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Costa, Sandra Maria Silva da. Vivendo com AIDS e enfrentando a violência: a experiência das adolescentes. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 103 p.

I – INTRODUÇÃO

O estudo implementado nesta pesquisa está centrado nas experiências das adolescentes vivendo com HIV-Aids e tem no Hospital Universitário Gafrèe e Guinle, na cidade do Rio de Janeiro, a referência de campo para a sua realização. Com o recorte de gênero aqui pretendido, desejamos conhecer, com mais propriedade, as redes de fatores que expõem sujeitos, em uma determinada relação de classe socioeconômica, idade e sexo, a inúmeras situações de riscos, tais como doenças e manifestações de violência.

Estar direcionando meus estudos para as adolescentes guarda uma relação com o fato de nos últimos anos me envolver com a questão da Aids entre as mulheres, motivada pelas observações e abordagens com este grupo como profissional de saúde. Por realizar um trabalho como psicóloga, atendendo pacientes com Aids no Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião, hospital da rede pública do Rio de Janeiro, foi possível constatar o progressivo aumento da internação de mulheres em virtude da Aids, tendo esta situação feito sobressair o meu interesse para com aquelas que se encontravam na faixa etária que compreende os anos de adolescência.

Quando fazemos referências ao fenômeno hoje bem conhecido (mas não tão bem compreendido) da feminilização da Aids e nos deparamos com dados estatísticos que revelam o avanço desta epidemia nas idades da adolescência, levantamos a questão de como as adolescentes estão se contaminando com o HIV-Aids. E na reflexão inicial desta questão, nos deparamos com registros de vivências, principalmente nas relações das adolescentes com seus parceiros, que apontam para desigualdades quanto a distribuição de direitos e do exercício do poder nas dinâmicas dessa convivência, seja no "ficar", no namoro, no casamento formal ou no informal.

Afluem ainda intensamente, apesar das modificações culturais que flexibilizaram posturas antes enrijecidas em modelos de comportamentos "naturais" para homens e mulheres, idéias que refletem uma divisão sexual baseada não em uma equidade de gênero, mas ainda em concepções da superioridade masculina na dinâmica dessas relações.

Nesses circuitos ideológicos, há avanços, sem dúvida, na conscientização de que as relações de gênero sejam construídas socialmente, porém, a influência dessas concepções tão arraigadas no imaginário feminino, atravessando o plano das ações das mulheres em seu cotidiano de relações, as torna vulneráveis quanto a determinadas situações de riscos na sua saúde física e psicológica.

Por muito tempo, na maioria das sociedades, as práticas educativas no trato com homens e mulheres, seguiam uma visão patriarcal, valorizando papéis diferenciados e complementares entre o masculino e feminino, com cobranças "morais" maiores na direção das mulheres.

Como reflexo desses fatos, mesmo considerando todas as reelaborações que tiveram vez devido a lutas e iniciativas grupais para modificar este quadro, constatamos ainda hoje, nos planos do imaginário e do simbólico, dificuldades entre as mulheres para a negociação do uso da camisinha, para um planejamento contraceptivo e para uma sensibilização quanto à responsabilidade bilateral, tanto para a prática sexual quanto para as conseqüências desta quando não implica apenas em prazer.

Neste trabalho de pesquisa queremos abordar também as formas de violências, declaradas e/ou veladas, presentes no jogo das relações, e que tendem a destituir alguns sujeitos, no nosso caso, as adolescentes, do seu direito de usufruir o seu corpo, os seus ideais em construção e a sua liberdade de experimentar sua sexualidade aquém das fronteiras das doenças sexualmente transmissíveis, do abandono da escolaridade, da gravidez precoce e de outros fatos que estaremos contemplando com mais profundidade no decorrer dos capítulos.

Encontraremos no capítulo II o desenvolvimento de nosso trabalho a partir da definição e utilização da metodologia escolhida para essa pesquisa.

O capítulo III buscará abordar as mudanças histórico-culturais que alçaram para o convívio humano abordagens diferenciadas quanto aos aspectos biopsicosociais da infância, adolescência e juventude. Buscamos com isso ressaltar o surgimento da categoria adolescente, situando-a no nosso contexto atual, revendo nesse processo as conquistas favoráveis e as dificuldades para o seu existir.

Ao trazermos para este trabalho as referências históricas que marcam o desenvolvimento dessas categorias, pretendemos estudar com mais profundidade a emergência da pessoa do(a) adolescente, nos aproximando não só teoricamente do(s) momento(s) da sua construção, como também do reconhecimento das representações que favoreceram e favorecem hoje a consolidação dessa categoria adolescente.

A revisão teórica proposta recai principalmente na perspectiva de traçarmos o(s) quadro(s) da(s) realidade(s) da adolescência nos territórios nacional e internacional, visando entendermos como se dão as oportunidades em nossas culturas para os/as adolescentes participarem nos distintos planos político, social e econômico, não na representação de um conceito já assimilado por todos, mas na efetividade das ações encima dessas representações visando assegurar-lhes leis, direitos e planejamentos quanto a uma educação e prevenção de doenças nessas idades.

Nesse capítulo estaremos entrando em uma discussão mais aprofundada dos aspectos ressaltados acima, que circunscrevem esta fase da vida, a adolescência, na qual encontra-se envolvida a temática da Aids.

No capítulo IV nos propomos avançar na compreensão das intercorrências ligadas às questões de gênero e da Aids em meio às experiências das adolescentes, abarcando ainda o tema da violência no cotidiano de suas relações.

Pretendemos no capítulo V dar ênfase às representações sobre as vivências da Aids e da violência pelas adolescentes.

No capítulo das Considerações finais, a partir do material teórico aqui privilegiado e dos conteúdos das entrevistas, estaremos expondo algumas conclusões preliminares sobre o tema que motivou nossa pesquisa. Essas conclusões deverão se constituir em material para profundas reflexões acerca dos nossos objetivos de estudo e deverão servir como fonte para direcionamento de nossas práticas junto as adolescentes.

Perseguindo as metas que delineamos nessa pesquisa, esperamos atingir nossos objetivos sem perder de vista que ao introduzirmos o tema da violência nos estudos sobre a Aids entre as adolescentes, nossos olhares se multiplicarão para além das questões de gênero, na tentativa de apreender as sutilezas das questões que permeiam as vivências, entre outras coisas, da Aids neste grupo específico que elegemos para trabalhar.

 

 
 
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