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Costa, Sandra Maria Silva da. Vivendo com AIDS e enfrentando a violência: a experiência das adolescentes. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 103 p.

VI- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando tudo o que foi exposto neste trabalho de pesquisa, seja através do material teórico que mostrou conhecimentos elaborados sobre a categorias violência e Aids, seja por meio dos relatos das vivências de violência e da Aids das adolescentes, fica para nós a forte evidência de que não podemos dissociar este problema daqueles outros intimamente ligados à perdas e exclusões, desde a auto-estima até os direitos garantidos por lei e não respeitados.

Sobressai para nós atualmente o pensamento de que entre os agentes transgressores dos direitos das pessoas, principalmente daquelas que vivem dentro de condições socioeconômicas menos favorecidas, podem estar os próprios representantes das leis e dos governos que, deliberada ou passivamente, ignoram as demandas de grupos minoritários que compõem a coletividade, sobrepujando o interesse humano pelo financeiro.

O mecanismo de opressão de alguns grupos em nossa sociedade, subtrai, nessa troca declarada da vida humana pelo mercado financeiro, a força que poderia manter os sujeitos unidos em suas próprias causas, principalmente quando estão envolvidas nestas questões de saúde e educação, e prima por dificultar o exercício de sua cidadania.

Quer façamos referências à violência ou à Aids, ou ainda a qualquer problema da atualidade, ao voltarmos nossos olhares para o cenário em que esses fatos ocorrem, constatamos que eles rondam todas as pessoas de qualquer lugar. O que faz a diferença nesses casos é refletirmos criticamente sobre quem fica mais vulnerável e sob quais circunstâncias determinados grupos sofrem mais com os problemas encontrados em nosso meio sociocultural.

Se considerarmos nesse processo as desvantagens encontradas no cotidiano das pessoas, oriundas das divisões de classe econômica, de raça e de gênero, saberemos identificar com mais nitidez quem está mais exposto aos efeitos negativos dessas divisões que promovem tantas exclusões e preconceitos.

Os limites interpostos às pessoas podem e costumam ser vastos e perigosos. Estudar, conseguir um trabalho, ter uma moradia, cuidar da saúde são possibilidades que deixaram nas últimas décadas de se constituírem em um direito a que todos tem acesso para se transformarem em situações de privilégios, sendo que a maioria da população se encontra à margem da esteira do desenvolvimento econômico e cultural.

Ressaltando uma das dimensões de nosso trabalho, estivemos envolvidos em todo o tempo desta pesquisa com a questão de gênero através das adolescentes. Observamos que o sexo ainda é um determinante forte na concretização das relações diferenciadas e desiguais para homens e mulheres de todas as idades, apesar das variantes hoje presentes em nossa cultura, que são as repercussões até mesmo no acionamento de dispositivos legais e/ou sociais no sentido de enfrentar as discriminações dessa ordem.

Havia desde o início de nossa pesquisa o interesse de estudar e tentar compreender as formas como essas relações de gênero se processam na adolescência. Assim, a percepção destas relações segmentadas no universo de vida das adolescentes, próprias às divisões sociais de sexo, nos permitiu constatar que para as mulheres nessa faixa etária pesa também, entre outros fatores, a força de uma orientação patriarcal, em que as vemos se submeterem a toda sorte de relações nesses moldes, inclusive aquelas em que há violência, sem questioná-las.

As adolescentes demarcam bem nas suas falas as violências físicas e morais que sofreram, relatando experiências de agressões corporais e verbais da parte de seus parceiros, de violências sexuais, nas tentativas de estupro e abuso sexual e, ainda, as violências que se constituem em difamações de seus comportamentos, por exemplo, por reações ao se recusarem a aceitar as investidas de algum rapaz. Porém, identificamos outros tipos de violência que não são por elas revelados como tal, porque aceitam certas atitudes de seus namorados e/ou maridos como naturais dos homens, cabendo a elas apenas entender e aceitar.

Observamos que toda a intensidade do que se rompe naturalmente com o desenvolvimento físico e psicológico das adolescentes e que deveria propiciar nelas à descoberta de sua sexualidade e sua subjetividade de uma forma mais tranquila e segura na relação consigo mesma e com o outro, com mais auto-estima e respeito sobretudo humano, esbarra nas divisões sociais do sexo, restringindo-as em suas iniciativas, não só com os apontamentos negativos sobre tudo que envolve o seu corpo, mas também na falta de esclarecimentos sobre as mudanças que se realizam nele.

Uma das reflexões que fazemos aqui é que o espectro de perdas, nessa fase da vida, pode ser maior se estiverem associados ao fator gênero outros referenciais como o de raça e o de classe socioeconomica, identificados com os grupos marginalizados.

Levantamos neste processo de pesquisa alguns dados de realidade que acrescentam muito às nossas reflexões. Sabemos que a educação formal e informal das adolescentes é guiada por expoentes sociais e culturais parciais, que ditam o papel feminino nas relações e dificultam às vivências de suas experiências comuns mais protegidas das manifestações de violência e de algumas doenças. Por sua vez, os Serviços de Saúde só entendem as suas demandas físicas e continuam seguindo o modelo tradicional de tratar as conseqüências orgânicas tanto das violências que sofrem quanto das doenças que estão expostas cada vez mais, como as sexualmente transmissíveis, entre elas a Aids.

Identificamos ainda que no aspecto da saúde reprodutiva, a sexualidade das mulheres ainda se mantém circunscrita, através dos profissionais que atuam nessa área, a questões que são provenientes de sua vivência, como uma gravidez, mas a sexualidade em si, ainda não é abordada significativamente nos serviços públicos de saúde.

Tendo em vista que a vida sexual das adolescentes inicia-se, na atualidade, mais cedo, na faixa etária média entre 13 e 14 anos, que houve um aumento da incidência de gravidez na adolescência, assim como também de outras situações decorrentes da prática sexual, consideramos oportuno que os meios em que as adolescentes circulam, entre eles os de serviços de saúde, pudessem incluir em seus trabalhos as abordagens mais amplas que só aquelas referentes aos tratamentos das doenças. O trabalho de prevenção é inquestionavelmente importante, porém ele sempre sai acrescido de bons resultados quando se busca atingir as origens dos problemas e não se fica limitado às suas manifestações mais externas.

Entendemos que discutir sexo, sexualidade e relacionamentos afetivos como expressões fortes da adolescência, olhando os sujeitos dessa faixa etária pelos ângulos da descoberta e do desejo de realização dessas evidências com os seus pares, é fundamentalmente importante em um trabalho de prevenção voltado para as doenças sexualmente transmissíveis e a Aids.

Os muitos exemplos encontrados na adolescência como o de gravidez, o aumento de experiências de abortos clandestinos com riscos à saúde, o abandono da escolaridade, o contágio do HIV-Aids nas primeiras relações, são fatos que ocorrem com as adolescentes e são também sinais que deveriam nos fazer pensar sobre as vulnerabilidade que desenham estes quadros nesta etapa da vida.

Queremos deixar claro que não se configura em ganhos para ninguém expor como agravantes a boa satisfação de vida de uma pessoa, uma gravidez ou um aborto, ou, antes mesmo, a prática do sexo na adolescência, pois, em si mesmos, se vistos isoladamente, podem esses exemplos não se constituirem em problemas na vida das pessoas envolvidas diretamente com essas questões.

O problema que levantamos aqui é o das susceptibilidades das adolescentes para viverem suas experiências sem se darem conta dos riscos à sua própria saúde física e psíquica e trazemos para discussão desses casos a própria organização dos serviços públicos de saúde e das políticas de prevenção em terrenos próprios da adolescência. Especificamente nos serviços que se dispõem à abordagem da saúde reprodutiva e sexual, observamos que suas práticas junto às mulheres, efetivamente, não conseguem se desvincular de modelos de assistência arcaicos, comparados às demandas sobressaídas do confronto das adolescentes desde muito cedo com experiências que envolvem a sexualidade e a prática do sexo ou ainda com as relações de gênero.

Podemos constatar também que os serviços públicos que atendem a saúde da mulher, embora tenham sofrido transformações nos últimos anos, visando uma melhor especialização, ainda são muito restritos, ou seja, reservam suas iniciativas de atendimento apenas às mulheres e não englobam os inúmeros outros aspectos relacionados à saúde física e mental delas. Revelam esses serviços, em grande parte, na realidade concreta de seus atendimentos, ter propostas unilaterais para as quais os profissionais, e antes desses, as políticas e os planejamentos de saúde nessa área, estipulam sobre o que e quem vai ser contemplado nesses serviços.

Registramos também que a abertura de espaços nos programas de saúde reprodutiva, é mínima para que seus parceiros, seja namorado ou marido, enfim, o outro das relações que elas vivenciam e que suscitam os problemas ou questões que as fazem ou deveriam fazê-las procurar um serviço de saúde. Creditamos esse registro inicialmente a duas razões. Primeiro, a uma cultura enraizada que perpetua a crença de que saúde reprodutiva é terreno da mulher, seguindo os modelos segmentados de relações tão vastos e complexos em nossa sociedade e que não dizem respeito só ao gênero, mas também às diferenças de classes econômicas, raciais, etárias, etc.

E segundo, ao desconforto, até mesmo pela falta de preparo dos profissionais, em abordar assuntos que ainda são tabus em nossa cultura. O casal que se apresenta junto nos atendimentos impõe outra dinâmica às abordagens das questões peculiares a esses serviços, exigindo melhor formação, mais desprendimento dos valores e crenças e mais solidariedade e respeito, aos profissionais em suas atribuições de promoverem saúde e esclarecimentos com mais qualidade e responsabilidade. Assim, pode-se evitar na vida de seus pacientes os excessos patógenos como as agressões, omissões, violações de várias ordens, e especificamente as de gênero, que deixam todas as pessoas vulneráveis a inúmeros riscos físicos, psicológicos e sociais.

Partimos, em uma outra dimensão de nossa pesquisa, do pressuposto de que as interferências políticas, culturais e econômicas aliadas ao poder dos meios de comunicação dão um contorno todo especial às experiências na adolescência, no sentido de produzir geralmente uma depreciação na qualidade de suas vidas ao classificarem as pessoas dessa faixa etária como meros consumidores, sendo as ofertas às suas demandas restritas ao prazer e as fantasias, ao mundo mágico das coisas inacessíveis, através de uma grife ou marca de algum produto.

Os órgãos governamentais de saúde, as escolas e a mídia poderiam construir uma outra realidade, livre ou com proporções reduzidas de problemas como a violência e a Aids, se manifestassem maior empenho para a conquista de uma linha de compromisso na interação com seus interlocutores mais novos, com mais seriedade e ética na abordagem de temas que são do interesse destes. Um primeiro passo para essa nova realidade seria o processo de deixarem de qualificar os adolescentes sempre como incapazes. Esse pensamento, muito cultivado em nosso meio e que influencia fortemente iniciativas nessa área pelas instituições de saúde e educação, destitui os/as adolescentes, a priori, da condição de serem também responsáveis em suas experiências.

Uma outra consequência desse pensamento e das ações advindas dele seria a omissão ao proporcionar aos adolescentes o suporte social, cognitivo, afetivo e cultural de que precisam, esquivando-se, os representantes dos órgãos e instituições de saúde e educação, de promoverem, entre esses atores, em seus âmbitos de atuação, mais discussões sobre os riscos e também sobre as possibilidades de experiências mais seguras que estão implicados nos relacionamentos sexuais, afetivos e sociais próprios à adolescência.

Entendemos, por outro lado, que as adolescentes em nosso contexto social, além de estarem expostas aos problemas gerais que guardam relação com as transformações de nosso tempo, atingindo direta e negativamente os direitos humanos conquistados no decorrer dos tempos, enfrentam problemas graves pela falta de experiências com as questões de gênero, que lhes oneram física e psicologicamente, na medida em que elas convivem desde cedo com a violência e com doenças como a Aids.

No caso específico das adolescentes, que buscam o seu espaço de relação primeiramente em seu corpo, procurando encontrar, posteriormente, o mundo, com todas as suas possibilidades de existir, o deparar-se com doenças e principalmente doenças como a Aids, que lhes remetem de imediato à idéia de morte, torna-se uma experiência de vida muito forte e muito difícil de ser elaborada e resignificada em termos de vida e de futuro, aliando a isso seus projetos e sonhos.

Consideramos importante ainda expor que as diferenças de raça, idade e gênero, etc., encontradas em nosso meio sociocultural, em princípio, não provocam um mal-estar, pois cada uma existe com significados próprios e não necessariamente se anulam, desde que respeitadas. O que provoca tantas cenas desagradáveis de perseguições e violações de toda natureza são as manipulações destas diferenças para transformá-las em motivos de discriminação de pessoas ou grupos, alijando-os de sua condição de cidadãos.

O que precisa ser discutido a fim de se promoverem soluções para muitos de nossos problemas são as iniciativas para se reconhecerem e destruírem as desigualdades, quando estas implicam em injustiças sociais.

Não queremos dizer com o recorte de gênero privilegiado em nossa pesquisa que as únicas pessoas prejudicadas com as construções sociais do sexo são as mulheres. A relação desigual entre homens e mulheres guardam dificuldades para ambos, mas é importante identificar que diferenças são essas, sem conotações que diminuam um ou outro gênero, aproveitando para, entre outras coisas, fazer com que essas dinâmicas, sem o peso da injustiça e do preconceito, possam vir a ajudar nas políticas de prevenção da violência e da Aids e na promoção da saúde de todos os atores envolvidos nas discussões de gênero.

Nos aprofundando nas demandas das adolescentes com Aids, considerando os aspectos até aqui considerados, percebemos que a falta de uma integração entre as áreas da saúde que buscam atendimentos acarreta um problema muito sério. As especialidades que fogem às margens clínicas da Infectologia e/ou Imunologia, de uma forma geral, resistem a pesquisas e/ou atualizações de informações e tratamentos em suas áreas de pessoas que vivem com HIV-Aids. Quando os profissionais se dispõem a atender, salvo algumas exceções, eles se limitam à sua especialidade, remetendo as pacientes aos médicos que tratam os casos de HIV-Aids como os únicos que lhes poderão responder sobre suas dúvidas. Esta atitude nos faz lembrar de assertivas como a de que "a Aids é a doença do outro", permitindo ampliá-la para os espaços da Saúde, pois registramos que a Aids é a doença para um outro cuidar.

Como exemplo mais esclarecedor dessa situação, nos baseando nos relatos das adolescentes, consideramos os serviços de ginecologia/obstetrícia muito desvinculados tanto da prevenção quanto do tratamento da Aids. Além de todas as dificuldades que ainda existem para uma garota procurar atendimento nessas áreas, tendo em vista os problemas econômicos que tanto as impedem de tratarem-se particularmente, quanto restringem em muito o número de profissionais nas unidades públicas, não suprindo as demandas existentes, assinalamos os medos e receios que as adolescentes sentem de procurar esses profissionais.

Expor a vida sexual não é tarefa fácil para ninguém, por questões de educação e por se temerem represálias ou julgamentos dos profissionais e dos pais, caso estes venham a descobrir suas experiências com o sexo.

As adolescentes relatam que quando em tratamento por uma ou mais DSTs, ou um outro problema de origem ginecológica, em nenhum momento (antes de saberem do HIV-Aids) foi feita uma vinculação dessas doenças com a Aids e nem foram feitas ressalvas informativas sobre as DSTs, no sentido de prepará-las com maiores esclarecimentos sobre essas doenças. Não há registros, entre elas, de um trabalho preventivo por parte dos profissionais dessa área, não se criando desta forma subsídios para as adolescentes ficarem mais alertas quanto aos riscos de não se conhecer os hábitos e a vida sexual de seus parceiros. Mais uma vez nos deparamos com segmentações.

Os exemplos que as adolescentes nos trazem através de suas experiências são os de que ficam sabendo sobre a infecção do HIV-Aids, mais frequentemente, no período da gravidez (nos exames agora de rotina) ou na evolução insatisfatória de alguma doença, como a pneumonia. E com relação à descoberta de estarem soropositivas, na fase do pré-natal, a forma irregular como esse problema é abordado quando da devolução dos resultados dos exames para a Aids, devido ao já mencionado despreparo dos profissionais, pode colocar a perder tempo e recursos humanos preciosos como a esperança, o ânimo e o desejo de viver e lutar por um tratamento da Aids, tanto para si mesmas quanto para a própria criança que está sendo gerada.

Classificamos essas abordagens como irregulares e nos referimos ao despreparo dos profissionais por uma série de razões. A Aids, por envolver em sua dinâmica temas que mobilizam muito nossas estruturas mais íntimas como sexualidade e morte, suscita reações diferenciadas nos profissionais de saúde diante da possibilidade de ter entre seus pacientes pessoas com essa doença.

Observamos que perpassam, nas ações de muitos profissionais, conteúdos de seus valores morais e de suas crenças diante da vida, quando abordam a Aids de forma superficial, tanto por não quererem tratar esta doença quanto por não saberem lidar com as questões que se vinculam a ela. A responsabilidade por essas posturas recai com grande peso sobre os órgãos públicos da Saúde, pelo fato de estes não investirem na formação de seus profissionais para que superem as dificuldades de diversas ordens que se apresentam nos caminhos dos profissionais que trabalham com Aids, deixando escapar oportunidades de oferecer atendimentos mais humano às pessoas que vivem com HIV-Aids.

Em vista do que presenciamos ao longo do trabalho de pesquisa, pensamos que as instituições, seja de pesquisa ou de tratamento e prevenção da Aids, se ressentem de iniciativas que discriminem os acometimentos mais comuns no organismo feminino quando afetado pela doença em estudo. É importante que tais instituições prestem melhores serviços às adolescentes, uma vez que estas, independentemente de se verem convivendo com uma doença que ainda não tem cura, mantém seus sonhos e desejos de engravidar, de viver e de cuidar dos seus filhos à frente das limitações impostas pela Aids e pelo que ainda não conhecemos dela, pedindo ajuda para que possam realizá-los de alguma forma.

Um dado importante a ser considerado ainda é que muitas vezes as adolescentes nos perguntaram sobre as possibilidades de gravidez com a Aids, o que nos faz acreditar que, entre outras coisas, elas estavam nos argüindo sobre suas chances de continuarem sonhando e vivendo, sem abrir mão de seus próprios desejos e sem passarem por novas experiências de perdas, como já haviam vivenciado antes mesmo da Aids, quando entraram em contato com violências físicas e sexuais, com omissões que lhes deixaram desprotegidas para muitas situações na vida.

Entendemos, a partir do que nos contou uma das adolescentes entrevistadas, ao revelar que usa camisinha feminina e pede às vezes para seu namorado usar a dele também, que esta mudança de comportamento depois do contágio revela não simplesmente um exagero, mas sim um cuidado para se proteger de coisas que são muito difíceis de serem vivenciadas, principalmente na adolescência, quando se mergulha com vontade nas experiências sem se preocupar com os riscos e limites. Depois de tanto sofrer agressões físicas de seu ex-companheiro, a informante hoje convive com uma pessoa de que gosta e lhe trata muito bem, e entende que transar com a camisinha feminina e masculina ao mesmo tempo protege a ambos e a tranquiliza quanto ao fato de ela não querer contar a ele sobre a sua situação de ser soropositiva, livrando-a do risco temporário de perdê-lo.

Resta saber, em vista do que exemplificamos acima, que tipo de "proteção" as adolescentes pedem a nós, profissionais de saúde, e que diálogo nos propomos a manter com elas, e também com seus familiares e parceiros, para que possamos reconhecer as questões que preocupam as mulheres nessa faixa etária, e lhes oferecer alternativas para a solução dos problemas circunscritos à Aids, englobando nesse processo corpo e sentimentos.

Ressaltamos em nossas reflexões finais na pesquisa que realizamos que não se deve considerar as diferenças como motivos para se expropriarem direitos de ninguém nem para se excluir dos contextos de vida das pessoas respeito e dignidade, pois podemos conviver com tais diferenças e fazer delas instrumentos em nossas lutas sejam elas quais forem, sejamos pobres ou ricos, adolescentes ou idosos, tendo Aids ou não, exercitando nesse processo de viver uns com os outros mais ações de solidariedade e de cidadania.

 
 
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