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Serra, Giane Moliari Amaral . Saúde e nutrição na adolescência: o discurso sobre dietas na Revista Capricho. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 136 p.

CAPÍTULO V

 

RESULTADOS E CONSIDERAÇÕES FINAIS DA ANÁLISE
DA REVISTA CAPRICHO DE 1999

 

Este capítulo objetiva uma síntese analítica dos discursos sobre as práticas alimentares para emagrecimento extraídos das matérias das revistas CAPRICHO de 1999 valendo-se de uma grade analítica. Primeiramente, analisamos os discursos junto a seus significados presentes nos títulos das matérias e buscamos identificar as estratégias dos modos de dizer em cada título, ou seja, relacionamos os títulos com as formas de sedução, interação e mostração.

Em segundo lugar, apresentamos os atores que falam, isto é, buscamos caracterizá-los de acordo com o lugar de onde falam. Conseqüentemente, seus discursos adquirem poder perante os receptores, alcançando a legitimação destas falas. Logo em seguida, analisamos o que os atores falam, sempre mostrando a forma dos modos de dizer destes discursos e, por último, destacamos os pontos do discurso midiático que convergem e/ou divergem do discurso da ciência da nutrição.

Foram analisados vinte e cinco números da revista CAPRICHO de todos os meses do ano de 1999. Destas, dezenove continham matérias relacionadas direta ou indiretamente à temática alimentação/dietas.

As revistas de 14 de fevereiro, 9 de maio e a de 18 de julho de 1999, não apresentavam matérias relacionadas ao tema, mas apresentavam a propaganda da revista BOA FORMA e CALENDIET, que também são revistas da Editora Abril. A capa das respectivas revistas, além de exibir modelos famosos como atrizes e apresentadoras de programas televisivos, em sua melhor forma física, apresentavam como manchetes (chamadas), assuntos relacionados à temática da dieta e do corpo.

As revistas de primeiro de agosto, sete de novembro e a de cinco de dezembro de 1999, não apresentavam nenhuma matéria ou publicidade relacionada à questão. Não podemos, porém, deixar de destacar que, na revista, não aparece nenhum modelo ou imagem, que esteja fora do padrão estético esguio e esbelto.

 

Análise dos títulos das revistas Capricho do ano de 1999

Podemos afirmar, quanto aos títulos das matérias selecionadas na revista CAPRICHO, que quase todos se referem diretamente ao assunto dieta/alimentação ou estética / boa forma.

O primeiro título analisado é: "Em Forma de diversão - Aí vai um empurrãozinho para você levantar da cadeira de praia e se mexer. São sete sugestões para manter a forma e queimar calorias enquanto você brinca e toma sol". (revista Capricho de 17 de janeiro de 1999). É o título de uma matéria de quatro páginas.

O enunciado Em Forma é destacado pela cor e tipo de letra, o que vem mostrar que o grafismo e o cromatismo são estratégias importantes, para marcar significados, cujo discurso quer passar. Encontra-se em maiúsculo, na cor azul contrastando com a cor preta do resto do subtítulo em tamanho comum, exceto pela expressão "são sete sugestões para manter a forma e queimar calorias" que também encontra-se em azul.

O título da matéria associa gasto energético e perda de peso, num roteiro em que o aspecto mágico e lúdico estão presentes. Este cenário seduz o indivíduo para fazer dieta, principalmente, aquele que tem dificuldade em seguir tais regimes. O enunciado também nos remete à idéia de corpo esteticamente perfeito quando coloca, no início, a expressão Em Forma, e leva a leitora a crer que estando em forma, estará bonita. Para reforçar tal estratégia de sedução, coloca uma expressão de compensação, a saber: "queima calorias enquanto brinca e toma sol". O número sete, empregado no enunciado refere-se a algo mítico. Sete representa os sete dias para a mudança da lua, e lua lembra luz, que lembra brilho, que lembra sucesso. Assim, ficar em forma, ter um corpo esbelto pode levar ao sucesso.

O enunciado não apresenta categorias discursivas como artigos, ou pronomes, pois o título refere-se a um estado de coisas, a uma ação. O título principal não utiliza verbo, cumpre a função de fragmentação do enunciado e faz com que o leitor insira-se nos interstícios da frase de modo a completar seu sentido. Extraímos da matéria a intermediação do repórter para enfatizar o sentido perpassado pelo título:

"Brincar na água" é a chamada número um das sete sugestões da matéria. O intermediário diz:

"Pular onda, mergulhar e nadar no mar- tudo isso gasta energia. Dá para perder de 150 a 200 calorias em 30 minutos". (revista Capricho 17 de janeiro de 1999)

Esta última expressão "Dá para perder de 150 a 200 calorias em 30 minutos" demarca um discurso técnico/científico. Aparece destacada em negrito, e todas as outras sete sugestões acompanham o mesmo estilo. O curioso, porém, é que não aparece qualquer esclarecimento por parte de um especialista, ou seja, trata-se de um discurso mediado pelo repórter.

Para ilustrar a análise, outro dado interessante surge ao lado de cada sugestão a imagem de uma modelo, fazendo exercício. De uma forma sutil, ao lado de cada texto, aparece escrito de baixo para cima, em letras pequenas, o nome (marca/ griffe) da roupa que a modelo está usando.

O segundo título –– "Pura feitiçaria" – mostra como subtítulo : "A Tiazinha não está mais sozinha. Joana Prado, 22 anos, a Feiticeira do H, é a nova atração do programa do Luciano Huck. Conversamos com ela" (revista Capricho de 31 de Janeiro de 1999). O enunciado "Pura feitiçaria" vem em destaque na cor vermelha, contrastando com a cor preta do subtítulo. É título de matéria de meia página, mas ganha maior importância quando, acima do enunciado, encontra-se a imagem do modelo "Joana Prado". Esta é uma articulação do material plástico da imagem com o título que é o papel de reforço. Podemos depreender que o discurso não evoca a categoria técnico-científico, mas a categoria sócio-estética.

O título se mostra, interage e seduz através da própria imagem da modelo, liga a forma e o estilo de vida de uma personalidade famosa, com corpo esteticamente perfeito . O enunciado associa magia/erotismo/corpo perfeito, pois Joana Prado, hoje, possui um dos corpos mais perfeito, desejado e cobiçado da mídia. A perfeição do corpo é tanta que a matéria poderia se chamar "Pura Tecnologia" e pode-se imaginar o quanto de ginástica, em aparelhos de musculação, ela faz por dia.

Devemos observar, também, que o subtítulo "A Tiazinha não está mais sozinha", revela-nos a possibilidade do sucesso. O sucesso é possível para todos, desde que a pessoa invista tempo e dedicação ao corpo para conquistar a "telinha".

Neste título, também vemos suprimidas as categorias discursivas como: pronome, artigos e verbos suscetíveis de marcar a veracidade ou a falsidade do enunciado. No subtítulo, encontramos o nome próprio Joana Prado, que dá ao discurso o efeito de real, isto é, não se trata de um personagem fictício, mas de alguém de verdade e famosa.

O terceiro título analisado é "Toalhas quentes" (revista Capricho 28 de Fevereiro de 1999). O título está em destaque tanto na cor como no tipo de letra. Apresenta-se na cor vermelha e tanto a matéria como o título vem dentro de uma moldura que lembra o desenho de uma toalha.

O enunciado não se refere diretamente à temática. Na introdução, porém, da matéria, fica explícito que se trata de um método para perder gordura localizada, como comprova o exemplo extraído da introdução da matéria na revista.

"Júlia Calasso e Aline Arruda Miranda, ambas de 15 anos, tinham uma coisa em comum: achavam que estavam com excesso de gordura. A primeira queria perder a barriga, e a outra o papo - o queixo duplo. Elas testaram uma massagem com toalhas quentes conhecida como método Kiberon".(REPÓRTER - revista Capricho de 28 de fevereiro de 1999)

Consiste em um típico exemplo de discurso que mostra a maneira como as adolescentes engajam-se em práticas e mecanismos que nem sempre são reconhecidos e recomendados cientificamente para conquistar o padrão estético corporal determinado socialmente.

O título suprime o verbo, para resultar na fragmentação do enunciado e leva o leitor a penetrar nos interstícios da frase a fim de completar o seu sentido.

A revista CAPRICHO de 14 de março de 1999 traz a matéria sob o título "Sem multa" que se apresenta em destaque pelo tipo de letra e cor. A letra é do tipo bastão grande e na cor vermelha e lembra a cor predominante na maioria das placas de sinalização do trânsito. O subtítulo –– "A gente sempre reclama de algumas coisas do nosso corpo, do tamanho do quadril, dos seios, da altura... E alguns tipos de roupas não ficam mesmo legais em todo mundo. Mas não se preocupe: existem jeitos de esconder seus pontos fracos e valorizar suas qualidades" ––não vem em destaque, pois utiliza letra tipo bastão de tamanho normal e na cor preta. É um título de matéria de quatro páginas.

O título faz uma analogia entre o que é e o que não é permitido no trânsito, como o tipo de roupa melhor para cada tipo de corpo. Associa moda/corpo/estética. Não se refere diretamente ao tema dieta/alimentação mas, no subtítulo, menciona a insatisfação das pessoas com seu corpo e, quando afirma que vai dar um jeito de esconder seus pontos fracos e valorizar suas qualidades, nos remete à questão das práticas utilizadas para a conquista de um corpo perfeito. Este enunciado também traz consigo uma lógica subjacente: o que pode e o que não pode. Para ilustrar, podemos citar como exemplo:

"Gordinha, vale apostar em peças de cores escuras, como preto e marinho. Elas fazem a gente parecer magra. Se você quiser dar uma iluminada no visual, use camiseta de cor clara por baixo da roupa escura" (REPÓRTER- revista Capricho de 14 de março de 1999)

 

Este enunciado prossegue com um texto que menciona as roupas e griffes que a modelo da foto está usando, além de atribuir o valor de cada peça. Dessa forma, além de incentivar e exaltar um padrão estético, estimula ao consumo.

Outro exemplo bastante interessante de título de imprensa que se utiliza estrategicamente do discurso técnico-científico é: "Pega Leve - as dúvidas mais comuns que a gente tem sobre dieta e peso" (revista Capricho de 25 de abril de 1999). O título Pega leve encontra-se em destaque pela cor e tamanho de letra. A palavra Pega apresenta-se na cor preta e em letra bastão e a palavra Leve, em vermelho na letra bastão com tamanho maior que a primeira.

O subtítulo não se encontra em destaque nem pela cor e nem pelo tipo de letra. É título de matéria de seis páginas.

O discurso refere-se diretamente à temática dieta e evoca certa legitimidade, ou melhor, confere um "tom" científico à matéria. Ao mencionar as dúvidas acerca de dietas e peso, a mídia recorre a discursos de especialistas, abalizados, autorizados, para responder a tais indagações. Estes especialistas têm o poder da ciência em relação a quem o escuta, já que cabe ao técnico passar seus conhecimentos e aos leigos, escutar e absorver tais conhecimentos.

O título "Pega Leve" –– leva-nos a crer que quem faz dieta é uma pessoa leve, uma pessoa "Light", uma pessoa luz que reúne os atributos de uma sociedade em que o brilho e a velocidade são qualificadores essenciais. O título também faz uma analogia com a gíria "pega leve" passando a idéia de que fazer dieta não é nenhum sacrifício, é algo fácil, leve, possível. Estes são significados que estão diretamente relacionados ao padrão estético de magreza/leveza e ao estilo de vida que um indivíduo contemporâneo deve assumir. Na matéria que é elaborada como entrevista (perguntas e respostas) encontramos perguntas, como:

 

"Pular refeição emagrece?"(ADOLESCENTE-revista Capricho de 25 de abril de 1999)

"Tem muita menina que toma só um copo de água quando acorda e pula o café da manhã. Nunca fique sem comer. O ideal é comer pouco e muitas vezes ao dia". (NUTRICIONISTA - revista Capricho de 25 de abril de 1999)

 

Na revista CAPRICHO de 23 de maio de 1999, no título: "A coxinha é a rainha", o enunciado "A coxinha é a" está na cor preta, o tipo de letra é bastão com o detalhe do pingo do "i" da palavra coxinha que é a própria imagem de uma coxinha. O mesmo detalhe do pingo do "i" acontece na palavra rainha, mas encontra-se na cor da própria coxinha.

O subtítulo está em negrito e diz: "Qual o seu lanche preferido na escola? Durante um mês, fizemos essa pergunta a várias meninas do país. A coxinha foi a preferência nacional." É titulo de matéria de cinco páginas.

O discurso fala de preferências, confere certa individualidade do gosto, mas, ao mesmo tempo, homogeneíza, pois coloca a coxinha como a rainha e a preferida nacionalmente. Esta é uma estratégia da mídia para influenciar na escolha e preferência dos alimentos, pois dizer que apontar a coxinha como lanche socialmente difundido, quer dizer que quem não come coxinha está por "fora". Como já foi debatido no Capítulo I, o gosto, segundo Bourdieu, parece, aparentemente, uma opção voluntária do indivíduo, mas forma a base do estilo de vida das práticas sociais e funciona simbolicamente como sinal de posição social, status e distinção.

Este discurso dá a palavra não só ao repórter mediador do discurso midiático, mas também ao público: traz depoimentos de preferências de lanches das adolescentes e utiliza esta estratégia da mídia para minimizar a distância do discurso midiático com o leitor, ou seja, faz do leitor o sujeito do discurso. Certamente, surgirão perguntas de toda a natureza e despontará a necessidade de consultar especialistas para referendar ou não o lanche preferido. O discurso midiático lança uma incoerência nítida para as adolescentes, no momento em que mostra como lanche preferido uma preparação rica em calorias que, conseqüentemente, engorda. Mostra também, por meio de imagens, modelos com corpos magros e esbeltos e cria, dessa forma, um conflito: "comer a coxinha ou procurar me manter magra e esbelta como os padrões divulgados pela revista?"

Neste enunciado ao contrário dos outros, podemos observar o uso do artigo "a", que marca o sentido de a coxinha ser a preferida nacionalmente no lanche escolar.

A revista Capricho de 6 de Junho de 1999 traz uma pequena matéria sobre a temática alimentação/dieta – pequena, mas muito interessante. O título da matéria é "Oba! Namorar queima calorias". O Título está em destaque pela forma e tamanho das letras. Está na cor branca, com letra bastão e aparece envolvido por um sombreamento rosado que faz parte do quadro onde se insere a matéria.

O título ocupa um quarto de página. O discurso está intimamente ligado à função de sedução, pois trabalha com os sentimentos de prazer/amor. Quem não gosta de namorar? E, ainda, queimando calorias!

A expressão Oba! Traz o sentido de uma coisa boa e ao mesmo tempo útil, isto é, namorar e aproveitar para perder calorias. Este enunciado só ganha importância por causa das imagens que o acompanham, a saber: "duas horas e meia olhando o presente do seu namorado no shopping = 541 calorias = 1 big mac". Somente neste exemplo vêm implícitos vários interesses e significados. É um discurso que procura usar questões científicas, como por exemplo, a noção de equivalência e calorias correspondentes a cada alimento e, ainda, explora a questão do sentimento.

Mais um exemplo de títulos é "Dieta de gente fina" (revista de 20 de junho de 1999). O enunciado "dieta de" está em letra bastão grande preenchida com a cor rosa que é a cor que predomina na matéria. O fundo de página tem a cor rosa, num tom leve para acompanhar o sentido de leveza e de paz que o discurso quer passar, além do fato de a cor rosa significar, no senso comum, a feminilidade.

O uso das cores direciona o olhar do leitor mais pelo sentimento do que pela razão. As cores funcionam reforçando e distinguindo um sentido desejado pelo produtor do discurso.

O enunciado "gente fina" aparece na cor branca, dá uma sensação de leveza e a letra é também do tipo bastão, porém, menor.

O subtítulo diz: "o médico de Danielle Winits, Alessandra Negrini e Camila Pitanga faz um cardápio para você emagrecer até dois quilos por semana". A frase emagrecer até dois quilos por semana aparece dentro de uma faixa rosa e as letras encontram-se na cor branca, enquanto o enunciado que a antecede está na cor preta. A distribuição das cores e forma de grafismo sugerem leveza e feminilidade. É título de matéria de seis páginas.

O título refere-se diretamente à questão alimentação/dieta, mas não a qualquer dieta, trata-se de dieta de gente fina, famosa – gente fina de corpo e alma e inserção social – uma dieta para quem faz sucesso.

A menção a "O médico de..." confere ao subtítulo legitimidade e autoridade, além de tentar passar uma idéia de particularidade, quer dizer, trata-se do "médico de Danielle Winits, Alessandra Negrini e Camila Pitanga", e não qualquer médico.

A estratégia de nomeação (utilizar nomes próprios como o do médico e das atrizes) reforça o sentido de real, de verdadeiro.

Na revista de quatro de julho de 1999 a matéria destacada foi: "Na minha geladeira tem..." As expressões "Na Minha" e "tem" aparecem na cor azul com letra bastão pequena. A cor azul faz o fundo de página da matéria.

A palavra geladeira apresenta-se em letra bastão grande na cor branca sombreado pelo azul. O uso de reticências dá o sentido de complementaridade, pois cada indivíduo tem as suas preferências.

O subtítulo "Será que a geladeira dos famosos é diferente da nossa? Luciano, Netinho, Sheyla Mello, Sâmara Felippo e Thierry Figueira mostram pra gente o que não falta na deles". Este se destaca por estar na cor azul, mas a letra bastão é de tamanho normal. É título de matéria de quatro páginas.

O título quer evocar a idéia de intimidade. Como refere-se a artistas famosos, eles passam a ser "modelos" que devem ser imitados. Não se trata de qualquer geladeira, mas a geladeira de pessoas famosas.

A mídia, também, ao mostrar a intimidade da geladeira destas personalidades famosas, nos remete à função social da alimentação, já que o alimento representa um status social, "mostre-me a sua geladeira que eu te direi a que classe pertences".

Este título utiliza categorias discursivas como artigo e pronome, que representam relações de designação de determinado estado de coisas: na minha geladeira tem... utiliza verbo, acompanhado do recurso de reticências. Dessa forma, marca a fragmentação do enunciado e leva o leitor a inserir-se nos interstícios da frase para completar o seu sentido, além de suscitar a curiosidade.

Evocando o prazer, a praticidade, o desejo, encontramos outro exemplo de título: "Sanduíche dos sonhos" (revista Capricho de 15 de agosto de 1999) que se apresenta com letra bastão grande em cor azul escuro.

Vem acompanhado do seguinte subtítulo: "Todo mundo tem o seu. Já pensou juntar todos eles num só? Foi o que fizemos, a partir das receitas de alguns artistas. Eles inventaram mesmo para criar um sanduíche ideal. Uma nutricionista comenta a indicação de cada um." Este subtítulo, pelo tipo de letras, não vem em destaque e encontra-se na cor preta. É título de uma matéria de duas páginas.

Este discurso remete à idéia de sonho, desejo, vontade, poder. Numa sociedade globalizada, onde a padronização dos gostos e paladares cresce a cada dia, onde a falta de tempo ou excesso de atividades, muitas vezes, impede que as pessoas parem para se alimentar, os fast food constituem a prática alimentar mais desejada e sonhada. O homem contemporâneo necessita ganhar tempo e consumir um lanche revela-se mais rápido e mais prático do que fazer uma refeição.

Sendo o fast food uma prática alimentar não recomendada, a mídia utiliza a estratégia de colocar uma nutricionista para avaliar tecnicamente o valor nutricional dos sanduíches, o que na verdade reforça a idéia de que se pode comer fast food , desde que os indivíduos saibam equilibrá-los nutricionalmente.

Outro título interessante em letra bastão grande e na cor verde – "Erros na dieta" (revista capricho de 29 de agosto de 1999) – vem seguido do subtítulo: "Se fosse fácil fazer regime, ninguém estaria acima do peso. Médicos e nutricionistas analisam o caso de quatro meninas que andaram tropeçando na dieta e mostram como elas poderiam superar suas dificuldades". O subtítulo sem destaque está na cor preta.

A cor verde do título faz uma analogia com a dieta, pois toda dieta tem como um dos alimentos principais os folhosos (verdes). De certa forma isto contraria o gosto de muitas pessoas e reforça a idéia de que fazer dieta não é muito agradável.

O título liga-se diretamente ao tema dieta/alimentação e reforça a função de sedução, pois trabalha com o insucesso das adolescentes e perpassa a idéia de fracasso. Outro sentido subjacente ao discurso aparece quando especialistas, através dos conhecimentos científicos, conhecimentos que produzem certezas, ensinarão às meninas a não tropeçarem mais em sua alimentação.

Desta forma, o discurso midiático desconsidera que aspectos socioculturais e psicológicos, muitas vezes, são preponderantes na determinação dos hábitos alimentares. Este tipo de cobrança por parte da sociedade e até mesmo dos especialistas quanto ao comportamento alimentar de adolescentes sem levar em consideração estes aspectos, acaba por levar a adolescente a um sentimento de culpa e fracasso. Pode induzi-la a engajar-se em práticas alimentares que resultem em transtornos alimentares ligados ao psíquico como anorexia e bulimia.

Embora não se refira diretamente à nossa questão, outro tipo de matéria nos remete ao assunto, a saber: "A Vencedora é..." (revista Capricho de 12 de setembro de 1999). Em destaque na cor lilás, cor dos detalhes da matéria, a letra é do tipo bastão.

O subtítulo é: "Do dia 13 ao dia 22 de agosto 32 meninas participaram de um concurso nacional de modelos. Depois de muita entrevista, regime e choradeira, só três chegaram lá". É título de uma matéria de seis páginas.

O enunciado não se refere diretamente à dieta/alimentação, apesar de esta aparecer no subtítulo. O sucesso, a vitória, a competição são ressaltados e o subtítulo faz menção aos obstáculos que devem ser superados para que a menina torne-se uma vencedora.

Neste enunciado, fica explícito o ideal estético para transformar uma menina em um modelo de sucesso. Os significados que este título traz são: disputa, sacrifício, padrão, sucesso – características diretamente ligadas ao estilo de vida contemporâneo.

Este é mais um título que utiliza artigo e verbo e representa relações de designação de ação, de um estado de coisas. Utiliza reticências como estratégia de complementaridade do sentido da frase por parte do leitor.

O título "Um Show de Programa" (revista capricho de 26 de setembro de 1999) aparece na cor azul escuro, letra tipo bastão. As letras da palavra "show" são maiores que as outras, uma vez que estão em maior evidência. O subtítulo "O programa físico da Eliana mudou radicalmente seu corpo. Conheça a série de exercícios de musculação desenvolvida pelo personal trainer da apresentadora".

Este enunciado não vem em destaque, a letra é bastão, tamanho normal, na cor preta, exceto o nome da apresentadora Eliana que se encontra na cor azul escuro, com tamanho de letra maior, circundada de vermelho, marcando a importância da apresentadora, pois não se trata de qualquer pessoa.

É um título de matéria de três páginas. O azul do título é a mesma cor da roupa de ginástica que a apresentadora usa.

A palavra show tem significado de sucesso, de algo que dá certo, que transforma e modifica e sugere que quem fizer o programa de exercícios e de alimentação da Eliana, chega ao sucesso, vai dar um show! A palavra "programa" nos remete à idéia de vida regrada, controlada, planejada, como deve ser a vida de qualquer indivíduo contemporâneo desejoso de sucesso. Configura-se como um discurso ligado diretamente ao controle e à estética, já que, no próprio subtítulo, menciona a maneira como o programa físico de Eliana modificou seu corpo radicalmente. Este discurso ressalta o pólo oposto da culpa por tropeçar na dieta e enfatiza o indivíduo em controle de si do seu próprio sucesso.

A idéia de personal trainer, ou melhor, o "rótulo" de uma profissão conferindo uma certa especialização, surge junto com o fato de se tratar a imagem e, especificamente, o corpo como imperativo para aceitação social. O nome Eliana destacado no subtítulo vem cumprir a função de mostração do discurso, visto que constrói o referente ou universo do discurso, neste caso, o mundo artístico.

Outro título, "Em busca de um biquíni", encontra-se em destaque com letras bastão em duas tonalidades de verde (um mais claro e outro mais escuro).O subtítulo é: "Duas meninas que estão um pouco acima do peso decidem procurar um biquíni para o próximo verão. Acompanhe a aventura delas nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro". Este subtítulo, em letra comum e na cor preta, mas com a expressão "Duas meninas que estão pouco acima do peso" em negrito, chama a atenção para a questão de excesso de peso. É título de matéria de quatro páginas e refere-se de maneira indireta à temática alimentação/dieta.

O título nos remete ao valor que hoje, de forma mais exacerbada, se confere à relação corpo/estética/moda. Este valor enfatiza a idéia de o novo paradigma estético corporal também determinar o mercado da moda.

Na revista Capricho de 24 de outubro de 1999 encontramos um título mais diretamente relacionado ao nosso tema: "Dieta da fome". O título vem na cor lilás com letra bastão. A palavra dieta aparece num plano mais destacado, pois o tamanho da letra é maior e o contorno mais grosso. A palavra fome apresenta-se com as letras de contorno mais finas, dando o sentido de fome "ausência", "magreza". O subtítulo "Sabe o que é uma pessoa subnutrida? É alguém que come bem menos calorias do que deveria para se manter em pé. É o caso de um monte de modelos".

No subtítulo encontra-se, em letras comuns e na cor preta, apenas a frase "Sabe o que é uma pessoa desnutrida?" Está na cor lilás como o enunciado principal, mas o enunciado "Dieta de Fome" vem mais destacado pelo grafismo e cromatismo, desperta maior atenção por parte do leitor e relega a um plano inferior o enunciado do subtítulo.

Este discurso perpassa a idéia de que fazer dieta é fazer sacrifícios. Empregam a palavra dieta como "controle". É um discurso técnico-científico, visto que coloca um problema de saúde causado por regimes rigorosos. É também um discurso sócio-estético, pois mostra o dia-a-dia de modelos, que vivem de sua imagem e têm que "cultuar o corpo".

Exemplo de título que traz a idéia de "conformação" é: "Desisti de brigar com a balança", (revista Capricho de 21 de novembro de 1999). Letra do tipo bastão, na cor abóbora, entre aspas, marca a citação ou discurso de outrem. O subtítulo é: "Rafaela Fischer se assume como gordinha e planeja viajar a Nova York para seguir carreira de modelo: Me acho sexy e descobri que os homens também acham, graças a Deus!". O subtítulo em negrito, destaca o nome de Rafaela Fischer, filha de uma atriz famosa.

O enunciado "me acho sexy e descobri que os..." em negrito, com maior destaque, mostra-se circundado por uma faixa rosa. O recurso das aspas marca o relato de outrem. É título de matéria de duas páginas.

O verbo desistir denota a veracidade do enunciado, declarado pela própria entrevistada. A desistência pode significar "fraqueza" ou "aceitação/conformação" de sua condição. A expressão "brigar com a balança" imprime significado de verdadeira "batalha" ao fato de a pessoa tentar emagrecer, e traz, também, a idéia de sacrifício, vitória/ derrota.

No subtítulo fica claro que existe uma associação entre o tipo físico e o desejo por parte dos homens. A filha da atriz Vera Fischer, afirma que se assumiu como gordinha, mas sente que os homens a desejam mesmo assim. O discurso tenta transmitir a idéia de que se você se assumir, você passa a ser atraente. O discurso vincula-se à nossa temática, mas diretamente à questão estética/erótica.

A matéria da revista de 19 de dezembro de 1999 traz o seguinte título: "Dieta não". Refere-se diretamente à nossa temática. A palavra Dieta aparece com letra bastão grande, na cor abóbora, e a palavra não, com letra bastão pequena, na cor preta. É uma estratégia utilizada para chamar a atenção para o foco da matéria: discutir a questão de se fazer dietas para emagrecer. O subtítulo pergunta e responde: "Quer emagrecer? Pois então trate de abrir a boca. Você vai ver que um dos melhores jeitos de perder peso - e não ganhar de novo depois - é comendo". Apresenta sem destaque, com letra bastão de tamanho normal e na cor preta.

Neste enunciado, fica explícito que as pessoas hoje, mais do que nunca, querem emagrecer, mas fazem dieta de forma errada. O discurso é o técnico-científico e subliminarmente versa sobre a questão de estética, já que mostra o desejo das pessoas em emagrecer.

Observamos, nos exemplos acima, que os títulos muitas vezes são elaborados no sentido metafórico e relacionam a temática dieta/alimentação a outros sentidos. A natureza metaforizante dos títulos caracteriza-se pela combinação de várias modalidades discursivas utilizadas na prática discursiva midiática. O fato de assimilar parte da dimensão discursiva das outras instituições contribui para a função de mediação pelo qual o discurso midiático é responsável.

 

Quem fala e o que falam nas matérias analisadas

Os sujeitos das dezenove (19) matérias analisadas são variados como pode ser visto no quadro a seguir:

 

QUADRO 3:QUEM FALA NAS MATÉRIAS SOBRE PRÁTICAS ALIMENTARES PARA EMAGRECIMENTO NAS REVISTAS CAPRICHO DO ANO DE 1999.

QUEM FALA

Nº DE PARTICIPAÇÕES

Médicos

6

Artistas

6

Prof. Educação física

4

Nutricionista

4

Adolescente

3

Psicólogo

1

 

Podemos observar que médicos e artistas têm a mesma quantidade de participações nas matérias. Isto pode nos sugerir que tanto o discurso técnico-científico como o discurso sócio-estético, isto é, dos artistas, assumem o valor de certeza, da verdade.

Percebemos também que, apesar de ter a mesma participação, esta se mostra diferenciada, uma vez que os especialistas se impõem pela própria fala. O discurso científico se reveste de autoridade e poder perante o leitor que é um indivíduo leigo, portanto, basta a "palavra".

No caso dos artistas, a sua imagem tem maior poder de persuasão. Nas matérias que utilizam os discursos de artistas, a imagem assume o papel da palavra, imagem como discurso.

Em relação à participação dos nutricionistas, vale destacar que sua participação em quatro matérias é pequena dentro do universo de dezenove matérias. Este fato é interessante, por se tratar de temática diretamente relacionada à prática deste profissional. Portanto esperava-se uma maior participação deste profissional.

Outro elemento que merece ser destacado é o fato de a participação do nutricionista ter a mesma quantidade que a do professor de educação física. Comprova-se, assim, que dieta sem exercício físico e vice-versa não garante bons resultados para a saúde do indivíduo.

Quanto à participação do adolescente, é de se esperar que a mídia utilize o discurso de adolescentes, pois estes irão falar para seus semelhantes, e esta é uma excelente estratégia para criar vínculos de identificação com o público leitor.

Um fato bastante curioso, e que nos chamou atenção foi à participação do psicólogo em somente uma matéria. Em se tratando de comportamento alimentar, em que aspectos sociais, culturais e psicológicos estão envolvidos, e, principalmente, quando se trata de adolescentes que desejam emagrecer ou manter seu peso dentro dos padrões considerados socialmente ideais, o psicólogo deveria ser um dos profissionais mais solicitados.

Em relação ao item da grade – o que falam – podemos destacar que a característica distintiva do discurso midiático é o fato de o âmbito da sua legitimidade não ser delimitado pelas fronteiras de um domínio restrito da experiência. O repórter se apropria de diversos discursos de outrem e o reelabora numa linguagem mais geral para o público leitor. Portanto, o âmbito da legitimidade do discurso midiático é transversal ao conjunto de todos os domínios da experiência moderna (Porto, 1997).

O discurso científico tem seu âmbito de legitimidade restrito a um dos domínios específicos da sua experiência. Os discursos dos médicos, por exemplo, muitas vezes, somente são compreendidos pelos próprios médicos.

A apropriação e a nova tradução por parte do discurso midiático de alguns aspectos dos saberes de outras áreas, especificamente da ciência, tende a dar naturalidade às pretensões legítimas construídas historicamente pelos atores autorizados desses saberes. A mídia "dilui" o poder do discurso técnico-científicomas, mesmo assim, a mídia se ancora na ciência como uma instância cultural significativa, com uma abrangência totalizante, pois a ciência como destacou Focault (1999-1970) e Braga (1999), é essencialmente discurso e tem pretensão da verdade.

Consideramos, a seguir, algumas "falas" de especialistas que aparecem nas matérias da revista objeto de análise:

 

...o ideal é comer pouco e muitas vezes ao dia. Equilibrando as porções e os tipos de alimentos, dá pra comer bem sem exagerar. (Nutricionista, revista capricho de 25 de abril de 1999)

... o xenical não é indicado para menores de 18 anos.." (endocrinologista, revista Capricho de 25 de abril de 1999)

...exercitando-se três vezes por semana, melhora o condicionamento físico."(professor de educação física, revista Capricho de 25 de abril de 1999)

"Para ser modelo, é preciso ouvir um não sem desmanchar".(psicólogo, revista Capricho de 12 de setembro de 1999)

 

Estes discursos se mostram com base em um referente técnico, ou seja, o universo que tais discursos evocam é o da ciência, que não deve ser questionada, mas sim, seguida. Está subjacente a este discurso a noção de controle da saúde/doença que interage, ou melhor, cria vínculos socioculturais com o poder da verdade científica, do modelo do homem razão.

Na sociedade pós-moderna, o estilo de vida leva muitas vezes as pessoas a terem mais de uma ocupação, a terem que estudar, a se adequarem às mudanças tecnológicas, porquanto em uma sociedade que produz, muitas vezes, doenças, o "discurso do saudável" deve ser veiculado e estimulado.

Nesta perspectiva, o discurso científico seduz mediante a produção de verdades que embasam uma moral sobre o certo e o errado, o saudável e o não saudável. Estas opções se inserem em escolhas racionais que subsidiam comportamentos do homem cognitivo. Assume-se assim que a práxis humana é puramente racional.

Quando o enunciador é representado por um artista, não basta só a "fala", é primordial a sua imagem corporal, que passa a ser o discurso propriamente dito. A imagem que o artista transmite de estilo de vida ideal, perfeita, cria a interação com o público, ao mesmo tempo em que a imagem também seduz através do desejo que desperta nas pessoas de ser como um destes artistas famosos, bem sucedidos. O universo do discurso é o meio artístico, lugar reconhecido pelos indivíduos como lugar da fama, do sucesso, lugar de pessoas bem sucedidas econômica e socialmente.

 

"...Comia fruta e, depois de um tempo, o João Curvo liberou uma torrada com manteiga no café da manhã". (ALESSANDRA NEGRINI - revista capricho 20 de junho de 1999)

"...Ele me ensinou a não misturar carboidrato com proteína. Também não tomo leite e nenhum de seus derivados". (CAMILA PITANGA, revista capricho de 20 de junho de 1999)

 

No primeiro exemplo, podemos identificar que o discurso diz respeito ao café da manhã da atriz Alessandra Negrini. Esta revela que comia apenas frutas no café da manhã, e que depois de um certo tempo o médico liberou uma torrada com manteiga. Esta refeição, sob o ponto de vista nutricional, não garante todos os nutrientes necessários. O café da manhã é uma refeição importante a primeira do dia, deve ser composta de alimentos variados, especialmente, alimentos fontes de proteínas (leite e seus derivados, por exemplo) e de cereais, excelente fonte de energia para garantir um bom desenvolvimento das atividades diárias.

Sob o ponto de vista nutricional, podemos esclarecer que a prática alimentar da atriz Camila Pitanga não condiz com os princípios nutricionais. A atriz relata: "...não tomo leite e nenhum dos seus derivados". Então, perguntamos de onde a atriz retira o mineral cálcio, já que os alimentos que ela suprime são fontes primordiais deste mineral?

No caso específico de o enunciador ser a própria adolescente, ela além de ter a sua imagem corporal divulgada na matéria, fala para iguais e, conseqüentemente, seu discurso é reconhecido.

Desta forma, o referente e/ou universo do discurso é o próprio momento da adolescência, em termos gerais, uma fase em que os indivíduos se identificam bastante, pois vivem dilemas, anseios, angústias e desejos parecidos. Por outro lado, estes elementos em comum também respondem pela função de interação e sedução destes discursos.

 

(fala de suas dificuldades) ficar sem comer na hora do recreio e do lazer. (TALITA YAKASHIE,13 anos ,São Paulo -SP, revista Capricho 29 de agosto de 1999)

(fala de suas dificuldades) "deixar de comer doces". (FERNANDA CALIL, 15 anos, COLÉGIO ROUSSEAU - São Paulo - revista Capricho 29 de agosto de 1999)

(fala de suas dificuldades) "Não tenho muita opção na cantina. E confesso, adoro coxinha". (VALENTINA SLAVIEIRO, 15 anos, ESCOLA AMERICANA-RJ - revista capricho de 9 de maio de 1999).

 

Estes exemplos mostram que, quando a mídia utiliza o discurso de adolescentes, o que permeia tais discursos refere-se sempre a comportamentos negativos do adolescente. Ele expressa as suas dificuldades em abandonar uma prática alimentar que lhe traz prazer. Essa dificuldade tem várias explicações: pode ser por não conseguir resistir a um doce, até a falta de opção mais saudável na cantina, tendo que por isso se render às guloseimas.

Destacamos outro exemplo de discurso que utiliza a fala de um adolescente, que se mostra do mundo da moda. Este discurso está ligado à forma de o indivíduo alimentar-se ou de seguir uma diferente filosofia de vida. Esta forma é conhecida como alimentação alternativa e/ou alimentação natural, prática alimentar que surgiu dentro de determinado momento histórico, político e econômico do país e foi inspirada no estilo de vida dos hippies.

 

(fala de suas dificuldades) "Odeio a cantina. Queria sanduíche natural". (CLARISSA SILVA, 13 anos Salvador-BA, revista Capricho de 9 de maio de 1999)

 

Este não é o pensamento e comportamento alimentar da maioria dos adolescentes frente à alimentação e isto nos sugere uma formação diferenciada, onde o desenvolvimento de hábitos considerados saudáveis foi estimulado. Podemos também, entender tal comportamento pela relação que se estabeleceu também entre esta prática alimentar (alimentação alternativa/integral) e o comércio. Os gêneros alimentícios que compõe a base desta prática alimentar são de alto custo, portanto, rentáveis.

O discurso da adolescente se mostra em razão da falta de opção na cantina e do seu descontentamento por não poder comer o que gosta.

 

Quem intermedeia o discurso das matérias analisadas

Neste quarto item da grade, a intermediação do discurso, normalmente é feita pelos repórteres da revista, que, geralmente, são sempre os mesmos, para a temática alimentação/dieta.

O poder da atual mídia caracteriza-se como poder de produzir sentidos, projetá-los e legitimá-los, dando visibilidade aos fenômenos que conseguiram, em primeiro lugar, atrair os jornalistas. Portanto, a função do repórter não se esgota em estar entre o acontecido e o público. Este seleciona, enfatiza, interfere através de palavras e imagens na construção simbólica dos acontecimentos. Para identificarmos o poder da intermediação na produção de sentidos e significados dos discursos sobre práticas alimentares para emagrecimento, selecionamos alguns exemplos:

 

"...o clínico geral João Curvo é conhecido como o médico das estrelas de tevê". (REPÓRTER - revista Capricho de 20 de junho de 1999)

"...será que a geladeira dos famosos é diferente da nossa?" (REPÓRTER - revista Capricho de 4 de julho de 1999)

"... vai descobrir que tipo de biquíni fica melhor em quem é mais cheinha." (REPÓRTER- revista Capricho de 10 de outubro de 1999)

"Há quatro anos, ainda no SBT, Eliana era uma outra pessoa: estava 8 quilos acima do seu peso atual, 50 quilos, e não tinha o corpo tão bem definido." (REPÓRTER - revista Capricho de 26 de setembro de 1999)

"Mesmo quem não tem tendência a engordar, não abusa. Isabela Tavares aposta na alface, para depois aproveitar nos doces." (REPÓRTER- revista Capricho de 12 de setembro de 1999)

"Danielle Winits segue os mandamentos alimentares do médico há quatro anos para manter a forma". (revista Capricho de 20 de junho de 1999)

 

O discurso do repórter já traz consigo as marcas do profissional da área de comunicação. É um discurso estimulante, que chama a atenção dos leitores para a matéria. Ao emitir o seu discurso, o intermediador o enuncia de acordo com a filosofia do veículo midiático, destacando segundo os interesses da instituição o que é necessário divulgar sobre o assunto em pauta.

Nos exemplos acima, podemos observar os interesses subjacentes ao que o repórter quer transmitir. No primeiro, percebemos o interesse em divulgar um profissional específico, destacando que é um médico famoso, pois, trata-se do médico das estrelas de televisão, acrescentando mais um elemento à inquestionável ciência, que é a capacidade técnica dos médicos e, se este cuida de celebridades, ele é "muito bom".

No segundo exemplo o discurso do intermediário quer aguçar a curiosidade dos leitores em saber como é a geladeira de artistas famosos, se elas são ou não iguais as nossas. O consumo de novos alimentos deve ser claramente visto com o objetivo de aproximar o consumidor de pessoas ou estilos de vida que ele considera desejáveis e que representam uma elevação de status.

No terceiro, a chamada é explícita para as pessoas acima do peso que desejam usar biquínis. Mostra-se como um discurso que trabalha a possibilidade de as "cheinhas" usarem biquínis sem culpa. Reforça de maneira sutil a culpa da pessoa, por estar fora dos padrões estéticos corporais.

O quarto e o quinto exemplo, respectivamente, referem-se à perfeição do corpo da apresentadora do SBT e à busca por uma adolescente do corpo ideal, mesmo que, para isso, tenha que só comer alface na semana, para se deliciar com os brigadeiros nos fins de semana.

No sexto exemplo observamos que o repórter intensifica o poder da ciência e mostra que uma atriz famosa segue os mandamentos do especialista, ou seja, aos leigos cabe seguir os "cientistas iluminados".

 

Como o discurso se mostra, interage e seduz

De uma maneira geral, as formas de o discurso se mostrar, interagir e seduzir dependem, diretamente, de quem enuncia o discurso e do lugar de fala desse enunciador.

Já mencionamos anteriormente que quem fala são: especialistas, artistas famosos e adolescentes. Esta definição a priori de quem fala explicita também o lugar de fala destes sujeitos. Os especialistas, o meio técnico-científico, os artistas, o meio imagético e os adolescentes não possuem um meio específico, pois estes se encontram entre os dois meios, o técnico-científico onde são produzidos as verdades e o meio imagético (artístico) onde são produzidos os ideais do estilo de vida pós-moderno, principalmente, a fama e o sucesso. Portanto, o adolescente apresenta-se como um sujeito comunicacional ambíguo, aquele que expressa o que ouviu e reflete o conflito dos saberes envolvidos na "trama" entre os discursos técnico-científicos e os discursos midiáticos.

 

Os discursos dos especialistas

Os discursos dos especialistas, ou seja, os discursos técnicos - científicos, se mostram através do poder da ciência em produzir certezas e verdades. Perpassam a idéia de controle da saúde/doença, dentro de uma expectativa de vida eterna, isto é, a fantasia do controle da morte.

Podemos respaldar o modo como o discurso técnico-científico se mostra, com base na observação de Castells (1999:478), a saber: "é uma característica distintiva de nossa cultura, a tentativa de banir a morte de nossas vidas".

Quanto à interação, estes discursos, por meio de seus interlocutores, criam vínculos socioculturais com o público leitor disponibilizando seu conhecimento científico e introjetando a idéia de homem saudável, equilibrado, controlado e racional.

Para cumprir a função de sedução, o discurso técnico-científico trabalha a concepção de moral do certo e errado, parabenizando os que acertam e seguem à risca os mandamentos da ciência e culpabilizando os que erram e não seguem a ciência.

Se pudéssemos atribuir valores e/ou pesos às três funções do modo de dizer dos discursos, diríamos que nos discursos técnicos-científicos as funções de mostração e interação estão mais presentes e nos discursos sócio-estéticos abordaremos oportunamente.

 

Sentidos, significados e discursos Autonomia/Controle

"Em relação ao IMC: você mesma pode calcular e ver se o seu peso está ou não comprometendo sua estética e sua saúde" (Médico - revista Capricho de 25 de abril de 1999)

"...é justamente nesse ponto que a reeducação alimentar é mais eficaz. A mudança nos hábitos alimentares e a do peso é gradativa. Aos poucos a pessoa vai corrigindo."(Médico- revista Capricho de 5 de dezembro de 1999)

"Cá entre nós o que você acha é mais importante."(Médico- revista Capricho de 14 de fevereiro de 1999)

 

O primeiro exemplo chama a atenção para a maneira como o especialista transfere para a cliente/paciente a responsabilidade de autocontrolar-se. Ele, o especialista, não deixa de se apoiar em um instrumento científico (o IMC) para que a paciente se convença da necessidade e da sua própria capacidade de se autovigiar.

O autocontrole, ao mesmo tempo, funciona como uma espécie de sedução para o paciente, que julga estar tornando-se independente e é também uma forma de o especialista não dividir a responsabilidade com o paciente. Cabe somente ao paciente a responsabilidade pela sua saúde. Portanto, se ele não seguir bem as orientações, quanto ao uso do instrumento, torna-se culpado pelo seu próprio insucesso.

No segundo exemplo, fica bem demarcado quem fala e de onde fala, os vínculos socioculturais e a sedução. O especialista tem certeza e faz o leitor ter a mesma certeza de que a reeducação alimentar é a melhor opção para quem quer emagrecer, mas alerta: "a mudança nos hábitos alimentares e a do peso é gradativa". Aquele especialista faz a afirmação respaldado pelo conhecimento e pela experiência. É um discurso que cria vínculos socioculturais na divulgação de um homem equilibrado, controlado. Além disso, sendo capaz de conhecer o que é certo e errado, ele mesmo pode autocontrolar-se e ser auto-suficiente.

O terceiro exemplo, na mesma linha dos outros dois, mostra-se exaltando a importância da opinião da cliente/paciente, o sentido subjacente neste discurso é o da autonomia, mas na mesma linha do autocontrole.

 

Os discursos dos artistas famosos

Quando os discursos são proferidos por artistas famosos, podemos acentuar que se mostram através do meio artístico/imagético. São artistas que estão em evidência na televisão, nos jornais, nas revistas e nas propagandas publicitárias. São discursos que se referem ao mundo da fama e do sucesso. Estes discursos podem ser caracterizados como discursos sócio-estéticos, pois a sua força está na imagem e têm como tema o corpo ideal.

Os discursos sócio-estéticos criam vínculos socioculturais com os leitores valendo-se da concepção de que "tudo posso", do homem/imagem perfeita. Estes discursos perpassam e estimulam a cultura individualista e subjetiva do final do século XX.

Esta cultura individualista reflete a sociedade pós-moderna, que apregoa a autonomia do indivíduo, a flexibilidade, o prazer, a praticidade, a rapidez/eficiência, a ação e também as escolhas. É ação do Estado mínimo, que se ausenta das obrigações sociais, deixando a cargo do indivíduo e do privado a condução do destino do próprio país.

Dentro da lógica da subjetividade, da satisfação do "eu", da conquista do sucesso, os indivíduos tentam, cada vez mais, aproximar-se de um estilo padronizado, por exemplo, à imagem e semelhança de artistas famosos, onde o limite da conquista em termos estéticos corporais "beira" a perfeição.

Desta forma, as estratégias sedutoras utilizadas pelos discursos sócio-estéticos estão ligadas diretamente a estética/boa forma (feio/bonito), sucesso/insucesso, poder/fama. Nestes discursos, as funções de sedução e interação estão mais presentes. A seguir, veremos como estes discursos se apresentam nas matérias sobre práticas alimentares para emagrecimento.

 

Sentidos, significados e discursosAutonomia/Poder

"Faço meu próprio sanduíche quando estou com fome" (Rodrigo Faro- revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

"Eu adoro preparar os meus lanches pela manhã" (Maria Paula- revista Capricho 23 de maio de 1999)

 

No primeiro exemplo, o verbo "fazer" é utilizado na primeira pessoa, acompanhado do pronome "meu". Fica assim demarcado o sentido de autonomia e poder, que são significados presentes nos discursos do tipo sócio-estético.

O segundo exemplo revela a satisfação e o prazer em se preparar o próprio lanche, o poder de fazer o seu. Estas são estratégias sedutoras para os leitores.

Os vínculos socioculturais criados com o leitor são provocados pela cultura da individualidade, independência.

Outro comentário importante acontece quando uma prática considerada não saudável - alimentar-se com sanduíches - sob o ponto de vista nutricional é divulgada por um modelo midiático.

 

Autocontrole/Razão

"Dieta é dieta , mesmo assim o médico libera duas refeições a cada semana. Isso quer dizer que você pode comer o que quiser com bom senso no almoço de sábado e no domingo, por exemplo."(Danielle Winits- revista Capricho de 20 de junho de 1999)

Este é um exemplo de discurso que ressalta o papel da dieta como coisa séria, pois parece que não é uma refeição, mas um remédio. Ao falar que: "o médico libera duas refeições a cada semana" o discurso demarca que dieta não é refeição. O discurso também quer mostrar a flexibilidade do especialista, pois libera duas refeições a cada semana.

Este discurso reforça o sentido de dieta como restrição alimentar. Em relação aos vínculos socioculturais estabelecidos com o leitor, podemos observar a questão da racionalidade, ou seja, o indivíduo tem que ter consciência e responsabilidade para escolher o que vai comer. É uma forma de autocontrole, trata do indivíduo como dono de sua própria vida e saúde. Esta lógica exalta a individualidade. A sedução se manifesta com base na autonomia, mas uma autonomia vigiada e controlada pelo especialista.

 

Autonomia/Praticidade

"Faço em casa sempre (o sanduíche). É prático e uma delícia." (Suzana Werner- revista Capricho de 15 de agosto de 1999)

 

Podemos observar que como os exemplos anteriores, este se refere ao mesmo universo (imagético). A função sedutora subjacente ao discurso é a praticidade. Hoje, mais do que nunca, as pessoas necessitam ganhar tempo, a vida acontece de forma rápida e a alimentação tem que acompanhar adequando-se a este novo tempo. Como a revista objeto de análise tem um público leitor voltado para mulheres, nada como divulgar uma prática alimentar que poupa tempo e esforços na hora de preparar o alimento.

 

Escolha/Ação

"... foi quando decidi agir. Mudei a alimentação e percebi que, sem ginástica, não havia milagre." (revista Capricho 26 de setembro de 1999)

 

Este discurso mostra-se de acordo com o mundo imagético, do sucesso. Interage e seduz o leitor através da idéia de que você pode e deve decidir pela sua própria alimentação e saúde. Perpassa também o sentido de controle e de verdade científica, pois o relato da atriz deixa explicitado que para se ter sucesso, no caso, com o corpo, deve-se escolher uma alimentação racional, seguir uma rotina de exercícios. É a escolha, ação e a razão.

 

Discursos dos adolescentes

Os adolescentes, como foi mencionado anteriormente, apresentam formações discursivas dos dois tipos: o técnico-científico e o sócio-estético (imagético).

Os adolescentes, ávidos por encontrar sua identidade, vivenciam um verdadeiro dilema. O mesmo discurso da mídia que estimula a prática do fast food, via publicidade, aproveitando para divulgação desta prática pessoas famosas, utiliza também, discursos de especialistas que não indicam e nem concordam, sob o ponto de vista da saúde do adolescente, com esta mesma prática.

Esta mesma mídia divulga e constrói modelos e padrões de beleza, de estética corporal não condizentes com estas práticas alimentares. O que fazer? Consumir um modus vivendi descontraído, moderno, uma alimentação prática, rápida que você mesmo pode preparar, ou manter-se em forma com um corpo esteticamente perfeito?

Diante deste dilema, o adolescente torna-se indeciso, ou melhor, expressa-se como um sujeito ambíguo, vacilante, inseguro. Mostraremos através de alguns exemplos selecionados das falas dos adolescentes, sentidos, significados que imprimem ambigüidade.

 

Sentidos, significados e discursosFlexibilidade/Cuidado e Radicalismo

"Agora, estou tentando comer mais certo, porque vi que não adianta nada ser radical" (revista Capricho de 19 de dezembro de 1999)

"Procurei um médico e ele receitou um remédio de tarja preta. Eu fiquei assustada e não quis tomar." (revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

"Quando encaro que engordei, simplesmente paro de comer comida. Troco tudo por salgadinhos, biscoitos, essas bobagens. Ou dou uma maneirada durante a semana e me acabo no fim de semana: como brigadeiro, tudo que vejo pela frente" (revista Capricho de 19 de dezembro de 1999)

"Eu tomava um remédio para diminuir o apetite antes de ir às festinhas. Só que não adiantava muito e eu comia do mesmo jeito." (revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

 

Estes exemplos ilustram o dilema em que os adolescentes se encontram mediante a escolha de um padrão alimentar. Ao mesmo tempo em que o adolescente diz que não adianta ser radical com a alimentação e que deve comer de forma correta, ele também assume práticas alimentares radicais e incorretas do ponto de vista nutricional, pois necessita a qualquer custo, conquistar o padrão ideal. Nestes exemplos, podemos observar formações discursivas que se referem à técnica como as que se referem ao senso comum.

 

Competição e decepção

"O mercado é muito competitivo, se eu comer o chocolate hoje, vou dar chance para outra passar na minha frente." (revista Capricho de 24 de outubro de 1999)

"Quem não encontrava o seu vestido sabia que tinha sido desclassificada." (revista Capricho de 12 de setembro de 1999)

 

A ideologia do poder e do sucesso está também permeando as falas dos adolescentes. O significado de globalização, a competição entre os mercados, etc. começam a fazer parte do discurso e da forma de pensamento das pessoas. Quem não consegue competir neste mercado é considerado como um indivíduo fracassado.

 

Controle

"(...) tem bolo de chocolate uma vez por semana"- mas com controle". (revista Capricho de 26 de setembro de 1999)

"Só evito comer muito no jantar" (revista Capricho de 9 de maio de 1999)

"Vou parar de ir ao Mc Donalds com as minhas amigas".

"Tinham câmeras no refeitório, mas nós descobrimos um cantinho em que ela não pegava e era lá que ficavam as frutas- imagina o que a gente fazia? Pegava um monte e levava para o quarto."

"Todo dia me peso na balança que fica no meu quarto e também meço minha cintura e meu bumbum com a fita métrica que fica escondida no meu armário". (revista Capricho de 19 de dezembro de 1999)

 

Podemos notar que, nos relatos acima, as adolescentes estão-se privando do prazer de comer para conquistar determinado padrão estético. Estão deixando de ter prazer ao alimentar-se. Hoje, ao mesmo tempo em que os indivíduos adquiriram a liberdade em mostrar os seus corpos, cada vez mais se aprisionam, pois para desnudá-lo são necessários muitos mecanismos de controle, como: regimes alimentares, cirurgias plásticas, ginásticas, tratamentos com cosméticos e outros. Mas, o que importa é o sucesso em conquistar um corpo esteticamente perfeito e ser aceito socialmente.

Góes e Vilaça (1998) citando Focault nos diz que, se numa sociedade como a do século XVII, o corpo do rei e sua presença física eram necessários para o funcionamento da Monarquia, no decorrer do século XIX, é o corpo da sociedade que se torna o princípio básico da República. É este corpo que deverá ser protegido de modo sistemático. Em lugar dos rituais de preservação da integridade do corpo do monarca, serão aplicadas receitas terapêuticas para o corpo da sociedade, como a eliminação dos doentes, o controle dos contagiosos, a exclusão dos delinqüentes. O suplício é substituído por métodos de assepsia: a criminologia, a eugenia, a exclusão dos degenerados. A materialidade do poder exercendo-se sobre o corpo dos indivíduos faz surgir o corpo social.

Modernamente, se pensarmos como Focault a introjeção dos mecanismos de controle, verificamos uma certa ambigüidade entre disciplina e prazer em investimentos corporais como ginástica, e a busca do aperfeiçoamento físico entre outras práticas estético-esportivas.

É o indivíduo que busca defender-se de sua degenerescência e imperfeição essencial, ou trata-se ainda de mecanismos mais sutis de manipulação por parte do poder, funcionando, não mais por meio de mecanismos jurídicos ou médicos, mas pela sedução exercida pelos veículos midiáticos?

Paralelamente ao grupo de meninas que fazem de tudo para se controlar e não engordar e por isso são consideradas vitoriosas, há um outro grupo de adolescentes que não consegue fazer a dieta para manter o peso ou emagrecer, são caracterizadas como as fracassadas, as que não farão sucesso e quiçá serão aceitas socialmente. Como exemplos, destacamos alguns discursos que falam das dificuldades das adolescentes em manter-se em forma, ou seja, adolescentes que fracassaram.

 

"(...) para comer o que receitavam, eu teria que fazer ginástica, mas odeio e, além do mais, não dá tempo". (revista capricho de 24 de outubro de 1999)

"Não consigo resistir mesmo sabendo que engorda." (revista Capricho de 23 de maio de 1999)

"Minha mãe cozinha bem e eu não resisto às tortas que ela faz".

"O maior problema é no recreio e em frente à televisão. Não paro de comer bolachas". (revista capricho de 29 de agosto de 1999)

"Se fosse fácil fazer regime, ninguém estaria acima do peso..."

"fazer dieta muito tempo".

"deixar de comer doces" (revista capricho de 29 de agosto de 1999)

"...não consigo manter a dieta." (revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

 

Estas dificuldades vividas pelas adolescentes podem ser melhor compreendidas à luz dos aspectos que determinam as práticas e hábitos alimentares.

As práticas e hábitos alimentares são determinados por aspectos sociais, psicológicos, culturais e econômicos e, assim, são práticas sociais. Alimentar-se não é apenas um ato biológico é também um ato de prazer.

Notamos, nestes exemplos, que o sentido de dieta para estas adolescentes caracteriza-se como o de restrição/proibição, o que conseqüentemente não motiva levando à não manutenção. A dieta concebida desta forma não leva em consideração a falta de tempo das pessoas, o gosto e as preferências, a relação de afeto que mostra o ato de a mãe preparar um prato gostoso, a ociosidade, etc.

Ainda na direção do sentido de discurso que demarca o sucesso, observamos que este sucesso está atrelado ao poder da ciência, ou seja:

 

"Só consegui emagrecer quando um médico limitou minhas refeições a 1200 calorias por dia". (revista capricho de 19 de dezembro de 1999)

 

Neste discurso é divulgada quantidade de calorias que a pessoa necessita ingerir para emagrecer e obter o sucesso. Ignora-se completamente que dieta, distribuição de calorias e demais nutrientes são calculados individualmente.

Ao contrário do sucesso temos o insucesso. Este sentimento, muitas vezes, pode levar o adolescente a experimentar métodos mais fáceis e rápidos para emagrecer, mas que não garantem a adoção de um comportamento alimentar que promova a saúde.

 

"Não perdi nenhum quilo."(revista Capricho de 19 de dezembro de 1999)

 

Outros sentimentos como dúvidas, medo, sofrimento e insatisfação e culpa, estão presentes nestes discursos. Todos os indivíduos necessitam de informações, particularmente os adolescentes que estão numa fase de intensas mudanças. Não são mais crianças, mas também ainda não são adultos e precisam, portanto, de orientações. Apresentam muitas dúvidas, e muitas vezes os canais de informações que possuem resumem-se aos meios de comunicação. Dessa forma, é de extrema importância a análise dos conteúdos veiculados nas mensagens das matérias que informam sobre saúde e nutrição. Podemos observar nestes exemplos abaixo:

 

"Devo substituir tudo o que puder por alimentos diet e light?" (revista Capricho de 25 de abril de 1999).

"Eu era muito gorda e, por isso, morro de medo de engordar de novo. Sou encanada com regime". (revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

"Já chorei porque não conseguir emagrecer". (revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

"(...) mas sofria, tomava remédios que me deixavam deprimida, conta ela". (revista Capricho de 21 de novembro de 1999)

"Nenhuma roupa me caía bem." (revista Capricho de 26 de setembro de 1999)

"No ano passado estava magérrima, mas chateada, me privando do prazer de beber e comer, desabafa". (revista Capricho de 21 de novembro de 1999)

"ninguém faz dieta certa porque elas juntam todas as coisas mais sem graça do mundo". (revista capricho de 19 de dezembro de 1999)

"Quando comia me sentia culpada e ia correndo para a academia" (revista Capricho de 21 de novembro de 1999)

 

Estes sentimentos são suscitados nos adolescentes por causa da ditadura do corpo esbelto e esguio que é "cobrado" pela sociedade. Estes talvez sejam os maiores motivos que levam adolescentes a engajarem-se em práticas alimentares não reconhecidas do ponto de vista técnico-científico e que levam ao aumento dos índices de transtornos alimentares ligados ao psicológico. Depende de como estes discursos chegam aos leitores e depende do alcance de discernimento do leitor (adolescente) do que é melhor para sua saúde. Estes discursos podem influenciar e estimular o desejo dos adolescentes/leitores em experimentar uma destas práticas alimentares não recomendadas.

 

O que converge e o que diverge entre o discurso midiático e o discurso técnico-científico

Quanto à convergência e à divergência do discurso midiático com o discurso técnico-científico, podemos afirmar que muitas modalidades discursivas destas matérias sobre dieta/alimentação divulgadas na revista Capricho, não traduzem ou expressam uma lógica ou procedimento teórico-metodológico admitido como válido no campo da nutrição, muito menos promovem uma mudança qualitativa no comportamento alimentar. O que se vê, muitas vezes, são receitas "milagrosas" para emagrecimento, divulgadas por personalidades famosas. Tais mensagens suscitam no consumidor o desejo de experimentar tais "dietas" que prometem perda de peso rápida e saúde perfeita.

Primeiramente, selecionamos alguns discursos sobre práticas alimentares para emagrecimento que nos mostraram divergências com o que é preconizado pela ciência da nutrição. São eles:

 

" troco tudo por tablete de chocolate". (revista Capricho 4 de julho de 1999)

" cortou tudo que adorava comer". (revista Capricho 4 de julho de 1999)

"... um mês antes de uma viagem a Porto Seguro, só comia bolacha de água e sal e tomava suco diet. Cheguei até tomar um remédio que reduz o apetite". (revista Capricho 29 de agosto de 1999)

" a única representante do Acre, Diana Farias, 15, fez dieta rigorosa antes do concurso- quinze dias a base de frutas- emagreceu 7 quilos". (revista Capricho 10 de outubro de 1999)

" passei os dias inteiros comendo só brócolis ".(revista Capricho 24 de outubro de 1999)

"De manhã se alimentava com meia xícara de café com leite desnatado, uma bolacha e uma fatia de queijo. às dez horas uma gelatina. No almoço um prato de alface, espinafre e cenoura e uma fatia de carne "tamanho de uma caixa de fósforo". À tarde um copo de suco, à noite o almoço se repetia em menor quantidade".(revista Capricho 24 de outubro de 1999)

"Já experimentei até só beber água e mascar chicletes no lugar de comer." (revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

 

Inicialmente, todo indivíduo deve ter uma alimentação saudável e equilibrada, tanto em quantidade como em qualidade. Deve-se fazer de quatro a seis refeições diárias, sendo estas compostas por duas grandes refeições (almoço e jantar) e quatro pequenas (desjejum, colação, lanche e ceia). Estas refeições devem totalizar um aporte calórico diário ideal ao indivíduo, levando-se em consideração sua altura, seu peso e sua atividade física. Portanto, é necessário individualizar a dieta alimentar, até porque, como sabemos, não comemos só para satisfazer as necessidades fisiológicas e biológicas, mas também as necessidades psicológicas, afetivas, sociais e culturais.

Para garantir o equilíbrio e o aporte de todos os nutrientes necessários a uma boa nutrição, deve estar presente em todas as refeições, pelo menos um alimento de cada grupo de alimentos, a saber: grupo dos construtores (proteínas), grupo dos reguladores (minerais e vitaminas) e o grupo dos energéticos (carboidratos e gorduras).

Outro princípio importante na ciência da Nutrição é consumir o que se vai gastar, ou seja, dieta equilibrada implica também em prática de exercícios físicos.

Em relação às privações a que se submetem as adolescentes em seus relatos nos discursos da revista Capricho, podemos dizer que estas ferem frontalmente o princípio básico da nutrição que é o equilíbrio alimentar. Deixam de fazer algumas refeições importantes e, com isso, não consomem todos os nutrientes em quantidades e qualidades suficientes à boa nutrição e ao crescimento e desenvolvimento.

Estas privações levam a alguns comprometimentos da saúde das adolescentes, principalmente distúrbios alimentares ligados a questões psicológicas, como a bulimia e a anorexia. Os adolescentes se tornam frustrados e insatisfeitos, pois não podem comer o que realmente gostam. Conseguem muitas vezes emagrecer sem manter, porém, a saúde.

Outros exemplos de discursos divergentes à ciência da nutrição referem-se ao uso de produtos dietéticos e medicamentos para emagrecer, são eles:

 

"se você quer emagrecer deve substituir tudo que puder por alimentos diet e light, sim". (revista Capricho 25 de abril de 1999)

" Faz mal substituir o açúcar comum por adoçantes? Não. Mas prefira os de aspartame ou de stévia que são naturais". (revista Capricho 25 de abril de 1999)

" Em alguns casos o remédio pode ajudar. Sempre com orientação médica, é claro". (revista Capricho 19 de dezembro de 1999)

 

Segundo pesquisa realizada por uma subcomissão do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID/ Ministério da Saúde), estes medicamentos para emagrecimento utilizam anfetaminas e ansiolíticos que são substâncias que provocam dependência, alterações das funções cardíacas, alterações da função renal, distúrbios hormonais, sobretudo os da tireóide, distúrbios gástricos e neurológicos. Estes medicamentos se constituem em verdadeiros coquetéis, pois misturam diversas substâncias, como anfetaminas para diminuir o apetite, que estimulam o sistema nervoso central, causam ansiedade e irritação e acrescentam, ainda, um benzodiazepínico

A anfetamina também causa o aumento da pressão arterial e causa constipação. Então, o médico acrescenta à fórmula um antihipertensivo e um laxante. Junta-se ainda, um diurético, um sal de potássio e um hormônio da tireóide. Segundo a pesquisa, médicos misturam duas drogas do tipo anfetaminas ou mesmo dois ansiolíticos, dobrando os riscos associados a estes medicamentos. Outro dado importante encontrado na pesquisa refere-se ao consumo de medicamentos tipo anfetaminas no Brasil que saltou de 7,7 toneladas em 1988 para 23,6 toneladas em 1992 (Dados divulgados no Jornal Folha de São Paulo, Domingo - 20/04/94, pág., 4.)

O uso, também, de produtos dietéticos como sinônimos de produtos que garantem a saúde, é questionável pela ciência da nutrição. Vários estudos apontam divergências quanto ao uso de um ou de outro edulcorante, por saber que, muitas vezes, as pesquisas chegam a resultados que atendem a determinados interesses ligados a indústria/capital.

Quanto ao desequilíbrio na alimentação, destacamos alguns outros discursos.

 

" Os lanches mais consumidos: primeiro coxinha, segundo salgadinhos em geral, terceiro salgadinhos de pacote e quarto nada (meninas em jejum no recreio)". (revista Capricho 23 de maio de 1999)

" A bebida mais consumida no recreio é a Coca-cola". (revista Capricho 23 de maio de 1999)

" come a bandeja de Danoninho de morango de uma só vez, com oito unidades, vendo televisão". (revista Capricho 4 de julho de 1999)

"(sanduíche) batata frita chipps + macarrão + palitos de chocolate + catchup + mostarda". (revista Capricho 15 de agosto de 1999)

" Nossa dieta não tem base calórica, mas nutricional. Com 350 calorias/dia come-se de tudo, inclusive massa". (revista Capricho 24 de outubro de 1999)

" Quem tinha centímetros a mais foi enquadrada na dieta de 500 calorias/dia.(revista Capricho 24 de outubro de 1999)

 

Os lanches apresentam alto teor de gordura, particularmente, quando se trata de frituras, visto que a gordura se torna saturada e, por isto, de difícil digestibilidade. Neste caso, pode formar placas de ateroma nas artérias e impedir o fluxo sangüíneo. Conseqüentemente, doenças vasculares e cardiopatias e podem aparecer.

Os refrigerantes, além de conter grandes quantidades de aditivos químicos, apresentam grande concentração de açúcar, e o seu metabolismo final vai resultar em gordura, podendo levar o indivíduo ao sobrepeso e/ou à obesidade.

A prática alimentar de comer uma bandeja com oito unidades de Danoninho de uma só vez, somada ao sedentarismo e à inatividade física própria do ato de assistir à televisão, não é um procedimento saudável. O iogurte é um alimento rico em proteínas, e o excesso desse nutriente pode causar uma sobrecarga dos rins. Este produto também é rico em gorduras.

Gostos exóticos e ao mesmo tempo condenáveis pela ciência da nutrição estão presentes nas matérias, como: comer sanduíche com recheio de macarrão, batata frita, e palitos de chocolate. Estes não são hábitos reconhecidos culturalmente, além de não serem indicados em termos nutricionais.

A afirmação de que "dieta de 350 calorias diárias não tem base calórica", é verdadeira, mas esclarecer que esta dieta tem base nutricional, é uma declaração falsa. A ciência da nutrição considera que uma dieta abaixo de 1000 calorias/dia, mostra-se insuficiente relativamente à quantidade de calorias e em termos nutricionais, especialmente, no caso de um adolescente que necessita de um bom aporte calórico e nutricional que garanta seu pleno desenvolvimento.

Outro achado interessante, que do ponto de vista da ciência da nutrição não deve ser tomado como conduta própria no atendimento ao indivíduo, é a questão da padronização da dieta que deve ser individualizada, particularizada. Cada pessoa possui características físicas e psíquicas particulares, com seus gostos, preferências, com sua disponibilidade, enfim, com seu estilo de vida. Portanto, quando as matérias sobre procedimentos alimentares para emagrecimento divulgam estas práticas para o público, estão desconsiderando este aspecto básico e crucial para o sucesso na mudança do comportamento alimentar. Destacamos alguns exemplos, encontrados nas matérias da revista CAPRICHO:

 

"Faço duas horas de musculação todos os dias na academia".(revista Capricho janeiro de 1999)

"Na sua idade é bom comer 2000 calorias por dia, mas se quiser emagrecer saudavelmente diminua para 1800 ". (revista Capricho outubro de 19990

"O médico de Danielle Winitts, Alessandra Negrini, Camila Pitanga, faz um cardápio para você emagrecer até 2 quilos por semana". (revista Capricho outubro de 1999)

 

No primeiro exemplo, o discurso da revista, ao divulgar que a modelo Joana Prado faz duas horas por dia de musculação, sugere que para ficar em forma, como ela, temos que fazer também duas horas de musculação por dia, e sabemos que, em muitos casos, especialmente, para os adolescentes, não é um procedimento recomendado. Junto a esta carga excessiva de exercício físico, muitos adolescentes estão comendo menos calorias do que necessitam, e esta prática pode trazer vários comprometimentos à sua saúde.

Divulgar cardápio sem levar em consideração todos os aspectos que envolvem o comportamento alimentar do indivíduo, além de ser um cardápio para emagrecimento rápido, é uma prática totalmente discutível para a ciência da nutrição. Em relação à rapidez para emagrecer, considera-se que há uma adaptação do organismo (metabolismo) às novas quantidades de alimento e que esta adaptação deve ser lenta, pois é um processo de mudança, de reeducação alimentar. Portanto, se a perda de peso for rápida, da mesma forma o indivíduo recupera o peso perdido, é o famoso "efeito sanfona".

Encontramos em muitas matérias a divulgação de princípios que divergem da ciência da nutrição. Os principais achados são: as privações, ou seja, as pessoas acham que fazer dieta é privar-se de comer coisas de que gostam, suprimir refeições e até mesmo ficar sem comer. Desta forma a pessoa deixa de ter uma alimentação variada, equilibrada e saudável.

Outro achado que nos chamou a atenção, foram as práticas consideradas mais fáceis e rápidas de perda de peso, como o uso de medicamentos, sem levar em consideração as conseqüências que o uso destes pode trazer ao organismo. A padronização, ou seja, a mesma dieta que é indicada para determinada pessoa, é divulgada como paradigma para as demais. Este procedimento pode levar a insucessos em alguns casos e, conseqüentemente, ao desestímulo com a dieta. A dieta deve ser individualizada, calculada para cada indivíduo de acordo com suas características físicas, sociais, econômicas e psicológicas.

Em relação aos pontos convergentes dos discursos da revista sobre práticas alimentares para emagrecimento, selecionamos alguns. Se fossemos totalizar, encontraríamos certamente muito mais pontos divergentes do que convergentes, são eles:

"Quando você proíbe um alimento numa dieta, a tendência é que a pessoa, quando não consegue se conter, se sinta impotente. Ela acha que fracassou e fica uma sensação de angústia, o que leva a compensar o sofrimento com mais comida, explica." (Endocrinologista- revista Capricho de 19 de dezembro de 1999)

"Não caía na tentação de se auto medicar. Qualquer tipo de medicamento provoca efeitos colaterais." (Endocrinologista- revista Capricho 25 de abril de 1999)

"...além disso, cada pessoa tem um metabolismo diferente, que leva mais ou menos tempo para queimar energia." (Nutricionista- revista Capricho de 25 de abril de 1999)

"as verduras cruas possuem poucas calorias se você não abusar no tempero e são ricas em fibras. " (Nutricionista- revista Capricho de 23 de maio de 1999)

"inimigos da dieta- beliscar, pular refeições, não mastigar, comer só um tipo de alimento, achar que ansiedade é fome e comer na frente da tevê (você não repara o tanto que come)." (Endocrinologista- revista de 23 de maio de 1999)

 

Para a ciência da nutrição, não devemos privar os indivíduos de comer aquilo de que gostam, pois sabemos que o ato de comer também é um ato de prazer. O ideal é escolher junto ao cliente os alimentos que mais lhe apetecem e encontrar formas ou técnicas de preparo que os tornem mais saborosos e nutritivos.

Consideramos que a proibição não seja o melhor caminho, pois a pessoa se sentirá frustrada e por conseguinte abandonará a dieta. O conhecimento do alimento e de si próprio, ou seja, a conscientização da importância da alimentação em todos os aspectos que envolvem a boa saúde é fundamental. Portanto, a nutrição acredita no processo de educação que muitas vezes é lento, porém, eficaz, pois passa a ser o estilo da pessoa se alimentar, que é próprio e não imposto.

Acreditamos que uma alimentação equilibrada quantitativamente e qualitativamente, aliada a uma prática desportiva, garantirá o trabalho metabólico normal, que levará o indivíduo a atingir e manter seu peso ideal. Enfim, a alimentação saudável e equilibrada dispensa o uso de medicamentos.

 

Considerações finais e recomendações

Hábitos e práticas alimentares são construídos com base em determinações sócio-culturais. No mundo contemporâneo, a mídia vem desempenhando papel estruturador na construção e desconstrução de procedimentos alimentares. Desde a Antiguidade, a dietética é vista como ciência da higiene, e se mantém até hoje sob a ótica das práticas alimentares para emagrecimento que, de uma forma ou de outra, incorrem na privação da ingestão de alimentos.

As práticas alimentares de emagrecimento inserem-se numa lógica de mercado impregnada por um padrão estético de corpo ideal. A indústria cultural move-se articulando diferentes campos, como empresas produtoras de mercadorias, indústrias de aparelhos e equipamentos e setores financeiros. É dentro dessa lógica que se produzem os paradigmas estéticos de corpo e, por conseqüência, os discursos sobre práticas alimentares para emagrecimento.

De que forma, contudo, tais discursos são produzidos? Palavras, textos e imagens constituem uma intricada rede de relações que imbricam história e tecnologia num domínio específico que produz poder. Existem vários tipos de discursos: lúdico, polêmico e autoritário. O discurso autoritário é aquele em que seu objeto encontra-se oculto pelo dizer. Como acontece com o discurso científico.

De acordo com Focault, o discurso científico funciona mediante regras pré-estabelecidas em determinadas condições de produção e são, assim, representações de poder e de controle social. A troca e a comunicação atuam no interior de sistemas complexos de restrição e a forma mais superficial e visível desses sistemas de restrição é constituída pelo ritual. Definem-se segundo o ritual, a qualificação de quem fala – gestos, comportamentos, circunstâncias, e conjunto de signos que acompanham o discurso – fixando a eficácia suposta ou imposta das palavras, seu efeito sobre aqueles aos quais se dirigem, os limites de seu efeito sobre a audiência e seu valor de coerção.

Combinando vários tipos de discurso, o discurso midiático transveste-se como síntese, mas é apenas generalizante e reelabora, conteúdos originais de forma descontextualizada e destituída de sua identidade. O midiático reforça a legitimidade dos discursos das outras instituições, garante sua própria permeabilidade no tecido social, mas não sintetiza saberes, não se preocupa em ordená-los para que se constituam num campo de saber totalizante. Ao contrário, o discurso midático reelabora modalidades discursivas herméticas/fechadas, transformando-as em modalidades discursivas generalizantes/abertas com maior visibilidade às custas do empobrecimento de seu conteúdo, mas favorecendo sua apropriação pelo imaginário social.

O discurso midiático é unilateral, mas utiliza habitualmente um conjunto de procedimentos definidos de maneira a parecer que concede a palavra ao público, a exemplo das seções de cartas de leitores nas revistas e jornais. Vincula-se diretamente à lógica subjacente, dos discursos sobre práticas alimentares para emagrecimento, ou seja, a lógica da individualidade e do autocontrole. O indivíduo toma parte, e por vezes é o único responsável, pela sua alimentação e saúde.

No Brasil e no mundo, o crescimento das prevalências da obesidade e seus agravos correlacionados, entre adolescentes, prova que gordura e calorias não estão diretamente associadas à saúde. A prova disso está nas mudanças implementadas nos hábitos alimentares quase que impostas pela mídia, especialmente no que se refere ao crescimento do consumo de lanches calóricos e pouco nutritivos, os chamados fast foods. No entanto, se por um lado a mídia estimula o consumo de lanches rápidos que em sua maioria levam à obesidade, por outro, difunde um novo padrão estético calcado no corpo ideal, esguio, esbelto e musculoso. Em ambos os casos, o que determina a veiculação dessas mensagens são os interesses mercadológicos. A menina adolescente, em especial, configura-se como o alvo preferencial da mídia, já que o corpo feminino universaliza-se com o mercado capitalista de consumo, transformando-se em fetiche a serviço da lei de mercado e reproduzindo o modus vivendi contemporâneo.

A análise dos discursos e seus significados presentes nos títulos das matérias da maior revista voltada para o público feminino adolescente mostra que a sedução está presente na maior parte deles. Os títulos da imprensa, graças ao próprio processo de figuração, constituem um verdadeiro texto dentro do texto. Ao mesmo tempo, mostram e ocultam o texto para o qual o olhar do leitor é dirigido. No caso específico das matérias da revista Capricho, os títulos não escondem significados ou sentidos, são bastante claros e diretos, talvez por ser esta uma revista direcionada ao público adolescente, que hoje em dia se identifica mais com a linguagem imagética, que apresenta pouco texto, exige pouca leitura e oferece muita informação rápida/ instantânea.

Os discursos das matérias da revista Capricho sobre práticas alimentares para emagrecimento aparecem sempre proferidos por especialistas, artistas e adolescentes, três sujeitos que, em razão de sua própria especificidade, encerram a sua participação enquanto formadores de opiniões, comportamentos e estilos.

No discurso dos especialistas existe uma moral julgadora daquilo que é considerado como acerto ou erro de uma ótica científica. Tais discursos mostram-se valendo-se de um referente técnico e evocando a ciência como forma de criar vínculos sócio-culturais e legitimar as informações veiculadas. Já nos discursos dos artistas, a força do "dito" está nas imagens. Os significados e sentidos subjacentes a estes discursos são a fama, o sucesso, o poder, e a cultura narcísea e individualista da pós-modernidade.

Em matéria de alimentação e estética, os artistas revelam-se sempre como exemplos de um padrão ideal de alimentação e de corpo. A eles são sempre reservados os "louros" da vitória, por seguirem as regras que garantem uma boa forma física.

Os discursos dos adolescentes representam o senso comum. Nestes observamos o imbricamento dos diversos saberes articulados contribuindo para a formação de um saber comum a todos. Este é, porém, um saber frágil, inconsistente, uma vez que reflete o conflito criado pelos diferentes interesses dos diversos saberes presentes. Este (discurso) é a fala dos leigos, dos sujeitos que vivem dilemas, e estão em busca de sua identidade. É o discurso dos que se expressam por aquilo que ouvem, sem ter um filtro ou canal para questionar se o que está recebendo enquanto informação é bom ou ruim para eles.

Os adolescentes podem assumir e mais tarde abandonar determinadas práticas alimentares, divulgadas como dietas, por exemplo, por uma atriz, como um ideal para a conquista do peso. Eles podem abandonar a prática por esta não ser a melhor indicada para as suas particularidades, mas este fato caracterizará uma atitude de insucesso e fracasso. Estes adolescentes sentem-se, em razão disso, culpados e derrotados, o que os leva a experimentar outras tantas práticas sem que haja garantia de uma mudança efetiva de hábitos. Nestes discursos dos adolescentes, estão presentes, notadamente, as dificuldades, os fracassos frente à alimentação e aos cuidados com a saúde. Diferentemente do discurso dos artistas onde são sempre exaltados os sucessos e a obediência às regras estabelecidas.

A intermediação é feita pelos repórteres e nela, estão presentes de forma implícita ou explícita os interesses do discurso midiático. Nas matérias sobre práticas alimentares para emagrecimento, percebemos claramente os interesses das indústrias ligadas ao corpo e, por conseguinte, a divulgação de um padrão estético corporal determinado é "quase imposição" por parte dos textos da intermediação.

Quanto às modalidades discursivas da mídia, encontramos mais modalidades divergentes daquilo que é preconizado pela ciência da nutrição. Este fato alerta-nos sobre a responsabilidade que temos de desvendar estratégias do discurso midiático, bem como, a respeito da orientação mais crítica que devemos dirigir quando do nosso atendimento, sobretudo, ao adolescente.

Fundando-se no que foi exposto, podemos tecer algumas considerações. O conteúdo do discurso da mídia, especificamente o da revista Capricho, mostra-se de cunho informativo, mas nem sempre pode ser tomado como base. O fato de ser informativo, não significa que seja adequado, científico, saudável, etc. Conseqüentemente, não negamos o papel da mídia como veiculadora maior de informações, mas nos preocupamos com o teor e a contextualização dessas mesmas informações.

O discurso midiático é ambíguo e pode ser capcioso. A informação, no caso, não representa, necessariamente, a "verdade", não é educativa nem formadora e não cria alicerces sólidos, para o indivíduo. Temos que acabar com o mito de que informação é saber.

Sendo assim, este tema não se esgota nesta dissertação. Há muito ainda a se investigar no campo da mídia, há que se estar atento à mitificação da ciência – o predicado "científico" não implica, necessariamente, em sinônimo de saúde e bem-estar, especialmente quando adotado pelos veículos de comunicação e informação.

É vastíssimo o campo de investigação na forma pela qual a mídia veicula padrões estéticos e, por conseqüência, dietas e práticas alimentares em função de interesses mercadológicos.

As estratégias midiáticas vêm-se aprimorando mais e mais e, hoje, fazem-se necessários esforços de investigação de outras formas pelas quais tais discursos são veiculados. O discurso midiático é o espaço de enredamento de vários saberes e interesses o que o torna um espaço dinâmico e complexo.

Dentre as diversas possibilidades existentes para a compreensão deste espaço dinâmico e complexo que é o discurso midiático, podemos nos referir à teoria de ator-rede (ANT em inglês), onde um de seus pressupostos descrito por Teixeira (1994:12) discute "o processo de produção e consumo dos conhecimentos científicos e tecnológicos só pode ser apreendido na dinâmica das redes sócio-técnicas, assim designadas, por enfeixarem uma heterogeneidade de fatores e entidades: associações tecnológicas, econômicas, políticas, militares e jurídicas". Nessa linha de argumentação, podemos afirmar que essa "produção não pode ser desgarrada da arte de tecer fios, de enredar aliados".

Então, é importante estender-se este tipo de estudo a outros veículos midiáticos, principalmente à televisão, seja sob a forma da publicidade, seja sob a forma da teledramaturgia, a exemplo de programas como Malhação, ou outros infantis. A análise do discurso midiático deve levar em consideração a teoria de ator-rede, servindo-se do conceito de redes sócio-técnicas, e certamente ampliará seu(s) o(s) ponto(s) de vista.

O profissional de nutrição não pode estar alheio ao que se passa no mercado midiático, particularmente em se tratando de adolescentes, sob o risco de incorrer numa alienação e num afastamento do público/cliente a quem atende. De nada adianta prescrever dietas, divulgar práticas alimentares saudáveis descontextualizadas da forte influência que o público recebe da mídia. É preciso aproximar-se dessas estratégias midiáticas exatamente para que, junto com o cliente, se possa questioná-las e refletir sobre elas.

Por fim, se não englobamos todo o vasto campo da análise do discurso midiático (produção, circulação e consumo) em razão da exigüidade do tempo para realização desta dissertação, por outro lado fomos obrigados a trabalhar um veículo específico, bem como, a centrar esforços apenas na produção destes discursos.

Esperamos e acreditamos, porém, que este estudo tenha contribuído para a ampliação e aprofundamento da discussão sobre a influência da mídia na formação de novos hábitos alimentares; contribuído para o atendimento de saúde mais integrado ao universo do adolescente; contribuído para subsidiar a implementação de políticas públicas que visem regular a publicidade de alimentos e fiscalização da produção de novos produtos alimentícios e seus rótulos. Consideramos tal estudo como um bom começo. Caso tenhamos conseguido atingir tais objetivos.

 
 
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