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Costa, Sandra Maria Silva da. Vivendo com AIDS e enfrentando a violência: a experiência das adolescentes. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 103 p.

II - CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS


2.1 - O Método

Elegemos a metodologia qualitativa para esta pesquisa tendo em vista que ela nos permite abordar a realidade de uma forma conjuntural, abarcando neste processo as dimensões do social, do contexto histórico-cultural e da subjetividade. Esta perspectiva metodológica nos aproxima de uma compreensão do sujeito em constante relação com a realidade social, mediante ações que implicam em intencionalidade. E no esquema de interação e/ou transformação dos fatos impulsionado pela dinâmica social, o sujeito dá significados às suas vivências e constrói suas representações do mundo a partir de suas próprias experiências.

Toda ação faz referência também ao que há de intrínseco à condição humana no que diz respeito às expressões de valores, crenças e motivos. Estes aspectos, quando considerados relevantes num trabalho de pesquisa, auxiliam a compreensão de como o sujeito vê, sente e pensa a realidade a partir de seus componentes subjetivos.

Privilegiamos também nesta pesquisa a linguagem, as narrativas e os conteúdos de fala manifestos e latentes por entendermos que estes constituem-se em importantes recursos para a apreensão dos significados dos atos e das formas de relação das pessoas frente ao contexto sociocultural que compõe suas estruturas de vida.

Seguindo esses passos metodológicos em nosso trabalho de pesquisa buscamos chegar com mais profundidade ao conhecimento da realidade pretendida que é a da(s) violência(s) sofrida(s) pelas adolescentes vivendo com HIV-Aids.

 

2.2 - O Campo

Nosso trabalho de campo foi realizado no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG). Esta Unidade de Saúde, que integra a Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio) desde junho de 1979, fazendo parte de seu Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, teve sua história iniciada em nossa cidade em 1929, e sempre no bairro da Tijuca. O surgimento do Hospital na época em que o Rio de Janeiro era capital do Distrito Federal deve-se a recursos de dois ricos empresários, Cândido Gaffrée e Guilherme Guinle, inspirando assim a origem de seu nome. Ao morrer, Gaffrée deixara registrado por escrito o seu desejo de que 3 mil contos de réis de seus bens fossem destinados à criação de uma Instituição em defesa da saúde pública no Rio de Janeiro. Em 1923 seu amigo Guinle impulsionou essa manifestação doando um terreno no nº 775 da Rua Mariz de Barros, espaço esse em que seria erguido o hospital. Na ocasião de sua inauguração tratava-se do maior e mais moderno hospital da Capital Federal. Nos anos 30, este hospital tornou-se um respeitado Centro de Tratamento de Doenças Venéreas, o qual foi incorporado à Escola de Medicina e Cirurgia, em 1963, por um decreto do então presidente João Goulart. Porém, somente em 1966 a Escola de Medicina e Cirurgia receberia o Hospital Gaffrée e Guinle.

O Hospital Gaffrée e Guinle passou a ser denominado Hospital Universitário Gaffrée e Guinle em 1968, tornando-se um hospital de ensino. E, passando algumas décadas, com o crescimento seguido de suas atividades, em 1987 foi credenciado como Centro Nacional de Referência em Aids. No ano de 1988, apto a oferecer formalmente o treinamento de recursos humanos, passou a receber profissionais de todos o Brasil para a realização de cursos pagos pelos Ministérios da Saúde e da Educação. Os cursos foram interrompidos em todos os Centro de Referências em 1990. Desde 1989 o HUGG possui um Centro de Testagem e Aconselhamento Anônimo. Essa experiência foi adotada em 1993, com modificações feitas pelo Ministério da Saúde, através dos COAS (Centro de Orientação e Apoio Sorológico).

Atualmente esse hospital conta 70 anos. Uma visita em seus espaços nos faz verificar que muito da sua história continua preservado no prédio original, marcando os traços de uma construção de época. Alguns dias vivenciando a dinâmica de atendimento deste hospital nos permitem observar o quanto a qualidade do que esse local já produziu junto à população do Rio de Janeiro, a qual luta para preservá-lo, também sofre com os cortes de investimentos no setor de Saúde.


2.3 - A escolha do campo

A escolha de trabalhar nessa pesquisa no HUGG foi motivada, primeiramente por ser esta uma instituição hospitalar tradicional no tratamento da Aids na cidade do Rio de Janeiro. Esse fato assegura, por sua vez, o meu encontro com as adolescentes vivendo com HIV-Aids, já que há em andamento, nos seus quadros de atividades, programas de prevenção e tratamento de pessoas nessas idades. A Segunda motivação resultou de minha proximidade com profissionais dessa Unidade de Saúde, o que facilitou meu acesso.

O encaminhamento da direção, especialmente na pessoa da Dra. Norma Friedman, chefe da Divisão Médico-Hospitalar, e também pediatra deste hospital, para o Ambulatório de Alergia e Imunologia, na tentativa de viabilizar minha pesquisa, foi o primeiro passo para que com a ajuda da coordenadora desse ambulatório, Dra. Norma Rubini, me aproximasse das adolescentes atendidas por ela. Esta coordenadora é uma profissional da área médica e professora adjunta responsável pelo setor de Imunologia Pediátrica. O ambulatório aqui referido, funciona no espaço acadêmico que o agrega e serve também para o aprendizado dos alunos de Pós-graduação da Uni-Rio, onde são acompanhados, em seus atendimentos, por médicos supervisores. O que o caracteriza com uma rotina muito dinâmica, com várias pessoas circulando nesse espaço que contém várias salas (consultórios), mas que acaba tornando-se pequeno devido a grande circulação de pessoas, entre médicos, alunos, pacientes, funcionários e familiares.

O ambulatório de Imunologia e Alergia tem um movimento diurno intenso, com pessoas de todas as idades sendo atendidas. De sua clientela assistida, um grande número encontra-se vivendo com HIV-Aids.

Além dos médicos, este ambulatório conta com os serviços de uma assistente social e de duas psicólogas, que promovem grupos terapêuticos com as crianças e adolescentes e reunião de mães, em uma sala específica para a realização desse trabalho.

Para a realização das entrevistas, me foi cedida, pela Dra. Norma Rubini, a sala do computador, que se caracteriza basicamente como um espaço de preparação de material de leitura e estudo. Trata-se de uma sala pequena, mas que atendeu plenamente às exigências para a boa realização das entrevistas. Os profissionais do Hospital tiveram o cuidado de avisar que eu estava entrevistando as adolescentes, para não haver interrupções. Até mesmo pelo grande movimento do local, onde há muitas pessoas, as interrupções aconteceram, mas sem nenhum prejuízo ao meu trabalho, e as situações dessa natureza eram resolvidas prontamente.

Eu tinha na Dra. Norma Rubini e também na Dra. Juçara Paraguai duas intermediárias com o grupo de profissionais do ambulatório para o bom andamento de minha pesquisa.

As entrevistas e a leitura dos prontuários das adolescentes me foram facilitadas e conversas esclarecedoras sobre o tratamento, com informações importantes sobre seus diagnósticos, me foram proporcionadas pela médica que as acompanha.

O trabalho de campo acontecido neste hospital foi um processo que exigiu tempo, pois permaneci praticamente três meses no local, com visitas às vezes semanais, quinzenais em um outro período, conforme necessidades de contactar as adolescentes e agendar horários para as entrevistas.

Com todas as situações previstas e imprevistas, o trabalho aconteceu, e ao final podemos dizer que o apoio da equipe de profissionais do HUGG foi favorável e fundamental para sua realização.


2.4 - Encontros e impressões com as adolescentes

A iniciativa gentil da Dra. Norma Rubini, de conversar com as adolescentes individualmente, por vezes com a minha presença, sobre a pesquisa e pedir a participação delas foi muito importante para minha aproximação com elas, facilitando muito o meu trabalho. Nesse primeiro contato marcávamos as entrevistas e eu dava também algumas explicações sobre a pesquisa. Essa abordagem na qual era pedida a participação das adolescentes na pesquisa sempre era feita no dia em que elas tinham consulta médica. Na ocasião eram agendadas as entrevistas.

Posteriormente, mais precisamente no dia marcado para as entrevistas com as adolescentes, eu esclarecia-lhes a pesquisa de forma mais aprofundada e abria espaço para resolver dúvidas, fazer perguntas ou outras observações que tivessem no momento. Essa prévia era feita individualmente ou em grupo, caso mais de uma adolescente fosse entrevistada no mesmo dia. Devo ressaltar que o bom vínculo das adolescentes com sua médica trouxe também ganhos para mim, possibilitando uma boa relação inicial entre nós. Todas as adolescentes demonstraram em princípio boa vontade e carinho para participarem da pesquisa. Era perceptível também, embora em graus diferenciados, em todas adolescentes, uma preocupação com suas participações, a qual só se desfez no decorrer do processo das entrevistas, quando elas verificaram que se tratava antes de tudo de uma conversa mais aprofundada sobre suas experiências com a Aids, quando poderiam expor seus pensamentos e sentimentos mais espontaneamente.

Nas primeiras entrevistas, reconheci em mim mesma uma preocupação com minha abordagem junto às adolescentes na forma de entrevistas. Atribuo essa preocupação ao fato de minha experiência, como psicóloga, principalmente no meio hospitalar, implicar em uma escuta e uma intervenção, baseadas em conteúdos surgidos no momento do meu encontro com os pacientes, sem um roteiro prévio. É uma situação de abordá-los sobre o que estão vivenciando com a expectativa e/ou o resultado do exame de Aids, sobre o diagnóstico e a evolução de alguma doença oportunista, ou ainda, sobre o início do tratamento, as medicações e os afetos que envolvem tantas questões presentes nessa situação específica. Foi preciso, tanto elas quanto eu mesma, ultrapassarmos "preocupações" diferenciadas, mas no mesmo espaço de interação.

Muitas informações foram transmitidas pelas adolescentes antes de as entrevistas transcorrerem, as quais foram por mim registradas na memória ou em rascunhos quando elas não estavam mais presentes na sala. O momento dos esclarecimentos dos objetivos da pesquisa e leitura do "Termo de Consentimento" (em anexo) era aproveitado pelas adolescentes e alguns de seus responsáveis para comentários e assim foi possível perceber, que os mesmos refletiam questões que elas estavam vivenciando atualmente e que versavam geralmente sobre a hipótese de gravidez, seja porque não dava tempo de usar a camisinha, ou porque esta furou, ou porque foi dada uma "prova" de amor pedida pelo namorado (transar sem camisinha). Nessa situação inicial, muito mais que no decorrer das entrevistas, pude observar que falar ou não com o namorado sobre o HIV-Aids, poder engravidar ou não e em quais circunstâncias representavam um processo emocional muito intenso, perpassando todo o pensamento delas e o interesse da conversa. Esses fatos são, ou já foram, questões importantes para a maioria delas.

Contornando as expectativas delas com relação ao motivo pelo qual, enquanto psicóloga, recorriam a mim para falar sobre suas experiências e quanto às minhas próprias expectativas no sentido de ajudá-las mais diretamente, coloquei em primeiro plano a necessidade de entrevistá-las, situando-me no lugar que ali me cabia para a realização da pesquisa. Devo confessar que não foi uma tarefa fácil. Porém, após cada entrevista, com algumas adolescentes conversava informalmente, sem perder de vista o que haviam mencionado, buscando sempre levá-las a falar sobre alguns assuntos que elas expuseram para mim com a médica que as acompanhava e também com os psicólogos da casa, pois considerava importante estarem sendo ouvidas e até orientadas por alguém sobre algumas de suas questões. Sempre respeitando os espaços dos outros profissionais, considerando o fato de eu não estar inserida neste grupo e nem participar do tratamento delas. E ainda, sem ferir o que elas me abriam em termos de informações pessoais, buscava trocar algumas considerações com a médica que as acompanha ambulatorialmente, iniciativas nas quais sempre fui bem acolhida, vendo um esforço dessa profissional para ajudar suas pacientes adolescentes.

Como voltei inúmeras vezes ao Ambulatório de Imunologia, sempre reencontrava as adolescentes. Continuamos a nos ver e sempre que havia chances conversávamos um pouco, e assim eu ficava sabendo do desenrolar de alguns acontecimentos relatados por elas, como por exemplo o resultado negativo para gravidez de uma delas. Acabava me envolvendo de alguma forma com elas e acompanhei um pouco algumas situações vividas por essas adolescentes.

Uma das adolescentes me disse certa vez que achava que havia chegado o momento de conversar com seu namorado sobre o fato dela ser soropositiva. Falou que naquela semana iria contar para ele. Senti essa sua manifestação como se quisesse me dar um retorno (no fundo creio que a ela mesma) por não ter falado nada ainda nesses meses de relação com o namorado. Durante a entrevista havia dito que estava esperando o momento certo para isso e que sentia que esse dia estava chegando.

Todas as adolescentes revelaram uma preocupação de não contaminar seus parceiros, dizendo tomar as precauções necessárias, embora duas delas nada falem a respeito de estarem com o vírus da Aids.

Diríamos com base nos relatos das adolescentes, que de uma forma geral, elas tinham algumas informações sobre a doença antes e as têm em uma outra dimensão agora, a da vivência delas. Todavia, a dificuldade não está em lidar com as medidas de prevenção, com o tratamento, com a doença, mas com a aceitação delas pelo outro e no caso delas, com seus parceiros. Algumas venceram essas expectativas no momento, outras tentam também rompê-las e ser feliz nos seus relacionamentos e nos seus planos de vida.


2.5 - Conversando com as mães das adolescentes

Além das seis adolescentes entrevistadas nesse hospital, com idades entre 15 e 19 anos, conversei também com três mães que sempre acompanham as filhas nos dias da consulta. Inicialmente nossa conversa era para que eu pudesse explicar a pesquisa e pedir a autorização delas já que se tratava de menores de idade. Elas foram receptivas ao pedido, concordando com a participação das suas filhas nas entrevistas. Também aproveitaram este momento para fazerem comentários sobre suas filhas, referindo-se a alguns aspectos pessoais delas. Uma conversou muito, trazendo as dificuldades que encontra no relacionamento com a filha (18 anos) antes e depois de saber que ela estava com o vírus da Aids. Contou várias histórias sobre o comportamento da filha e de um namorado com quem ela foi morar e que recentemente faleceu, em virtude da Aids. Disse que sua filha só se trata atualmente, só comparece às consultas, porque ela praticamente a obriga. Diz que até liga para a patroa dela para avisar o dia da consulta e pedir que a libere. Segundo essa mãe, se não fizer isso sua filha não aparece no hospital.

Já uma outra mãe que se encontra há anos acompanhando a filha de 15 anos nos tratamentos, preocupa-se com as mudanças que se processam nela, que está mais "rebelde" atualmente. Observei que tem cuidados para que sua filha de nenhuma forma seja identificada nessa pesquisa, pois teme o preconceito das pessoas. Disse que não permite nem fotos da filha na sala das psicólogas, onde acontecem as reuniões com o grupo de adolescentes vivendo com HIV-Aids, para evitar que alguém a reconheça como tal.

Os pais ou responsáveis que não se encontravam presentes no hospital receberam através de suas filhas, em casa, o Termo de Consentimento para que o assinassem.

Coloquei-me à disposição dos pais que não mantive um contato direto no hospital, para maiores esclarecimentos sobre a pesquisa, caso sentissem tal necessidade. Para uma das adolescentes (15), eu disse que ligaria para o trabalho de sua mãe e explicaria a pesquisa, pois percebi que isso seria importante para ela. Na oportunidade, falando por telefone com esta mãe, conversamos não só sobre a pesquisa, mas também sobre sua filha por iniciativa dela.

Não encontrei nenhum obstáculo junto às mães para a assinatura do Termo de Consentimento.

A iniciativa de pedir aos pais e/ou responsáveis para assinarem também o Termo de Consentimento tornou-se necessária uma vez que as adolescentes eram menores de idade.


2.6 - Um pouco mais sobre as adolescentes

Os nomes das adolescentes como medida de segurança foram mudados, ganhando elas outros nomes quando referidas nesta pesquisa.

Apresentamos desta forma as adolescentes, colocando em algumas linhas um pouco sobre suas histórias.


  • Rose

Trata-se de uma adolescente de 19 anos muito simpática e comunicativa, que, paralelamente à questão da Aids em sua vida, já teve que enfrentar muitas outras "barras". Sempre que ouço de novo suas histórias ou me recordo dela se expondo verbalmente, fico com a impressão de que todos os seus relacionamentos, seja com os familiares, seja com o namorado, que foi seu companheiro por muito tempo, foram sempre conturbados, com as pessoas lhe omitindo verdades importantes para ela. Encontrava-se inocente para muitas coisas, como para o fato de que o pai de criação de que tanto gostava era na verdade o seu pai biológico. E ainda, para aceitar "explicações" ingênuas, como a de que a gonorréia se pegava pela friagem nos pés (pés descalços), dadas por seu namorado. Ela por sua vez, transmite muita verdade no que diz. Expõe suas experiências com emoção e busca uma autenticidade consigo e com os outros, mesmo tendo pouca vivência de um retorno disso em suas relações. Agora, talvez com a Aids, tudo parece que se tornou o que realmente é. Tudo que tinha que saber veio à tona na adolescência, verdades e doenças. Porém ela não deixa de sorrir e de ter esperanças na vida e quer dar vôos aos seus projetos pessoais.


  • Lídia

Poderia dizer que essa adolescente, além de muito bonita e simpática, que teve seu único filho aos 16 anos, é também muito madura. Talvez, de todas que eu entrevistei, seja a mais crítica quanto ao que está vivenciando com relação à Aids e também com relação à vida de uma forma geral.

Lídia, atualmente com 18 anos, é soropositiva e no momento não faz uso de nenhuma medicação específica. Desde que soube estar com o vírus da Aids atravessou períodos difíceis, mas sem alterar sua rotina nos cuidados com o filho, nos estudos e no estágio escolar, dando andamento às suas atividades. Silenciosamente descobriu estar com o vírus e silenciosamente vive essa questão, tentando assim driblar preconceitos e reações negativas das pessoas. Por tratar-se de uma pessoa muito afetiva, no momento me parece que seu único medo é perder o amor de seu namorado, que diz ter certeza de que gosta muito dela, se falar para ele que tem o vírus.

Ela demonstra sempre em seus relatos saber o que quer da vida para si mesma e também para o seu filho.


  • Ana

Praticamente a sua vida inteira, ainda que curta, 15 anos, Ana esteve envolvida com problemas de saúde. Várias doenças e internações. Parece que a rotina normal dela e de sua mãe é encontrar-se no meio hospitalar, entre uma consulta e outra, entre um exame e outro. Com meses de idade, em uma transfusão sanguínea, foi contaminada pelo HIV. Quando alguns familiares no decorrer de aproximadamente 3 anos já sabiam sobre o diagnóstico de Aids, ela, na época com 14 anos, descobriu ao assistir uma reportagem de TV o que realmente tinha e a partir daí coisas importantes aconteceram em sua vida.

Acredito que, devido a essas experiências, saber que estava com a Aids não lhe causou um impacto tão grande quando soube. Às vezes, tenho dúvidas se Ana tem a noção do que realmente está acontecendo com ela ou não.

No seu falar, expressando seus pensamentos, se mostra ora madura, ora infantil, como reflexo de uma infância e início de adolescência mesclados de riscos à vida, estando sempre envolvida com tratamentos, novas doenças. Mas, com tudo isso, é muito mais alegre do que triste, sendo solidária com os amigos (outros pacientes do hospital) e continua seus estudos no momento, dando aulas particulares para crianças. Gosta da vida e passa isso quando consegue desfazer os momentos de tristeza que a apertam. Como "apertou" no início de nossa conversa, mas que logo relaxou, à medida que foi falando e se envolvendo com as coisas que dizia, com suas experiências, sem desvalorizar-se.


  • Nina

Vi nessa adolescente a beleza do rosto, do corpo. Muito cuidado com as roupas que as meninas de sua idade usam. Está atualmente com 18 anos.

Observando essas impressões através de sua aparência, percebo que não tem muito estudo, que se expressa verbalmente com dificuldades, articulando com alguma dificuldade seus pensamentos. Superava isso com uma extrema simpatia e espontaneidade, se esforçando para dar suas respostas com a sua autenticidade no que refere a expor seus sentimentos na vivências de suas experiências. Não pensa e não quer pensar muito sobre o mundo. Sua vida particular já lhe toma muita atenção. Tem o apoio de sua família e de seu namorado, e só isso conta para ela no momento.


  • Vera

Vera deixou bem claro desde o início que quanto menos entrar em contato com a Aids melhor. Resistiu um pouco a dar a entrevista, embora demonstrasse presteza, e pude observar posteriormente o seu incomodo de falar e pensar no assunto.

Essa adolescente de 18 anos preferiria não falar nada sobre ser soropositiva com alguém, nem passar pelo hospital onde se trata, é o que passa em sua postura.

Vera é muito bonita e tem um corpo perfeito, bem delineado. Está muito bem no momento, não fazendo uso de medicação específica. Sua expressão facial, a postura de seu corpo é única, sem relaxar, sem descontrair-se, revelando ser muito ansiosa. Parece que nada pode atrapalhar seu propósito de viver, viver e viver. Não quer pensar no momento, além de curtir sua vida e seu namorado. Sempre leva o rumo da conversa para tal e só ai se descontrai um pouco.

Às vezes fica muito visível para qualquer um que o que está falando não é o que realmente faz. Assim, os minutos exigidos para a entrevista, que em princípio concordou fazer, lhes foram longos, pois entrava em contato com coisas de que não queria falar. Mas ao final ela mesma admitiu que foi importante para ela comentar o assunto.


  • Lia

Esta adolescente parece que rompeu com alguma coisa em sua vida após conseguir realizar essa entrevista, ao menos naquele momento. Em princípio foi difícil o seu comparecimento ao hospital após ter dado o sim para a realização da entrevista.

Na primeira vez, Lia, de 16 anos, foi embora do ambulatório sem avisar nada a ninguém, sem pegar o resultado de um exame que havia feito. Surgiu a hipótese de ter medo de falar alguma coisa, pois namorava um traficante, que já morreu, e com o qual tem uma filha de 6 meses, temendo alguma conseqüência negativa.

Esperei dois meses para reencontrá-la. Estava com sua filha nesse dia, mas mesmo assim conversei com ela e tentei fazer a entrevista. Só em mencionar a palavra Aids, chorava muito. Paramos a entrevista e conversamos um pouco. Estava também preocupada com a filha, com o resultado do exame dela. Parecia muito só, com muita dificuldade para se expressar e de ter alguém para conversar com ela sobre suas vivências, sem que ouvisse acusações, repreensões. Parecia estar sofrendo com muitas coisas, e também com "essa Aids" que não sabia muito bem o que era. Combinamos de nos encontrar em um outro dia e vimos a possibilidade de ela vir só, sem a filha.

Levei o caso para a médica, que no mesmo dia a encaminhou para o grupo de adolescentes com as psicólogas do hospital, do qual participou pela primeira vez. Depois eu soube por outra adolescente que ela chorou muito na reunião.

Faltou ainda à segunda entrevista por doença da filha, o que foi confirmado pela mãe dela. E no dia remarcado compareceu juntamente com a filha. Dessa vez observei que estar com a filha lhe dava uma certa segurança e queria também que a menina nesse dia fosse consultada lá devido aos problemas de saúde que estava apresentando. Nessa ocasião eu já sabia que o resultado da menina havia sido negativo, e ela também, motivo pelo qual se encontrava mais tranqüila.

A entrevista se deu nos jardins do hospital, o que facilitou a todos, pois ela ficou mais à vontade e sua filha após brincar, acabou dormindo. Senti, ao final da entrevista, um olhar mais aliviado, uma pessoa surpresa com a quantidade e qualidade das coisas que disse.

Foi muito bom para ambas essa entrevista, que fechou um ciclo desse meu trabalho de pesquisa.


2.7 - Os Sujeitos de nossa pesquisa

Desenvolvi meus estudos com adolescentes do sexo feminino vivendo com HIV-Aids, que se encontrava na faixa etária compreendida entre 13 e 19 anos, participantes da clientela do ambulatório de Alergia e Imunologia do HUGG.


  • Idade

No caso da nossa pesquisa, as adolescentes entrevistadas, em número de 6 (seis), tinham as idades de 15 anos (2), 18 anos (2) e 19 anos (2).

Para este trabalho nos baseamos na classificação etária apresentada pela OMS para o período da Adolescência, sendo este de 10 a 19 anos. O início da adolescência, que compreende as idades de 10 a 14 anos, coincide com as mudanças provocadas pelo processo da puberdade. E sua finalização, transcorrida nas idades entre 15 e 19 anos (adolescência propriamente dita), abarca grande parte do processo de crescimento e desenvolvimento morfológicos das pessoas. A adolescência, nessa conceituação, aparece ligada às mudanças físicas, psicológicas e cognitivas que guardam relação com o processo de tornar-se adulto (OPS, 1995).


  • Gênero

Quanto ao fato de estarmos trabalhando com adolescentes do sexo feminino, este se dá sob uma perspectiva de gênero. Buscamos estudar as relações entre homens e mulheres a partir da dimensão da divisão, da diferença, que estabelece socialmente uma condição de inferioridade da mulher e que segmenta, por sua vez, todos os seus espaços de atuação em favor de um poder masculino.

Sabemos que as teorias que enfocam a categoria gênero podem vir seguidas de explicações de diversas ordens, que, de acordo com a abordagem dada, trilham uma linha biologicista, econômica, divina, mitológica, etc. Porém, nesse trabalho iremos nos ater à teoria da construção social do sexo, para desenvolver nossas análises dentro da temática aqui apresentada.

Pensarmos como as desigualdades entre o masculino e o feminino foram construídas, a partir de dinâmicas culturais sobressaídas predominantemente de uma orientação patriarcal, pode nos fazer rever nesse exercício outras desigualdades como a de raça, idade, etc.

Desta forma, seguindo essa linha de pensamento, nos será possível aproximarmos de um dos objetivos desta pesquisa, que é o de apreender esses contextos para entender melhor as implicações de algumas questões interpostas às adolescentes que vivem com HIV-Aids.

Rebeca de Los Rios, em seu artigo "Gênero, Saúde e Desenvolvimento: um enfoque em construção", nos diz que o papel da Saúde como critério de equidade entre os sexos foi um tema pouco tratado durante o integracionismo, ou propriamente na década de 80.

"No marco das estratégias para combater a pobreza e as necessidades básicas, as políticas de saúde começaram a dar prioridade às mulheres (mães) como um grupo de risco ou grupo vulnerável, as quais, junto com crianças, os incapacitados e os anciãos, foram consideradas grupos socialmente "fracos", quase desprovidos de capacidade para decidir conscientemente sobre qualquer projeto de desenvolvimento em matéria de saúde" (Rios, 1993).

De acordo com a autora referida acima, as políticas e estratégias do enfoque para promover a igualdade e a participação da mulher caíram, em alguns casos, ficando subordinadas às estratégias para combater a pobreza e às medidas de ajuste estrutural, sendo ignoradas na políticas públicas globais e setoriais. O enfoque primordial era o da saúde da mulher na sua função reprodutiva para garantir a saúde da sua descendência tanto biológica como social.

"(...) no início da década de 90, começa a gerar um pensamento renovador sobre o desenvolvimento que incorpora novas categorias de análise: desenvolvimento humano, desenvolvimento sustentável, equidade, diferença e diversidade, poder, modernidade, democracia, gênero no desenvolvimento". (Rios, 1993)

Destaco um pensamento que considero central nessas discussões e que se encontra na publicação "Guerra dos Gêneros & guerras aos gêneros", de Suely Rolnik (1996).

"A miscigenação contemporânea requer que mudemos o princípio que rege nossos processos de subjetivação, depurando-o dos resquícios do modelo que reduz a subjetividade à representação, se quisermos ampliar nossas chances de processar a riqueza que temos em mãos. Ao lado da guerra dos gêneros é preciso cada vez mais levar uma guerra dos habitantes dos devires contra os adictos dos gêneros, inclusive e antes de mais nada, na arena de nossa própria subjetividade."

 

2.8 - As técnicas de pesquisa

  • Entrevista

As entrevistas foram nossos instrumentos de trabalho e elas transcorreram na seguinte modalidade técnica: semi-estruturada .

Este processo de entrevistas teve um caráter individual e foi conduzido a partir de um roteiro previamente elaborado (em anexo), segundo o qual as entrevistas seriam gravadas com o consentimento das entrevistadas.

O roteiro de entrevista abarcou em seu conteúdo variáveis de identificação (por ex.: nome, endereço, escolaridade) e questões-problema através de perguntas que buscavam alcançar tanto o conhecimento quanto as representações sobre a Aids e a violência junto às adolescentes. Daí nossa escolha pelo tipo de entrevistas acima referidas, isto é, a semi-estruturada.

Segundo Honningman (1992), a entrevista semi-estruturada consiste em uma combinação de perguntas fechadas (ou estruturadas) e abertas, em que o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto, sem resposta ou condições prefixadas pelo pesquisador.


  • Observação Participante

Essa atividade se deu da seguinte forma: freqüência ao espaço (hospitalar) de estudo; observação da rotina vivenciada, nesse espaço; e produção de um diário de campo com observações detalhadas sobre o universo pesquisado.

Torna-se importante ressaltar que este trabalho de pesquisa contou com a elaboração de um Termo de Consentimento (em anexo), visando informar e garantir os direitos da pessoas entrevistadas.

Este procedimento atendeu às exigências do Comitê de Ética da Escola Nacional de Saúde Pública / ENSP, setor responsável pela integridade dos objetivos e práticas das pesquisas realizadas nessa Instituição pública.

O fato de estarmos trabalhando com adolescentes mereceu uma atenção especial desse Comitê, pois trata-se de sujeitos menores de idade, com legislação própria que pretende preservar a qualidade de iniciativas nesta direção.

2.9 - Análise

Utilizamos a proposta de interpretação qualitativa de dados baseada no Método Hermenêutico-Dialético. Com este método pretendemos atingir a realidade dos atores sociais em evidência nesta pesquisa, privilegiando principalmente a linguagem, pelo fato de esta expressar seu cotidiano social, histórico e afetivo e por guardar uma forte relação com a ação (práxis) dos sujeitos, no processo de se constituir subjetivamente e coletivamente.

Minayo (1992) propõe dois níveis para a interpretação do método hermenêutico-dialético: o primeiro é o do contexto sócio-histórico do grupo social a ser estudado; e o segundo, consiste no encontro com os fatos surgidos na investigação (as comunicações individuais, as observações de condutas e costumes, análise das instituições e a observação de cerimônias e rituais).

Tendo em vista sua operacionalização, o método compreende o seguintes passos: (a) ordenação dos dados, que pressupõe um mapeamento de todos os dados obtidos no trabalho de campo (transcrição de gravações, releitura do material, organização dos relatos e dos dados da observação participante); (b) classificação dos dados, através de uma leitura exaustiva e repetida dos textos, estabelecendo interrogações para identificar o que seja relevante ("estruturas relevantes dos atores sociais"). A partir disso, elaboram-se as categorias específicas, o que permite determinar o conjunto ou os conjuntos das informações presentes na comunicação; (c) análise final, na qual se procura estabelecer articulações entre os dados e os referenciais teóricos da pesquisa, respondendo às questões levantadas por esta pesquisa com base em seus objetivos e promovendo, assim, relações entre o concreto e o abstrato, o geral e o particular, a teoria e a prática.

 
 
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