela casa em que moravam isso não estava sendo possível". Comenta que a casa dos sogros, em que Míriam morava, não servia de continência suficiente para que ela pudesse se organizar, como mãe, para cuidar suficientemente bem de seu filho. Míriam teve oportunidade de participar de um grupo de mães, organizado pela médica, e que sofreu várias interrupções por causa de problemas institucionais. Mesmo assim, ela soube tirar proveito dessa atividade. Assumiu a liderança do grupo, uma liderança positiva. Passava a imagem de uma pessoa "meio maluca", brigona, demonstrando muita garra para enfrentar o que viesse pela frente, diz a médica. Ela também fazia brincadeiras: nas horas mais dramáticas do grupo, contava algo engraçado. Ria de seu próprio sofrimento. Em todos os lugares em que ia, ela aproveitava para dar uma lição de moral, pois achava que tinha que brigar com o mundo por causa do filho. "Ela sempre soube advogar em causa própria. Seria uma ótima advogada", comenta a Dra. Márcia . Tinha muita clareza de sua causa: "A minha causa é o Davi", dizia sempre. "Míriam parecia meio louca, mas não era não, era muita lucidez que tinha", acrescenta a médica.

Houve um momento em que Dra. Márcia fez notar a Miriam que ela andava pensando demais no filho e esquecendo-se de si mesma. Começou a sensibilizá-la para que voltasse a estudar e começasse a trabalhar. "Chega do Davi, vamos ver um pouco você! Vai estudar. Vai trabalhar". Desse modo, a médica ia ajudando também a mãe a ser reencaminhada para seus próprios interesses, diferenciando-se ainda mais de seu filho. "Ela é uma pessoa boa. Tudo o que eu apontava como possibilidade, ela ia tentar. Tudo o que eu indicava, ela fazia e dava continuidade. De tudo o que foi oferecido, soube aproveitar. Mesmo com todas as dificuldades institucionais. Ela é uma pessoa que teve muito empenho", acrescenta. Em síntese, conclui a médica: "Tanto Davi quanto a Miriam precisavam encontrar um holding, um pouco de maternagem. Maternagem para ela poder ser mãe".

"Holding" é um importante conceito relativo à função materna, introduzido por Winnicott (1993). Quando a mãe, ou sua substituta protege o bebê da agressão; leva em conta a falta de conhecimento do bebê sobre si e sobre o mundo; fica atenta à rotina completa de cuidado, noite e dia; segue as mudanças do dia-a-dia, ajustando-se às necessidades de crescimento do bebê, tudo isso é um bom holding. O holding satisfatório faz parte dos cuidados adequados ao bebê e pode inspirar modelos de ajuda em "situações psicóticas".

3.4 A história da família e os ecos de uma genealogia

Casamento, nascimento e a eclosão de um trauma familiar

Eliseu e Míriam se conheceram no trabalho, numa sapataria, onde ele era vendedor e ela balconista. Começaram a namorar depois de um ano de convivência, quando Eliseu estava com 26 anos e Miriam, com 20. Iniciaram o namoro em outubro, em março do ano seguinte estavam morando juntos, em setembro casaram, e em dezembro Davi nasceu. Foi rápido até demais, diz Eliseu. Mas foi uma paixão repentina. "Ela é a mulher da minha vida! Por ela eu assinei o papel e fiz tudo certinho", comenta ele com brilho nos olhos. "O sonho era a casa própria... Ver o filho formado..." O que precipitou a decisão de irem morar juntos foi o problema de bebida do pai da Míriam, o abuso e a violência. Ela já não podia tolerar mais e a saída de sua própria casa foi a "salvação" naquele momento. Foi morar com Eliseu e seus pais e, logo depois, a mulher engravidou. "Eu sempre tive vontade de ser pai. Eu não queria ser pai velho, eu queria aproveitar a juventude... Eu queria ser um pai novo. Já pensou se eu tivesse sido pai com 20 anos, Davi agora estaria com 18 anos?" comenta Eliseu. No dia de seu casamento sentiu uma grande emoção: "Eu estava feliz demais". Foram três dias seguidos de comemoração.

O período da gestação foi complicado. Eliseu diz que o sistema nervoso da Míriam estava abalado. A gravidez a deixou muito mais nervosa, a ponto de "ficar chata". Ela teve um problema na vista e o médico lhe receitou um colírio forte. Segundo Eliseu, pela leitura da bula, o medicamento era contra-indicado para grávidas: "Isso pode ter afetado o problema dele. A gente nunca sabe. Fica sempre essa dúvida....". Míriam fez o pré-natal e conta que a médica suspeitou que ela pudesse vir a ter um bebê com Síndrome de Down, suspeita que a levou a fazer vários exames ao longo de toda a gravidez. Os exames eram mensais, ela passava muito mal, tinha queda de pressão. Vomitou e sentiu náusea até o final da gestação. Tinha a impressão de que o bebê estava muito agitado dentro de sua barriga. Ela não conseguia nem se esticar para o lado. Embora tenha chegado no hospital nas primeiras horas da manhã, o bebê só foi nascer à noite: "Todo mundo subiu em cima de mim, todo mundo me apertou, tentando fazer com que ele nascesse. Todos os médicos do plantão", comenta Míriam. Às 8 horas da noite, começou a passar mal, teve falta de ar e desmaiou. Quando acordou, estava na sala de cirurgia, sendo preparada para fazer um cezareana. O médico esclareceu a demora do parto: "Ele não nascia porque os dedos da mão estavam presos por dentro da costela da mãe". Isso talvez esclareça uma parte do desconforto que Miriam tenha sentido ao final, quando não encontrava posição para se virar. "Ele nasceu comprido e grande. Não havia espaço para ele. Os dedinhos estavam todos presos na costela. O médico não sabe dizer como ele não veio a perder nenhum dedinho", comenta Míriam, dizendo que ficou com a região da costela toda inchada. "O paraibinha deu trabalho para nascer", diz Eliseu, acrescentado que sua esposa teve eclâmpsia, "estado convulsivo e comatoso que pode manifestar-se durante ou logo após o parto" (Aurélio, 1975, 497). No entanto, passado o estresse do parto, relata o marido, Míriam já estava radiante. "Ela é bem forte, foi até ajudar outra mãe que havia tido um bebê e estava toda mole".

O pai comenta suas primeiras emoções ao ver o filho: "Eu estava procurando um bebê moreninho. Nossa, qual não foi minha surpresa, tinha um bebezinho bem branquinho, e ele era o meu filho. Foi a maior felicidade!". Eliseu é mulato e Míriam é branca. "Quando vi que era um garoto, fiquei ainda mais feliz (...) Me deu vontade de dar um berro ... Eu sou pai, eu sou pai...", comenta ele cheio de orgulho. O bebê custou a ser levado aos braços de sua mãe. Dizem que ele se parecia com a mãe. "Ele era a minha cara. Tinha um cabelo bem lisinho e era bem clarinho. Nasceu assim com os olhos puxados. Estava com fome. Mexia os braços, tentava chupá-los ou ao travesseiro. No berçário ele chegou até a lamber e chupar a cara de outro bebê" conta Míriam e comenta: "Cruz credo ele é um canibal ... Caramba, será que nasceu de dente e falando? Curiosamente, depois que a mãe partilha este tipo de fantasia, a seguir faz a seguinte descrição: "Ele era feio, magro, alto, pelancudo, com o rosto muito inchado, olho muito puxado, cara de japonês. Era pálido e meio amarelo". O médico informou que o bebê havia bebido muita água do parto, quando nasceu estava arroxeado, passando a apresentar icterícia: "estado mórbido que se caracteriza pela aumento de bilirrubina no sangue, com deposição consecutiva desse pigmento nos vários tecidos, particularmente na pele e na mucosa, donde a cor amarelada apresentada pelo paciente" (Aurélio, 1975, 738). A bilirrubina é um "pigmento da bilis, líquido esverdeado, amargo e viscoso, segregado pelo fígado e que auxilia a digestão"( Aurélio, 1975, 206). O bebê também estava enrolado no cordão umbilical, o que poderia ter trazido ainda o risco de sufocamento, comenta a mãe.

Míriam amamentou o seu bebê e depois lhe deu o primeiro banho, numa sala junto a outras mães. "Eles colocavam uma criança de cabeça pra cá e outra pra lá", o que sugere que cada dois bebês eram banhados na mesma banheira, numa espécie de banho coletivo. "Davi se virou, pegou os dedos da menina e ficou chupando. Os médicos todos pararam para ver. As mulheres disseram: ‘Ah! esse gosta de mulher mesmo’. Depois duas outras pessoas vieram procurar o menino que havia chupado o dedo da menina". Míriam comenta o que pensou sobre este momento: "Esse garoto já fez tanta ‘merda’ aqui no hospital. Mal nasceu, já estava aprontando. Mal nasceu, já era conhecido pelas besteiras que fazia". Conta que mesmo antes de ele nascer, "ela já ia parar em tudo o que era lugar por causa dele". Isso parece estar associado, em parte, à suspeita de Síndrome de Down que foi comunicada à mãe, levando-a a fazer exames extras, ao longo de toda a gestação. Eu pergunto se Míriam recebeu algum tipo de apoio, alguma orientação nesse período e ela afirma que não. Só fazia o pré-natal, tomava os remédios e as vitaminas. Nessa mesma época, ainda teve muitos aborrecimentos com sua família de origem, porque sua mãe estava doente. Os irmãos iam aonde ela estivesse e queriam que ela resolvesse os problemas da mãe. "Quando eles me procuravam eu me aborrecia mais do que já estava", comenta. Eliseu acredita que os problemas da família da Míriam a afetaram muito: "Quando ela estava quieta em seu canto, vinha alguém e dizia: ‘o seu irmão aprontou isso; a sua sobrinha aprontou aquilo’. Até hoje, a cabeça dela vive fervendo. Ela pensa mais nos outros, do que nela. Ela nunca viveu para ela, a vida dela. Ela vive mais para pensar nos outros, para resolver os problemas dos outros. Míriam acabou carregando um filho no ventre e tudo isso atrapalhou muito".

A traumatose perinatal, que referi anteriormente, fica aqui claramente configurada, agravada por dois fatores. O primeiro e mais central diz respeito à relação de Míriam com sua família de origem, cujos temas "fervilhavam" em sua cabeça e transbordavam para a sua existência, num fenômeno estressante que se perpetua e intoxica a vida atual, a ponto de Eliseu dizer que "Míriam nunca viveu a vida dela." Por isso, posso supor que a vida "da família dela" tenha transbordado do imaginário materno e despencado na relação com o filho. Quando a mãe descobre que seu bebê parecia muito com ela, um sinal de que ele vinha mesmo perpetuar a sua própria linhagem, fantasias "monstruosas" afloraram. Viu nos pequenos sinais do menino, como o ato de sugar ou de chupar, normais a qualquer bebê, a marca da linhagem dos "canibais". Claramente vemos no enunciado da mãe que uma projeção psíquica maciça foi feita em relação ao filho: "será que ele nasceu de dente e falando?". Ora os dentes de um canibal são a sua arma, o instrumento cortante pelo qual ele estraçalha, destrói e consome suas vítimas. A associação entre dentes e fala, pode levar a suspeitar que nas circunstâncias abusivas que permearam a vida da família de origem de Míriam, a fala também tenha entrado de um modo destrutivo e aniquilador. O segundo fator que veio adicionar mais tensão e angústia a um psiquismo já sobrecarregado, foi a notícia, a meu ver precipitada, sobre a suspeita de Síndrome de Down, que foi friamente informada à mãe, antes dos dois meses de gravidez, sem que nenhum tipo de apoio especializado tivesse sido indicado, e sem levar em conta os efeitos emocionais de uma notícia como essa para uma gestante. Com um caldeirão de angústias internas, adicionadas ao risco de ter um bebê "anormal", a traumatose perinatal de Míriam, chega ao seu ápice num parto difícil e complicado que levou a uma cesariana. Davi, contrariamente a tudo isso, era apenas um bebê, exibindo o reflexo de sucção.

Na visão de Winnicott, em qualquer gestação pode haver uma série de pensamentos negativos, dentre os quais, o de dar a luz a algém ou a algo horrível, a um bebê que não seja são e nem perfeito. É como se fosse difícil acreditar que somos bons o suficiente para gerarmos algo bom e perfeito. Míriam já tinha muitos motivos para duvidar de si e de sua ancestralidade, conforme fatos que serão ainda mais detalhados a frente. O risco "real" de ter um bebê com Síndrome de Down, pode ter se sobreposto ao risco imaginário de ter um bebê "anormal", acentuando ainda mais as angústias da mãe, durante a gestação. E após o nascimento, o que ocorre? Na visão de Winnicott (1982), o bebê só passará a existir como parte de uma relação com sua mãe. Mãe e bebê como já foi visto no primeiro capítulo, são os dois atores principais desse início de vida e, em condições normais, um bom começo só poderá ser assegurado pela qualidade do vínculo que estabelecem entre si: "Se a mãe não souber ver no filho recém-nascido um ser humano, haverá pouca probabilidade de que a saúde mental seja alicerçada com uma solidez tal que a criança, em sua vida posterior, possa ostentar uma personalidade rica e estável, suscetível não só de adaptar-se ao mundo, mas também de participar de um mundo que exige adaptação"(Winnicott, 1982, 118). É claro que não estou aqui fazendo nenhuma associação linear entre inadequação da relação mãe-bebê e doença mental.

A tarefa da mãe é apresentar o mundo em pequenas doses para o bebê, auxiliando-o a desenvolver sua capacidade motora e afetiva na interação com o ambiente. Winnicott (1982) destaca duas ações principais nessa apresentação: evitar coincidências que o levem à desorientação; e distinguir entre fato e fantasia, ajudando o bebê a discernir entre o certo e o errado, uma vez que ele irá procurar no olhar da mãe a aprovação ou a reprovação a sua conduta. Em relação a Míriam, acredito que a falha apresentada na relação com seu bebê esteve centrada sobretudo na dificuldade de diferenciar entre "fato e fantasia". Davi se tornara a materialização de suas fantasias e angústias arcaicas, as quais a impediam de vê-lo como alguém diferente de si, uma outra pessoa. Míriam fez uso de um mecanismo de defesa chamado "identificação projetiva", um conceito desenvolvido por Melaine Klein, de grande importância em psicanálise. "Graças à identificação projetiva o ego apodera-se, por projeção, do objeto externo e o converte numa extensão sua, ou, seja, no seu representante". Ou, em outras palavras, "o ego é visto como possuidor das características do objeto, ou então, o objeto é visto como possuidor das características do sujeito. Esse mecanismo estabelece uma total identificação sujeito-objeto" ( Soifer, 1992, 183). Assim o bebê Davi, era em certa medida, o "bebê Míriam" atravessado por todo o terror e pânico de sua própria relação com os seus pais.

Cada família encontra-se fundada em relações de aliança cruciais à construção da identidade dos sujeitos. Tais alianças, de natureza inconsciente, como assinala Kaës (1998), marcam cada filho ao nascer, a partir daquilo que fundamentou o encontro de seus pais e de sua descendência. O atravessamento do eixo de geração da família de origem, com o eixo intragrupal da família nuclear irá delimitar um espaço psíquico grupal no interior do qual a vida humana poderá se individualizar e se diferenciar numa cadeia de sentido pessoal e familiar. Pode, no entanto, haver uma quebra dessa cadeia de sentidos, seja por uma impregnação tão grande de conteúdos transgeracionais que impedem uma eficaz elaboração psíquica do material mantido fora da psique; seja por uma espécie de "engavetamento" entre um "acontecimento atual" (deficiência, acidente, morte) e um "acontecimento do passado", não posto no passado, com o qual entra em colisão, repetindo rupturas não elaboradas e dificultando o processo de elaboração pessoal e familiar. Assim, em alguns casos como assinala André-Fustier & Aubertel (1998), o sintoma aparece como a "repetição de um enfraquecimento da mentalização extraída de gerações precedentes. Então, ele seria entendido como expressão de um sofrimento familiar". Por essa razão, os autores concluem: " A repetição não pode ser compreendida sempre em relação à economia psíquica do indivíduo, ela encontrará esclarecimentos possíveis na compreensão do que liga o indivíduo (à sua revelia) a seu grupo familiar. Podemos formular esta hipótese: a compulsão à repetição estaria relacionada com uma falha na simbolização transmitida pelas gerações precedentes, constrangendo o indivíduo a retomar [os antigos temas] sem que ele possa elaborar qualquer coisa, que está, aliás, no fundamento do vínculo familiar e de seus próprios embasamentos narcísicos" (André-Fustier & Aubertel, 1998, 135-136). Portanto, a falha de simbolização de Míriam só pode ser compreendida como resultado de uma falha na simbolização de sua geração precedente, algo que não pode ser compreendido de modo individual e sim no contexto dos vínculos familiares e do sofrimento que neles se opera.

Há de se deixar claro que a hipótese de uma causa psicogênica, aqui constituída, a falha na relação mãe-bebê produzindo situações psicóticas na criança, não deve e não pode ser entendida simplesmente, pelo enunciado reducionista que culpabiliza a mãe. Míriam herdou de sua família uma falha simbólica que produziu efeitos patológicos no vínculo mãe e bebê. Não é "culpada" pela doença de seu filho, embora tenha contribuído para o aparecimento da enfermidade que veio a eclodir nele. Ela, ao contrário, é vítima de uma cadeia de relações patológicas herdadas de sua genealogia, com a ferocidade de padrões familiares marcados pela violência e pelo abuso, como descreverei a seguir.

Não há uma causa, mas uma pluricausalidade que não pode ser buscada apenas na mãe, mas no sofrimento familiar que aparece como uma falha no processo de metabolização psíquica, transmitida de geração em geração, por um excesso de "angústias de desmoronamento". (André-Fustier & Aubertel, 1998, 137). Toda essa condição psíquica levou à eclosão da circunstância psicótica nos primeiros anos da relação mãe-filho, porque a mãe se via às voltas com um trabalho psíquico impossível, por causa das rupturas catastróficas dos vínculos anteriores que, quando atualizadas em fatos postos no presente, acabaram produzindo um tipo de vínculo familiar indiferenciado. Em que pese a evolução para um quadro de psicose infantil, como já ficou evidenciado, o tratamento que combinou estratégias de saúde e educação, com maternagem ao filho e à mãe, mostrou um caminho para a saída da psicose e cura do filho, melhora da interação mãe-filho e ampliação das trocas familiares. A continência que foi dada à família produziu condições para que pudesse reconstruir suas próprias funções, no mesmo momento em que as funções egóicas do "bebê-filho" e do "bebê-mãe" puderam ser reconstruídas.

Davi vai assumindo uma feição selvagem: ele não fala, só rosna

Nos primeiros meses Eliseu precisou ajudar sua esposa, durante a noite, enquanto ela amamentava o seu filho. O berço era baixo e ele teria que enfrentar o medo de pegar aquele bebezinho pequenino e molinho. "Você sabe que até hoje esse paraibinha ainda senta no meu colo?", diz Eliseu. Davi estava por perto e aproveitou para perguntar ao seu pai: "Estou pesado?" Mantendo um pequeno diálogo, ele respondeu: "Está pesado. Quando você era pequenino, era mais fácil te segurar". Olhando atento ao pai, Davi insiste: "E agora?" Mostrando que seu filho sempre foi muito agarrado a ele, e ele ao filho, Eliseu responde: "Agora daqui a pouco sou eu é que vou subir nas suas costas".

Os domingos eram os dias "sagrados" para Eliseu estar com o filho. Míriam aproveitava para fazer compras e abastecer a casa. Aonde quer que Eliseu fosse, levava o filho consigo. Até hoje são muito "colados" um ao outro. Quando bebê, o pai conta que: "Davi dava peitada no berço, para o berço sair do lugar e ele poder pegar as coisas na prateleira". Era um quarto pequeno, que tinha a cama do casal, ao lado do berço. O menino logo aprendeu a pular do berço para a cama. O casal teve a idéia de desmontar uma parte da grade para favorecer que o filho tivesse acesso direto a sua cama. Míriam diz que Davi não chegou nem a engatinhar e quando ficou em pé no berço, já foi o bastante. Foi só lhe ensinar a por a mão na grade e ficar de pé. Bastou mostrar-lhe uma só vez para ele aprender. Com 7 meses ele ficou de pé, com 9 meses começou a jogar o corpo para sair do berço. Da cama do casal ele se jogava no chão e se arrastava "que nem uma cobrinha" para alcançar um boneco, ou alguma coisa. Dali começou a se encostar na parede e sair andando, com uns 9 meses. Quando soltou as mãos da parede já estava andando bem. A fala da mãe sugere que o menino tenha ficado muito tempo confinado naquele berço, naquele pequeno espaço do quarto do casal, o que restringia seu desenvolvimento psicomotor. "De vez em quando ele caía porque queria correr e costumava bater com a testa. Era avoado, queria andar muito rápido e sempre metia a cara nas coisas. Aonde ia passando, ia derrubando tudo no chão. Eu não podia deixá-lo um minuto que ele fazia as besteiras dele", diz Míriam. A restrição de espaço, por um lado, e as tentativas do Davi para se desenvolver, por outro, exibindo um modo desajeitado de andar, como qualquer criança que dá os seus primeiros passos, começa a ser visto com um "problema" que prende a atenção da mãe ao filho, sob o risco de perturbar o ambiente em volta, ou seja, a casa dos sogros.

A festa de aniversário de um ano do menino foi muito bonita, tendo sido a maior e mais caprichada de todas as festas, em termos de infra-estrutura, incluindo enfeites e ornamentos infantis. O bebê estava fantasiado de palhaço e toda a família materna e paterna foi convidada. "Este foi o dia mais unido da família da Míriam, a festa de um ano do Davi", comenta Eliseu. Todos os demais aniversários do menino foram comemorados com festas, com os temas e os detalhes feitos a seu gosto. Entre os temas, destacam-se: a Tartaruga Ninja, o Batman, a pipa e jogos infantis, o time de futebol, e Míriam guarda as fotos de cada evento.

Segundo Miriam, a permanência na casa da sogra não a deixava a vontade com seu filho. Quando queria descansar, trancava-se no quarto com ele. Quando fazia as coisas na cozinha, tinha que estar agarrada a Davi. Fazia as coisas com uma mão e com a outra o segurava. Quando tinha que lavar a roupa, o punha de sunga de praia dentro do tanque, e ia ensaboando as roupas com ele ali. Se ficasse solto pela casa, o avô se queixava: "Era um inferno. Minha vida ali foi horrível", desabafa Míriam. Diz que se sentia uma "estranha no ninho". Por um lado, aquele espaço externo não lhe dava um holding suficiente para ela se organizar. Por outro lado, internamente ela trazia consigo a falta de estrutura de sua própria história. Sem base interna e sem continente externo seguro, Miriam não encontrou meios para dar uma apropriada continência a seu filho, que mais parecia um "apêndice" seu, um ser destituído de vida própria, uma "coisa".

Davi já estava com quase dois anos e não falava. O pai prometeu a si mesmo que se um dia seu filho viesse a falar, ele ia parar de fumar. Hoje, Eliseu não apenas cumpre sua promessa, mas se gratifica com as melhoras do filho. Mas foi necessário vencer muitas barreiras. Míriam descreve o dia-a-dia com o filho no período de sua piora. Quando o levava ao supermercado, ela o colocava dentro do carrinho e punha a bolsa embaixo, para deixar as mercadorias fora de seu alcance. O menino ficava tentando apanhar as coisas para jogá-las ao chão. Ela passou a levar uma fralda para amarrá-lo dentro do carrinho. Não adiantava lhe dar algo para comer, porque comia muito rápido. Davi parecia cada vez mais tolhido e cada vez menos orientado sobre como deveria proceder e interagir com o mundo. Não havia uma palavra orientadora, nem limites, nem fronteiras sobre o que podia e o que não podia fazer. Só restrições sobre restrições, levando-o aos poucos a assumir as feições de um menino selvagem. Quando a mãe ia com ele à feira, era preciso juntar bem suas duas mãos e segurá-las bem firme. Se alguém passasse com o carrinho, ele tomava as coisas e as atirava ao chão. Certa vez, andando pela rua, ele puxou a mala 007 de um homem, numa cena inusitada. Davi puxava de um lado e o homem, irritado, puxava do outro. Era pequeno mais tinha muita força, garante sua mãe. Para fazê-lo soltar, foi necessário lhe fazer cócegas. "Ele parecia um desses cachorros perigosos de coleira: só arrumava confusão por onde ia", diz a mãe.

Míriam conta que o menino crescia e ela estava cada vez mais apreensiva: tornara-se um pesadelo. "Ele abria a geladeira e conseguia, em um segundo, jogar tudo o que estava na porta da geladeira no chão. Ele não podia ver ovo que os esmagava. Se visse alguma coisa de vidro, atirava ao chão para ver aquele vidro se estilhaçar. Se não fosse impedido, ele era capaz de apertar e se cortar. Ele fazia coisas horríveis", descreve a mãe. Certa vez, deixou Davi com sua irmã para levar a mãe adoentada ao médico. A irmã deitou-se ao lado dele, na tentativa de fazê-lo dormir, mas foi ela quem acabou adormecendo. Sorrateiramente, Davi foi até a casa da vizinha, encontrou a porta aberta, e caminhou até uma cômoda baixa que era de seu alcance. Abriu as gavetas e espalhou todas as roupas pelo chão. "Havia roupa por todo o canto, até na área", então sua irmã comentou: "Eu nunca vi isso! Esse garoto é muito rápido e faz muita ‘ merda’ de uma só vez! Eu não agüento mais ficar com ele". Davi tinha dois anos e meio, nesta ocasião.

Míriam começou a ouvir inúmeros comentários de intolerância social. Muita gente dizia: "Ah, se eu fosse você eu já tinha internado esse menino, porque eu não agüentaria ter um filho assim (...) Você é nova, você está acabando com sua vida. Você devia interná-lo e só ir buscá-lo no final de semana. Ele não dá um minuto de sossego". Aos 4 anos Davi começou a agredir a mãe e a se auto-agredir. Míriam ainda morava na casa dos sogros. A todo momento havia reclamações e o convívio era muito difícil. "Hoje em dia, eles estão mais esclarecidos, entendem mais as coisas e aceitam ele melhor", acrescenta Míriam. Outro dia ela ouviu sua sogra comentar: "Ah, eu já vi tanta criança, mas nunca vi um garoto igual a esse. Ele não fala, e quando a gente vai colocar as mãos nele, ele rosna, só sabe fazer isso".

A eclosão da psicose infantil, pela impossibilidade da criança e da mãe se organizarem e se diferenciarem, faz emergir a imagem do "selvagem", que contamina o imaginário de ambos. Quando entrevistei Míriam pela primeira vez, há cinco anos atrás, ela construiu uma narrativa explicativa que espelha claramente este período da vida: "Na selva, dois na selva, quer dizer, a gente vive, querendo ou não a gente acaba ...a gente tenta, né ? (...) Que a gente tem de ser muito fraterno com eles ... pra poder suportar. Só que as dores que a gente sente mesmo, as dores que ... na selva de pedra ... quer dizer que é a cidade, que é a rua, quando a gente sai de dentro de nossa casa. Por mais humilde que seja, dentro de nossa casa ... qualquer coisa que um filho da gente fizer a gente consegue suportar e contornar a situação; mas quando saem na rua ... as pessoas não querem saber ... a rua é uma selva de pedra, as pessoas estão querendo sempre uma atropelar a outra (...) Por mais que a gente tenha amor, tenha fraternidade, a gente não agüenta, a gente fica sobrecarregado (...), então fica difícil, sabe, muito difícil ... E as pessoas perguntam: ‘Por que que ele é assim ? Por que que ele está fazendo isso? Por que ele está fazendo aquilo? E eu nunca sei esse porque... responder esse porquê... Eu também me faço essas perguntas..." (Cavalcante, 1996, 226; Cavalcante, 2001, 135).

Esta narrativa polissêmica fala do "imaginário" materno, como diz Castoriadis (1982), de alguma coisa "inventada", de uma história imaginada em todas as suas partes, que traz um deslizamento de sentido, onde os símbolos são recompostos de outras significações. Míriam não fala de si a partir de um olhar interiorizado, mas faz uso de uma reflexividade que situa os seus conflitos na interface com a sociedade: são dois na selva, ela e o filho. Aqui na sociedade imaginada como uma "selva de pedra", ela esculpe a imagem psicossocial de todo o seu desamparo, algo que não pode ser pensado por uma ótica meramente subjetivista e deve ser entendida, sobretudo, por um prisma social. Para falar de sociedade, opto pela definição feita por Costa: "Quando falamos de sociedade ou cultura falamos de coisas visíveis, sim! Falamos de regras, instituições, comportamentos, etc. que são visíveis e incidem material e psicologicamente em nossas vidas". (Costa, 1989, 49). Pois bem, é na sociedade que Míriam se vê fazendo os seus maiores confrontos, berço onde ela derrama todas as suas dores, deposita seus protestos e projeta toda a sua força, toda a sua energia em busca de ajuda para si e para o filho.

Nesta narrativa, de um modo implícito, Míriam formula questões centrais para a vida pessoal e coletiva: Quem sou eu, quem é meu filho? Quem sou eu e quem é meu filho para esse coletivo de pessoas a nossa volta? O que desejamos, o que nos falta? Que perguntas não consigo responder? Como definir a identidade nesta sociedade? Como compreender as relações com as pessoas, os desejos, as necessidades? "Sem ‘resposta’ a essas ‘perguntas’, sem essas ‘definições’ não existe mundo humano, nem sociedade e nem cultura - porque tudo permaneceria caos indiferenciado. O papel das significações imaginárias é o de fornecer uma resposta a essas perguntas, resposta que, evidentemente, nem a ‘realidade’ nem a ‘racionalidade’ podem fornecer (...) É no fazer de cada coletividade que surge como sentido encarnado a resposta a essas perguntas, é esse fazer social que só se deixa compreender como resposta a perguntas que ele próprio coloca implicitamente" (Castoriadis, 1982, 177). Em meio ao caos pessoal vivido na coletividade, Míriam se levanta do pântano da dor e vai em busca da questão central: Por que seu filho é assim? Por que ele age de um modo tão selvagem? Míriam quer reverter essa situação. Ela deseja ardentemente que seu filho tenha uma chance para mostrar que ele pode mudar, que ele pode se socializar, que ele pode virar "gente", que ele pode se tornar um ser civilizado. Vai em busca de apoio, suporta o fardo e a sobrecarrega e apesar dos "atropelos", não desiste, insiste, resiste, questiona os "nãos", até encontrar portas sociais que a acolham e a seu filho.

Em busca de uma oportunidade: o sol nasce para todos?

"É difícil aceitar uma criança diferente (...) Dentro de casa, a gente lida com aquilo ali e começa a conhecer, a aprender um pouco do que é ser uma pessoa diferente. A gente começa a aceitar porque o amor nos impõe a aceitar. Quem está amando não tem muita escolha. A gente ama muito uma pessoa e acaba aceitando a pessoa do jeito que ela é. (...) Aí começa a entender e adaptar a vida com aquela pessoa, para que ela fique bem. Mas as pessoas do lado de fora da sua casa, da dita sociedade, não aceitam. Elas dizem que aceitam, mas não aceitam. As pessoas aceitam entre aspas. Aceitam para fazer média, para aparecer bem na foto, para poder dizer que não são preconceituosas. Quando você começa a bater nos lugares, com o seu filho de 4 ou 5 anos, você leva um ‘não’ na cara. Eles dizem que está tudo bem, mas quando conhecem a situação ao vivo e à cores, eles te dão um ‘não’. Eles tentam camuflar, esconder um pouquinho a recusa deles. Dizem que não é o que estão fazendo, mas o que estão fazendo mesmo é excluir". Essa foi uma reflexão recente feita por Míriam, depois que seu filho já havia alcançado resultados satisfatórios.

Foi preciso literalmente brigar para conseguir atendimentos para o Davi. Míriam havia levado os documentos solicitados por um Centro de Reabilitação do subúrbio do Rio de Janeiro. Tudo estava acertado para o seu filho iniciar seu tratamento. Bastou que ele ameaçasse uma funcionária com vassoura, para questionarem sua entrada. Mas a mãe insistiu: "Alguém tem que dar uma oportunidade a ele, para ele mostrar se pode se modificar. Se ninguém der essa oportunidade, como nós iremos saber se ele tem condições de se adaptar ou não? Se ele não fosse normal, eu não estaria procurando tratamento aqui. Será que vocês não entendem isso? E aquelas palavras escritas na parede: ‘O sol nasce para todos’, é só baboseira? É tudo conversa fiada? Parece que o sol daqui só nasceu para alguns, não é mesmo, para aqueles que vocês escolhem", discursou Míriam, desconcertando e levantando as ‘máscaras’ de inúmeras instituições sociais, apontando a sistemática de reprodução da exclusão e, com isso, advogando também em causa própria. Dito isso, aguardou uma doutora "mais esclarecida e mais humana" para falar em defesa de seu filho. Acabou conseguindo a inserção do filho. Em contrapartida lhe pediram que ela ficasse com ele, no período de adaptação inicial, para ajudar a contornar alguma situação difícil. A mãe se prontificou a cooperar prontamente. Com o tempo, foram vendo que ele não é nenhum "bicho de sete cabeças" e o foram aceitando, acrescenta. Até a profissional que pleiteou a saída de Davi comentou: "Até que ele não é tão ruim assim. Estava num mau dia e não se deve julgar as pessoas pela aparência", relata a mãe. O menino já estava com 6 a 7 anos e esta parecia outra alternativa que Míriam adicionava aos demais tratamentos, já que ela não se restringiu a um único espaço: buscou apoio em várias instituições.

Quando o garoto tinha 5 anos Míriam conseguiu-lhe um tratamento fonoaudiológico. Nesse momento, ele ainda jogava os brinquedos pela janela, como fazia com a Dra. Márcia Adriene. Outros Centros de Reabilitação foram procurados em Anchieta, Quintino, Vila Isabel. Míriam se queixava de que alguns dos serviços eram precários, não ofereciam aquilo que a propaganda divulgava; em outros era preciso dar entrada pela LBA (Legião da Boa Vontade), e essa não repassava a verba necessária para a manutenção dos atendimentos. Ela ainda tentou a APAE e a Pestalozzi. Nessa última, chegou a fazer uma consulta com um psiquiatra que a decepcionou. Ela considerou grosseira a maneira como o médico lhe explicou sobre a doença de seu filho. "Se eu fosse me basear nas palavras dele eu não tinha feito nada, tinha deixado o Davi trancado em casa e não o tinha colocado na escola", desabafa Míriam. Narra a orientação que recebeu: "O que o seu filho tem é chamado de loucura mesmo", dizia o médico, enquanto Davi tentava jogar os seus objetos no chão. "O médico quis dizer que o meu filho era louco e que geralmente esse tipo de caso não tem cura. Ele foi sutil, mas completamente grosseiro. Usou de muita educação para me dar uma pernada e me jogar do outro lado da rua. Eu saí de lá tonta e arrasada. Se eu fosse uma pessoa que desistisse das coisas com facilidade, naquele dia eu tinha desistido", comenta Márcia. É impressionante a força da palavra, por vezes tão cruéis, dos profissionais de saúde para as famílias já tão castigadas pela doença de seus filhos!

Como já comentei em outros capítulos, o momento do diagnóstico é extremamente delicado e altamente importante. No primeiro estudo de caso, um neurologista, conseguiu por em palavras alguma esperança para os pais, em que pese se tratar de um caso gravíssimo, de evolução degenerativa. Ao sugerir que a família "curtisse" o filho o máximo possível, o médico assinalou um caminho de afeto, amparo e cuidado no qual ela pautou todo o tratamento posterior do filho. No segundo estudo de caso, o médico orientou a família sobre a necessidade de um apoio especializado, deixando clara a demora em procurar o tipo de ajuda necessária. Desde então a família não parou mais de investir em diversos tipos de estimulação, favorecendo o permanente desabrochar de uma pessoa deficiente. É precioso tomar cuidado para o profissional não reforçar os estereótipos sociais, construindo uma fala meramente centrada na doença e no sintoma, esquecendo a pessoa e a "existência sofrimento" que ali se encontra. Os pais e a criança, sua história, seus sonhos, as esperanças e expectativas tudo isso é muito maior que a doença.

Davi foi encaminhado para a UHVR/CPPII. Lá Míriam encontrou um neurologista que amenizou a visão médica previamente colocada: "Ele não é tão ruim assim. Ainda está pequeno e tem muita coisa pela frente. Ele pode de repente dar uma melhorada e mudar essa situação toda, ou pode não melhorar", comenta Míriam sobre a abordagem que a tranqüilizou. Míriam tentou algumas manobras para inserir seu filho no espaço escolar organizado por uma igreja. Com a esperança de garantir a inserção de seu filho, deu a entender que ele era normal e omitiu suas dificuldades. Quando foi buscá-lo descobriu que ele havia jogado todos os vasos de plantas no chão, todos os papéis e todos os lápis coloridos; havia dado duas mordidas na perna da mulher que estava tomando conta dele, tudo isso aos 4 anos de idade, quando ainda sua dentição nem era completa. Miriam reproduz a fala da mulher: "Ele parece o Ruck! Ele tem uma força danada, a gente não pode ficar com ele aqui. Ele não fala. A senhora não disse que ele não falava (...) Eu não posso ficar com ele porque as outras crianças ficaram todas com medo, e ele ainda meteu o dente bem aqui [mostrando sua perna]. Ele fez tudo muito rápido. Ele é muito rápido, ninguém consegue alcançá-lo. As crianças começaram a gritar: ‘The Flash, The Flash, The Flash ...". Ela levou o seu filho com raiva e a moça fez questão de lhe devolver o dinheiro. Chegando em casa, Míriam chorou muito, isso lhe fazia sentir raiva do filho, pela rejeição que sofria na maior parte dos lugares. Ela acabava lhe dizendo que ninguém o queria, ficava revoltada e brigava com ele. Depois se arrependia e lhe pedia desculpas. Míriam conta que uma das distrações de Davi era matar moscas. Ele era capaz de matar qualquer mosca que passasse por perto, tão rapidamente que conseguia ser mais veloz que o inseto.

Eliseu acredita que uma parte do problema de seu filho está associado ao fato dele ter ficado muito preso dentro de casa. Mantê-lo mais solto, no princípio, era difícil. Certa vez, um colega do pai lhe disse: "nossa você segura muito o seu filho". Eliseu respondeu que costumava liberá-lo na hora certa. "Larga a mão do garoto um pouco", insistiu o colega. "Vocês vão tomar conta dele?", indagou Eliseu certificando-se de que poderia dispor de sua ajuda. Três pessoas se prontificaram em ajudar, o colega, o cunhado, o rapaz da barraca. Assim, ele foi aos poucos procurando soltá-lo, trabalhando os limites. Certa vez o pai foi a uma excursão com o filho e teve a oportunidade de deixá-lo bem à vontade num campo de futebol. "Ele correu tanto pra lá e pra cá, que já não sabia mais por onde correr. Ele viu muita liberdade ali". Até hoje o Eliseu continua liberando-o cada vez mais.

Segundo Vygostky , as características tipicamente humanas não estão presentes desde o nascimento e dependerão da integração entre aspectos biológicos e sociais. É na interação dialética do indivíduo com a cultura que o homem irá encontrar aquilo que o "humaniza". As funções psíquicas humanas se originam e se desenvolvem nas relações que o indivíduo puder estabelecer com o contexto social, que apresenta modos historicamente determinados e culturalmente organizados para repassar as informações. Enquanto o animal conserva sua ligação com motivos biológicos, a satisfação de necessidades básicas (alimentação, auto-conservação), o homem é movido por necessidades complexas (comunicar-se, adquirir novos conhecimentos, ocupar um papel social, construir princípios e valores). Enquanto os animais reagem a partir das impressões e dos estímulos perceptivos, o ser humano não se orienta apenas pela vivência imediata, mas pela experiência anterior, pois consegue estabelecer causas e conseqüências, fazer previsões, refletir, interpretar, tomar decisões. Além do conhecimento sensorial, o ser humano dispõe da possibilidade de fazer uso de sua razão, ou seja, de desenvolver o conhecimento racional (Rego, 2001).

A história de Davi mostra que ele, a princípio, permaneceu mais referenciado pelo mundo animal do que pelo mundo humano. Problemas na interação com o seu meio social, dificuldades que a figura materna encontrou para organizar o mundo e lhe apresentar em pequenas doses, acabou produzindo o efeito de animanizá-lo, ao invés de humanizá-lo. Os estados de indiferenciação e as circunstâncias psicóticas refletidas na interação mãe-filho acabaram produzindo um efeito de dissolução ou interrupção do desenvolvimento de processos psicológicos o que, do ponto de vista psicossocial, acaba desfazendo justamente aquilo que a evolução da espécie e a experiência cultural ajudaram a construir (Rego, 2001). A doença, neste caso, se circunscreveu historicamente e afetou o estoque de conhecimento materno culturalmente acumulado. E para revertê-la foi preciso recorrer a um saber complexo que ajudasse mãe e filho a se reorganizarem e a se reconstruírem como pessoas. Como diz Costa: "Não temos dúvidas de que os distúrbios mentais só existem através de certos conflitos subjetivos, os quais, por seu turno, estão socioculturalmente condicionados. Não é de hoje que alguns etnólogos demonstraram a inexistência de formas a-históricas do adoecer mental (...) Os modelos de conduta normais e anormais, psiquiatricamente falando, são tão prescritos e modulados em sua expressão quanto qualquer outro tipo de conduta social"(Costa, 1989, 18). A seguir, mostrarei, na história da genealogia de Míriam, as raízes da falha simbólica que veio a se reproduzir na relação com seu filho, indagando até que ponto Míriam possa ter sido submetida a um processo de "animalização".

A descendência dos "canibais": é melhor ser doente mental do que bandido

É oportuno lembrar que a análise do eixo genealógico que será apresentada, a seguir, é feita com pseudônimos, conforme acordo prévio estabelecido no Termo de Consentimento. Ao contar a história de sua genealogia, Míriam primeiramente descreve Joaquim, o avô materno, um português trabalhador que chegou ao Brasil aos 21 anos, com o sonho de se enriquecer. Era um homem alto e magro, de feições finas, sardas, olhos verdes e cabelos enrolados. Gostava de ler, tinha modos finos ao se servir à mesa, não bebia e nem fumava. Muito habilidoso no comércio, atuava como marceneiro, confeccionando móveis e como padeiro, fazendo o seu próprio pão. Diz que se pautava na justiça e na lei e era conhecido por sua honestidade. Comprou um terreno grande e construiu uma casa. Ali planejou construir uma rede de comércio, sonho que não foi à frente, por sua morte prematura, aos 38 anos, em virtude de um câncer. Sua esposa Amélia era uma linda mulher de cabelo preto liso, que fazia lembrar uma índia. Ela também morreu jovem, aos 26 anos, vitimizada por um câncer. Era tranqüila, mas sabia bater em quem se metia com ela. Amélia teve uma primeira filha de uma aventura com um marinheiro, e após o casamento com Joaquim nasceram mais três filhos, sendo que a filha caçula Anete foi a mãe da Míriam. A riqueza de detalhes, inclusive fisionômicos, da descrição feita por Míriam chama a atenção. Ela se identifica especialmente com os avós maternos e relaciona traços semelhantes encontrados em seu biotipo, em seu caráter e em seu comportamento. Eles são sua salvaguarda identificatória. (Vide árvore genealógica, ao final do capítulo).

A história dos avós paternos é marcada por maldades e perversidades. Considera que seu avô Mário era um homem muito mau. Era filho de um estrangeiro com uma colona, mas como nasceu de olhos claros e pele clara, acabou sendo registrado e acolhido como filho. Herdou toda a herança de seu pai e reproduzia o mesmo padrão dele: como branco, sentia-se no direito de usar e abusar sexualmente das colonas, como bem lhe aprouvesse. Se tentassem fugir, eram assassinadas e seu cadáver ficava exposto no meio da fazenda como afronta e ameaça. Lá havia um armazém que vendia as coisas a preço absurdo, tornando as pessoas escravas desse sistema opressivo. Vigorava o domínio, a crueldade, a opressão e o martírio. Mário obrigou Maria da Conceição a se unir a ele, após um ritual macabro, feito numa sexta feira da paixão, quando mandou matar um macaco e o comeu na frente da sogra, para afrontá-la, bebendo o sangue do animal num espetáculo de terror. Maria da Conceição se viu forçada a ir morar com ele. Depois do quarto filho, ela pôs outra mulher dentro de casa, e conseguiu fugir de madrugada, montada num burro, pelo meio do matagal. Ajudada por uma mulher, fugiu para o Rio de Janeiro. Quatro anos depois mandou buscar as filhas e, após mais quatro anos, mandou buscar os dois outros filhos. Otávio, o filho mais velho preferiu ficar com o pai, com quem aprendia toda a sorte de maldade e crueldade. Gostava de matar o boi a facada, para mostrar poder. Depois de um desentendimento com o pai, aos 15 anos, Otávio veio morar com a mãe.

Otávio se tornou o pai de Míriam. Este é o relato que a filha faz dele. Ele era um homem dominador, manipulador, interesseiro, estava sempre querendo tirar vantagens das situações, apresentava uma estatura mediana, pernas grossas, sem barriga, corpo bem definido, nariz afilado com a ponta mais cheia, lábios finos, era metido a "garotão" e jogava capoeira. Sempre bebeu muito e batia na esposa e nos filhos, inclusive nos delicados momentos em que a esposa estava grávida. Não gostava dos filhos, era mau, e ainda tentava abusar sexualmente das filhas. As moças tinham muito medo de ficar sozinha com ele. Míriam não dormia na casa sozinha com o pai. Ela diz que o pai ensinou coisas terríveis aos filhos homens e ainda"jogou" Míriam, a mãe e os irmãos dentro de mais de uma favela. O pai tinha má índole, resssalta, e a mãe era "lerda e passiva". Em contraposição, Míriam se tornou uma mulher dura, uma mulher que "não atura muito as coisas dos homens". Ela sempre quis ser diferente de sua mãe, pois "ela não gostava de si mesma". O pai, tipicamente antisocial, comprou duas armas e presenteou os dois primeiros filhos ainda adolescentes com elas. O primeiro se chamava Otavinho e o segundo Otávio Filho, um duplo espelho de pai. Ele os incentivava a assaltar o supermercado onde trabalhavam e também os iniciou no fumo e na bebida. Os três filhos homens e uma das filhas mulheres acabaram se drogando. Otávio era um monstro, ele não podia ser considerado "gente", diz Míriam, era um espírito ruim, destruidor da vida de todos, a mais emblemática figura de um "canibal", traço que Míriam inconscientemente associou à linhagem de sua descendência, no momento do nascimento de seu filho. Nesse ponto, é possível começar a entender a raíz do conflito psíquico que originou nela a "traumatose perinatal", uma tentativa inconsciente de renegar sua própria descendência, a descendência dos "canibais".

Seus pais tiveram doze filhos. Foram mais de duas décadas parindo filhos, nas mais adversas condições. O primeiro filho nasceu no meio da década de 40, e a última filha, a Míriam, nasceu no final dos anos sessenta. O intervalo entre os irmãos variou entre um a dois anos, exceto em relação aos dois primeiros, que foram bem mais espaçados. Quatro filhos morreram antes dos dois anos de idade, dois por meningite, um por tuberculose e um por desidratação. Duas moças e um rapaz conseguiram ser criados longe do pai e por isso conseguiram ter algum sossego e os dois mais velhos ficaram em colégio interno, misturados a marginais. Um outra irmã é submissa e deixa os homens baterem nela. Entre aquelas que conseguiram um padrão de vida melhor, há uma irmã que se tornou auxiliar de enfermagem e outra que está casada e vive bem com o marido, embora sempre esteja doente. Míriam já chegou a dormir fora de casa, sobre um tanque, várias vezes, para evitar que seu pai a machucasse e para fugir dos ratos. Seus estudos foram interrompidos inúmeras vezes por crises familiares, nos momentos em que a mãe se viu sem ter para onde ir com os filhos, quando o marido teve envolvimento com outras mulheres.

Quando o avô Joaquim faleceu, Otávio se apoderou do terreno, herança da esposa, o vendeu e sumiu com o dinheiro, dando uma bagatela a cada irmão. Como tudo era feito na base da "trambicagem", a família tinha sempre uma vida muito dura e muito difícil. Otávio e Anete foram morar num barracão de zinco, no pé do morro. Moraram em diversas favelas do Rio de Janeiro. Míriam se lembra de quando os móveis foram rio abaixo, numa enchente, quando ela e sua irmã só não morreram afogadas porque foram encontradas flutuando dentro de um caixote. A família acabava ficando pouco tempo no morro, quando uma tia da família materna os "salvava", colocando-os de volta no "asfalto". Viúva de dois maridos militares, essa tia dispunha de condições materiais para socorrer a família, de tempos em tempos.

O pai Otávio chegou a dar um tiro no ombro do filho mais velho, que decidiu não prestar queixa na delegacia, alegando que havia sido um acidente. Míriam descreve a ferocidade de seu pai contra ela. Aos 17 anos, ele quebrou sua cama, sua máquina de escrever, jogou todas as suas roupas na rua, a agrediu com socos e tentou feri-la com um ferro. Míriam conseguiu fugir, tendo que pular um muro alto, cheio de cacos de vidro. Ela deu queixa na delegacia e levou a polícia até sua casa. Diz que conseguiu se safar nas horas certas, inclusive evitando se expor às drogas e às más companhias, tomando decisões para se proteger. Mas aos 16 anos atentou contra a sua própria vida, com remédios e com bebida, para se livrar de um namorado marginal.

O problema da violência é complexo e tem despertado o interesse de pesquisadores, sobretudo, nas duas últimas décadas, quando a violência urbana cresce e assume proporções alarmantes tanto para a população quanto para as autoridades governamentais. "A violência consiste em ações humanas de indivíduos, grupos, classes, nações que ocasionam a morte de outros seres humanos ou que afetam sua integridade física, moral, mental ou espiritual. Na verdade, só se pode falar de violências, pois se trata de uma realidade plural, diferenciada, cujas especificidades necessitam ser conhecidas"(Minayo & Souza, 1998, 514). Minayo et al. (1999) e Assis (1999) apresentam dois belíssimos livros em que a violência, a juventude e a cidadania é analisada sob a ótica de jovens cariocas, no primeiro estudo, e os caminhos de uma sociedade violenta são traçados a partir da visão de menores infratores e de seus irmãos não infratores, no segundo. Assis (1999) mostra as razões pelas quais alguns irmãos optam pela vida do crime e outros se protegem. Em primeiro lugar é preciso desmistificar a idéia de que porque se é pobre e se mora no morro, o caminho "natural" é a marginalidade. Esta visão errônea não traduz a realidade e a violência tampouco pode ser atribuída apenas à estrutura familiar, ou a um ser abstrato chamado "sociedade". "É necessário tecer elos de ligação que possam compreender as relações entre o indivíduo e seu meio social e vice-versa. Ou seja, é preciso compreender a escolha e, depois, saber que nenhuma escolha humana pode ser explicada apenas por determinismos sociais, embora todas sejam realizadas frente a condições dadas. Por outro lado, é necessário também entender que nenhuma escolha pode ser explicada apenas por determinismo biológico e de"índole"(como se diria o senso comum), porque todas as condições dadas são necessariamente reinterpretadas e reconstruídas pelo sujeito, dentro de seu espaço de liberdade (Minayo, 1999, 11).

Assis (1999) a partir de estudos recentes que tiveram origem na área da epidemiologia e na análise compreensiva e procuraram identificar fatores de risco para a delinqüência, assinala que mesmo em contextos familiares altamente estressantes e violentos, algumas pessoas conseguem crescer sem apresentar comportamento social ‘disfuncional’. Em outras palavras, em que pese a exposição a altos níveis de estresse psicossocial, há pessoas que se mostram invulneráveis ou resistentes ao estresse, apresentando condições de manter uma conduta social funcional, estável e adaptada. Esse conceito foi inicialmente chamado de "resiliência". No entanto, essa hipótese foi tida como inconsistente pois, afinal, nenhum ser humano pode se tornar invulnerável a ponto de resistir, sem limites, a qualquer tipo de pressão emocional. Reformulado, esclarece Assis (1999), este conceito passou a considerar "resilientes" aqueles que, embora expostos a estresse pessoal, familiar e social, conseguem vivenciar mais os fatores protetores do que os fatores de risco. A autora define as pessoas resilientes, tomando como base a visão de Maldonado (1997, 37), "como aquelas que conseguem ‘atravessar’ os momentos difíceis da vida sem se desestruturar, ‘como uma árvore flexível cujos galhos se dobram em um vendaval, mas não se quebram’" (Assis, 1999, 21).

Em sua família de origem, Míriam conseguiu atuar de um modo resiliente, evitando se expor às drogas, às mais companhias e tomando decisões que funcionaram como medidas protetoras, embora os fatores de risco estivessem rondando sua vida a todo momento, a ponto de fazê-la quase sucumbir a uma tentativa de suicídio. Apesar de sua família de origem ser uma verdadeira ‘tábula de ensinamentos à violência’, Míriam optou definitivamente pelo caminho da ‘não-violência’. Conseguiu manter distância, dentro do possível, dos irmãos infratores e dos amigos que freqüentavam o mundo infracional e evitou o consumo de drogas, sendo que este último é caracterizado por Assis (1999) como o fator de risco que ratifica a carreira infracional. A medida em que se faz uso intenso de tóxicos, adotam-se atitudes infracionais, deteriora-se a autoestima e a pessoa costuma ficar à mercê do ambiente de ilegalidade mantido pela violência. Os irmãos de Míriam que entraram na vida criminosa e assumiram uma carreira de violência, foram iniciados justamente pelo fumo e pela bebida, com incentivo do próprio pai, um grande psicopata. Segundo Assis (1999), a tendência da literatura não é mais analisar tanto a "falta de estrutura familiar" como geradora de um circuito favorecedor à reprodução da violência, mas sim a qualidade dos "relacionamentos familiares", ou seja, os sistemas vinculares e os fatores identificatórios. Míriam nunca chegou a conhecer os avós maternos, Joaquim e Amélia, mas a força de suas histórias serviu como contraponto identificatório contra o padrão "canibal", antissocial e desumano de seu pai, endossado pela passividade de sua mãe.

Quando jovem, Anete, mãe de Míriam, era descrita pela filha como uma mulher mimosa, com um corpo lindo. Ela se apaixonou por Otávio, seu primeiro namorado, o único homem de toda a sua vida, que a fez sofrer como um "cão", mas a quem ela foi fiel até o final da vida. Era uma mulher miúda, que se conformava com tudo, que aceitava tudo na maior passividade. "Ela não parecia pertencer a esse mundo. Eu gostava dela, mas, às vezes, sentia raiva dela", diz Míriam. Ela costumava dizer: "ruim com ele, pior sem ele". Míriam detestava essa frase e dizia: "não aceito que ninguém me force a nada".

Quando criança Míriam fazia "turnê" nos presídios e nas delegacias. Conhece todos os presídios do Rio de Janeiro porque ia visitar seus irmãos. O mais velho foi preso aos 27 anos, após um assalto a carro-forte e ficou detido por 6 anos. Lá no presídio, ele sofreu duas rebeliões. Bateram tanto nele que entrou em coma. Na cadeia ele ainda conseguiu fazer o segundo grau: "ele trabalhou direito, passava roupa bem, cozinhava bem", dizia Míriam. Esse irmão chegou a comprar seu material de escola, numa ocasião. Ele conseguiu reduzir a própria pena porque estudava. O outro foi preso por vadiagem, pois foi encontrado desempregado, fumando maconha, aos 18 anos e solto aos 19 anos. Seis meses depois ele foi assassinado por causa de uma mulher do morro, com quem quis romper o relacionamento. Ele era bonitão, alto, cabelos castanho claros, olhos verdes e acabou levando oito tiros nas costas, quando a Míriam tinha 7 anos. Ela gostava muito dele e o visitava na prisão. O irmão mais velho foi assassinado por policiais, depois de ter sido solto. Ele havia ficado "abobalhado", de tanto apanhar, entrando em "pânico ao ver os policiais". Quando foi abordado por eles, já em liberdade, saiu correndo e foi baleado fatalmente, pelas costas. Um outro irmão presenciou esse assassinato e, embora ele estivesse bem empregado e seguisse uma vida honesta, diante dessa tragédia, decidiu mudar de vida e entrou para o crime organizado. Optou por uma carreira pesada de marginalização e ficou conhecido como um "super herói de bandidos", manejando armamentos pesados. Tornou-se um chefão e foi assassinado numa chacina onde 9 bandidos foram mortos, na cidade do Rio de Janeiro.

Miriam, ao contrário, sempre pensou que não pertencia a esse mundo marginal, ao ambiente do crime em que viviam os seus irmãos. Sempre disse para si mesma: "Eu não quero que meu filho nasça num ambiente de bandido, que seja filho de bandido, ou que faça opção por ser bandido. O bandido tem uma vida de sombra; tem que estar se escondendo; fica com medo de tudo. Prefiro que meu filho seja um doente mental que um bandido". Neste pensamento Míriam antecipava sua própria "sentença" inconscientemente selada. Ela foi capaz de ser resiliente a ponto de se proteger dos riscos do mundo infracional que a rondava. Mas não pôde ser resiliente para enfrentar as tensões psicológicas do desafio de se tornar mãe. Quando se viu gerando um bebê e depois segurando-o em seus braços, nela se instalou um conflito psíquico marcado pela recusa inconsciente de dar continuidade a sua própria descendência; por uma impossibilidade de ocupar o lugar da mãe, face à ambivalência de amor e ódio sentida na relação com sua mãe; em virtude do transtorno trazido pela presença de um filho homem, que perpassava a figura ‘canibal’ do próprio pai, e dos irmãos bandidos. Uma trama inconsciente para desfazer a ameaça intolerável de postergar uma geração inaceitável, inassimilável, apontou a "loucura" como solução, como forma de desconstruir a brutalidade e o horror de uma raça que não era digna de ser considerada "humana". Nas palavras de Míriam: "Prefiro que o meu filho seja um doente mental que um bandido".

Como num processo delirante, livre do "destino canibal" ou "do destino bandido", Míriam viu seu filho e a si mesma presas de um novo e implacável destino: o "destino da selvageria", "o destino da loucura", a perda completa dos sistemas de referência psicossocial que arrancavam de seu filho a chance de entrar na civilização, transformando-o num ser animalizado. Mãe e filho ficaram assim atados, por uma trama inconsciente, a um vínculo indiferenciado, que os tornava, a ambos, "selvagens". Como ela havia dito, "eram dois na selva", dois transgressores da história humana, duas mentes que se protegiam de um "vir a ser" tão tirânico, que parecia mais seguro continuar "não sendo". Mas essa aparente "solução" não se mostrou satisfatória aos olhos dessa mulher, de seu marido e do mundo a sua volta. No mais profundo desespero lhe ocorreu pensar numa "solução" que já havia passado por sua mente em outros tempos - a morte, para si e para seu filho, do mesmo modo que na adolescência havia pensado em acabar com sua vida para se livrar de um namorado bandido. As fronteiras da animalidade e da loucura lhe reacendiam o sofrimento intolerável de se ver novamente sem saída e sem solução. Assim, a maternagem psiquiátrica e o apoio do ensino especial que seu filho passou a receber no antigo CPPII, atual Instituto Municipal Nise da Silveira, produziram o efeito de "salvar" duplamente as duas vidas. Primeiro, por oferecer uma saída diferente da morte física para mãe e para o filho. Segundo, por apresentar alternativas que tiraram seu filho da "morte social" e o reintroduziram no mundo da vida, resgatando, por extensão, a própria mãe que pôde se reconstruir em novas bases.

Num dos trechos de sua entrevista, há cinco anos, Míriam dizia: "os pais dessas crianças como o Davi acabam virando um bicho-de-sete-cabeças e se tornando uma pessoa mais insuportável do que os filhos (...) Eu estava contribuindo para deixar ele pior, eu estava agindo errado demais com ele. (...) Se a gente não se cura dessa doença de dentro da gente primeiro (...) que machuca muito ... por dentro (...) pra depois tentar curar essa daí de fora, a gente pira." (Cavalcante, 1996, 219; Cavalcante, 2001, 135). Neste episódio, ela demonstra compreender que a dor "de dentro" era muito mais arcaica e profunda que a dor "de fora" experimentada em sua relação com seu filho e na interação de ambos com a sociedade. A "dor de dentro", a dor provocada pela violência, pelo abuso, pelo aniquilamento pessoal, atravessava a "dor de fora", produzindo confusão, indiferenciação e situações psicóticas. Para "tratar" dessa "dor de dentro", a área da saúde e da educação foram insuficientes. Foi necessário à Miriam, recorrer à espiritualidade encontrando apoio e orientação num grupo espírita, como será descrito mais adiante.

Eliseu começa a sua descrição genealógica pelos avós paternos. O avô Sebastião era uma pessoa que teve acesso a um bom emprego num banco alagoano, o que lhe dava o direito de morar gratuitamente numa casa, oferecendo conforto a uma família de seis filhos legítimos e mais um adotado. Após quinze anos de dedicação ao trabalho e de uma vida estabilizada, o avô começou a beber, o que lhe custou o emprego e a casa. Murilo, criado como filho adotivo, é filho legítimo de Sebastião, embora persistam dúvidas sobre quem seria a mãe, fato que, na família é descrito de modo nebuloso. Sebastião era negro e se casou com Amanda, um mulher de pele branca. Murilo, o filho adotivo, parecia a materialização viva de algum "delito" socialmente reprovável. O relacionamento com a madastra não foi bom. Acabou se ligando mais a uma irmã do que ao pai: "Minha vida é um rolo" diz ele, referindo-se à confusão em relação às suas origens e porque no seu registro de nascimento, colocaram a data de seu aniversário errada, com uma diferença de 11 meses da data real. O erro de informação foi atribuído à bebida do pai. Murilo foi expulso de vários colégios, na adolescência, por mau comportamento: demorou a aprender a ler, pois os estudos, para ele, ficaram associados à punição. Veio para o Rio de Janeiro com a avó e foi acolhido por uma tia, a quem considerava com carinho de mãe. Ele é o pai de Eliseu.

Eliseu se ressentiu ao perceber a rejeição e a divisão da família paterna, sofrendo na pele um tipo de discriminação que veio repassada de pai para filho, fato que não quer transpor para Davi. Em relação à linhagem materna, a avó, Marina, morreu cedo, deixando Tânia, mãe de Eliseu, ainda bebê, sendo criada pela irmã mais velha, que não só assumiu o lugar de "mãe"como passou a considerar Eliseu como neto. Tanto na raiz paterna quanto a raiz materna existe a vivência de "perda" em relação à figura da mãe e a presença de mães-substitutas. No lado paterno essa "falta" é agravada por dúvidas que pairam, deixando a identidade de uma criança à mercê de embolações: "minha vida é um rolo", já dizia Murilo, referindo-se às confusões em suas origens, "fotografadas" na defasagem de seu registro de nascimento.

Murilo se casou com Tânia, com quem teve três filhos, um dos quais faleceu ao nascer, havendo ainda mais dois adotivos. Apesar das dificuldades no estudo, chegou a ter dois empregos importantes de nível médio, um ligado a uma empresa de aviação, dando suporte operacional aos comissários de bordo; outro, na distribuição de um importante jornal da cidade do Rio de Janeiro. A queda de um caminhão, deixou-o com uma labirintite crônica e problemas do sistema nervoso, obrigando-o a se aposentar ainda novo, aos 38 anos. Desde então tem ficado confinado à própria casa. Só sai para ir ao hospital. Sua mais vívida lembrança vem do tempo em que foi exímio jogador de futebol.

Tânia aparenta ser uma mulher castigada pelo tempo e pela vida. Gosta de beber cerveja, de sair e adora cozinhar. Por causa da doença do marido teve que lavar roupa para fora e tomar conta de outras crianças, e assim, ajudar nas despesas da casa, tendo assumido uma sobrecarga maior na luta pela sobrevivência. Mas além do trabalho, ainda criou dois filhos adotivos, "primeiro por necessidade, depois o amor acabou chegando" diz.

Eliseu se considera mais parecido com a mãe que é uma pessoa calma. Tem o costume de guardar para si o que o aborrece, mas às vezes "explode". Como a mãe, também gosta de tomar cerveja, de ler jornal e de tomar conta do filho. Veio morar nesse conjunto habitacional aos 7 anos de idade, deixando para traz uma vida de extrema miséria num dos morros cariocas. Concluiu o segundo grau, mas não pode pagar uma faculdade e precisava começar a trabalhar. Fez o curso técnico de auxiliar de eletrônica, mas nunca trabalhou na área. Está no ramo do comércio de calçados há quase 20 anos.

Comparando as genealogias de Míriam e Eliseu, percebo que a história dela é mais densa em dor e sofrimento, a ponto de transbordar para sua vida adulta e "fervilhar" em sua cabeça. Por outro lado, a margem de sofrimento da família de Eliseu era vivida dentro de casa, com um pai que cedo tornou-se velho, vítima de uma doença crônica e incapacitante. A presença "estranha" de Miriam com um bebê pode ter adicionado um peso ainda maior a uma família que já se via às voltas com o transtorno de um homem "em estado de invalidez". Eliseu ao ter desejado ser pai ‘jovem’ parecia querer compensar a ‘velhice precoce’ da relação com seu pai, querendo construir com o filho uma relação cheia de vida.

Ambas as genealogias evidenciam conflitos "em relação às origens" com efeitos distintos: Eliseu busca um contato reparador com o filho e Míriam "fugia" dos "fatasmas" aterrorizantes da raiz genealógica. A bebida para ele é prazer e descontração; pra ela é pavor e martírio, fonte de atrito entre o casal.

3.5 O apoio segundo o Espiritismo: eu posso porque Deus está comigo

Eu tinha que ter 10 olhos, 50 braços e 40 pernas para acompanhar Davi

Denise é professora de música e coordenadora de artes do trabalho de evangelização feito com as crianças no Grupo Espírita André Luiz. Há oito anos atrás, ela estava prestes a concluir sua formação como professora de música e andava empolgada com a possibilidade de criar uma sala e colocar sua formação a serviço do processo de evangelização. A sala tão sonhada havia ficado pronta, com biombo, cortininha, instrumentos musicais, quando Míriam chegou ao Grupo Espírita, desorientada, desesperada, dizendo que até a igreja católica havia fechado as portas para ela e seu filho. Davi foi levado à sala do "maternalzinho", compatível com sua idade cronológica. Estava com 4 anos, naquela ocasião. Havia filtros de barro nas salas de aula. "A primeira coisa que o Davi fez foi enfiar a mão no filtro e, depois, só se viu filtro voando para tudo o que é canto", diz Denise. Os pais das crianças ficaram desesperados, todos ficaram desesperados. No final do dia os professores fizeram uma reunião, porque entenderam que o "problema" havia batido em sua porta e era preciso resolvê-lo. À época, o Centro não tinha psicóloga. Mas para eles uma decisão deveria ser tomada: "Não podemos mandar essa mãe embora". Denise tomou a palavra: "Eu já desisti de ter um cantinho de música mesmo, se vocês quiserem eu assumo. E vamos ver o que vai acontecer, né ? Eu vou pedir a Deus para me ajudar e nós vamos em frente." Pediu a Miriam que voltasse na semana seguinte, sem Davi, para conversarem.

"Acabamos fazendo aquilo que se chama de ‘anamnese’, uma entrevista em que ela nos contou desde o momento que engravidou até o momento em que Davi nasceu e começou a apresentar problemas. Seus problemas começaram depois de 2 anos, quando ele arrastou um sofá muito pesado. Miriam começou a perceber que ele tinha características diferentes das outras crianças", relata Denise. Conversaram muito, Denise deixou claro que ela não era profissional da área, é formada em biologia, sua primeira profissão, mas toda a sua vida vem sendo dedicada à educação. Se Miriam confiasse em Deus, ela poderia tentar. Então, perguntou: "Você confia em Deus ?" Míriam disse: "Confio". Ainda outra pergunta: "Você vai confiar na ajuda dos irmãos espirituais?" Ao que respondeu: "Vou". Concluiu Denise: "Então, por favor, me dê um voto de confiança que eu vou tentar fazer alguma coisa. Não me pergunte o que eu vou fazer, porque eu ainda não sei." Ficou combinado que Miriam iria trazer Davi, uma vez por semana, aos domingos.

Os primeiros dias foram cruciais, diz Denise, porque Davi batia em todo o mundo, se auto-agredia e agredia a mãe. Ao primeiro momento Denise chamou "a fase do namoro": "Tivemos uma fase de namoro, só que foi um namoro muito difcil, porque eu apanhei bastante. Levei muito na cara. Ele agarrava o meu cabelo e puxava. Na época o Grupo Espírita tinha uma sala em que faziam atividades com os bebês. E todo o trabalho era feito com farinha de trigo, anilina, porque se a criança puser alguma coisa na boca não lhe causaria dano. Denise se inspirou nesse trabalho e se dirigiu para o terraço onde ficava o seu "cantinho, com uma mesa e um teclado", a sua "sala de música". Nesse dia, o teclado estava guardado. Havia um casa de bonecas, um cavalo preto. Lá também estavam 4 potes de tinta que um evangelizador inadvertidamente deixou exposto, de uma semana para a outra, aberto, e a tinta acabou apodrecendo. Davi era dono de uma rapidez e uma agilidade imensas, comenta. "Eu tinha que ter 10 olhos, 50 braços e 40 pernas para poder acompanhar o ritmo dele. Ele pegou os potes e derramou toda aquela tinta podre pelo chão do terraço, deixando um fedor, um mau cheiro insuportáveis, narra. "Todos colocaram a mão na cabeça", enquanto ela se perguntava: "Meu Deus o que eu faço?" Olhou para o Davi, que lhe correspondeu com o olhar e disse: "Davi jogou no chão, não jogou? então Davi vai limpar". O chão era feito com placas de cimento e sulcos. Denise e o menino passaram a manhã inteira nessa tarefa de limpeza: esta foi a sua primeira aula. "As pessoas ficavam de ‘cabelo em pé’ e vinham me questionar: ‘você não tem medo do que vão falar, isso é uma casa de caridade!". Mas a professora respondia: "mas caridade é educar, educação é caridade". No final da aula fizeram uma prece, agradeceram a Jesus pelo dia e Davi foi embora.

O modo como a criança chegava, nas vindas subseqüentes era um terror, conta Denise: "Ele agarrava o meu cabelo a ponto d`eu ir ao chão." Toda a vez que me batia, eu lhe dizia: "Davi gosta de apanhar?", olhando bem nos seus olhos. Ele retrucava: "Davi não gosta". "Denise também não gosta", dizia, tirando a mão do pequeno de seu cabelo. De vez em quando ele chutava uma criança, o que deixava os pais muito agitados. Várias vezes, Denise foi até a frente, no salão, para dizer que ajudar aquele menino também era uma forma de fazer caridade. Pedia aos pais que cuidassem para que seus filhos não ficassem perto dele porque aquela criança não tinha controle sobre o que fazia.

Numa outra vez, havia outros potes de tinta guache expostos na sala. Davi fez menção de ir apanhá-los, quando Denise lhe observou: "Você quer jogar as tintas no chão? Se jogar, vai limpar". Davi não jogou. Assim foi sendo criada uma empatia entre os dois para que um trabalho educativo efetivo pudesse nascer. Então, a jovem professora começou a pesquisar as coisas de que Davi gostava. Ela trazia vários brinquedos e observou que, por exemplo, ele adorava dinossauros. À medida em o foi conhecendo melhor, tornou-se possível planejar algumas aulas para ele, dentro dos padrões da evangelização, porém, de modo que ele pudesse desenvolver sua sociabilidade e o potencial que tinha dentro de si. "Eu tinha certeza que ele tinha muito potencial dentro dele, eu só não sabia como aproveitar tudo aquilo, porque eu não tinha experiência nenhuma, na época", comenta Denise.

Denise descobriu que Davi gostava de morangos. Confeccionaram juntos iogurte de morango, mas o menino não gostou. Então foram até a cozinha planejar outras formas de prepará-lo. Na cozinha as pessoas o trataram como coitadinho. Denise lhes disse: "coitandinho é o filho do rato que nasce pelado, deve sentir um frio danado e não tem como botar o cobertor". Não se deve ter pena, reflete a educadora:"Tudo o que fazemos tem conseqüências e é preciso lidar com as conseqüências". Na ocasião, Davi e Denise fizeram uma verdadeira "festa" de morango com creme de leite. Depois era a hora de lavar tudo, deixando tudo limpo, lhe ensinava Denise.

Davi quebrou um vaso de plantas. "Muito bem, Davi quebrou o vaso, então vai consertar o vaso". A educadora pediu que seu marido comprasse um outro idêntico e, na semana seguinte, lá estava o vaso em condições de ser "recriado". Eram os limites que estavam sendo trabalhados. Ela observava, curiosa, que em nenhum momento o menino se recusava a fazer as ações reparadoras. Denise, na verdade, estava dando continência aos ataques destrutivos de Davi, ajudando-o a reestruturar-se, num processo de maternagem pacientemente conduzido. O menino, por sua vez, precisava daqueles limites como um parâmetro reorganizador. Nesse caso, lá estavam o vaso, a terra, a planta, a metáfora do "menino selvagem" que precisaria ser replantado, num solo seguro. "Ai eu peguei e botei a plantinha no vaso e começamos com a pazinha a colocar a terrinha no vaso. E foi a coisa mais gratificante pra mim, porque ele nunca mais jogou. Ninguém tocava naquele vaso, porque aquele era o vaso que o Davi fez. Então saímos pela escola inteira, mostrando o vaso que Davi havia plantado", comenta.

Denise passou a confeccionar tinta, como fazia para os bebês, e durante dois a três anos conduziu um trabalho individualizado com o menino: "ninguém se aproximava da gente, se chegasse perto ele atirava o que estivesse a seu alcance em cima da pessoa". Neste momento, "a sala de música passou a ser o nosso espaço, onde qualquer invasão era rejeitada", acrescenta Denise. Consciente do clima psíquico que havia se estabelecido, ela orientou as pessoas a não interromperem suas atividades. Intuitivamente, construiu um vínculo simbiótico com Davi, refazendo o percurso subjetivo do elo mãe-bebê. É bom lembrar que Davi só começou a ser trabalhado no CPPII e na Escola Especial com 5 anos de idade, um ano depois de ter iniciado o trabalho no Centro Espírita.

Denise dispunha de uma casa de brinquedos de dois andares que ela mobiliou: colocou jogos de sala, quarto, cozinha e banheiro e os bonecos que representavam a família. Paralelamente, seus pais estavam tendo alguns problemas relacionais e o Centro havia lhes oferecido algum apoio. A professora percebeu que o menino falava pouco do pai. Começou a elaborar com ele um trabalho de reconstrução da família. Tudo foi acontecendo bem lentamente. O recurso das histórias grandes, coloridas e bem chamativas também foi usado. Davi começou a aceitar a fazer trabalho com tinta. Após três anos de abordagem individual, quando Davi já estava com 6 ou 7 anos e apresentava grandes progressos, Denise começou a perceber que o vínculo de dependência entre ela e Davi precisava sofrer mudanças. Como ele nunca falava em seu pai, intuitivamente ela suspeitou que chegara a hora de introduzir o "pai" nessa relação "mãe-bebê". Convidou um pai de outra criança, Lúcio, que já trabalhava com ela no coro do Centro, para trabalhar com ela e Davi. Informou que seria uma experiência na qual aprenderiam juntos. A entrada do Lúcio pôs o trabalho numa certa "estaca zero". O efeito inicial foi o de uma pessoa estranha invadindo o espaço. "Era preciso recomeçar o namoro". No início ele ficou agressivo, mas com o tempo foi aceitando a presença do Lúcio: "então passamos a ser três". Até esse momento, o pai do Davi ainda não havia aparecido no Centro, depois passou a vir algumas vezes.

A seguir, Denise teve a idéia de experimentar um trabalho relacionado com bebês. Ela se interrogava porque Davi agredia as crianças maiores e qual seria a sua reação com os pequeninos. Ao se aproximar da sala onde ficavam os bebês, o menino lhe disse: "Davi quer brincar". Denise o orientou: "Davi, a gente tem que tirar o sapatinho, porque eles são muito pequenininhos e a gente não pode pisar no colchãozinho de sapatinho". Prontamente, Davi tirou seus sapatos e foi entrando. As meninas que cuidavam dos bebês arregalaram os olhos. "Pode deixar", afirmou Denise em tom de autoridade. Então, ela começou a lhes mostrar: "Olha, Davi, que bonitinho! Olha como eles são pequenininhos. Olha o tamanho do pezinho deles, Davi. Eu fui fazendo aquilo ... E o Davi foi mostrando um lado tão meigo, tão carinhoso... Foi muito engraçado nesse dia... Todo mundo chorou... Ninguém esperava o carinho dele para com os bebês ... Foi um momento de emoção incrível... Eu pensei: ‘a gente está evoluindo, de alguma forma estamos evoluindo’", assim descreve Denise esse lindo e marcante momento. A partir daquele dia, Denise e Davi passaram a fazer visita aos bebês. Num dia, ele quis segurar um bebê em seu colo. A mãe ficou olhando, assustada. Denise perguntou: "Você vai cuidar dele com carinho para a tia? Ele é muito pequenininho". Davi o pegou no colo. Nessa hora, era o "bebê" Davi que ia sendo reconstruído e se humanizava.

Desde então, Davi passou a ser incluído, no momento da merenda, junto a todas as outras crianças. As pessoas ficaram apavoradas. No princípio, era um só prato de canjica e uma só colher compartilhados entre a educadora e ele, até Davi ir se diferenciando. "Havia gente que torcia o nariz", acrescenta. Depois passaram a ser duas colheres e um prato. Por fim o "pai" simbólico, o Lúcio, passou a merendar ao lado, com eles. O menino ficava no meio, Denise de um lado, Lúcio do outro, lhe dando continência afetiva, ao mesmo tempo em que serviam de anteparo, no risco de um repentino ataque agressivo. Para participar do lanche era preciso "tolerar" esperar na fila. A professora teve a idéia de lhe ensinar uma canção, para contê-lo durante a espera. Sabendo que ele adorava passear com sua mãe na Quinta da Boa Vista, começou a cantar-lhe: "A tartaruguinha anda devagar, ela faz carinho, ela faz carinho [ao mesmo tempo em que Denise lhe fazia carinho com gestos], ela sabe amar". Essa música também foi incorporada num teatrinho de fantoches. Havia então o momento que a tartaruguinha ia cuidar dos outros animais, uma música criada em parceria com o Davi. Na ocasião, Davi gostava muito das "Tartarugas Ninja", um seriado americano e chegou a ter uma festa de aniversário com esse tema. Ela percebeu que, nas vezes em que ele chegava agitado, se cantasse essa canção, ele ia se acalmando: "Essa canção passou a ser um hino para nós".

Na medida em que se desenvolvia, começou a haver uma pressão, feita pelas psicólogas que já estavam inseridas no trabalho da evangelização, para que Davi entrasse em sala de aula. Denise percebia, intuitivamente, que ainda não era a hora e pediu que as pessoas respeitassem o seu trabalho: "não sou psicóloga, não tenho o menor interesse de entrar na área de vocês, mas ele não vai entrar em sala de aula". O trabalho de inserção da figura paterna ainda não havia se concluído. Em dado momento, o Lúcio precisou ir embora, sair daquele trabalho. Denise teve a idéia de organizar uma festa e construir uma justificativa de que o Lúcio precisaria viajar. Essa preparação foi feita com bastante antecedência. Denise começou a inventar histórias sobre quando as pessoas viajam e vão conhecer pessoas novas. Mas ela precisaria incluir outra pessoa com perfil para esse trabalho. Nesse momento, entrou para a escolinha de evangelização um menino portador de uma síndrome rara, de difícil diagnóstico. A mãe estava com câncer e não sabia que estava grávida. Havia sido submetida a uma série quimioterápica, com conseqüências para o seu bebê. Ele nasceu com hidrocefalia e algumas anomalias físicas e já havia sido submetido a 17 cirurgias no cérebro. A educadora Denise percebeu que o pai dessa criança era um "paizão". Ela intuiu que esse lado "paizão" poderia ajudar Davi. Ele aceitou o desafio e, no final, o trabalho acabou beneficiando a ambos. Numa festa do Centro esse senhor comentou, certa vez, o quanto sua doação havia sido importante, auxiliando-o a pensar sua relação com o próprio filho. Denise acredita que essa sua intuição foi guiada espiritualmente. Em sua visão, caridade não é apenas "doar", mas é sobretudo "dar de si", por isso o trabalho funcionou. Acredita que seu esforço teve a inspiração de espíritos amigos: "Talvez tenha sido algum espírito de psicólogo", concluiu.

Falando de si, Denise partilha sua compreensão: "Só entende a dor do outro, quem sente dor (...) A minha vida foi cheia de processos dolorosos. Eu sempre vivi muitos processos de doenças. Eu tenho um organismo comprometido. Por isso eu digo: ‘não entende a dor do próximo quem não passa por ela’ (...) Eu valorizo muito essas mães, eu valorizo muito essas crianças, porque eu sei de suas limitações (...) Mas sei que elas também tem momentos muito lúcidos. O Davi tinha momentos em que falava coisas muito lúcidas".

No momento em que eu a entrevistava, Denise havia saído de uma internação hospitalar prolongada, de muitos meses, em que passou um processo de coma. Estava numa fase de recuperação. Foi uma delicadeza imensa de sua parte me receber e partilhar esse bonito trabalho: a transformação de um menino selvagem num pequeno cidadão, quando Denise teve a coragem de mostrar para todos, inclusive para Davi, que ele tinha condições de fazer parte da história de nossa civilização. Era possível sim, entrar no território dos bebês, para conhecer toda a sua ternura; fazer a dança da tartaruguinha para aprender a esperar na fila; reconstruir um vaso e zelar por uma plantinha, entre tantas outras coisas.

Quando apareceu o Ricardo, o pai do outro menino especial, a quem me referi antes, Denise percebeu que chegara a hora dela "sair de cena". Era o momento do "pai" simbólico entrar por completo e da "mãe" simbólica se retirar. Davi estava com 7 anos nessa ocasião. Ricardo ficou trabalhando com Davi por um ano. Com 8 anos já foi possível integrá-lo no grupo de crianças de sua idade. Paralelamente, ele estava sendo integrado em classe regular, pela primeira vez, dentro da rede pública de ensino. Apoios sociais inteiramente distintos que se complementavam e se sincronizavam no tempo e no espaço. O processo de integração de Davi foi feito com a participação inicial de Ricardo, completando assim o processo de reorganização afetiva, em relação à figura materna, à figura paterna, com a apresentação do mundo ao "filho". "Quando chega ao estágio do desenvolvimento em que consegue perceber a existência de três pessoas, ela própria e duas outras, a criança encontra, na maioria das culturas, uma estrutura familiar à sua espera. No interior da família, a criança pode avançar passo a passo, do relacionamento entre três pessoas para outros mais e mais complexos. É o triângulo simples que apresenta as dificuldades e também toda a riqueza da experiência humana" (Winnicott, 1990, 57).

Feliz pelo sucesso alcançado, Denise comenta: "Para a surpresa de todos, pasmem se quiser, a evangelizadora ficou assim apaixonada, porque ele era o aluno que mais participava, respondia a tudo o que se perguntava, prestava a atenção em todas as histórias e trabalhava como todas as crianças". A evangelização é feita uma vez por semana, aos domingos, durante uma hora e meia. Os pais recebem orientação em paralelo, através de palestras. O mesmo tema é abordado com pais e filhos, sendo adaptado à idade e linguagem de cada faixa etária.

Desde então, Denise passou a ser procurada, no Centro, para ajudar outras crianças especiais. Ela concluiu seu curso de música e continuou se colocando a serviço de uma atividade não apenas evangelizadora, um processo de reconstrução pessoal, social e espiritual de pessoas, um verdadeiro espaço de construção de cidadania. Impressionada com a qualidade da riqueza humana e da reinvenção da saúde e da vida que encontrei nesse trabalho, fiquei intrigada por conhecer o lado "oculto" da motivação desse processo, sua dimensão espiritual. Denise confidenciou-me: "Eu tive um sonho em que um grupo de pessoas estava reunido no André Luiz. Num determinado corredor, que leva até a cozinha, não tinha as salas, havia dois parques de diversões. Um deles parecia uma praça com o rema- rema. No lado direito, neste brinquedo, havia crianças e o lado esquerdo estava repleto de espíritos horrorosos. O Davi vinha de mão dada comigo. Ele solta de minha mão e vai em direção a eles. Eu grito: ‘não Davi, você não pode". Ai eu entrego o Davi para uma de minhas irmãs, porque eu tenho duas irmãs. E vou em direção aos espíritos. Minha irmã disse: ‘não vai, só quem pode com eles é a mamãe!’ Minha mãe, minha mãe terrena. Aí eu falei: ‘não, eu posso porque Deus está comigo e, se Deus está comigo, eu posso. Quando falo: eu posso, meu peito estufa feito pombo. Meu peito cresceu de uma forma, como se o meu coração estivesse se dilatado, e ficasse uma coisa imensa. Então, eles investiram todos contra mim. O impacto foi tão grande que eu acordei".

Sem a menor pretensão de explicar esse lado "oculto", tema tratado pelas religiões e aqui, particularmente, pelo espiritismo, numa dimensão que foge do objetivo deste trabalho, comentarei o sonho de Denise, articulando-o à narrativa do caso de Davi. Parece-me plausível fazer uma associação entre "espíritos horrorosos" e a linhagem dos "canibais", característica atribuída à descendência de Davi. O conflito psíquico e inconsciente de Miriam visava proteger o filho do risco de ser ‘capturado’ pelos horrores de sua genealogia, tornando-se reprodutor de uma ‘raça canibal’. Para escapar do risco de gerar e dar continuidade a uma ‘raça maligna’, a solução do seu inconsciente foi "não ser", o que desembocou na loucura. Curiosamente, o trabalho de reconstrução afetiva, social e espiritual do Davi, necessitou de um ‘espírito’ guerreiro, forte, com um coração capaz de se dilatar a ponto de ter meios de enfrentar todo o mal, que os espreitava, ao filho e à mãe, pela ameaça dos ‘espíritos horrorosos’ de sua própria descendência. Esse sonho representa, do ponto de vista inconsciente, a vitória do bem sobre o mal, do amor sobre a maldade e crueldade, e a possibilidade de dar uma outra solução ao conflito inconsciente de Miriam. Uma ‘cavaleira do bem’ pode entrar nessa arena do ‘mal’, e evitar que o filho Davi corra na direção dos ‘espíritos horrosos’. Sua protetora, com a ajuda absoluta de Deus, teria força suficiente para contrarrestar as forças do mal. Simbolicamente, Davi foi liberto de um destino maligno, protegido pelas força do amor.

Na realidade, Davi foi duplamente liberto: das forças do "mal" e da "loucura". Graças ao amor, ao afeto, ao acolhimento social, lhe foi dada uma chance para mostrar sua ternura e a possibilidade de se transformar. Ele foi liberto da "loucura", por meio de um trabalho institucional, coletivo e profundamente individualizado que envolveu um centro espírita, um hospital psiquiátrico e a rede escolar. O sucesso desse caso, dependeu da união entre a espiritualidade, uma compreensão muito profunda da saúde e do processo educativo e da insistência da família, sobretudo da mãe. Curiosamente, este caso levanta uma "polêmica" que explicito mais como uma provocação: Será que os conflitos psíquicos podem se solucionar fora do divã do analista? Será que as instituições sociais ‘encarnadas’ na cultura, com seus saberes e práticas, podem "inventar" soluções para conflitos inconscientes no "cantinho" do social?

Visita ao Grupo Espírita André Luíz

Nas primeiras horas de uma manhã de domingo, chego com Miriam e Davi ao Grupo Espírita André Luíz, em São Cristóvão. Num amplo salão, à direita, as crianças iam se sentando e se enfileirando ao lado das respectivas evangelizadoras. À esquerda acomodavam-se os adultos. À frente o marido de Denise começava a tocar violão e a cantar várias canções religiosas, no estilo de cantigas infantis. Denise, ao lado de seu esposo também cantava e orquestrava todo aquele momento de acolhimento festivo. Um Bom Dia! "fraco" era repetido até se tornar um Bom Dia! "forte". Foram 30 minutos de animação, uma música após outra, em que as crianças faziam gestos expressivos e simbólicos, "dramatizando" com o corpo e a voz o sentido dado a cada pequena canção. Davi participava de tudo. Miriam me confidenciou que ele tem suas músicas preferidas e acrescenta: "Esse lugar silencioso, esse lugar pacífico me ajudou muito... Hoje todos se surpreendem ao ver como o Davi melhorou". Em momentos de silêncio o menino ficou compenetrado e quieto, com um ar sério, demonstrando uma certa introspecção, parecendo orgulhoso de si, por estar ali, lado-a-lado com as demais crianças, em pé de igualdade. Chega a hora da evangelização e Davi seguiu com seu grupo para a sua sala.

Eu permaneço com Miriam no salão onde será proferida uma palestra. O palestrante esclarece que o tema: "Ceu, inferno, purgatório, expiação e arrependimento", está ligado ao módulo anterior e a idéia hoje seria introduzir o tema "Jesus". Fala em tom reflexivo e mais ao final convida os ouvintes a participarem com perguntas e opiniões. "Há um erro ao se ensinar que se deve ser ‘bonzinho’ ou, caso contrário, se vai para o ‘inferno’. Se pensarmos assim, acertar ou errar vai pesar, e iremos sentir culpa. O céu, na verdade, é um estado de consciência, não é um espaço físico, como propagam diferentes religiões. Historicamente o espiritismo já foi considerado religião dos ‘demônios’. As religiões podem ser vistas de diferentes maneiras e isso pode gerar confusão na cabeça das pessoas, sobretudo na cabeça das crianças. A família muitas vezes pode ensinar diferentes formações religiosas para as crianças. O ponto crucial é a aplicação da vida religiosa, o que vale é o exemplo. A vida em sociedade anda difícil e nos coloca sempre a questão:‘como podemos orientar nossos filhos?’ Mais do que aquilo que falamos, aquilo que vivemos influencia nossos filhos. É preciso cuidar para não cair na intolerância religiosa. Como dizia Kardec: ‘O importante é o esforço em dominar as suas má condutas’. É preciso valorizar o acompanhamento dos filhos, o diálogo no dia-a-dia. A vantagem da evangelização é a possibilidade de convivência num ambiente espírita. Os valores morais precisam ser trabalhados. A educação religiosa é um valor importante. Hoje em dia ser espírita é ser ‘anormal’. Dentro do indivíduo existe uma semente do bem que vai se desenvolver".

A palavra "daimon", que deu origem a "demônio", na Antigüidade, não era tomada no mau sentido, como ocorre hoje, na era moderna. Referia-se a todos os espíritos de uma maneira geral. Havia a distinção entre os Espíritos superiores, os deuses, e os Espíritos menos elevados, os demônios. O termo "demônio" foi substituído pela noção de "espírito", na Doutrina Espírita. "O Espiritismo diz que os Espíritos povoam o espaço; que Deus não se comunica com os homens senão por intermédio dos Espíritos puros encarregados de transmitirem suas vontades; que os Espíritos se comunicam com eles durante a vigília e durante o sono" (Kardec, 1991, 27). O Espiritismo vê a ciência e a religião como duas alavancas importantes da inteligência humana e acredita que uma é complementar à outra. Essas duas correntes ainda não se entenderam, até hoje, segundo Allan Kardec (1991), porque cada uma examina as coisas apenas e exclusivamente do seu ponto de vista. Avanços na evolução da humanidade poderão alterar essa relação e mostrar os intercâmbios possíveis entre ambas. "O Espiritismo é a nova ciência que vem revelar aos homens, por provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual, e suas relações com o mundo corporal; ele no-lo mostra, não mais como uma coisa sobrenatural, mas ao contrário, como uma das forças vivas e incessantemente ativas da Natureza. (...) Da mesma forma que Cristo disse: ‘Eu não vim destruir a lei, mas dar-lhe cumprimento’, o Espiritismo diz igualmente: ‘Eu não vim destruir a lei cristã, mas cumpri-la’. Ele não ensina nada contrário ao que Cristo ensinou, mas desenvolve, completa e explica, em termos claros para todo o mundo, o que não foi dito senão sob a forma alegórica" (Kardec, 1991, 36).

E a palestra continua : "O corpo é perecível, o espírito é imortal. Todos estamos interligados num só tempo. Ainda precisamos da distinção: presente, passado e futuro. Continuamos sendo aqueles mesmos ‘sepulcros caiados’ cheios de podridão por dentro. Não eliminamos a guerra de palavras e de poder. Jesus é o maior pedagogo que conhecemos. A vida de Cristo é um marco profundo na história: antes e depois dele (...) O ponto alto de Jesus é o seu ensinamento das parábolas (...) A lição maior de Jesus é: ‘Amai-vos uns aos outros como Deus nos ama. Amai ao próximo como a ti mesmo. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.’ Evangelho quer dizer boa nova, boas notícias.. O que interessa é o gesto de Jesus, é a descida de Jesus até nós. Nós nos impregnamos ainda daquele magnetismo daquela época. Quando Jesus nasceu não houve nenhuma ceia. O pastor supremo nasce numa manjedoura. Ele se irmana com todos os seres da criação. (...) Nenhum profeta saiu ileso deste mundo.(...) Se buscarmos as parábolas, todas falam a nossa história. Jesus usou as coisas de sua época. Não traz uma palavra difícil. Todas as suas palavras são fáceis. Ele é o jardineiro das almas; é o médico que vem para os doentes; é o sábio dos sábios (...) Vamos renascer mais fortes. O mestre dos mestres usou a cátedra da natureza. O reino dos céus é como o fermento que se põe no bolo, e a massa cresce (...) Jesus é nosso amigo incomparável". Miriam escutava atentamente cada palavra e permanecia em sintonia com o ambiente favorecedor de processos de "cura" para as doenças da "alma".

Este espaço religioso e doutrinário não apenas auxiliou Davi a ser reorganizar, mas também ajudou Miriam a fazer muitas reflexões sobre sua vida e sobre o relacionamento com seu filho. Nesse "espaço silencioso" ela encontrou uma continência para poder silenciar e aquietar tantas coisas que fervilhavam em sua mente, sem meios de serem absorvidas, elaboradas e escoadas. Aqui, Miriam encontrou novas referências pautadas em princípios morais, éticos e religiosos, no valor à vida, no respeito ao próximo, na consciência e no entendimento do sofrimento. Alimentada por reflexões e orientações, socorrida em seu desespero, acolhida de modo incondicional, a mãe encontrou um território seguro onde podia encontrar algum consolo, para "tratar" das dores de "dentro", as feridas e marcas profundas de quem foi vítima de intenso abuso e violência. Serenando o sofrimento interior seria possível cuidar das dores "de fora", do relacionamento com seu filho, dos seus embates sociais, onde a "loucura" ganha visibilidade, por um lado, e é rechaçada, por outro.

Neste Centro, Miriam descobriu a consistência das palavras: ‘Deus não desampara nunca, mesmo nas condições mais extremas’. Encontrar um espaço de amparo verdadeiro era algo profundamente reparador para uma pessoa como Miriam, que havia vivido circunstâncias tão radicais de desamparo, como, por exemplo, ter que dormir dentro de um tanque para se proteger dos ratos e da animalidade do próprio pai. "O sofrimento é inerente à imperfeição", enunciado que a levou a refletir sobre as causas e as razões espirituais para o sofrimento de toda uma vida, reflexão que não apaga, mas minimiza o sofrimento, consola, dá algum sentido a ele. Tomando como base os preceitos espíritas, Miriam diz: "tudo o que acontece aqui nessa vida é uma questão de justiça de Deus. Tudo o que ocorre é em função de uma justiça divina. Não deveríamos nos zangar, nem nos revoltar. Ainda assim, acho muito difícil não me zangar e não me revoltar". A busca de um sentido para a vida, de um sentido para tudo o que lhe aconteceu, tudo o que lhe marcou é algo que a religião espírita lhe dá parâmetros para pensar e amenizar a revolta e a raiva mal contidas.

Miriam, nesse espaço, encontrou caminho alternativo ao "suicídio" e à "loucura". "A calma e a resignação, hauridas na maneira de encarar a vida terrestre, e na fé no futuro, dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos de loucura são devidos à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem força de suportar; se, pois, pela maneira que o Espiritismo lhe faz encarar as coisas deste mundo, ele recebe com indiferença, com alegria mesmo, os reveses e as decepções que o desesperariam em outras circunstâncias, é evidente que essa força, que o coloca acima dos acontecimentos, preserva sua razão dos abalos que, sem ela, o sacudiriam" (Kardec, 1991,79).

3.6 A inclusão escolar favorecendo a cura

Escola Municipal Dr. Ulysses Pernambucano: socializar para integrar

Mariusa, atual diretora, quando chegou pela primeira vez na Escola Municipal Dr. Ulysses Pernambucano nunca havia visto uma criança psicótica: "não passava pela minha cabeça que uma criança pudesse adoecer nessas condições", acrescenta. Já trabalhara em áreas de residência da população pobre e sempre gostou de desafios. Hoje diz que aprendeu muito na prática com as crianças das camadas populares, pois elas são as que mais ensinam, desde que se acredite nelas.

Tendo sido a primeira professora que recebeu Davi, Mariusa comenta: "Davi era uma criança hiperativa. Ele chegou aqui e ficava no máximo 20 minutos. Jogava os brinquedos e o que estivesse a seu alcance em cima do ventilador, com uma rapidez danada. Eu ficava embaixo da mesa, com as outras crianças, com medo que aquilo caísse em cima de nós. Ele era uma criança muito rápida. Eu tinha que dar conta dele e de mais duas crianças que estavam no jardim". O início do trabalho foi muito difícil, diz Mariusa. Ele rasgava todos os murais da escola. Num dos cartazes havia sido colocado um gnomo com barba, ele o destruiu. Mariusa lhe dizia: "Por que você fez isso com o vovô? Não se faz isso, no vovô se faz carinho. Ai eu comecei um trabalho nessa parte afetiva. Então, eu começava a alisar aquelas figuras dos gnomos e dar beijinho. Depois disso, ele nunca mais rasgou os murais". Davi começou a apresentar o hábito de lutar. Tudo para ele era luta, queria lutar com as outras crianças, o que o deixava agitado. Derrubava a criança e puxava o seu cabelo. Com as meninas de cabelo comprido, ele se agarrava neles e as arrastava até o chão.

O menino chegou à escola com cinco anos e falava muito rápido. Mariusa percebeu que ele era uma criança inteligente. Com o tempo, o seu comportamento foi melhorando, de tal forma que conseguia ficar todo o horário previsto para o turno da manhã, até as 13:00 horas. Possivelmente, não apenas ele foi se adaptando, mas a escola também foi se adaptando e criando melhores condições para a sua permanência. "Haja pernas para correr atrás do Davi, quando eu ia ver ele já tinha fugido para o Clube e quando eu chegava lá ele já tinha derrubado a secretaria toda", comenta Mariusa.

O Clube Escolar e o Núcleo de Artes compõem outro espaço que existe dentro dos muros do CPPII e oferece atividades de arte, dança, música, artesanato, entre outras, para usuários e familiares em tratamento no hospital e para crianças e jovens da rede regular de ensino, complementando o curriculum escolar com alternativas lúdicas. Localiza-se exatamente em frente, a poucos metros da escola, facilitando a mobilidade do menino até lá.

Mariusa ficou particularmente intrigada com essa mania de luta de Davi e foi conversar com a mãe. Ela lhe contou que o nome "Davi" (ou seja, o nome verdadeiro, porque "Davi" é apenas um pseudônimo) foi escolhido em homenagem a um guerreiro, e extraído de uma história espírita. Em outra oportunidade, Miriam disse-me, em detalhes, a história do nome de seu filho: " ‘Davi’ foi um homem que reencarnou numa época em que havia lepra e as pessoas permaneciam isoladas e afastadas da sociedade, jogadas em cavernas. A família de Davi era feita por fidalgos, pessoas de posse. Porém, eles pegaram lepra e perderam todos os seus bens. Davi foi o único que não pegou a doença, pois ele era forte. Mas ele foi colocado como escravo, levado a remar dentro de navios, e posto para lutar dentro das arenas. Ele sempre vencia, sofria mas não se deixava morrer. Um dia ele viu o Cristo passar por entre a multidão. Ele se aproximou e pediu ao Cristo a cura da doença que acometia a sua família. Cristo curou toda a sua família e ele conseguiu se libertar". Na escolha do nome, explicita-se o conflito inconsciente da mãe, de uma geracionalidade "doente", "comprometida", "contaminada", reaparecendo numa outra versão. Aqui a ameaça do "instinto canibal" que também deforma a natureza humana, apresenta-se sob a forma de "lepra" uma doença que deforma o corpo físico. No mito, Davi consegue ficar livre da doença "maligna" de sua descendência, porém toda a sua força, todo o seu vigor fica escravizado por uma luta sem fim, que a todo instante ameaça sua vida e sua integridade física. O herói Davi está aprisionado ao destino de eterno lutador, eterno guerreiro contra as forças do "mal", do mesmo modo que o menino permanecia prisioneiro da loucura, numa luta insana contra tudo e contra todos. O "motivo" dessa luta mortífera, o menino desconhecia, pois foi projetada para ele, sem que tivesse meios de elaborá-la. No mito, somente uma força muito poderosa, somente a presença de Deus vivo, o Cristo, poderia "curar" a "doença contagiosa" que atingiu a descendência, libertando o herói Davi de sua escravidão. Tanto quanto o mito trazia a síntese do conflito inconsciente e a sua solução, Miriam ao levar o menino para ser cuidado por um Centro Espírita, em sua fantasia inconsciente, poderia estar em busca de forças divinas para fazer face a todo o "mal" que o ameaçava. Como no mito, Cristo curava e libertava o herói Davi; também na vida, Denise, por ser a portadora da presença de Deus, pôde "libertar" o menino Davi de sua loucura: "eu posso porque Deus está comigo e porque Deus está comigo eu posso", enfatizando duplamente a sua força e a sua fé. Mas ela não o fez de um modo "milagroso". Ela o fez através de um trabalho gradativo que se pautou num acolhimento incondicional, dentro de uma lógica da caridade, baseada num ‘dar de si’, em que agregou valores religiosos e sensibilidade a sua experiência como educadora. Na verdade, essa "cura", envolveu o imbricamento de muitas forças, encarnadas em diferentes práticas sociais.

Será importante ressaltar que uma fantasia inconsciente da mãe, ou seja, a projeção mental de instintos e desejos que existem desde o começo da vida, conforme definição Keininiana de fantasia apresentada por Soifer (1992), pode atuar como um desejo alucinatório projetado maciçamente no outro. O conflito de geração de Miriam, em relação a sua origem, foi projetado em seu filho, de um modo psicótico. Almeida Prado (2000), a partir do conceito de psicose branca de Donnet e Green (1973), propõe que na circunstância psicótica, a psicose é branca nos pais e o filho acaba sendo a expressão desta psicose, como um distúrbio muito sério da ordem do pensamento que se manifesta na "relação do sujeito com o outro e de sua relação com a realidade. A recusa da realidade implica em se articular de uma tal maneira que algo que foi percebido, vivido ou ressentido, seja como se nunca o tivesse sido, o que compreende uma anulação profunda e grave do afeto e da percepção, com efeitos poderosos e devastadores" (Almeida Prado, 2000, 146).

A noção de "psicose branca" se refere a uma área da personalidade que ‘esconde’ uma parte fragmentada do ego, enquanto a parte neurótica, seria aquela parte do ego que se desenvolveu normalmente, tendo adquirido as aprendizagens pertinentes para a sua idade (Soifer, 1992). Almeida Prado (2000), explica a visão de Bion (1967) de que uma personalidade psicótica esconde, em si, uma cisão neurótica com sua psicose, e, por sua vez, numa neurose grave existe uma parte psicótica escondida pela neurose. A partir desta teorização de Bion, a autora esclarece que Donnet e Green (1973) denominaram "psicose branca" ao lado psicótico escondido pela neurose. A psicose branca, ou seja, uma psicose que não aparece, esconderia uma agonia primitiva, o medo de uma vivência de desmoronamento já ocorrida no início da vida, mas que não pode ser representada pelo ego. Assim esse detalhe do passado passa a ser projetado como elemento do futuro, deixando o indivíduo não apenas com medo de desmoronamento, mas com medo da morte. A ameaça a um ‘eu’ não maduro o suficiente para experimentá-la, toma o sentido de aniquilamento. "Essas vivências muito arcaicas podem ser atualizadas quando do nascimento de um filho, um em especial; como um resto diurno - na verdade, um ‘resto geracional’ - ele se vê em conexão mais ou menos longínqua com aspectos inconscientes de seus pais, veiculados pelo mitos familiares, que se apresentam então como uma tentativa de estruturação de um mundo destruído em decorrência de uma catástrofe psíquica já acontecida antes".

Almeida Prado apresenta então uma definição de psicose, menos abstrata, mais articulada com a mente do indivíduo: "trata-se de uma perturbação mental que afeta a personalidade toda desde o início da vida e que se caracteriza por um extremo grau de angústia de separação que torna impossível, pelo menos parcialmente, o crescimento de uma capacidade de pensar e o desenvolvimento simbólico e abstrato" (Almeida Prado, 2000, 146). A autora esclarece que, na visão de Winnicott (1974), a palavra "angústia" não é forte o bastante para exprimir a potência do que é experimentado nas vivências psicóticas, fato que o faz optar pelo termo "agonias primitivas", algo significando que o ser se mantém num estado não integrado, com perda de sentido do real, e perda da capacidade de estabelecer uma relação com os objetos. Na circunstância psicótica, partilhada pelo paciente e sua família, "recusa-se que as coisas, as pessoas e as relações tenham autonomia própria; o outro existe enquanto parte de si mesmo, sem que um e outro tenham a possibilidade de uma existência autônoma, sendo o pensar vivido como um perigo verdadeiro (Almeida Prado, 2000, 147). A descrição detalhada da relação de Miriam com seu filho, nos primeiros anos, ilustrou bem a maneira como ela se estabeleceu de um modo indiferenciado, quando ele permanecia como uma extensão sua, ao ponto de ser ‘misturado’, por exemplo, com as roupas que ela lavava.

Outro ponto que as considerações de Almeida Prado permitem entender é a "angústia de separação" que se reproduziu claramente no trabalho de reconstrução afetiva feito por Denise, quando ela, respeitando essa situação, fundiu-se psiquicamente com Davi, entrando em sua psicose, para a partir dela, auxiliá-lo a sair do sofrimento. Assim, Denise foi guiando-o de um estado de indiferenciação, exemplificado pelo momento em que ela e Davi partilharam um mesmo prato e uma mesma colher, até a etapa em que conseguiu introduzir a figura de um terceiro e trabalhar a triangulação básica da vida. Outro aspecto desencadeador da reconstrução afetiva, social e cultural de Davi foi o papel desempenhado pelas professoras na melhoria da capacidade de pensar e no desenvolvimento do processo simbólico e abstrato por ele alcançado.

Batizado com o nome de um guerreiro, Davi viria para reestruturar um mundo destruído, para reparar uma catástrofe psíquica já acontecida no aparelho psíquico da mãe, com toda a conotação e o sentido que se viu na história do seu nome: um lutador e um "protegido" do contágio de sua ancestralidade.

Mostrarei a seguir, o papel extremamente importante que a escola desempenhou na reestruturação psíquica e no desenvolvimento do potencial de Davi. Miriam descreve a trajetória de seu filho na escola. Após a Mariuza, sua próxima professora foi a Rosângela. Ele gostava dela, mas sentia ciúmes, inclusive porque às vezes a educadora levava a sua filha às aulas. Com o tempo o Davi foi se acostumando e sua mãe ficou impressionada ao vê-lo sentir ciúmes. Neste momento Miriam começou a descobrir um filho com sentimentos próprios. Davi ficou bastante tempo com essa professora que lhe ensinou a ter mais limites e às vezes chegava a ser rude com ele. Rosângela lhe ensinou a ficar de castigo, o que acabou funcionando como modelo que Miriam passou a reproduzir em casa. Quando o menino jogava plantas no chão, a professora o fazia recolher tudo e remontar o vaso. Aos 7 anos, Davi era colocado de castigo, na secretaria, toda vez que fazia alguma coisa errada, e, para a surpresa de sua mãe, ele obedecia. A partir de então, Miriam vai procurando modificar o modo de educar seu filho: "Agora estou evitando de dar tapa nele; estou fazendo o máximo para não bater porque não quero que ele esteja batendo nos outros. Ele já é uma criança com tendência a ser agressivo. Mas já melhorou bastante (...) Quando ele está demais eu falo assim: ‘agora vai sentar para pensar... vou te botar para pensar... vai ficar lá sentado, pensando no que fez, de castigo’. Ele responde: ‘vai botar para pensar?’ Eu falo: ‘vou, senta ali e fica pensando porque você está sentado aí, perdendo o seu tempo, quando podia estar brincando e fazendo uma porção de coisas’. Aí ele fica sentado e diz: ‘já pensei mamãe Miriam’. Eu respondo: ‘já pensou nada, vai pensar um pouco mais’. Antigamente ele só conseguia ficar 5 a 10 minutos. Agora ele já está conseguindo ficar até 40 minutos sentado". Uma transformação importante está sendo operada na relação mãe-filho, que passa a ser feita a partir de certas fronteiras entre um "eu" e um "tu", com tempos e interesses diferentes, sendo mediados pela linguagem e pelo processo de pensar os pensamentos. A escola vai organizando, vai ajudando Davi a internalizar limites e sua mãe vai aprendendo a se posicionar, concomitantemente.

Miriam me contou que quando seu filho começou a melhorar, passou a conquistar o carinho da Rita, uma professora de outra turma da escola especial. Ela começou a admirá-lo porque o achava muito inteligente. Se ele fazia algo errado, ela o pegava pelo braço e o colocava entre os seus alunos, acolhendo-o. E assim, o "menino selvagem" vai mudando suas feições e inspirando simpatias. A melhor fase, segundo Miriam, foi com a professora Tânia: "Ela lhe ensinou muita coisa, é uma pessoa muito amorosa. Ela conseguia ser enérgica e amorosa ao mesmo tempo". Nesse período, os comportamentos violentos do Davi começaram a se espaçar e se abrandar, na perspectiva da mãe. Miriam se recorda de como foi orientada por Tânia a conter o filho, a evitar revidar com tapas e a procurar conversar mais com o filho. Mas observa que a conversa com Davi só se tornou plenamente possível depois que sua fala se expandiu. Aos 6 ou 7 anos, ele apenas soltava algumas palavras. Depois dos 7 anos, "engrenou com as palavras, mas emendava uma na outra", diz Miriam, e após os 8 anos, já completava frases, mas somente nos momentos em que queria. Essa melhora na comunicação entre mãe e filho se firmou aos poucos, quando ele começou a falar e a ler, com mais desenvoltura. Desde então, "bater nele não funciona; brigar com ele ou gritar com ele, não funciona; a conversa passou a ser a única coisa que funciona...", concluiu Míriam.

De acordo com o pensamento de Vygotsky, já visto nos outros capítulos, é oportuno dizer que a base de constituição do sujeito, sua individualização, sua humanização depende do acesso a fatores mediadores cruciais: a presença de um outro que torne acessível igualmente tanto o uso da palavra (o acesso simbólico à cultura), quanto à dimensão prática (atividades cotidianas essenciais à vida). Pela aquisição da linguagem, Davi passou a ter condições de expressar o seu pensamento, ao mesmo tempo em que pode organizá-lo. Pela linguagem, através do diálogo, os adultos não apenas interpretam o mundo e a experiência da criança, como a inserem no complexo universo simbólico de sua cultura (Rego, 2001). "O que parece fundamental nessa interpretação da formação do sujeito é que o movimento de individuação se dá a partir de experiências propiciadas pela cultura. O desenvolvimento envolve processos, que se constituem mutuamente, de imersão na cultura e emergência da individualidade, num processo de desenvolvimento que tem caráter mais de revolução que de evolução, o sujeito se faz como ser diferenciado do outro mas, formado na relação com o outro: singular, mas constituído socialmente, e, por isso mesmo, numa composição individual mas não homogênea" (Smolka & Goes, 1993, 10).

Tânia foi a última professora de Davi na Escola Municipal Dr. Ulysses Pernambucano. Trabalhou com ele um ano letivo inteiro em 1996, quando Davi tinha 6 anos. Paralelamente, ele era atendido pela Dra. Márcia Adriente e pela equipe de saúde, no PAICAP e por Denise, na evangelização do Grupo Espírita André Luiz, num processo de reconstrução afetiva. Na Escola Especial, Davi foi colocado numa turma de cinco alunos, em condições de iniciar um processo de alfabetização. Destacava-se por ser a criança que mais "falava" e se fazia compreender. Neste ponto é preciso esclarecer que a observação da professora acerca da fala do Davi provavelmente se refere a uma etapa inicial de desenvolvimento da mesma, em que já era possível "compreendê-lo", embora sua fala tenha se tornado mais fluente entre os 7 e 8 anos. Tânia realizava atividades em grupo, para favorecer a socialização e a integração entre os alunos, e atividades individuais para focalizar o desenvolvimento pedagógico de cada um. A rotina escolar ainda incluía lanche, almoço, atividades de recreação, festas de aniversário e passeios. O principal objetivo da escola era desenvolver a socialização e preparar uma base pedagógica para que a criança pudesse ser integrada em escola regular. Sua missão era oferecer um espaço de transição para uma entrada mais efetiva na "sociedade", ou seja, numa instituição regular e convencional.

Davi foi um dos alunos mais marcantes, segundo Tânia, pois exibia um padrão de agressividade permanente, que a deixava em estado de alerta permanente, para evitar que ele se machucasse, ferisse algum colega ou a machucasse. Desde o primeiro momento, acrescenta a professora, ele queria uma atenção exclusiva. Se ela contasse uma história para a turma, o menino tinha expectativa de que o livro fosse mostrado apenas para ele. Se ela lhe pedisse para esperar, ou se cuidasse de outra criança, ela cometia alguma agressão para chamar a atenção. "Eu tenho esse compromisso em modificá-lo. Eu tenho que conseguir uma melhora em seu comportamento, pois isso é uma questão de honra!", pensava Tânia. Quando ele agredia, ela procurava lhe mostrar a lógica do amor e do respeito ao próximo. Com o tempo, Tânia foi diferenciando os ‘tipos de agressões’ do Davi, descobrindo que não eram comportamentos homogêneos e sim formas de comunicação. Certa vez ele lhe mordeu o pescoço, bem na hora do lanche, e ela sentiu que aquela mordida era uma espécie de brincadeira. Em outros momentos, Davi vinha mesmo descontrolado, batia, chutava, unhava, arranhava, agredindo a professora e aos colegas. Era preciso segurá-lo firme. Às vezes, a professora percebia o seu arrependimento.

Tânia começou a introduzir as letras e os números. Na ocasião, Davi não apresentava vontade de aprender, porque o que predominava nele era um medo muito grande de errar, um medo de fazer e seu produto não ficar bom. Por isso, nem sempre aceitava a atividade. Miriam diz que nesse período, ele começou a ler os letreiros dos ônibus, fato que o tornou um exímio localizador de ônibus. O impacto social da aquisição das primeiras letras e dos números foi imenso e, por essa razão, Miriam acredita que a Tânia foi a professora que alfabetizou seu filho, o que não deixa de fazer sentido, pois foi ela quem fez todo o trabalho preparatório para que a alfabetização pudesse se dar. A professora comenta que Miriam sempre procurou ajudar em tudo. Quando havia algum problema mais sério de agressão ela era chamada e comparecia, mostrando-se comprometida. Davi era um aluno assíduo e a mãe ajudava com os deveres da escola. O pai era visto nas festas da escola quando toda a família estava presente.

Tânia conta um episódio que ocorreu numa das festas de aniversário, atividade muito valorizada na escola como forma de socialização, como meio de acostumar as crianças a ver uma mesa arrumada e de aprender a esperar para ser servido. Uma pessoa, por distração, deixou a faca de cortar o bolo em cima da mesa; Davi pegou-a e começou a brincar com ela como se fosse uma espada. "Abriu-se aquela roda, no meio do refeitório. Os professores ficaram sem saber o que fazer, pareciam uma estátua, enquanto a faca passava para lá e para cá. Até que Mariusa teve uma brilhante idéia. Ela costuma ter uns cliques assim, de vez em quando. Ela disse: ‘O Davi vai cortar o bolo! Ai, na mesma hora, ele foi para a mesa cantar os parabéns e cortar o bolo. Com isso, ela conseguiu desfazer todo aquele clima de tensão". A professora comenta que esses alunos mexem muito com a parte psicológica dos professores. Quando ela começou a trabalhar nesta escola especial, ela sentia um desgaste físico e mental enorme. Além do mais, se angustiava muito com a falta de resposta que esperava das crianças. "Quando você começa no contato com eles, você e o armário, parecem a mesma coisa. Eles não se chegam, parece que eles te vêem como um objeto ali na sala (...) A partir do momento que você vai ficando mais perto deles, vai ficando todo o dia com eles, eles deixam você se aproximar mais, começam a te aceitar melhor", diz Tânia, ao partilhar suas primeiras impressões com crianças autistas e psicóticas. Fala sobre a importância de se preparar o professor, porque se ele se mantiver com medo e mal informado, pode criar uma barreira, e com sua insegurança, dificultar o processo de desenvolvimento possível.

No final do ano, Tânia observou uma melhora no comportamento de Davi. Os problemas de comportamento permaneciam, mas de um modo mais brando, e a equipe da escola juntamente com a Dra. Márcia Adriene avaliaram que Davi estava num bom momento para ser encaminhado para uma escolar regular, pois esta iria lhe oferecer mais modelos, outros exemplos de construção de pessoa para ele se pautar e um ambiente onde suas agressões teriam outro tipo de conseqüência: se ele batesse, poderia apanhar. Davi se beneficiou de um projeto pioneiro, a abertura da primeira turma de "condutas típicas", para crianças autistas e psicóticas dentro de uma escola regular. Sob a coordenação do Instituto Helena Antipoff, a Escola Municipal Félix Pacheco, foi a primeira dentro da rede municipal do Rio de Janeiro a tomar tal iniciativa, visando a possível inserção dessas crianças nas classes comuns.

Hoje, a Tânia se surpreende ao ver o progresso de Davi: "Ele foi muito além das minhas expectativas (...) Hoje quando o vejo com aquele jeito todo sério, de óculos, ele não parece mais aquele Davi que nós conhecemos, sempre agitado, sempre correndo de um lado para o outro, querendo falar o tempo todo, explodindo por qualquer motivo. Hoje, ele parece outra criança". Mariusa também se surpreende com a melhora do menino e sublinha a importância de uma escola de transição: "Nossa escola tem um papel muito importante. Nós pegamos a criança em estado bruto, fazemos esse trabalho mais árduo e a preparamos para que ela tenha melhores condições de chegar à escola regular e de se inserir na sociedade".

Escola Municipal Félix Pacheco: alfabetizar e abrir as portas do mundo

Teresa, atual coordenadora pedagógica, foi a pessoa que acolheu Davi na primeira classe especial para "condutas típicas". Ela atuava há muitos anos em classes regulares, com alunos até a 4a série, quando aceitou o desafio de conduzir o trabalho numa classe especial "atípica". "É muito difícil sair do ensino regular para o ensino especial", diz a professora. Munida do desejo de contribuir com essas crianças especiais, formada em pedagogia e psicologia, decidiu fazer um curso de pós-graduação em ensino especial, sensibilizando-se com as discussões sobre integração e inclusão. Tinha uma turma de cinco alunos, entre os quais, Davi. A reação do menino ao chegar à nova escola foi de estranhamento: "Ele achava a escola feia, ele achava a escola horrível, ele achava a escola pequena, não tinha piscina como sua antiga escola especial. Aqui passou a ter a salinha dele, a professora, os colegas. Então, demonstrou muita rebeldia. Na sala, era muito agressivo, muitas vezes eu apanhava", comenta Teresa.

Para enfrentar a agressividade de Davi, que se sofisticava entre gestos e palavras, sua professora começou a estabelecer alguns limites. No princípio, recorreu à alternativa de enviá-lo de volta para casa, quando se alterava demais, e para tal, contava com o apoio dos pais. "Eu fui muito apoiada pela família, eu pude contar com eles em todos os momentos. Eu acho que isso é um ponto fundamental". Aos poucos Teresa foi conquistando a confiança de Davi e percebendo que ele já começava a ler: "Ele já veio para cá pronto para ser alfabetizado. Foi um ótimo sinal, porque ai, o que eu fiz ? Retomei de onde ele havia parado (...), percebi que ele tinha uma memória excelente, um raciocínio fácil e fértil. Então, eu o tratava como criança normal (...) Como ele gostava de ler, eu já lhe passava tarefas para casa". Ao compartilhar sua experiência, a professora esclarece que esse processo foi lento. "Foram momentos muito difíceis! Às vezes, a gente tinha vontade de desistir mesmo", desabafa Teresa, assinalando que ainda havia outras crianças difíceis a serem ajudadas.

Mas a educadora fica muito emocionada ao relembrar o processo de aprendizagem de Davi. Não esperava que ele viesse a ser tão rapidamente alfabetizado e integrado em turma regular, até se construir um genuíno processo de inclusão. "Uma grande transformação se operou no Davi. Só quem viveu mesmo é que pode descrever (...) depois que ele se alfabetizou houve essa grande transformação (...) Ele vai entendendo melhor o mundo, vai entendendo o que está a seu redor. Ele vai fazendo parte de um universo maior do que o que estava acostumado. Não era mais apenas aquele mundinho (...) O mundo se ampliou para ele", Teresa partilha a emoção desse momento tão privilegiado, e acrescenta: "nós professores, seres humanos, precisamos lutar para que os nossos alunos tenham isso mesmo (...) É pelo caminho da alfabetização, da linguagem, da escrita que o mundo vai se ampliar".

O aprendizado da escrita é um processo muito complexo que começa antes de o professor mostrar como se fazem as letras, já dizia Vygotsky (1988). A escrita é um sistema de representação da realidade extremamente sofisticado que se constitui num conjunto de "símbolos de segunda ordem", pois, "os símbolos escritos funcionam como designações dos símbolos verbais. A compreensão da linguagem escrita é efetuada, primeiramente, através da linguagem falada: no entanto, gradualmente essa via é reduzida, abreviada e a linguagem falada desaparece como meio intermediário" (Vygotsky, 1984, 131, apud Rego, 2001, 69). Assim, enquanto a linguagem falada permite que ao indivíduo disponha de formas mais complexas de se relacionar com o mundo, "o aprendizado da linguagem escrita representa um novo e considerável salto no desenvolvimento da pessoa (...) O domínio desse sistema complexo de signos fornece novo instrumento de pensamento (na medida em que aumenta a capacidade de memória, registro de informações, etc.), propicia diferentes formas de organizar a ação e permite um outro tipo de acesso ao patrimônio da cultura humana (...) Enfim, promove modos diferentes e ainda mais abstratos de pensar, de se relacionar com as pessoas e com o conhecimento" (Rego, 2001, 68). A imensa transformação que vem se operando em Davi, com a alfabetização, entra numa nova fase, ganha em qualidade e permite que novos conteúdos sejam acrescentados a esse complexo processo de reconstrução global de sua pessoa.

Davi cursou sua primeira série em classe especial. Teresa observou que ele tomava iniciativa para ajudar um dos colegas da antiga escola especial, demonstrava curiosidade em estar nas outras salas e, algumas vezes, agia como se fosse uma criança normal. Isso a fez pensar que ele poderia ter condições de ser inserido numa classe regular: "Ele já não tem mais nada a ver com o grupo da classe especial". A professora conversou com Miriam e ela se mostrou favorável; conversou com a equipe do hospital que também concordou; só faltava saber se Davi aceitaria. No final do ano foi feita a primeira tentativa: "Não eu não quero ficar naquela sala, eu quero ir para a minha sala", dizia Davi. Miriam contatou a psicóloga que começou a prepará-lo para essa mudança. Decidiram implementá-la no começo do ano seguinte. Quando retornou, Davi já não achava a escola feia e passou a não querer voltar para o hospital pois ele não fazia mais parte daquele espaço.

Aos 8 anos Davi começou a ser integrado na classe regular, no mesmo momento em que foi integrado na classe de evangelização, com crianças normais da sua idade. "No princípio ele não aceitava, queria permanecer no mundo em que estava (...) foi aceitando com muita relutância (...) Eu apostei nele, eu estaria próxima das professoras para orientar, eu já coordenava o trabalho", comenta Teresa. Davi foi incluído na turma da 2a série, com a professora Valéria. "O professor tem que ser uma pessoa altamente sensível; tem que entender o seu aluno, porque se não tiver essa sensibilidade não adianta", acrescenta Teresa. Na sua opinião, a nova professora soube compreender o momento do Davi, auxiliando-o a se adaptar a essa grande mudança.

Valéria conta que sua integração foi vagarosa. O menino começou a entrar na nova sala como se estivesse fazendo uma visita. Permanecia pouco tempo e retornava para a de Teresa, no momento em que sentisse vontade. Nesse sistema de transição, passou a ficar meia hora, depois 1 hora, 2 horas até permanecer em definitivo. A turma foi preparada previamente e ofereceu um ambiente de acolhimento. "Eu enfocava muito com as crianças que ele precisava de nós. Só a turma, com a colaboração da professora, iria ajudá-lo a ficar ali de uma vez. Ele seria uma criança igual a todos, a partir daquele momento. Era preciso tomar cuidado, com algumas brincadeiras, para ele não se sentir rejeitado. Ele estava progredindo e este progresso dependia de todo mundo, não apenas dele. Ele era uma criança inteligente, com capacidade de ir além", descreve Valéria. Aqui a lógica de um genuíno processo de inclusão foi incentivado, quando todas as outras crianças são convidadas a colaborar, enquanto Davi também se preparava para assumir seus papéis, num processo bilateral de colaboração.

Davi começou a se apegar à nova professora e a querer chamar a sua atenção. Repentinamente começava a relinchar, a latir, a miar. Como a turma de crianças já tinha sido preparada para compreender suas dificuldades, ninguém reagia. A professora lhe perguntava se ele estava precisando de algo. O silêncio da turma dava eco a seu próprio ‘absurdo’ e ele se aquietava. Ao fazer esses ruídos do mundo animal, Davi se auto-denominava de "menino maluquinho". Ele havia lido o livro do Ziraldo e havia assistido ao filme do mesmo nome, personagem com quem se identificou: "aquele menino que tinha ‘fogo no rabo’ e ‘vento nos pés’" (Ziraldo, 1980). Como o Menino Maluquinho, "ele era muito sabido, ele sabia de tudo, a única coisa que ele não sabia era como ficar quieto (...) Na turma em que ele andava, ele era o menorzinho, o mais espertinho, o mais bonitinho, o mais alegrinho, o mais maluquinho" (Ziraldo, 1980, 14, 20).

Sua professora conta que às vezes, ele negava-se a fazer algum trabalho. "Está bem, mas você vai ficar atrasado, pois todo mundo está na sua frente", ela lhe dizia, pontuando a realidade em palavras. Davi começou a fazer os deveres e passou a querer acabar primeiro. Nessa turma ele teve que aprender a dizer "não", a dizer "sim", a pedir desculpas, a bater e a levar, a se defender, tudo isso sem ter que falar com a professora. Desde então, começou, mais claramente a ter que lidar com as conseqüências dos problemas que causava, outra grande conquista.

Às vezes "sua força em excesso" trazia problemas, conta a professora. Aqui, nota-se que o termo "agressividade" foi sendo substituído, como um indicador de que ela vai se amenizando, embora o tema tenha sido difícil de ser trabalhado junto aos pais das outras crianças. Por outro lado, Valéria comenta que o clima de hostilidade e de agressividade costuma ser algo comum nas escolas voltadas para a classe popular. Ora ou outra, ela se via às voltas com a necessidade de coibir alguma briga entre as crianças. "A agressividade é o maior dos problemas das nossas escolas, hoje em dia. As crianças estão brigando por tudo, até por um toco de lápis (...) É luta o tempo inteiro. De um avançar no outro, de brigar por nada, desacatar, xingar palavrão". Até certo ponto, as outras crianças também pareciam especiais, comenta a Valéria.

Davi era uma criança muito alegre, diz a professora. "Ele tinha uma mãe muito atuante, muito companheira dele, muito amiga, muito presente na relação com a escola, muito carinhosa. Era uma pessoa que precisava de muita ajuda, de apoio de todo o mundo, dos Órgãos Estaduais e Municipais. Mas ela era uma mulher que corria atrás (...) Seu problema era um obstáculo que ela ia ter que ultrapassar (...) Às vezes, em alguns momentos ela aparecia um pouco desanimada, mas logo a seguir recarregava a sua bateria (...) Ela é muito elétrica, fala a 300 por hora (...) Ela nunca me desautorizou como professora", esclarece Valéria, mostrando o papel crucial da mãe nesse processo. Quando a família colabora, fica tudo mais fácil: "nós não temos varinha mágica, o trabalho precisa ter uma continuidade, favorecida pela família". A professora fica emocionada ao recordar a conquista que conseguiu fazer com o Davi, até o final do ano. Ele passou a se colocar mais próximo das crianças, a ponto de partilhar sua opinião e aceitar ouvir a opinião do outro. Foi uma aquisição baseada numa persistência diária: ia se modificando, um dia após o outro.

Na terceira série, Davi foi para uma turma de 35 alunos, de 9 a 11 anos, bastante agitada. Sua professora Iracema viveu um desafio difícil de enfrentar: "nós nunca estávamos muito preparados para as reações do Davi. Às vezes ele reagia bem, outras vezes reagia de um modo explosivo. Muitas vezes ele queria participar e não era aceito, ou os colegas esperavam mais dele e ele não conseguia chegar até o fim (...) Ele sempre estava sobrando, porque em brincadeiras brutas, de luta, ele acabava machucando", comenta Iracema. Davi procurava participar sempre de tudo, a ponto de querer ser o primeiro e comandar o grupo. Passou a querer ser o líder, mas é que sua turma era toda ela feita por líderes. Havia pelo menos mais umas 8 ou 9 crianças agitadas e explosivas que tornava mais difícil de se administrar o processo de convivência. Sentindo-se rejeitado, Davi chorava e dizia: "eu não quero mais vir para cá, porque ninguém gosta de mim", relembra Iracema. Como o Menino Maluquinho, ele também "chorava escondido se tinha tristezas" ( Ziraldo, 1980, 64).

A professora comenta que a mãe do Davi percebia como a turma o rejeitava e começou a achar que a professora não estaria sabendo administrar essa dificuldade. Num encontro pessoal com Miriam, tomei conhecimento de uma de suas queixas sobre esta professora: "Ela contou que Davi ficou atrás da porta chorando, não quis fazer o dever. Depois ficou pulando e todos ficaram rindo dele. A professora disse que também riu. Ora, houve incentivo do responsável, a pessoa que deveria estar educando, não estava, ao contrário, estava se unindo às crianças para rir dele. E ainda acaba falando na frente de todo o mundo que não está mais agüentando o Davi. É o cúmulo do absurdo".

A professora, ao contrário diz: "Para mim foi uma experiência muito difícil. Era uma turma grande, super agitada, eram todos rebeldes. (...) Eu tinha que ter a cabeça a mil, porque eram 34 alunos e a 3 mil por causa do Davi (...) A mãe achava que a culpa era minha, eu tinha que dar sempre razão ao Davi. E eu achava que não era por ai. Os outros não aceitavam e estavam sempre mostrando que eles estavam certos e o Davi estava errado, e que eu tinha que acertar a situação. Com o passar dos meses a rejeição aumentou", comenta Iracema, deixando claro que ela se sentia "perdida" no meio de um conflito de forças, sem saber para qual dos lados deveria atender. Sua dificuldade de manejo estava no equívoco de pensar que deveria escolher entre o lado certo e apontar o lado errado, de um modo maniqueísta. Seria preciso mostrar a dinâmica do conflito e ajudar as crianças a pensarem sobre ele e a encontrarem uma solução construída coletivamente. Uma menor habilidade da professora para manejar os conflitos, por um lado, e uma turma muito agitada e enorme, com muitas crianças "explosivas" por outro, acabou oferecendo ao Davi um grande desafio, um grande confronto "nu e cru" com a realidade, sem mecanismos amortecedores, como havia conseguido prover as professoras anteriores. No confronto de Davi "contra" a turma, ele acabou percebendo que não "vencia" com sua agressividade e isso produziu o efeito de ajudá-lo a se posicionar de forma diferente.

"Como o Davi reagia quando a turma queria isolá-lo?" eu perguntei à professora. "Ele gritava, ele debochava de todo mundo e as crianças ficavam chateadas. Mas ele não era tratado de coitadinho, era de igual para igual. Havia dias em que chegava caladão e outros dias em que entrava sorridente, brincava com um, brincava com o outro". Iracema relata que quando se abordavam temas mais adultos, como o "sexo", por exemplo, Davi debochava, o que incomodava, sobretudo, as meninas. Ele não acompanhava esse tipo de assunto como o restante da turma, havia um descompasso emocional. "Como a turma reagia às explosões do Davi?", indaguei, no intuito de compreender ambos os lados. Iracema diz que as crianças se assustavam com a reação dele, na maioria das vezes. Elas o observavam e suas reações só apareciam depois que todos se acalmavam: uns faziam queixa, outros saíam de perto dele, mostrando o desagrado. Assim Davi encontrou uma turma "firme e forte" para receber o seu desafio e para desafiá-lo também, mostrando socialmente o incômodo que produzia e dando visibilidade ao efeito de sua conduta, o que o levou a novas maneiras de agir.

Davi conseguia acompanhar bem o conteúdo escolar, tendo maior dificuldade em matemática. "Ele estava sempre bem interessado na parte das leituras, no jornal. Gostava de ler livros, fazer pesquisa, fazer jogos de quebra-cabeça, de montar coisas, de desenhar. Ele lia muito, então sabia de tudo o que estava acontecendo. Era superatualizado, em qualquer assunto. Ele se colocava bem, expunha as suas idéias bem, escrevia bem e até lia bem. Relatava as coisas muito bem. Agora a parte da matemática era o caos. Ficava nervoso, quebrava o lápis e o jogava no chão". Miriam sempre apoiava o filho, relembra a professora. O ponto que mais dificultava sua aprendizagem da matemática é que Davi não aceitava o erro. "Eu mostrava o erro, mas não adiantava, ele não consertava. Ele fez e está feito". Se as dificuldades eram imensas, os ganhos sociais que o menino conquistou também foram enormes, num espaço de cinco anos, dos 4 aos 9 anos. Davi conclui a 3a série e com 10 anos ele já está pronto para entrar em sua terceira escola. O passo agora seria deixar para traz o rótulo de "menino maluquinho", no sentido pesado do termo, porque, nessa escola, ele ainda era percebido como o aluno proveniente de uma turma especial.

Escola Municipal Quintino Bocaiuva: inclusão total

Davi foi cursar a 4a série numa grande escola que vai do maternal até a 8a série, possui 1.300 alunos, distribuídos em turnos da manhã e da tarde. Entrei em contato com a diretora para marcar uma visita, conhecer o estabelecimento, conversar com a atual professora e observar Davi. Para minha surpresa, a diretora, a princípio não sabia quem era Davi, uma indiferenciação que, no seu caso, soava positiva. Comentou que mesmo sendo uma escola muito grande, ela costuma saber o nome dos alunos que apresentam alguma dificuldade. Portanto, Davi, com certeza não era um deles. Há pouco tempo atrás, certamente, ele teria chamado a atenção, hoje ele era apenas mais um estudante de uma grande escola. Fui visitar o colégio no dia da Semana Cultural e da Feira de Ciências. Todos os alunos estavam circulando pelos três andares, agitados. Cada sala tinha algo a expor. Havia uma quantidade enorme de maquetes feitas em isopor. Ali, um pequeno mundo tridimensional era reconstruído, em formas e cores, numa aula viva de história, ciências e geografia. Uma viagem pelo neolítico, paleolítico e o contato com os homens primitivos; um passeio pelas pirâmides e as múmias representando a vida após a morte; o Coliseu de Roma ali estava pomposo, com suas arquibancadas internas; estradas, lagos, rios, construções de cidades, e outras representações. Esse era o novo universo em que Davi se encontrava: as portas do mundo lhe foram totalmente abertas e ele podia viajar no tempo e explorar o conhecimento que a humanidade acumulou durante séculos.

O trabalho de artes, feito por essa escola, é belíssimo. A coordenadora pedagógica fala sobre a qualidade dos professores e eu fiquei particularmente surpresa com a excelência do trabalho dos alunos que se materializava de um modo muito criativo e com muita vida. Não era apenas uma ou outra sala que apresentava a qualidade das atividades, mas todas em conjunto, "explodiam" em criatividade e a linguagem da arte era o principal veículo de expressão de todos. O colégio também tem os muros trabalhados em painéis gigantes e faixas de tecidos pintadas enfeitando o primeiro piso. A turma de Davi organizou uma pequena peça de teatro que acabou sendo apresentada quatro vezes seguidas, num só dia, para platéias diferentes, já que a escola é muito grande. Além da encenação feita por seu grupo, houve diferentes apresentações. Um dos professores se mostrou muito orgulhoso em apresentar um "Jogral sobre o Brasil" feito com adolescentes "difíceis", face ao problema da violência que as escolas públicas enfrentam. A coordenadora conduzia o trabalho com aquela massa imensa de alunos, com a maior paciência e tolerância, conseguindo dar um clima de teatro: "desliguem os seus celulares, façam silêncio porque o show vai começar". Davi se apresentou muito bem, ele estava bem integrado à turma. Eu pude conversar com sua professora por alguns minutos. Ela disse que o menino está conseguindo acompanhar muito bem a turma. A única coisa que nota de diferente é que, às vezes, ele se isola um pouco, e por isso ela tem procurado integrá-lo cada vez mais. Ela só não conseguiu compreender porque o pai de Davi, noutro dia, havia lhe dito que ele era um menino "especial". Em sua visão, ele é um menino como outro qualquer.

Não é de se estranhar que o Davi esteja gostando muito desta escola. Miriam comentou: "pelo menos até hoje, não houve problema". Desde que entrou nessa nova fase, seu filho passou a ter uma explicadora de 2a a 6a feira. Ele estuda na parte da manhã, chega em casa para almoçar, descansa um pouco, e das 14:00 às 17:00 horas ele é acompanhado pela explicadora, numa atividade em grupo, que também envolve outros alunos. Lá ele faz os deveres do colégio e tira todas as suas dúvidas. Davi andava orgulhoso com suas conquistas, contando-me inclusive que seu rendimento na matemática também melhorou. Fez comentários sobre a linha do equador, uma linha que divide os trópicos, exibindo seu conhecimento em geografia. Também comentou sobre a descoberta das Américas. Tendo reorganizado a geografia de sua própria vida e reconstruído sua história, Davi podia mapear a geografia do mundo, de um mundo que agora está a seu alcance, de uma história que pode desvendar, com todo o gosto de novidade que inspirou as conquistas dos primeiros descobridores.

 

 

3.7 Considerações finais

Roteiro do trabalho de campo

As observações etnográficas foram feitas durante um ano e três meses em três trimestres, com uma a três visitas no mês, em intervalos que variaram de três a oito horas, num total de 20 dias de trabalho de campo. Cada encontro foi previamente agendado conforme disponibilidade de tempo da família e as visitas ocorreram sempre nos fins de semana, porque o casal trabalha durante a semana. Cada trimestre envolveu uma fase diferente da vida da família. No primeiro, fiz visitas mais seguidas para favorecer a formação do vínculo e trabalhar a fase do "degelo" relacional, que se deu relativamente rápida.

Embora a família me tratasse como a Dra. Fátima, o contato que ela estabeleceu comigo foi feito com simplicidade, sem muitas cerimônias, com ampla disponibilidade para falar de si e de seu filho. Eu era recebida com um gostoso cafezinho e Miriam me convidava para almoçar. Como nos fins de semana, ela acumulava algumas tarefas domésticas, minha presença não a impedia de realizar os cuidados necessários, como preparar um refeição, ou passar uma roupa, ou limpar a casa. Essa mulher tem um temperamento muito espontâneo que a deixa a vontade para falar o que pensa ou para colocar algum limite onde julga necessário. Meu contato maior foi com ela, embora diversas vezes, tenha tido oportunidade de estar com o Eliseu, conversar com ele e vê-lo jogar futebol com seu filho. Davi esteve o tempo todo presente e gostou especialmente que eu o entrevistasse com o gravador, quando se divertia em ouvir a sua voz e produzir os mais diferentes sons, numa animada brincadeira. No período inicial fui com Miriam e Davi conhecer o Centro Espírita. No final do primeiro trimestre, Miriam decidiu se separar do marido e pediu que eu me afastasse por um tempo, até que ela reorganizasse a sua vida.

Três meses depois, retorno e converso com o casal sobre a hipótese de interromper o estudo. Ambos julgaram importante dar-lhe continuidade. Nesse segundo trimestre, Miriam havia se mudado para outro apartamento ainda dentro do mesmo Conjunto Habitacional e Eliseu passou a morar com sua mãe, no prédio ao lado. Davi continuava tendo contato diário com ambos, mas a mãe desejava encontrar outro local fora daquele ambiente. Ela rapidamente reorganizou sua casa e recebeu a ajuda de Eliseu. Por essa ocasião, realizei as entrevistas com Míriam e Eliseu. Numa das vezes fiquei dez horas seguidas com a mãe, quando ela relatou a história de sua família, num fluir de informações que parecia não ter fim. Foi um momento de catarse muito delicado e eu procurei estar bem disponível para ouvi-la e lhe oferecer alguma continência afetiva, algum tipo de solidariedade possível numa hora dessas.

Decidi dar outro intervalo de três meses quando senti que Miriam precisava de distância, pois era um período em que ela se reorganizava e se adaptava a uma nova vida, buscando conseguir um trabalho melhor e manter a si e a seu filho com mais conforto. No terceiro e último trimestre fui visitar as escolas onde Davi estudou, entrevistar as professoras e conhecer sua escola atual. Tive oportunidade de visitar a mãe e Davi já em outra residência, fora do Conjunto Habitacional, num local tranqüilo. É impressionante a rapidez com que ela fez sua mudança e se reestruturou. Um mês depois da mudança, quando fui conhecer sua nova casa, tudo já estava arrumado, fato que me fez pensar na capacidade resolutiva e na resiliência de Míriam ao enfrentar as circunstâncias de crise familiar. Míriam e Davi pareciam satisfeitos com minha visita em sua mais nova morada. Apesar da recente separação do casal, pai e mãe continuam priorizando o filho e as estratégias de apoio a ele: sua escola, sua explicadora, a aula de natação, a aula de catecismo. Davi ama seus pais e sente que é muito amado por eles.

Davi e o pai: meu filho, meu amigo

O casal só passou a morar numa casa alugada, separada dos avós paternos, quando o Davi estava com 6 anos. A família viveu numa pequena casa, por algum tempo, e, quando houve oportunidade, retornaram para o mesmo Conjunto Habitacional onde Eliseu morou toda a sua vida, indo residir num apartamento que ficava no térreo, o que permitiu a Davi, maior convívio com outras crianças. Ele começou a brincar e a interagir com os colegas, o que muito o ajudou. "Isso foi um fato primordial. Ele aprendeu a ter um pouco mais de liberdade. Ele passou a prestar mais atenção em futebol, nessas coisas de convívio com as outras crianças". Eliseu comenta sobre os seus esforços para disciplinar o filho, embora tenha havido conflitos com a esposa a esse respeito: "Porque foi ela que gerou, ela que o levava para cuidar, ela que o levava ao médico, às vezes eu era relegado a um segundo plano", concluiu. Mesmo assim, sempre que podia, ele não se eximia da tarefa de discipliná-lo. Quando Davi apresentava alguns tiques nervosos e ficava pulando, seu pai procurava conversar com ele e isso acabou passando, embora mantivesse uns gestos repetitivos. "Com o tempo, as conversas foram ajudando o Davi a se tranqüilizar. Infelizmente a pessoa quando tem um problema mental, tudo o que ela faz é atribuído ao problema. Se faz algo errado, o motivo é a doença, quando, na verdade, pode estar faltando disciplina" , comenta o pai, atento ao filho e zeloso em ajudá-lo, nos momentos em que está presente. Sua ausência ‘do circuito de tratamento do filho’ é justificada em prol de seu trabalho que o ocupava integralmente nos seis dias da semana.

Com a melhora do filho, foi possível expandir as trocas entre ele e o pai. As estratégias paternas, segundo Eliseu, sempre se basearam em "muito carinho, muita diversão e muito amor", acrescenta. Atualmente, o menino além de ser seu filho é seu amigo. "Hoje o Davi é meu confidente. Ele conversa comigo e por incrível que pareça, ele até tem visão das coisas... Ele até me dá conselho. Noutro dia eu estava num churrasco e perguntei a ele se eu havia bebido demais. Ele me respondeu: ‘não papai você está legal’. Eu olho para os seus olhos e sei quando está bem ou não". Eliseu esclarece que ele não bebe com intenção de passar dos limites. Às vezes, numa euforia, num churrasco, numa festa, numa comemoração, pode até se exceder. Eliseu está reencontrando o filho sonhado. Desejava um filho-amigo e, apesar de todas as intempéries pelas quais passou, está conseguindo construir esse elo solidário e paternal com seu filho. A bebida socialmente saboreada pelo pai, como algo que lhe dá prazer, parece ter sido uma das fontes de conflito que acabou afastando o casal entre si.

Davi e a mãe: uma atitude positiva produz maravilhosos efeitos colaterais

O casal se separou e Miriam, na última vez em que a vi, havia alugado um duplex fora do Conjunto Habitacional onde vivera sua última década. Era uma quitinete bem construída, de primeira locação, com piso em ladrilho. Ela arrumou a geladeira, o freezer e os demais utensílios domésticos ajeitando-se muito bem nesse novo espaço. A sala é mais ampla do que a anterior embora conjugue num mesmo ambiente, sala e quarto. De um lado está a cama de Davi, seu móvel com gavetas, sua televisão e seu vídeo, fazendo uma divisória entre o quarto e a sala. Logo ao lado, fica o sofá, a estante de metal, cheia de enfeites, harmoniosamente arrumados. Do outro lado, a mesa redonda com quatro cadeiras e o armário de quarto. A impressão é que o espaço global é maior, em relação ao antigo apartamento. Míriam se mudou há pouco mais de um mês e já está tudo organizado. Ela é caprichosa e zelosa no cuidado com as coisas. O local é silencioso, longe do tumulto e da bebedeira do ambiente onde morava.

Davi continua mantendo contato diário com seu pai. Sua mãe o deixa no colégio e o pai dá prosseguimento à rotina depois dos estudos, com ajuda de sua família. Sábado, Miriam trabalha e Davi fica com o pai e o domingo passou a ser o dia de ficar mais tempo com a mãe. Ela continua trabalhando numa loja de móveis e neste ano, está orgulhosa por ter concluído o segundo grau. No próximo ano, ela irá fazer um curso de auxiliar de enfermagem, está se reorganizando para levar a sua vida a diante de um modo diferenciado. Agora, valoriza o seu próprio espaço, do mesmo modo que respeita o espaço diferenciado de seu filho.

Miriam traz uma novidade sobre Davi. Ele está fazendo aulas de catecismo, juntamente com os colegas do colégio. Desde então, passou a freqüentar a missa aos domingos. Ela considera que o filho deve ter oportunidade para conhecer outra religião e poder fazer a sua própria escolha. Mas ele continua querendo freqüentar a evangelização no Grupo Espírita André Luiz e isso também é respeitado. Os novos interesses de Davi estão voltados para favorecer sua plena e total inclusão no mundo das pessoas, ao qual ele passou a pertencer. Sua mãe lhe dizia: "Davi você tem que ser gente". Davi se tornou gente e sua mãe está feliz com isso. Entre as mensagens que Miriam passou a colocar na porta de entrada de sua casa, um pequeno fragmento de um texto chamado "A arte de ser feliz" merece ser aqui destacado: "O importante de você ter uma atitude positiva diante da vida, ter o desejo de mostrar o que tem de melhor, é que isso produz maravilhosos efeitos colaterais. Não só cria um espaço feliz para os que estão ao seu redor, como também encoraja outras pessoas a serem mais positivas. O tempo para ser feliz é agora. O lugar para ser feliz é aqui".

Davi e seus pais: todo o lado tem seu lado, eu sou o meu próprio lado.

Eu tive oportunidade de estar presente nas duas últimas festas de aniversário de Davi, a de 11 anos e a de 12 anos, dois momentos que se seguiram a um período de inúmeros sucessos e de profundas superações. Míriam e Eliseu estavam exultantes e orgulhosos com seu filho, enquanto se recuperavam de um período nebuloso e prolongado de intensas "tempestades". Davi, por alguns minutos ficou em frente à mesa onde havia um bolo confeitado, um bolo salgado e docinhos. Ele abraçava a mesa como se reafirmasse que tudo aquilo era seu. Ali se materializavam os ingredientes da sua festa, da festa comemorativa do seu nascimento. Esse parecia um gesto simbólico de um esforço para internalizar aquele instante. Em seguida, Davi se uniu às outras crianças para brincar, cantar e dançar.

No ano seguinte, ele se viu tendo que lidar com uma questão que seu velho amigo, o Menino Maluquinho, já havia enfrentado: "E o menino maluquinho era um menino tão querido, era um menino tão amado, que quando deu de acontecer de o papai ir para um lado e a mamãe ir para o outro, ele achou de inventar (pois tinha aprendido a criar) a Teoria dos Lados: ‘Todo lado tem seu lado, eu sou o meu próprio lado, e posso viver ao lado, do seu lado, que era meu’(...) Foi uma barra, é verdade (...), mas ele ria baixinho quando a saudade apertava pois, descobriu que a saudade era o lado de um dos lados da vida que vinha aí" (Ziraldo, 1980, 84-86). O menino conseguiu lidar relativamente bem com a questão da separação dos pais, apesar de ter ficado aborrecido, no começo. Sua rotina diária ainda conserva bastante tempo com o pai e com a mãe. A Dra Márcia Adriene trabalhou esta questão com ele: "Davi, o teu pai continua te vendo? ‘Continua’, disse ele. Você vai na casa do seu pai e dos seus avós ? ‘Vou’, respondeu. Então o seu pai continua sendo o seu pai. ‘É, ele é meu pai’, reafirmou. A Miriam continua sendo a sua mãe? ‘Ah, é , a Míriam é minha mãe’. Isso não mudou, o seu pai é o seu pai, e a sua mãe é a sua mãe. Eles não estão mais juntos porque não se amam mais". Na festa dos 12 anos, o pai e a mãe estavam presentes, embora já estivessem separados. Davi estava bem ambientado com todos a sua volta. Primeiro olhou o movimento das pessoas, depois "entrou na dança" com os colegas, chegando a ser o campeão da dança das cadeiras. Na hora dos parabéns, ele fez questão de reunir dois pedaços de bolo, um em cada mão, para presentear ao mesmo tempo o seu pai e a sua mãe, retribuindo todo o afeto que deles recebe. Miriam parecia haver rejuvenescido dez anos. Conservando-se elegante, mantinha consigo um jeito de menina, pronto a abrir novos horizontes em sua vida. Eliseu estava ainda triste com a separação, mas prosseguia sua vida, satisfeito com a mais recente promoção ao cargo de gerente da sapataria onde trabalha.

Conclusão

"Segundo André Bourguignon, o advento da bipedia, liberando as mãos da função locomotara e o crânio do conjunto facial, não apenas marca a ‘primeira etapa da hominização’, como também, e mais essencialmente, representa o patamar da linha da evolução (o décimo) que justamente antecede aquele do surgimento da reflexão (o décimo primeiro), o mais complexo estrutural e funcionalmente. (...) Vê-se que a passagem do décimo patamar para o décimo primeiro é, de fato, uma passagem que funda um novo estado da matéria viva, ao introduzir a capacidade de reflexão enquanto ‘a última etapa da evolução da matéria’. Trata-se de uma capacidade de reflexão dupla: do eu sobre si e do eu sobre o universo. Tal capacidade de reflexão está intimamente associada à ocorrência da linguagem humana, considerada por especialistas de diferentes áreas como ‘a mais radical ruptura de continuidade entre as que marcaram a evolução da matéria viva’" (Jorge, 2000, 163).

O salto qualitativo que "inaugura" a espécie humana é a condição de bípede, festejada em nossa cultura pela dança e pela arte do futebol, associada à condição de ser pensante, à capacidade reflexiva sobre si e sobre o mundo, e a possibilidade de articular a linguagem. "A subjetivação das vivências depende do processo de simbolização que a linguagem permite" (Jorge, 2000, 91). A linguagem é, portanto, um instrumento de mediação entre o sujeito e o real, elemento metafórico produtor de subjetividade e singularidade.

O estudo de caso que acabo de apresentar ilustra bem a importância da linguagem como fator reestruturador e reorganizador do eu. A dissociação psicótica e a falência dos recursos egóicos deixaram Davi, a princípio, sem meios de chegar à etapa mais avançada de sua espécie: a capacidade reflexiva. Rapidamente, porém, conseguiu se beneficiar de sua condição bípede, mas não pôde "caminhar" nas etapas evolutivas esperadas para o seu desenvolvimento infantil. Não havia um holding suficientemente bom que lhe permitisse crescer. Ele estava submetido a uma condição física, emocional e social altamente restrita. Sua mãe, "acuada" num canto, sem continência externa e sem recursos internos para fazer face a angústias avassaladoras que eclodiram durante sua vida, sua gestação e o nascimento de seu filho. Um sofrimento familiar pregresso produzia e atualizava um conflito psíquico na encruzilhada da nova geração. Seria preferível um filho doente mental a um filho bandido, era esse o lema da espera. Um novo destino foi selado: a face selvagem da loucura.

O menino "selvagem" vai crescendo à margem dos ganhos de sua espécie e seria preciso, como no filme "O Enigma de Kaspar Hauser" do cineasta alemão Werner Herzog, analisado por Izidoro Blikstein (1995), ajudá-lo a lidar com questões tais como linguagem, mundo, realidade, percepção, significação, cognição, para que esse menino pudesse interagir com o mundo a sua volta, sem tanta destrutividade. Antes da língua moldar os contornos semióticos da sociedade, assinala o autor, a experiência perceptiva é o primeiro processo, não verbal, organizador da cognição, da construção e da ordenação do mundo. Para desenvolver um esquema perceptual é necessário, antes de tudo, articulá-lo dentro de uma práxis social, para então se chegar a fabricar a realidade. A modelação da percepção do mundo e os conceitos que se constróem sobre o mundo não são captados apenas pela linguagem, mas sobretudo pela práxis. Blikstein (1995) demonstra que o sistema perceptual, as estruturas mentais e a própria linguagem são tributários da praxis. Essa noção é fundamental para compreendermos como Davi pode se beneficiar bastante de uma rede de práticas sociais que envolveram a psiquiatria, a psicologia, a escola especial, a escolar regular e um processo de evangelização, procedimentos que se adaptaram a cada momento crítico e o ajudaram a reiniciar o caminhar evolutivo, maximizando suas possibilidades em cada momento. Mas em cada uma dessas práticas houve a presença de pessoas sensíveis e disponíveis, de quem se pode dizer nome e sobrenome. Sobretudo, houve uma vontade inquebrantável da família, principalmente da mãe. Essa dimensão da praxis que modela a percepção tem uma importância muito grande em termos de desenvolvimento dos aspectos afetivos, porque cada um desses espaços sociais forneceu um tipo próprio de "holding" onde o Davi pode se sentir seguro o suficiente para prosseguir e se reorganizar como pessoa, a ponto de conseguir retomar o percurso evolutivo típico de um ser civilizado.

A idéia de que a percepção e a linguagem estão indissoluvelmente ligadas à práxis social é ampliada por Blikstein quando considera que na medida em que introduzimos a língua na vida, cada vez mais ela passa a atuar sobre a práxis. A interação entre língua e práxis avança, prossegue no processo de socialização, a ponto de tornar difícil separar a fronteira entre ambas. Ao agir sobre a práxis, a língua acaba operando a fabricação da realidade. "É possível surpreender o impasse epistemológico a que nos condenamos: embora a significação dos códigos verbais seja tributária, em primeira instância, da semiose não-verbal, é praticamente, só por meio desses mesmos códigos verbais que podemos nos conscientizar da significação escondida na dimensão da práxis: anterior à língua, a semiose não-verbal só pode ser explicada pela língua" (Blikstein, 1995, 80). Portanto, para compreender a "evolução" de Davi é preciso situar devidamente o papel da linguagem, a importância do desenvolvimento de sua própria linguagem e a mediação que o uso da fala propiciou, conduzindo-o a uma verdadeira "revolução". Pela fala, Davi passa a descrever a si e ao mundo; a fala, substituindo os gestos agressivos, traz ganhos afetivos e sociais quando, na interação familiar, sua mãe diz que "só a palavra passou a funcionar"; a fala trouxe ganhos cognitivos e culturais quando Davi se alfabetiza e passa a ter acesso à palavra escrita. No momento atual, as "portas do mundo" se abrem de um modo muito mais pleno. Davi passa a simbolizar a si mesmo de um modo mais sofisticado, a partir da leitura, quando descobre semelhanças entre ele e o personagem do "Menino Maluquinho". Nesse instante nasce um Davi reflexivo, com condições de perceber a si e ao mundo ao seu redor, integrando-se numa classe normal e numa sala de evangelização. Era o menino que nascia "Maluquinho", no sentido mais leve, socialmente mais aceito, no exato instante em que deixava de ser "maluquinho", no sentido mais pesado, psiquiatrizado e estigmatizado.

O "tratamento" desse caso de psicose infantil embora tenha seguido, em certa medida, uma lógica que é extensamente explicada pela psicanálise, a qual não foi minha intenção apresentar em detalhes, pela vasta literatura existente a respeito, introduz ainda outros fatores diferenciadores. Em primeiro lugar, toda a análise que se possa fazer do caso, não esgota a quantidade e a qualidade de recursos que foram mobilizados, uma vez que a mãe recorreu a mais de uma instituição de saúde e a mais de um Centro Espírita. O único percurso que pude reconstituir integralmente foi a trajetória escolar desde o ensino especial até a escola regular. No entanto, no recorte que pude fazer, procurei delinear eixos centrais na evolução do caso.

Foi curioso ver um processo ‘psicanaliticamente’ correto ser conduzido por uma professora de música, que se dispôs a receber uma criança, dentro de uma lógica da caridade. Não de uma caridade "piegas", mas de uma caridade que se apresenta como uma manifestação do amor. Não de um amor desgastado, mas de um amor solidário : "o amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, nem se ensoberbece; o amor não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses; não se exaspera; não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade". (Drummond, 1995,30). Um acolhimento incondicional produziu uma sensibilidade tão atenta ao processo da criança que intuitivamente acabou gerando condições adequadas para a evolução global.

Esse caso é o somatório de muitos sucessos que não teriam sido alcançados sem uma atitude positiva, persistente e determinada da mãe, que soube advogar em seu favor, insistir, persistir e dar apoio integral ao filho, inclusive em seu percurso escolar. A história genealógica de Miriam me permite fazer um contraponto com todas as outras histórias apresentadas nos capítulos 1, 2 e 4, revelando de um modo surpreendente a possibilidade de se construir trajetórias de êxito até mesmo nas condições mais hostis e menos prováveis.

Mas o sucesso da mãe e o sucesso do filho só foram possíveis face às novas políticas de saúde (no caso específico, a política antimanicominal) e de educação (de inclusão de portadores de deficiência na rede regular de ensino) que, de um modo inovador, produziram oportunidades para uma verdadeira integração social. Essas propostas voltadas para maior inclusão social e para a ampliação e aprofundamento da cidadania acabaram desembocando, para a surpresa de todos, num processo demonstrativo de que o rumo está correto. Esse caso foi pautado na lógica da desinstitucionalização, no enfoque da ‘existência sofrimento’ de um menino, sua mãe e sua família. Como diz Rotelli, os técnicos têm um papel crucial a cumprir nos processos de reestruturação mental. Os professores tiveram uma importância decisiva na evolução de Davi, quando toleraram um carga de agressividade e hostilidade, ao mesmo tempo, em que o direcionaram para formas mais elaboradas e estruturadas de agir e ser. Muitas vezes "apanhando", outras vezes "com vontade de desistir", conseguiram prosseguir com a integração escolar, colaborando com o processo de reconstrução social de uma criança. A escola, as instituições de saúde e de educação, filiando-se às mais novas correntes do pensamento sobre a questão aqui tratada, em nível global, todas favoreceram a uma construção social da saúde, a uma reinvenção da criança em foco. Os "ecos" dessas políticas chegaram até Davi através de práticas sociais concretas. Ele conseguiu se beneficiar de novas propostas de saúde e educação no ano 2000 e Miriam lutar pela saúde como direito à vida. A Dra Márcia Adriente também teve um papel fundamental ao gerenciar o tratamento de Davi, ao encaminhar e acompanhar a sua evolução escolar, ao dar continência à mãe e ao mostrar que ela também deveria investir em sua vida e valorizar seus próprios interesses.

Esse menino, que hoje está com doze anos, noutro dia, me ensinou sua mais recente lei, a "Lei de Davi":"Só entra quem é guerreiro, quem assume o filho, quem trabalha no shopping, de preferência na loja de brinquedos. Assim todo o final de mês você irá levar um presente para o seu filho; Se violarem a Lei de Davi, vão pagar mico, vão levar um balde d`água na cabeça, terão que nadar numa piscina rasa, terão que comer refrigerante e doce ao mesmo tempo. É só castigo bom." Davi com as leis sociais internalizadas passa a poder criar a sua própria lei e a brincar com esse nosso mundo adulto, imprimindo nele uma lógica infantil, convidando-nos a compreendê-lo a partir de seu próprio ponto de vista. É um Davi que interage com o mundo de um modo construtivo; um Davi que descobriu os ganhos do processo civilizacional; um Davi criança, que como qualquer criança adora ganhar presentes, desde o momento em que ganhou de presente a possibilidade de viver sua vida e partilhar os benefícios do mundo social.

Ao finalizar, pedi a Davi para fazer um desenho livre. Para a minha surpresa, ele ficou quase duas horas confeccionando sua obra, pacientemente. Creio que conseguiu condensar, numa folha de papel, grande parte de suas conquistas nesta última década. Ele elaborou um desenho altamente complexo, demonstrando inteligência, perspectiva e visão de figura e fundo: o Maracanã, num jogo do Flamengo, com os espaços organizados da arquibancada, na metade superior do papel. E a representação de quatro gols, desenhados na outra metade. As bandeiras e os torcedores da Raça Fla foram coloridos em preto e vermelho. Num cantinho bem miúdo, à esquerda, está a torcida adversária do Goiás, colorida em verde. O placar foi "Três a Um" a favor do Flamengo, tendo ele tolerado um gol do seu adversário. "O primeiro gol do Flamengo foi por cobrança de falta; o segundo gol foi um cruzamento e um gol de cabeça; no terceiro gol, o jogador cobriu o goleiro e a bola entrou; e no gol de honra do adversário, ele chutou, driblou, o goleiro espalmou, só que a bola acabou entrando", comenta Davi. Um fato muito curioso ocorreu enquanto desenhava. No torcedor que ele havia projetado em maior proporção, bem no centro do estádio, Davi fez um desenho dentro de sua bandeira. Lá elaborou um menino fazendo xixi na bandeira do time adversário. Sorrindo, comenta com a sua mãe sobre essa travessura simbolicamente representada. Miriam disse que isso não era bonito de se fazer porque era preciso saber respeitar os outros times, do mesmo modo que é preciso saber respeitar as religiões diferentes. Davi escutou a reflexão de sua mãe e prontamente apagou, com uma simples borrachada, aquele detalhe, refazendo o emblema tradicional da bandeira. É surpreendente testemunhar este momento. Hoje, um gesto que poderia ser considerado agressivo, se fosse transformado em ação, é representado num desenho e pode ser revertido pela ação da palavra, da reflexão e do pensamento. Hoje, uma simples borracha pode apagar um gesto "agressivo" e reconstruir um novo símbolo numa folha de papel. A capacidade simbólica reconstruída na mãe, resgatada no pai e fabricada no filho, transformou o menino selvagem em cidadão, reinventado o seu destino.

 
 
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