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Nogueira, Valeria Aparecida. Reestruturação do setor elétrico: um estudo qualitativo das condições de trabalho e saúde dos eletricitários frente a privatização da CERJ. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. v,108 p.

III

 

 

A FALA DOS TRABALHADORES E A PRIVATIZAÇÃO DA CERJ

 

 

3.1 - Introdução

O presente capítulo tem como objetivo uma discussão acerca da situação dos trabalhadores da CERJ, buscando, perceber a partir dos próprios depoimentos, suas condições de vida e trabalho, tanto no momento anterior como posterior à privatização da dita empresa.

Da sua estatização até o momento da crise do setor elétrico, a empresa passou por contextos políticos e econômicos diferenciados. Com a privatização, muitos trabalhadores foram demitidos da CERJ e, por contingências, se realocaram em empresas que têm seus serviços contratados por esta última, ou seja, acabam realizando a mesma atividade, em empresas que terceirizam seus serviços, ainda que sob condições adversas, seja em termos de condições de trabalho, seja das relações construídas no novo locus de trabalho. É frente a essa contextualização, que buscaremos mostrar os condicionamentos que vieram a ter repercussões sobre o processo de trabalho na empresa. Desse modo, pretende-se fazer uma avaliação, ainda que incipiente, acerca das condições de trabalho, a partir das diferentes inserções destes trabalhadores.

Para alcançar os objetivos propostos, contamos com os depoimentos dos trabalhadores da indústria de energia elétrica que realizam suas atividades laborais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Temos uma quantidade de dados restrita, ainda assim, tentamos, a partir destes dados pessoais, esboçar um perfil dos trabalhadores investigados, levantando alguns dados como faixa etária, escolaridade, experiências anteriores e a forma de ingresso na empresa.

Em seguida, utilizando os depoimentos desses trabalhadores, pretende-se fazer algumas considerações sobre as questões por eles levantadas, confrontando-as com dados e informações obtidas por meio de outras fontes, sejam estas primárias ou secundárias.

 

3.2 - O Esboço de um Perfil dos Trabalhadores Entrevistados

Para atender aos objetivos deste estudo, entrevistamos sete funcionários, sendo dois remanescentes do quadro de efetivos da CERJ, dois pertencentes ao quadro de funcionários da Cooperativa e três funcionários da Empreiteira. Inicialmente, havia sido idealizada a realização de três entrevistas em cada uma destas realidades mas, no caso da CERJ e da Cooperativa, não constavam de seus quadros o encarregado de turma e o eletricista, respectivamente. Portanto, a única categoria que foi possível relacionar nos três contextos, foi a de responsável pelo almoxarifado.

A idade dos trabalhadores entrevistados oscilava entre os 37 e 55 anos, o mais novo e o mais velho respectivamente. Os encarregados de turma entrevistados, tinham 51 e 55 anos, os responsáveis pelo almoxarifado tinham 37, 47 e 49 anos. Os eletricistas tinham 41 e 43 anos.

O maior nível de escolaridade foi encontrado nos profissionais responsáveis pelo almoxarifado; dos três entrevistados, dois possuíam o 3ograu em administração de empresas e o outro, tinha o 2ograu completo, em contabilidade. Dos outros quatro trabalhadores, apenas um concluiu o 1o grau os outros três não chegaram a concluir o 1o grau.

Em relação ao tempo de serviço dos que foram demitidos pela CERJ, o que tinha menos tempo (14 anos e 9 meses) completados aos 51 anos de idade. Já o que tinha mais tempo de serviço na CERJ, ao ser demitido, tinha 27 de casa, com 49 anos de idade.

Do universo dos sete trabalhadores, cinco declararam que seu processo de inserção na CERJ estatal foi através de concurso; os outros dois foi por meio de indicação de algum funcionário da empresa ou por indicação de algum político. Quanto à experiência anterior, dos sete entrevistados, quatro estavam alocados na atividade técnico-operacional de eletricidade; destes, três relataram ter experiência no ramo da eletricidade, anteriormente à admissão na CERJ e um não tinha experiência no ramo. Os outros três, que eram os profissionais alocados no almoxarifado, não relataram experiência no ramo de eletricidade, um possuía o 2o grau em contabilidade e os outros dois 3o grau em administração de empresas. Os de 3o grau, um deles tinha experiência anterior em bancos e o outro era militar.

Quanto ao estado civil, do universo dos sete entrevistados, cinco eram casados, com dependentes, um era divorciado com um dependente e o último era solteiro sem dependentes.

A situação trabalhista desses trabalhadores é tão adversa quanto complexa. Dos sete, um saiu da CERJ sem tempo para que fosse contemplado com a aposentadoria, outros dois até o momento da entrevista, ainda eram funcionários da CERJ, quatro saíram, aposentados pelo INSS até o momento da entrevista, sem a complementação da BRASILETROS, sendo que um destes últimos, não coincidentemente, era o mais velho, tendo comunicado dias após a entrevista, que havia sido homologada sua complementação, por ter completado os 55 anos de idade.

À título de esclarecimento, abaixo citaremos a definição desta complementação salarial e, em seguida, citaremos os critérios de elegibilidade para a complementação salarial por tempo de serviço, segundo estatuto da BRASILETROS.

"O benefício de Aposentadoria por Tempo de Serviço consistirá de uma renda mensal vitalícia correspondente à diferença entre o Salário-Real-de-Benefício e o Benefício Previdenciário" (BRASILETROS, 1998, p. 40)

"A elegibilidade à aposentadoria por Tempo de Serviço começará na data em que o Participante ativo, atender às seguintes condições:

    1. ter, pelo menos, 55 (Cinqüenta e cinco) anos de idade, no caso dos Participantes inscritos na Fundação após 23.01.1978;
    2. estar recebendo uma Aposentadoria por Tempo de Serviço pela Previdência Social;
    3. Contar, pelo menos, com:

    1. 15(quinze) anos de contribuição à Fundação, no caso dos Participantes não Fundadores."(BRASILETROS, 1998, p. 40).

A existência de três realidades bastante adversas, de desligamento e reinserção no mercado de trabalho, trouxe algumas dificuldades para a análise dos dados; entretanto, tal característica ajudou-nos a ampliar nossas possibilidades de análise e discussão dos elementos relativos às problemáticas em questão.

Para efeito de melhor exposição, as falas dos trabalhadores foram organizadas e agrupadas segundo os aspectos que se pretende abordar: O processo, as condições e as relações de trabalho, segundo as diferentes inserções em que este trabalhador se encontra - cooperativa, empreiteira ou CERJ. Por fim, levantaremos a visão destes trabalhadores sobre a privatização e quais foram as principais implicações que esse processo desencadeou sobre suas vidas particulares e profissionais.

Entretanto, para uma melhor compreensão desse quadro, é imprescindível uma breve contextualização da CERJ, segundo o aspecto que estiver sendo abordado. Deste modo, serão feitos alguns comentários sobre como a realidade de trabalho na CERJ estatal, que foi uma realidade comum a todos os trabalhadores entrevistados, para que em seguida seja feito um contraponto com a realidade da CERJ privatizada segundo as diferentes inserções destes trabalhadores.

 

3.3- O processo de inserção na CERJ estatal

A partir do questionário aplicado, constatamos que, dos sete entrevistados, cinco mencionaram que a forma de admissão na empresa foi por meio de concurso e os demais afirmaram que foi a partir da indicação de algum funcionário interno ou por apresentação de algum político, que tornasse possível a realização dessa prova.

"Você fazia uma prova praticamente de admissão, só se a pessoa não tivesse a menor condição de entrar que não passava. E era sempre indicado por um funcionário da empresa e indicava e você arrumava uma apresentação por outro político" (Alm. CERJ).

A prática de indicação de candidatos a cargos em empresas privadas e públicas parece ser uma prática comum no Brasil. Mas, o que questionamos é a questão da indicação política, porque, dependendo da forma que esta se dá, pode estar sendo praticado o clientelismo e, portanto, o mal uso do aparelho do Estado, podendo ocasionar deturpações na composição do quadro da empresa.

"As principais conclusões até agora enunciadas referem-se à constatação de que o quadro próprio possui um contingente de empregados administrativos elevado e, principalmente, desajustado em relação às necessidades de serviço, enquanto, na área técnico operativa a insuficiência quantitativa é flagrante"(SECIERJ,1988, p. 32).

Em complementação à essas assertivas, o trecho de um documento apresentado pelo STIEEN, datado de 1995, alega que os maus resultados econômicos e financeiros que a CERJ apresentou,

"Decorre de uma gestão equivocada com objetivos eleitoreiros eminentemente danosos (...)um destes erros foi o de desastrosa política de recursos humanos, onde a ausência de critérios para a qualificação dos empregados, promoveu um quadro de inversão de valores" (STIEEN, 1995, p. 1).

Esta inversão de valores, acreditamos que tenha acontecido não só no momento da admissão, como também na demissão, o aspecto que será discutido posteriormente. Neste momento, para concluir sobre a questão da inserção dos trabalhadores na CERJ, ressaltamos, que mesmo antes de começar os rumores da privatização, a empresa passava por uma dificuldade no seu quadro de funcionários, porque, apesar de estar contando com um número crescente no quadro de efetivos da empresa, estas contratações não estavam sendo destinadas ao serviço de eletricidade e sim para a área administrativa.

Esta distorção do quadro de funcionários pode levar também a uma extensão da jornada de trabalho, porque: "O quadro próprio possui um contingente de empregados administrativos elevado e, principalmente desajustado em relação às necessidades de serviço, enquanto na área técnico-operativa a insuficiência quantitativa é flagrante, o que contribui para elevado percentual de horas extraordinárias. Agrava esse fato o perfil etário muito elevado e, especialmente em algumas carreiras técnicas. A inexistência de uma política de recursos humanos clara e conduzida com continuidade ao longo dos últimos anos resultou num elevado número de ações trabalhistas. (Secretaria de Estado de Indústria e Comércio do Estado do Rio de Janeiro, 1988, p. 32). Na época da publicação deste documento (1988), a CERJ atendia a 47 municípios, numa área de aproximadamente 72% da extensão do Estado, sendo que a área que abrange a Região Serrana e a Região Oceânica tem como característica a sazonalidade do consumo.

ANO

EMPREGADOS

CONSUMIDORES

CONS/EMP.

1980

5083

614.353

120

1981

5113

647.681

126

1982

5539

688.082

124

1983

5436

728.576

134

1984

5345

776.976

145

1985

5192

834.775

160

1986

5169

899.923

174

1987

5094

936.395

183

Quadro V - Demonstrativo distribuição consumidores/ Empregado 80/87
Fonte: Secretaria de Estado de Indústria e Comércio do Estado do Rio de Janeiro, 1988


No quadro acima encontram-se dispostos o número de empregados que a CERJ dispunha no período de 1980 a 1987. Neste período, percebemos que, já no ano de 1982 a CERJ contava com 5539 empregados, com uma relação de 124 consumidores por empregado. Mas, esta relação consumidor/ empregado não supõe uma proporcionalidade, ou melhor, o aumento da demanda não foi acompanhada de um aumento da mão de obra que atue na área afim, ou seja, na prestação de serviço de energia elétrica.

Para atender a essa extensa área de concessão, a CERJ, no ano de 1987, contava com 5094 empregados, o que contabilizava 183 consumidores para cada empregado. Já em março de 1988, a empresa, atinge o pico em relação ao número de empregados que contabilizam 7432 empregados sendo que destes, 2032 eram terceirizados (SEICERJ, 1988).

Até o ano de 1987, as estatísticas não contabilizaram, separadamente, o número de empregados próprios e a quantidade de mão de obra subcontratada. No primeiro quadro, não ficou especificado quantos trabalhadores pertenciam ao quadro de efetivos e quantos eram contratados por terceiros, esta estatística só foi encontrada em relação ao mês de março do ano seguinte, ou seja em 1988. Em um outro documento da empresa, é que estes dados foram apontados.

CARACTERIZAÇÃO

Empregados

%

Pessoal Próprio

5.062

68,11

Pessoal Contratado

2.032

31,89

Total

7342

100,00

Quadro VI - Empregados Próprios e Terceirizados - Março de 1988
Fonte: CERJ, 1988

Contudo, o quadro evolutivo da composição da empresa, sofre alterações com o decorrer do tempo, mas, é em meados da década de 90, com a privatização sendo defendida por alguns setores, que mais se sente o impacto na política de recursos humanos da empresa, em uma série de demissões são efetuadas. Do ano de 1994 para 1995, são homologadas 1139 demissões. Não foram encontrados dados relativos a relação entre consumidores por empregados entre os anos de 1989 até 1991. Somente a partir do ano de 1992 é que encontramos esses dados, expostos a seguir.

ANO

N.º de Empregados

Consumidor/ Empregado

1992

5585

183

1993

5806

197

1994

5758

206

1995 (1)

5720

210

(1)Os dados são referentes à posição de junho/95
Quadro VII - Evolução Empregados / Consumidor 92/95
Fonte: Cia. de Eletricidade do Estado do Rio de Janeiro, 1996.


"Em outubro de 1995, o número de empregados era 5.167. A empresa face aos seus novos objetivos, tem como meta a redução do custo com pessoal. Estima-se o aumento da relação consumidor/ empregado, até a privatização, para 300" (CERJ, 1996, p. 46).

Do ano de 1996 em diante não encontramos dados oficiais a respeito do número de empregados que, hoje, fazem parte do quadro de efetivos da CERJ privatizada. Os dados que dispomos a esse respeito são resultantes de relatos do próprios trabalhadores que ainda são efetivos da CERJ, segundo os quais, estima-se que atualmente a Companhia conte com cerca de 3% de funcionários efetivos da área operacional. Hoje a grande maioria das turmas que atuam na área de eletricidade no Rio de Janeiro são de empreiteiras e cooperativas.

Analisando esse cenário, podemos concluir que uma série de conseqüências poderão estar presentes na vida dos trabalhadores a partir da privatização. A seguir, pretendemos problematizar algumas destas, iniciando com a questão do ritmo e da jornada de trabalho.

 

3.4 - O Ritmo e a Jornada de Trabalho.

Na CERJ Estatal

Do universo dos sete entrevistados, somente um alegou, que por contingência do cargo que exercia (cargos de chefia de regional, ou cargos de confiança), era difícil ter um horário fixo e que o seu ritmo de trabalho era mais intenso. Os outros seis descreveram a jornada e o ritmo de trabalho na CERJ estatal, classificando-os como normais, iniciando às 07:30 e finalizando às 17:18 horas. Os trabalhadores entrevistados

"A jornada de trabalho ... eu passei várias fases na CERJ, normalmente o horário era o horário de expediente normal, ou seja de oito às cinco horas, mas em função do cargo não tinha um horário fixo" (Alm. Coop).

"O ritmo de trabalho [era] normal, não era aquela correria, era tudo normal" (Eletr. Emp.).

Cabe salientar que alguns dos trabalhadores abordados alegaram que realmente faziam horas extras, mas que, ainda assim, o ritmo do trabalho da CERJ estatal não era tão intenso se comparado com a atual realidade destes trabalhadores na iniciativa privada.

De seis trabalhadores, dois alegaram que seus ritmos de trabalho na CERJ estatal, oscilavam entre o calmo e o mais "puxado", quando da entrada e saída de material e em momentos de eleição, em que o número de obras a serem realizadas aumentavam.

"O trabalho no almoxarifado depende da situação. Às vezes tem muito movimento, muita saída de materiais das obras que eram feitas na época, então precisava sair bastante materiais. Ainda maisem campanha política, tinha que correr, mas aí tem época que é normal, serviço de arrumações, de receber materiais, de saída normal e tem época que aumentava, tinha que fazer hora extra também (Alm. Coop.).

Um outro trabalhador mencionou que:

"Às vezes intenso, às vezes leve. A gente fazia manutenção, então não era sempre que tinha serviço pesado, mas tinha vez que fazia." (Enc. Coop.)

Na CERJ privatizada

A intensificação da jornada de trabalho se deve ao fato de ter havido um enxugamento no quadro de funcionários, o que acarretou a eliminação de muitas turmas da CERJ. Entretanto, essa intensificação do ritmo e da jornada é sentida não só pelos que vão para a rua atender às reclamações; os trabalhadores do setor de almoxarifado também sentiram muito e o responsável por este setor enfatizou que, antes da CERJ ser privatizada, ele ainda não chefiava o almoxarifado, a empresa trabalhava com uma média de cinco empreiteiras; e hoje, o número de empreiteiras é sete vezes maior que anteriormente.

"O meu trabalho hoje é coisa de maluco. Eu trabalho com uma velocidade que talvez o serviço que eu faço em uma semana, antes (da privatização) era feito em um mês, em compensação, isso tá trazendo transtorno pra minha saúde. Porque é uma quantidade excessiva de material que entra e sai, uma rotatividade muito grande, uma responsabilidade imensa...." (Alm. CERJ)

O eletricista abordado alegou que, antes da privatização, ele fazia parte da turma da linha viva, ou energizada. Neste setor, o serviço é sempre programado, então, quando se saía do CDN - Centro de Distribuição de Niterói - já se sabia tudo o que deveria ser realizado durante o dia.

"Ritmo de trabalho, p’ra mim, aumentou à beça. Porque eu trabalhava num ritmo programado. Você saía sabendo o que ‘tá fazendo. Hoje não. Hoje você realmente tem muito trabalho. Chega no final da jornada, eu ‘tô realmente cansado, porque é muito trabalho mesmo"(Eletr. CERJ).

Com o processo de privatização da CERJ, houve uma diminuição considerável do quadro de efetivos da empresa. Para que essa redução fosse realizada, muitos trabalhadores foram demitidos e os que já tinham aposentadoria, na época da reestruturação da empresa, tiveram seus contratos de trabalho cassados. Como a realidade econômico-financeira no País estava bastante difícil, muitos trabalhadores, depois de demitidos, tiveram que se reinserirem no mercado de trabalho, através das Empreiteiras e Cooperativas que prestam serviço de eletricidade à CERJ.

Em outras palavras, as adversidades, quanto à jornada e ao ritmo de trabalho, começam a ser mais presentes após a privatização, onde como mencionado anteriormente, se ramifica, a partir da reinserção diferenciada no mercado de trabalho , seja em empreiteiras seja em cooperativas. Vejamos cada uma dessas realidades.

 

Nas Cooperativas

A realidade na Cooperativa é diferente da realidade das Empreiteiras, pelo menos para os trabalhadores que são os associados. A Cooperativa é uma empresa formada por ex-trabalhadores da CERJ que, depois de serem demitidos, se reuniram para formar uma empresa. O capital para os investimentos foi levantado com recursos destes próprios trabalhadores. No início da implantação da Cooperativa, eram 50 sócios-fundadores. Além destes 50 sócios, haviam outros trabalhadores que não os eram e apenas faziam parte do quadro de funcionários.

Mas, como a Cooperativa passou por problemas administrativos, muitos associados foram se desligando. Para os associados, como eles mesmos denominam, há uma ‘certa’ possibilidade de autonomia para fazerem seus próprios horários; ainda assim eles reclamam de uma intensificação da jornada.

"É mais intenso, é mais intenso."(Enc. Coop.)]

"Não, não, meu [ritmo de trabalho] é bem diferente no caso. Mas, em termos de almoxarifado, aqui é bem calmo, bem diferente." (Alm. Coop.)

Este último depoimento é da pessoa responsável pelo almoxarifado, que é um associado, ele tem a possibilidade de fazer seu horário, algo bem diferente de quem não é associado ou ainda dos que estão trabalhando na rua. Porém, mais adversa ainda é a realidade dos trabalhadores que se realocaram em empreiteiras. Estes sim mencionam uma maior intensificação do ritmo e da jornada de trabalho.

Nas Empreiteiras

A intensificação da jornada e do ritmo de trabalho é, pois, bastante sentida e mencionada pelos trabalhadores que se reinseriram nas empreiteiras, ou empresas que contratam mão de obra para realizar serviços de eletricidade.

"Minha jornada aqui, meu horário, é bem carregado. Eu, se fosse contar o tempo que eu trabalho aqui, eu acho que, em vez de um ano e meio, um ano e três meses, seria uns dois anos, p’ra três anos.(...)]Eu sempre chego aqui de 06:30 ...todo dia. Sábado também e domingo também. Então, é uma jornada bastante pesada."(Alm. Empr.)

"Se trabalha mais do que eu trabalhava na CERJ. Trabalha muito mais. É um trabalho mais movimentado, mais pesado que a gente tem que fazer, tipo dar produção." (Eletr. Empr.)

Atualmente, essa intensificação da jornada se justifica pelo trabalho por produção. Ou seja, a produtividade do funcionário é que vai determinar seu salário. Isso é mais presente nas empreiteiras e cooperativas. Ou melhor, conforme exposto no capítulo II, a terceirização dos serviços desobriga a empresa contratante da mão de obra a uma série de direitos que complementam o salário, ao mesmo tempo em que as empresas que contratam essa mão de obra pagam salários bem mais baixos, principalmente em relação aos trabalhadores que eram da CERJ, onde a diferença dos salários é gritante. Por isso, essa redução do salário, faz com que o trabalhador tenha que trabalhar mais, produzir mais para tentar equilibrar essa diferença.

"Nós pegamos de sete hora, o horário é até 17:30, mas sempre passa... Praticamente tem hora de pegar, mas não tem hora de largar (...). É mais puxado. Bem mais puxado"(Eletr. Emp.).

"Hoje ...o chefe liga dizendo que você tem que fazer, tem que concluir...se o seu horário de expediente não der p’ra fazer, você avança o seu horário de expediente e tem que fazer. Se você não concluir, ‘tá fora. Essa é a política da empresa hoje e não se paga hora extra. Você pode trabalhar, estender o seu horário e não te pagam hora extra"(Alm. CERJ).

Podemos chegar à conclusão que, independente da inserção que se tem no mercado de trabalho no setor de energia elétrica - seja na atual empresa concessionária do serviço, seja nas empreiteiras ou cooperativas - assinalou-se, frente aos depoimentos destes trabalhadores, que o pós-privatização está sendo marcado por uma intensificação do ritmo e jornada, sem que isso venha a significar algum tipo de vantagem, ou remuneração para o trabalhador. Em um outro momento da conversa o trabalhador acima citado acrescenta que:

"Quer dizer, eles implantaram um ritmo frenético, eles tiraram muitos funcionários da empresa e terceirizaram muitos serviços. Dessa terceirização, eles tem hoje uma média de 35, 40 empreiteiras trabalhando. Então, você atender todos essas empreiteiras, mais o seu serviço da regional, realmente ficou muito puxado" (Alm. CERJ).

Sobre essa intensificação da jornada e do ritmo de trabalho, conseqüente do processo de reestruturação produtiva atualmente utilizado pelas empresas, alguns autores apresentam argumentos enfatizando, inclusive, o fato do não pagamento das horas extraordinárias.

"A reestruturação produtiva trouxe também o prolongamento da jornada de trabalho, geralmente com a não remuneração desse tempo, mesmo no centro da produção, as modernas indústrias (...). No trabalho precário, a questão tende a ser mais forte, por que ela se dá independentemente desses programas [de CCQ’s e TQC’s], prevalecendo o velho estilo que alia a subremuneração a longuíssimas jornadas de trabalho."(Buonfiglio, 1995, p. 7).

Esta citação é contundente ao avaliar as conseqüências do processo de reestruturação sobre as condições de trabalho. Entretanto, há que se salientar que essas conseqüências estão também presentes em outros aspectos, como por exemplo, quanto aos treinamentos e qualificação direcionada aos novos profissionais que se inserem no mercado. Assim, pretendemos em seguida, discutir a questão da qualificação profissional segundo as diferentes realidades de trabalho dos eletricitários da CERJ.

 

3.5 - Qualificação Profissional

Como exposto anteriormente, todos os trabalhadores entrevistados tinham mais de dez anos de serviço prestado à CERJ. Deste universo, de sete trabalhadores do setor energético, quatro, aos serem admitidos, já tinham alguma experiência no ramo.

Mas, independente de ter ou não experiência anterior, todos passaram por processos de qualificação profissional. Uma ressalva há que ser feita. Os trabalhadores da área técnica e operacional sempre tiveram mais oportunidades de qualificação. Os trabalhadores entrevistados que eram da área administrativa, alegam que até faziam cursos, mas que maior atenção era dada aos envolvidos com a eletricidade.

O serviço em rede e linha de distribuição de energia elétrica, frente à sua natureza complexa, requer muito preparo para lidar com o perigo constante e em iminência, principalmente em se tratando de serviços realizados com a linha energizada. Esse elemento complicador (a periculosidade) é o substrato de vários questionamentos, em termos de qualificação, das instalações, dos equipamentos de segurança e das exigências e pressões que estes trabalhadores presenciaram e ainda presenciam.

A Qualificação profissional na CERJ estatal

A maioria dos trabalhadores entrevistados (cinco) quando o assunto era treinamento e qualificação, prontamente mencionaram o Centro de Treinamento da CERJ, localizado na Cidade de Macaé, Norte Fluminense. Os profissionais da área técnico-operacional, até por conta da complexidade que envolve o trabalho em eletricidade, realizaram muitos cursos. Ou seja, os demitidos, ou desligados da empresa, formavam o que o sindicato da categoria denomina a memória técnica da empresa. Vejamos os depoimentos e, em seguida, o que alguns autores falam sobre a qualificação profissional e as implicações dessa perda de memória técnica.

"Treinamento, existia. Cursos, mais cursos. Fiz mais ou menos uns 8 a 10 cursos" (Enc. Coop.).

"É, existia lá na empresa anualmente um calendário de treinamento, em que você indicava os funcionários que estariam habilitados para determinado cursos..." (Alm. Empr.)

"Há muito tempo que não tem treinamento nenhum, de combate a incêndio, que era uma coisa que fazia todo ano, não tem mais. Mas eu já fiz vários cursos na CERJ, eu fazia treinamento, ..., sempre tinha treinamento, sempre tinha palestra com o inspetor de segurança, médico do trabalho e, de dois anos p’ra cá, não tem mais nada disso. A gente sente até falta e muita falta." (Eletr. CERJ)

"É, sistema de treinamento mesmo....geralmente era no Centro de Treinamento, lá tinha treinamento p’ra eletricista, tinha p’ra almoxarife. Tinha [para] diversas qualificações, então era no Centro de Treinamento" (Alm. Coop.).

"... se era eletricista, por exemplo, de rede, fazia uma vez, depois você [fazia] qualificação p’ra encarregado. Depois, eu fiz também primeiros socorros, depois fiz medicina do trabalho, fiz diversos cursos. De vez em quando, tinha treinamento lá de primeiros socorros, de descer do poste, primeiros socorros mesmo,..., era quase de rotina, anualmente tinha" (Enc. Empr.).

"Ela tinha o Centro de Treinamento lá em Macaé. Fazia treinamento lá. Depende do curso ,levava um mês, às vezes, dois meses. Para o curso de linha viva levava mais, era um curso mais longo. Eu, pelo menos, já fiz curso lá umas três ou quatro vezes" (Eletr. Empr.).

A referência dos trabalhadores, em termos de treinamento e qualificação profissional, é direcionada ao Centro de Treinamento em Macaé. Mas, essa atenção toda especial dispensada aos trabalhadores da área técnica, ou seja, para os que lidam diariamente com os serviços de eletricidade, desperta um certa insatisfação dos funcionários da área administrativa. Um dos funcionários que era da área administrativa na CERJ e continua na área administrativa, só que na Empreiteira, reclamou pela falta de atenção a estes trabalhadores.

"Ela dava mais ênfase p’ra área técnica, mas, mesmo assim, [de] forma que poderia ser até bem melhor. Mas, de qualquer maneira sempre foi muito mais bem vista do que a área administrativa." (Alm. Empr.)

Independente de ser da área técnica ou da área administrativa, é certo que essa mão de obra era qualificada. Essa memória técnica qualificada não se encontra mais na CERJ. Isto traz como conseqüência vários aspectos. Primeiramente, foi um investimento que a empresa fez, mas que, ao fim do processo, não soube dar a estes trabalhadores a consideração pela qualidade do trabalho. Outro aspecto refere-se à desqualificação desta categoria, que está sendo vivenciada, por conta do processo de terceirização dos serviços, tendo como conseqüência, segundo a visão destes trabalhadores, o aumento do número de acidentes e a queda na qualidade da prestação do serviço ao consumidor.

Quanto ao aspecto da memória técnica da empresa, das pessoas que ajudaram a construir a história da CERJ, vejamos o que alguns autores têm a dizer:

"A memória técnica da empresa são os funcionários. Eles sabem os detalhes de cada coisa, os recursos de criatividade. Não adianta escrever isso no papel e demitir o funcionário. O substituto, sobretudo nesse esquema terceirizado, jamais vai ter o desempenho daquele com longos anos de prática e amor pela empresa. O funcionário é um arquivo, ele veste a camisa da empresa, enquanto o terceirizado, não" (Carlos Santana APUD Mineiro, P., 1998, p. 31).

"Em documento divulgado durante a Audiência Pública, o CREA-RJ denunciou os serviços caóticos que vêm sendo prestados pela Companhia. O Conselho aponta a redução maciça do quadro de pessoal (inclusive de técnicos da área de manutenção) como a causa da deterioração dos serviços da CERJ. A empresa, no afã de maximizar lucros, demitiu em massa, liquidando com sua memória técnica, sem se preocupar com a queda da qualidade dos serviços prestados" (CREA-RJ, 1998, p. 06).

A citação acima foi extraída de uma revista de circulação restrita, mas que denota uma preocupação com a realidade do setor elétrico no Rio de Janeiro, principalmente na Região Metropolitana do Estado que é atendida pela CERJ. A queda na qualidade dos serviços prestados por esta empresa causou muitos prejuízos aos consumidores. Nos jornais de circulação popular, as reclamações eram muitas e com certa constância. A ineficiência do serviço tem suas raízes também no processo de qualificação e treinamento da mão de obra, mão de obra essa que não mais pertence, em sua grande maioria, à CERJ, e sim às empreiteiras, consonante com um processo de terceirização intensificado e, segundo esse documento do CREA, irresponsável.

O pretenso objetivo, a seguir, é o de esboçar uma contextualização da realidade de trabalho em termos de qualificação e treinamentos nas empresas que prestam serviço à CERJ, iniciando com a empreiteira, em seguida, na cooperativa e, por fim, como está essa situação na CERJ privatizada.

A qualificação nas Empreiteiras

Os funcionários que faziam parte do quadro de efetivos da CERJ e que foram desligados da empresa, ao se reinserirem no mercado, o foram com uma grande bagagem em termos de qualificação e treinamentos oferecidos pela CERJ. Na empreiteira analisada, o trabalhador que entra, conta com um curso introdutório, de como subir no poste, como montar um poste, enfim, ensinamentos básicos. Apesar de serem oferecidos, os cursos não são tão bons, quantitativa e qualitativamente, como os da CERJ. Os que já estão na empreiteira há algum tempo, não contam com cursos de qualificação ou reciclagem profissional.

"Eu acho que a mão de obra piorou. Eu acho que piorou muito porque o pessoal é menos qualificado, sabe? Acho que piorou muito por causa disso, porque essas pessoa que vêm e trabalha em empreiteira, eles vêm, não tem qualificação" (Enc. Empr.).

"Eles tinham que fazer uma seleção e preparar mais o eletricista, porque hoje, na empreiteira, eu não sei se ‘tá assim. Mas, logo quando privatizou, o cara era cozinheiro e entrava como eletricista, trabalhava comigo e ele não sabia nem pegar no alicate, aí eu perguntei a ele: Vem cá, tu trabalhou de eletricista aonde? Ele disse: Não, eu, eu não sou eletricista, eu era cozinheiro da marinha, ‘tô de licença prêmio e aí ‘tô trabalhando. Agora, o que acarreta isso? Salário, né. Salário da empreiteira é pequenininho, então, o cara diz que é eletricista, não quer nem saber se o cara tem na carteira" (Eletr. CERJ).

"Então, bota essas pessoa que não sabe fazer. Às vezes, deixa sem luz, chama outro p’ra ajudar, entendeu. Então, muitos que não estão preparado e vem a acontecer um negócio qualquer. Tem pessoas que não sabe se tem que abrir uma chave ou não. Aí na Empreiteira, tem pessoa que queimou em alta tensão, às vezes vai pegar um poste, deixa esbarrar na rede, tudo isso. Não tem aquele preparo" (Eletr. Empr.).

Façamos um contraponto desses depoimentos com o que Antunes (1997) e Buonfiglio (1995) argumentam sobre esse processo de reestruturação produtiva que as empresas vêm empreendendo.

"...Vivencia-se também uma subproletarização intensificada, presente na expansão do trabalho parcial, temporário, precário, subcontratado, ‘terceirizado’, que marca a sociedade dual no capitalismo avançado(...). Há, portanto, um processo de maior heterogeneização, fragmentação e complexificação da classe trabalhadora" (Antunes, 1997, p.p. 42-43).

"A reestruturação produtiva tem um significado bem mais amplo que um rearranjo na produção, pois atinge diretamente os trabalhadores, as relações de trabalho estabelecidas, as conquistas obtidas em mais de um século e meio de lutas, os sindicatos. Em nome da qualidade, da modernidade, hoje cortam-se empregos, benefícios, estabilidade ou qualquer promessa de carreira ou emprego certo, prolonga-se a jornada de trabalho, freqüentemente sem remuneração, promove-se o salário variável que, em períodos de crise, significa perdas (...) florescem a subcontratação, o emprego precário que são acompanhados por piores condições de trabalho e de remuneração (...). A fragmentação dos trabalhadores, é ainda maior, o que favorece o individualismo, a diversidade de situações de interesses. E tudo em nome da ‘Qualidade’".(Buonfiglio, 1995, p. 5)

 

Na Cooperativa

Nas cooperativas, assim como nas empreiteiras, os trabalhadores enquanto eram do quadro da CERJ estatal, participaram de cursos de qualificação e aperfeiçoamento técnico. Pode-se dizer que estes profissionais são qualificados, entretanto, o mesmo não podemos dizer dos funcionários da cooperativa que, pela primeira vez se inserem no ramo da eletricidade. Como já mencionado na metodologia, nas cooperativas não existem eletricistas que tenham sido funcionário da CERJ estatal. O encarregado de turma da cooperativa alegou que quando existem mudanças nos procedimentos, a própria CERJ privatizada, se encarrega de fornecer pequenos treinamentos aos eletricistas, mas não são realizados cursos de atualização para os encarregados nem para o responsável pelo almoxarifado.

"Faz, esse pessoal da parte elétrica, vai lá [na CERJ], principalmente esse pessoal novo que entra, não conhece" (Alm. Coop.).

"Não, por enquanto não. Tem o conhecimento que nós viemos da CERJ" (Enc. Coop.).

Entretanto, a realidade dos que continuam na CERJ privatizada, pelo menos em termos de ritmo e jornada de trabalho, bem como de qualificação e treinamento não é muito diferente da situação dos trabalhadores de cooperativas e empreiteiras. A seguir, vejamos como estão o treinamento e a qualificação dos que ainda continuam na empresa.

 

Os remanescentes da CERJ privatizada

Um dos trabalhadores que continuam na CERJ, hoje privatizada, coloca muito enfaticamente essa questão da qualidade da mão de obra que a empresa dispõe atualmente.

"A mão de obra que eu tenho trabalhando hoje comigo é terceirizada e de péssima qualidade. A ordem que eu tenho aqui, como chefe de setor, é quem escreveu não leu, manda embora, manda vir outro (...) Eles não estão preocupados com qualidade, eles querem quantidade, qualidade eles não são nem aí.(...) A empresa fornecia cursos de aperfeiçoamento no setor. E hoje não existe mais isso, entendeu? Não existe mais curso de aperfeiçoamento, onde que ‘tá ocorrendo diversos acidentes por a pessoa não ter a noção do perigo com que trabalha."(Alm. CERJ)

Pode-se constatar, frente aos depoimentos dos trabalhadores entrevistados que, ao se referirem às conseqüências da privatização, da forma como foi feita, quando não alegaram ter havido uma intensificação da jornada e do ritmo de trabalho, enfatizaram a perda da qualidade do serviço prestado ao consumidor. Entretanto, essa realidade não foi apenas vivida na CERJ, nem só no Rio de Janeiro. Outras companhias estaduais também passaram por reestruturações, como é o caso da CEMIG, apesar desta não ter sido privatizada. A terceirização e o enxugamento da empresa também foi uma diretriz implantada pela CEMIG, que é uma das maiores e mais produtivas indústrias de energia elétrica do país.

"A CEMIG competitiva significa levar a empresa a oferecer um produto e serviços de qualidade, ter lucro, ser uma empresa ‘enxuta’. Neste contexto, vale lembrar que do ponto de vista da gerência da empresa, ela se sente também ameaçada com a privatização global da mesma" (Aranha & Cunha, 1996, p. 93) .

Aranha & Cunha (1996), em um texto dedicado a analisar os principais elementos do processo de reestruturação da CEMIG, sob o ponto de vista de seus trabalhadores, deixa bem claro como foi o processo de terceirização na CEMIG.

"Uma realidade angustiante para uma enorme parcela dos trabalhadores da Cemig tem sido o aluguel de mão de obra, através de empreiteiras prestadoras de serviço, que na verdade apenas intercediam a mão de obra. Esses trabalhadores, embora possuam a mesma jornada de trabalho e cumpram as mesmas ordens dos gerentes da Cemig, não possuem os mesmos direitos dos trabalhadores efetivos da Empresa. Este fato, aliado à falta de treinamento adequado desses profissionais, tem resultado em constantes e graves acidentes de trabalho(...)" (Aranha & Cunha, 1996, p.p. 117-118).

A defasagem dos treinamentos para a mão de obra sub-locada, traz conseqüências negativas, resultando em problemas para o trabalho conjunto. Aranha e Cunha (1996) apontam esta questão de forma clara.

"O tipo de serviço prestado cria dificuldades; de qualidade inferior ao prestado pela CEMIG, muitas vezes implica em retrabalho, o que contradiz os pressupostos da QTC" (119).

Em seguida, estas autoras se referem ao depoimento de um trabalhador da CEMIG, que comprova essa realidade.

"Por que o serviço é de pior qualidade, desmerecendo a mão de obra do trabalhador que foi qualificado para aquilo, que foi treinado, foi burilado para aquilo na Escola de Sete Lagoas. Então depois colocam um terceiro p’ra poder fazer aquilo que ele faz e com uma péssima qualidade. Quem perde com isso é o consumidor e a própria empresa (Eletricista 2)" (Aranha e Cunha, 1996, p. 119).

No caso específico da CERJ privatizada, já foram colocados alguns depoimentos de trabalhadores das três inserções, que alegam ter havido perda da qualidade da prestação de serviço, por conta da falta de critérios na seleção dos que pretendem ingressar no ramo de distribuição de energia elétrica.

Sumariamente, pode-se considerar que as condições adversas de reinserção no mercado de trabalho, acabam por trazer à tona vivências convergentes, ou seja, realidades de trabalho bem parecidas. Ou melhor, independente da empresa em que se está inserido, constata-se não só o aumento do ritmo e da jornada, como também de uma defasagem no processo de qualificação dos eletricitários.

A qualificação é um passo primordial para o processo de conscientização destes trabalhadores sobre o seu processo de trabalho, principalmente se levarmos em conta o caráter de periculosidade a ele inerente. Nosso foco de atenção está sendo direcionado às condições de trabalho na CERJ, nos momentos anterior e posterior à privatização da Empresa. Desse modo, a seguir, pretende-se levantar como estava a situação dos estoques no almoxarifado da CERJ estatal, no período da privatização e posteriormente a ela. Neste último momento, pretendemos fazer um contraponto com a realidade das empreiteiras e cooperativas.

3.6 - Materiais e Ferramentas de Trabalho

As características de precarização das condições de trabalho com o processo de privatização da CERJ também pode ser avaliado frente ao sucateamento na empresa, quanto aos materiais de reposição e conserto, viaturas e também de suas instalações. Estas situações podem ser observadas também mediante o depoimento dos trabalhadores.

 

Na CERJ estatal

Em primeiro lugar, destaca-se que, a falta de material só foi relacionada por um trabalhador, com referência a morosidade do processo burocrático da CERJ estatal. Ou seja, o problema é mencionado por um dos trabalhadores entrevistados, justamente o que havia sido responsável pelo setor de compras na CERJ estatal. Ele atribui a falta de material de então, ao processo burocrático que se tinha que empenhar para que reformas, melhorias, construções e aquisição de equipamentos e materiais fossem realizadas. Ou seja, todo pedido de compra devia passar pelo aval de alguns setores até chegar ao Tribunal de Contas do Estado, para que a verba fosse liberada. Ele relaciona a falta de material como a falta existente no período entre o pedido de verba, as licitações e as compras. Em seu depoimento, ele enfatiza que:

"Eu ‘tava prestando serviço p’ra CERJ e tem falta de material e não vai acabar nunca, vai sempre faltar, porque o número de itens do estoque é muito grande, você pode ter um exemplo de mil itens, um entre mil que falte, é um item fundamental e vai criar problema em toda parte, em todo material que existe no estoque. Nem sempre a culpa era da CERJ, de fato, era a morosidade que existia no processo, por conta da morosidade que existia porque, por ser estatal, tinha essa dificuldade. Hoje, por exemplo, não teria tanto problema, porque não existe nada que impeça uma compra ágil na CERJ. Então, era por isso que existia essa demora na reposição do material" (Alm. Empr.).

Em um documento da CERJ, que faz um histórico e mostra as perspectivas da empresa, esse aspecto também é mencionado:

"Um dos grandes problemas que vem afetando o desempenho da CERJ nos últimos meses decorre da situação de esgotamento dos seus almoxarifados conjugada ao processo para aquisição de materiais, cuja dinâmica é lenta. A partir da emissão de um pedido hábil costuma decorrer 140 dias até a chegada do material, tendo-se, em alguns casos que aguardar ainda os prazos de entrega dos fornecedores. A demora decorre da incompatibilidade do funcionamento da empresa concessionária, subordinada às leis estaduais mais concebidas para a administração direta. Apesar disso, um grande esforço tem sido empregado para melhorar a situação" (SECIERJ, 1988, p. 31)

No período, em que as primeiras evidências da privatização tomaram forma, seis dos sete trabalhadores, alegaram ter havido falta de equipamento necessário para a realização dos trabalhos. Com essa possibilidade em vista, a situação começou a mudar. Os períodos precedentes à privatização foram caracterizados pelos trabalhadores como bastante difíceis para se trabalhar. A falta dos materiais, equipamentos e condições precárias das instalações e viaturas foram mencionadas.

"Antes da CERJ privatizada, teve uma época aí que era ruim p’ra caramba, não tinha material nenhum" (Eletr. CERJ).

"Fazia o possível p’ra arranjar material p’ra poder ir p’ra uma obra ali, quer dizer, ‘tava sempre faltando, então a gente procurava, o máximo, aproveitar algum material" (Alm. Coop.).

"Existia muita falta de material. Material de trabalho mesmo. Tinha que ‘tá improvisando tudo, dando jeito em tudo, começou a faltar material" (Eletr. Empr.).

"Que mais incomodava era só as instalações e as viaturas, no final, tudo ruim. No final ‘tava faltando mesmo, alguma coisa não ‘tava tendo mais não. Tanto de segurança como de reposição" (Enc. Empr.).

"Pré privatização, faltou material. Começou a faltar material. Houve falta de material" (Enc. Coop.).

 

Na CERJ privatizada

"Hoje a empresa visa à arrecadação. O interesse maior da empresa hoje é arrecadar. Então, no caso aqui, as condições ‘tão bem precárias em vista do que era, ou seja, esse prédio aqui, é um prédio imenso, existe cerca aqui de umas 20 salas, na verdade só tem uma ocupada, que é essa que eu trabalho aqui. O resto ‘tá tudo desativado por que aqui era uma área operacional e essa área foi toda terceirizada. Quando eles tinham em mente privatizar, eles pararam de comprar. Então a empresa começou a trabalhar num saldo de material muito baixo. Por que a margem de material era uma coisa muito mínima" (Alm. CERJ).

Este mesmo trabalhador colocou uma outra questão bastante importante. A transferência do controle acionário da Empresa por estrangeiros traz à tona o problema do aumento da importação de muitos materiais e equipamentos. Enquanto estatal, a CERJ comprava o material de fornecedores nacionais e hoje, com a privatização, começa a haver a aquisição de muitos materiais importados. Observe o depoimento deste trabalhador.

"A maioria hoje são importados do Chile e são materiais de péssima qualidade. Materiais que ‘tá trazendo uma série de transtornos p’ro pessoal do almoxarifado. Você pega uma caixa, vem dizendo que dentro de cada caixa tem 100, quando você abre e conta, tem 98, 97, nunca vem a quantidade correta" (Alm. CERJ).

Quando a CERJ era uma estatal, isso não acontecia; segundo ele:

"[Antigamente] Não, era a maior parte, 99%, produto nacional" (Alm. CERJ).

Concluímos que a falta de material começa a ter maior vulto com o início do processo de privatização da CERJ. Antes desses momentos complicados, a empresa só tinha problemas com o desguarnecimento do almoxarifado, por conta da morosidade dos processos burocráticos-administrativos entre os períodos de requisição, licitação, compra e entrega desses materiais pelos fornecedores. Entretanto, a questão do uso dos equipamentos de segurança se desmembra em, pelo menos três possibilidades, a real falta desse material, a resistência ao uso destes por parte de alguns trabalhadores e, por fim, pela atual falta de qualificação dos que agora ingressam no ramo e manutenção das linhas de transmissão e redes de distribuição de energia elétrica.

Na Empreiteira

Entre os entrevistados na empreiteira, não houve nenhum tipo de reclamação quanto à falta de material ou equipamento de trabalho. Em compensação, o encarregado de turma colocou a questão da qualidade do material, que, segundo ele, piorou.

"Eles tão querendo melhorar alguma coisa, mas a parte de material é muito pior, completamente diferente. Material de parte elétrica, fio, cabo, mudou, vai ser muito mais fácil de dar defeito" (Enc. Empr.).

A reclamação deste encarregado de turma da empreiteira vem ao encontro do que o responsável pelo almoxarifado alegou. Ou seja, tem havido uma queda na qualidade da mão de obra e também dos materiais. Indubitavelmente, esse contexto de precarização dos equipamentos e mão de obra vem acrescentar mais riscos e cargas ao processo de trabalho na energia elétrica, que já é substancialmente perigoso.

A falta de material coloca, dentre outros resultantes, o problema das condições seguras para a realização do trabalho, que, no caso da energia elétrica, é perigosa por si só. Por isso, as políticas de prevenção de acidentes e de saúde e segurança no trabalho, são aí imprescindíveis. A seguir, pretendemos levantar como está a questão dos equipamentos de segurança, fazendo um contraponto entre as empresas terceirizadas e cooperativas de trabalhadores que prestam serviço para a CERJ privatizada.

 

Equipamentos de Segurança


Na CERJ estatal

Tendo em vista as condições mínimas de segurança no setor em geral pretendemos, agora, ver como os trabalhadores percebem isso, enfocando os equipamentos de segurança e a manutenção destes. Quanto à confirmação ou não da falta de equipamentos de segurança na empresa, no momento anterior a privatização, em termos de EPI (equipamentos de proteção individual), os ex-funcionários da CERJ alegam que isso ela não deixava faltar, a não ser pelo motivo anteriormente exposto, de morosidade na aquisição de material. Entretanto, cabe frisar que essa falta de material é peculiar apenas à época precedente à privatização.

"Não, o equipamento de segurança lá, não é dizer que é ruim não, o equipamento de segurança era bom. Só que, é que muitas pessoas não gostava de usar" (Eletr. Empr.)

"Em relação a isso, eu acho que na CERJ existiam algumas falhas, como é normal. Acho que mais pelo lado do empregado do que propriamente pela empresa.Eu acho que nunca faltou, faltou mas nunca pela constância, é uma falta normal, falta no estoque, aquele espaço entre a falta do estoque e a compra. E às vezes, quando acontecia, com a falta de material. Mas não com muita constância e não de uma forma que viesse a prejudicar o serviço da empresa" (Alm. Empr.).

Os três entrevistados e que eram responsáveis pelo setor de almoxarifado, alegam que o caso deles é peculiar. Por estarem quase que diariamente envolvidos com atividades burocráticas e administrativas, os equipamentos de segurança que mais utilizam, quando utilizam, são as botas com biqueiras de aço, uniforme, capacete e luva. Uma ressalva, no momento da entrevista, os três vestiam roupas comuns, não usavam uniformes das respectivas empresas.

"O equipamento de segurança do almoxarifado é luva, é uniforme normal e bota com biqueira de aço. Por que com biqueira de aço? Que cair um peso em cima do pé da pessoa, não vai machucar" (Alm. CERJ).

"De segurança são, equipamento de segurança, quem usa muito é o pessoal de eletricidade, entendeu?" (Alm. Coop.).

"Durante o ano era fornecido dois jogos de uniformes com seus EPI’s para cada funcionário, sendo que, se deteriorasse antes do tempo, a qualquer instante, poderia ser trocado...Se qualquer um desses componentes se deteriorasse antes do prazo estabelecido, trocaria-se por um novo" (Alm. CERJ).

Os cinco demais afirmaram que, em termos de equipamentos de segurança e do processo de vistoria e manutenção destes, a situação era positiva. A CERJ não tinha problemas quanto à distribuição dos equipamentos de proteção individuais. Anualmente, ou quando necessário, os equipamentos eram encontrados no almoxarifado.

"De acordo com, digamos assim, com os defeitos que surgia, sempre foi substituído por outro. Tanto de uso individual como de uso coletivo" (Enc.Coop.).

"Os equipamentos de segurança na CERJ, p’ra mim que trabalhava na linha viva, toda vida teve equipamento de segurança. Todos os equipamentos. Graças a Deus nessa área nunca faltou material de segurança. Hoje, eu não sei, porque eu ‘tô trabalhando na prontidão. No nosso caso, é luva de 20.000, na prontidão, é especificamente, é o bastão, a vara de manobra, adequada" (Eletr. CERJ).

Este último depoimento é de um trabalhador que continua na CERJ. Quando questionado acerca da manutenção destes equipamentos, ele alegou que hoje em dia, ele não sabe como está a manutenção desses equipamentos. No caso, o equipamento que foi alvo de questionamentos levantados pelo próprio trabalhador, foram as luvas de borracha. Ele ficou bastante preocupado com esta questão e chegou a mencionar a possibilidade de conversar com seu chefe, para saber como está sendo realizada a vistoria destes equipamentos.

No caso das luvas de borracha, testes simples, visuais, diariamente, e com o inflador, periodicamente, podem evitar grandes acidentes e danos. Na linha viva, ou energizada, equipamentos e ferramentas têm elementos isolantes que devem ser preservados e, em hipótese alguma, podem estar expostos à chuvas ou umidade. Ao fim de cada jornada de trabalho, estas luvas devem ser lavadas e secas para a realização do teste visual.

Os depoimentos, a seguir, demonstram como a questão do uso dos equipamentos de segurança pelos trabalhadores é bastante complexa, principalmente em termos de realidade de trabalho em empreiteiras e cooperativas.

 

Na Cooperativa

Os encarregados de turmas têm muita dificuldade em lidar com o problema dos equipamentos de segurança individual, principalmente no caso das luvas. No caso do depoimento acima, o encarregado afirma que há uma resistência para o uso das luvas, principalmente para os que estão entrando agora no ramo.

"Os novos são as pessoas que nunca trabalharam nesse ramo, então, ‘tá se entrosando agora. A gente tem que ficar rebatendo nisso p’ra eles o tempo todo, bota a luva, bota a luva .O capacete usa normal, mas a luva é uma parada, tem que sempre dando em cima" (Enc. Coop.).

As luvas de trabalho para atividades em geral é confeccionada com couro e cobre só a mão, por isso se chama luva de vaqueta. Mas, para a realização de tarefas mais minuciosas na rede, as luvas são de borracha e protegem a extensão do braço e antebraço. Durante o verão, principalmente, os trabalhadores resistem ao uso das luvas, por incomodar bastante. Com o capacete, não se tem esse problema. Isso ocorre também em outros locais, como nas empreiteiras, por exemplo. Mas, não são só os encarregados que sentem essa falta de preparo para o trabalho na eletricidade, que é essencialmente perigoso, os próprios companheiros de trabalho, que foram funcionários da CERJ, vivenciam isso. A questão da resistência às luvas merecem uma maior investigação mais aprofundada, o que, entretanto, não foi possível realizar neste estudo, uma vez que, pelos motivos anteriormente expostos na metodologia, no quadro de funcionários da Cooperativa, não havia nenhum eletricista na cooperativa que tivesse sido trabalhador da CERJ.

"Não adianta você ter o equipamento e não saber usar. É por isso que eu acho importante a reciclagem, o treinamento do pessoal, que não adianta você botar luva, não adianta você botar bastão, não adianta você botar um detetor de corrente se você não ensinar a pessoa a usar" (Eletr. CERJ).

A Cooperativa que estudamos passou por sérios problemas administrativos, onde o desvio de uma grande quantidade de capital, fraudes dentro do próprio grupo de administradores, prejudicou o investimento na expansão de suas atividades. As dificuldades financeiras fizeram com que alguns associados se desligassem. Mas, os que ficaram e que estão na ativa, reclamam da precariedade de alguns elementos importantes, entre eles o equipamento de segurança.

"[Equipamentos de segurança] Existe, um pouco precário mas existe" (Enc.Coop.).

A situação das cooperativas é diferente da realidade das empreiteiras. Nas cooperativas, a grande maioria dos associados, principalmente os sócios fundadores, são ex-funcionários da CERJ e eles têm o conhecimento adquirido por anos de serviço à empresa. Estão, portanto, mais conscientes das características peculiares de seu trabalho e, por terem um número de funcionários bem menor que uma empreiteira, apesar das dificuldades, é menos complicado esse processo de conscientização. Façamos um contraponto com a realidade das empreiteiras.

 

Na Empreiteira

Os trabalhadores que estão trabalhando nas empreiteiras não reclamam da falta de equipamento de segurança, mas questionam a falta de critérios na seleção dos novos empregados e de treinamentos.

"Tem material de segurança. Não vamo’ dizer que não tem, porque tem. Têm até pessoas que não usa, tem pessoas que não têm jeito, não usam mesmo. Não têm aquele preparo" ( Eletr. Empr.).

"Não existe, não pode existir nenhuma reclamação de funcionário com relação a (Empreiteira) S., não pode existir isso, nós fazemos possível para existir um bom ambiente de trabalho" (Alm. Empr).

Quanto à qualidade da mão de obra terceirizada, o responsável pelo almoxarifado acrescenta que:

"É isso, eu acredito que a parte da terceirização, de uma forma não com muito rigor, ou preocupação, pode cair bastante a qualidade da prestação de serviço da CERJ. (...) Com a demissão, demissões de grande parte dos funcionários, ela começou a reciclar ,começou botar um pessoal novo, recém formado, com salário mais baixo, porque, afinal de contas não adquiriu experiência ainda" (Alm. Empr.).

O contexto acima descrito revela um fator de preocupação já que, o serviço em redes de distribuição de energia elétrica, concentram um nível de periculosidade. Desse modo, treinamentos são imprescindíveis para esse processo de conscientização. Já que o assunto é periculosidade, os próprios trabalhadores reconhecem o caráter de periculosidade a que estão expostos e, em alguns casos, de insalubridade presente nos postos de trabalho. Algumas medidas, de cunho legal (normas e legislações que regulamentam o trabalho na energia elétrica) têm como objetivo salvaguardar as condições mínimas de segurança para a execução das tarefas.

A NR-10 é a norma regulamentadora das instalações e serviços em eletricidade.

"Esta norma regulamentadora - NR fixa as condições mínimas exigíveis para garantir a segurança dos empregados que trabalham em instalações elétricas, em suas diversas etapas, incluindo projeto, execução, operação, manutenção, reforma e ampliação e, ainda, a segurança dos usuários e terceiros "(Segurança e Medicina do Trabalho, 1995, p. 96)

Tendo essa citação como referência, passamos, no próximo item, a levantar outros pontos que apareceram na discussão sobre a questão da segurança no trabalho, iniciando com a CERJ estatal.


3.7 - Políticas de Prevenção de Acidentes

Na visão dos trabalhadores entrevistados, o índice de acidentes na CERJ estatal era reduzido. Entretanto, os números divulgados num documento resultante da vistoria

do DNAEE à empresa (1993) traz à luz números bastante preocupantes.

"Examinando o ‘Informativo Anual de Acidentes do Trabalho’ de 1992, constatamos que, ‘no quinquênio 1988/1992, a CERJ registrou 217 acidentes com perda de tempo (acidentes com afastamento do empregado) dos quais oito resultaram na morte do acidentado. Desses, a metade ocorreu quando o empregado dirigia veículo da própria Empresa. Neste primeiro semestre de 1993 ocorreram vinte e cinco acidentes por perda de tempo, sem registro de casos graves ou fatais" (STIEEN, 1993:24).

A fala dos trabalhadores pode ser compreendida na medida em que, paradoxalmente, enquanto empresa estatal de distribuição de energia elétrica, o trabalho, com uma série de cargas e riscos conseqüentes do contato direto com a eletricidade, tinha no trânsito um vilão. O número de acidentes encontrava-se dividido entre os derivados das atividades de construção e manutenção de energia elétrica e os acidentes de trajeto, onde os acidentados dirigiam viaturas da empresa.

Na visão dos trabalhadores, antes da privatização, o número de acidentes era reduzido e isso poderia ser em conseqüência dos investimentos que a empresa fez ao longo de anos, através de campanhas de prevenção de acidentes, treinamentos, cursos e palestras. O trabalhador da CERJ era bastante qualificado, a mão de obra contava com reciclagens e qualificações profissionais. Isto tornava os trabalhadores mais conscientes dos riscos a que estavam submetidos no desenvolvimentos das atividades laborais.

"Veja bem, na CERJ, por ser ela uma empresa de serviços em relação à energia elétrica, pelo menos eu presenciei muito pouco. Eu presenciei mais acidente com viatura do que proporcionalmente na rede. Graças a Deus, nunca presenciei nenhum caso desse acidente fatal. Mas, para mim, vamos dizer, uma incidência maior que tinha era acidente com veículo dentro da empresa" (Alm. Empr.).

"Olha, fica até difícil eu falar, [porque], alguns anos atrás, não havia muito acidente. Não havia e havia pouquíssimo acidente mesmo. Você contava, tinha até uma placa lá, tantos dias sem acidente. E olha que nós ficamos seiscentos e poucos dias sem acidente, ou foi setecentos e pouco, eu não lembro. Eu tenho até retrato em casa que eu tirei nessa placa, logo depois que eu tirei o retrato, houve um acidentezinho" (Elet. CERJ).

Em contraposição a esses dados, uma realidade bastante diferente é vivenciada hoje, com a reestruturação organizacional e gerencial da CERJ. Com a terceirização dos serviços, houve uma queda na qualidade de formação e qualificação de muitos trabalhadores que se inseriram neste ramo, ou, como diria Antunes (1997), uma desespecialização dessa categoria de trabalhadores. Como esse assunto já foi levantado anteriormente, quando falamos da precarização das condições do trabalho, nosso intuito, neste momento, é o de levantar uma questão bastante problemática: não existia, pelo menos até o período de realização das entrevistas, nenhuma Comissão ou Centro responsável pela prevenção de acidentes na empreiteira e cooperativa investigadas. Na CERJ, a CIPA até existia, mas com uma atuação menor, se comparada com a CERJ estatal.

 

A CIPA na CERJ estatal

Neste momento será enfatizado a questão da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) e sua atuação na CERJ estatal.

Todos os trabalhadores entrevistados sabiam da existência e atuação da CIPA na CERJ. Entretanto, apesar de saberem que tinham acesso às informações levantadas na CIPA, pouco menos da metade dos entrevistados - três trabalhadores - disseram que participavam das reuniões e eventos promovidos pela CIPA.

"Quando tinha então, a gente participava de tudinho...e eu fazia parte na época da brigada de incêndio. E tinha também ...palestras ...sobre incêndio, sobre primeiros socorros" (Alm. Coop.).

"Todos os membros, todos os funcionários tinham acesso livre [e eu] participava de todas, que é a SIPAT" (Alm. CERJ).

A SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho) era uma semana que tinha na prevenção de acidentes seu objetivo e suas diversas atividades estavam direcionadas para a conscientização destes trabalhadores. Entretanto, a participação destes trabalhadores contava com alguns reveses, ou melhor, nem todos gostavam ou queriam participar das atividades.

Tinha, eu não sei se tem. Mas antigamente tinha...eu participava de todas as reuniões, eu participava de todos os cursos, mesmo sendo remunerado ou não" (Eletr. CERJ).

Entretanto, outros três trabalhadores, apesar de saberem da existência da CIPA, não tinham interesse e não participavam dessa Comissão.

"Não, isso era com o pessoal lá embaixo. Às vez, o pessoal saía convocado. Tinha, quando terminava, aquele período de negócio de CIPA, [no] finalzinho dava reunião p’ra nós" (Eletr. CERJ).

"Eu nunca participei da CIPA não...eu nunca quis participar da CIPA não, nem CIPA, nem sindicato, eu nunca quis participar" (Enc. Empr.).

O sétimo entrevistado alega que, apesar de já ter participado da CIPA, o grande problema desse órgão era a resistência às mudanças, mas essas resistências eram mais por parte da administração do que dos empregados.

"De fato, a CIPA na CERJ funcionava muito pouco, ou quase nada, pelo menos na minha época que eu participei da CIPA. Em função disso, e não pelas pessoas que compõe a CIPA, [não] pelo lado do empregado, mais pelo lado da reação das pessoas que não deixavam ela avançar, ou ela funcionar, como ela deveria funcionar, não dos empregados, pelo contrário, mais da parte administrativa" (Alm. Empr.).

A resistência às mudanças é sempre uma variável que preocupa. Todo e qualquer processo de mudança, principalmente quando se trata de uma estatal de grande porte é, bastante difícil. Mas, o nosso objetivo, a seguir é o de levantar, segundo a fala dos trabalhadores, como está a situação da CIPA após a privatização da CERJ.

 

A CIPA após a privatização da CERJ

Atualmente, com a contratação de mão de obra terceirizada, a empresa não tem mais vínculo com grande maioria destes trabalhadores. Em uma conversa com uma pessoa do RH da CERJ, esta pessoa que "contratamos serviços e não mão de obra" (RH da CERJ).

Assim, a grande preocupação da empresa está no cumprimento do contrato firmado pelas empresas contratadas. Portanto, a forma como se dá a realização das obras não está em primeiro plano.

Além dos aspectos mencionados, outro fator que exige destaque, é o fato de que a CIPA na CERJ estatal já tinha problemas e, agora com a privatização, o poder de representatividade dessa Comissão sofreu alguns retrocessos. Um dos trabalhadores que continuam na CERJ argumenta que, atualmente, a situação da CIPA é bastante diferente. Ele que, dizia sempre demonstrar interesse em participar, hoje não tem mais tanto contato com a CIPA.

"CIPA, eu sei que existe, só que eu não vi, de dois anos p’ra cá, eu não vi uma obra da CIPA. Eu sei que existe, eu, de vez em quando, vejo no papel lleição da CIPA. Agora, o que eles fazem, eu não sei" (Eletr. CERJ).

Complementando esse depoimento, o outro trabalhador da CERJ enfatiza que o poder de representatividade da CIPA passa por momentos complicados, onde, até mesmo quorum para as reuniões se tornaram um problema.

"Poder zero. Todo mundo tinha medo de falar qualquer coisa. E, há casos de reuniões de não ter nem quorum pra efetuar a reunião. ...Eu por exemplo, tenho reunião da CIPA amanhã, não sei se eu vou, não é que você não possa ir não. Ir você não pode mesmo, mas você esquece, você fica tão ocupado que você acaba esquecendo." (Alm.CERJ)

E nas Cooperativas e Empreiteiras, como está a situação da CIPA? Buscaremos levantar essa questão no próximo item.

 

Na Cooperativa

Assegurar condições de segurança para a realização dos trabalhos é uma tarefa bastante difícil. É ainda mais preocupante, se levarmos em consideração o fato de que, na cooperativa abordada, não existia, até o momento da entrevista, nenhum órgão responsável pela prevenção de acidentes.

"Pela segurança? Até teve , inclusive o rapaz também foi da CERJ. Agora, não sei por que motivo ele saiu" (Enc. Coop.).

"Não, aqui não tem CIPA não. Não, no momento, não. Nós tinha um inspetor de segurança, mas... no momento, não ‘tá mais não. Mas a CIPA, a CIPA tem na empresa, na CERJ, eu participei da CIPA e tudo, mas aqui não tem não. Tem o material de segurança que o pessoal usa, equipamento de segurança todinho, entendeu? Mas, uma pessoa p’ra orientar assim, mensalmente ou trimestral, tem não. Reunião de CIPA tem não. Também ‘tá montando agora, é nova, não ‘tá bem estruturada ainda" (Alm. Coop.).

Por ser uma cooperativa de trabalhadores, a cobrança por CIPA obedece a regimentos diferenciados. Portanto, não tivemos acesso a esses dados e não podemos fazer uma análise mais crítica dessa situação das cooperativas. Pelo menos, pela parte os ex-funcionários da CERJ, há muita bagagem de como trabalhar salvaguardando condições mínimas de segurança. Nossa grande preocupação se refere aos que estão entrando no ramo agora, que não tiveram treinamentos específicos. Apesar de terem sido poucas as alterações no processo de trabalho com a eletricidade, a necessidade por reciclagens e atualizações profissionais se tornam imprescindíveis, principalmente se levarmos em conta as atuais exigências do mercado, por constantes aperfeiçoamentos profissionais.

 

CIPA na Empreiteira

Vejamos, então, como os trabalhadores que se reinseriram no mercado de trabalho, através da Empreiteira, vivem a existência ou não da CIPA.

"É, não existe uma CIPA. O que existe aqui, é um técnico de segurança em cada área, em cada centro operativo, é uma pessoa responsável pela área de segurança, que fica mais na parte de Recursos Humanos. Então, não existe uma CIPA, mas existem pessoas estratégicas, colocadas justamente [para] atender essa necessidade que tem de verificar, de ir ao local, ver se o pessoal ‘tá trabalhando direitinho, se ‘tá atendendo às exigências da CERJ, de segurança também, em relação ao acidente" (Alm. Empr.).

"Não sei. Tem um inspetor de segurança aí .Quase que não vai no serviço, na minha parte lá não vai. Aquele menino que era da CERJ, esse também não vai não. A visita de rotina não vai não" (Enc. Empr.).

"Tem aí o pessoal da segurança, tem o inspetor de segurança, tem a chefia responsável" (Eletr. Empr.).

Se não há a CIPA ou se ainda sua atuação perdeu força - como no caso da CERJ privatizada - cabe-nos questionar como estão os índices de acidentes de trabalho; isso será feito segundo o depoimento dos trabalhadores, já que não foi possível obter números oficiais a respeito desse assunto. Contudo, posterior às falas dos trabalhadores, apresentaremos algumas considerações do CREA a respeito dos acidentes de trabalho no setor elétrico do Rio de Janeiro.

 

Acidentes nas Empreiteiras

"Acidente, tem alguns. Mais é pessoa queimar aí na alta tensão, já teve diversos que levou carga de 11.000. Mas fatal mesmo, não teve não. Só teve uns que ficaram com seqüela" (Enc. Empr.).

"Na Empreiteira, acontece bem. Ultimamente andou havendo bastante acidente aí na Empreiteira. Vamos supor um negócio, muitas pessoa sem experiência, é a garotada nova, nunca trabalhou com isso" (Eletr. Empr.).

"De março p’ra cá eu acho que já aconteceu uns quatro ou cinco acidentes. Um foi fatal. Os outros eu não sei qual foi a gravidade, inclusive meu irmão, um acidente feio com ele e ficou em coma e não ‘tá bem até hoje. ‘Tá trabalhando, mas já é pela parte da Empreiteira. Esses acidentes todos que houve foi da Empreiteira. Empreiteira dá todo dia esses acidentes, Empreiteira é todo dia" (Eletr. CERJ).

"No geral, no geral, você vai ver que acidentes ocorreram aí, inclusive, graças à Deus, não foi com Empreiteira, infelizmente foi de outra empreiteira. Fatais, um que foi fechar a chave com a mão, outro foi fazer não sei o quê, tudo com abuso, excesso de confiança. Mas na Empreiteira, graças à Deus, até hoje, aqui na Empreiteira, não houve nenhum acidente fatal" (Alm. Empr.).

"Mais comum, acho que não tem mais comum. ‘Tá direto, é com eletricidade, acidente de carro, é poste rolando em cima do pessoal, é cachorro que avança no pessoal, nas favelas, todo tipo de acidente que você possa imaginar. Uma pessoa que tenha trabalhado que cai, queda de escada" (Alm. CERJ).

 

Os acidentes na Cooperativa

A Cooperativa abordada, alguns meses antes às entrevistas, já havia acontecido dois acidentes graves, em ambos, o manuseio dos postes é que causaram lesões.

"Acidente existe, mas constante não. Um acidente com ‘munck’, o rapaz machucou a mão, mas por imprudência dele que ‘tava operando, ele segurou o poste, ele ‘tava com a mão atrás do poste, quando o poste correu, foi com a mão no muro, muro chapiscado, aí ele puxou a mão, isso aqui [mostrando a face externa da mão] ralou tudo" (Enc. Coop.).

"Às vezes, o pessoal na rua pode se machucar na rua, pode se machucar. Mas, é um serviço mais de risco. É perigoso na rua, tem que ‘tá bem equipado, p’ra poder não acontecer, mas acontece, tem um colega ai se machucou. O colega se machucou, o poste machucou ele. Ele ‘tá em casa, mas foi um acidente que aconteceu. Ele era uma pessoa, andava sempre com segurança" (Alm. Coop.).

Diante do quadro construído pelos trabalhadores da CERJ privatizada, da Empreiteira e da Cooperativa, de visível aumento do número de acidentes, será exposta, a seguir, uma colocação do CREA, sobre a precarização das condições de trabalho na indústria de energia elétrica.

"O Presidente do CREA-RJ, José Chacon de Assis, usou da palavra durante a Audiência Pública para denunciar a CERJ como vice-campeã nacional de acidente de trabalho, conforme denúncia do grupo de Engenharia de Segurança e Saúde do Setor Elétrico da Eletrobrás. Informou, também, que o Conselho investiga empreiteiras da CERJ com sede nos Municípios de São Gonçalo e Niterói que, de acordo com denúncias recebidas, se utiliza de mão de obra não qualificada e clandestina de trabalhadores peruanos em serviços de manutenção elétrica nas duas cidades" (Revista CREA, 1998, p. 06).

Na verdade, o processo de terceirização já existia mesmo antes da CERJ ser privatizada, embora não em proporções tão grandes, como se fez após a privatização. Havia, na empresa, um plano de cargos e salários, o que permitia a maior qualificação e melhores remunerações. Mas, com a privatização em processo e, posteriormente com a concretização desta, o que se viu foi uma adoção da política de contratação de empresas que terceirizam seus serviços e mão de obra. Com isso, verifica-se uma redução do quadro de efetivos e qualificados, conseqüente desqualificação da mão de obra terceirizada, bem como a fragmentação e dissolução das entidades representativas, o que traz vários desdobramentos para estes trabalhadores e para a sociedade, em geral. Quanto à terceirização e às perdas conseqüentes à isso, Claudia Barbosa, num estudo sobre os impactos da reestruturação produtiva sobre a saúde do trabalhador, afirma que:

"Quanto aos trabalhadores, vários aspectos devem ser observados. Num dos aspectos da terceirização, que é a prestação de serviços, empregados são cedidos a grandes empresas, através de contratos, para a realização de tarefas específicas. Nestes casos, empregados da empresa contratante e os contratados, compartilham o mesmo espaço, mas com funções e tratamentos diferenciados. Os empregados contratados recebem salários bastante inferiores. São fiscalizados tanto pelos empregados da empreiteira quanto pelos empregados da contratante. Não costumam receber nenhum treinamento específico para a atividade que estarão a desenvolver, o que poderá acarretar inúmeros riscos na sua execução .Muitas vezes, estes empregados recrutados por prestadoras de serviços não possuem qualquer qualificação ou mesmo instrução" (Barbosa, 1994, p. 24).

Diante da gravidade desse quadro, não poderíamos deixar de investigar, com estes trabalhadores, quantos já sofreram algum tipo de acidente e, caso positivo, qual a visão deles sobre o acidente.

Dos sete entrevistados, 6 não haviam sofrido nenhum acidente grave.

"Graça à Deus, não. Até agora, graças à Deus, eu nunca tive nenhum tipo de acidente" ( Alm.Empr.).

"Foram dezesseis anos sem nenhum acidente" (Eletr. CERJ).

"Não, graças à Deus eu, esse tempo todinho, eu nunca sofri um acidente" (Eletr. Empr.).

"Aqui, eu só machuquei o dedo" (Enc. Coop.).

Entretanto, um dos entrevistados sofreu 3 acidentes na época em que trabalhava na CERJ e um, depois de ter seu contrato de trabalho cassado e ser admitido na empreiteira.

Na CERJ:

"Primeiramente eu quebrei o dedo, depois quebrei o pé, depois cai do poste" (Enc. Empr.).

Na empreiteira:

"Só na vista, furei a vista" (Enc. Empr.).

Na verdade, ele não furou a vista. Num procedimento de poda de árvore, ele estava sem os óculos de segurança e um pequeno pedaço de madeira entrou no seu olho direito. Só que não foi possível removê-lo com procedimentos simples e este trabalhador teve que passar por um tratamento delicado, após ter sido necessário realizar uma micro incisão cirúrgica oftalmológica, para a remoção do corpo estranho.

Concluímos que, dos sete entrevistados, apenas dois relataram ter sofrido algum tipo de acidente. Um deles, pertencente à Cooperativa, machucou o dedo de uma das mãos e, na ocasião da entrevista, ele estava trabalhando, mesmo com um curativo no dedo. O outro, depois de já ter sofrido três acidentes na CERJ, durante os 18 anos de serviço ali prestados. Em menos de dois anos de serviço na Empreiteira, estudada, ele já havia sofrido outro acidente, que necessitou de um procedimento cirúrgico no olho afetado.

Contudo, ainda em termos de saúde no trabalho, algo que particularmente não esperava encontrar e que, portanto, não havia sido previsto no questionário é o problema da dependência química. Entretanto, no depoimento de dois trabalhadores, isso foi um fator por eles percebido. Dos trabalhadores que relataram essa problemática, um deles havia exercido cargos de chefia na empresa e o outro, atualmente é o chefe do almoxarifado da CERJ. No depoimento deles, a ênfase está no álcool e no fumo.

"Não, o que eu vi que ocorria com determinados companheiros aqui, era alguns com problema com alcoolismo, entendeu? Tinha muitas pessoas aqui com dependência alcóolica, mas agora, a nível de doença ocupacional, eu não lembro de nenhuma não, realmente não lembro. Havia campanhas de prevenção com relação ao tabagismo e alcoolismo. Mas eu já vi companheiros de outros setores que teve problema, efisema pulmonar devido ao excesso de cigarro e alguns com cirrose hepática devido ao consumo excessivo de álcool, então houve alguns fatos assim" (Alm. CERJ).

"Não, o que existia na CERJ assim com mais, com maior incidência é alguma coisa que eu não posso nem dizer que fosse doença. A questão do alcoolismo. Alcoolismo, que a incidência era muito grande e existia um grande trabalho na CERJ, tentativa de pelo menos acompanhamento pelo Serviço Social da CERJ, com internações. Eu, eu também acompanhei um caso desse que, inclusive, se tornou fatal, mas não por falta de assistência, ele foi internado mas, infelizmente, já passou, já não era mais um vício, para mim já era uma doença" (Alm. Empr.).

Já que estamos nos referindo a doenças e a condições propícias para um trabalho seguro, o controle da saúde desses profissionais se torna imprescindível. E, como muitas vezes estes trabalhadores não tinham tempo de fazer controles periódicos de sua saúde, os exames periódicos, por vezes, eram os únicos realizados. Na época da CERJ estatal, estes exames eram realizados periodicamente. Mas, depois que a empresa foi privatizada, isso não estava sendo feito. Cabe ressaltar que isso é para os que continuam na CERJ, apesar de que, nas empresas terceirizadas, também não realizam estes exames. Para fins de exposição, primeiro colocaremos o depoimento dos trabalhadores que continuam na CERJ, em seguida os da empreiteira e, por fim, os da cooperativa.

 

Os exames periódicos na CERJ privatizada

Com o processo de privatização da CERJ, até mesmo os exames periódicos deixaram de ser realizados. Os dois trabalhadores que continuaram na Empresa após a privatização, alegam que a inexistência destes se remontam ao momento em que é decidida a venda da CERJ, e que há uma estagnação nos diferentes setores da empresa.

"Era anualmente, mas eu já ‘tou há três anos sem fazer periódico, porque, quando a empresa se propôs a ser privatizada, o governo fez o seguinte: primeiro, vamos sucatear p’ra vender barato. Então, não houve investimento em parte nenhuma na empresa, nem mesmo no empregado quando já estava p’ra ser privatizada. É, começaram agora. Mas, eu acho que é p’ra mandar o pessoal embora" (Alm. CERJ).

"É, agora ‘tou com eles aí p’ra começar a fazer segunda-feira. Não tinha feito nenhum exame. Agora, eu acho que só fazia quando ele ia ser demitido, aí, eu acho que é por lei" (Eletr. CERJ).

Essa realidade não é muito diferente da encontrada nas empreiteiras e cooperativas, vejamos a seguir como estão sendo vistos os exames periódicos nestas diferentes realidades.


Na empreiteira

Na empreiteira investigada ainda não foi implantando o ambulatório médico, que estava sendo construído na época da entrevista, e, a não realização dos exames periódicos está condicionada, segundo depoimento de um dos trabalhadores da empreiteira, à não existência desse ambulatório. Segundo ele, tão logo a obra termine, será implantado o ambulatório, para fins de procedimentos mais simples e também para a realização dos exames admissionais e periódicos.

"Não, veja bem, existe o admissional e depois se procurou, ‘tá sendo feito um ambulatório. A idéia é futuramente contratar um médico de segurança, um médico p’ra atender o paciente na enfermaria, pra poder você criar justamente esse sistema de exame periódico. Mas a obra ‘tá bem adiantada" (Alm. Empr.).

" É, quando a gente entra, faz o exame. Agora, assim no meado do ano, quando faz ano, assim não. A pessoa, quando entra ou sai, faz" (Eletr. Empr.).

"Não. Só que tem três anos que eu fiz" (Enc. Empr.).

 

Na Cooperativa:

A Regulamentação de uma cooperativa é diferente de uma empreiteira. O que torna o funcionamento destas específicos, principalmente em termos de alguns preceitos de legislação trabalhista. E, como não entramos nesta discussão, apenas exporemos as falas dos trabalhadores sobre os exames periódicos.

"Não, aí eu não sei precisar p’ra você por que aí já é parte daqui de cima, da parte administrativa e eu não sei se ele pede aí na admissão aqui, pode atestado" (Alm. Coop.).

"Não, não mesmo. P’ra ser franco com você, faz bem uns seis meses que eu não sei o que é um médico" (Enc. Coop.).

As cargas, os riscos, os acidentes e as doenças que podem ser derivadas do processo de trabalho não devem se analisadas com reducionismos, ou seja, atribuindo a estas causas imediatistas, biologicistas e, mais grave, com uma postura culpabilizante do trabalhador vitimado. Acima de tudo, a análise destes riscos e cargas devem ser analisados dando a devida importância para os elementos técnicos e organizacionais presentes na realidade do trabalho. Deste modo, frente ao contexto de reestruturação produtiva da CERJ, muitas mudanças foram surgindo na empresa; dentre elas, as relações entre trabalhadores e chefias e vice-versa e mesmo entre os companheiros de trabalho passaram por contundentes transformações e é esse o próximo aspecto a ser discutido nesta dissertação.

 

3.8 - As Relações de Trabalho

Um outro ex-funcionário da CERJ, demitido no processo da privatização, e atualmente na empreiteira enfatiza que, no decorrer desse processo, gerou-se um mal estar entre os companheiros de trabalho. Isso pode conduzir a um individualismo e ao surgimento de desconfiança entre companheiros de trabalho. Neste aspecto, confrontamos o depoimento deste trabalhador, com o que Seligman-Silva (1994) argumenta quando estuda o processo desencadeado pelo temor de perder o emprego.

"Começou a existir na empresa, ao se anunciar [a privatização] ou quando passou no leilão a venda da empresa, começou a acontecer fatos isolados de pessoas que estavam se prevalecendo do cargo de chefia. E começou a formar grupos dentro da empresa,..., nem sempre com grupo de quilate, com grupo de peso. Digo de peso porque as pessoas que estavam deixadas de fora, em função de outras pessoas, eram pessoas mais capacitadas. E, com isso, foi gerando mal-estar, foi gerando insegurança, as pessoas ficavam sobressaltadas porque sabiam que não ‘tava havendo ali um critério, logo após a privatização, começou a se verificar um fato que não havia muito consistência, era coisa totalmente voltado p’ro lado do coleguismo, as pessoas que eram mais chegadas" (Alm. Emp.).

Seligman-Silva enfatiza que o medo de perder o emprego pode danificar ou mesmo destruir as relações entre os colegas de trabalho. Em sua pesquisa, ela observa isso e salienta que: "Com amargura, vários entrevistados consideraram que o pavor de perder o emprego levava ao rompimento de velhos laços de companheirismo e confiança acentuando-se o individualismo"(Seligman-Silva, 1994, p. 266).

Num dos documentos da CERJ que analisamos, havia nele uma discussão sobre as distorções que a empresa teve, ao longo de anos, no seu quadro de pessoal. Neste documento, é enfatizada a questão da inadequação dos números de funcionários da área administrativa e da área técnica. Pretende-se assinalar a questão da falta de critérios contundentes, não só no momento da admissão quanto da demissão dos funcionários desta empresa.

A qualificação profissional e competência dos trabalhadores que pertenciam ao quadro de efetivos da CERJ, por mais de 10 anos, não foram levadas em consideração no momento em que se propunha "enxugar" a máquina, com vistas à privatização. Isto é colocado pelos trabalhadores demitidos e que foram entrevistados, de uma forma bastante ressentida. Esse processo demissionário, sem precedentes e sem critérios, conduziu a vários desdobramentos: a queda da qualidade da prestação do serviço, o aumento do número de acidentes - pelo despreparo dos novos trabalhadores - e também um processo de incertezas e inseguranças dos que continuaam na CERJ. Isso é bastante expressivo nos depoimentos destes trabalhadores:

"E pessoas, profissionais de primeiro quilate, pessoas competentes. Aí eu vi o quanto eles estavam errados. E o quanto faltou critério nessa fase de seleção da CERJ, davam informações totalmente distorcidas [para o grupo que assumiu a empresa] em função de revanchismos, em função de situações de, de segurança no emprego, de permanecer no emprego e, com isso, causou esse problema que gerou a demissão em massa na CERJ. De fato, hoje a empresa sofre, sofre com essa falta, com essa saída, do quadro da empresa, de profissionais que eram ‘ARQUIVO’ na CERJ. Mas aí a vida continua na [Empreiteira X]. Normalmente, a gente continua nossa vida, mas foi traumático, bastante traumático" (Alm. Empr.).

"Eu acho o seguinte, que as pessoas serviram tão bem a CERJ, nesse tempo todinho, pelo menos eu acho que ela podia até mandar as pessoas embora. Tinha que ver os que não queria trabalhar, acho que tinha que fazer pelo menos uma seleção. Então, vê as pessoas que ‘tava na época de se aposentar, vê quem quisesse ir e quem não quisesse, ver tempo de casa que tinha, acho que podia segurar. Acho que eles não deveria fazer o que eles fizeram. Acho que tinha que dar, pelo menos, assim, um apoio p’ro pessoal que serviu tanto, tantos ano, a ela. Entendeu? No caso, nós, dezessete ano, embaixo de sol e chuva, virando noite, p’ra poder deixar a população com luz e servir ela. Muito embora que eu pessoalmente...acho que... a direção da companhia ou, não digo nem tanto chefia, mas direção de companhia que tinha que ver ao menos isso. E p’ra mim foi uma falta de respeito, porque aquilo acabou de repente" (Eletr. Empr.).

"Olha, o pessoal que foro demitido? Muita gente se aposentou, foi demitida. Mão de obra qualificada, pessoas que poderiam ‘tá aí hoje ajudando, até ensinando as pessoas que ‘tão entrando, a trabalhar, foi demitida, não sei qual o critério, eu não acho que isso seja justo, o cara chegar p’ra uma pessoa que tem 25 ano de serviço e você chega amanhã e diz: Amanhã você ‘tá dispensado, eu acho que não é assim. Eu acho que você tem que aproveitar essa pessoa, pelo menos até enquanto ele queira, quando ele não quiser mais" (Eletr. CERJ).

"Eu acho que não deveria ser privatizada, parte de energia não deveria ser privatizada. Porque é um serviço que tinha que ser da parte do governo e não particular. O dinheiro que eles pegam aqui, eles leva tudo p’ra fora do País" (Eletr. Empr.).

O processo de privatização da empresa e a conseqüente necessidade de enxugar o quadro foi vivido sob muita pressão, principalmente para que o trabalhador optasse pelo PDI ( Plano de Demissão Incentivada); este na verdade, acabou se tornando uma demissão imposta.

"Quando a CERJ privatizou fez o PDI. Logo depois do PDI, logo depois, eles contrataro mão de obra nova. Eles botaro a gente como um mal necessário. Entendeu, eles precisavam da gente porque não tinha conhecimento do que se passava, mas infelizmente, era um mal necessário. Então, o que ocorre, eles botaro os funcionário da CERJ antigo a pior que pudesse ter acontecido p’ra eles era ter um ex-funcionário da CERJ. Porque eles ficaram com aquela imagem de que eram pessoas que ficavam paradas, não gostavam de trabalhar e ficava descansado ou então pessoas que só queriam levar vantagem, então a idéia que eles tinham do funcionário antigo era essa" (Alm. CERJ).

"P’ra que você aceitasse o PDI, havia uma pressão muito grande da chefia. Teve colegas lá que aceitou na pressão. PDI é Plano de Demissão Incentivada, então, geralmente o cara te dá vantagem. Aí você fica, o cara diz: Você não pega essa vantagem, você pode, amanhã, pode ‘tá na rua, quer dizer, e sem a vantagem ninguém garante que você vai continuar. As pessoas que não aceitaram a pressão ‘tá lá até hoje. Eu não sei se isso até era do conhecimento da direção da empresa. Não acredito que seja porque as pessoas que não aceitaram, como eu, como outros lá que não aceitou a pressão, continua na empresa até hoje, trabalhando, recebendo" (Eletr. CERJ).

"Existia... a chefia dizendo p’ra você: bem, pode ir embora hoje, pode ficar e daqui três a quatro meses, ou seis meses, você ser mandado embora, existiu uma forma de pressão, têm pessoas que foram pressionada, eu não, têm pessoas que foram" (Enc. Coop.)

"O pessoal que ficou, a maioria foi tudo embora depois, foro saindo assim. Agora, se saiu com o PDI eu não sei, mas que ‘tava sendo pressionado, ‘tava. Eles não tinham nem horário de almoço, horário de chegada, nem de saída. O Serviço p’ra cinco pessoas fazer, dois ‘tava fazendo. Às vezes uma pessoa ‘tava fazendo, então é muito serviço, o pessoal ficava doido. Não tinha horário nem p’ra almoçar, se não saísse p’ra almoçar, não almoçava, entendeu? Não tinha aquele horário padrão de almoçar todo mundo e voltar todo mundo. Isso que eu ouvia dos companheiro lá, que agora a maioria saiu" (Alm. Coop).

"A posição deles, que existiu na CERJ, um plano p’ra demissão incentivada, mas não foi isso o que aconteceu não. As pessoas assinaram o PDI em função de uma pressão, em função de uma incerteza, de vamos pagar p’ra ver. Eu, por exemplo, eu conheço muita gente que pagou p’ra ver e ‘tá na CERJ até hoje. Não aconteceu nada. Casos de chefias que pressionou os funcionários, em relação a grupos de pessoas que ficavam no comando, que, no final, prejudicou todo esse processo. Forçou a justamente isso, à assinatura do PDI. Então, isso aí tudo gerou um mal estar muito grande. Então, em vez de ser um plano incentivado p’ro pessoal sair satisfeito e ter assinado conscientemente, de repente, oitenta, noventa por cento (80, 90%) que assinaram, assinaram sob pressão e de, repente, não queriam assinar. Então, criou uma coisa que fez mal às pessoas, não foi uma coisa espontânea. Não foi bem isso, muito embora fala plano de demissão incentivada, não foi bem isso, na CERJ o que aconteceu não foi nada disso" (Alm. Empr.).

"Dentro da empresa, p’ros funcionários, teve muita pressão. Muitas pessoa sairo sob pressão. O PDI, eu acho que foi um cala boca p’ro pessoal, p’ra eles sai quieto" (Enc. Empr.).

"Eu achei péssimo. Sinceramente. Eu achei péssimo, porque, quando começou a falar em privatizar, começou eles a arrocharem muito, é, exigir muito, praticamente quase obrigando a pessoa a se demitir. Quando até, na época de privatizar, teve até uma reunião, que teve que eles ‘tava praticamente, no final, falando que, quem quisesse demitir agora, é melhor se demitir agora do que deixar p’ra mais tarde, porque vai ser mandado embora mesmo. Praticamente, houve pressão. Inclusive, nesse mesmo dia que houve essa reunião (...) praticamente mandando pessoas se demitir, é, propriamente, houve até um acidente com um rapaz lá, inclusive ele está até encostado até hoje" (Eletr. Empr.).

A situação destes trabalhadores, todas as suas angústias e incertezas, tiveram no seio da família, um dos poucos pontos de apoio. A sociedade em geral não teve noção da gama de conseqüências que a privatização do setor elétrico trouxe para os trabalhadores e suas famílias. As informações que tomaram espaço na mídia estavam relacionadas à queda da qualidade na prestação desse serviço à população e relatando alguns acidentes ocorridos, mas de forma muito breve. Em seguida, mostraremos, de forma sucinta, como os trabalhadores avaliam o processo de privatização e as conseqüências disto sobre as suas relações familiares e também quanto aos laços construídos durante tantos anos de convivência na CERJ.



3.9 - As Conseqüências da Privatização e a Família

Quando o assunto é família, a grande preocupação está na busca por salvaguardar as condições mínimas de reprodução dos dependentes. O desligamento da CERJ ocasionou a perda de alguns direitos trabalhistas que complementavam a renda da família e tornavam o orçamento menos apertado. Dentre eles, destacam-se o plano de saúde, ajuda de custo na educação de crianças portadoras de necessidades especiais e o próprio salário reduzido posteriormente. Mas, outros aspectos também surgiram, como, por exemplo, a diminuição do tempo de lazer e de ficar com a família.

Vejamos alguns depoimentos:

"De qualquer maneira, caiu o poder aquisitivo, sem a menor dúvida. Eu por exemplo, saí de um apartamento de três quartos para um de dois quartos...Mas que afeta, afeta...A minha esposa passou por esse processo todo de demissão...minha esposa ela é hipertensa, causou um problema muito sério em relação à pressão" (Alm. Empr.).

"Acho que não existe coisa pior do que a parte financeira...você paga colégio p’ra filho...eu não pago aluguel mas eu tenho várias despesas...Você tinha que se privar de muita coisa, que já é pouco, o lazer que você já tem é pouquinho, quer dizer, você tinha que ficar sem nenhum. É uma conseqüência muito dura" (Eletr. CERJ).

Em consonância com os depoimentos desses trabalhadores, Barbosa, ao analisar os impactos da modernização administrativa sobre a saúde do trabalhador, mostra como fica o quadro de degradação das condições de vida e trabalho, dos trabalhadores que vivenciam esse processo.

"O que vem delineando-se neste processo é a queda na qualidade de vida do trabalhador. Ocorre uma perda no poder aquisitivo, devido ao achatamento do salário, agravado pela alta rotatividade da mão de obra e desqualificação da mesma nas indústrias brasileiras" (Barbosa, 1994, p. 21).

A família é um ponto de apoio muito importante para o trabalhador. Ela é diretamente afetada por todas as circunstâncias de degradação das condições de trabalho, mas, ao mesmo tempo, é com ela e por ela que o trabalhador busca superar os embates deste processo. Dejours enfatiza que:

"Toda família é requisitada pelo trabalhador em seu esforço em enfrentar as dificuldades no trabalho. O cônjuge, os filhos e às vezes até os pais do trabalhador são atingidos indiretamente, mas também fortemente pelos efeitos da situação do trabalho sobre aquele que nela se encontra exposto (uma parte da violência comum nas relações conjugais, uma parte do alcoolismo e das doenças têm relação com as dificuldades no trabalho e tocam todos o membros da família). No sentido inverso, o prazer no trabalho e os benefícios provenientes da relação de trabalho no registro da saúde também têm repercussões favoráveis na economia das relações da família e no desenvolvimento psíquico e afetivo dos filhos" (Dejours, 1996, p.13).

Essa citação é bastante pertinente e, de forma simples, reforça muitas das questões levantadas no decorrer do texto. Podemos dizer que é uma síntese do que é hoje a realidade do eletricitário do Rio de Janeiro, que, de forma abrupta ou traumática - como alguns trabalhadores denominaram - vivenciaram um leque de mudanças em sua vida e de sua família.

Muitos foram os aspectos e problemáticas surgidas neste estudo. Muitas das situações levantadas não tiveram o aprofundamento que mereciam, ainda assim, procuramos abordar o maior número de aspectos que demonstrassem a complexidade do tema. Deste modo, novamente enfatizamos que este estudo não pretende esgotar as situações encontradas. A nova realidade de trabalho dos profissionais da eletricidade é bastante complexo e exige muitas outras investigações. Mas, acreditamos ter dado mais um passo na direção de aguçar e suscitar novos questionamentos. Com estas colocações, encerramos este capítulo e passamos às conclusões e recomendações.

 
 
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