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Nogueira, Valeria Aparecida. Reestruturação do setor elétrico: um estudo qualitativo das condições de trabalho e saúde dos eletricitários frente a privatização da CERJ. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. v,108 p.

I

 

INTRODUÇÃO

 

 

1.1 - O Problema

Inúmeras transformações sociais, políticas e econômicas são deferidas e destinadas aos diferentes setores da sociedade, em ritmo constante e por vezes de modo imperioso, vêm afetando a vida das pessoas e configurando importantes conseqüências. Como não poderia deixar de ser, o mundo do trabalho é um dos setores que mais sofre influências dos novos rumos econômico-sociais, uma vez que atualmente é a política econômica que define as diretrizes para as políticas de organização do trabalho. Ou seja, os apelos para a acumulação capitalista ditam regras para os novos modelos de gestão empresarial. As novas formas de gerenciamento e de organização do trabalho têm como precedentes históricos momentos como a Revolução Industrial, a expansão e afirmação do capitalismo, a internacionalização e a globalização das economias.

A Revolução Industrial emerge num contexto de afirmação do capitalismo como sistema econômico, sendo expressão do movimento de transição do modo artesanal para o modo industrial que ocorreu na segunda metade do século XIX. Naquela conjuntura efervescente, muitas mudanças são contraídas pelo processo de trabalho. Novas formas de energia são introduzidas, e por ser um trabalho realizado na fábrica, implica enormes diferenciações do modo anterior, uma vez que o artesanal é calcado em bases familiares. No Modelo Industrial o capitalista é o proprietário da fábrica e, portanto, dos meios de produção. A partir dessas transformações que é implementada a Divisão Social do Trabalho.

"Assim, a divisão social do trabalho é aparentemente inerente característica do trabalho humano tão logo ele se converte em trabalho social, isto é, trabalho executado na sociedade e através dela" (Braverman, 1987: 63). Além disso, a organização do trabalho na sociedade capitalista está permeada por conflitos e contradições entre o capital e o trabalho, aplicando diferentes formas de acumulação, de modo que:

"A separação dos trabalhadores dos meios de produção implica, pois, a sua dependência frente aos capitalistas para a obtenção de trabalho, o que tem como conseqüência a venda da força de trabalho ‘ao preço de mercado’... O processo capitalista é baseado na acumulação, isto é, na valorização do capital no que se refere à relação social da exploração da força de trabalho e da sua dominação. As relações de classe são, ao mesmo tempo, relações de valorização do capital e opressão da classe dominada pelas classes dominantes [...]" (Faleiros, 1992, p. 24).

Visando controlar o processo industrial e aumentar a produção, implementa-se na fábrica uma divisão sócio-técnica do trabalho e conseqüente a este processo, deriva-se uma produção em escala com base em minuciosos cálculos econômicos e técnicos, buscando racionalizar o processo de produção, adequando-se o mais lucrativamente possível os recursos humanos, materiais e financeiros (Braverman, 1987).

Essa racionalidade objetiva uma maior concentração de capital, princípio elementar do capitalismo, em fase incipiente nesse período. Em outras palavras, a partir da Revolução Industrial ocorre, sobretudo, a separação dos atos da concepção e execução, além da necessidade vital pela acumulação do capital. Visando isso, a indústria dará início a um planejamento para introduzir racionalidade no processo produtivo (Braverman, 1987).

Destarte, conclui-se que o elemento de grande destaque nesse cenário industrial é o processo de trabalho, no qual as maiores repercussões se dirigem aos trabalhadores. Isto porque as relações e a organização do trabalho com as modificações a que estão sujeitos, têm como objetivo obter mais vantagens e lucros, que não se destinam à classe trabalhadora.

O pós Revolução Industrial traz à cena novas configurações organizacionais ao processo produtivo, dentre as quais destacam-se o taylorismo, o fordismo, a acumulação flexível e o atual processo de reestruturação produtiva, em curso nas empresas. Cada uma destas inovações empreendem repercussões específicas na esfera produtiva e gerencial, de modo que se refletem não só no processo produtivo, mas, de forma compulsória, refletem-se também na saúde física e mental dos trabalhadores envolvidos.

Em consonância com esse processo de reformulações econômicas e mundiais, alguns setores de prestação de serviço que, por suas particularidades, segundo preceitos de universalidade no atendimento adquiriam, após a Segunda Guerra Mundial, o caráter de monopólios estatais naturais (Rosa e Tolmasquim, 1996). Os principais serviços, que são denominados de serviços de rede e que atendem a essas características, são o de telecomunicações, gás e o de energia elétrica (Assis, 1997).

O apelo à entrada desses setores nos princípios e bases concorrenciais, tem justificativas específicas no contexto macrossocial do País em que serão aplicados, ou seja, as privatizações e o conseqüente reordenamento do Estado, atendem a justificativas diferentes. Quanto a isso, Assis (1997) argumenta que se deve considerar questões como: o que privatizar, para que privatizar e como privatizar. Todavia, o autor aponta também que, apesar das diversidades, existem alguns objetivos em comum nos programas privatizantes.

"Entretanto, independentemente das diferenças políticas e sociais entre os países, há uma convergência de fundo quanto aos objetivos centrais dos programas de privatização. Em todos, sem exceção, figuram entre as prioridades a questão fiscal, a promoção da concorrência, a busca da eficiência e competitividade, a atração de investimentos privados para os setores de infra-estrutura etc. O que costuma diferir é a ordem dessas prioridades" (Assis, 1997, p. 167).

A problemática dos paradigmas e justificativas adotados pelo Brasil para o programa de privatizações, tem como elemento norteador a crise fiscal. Na busca por fazer "caixa", o governo federal vem consolidando um processo de privatização de algumas empresas de importância estratégica, não só do ponto de vista de sua importância econômica, mas também por sua imprescindibilidade para o bom andamento da vida moderna e em sociedade.

Essas empresas pertencentes aos setores de infra-estrutura resultaram de pesados e contínuos investimentos do Estado para garantir o suprimento dos serviços, já que, em mãos da iniciativa privada, havia um déficit entre a produção e a demanda.

Reverenciou-se os serviços de gás, as telecomunicações e o setor petroquímico como imprescindíveis para o alavancamento do Brasil rumo ao desenvolvimento. No período desenvolvimentista nacional, as políticas governamentais estavam baseadas na implantação de um parque industrial, que para funcionar, necessitava de infra-estrutura. Foi dentro desse processo que o setor elétrico passou por grandes mudanças e gozou da atenção e investimentos estatais, já que em mãos da iniciativa privada, a indústria de energia elétrica já não atendia à demanda de modo satisfatório.

"É oportuno lembrar que, do início do século até o começo do governo Kubistcheck, os grupos estrangeiros e as empresas nacionais que dominavam o setor elétrico não se interessavam em expandir o sistema para capacitá-lo a alimentar o desenvolvimento industrial. Por isso, em 1960, o governo foi praticamente forçado a entrar no setor, ampliando-o e modernizando-o. Hoje, o sistema elétrico brasileiro, que era exíguo e de baixa confiabilidade, alçou-se à categoria de um dos mais extensos e avançados do mundo" (Carvalho, 1998, p. 1).

No momento inicial, importávamos tudo, desde tecnologia para a implantação do sistema à mão de obra para realizá-la e os equipamentos. Depois do investimento estatal, chegamos a ser exportadores de todo esse aparato para outros países latino-americanos (Carvalho, 1997). O sistema de distribuição de energia elétrica chegou a um nível de confiabilidade, em que os índices de DEC (duração [em horas] equivalente de interrupção por consumidor do conjunto considerado) e FEC (freqüência equivalente de interrupção por consumidor do conjunto considerado) tornaram-se os mais baixos do mundo.

Entretanto, muitos outros elementos de cunho político-econômico contribuíram para que, ao final da década de 80 e no decorrer da década de 90, surgissem novas configurações à economia brasileira. Dentre esses fatores, os mais algozes são conseqüentes dos princípios neoliberais, onde muitas conquistas no campo desses serviços vieram a passar por inúmeras transformações.

Considerando essas assertivas, temos como propósito, no próximo item, problematizar algumas destas questões, tendo como elemento central o esboço do cenário em que se deu o processo de privatização do setor elétrico no Rio de Janeiro e o caso da CERJ - Companhia de Eletricidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

1.2 - A Construção do Objeto de Estudo

As novas oportunidades tecnológicas e o estabelecimento de novas bases concorrenciais, através da globalização e da possibilidade de instauração de alianças entre o capital de diversos países, conduz a um questionamento da viabilidade de continuação do modelo de intervenção estatal. Visando essas novas bases, instaura-se uma série de propostas de modificações que estão culminando num processo de reestruturação dos serviços de infra-estrutura, principalmente. Nesse sentido, o Brasil, segundo perspectivas diferenciadas dos modelos de reestruturação dos países desenvolvidos, inicia o processo de desestatização de empresas de serviços estratégicos.

A estatização do setor elétrico, enquanto modelo predominante por cerca de 30 anos, tinha como perspectiva algumas especificidades da prestação desse serviço. A energia elétrica é uma atividade de natureza não-estocável e que está sujeita a uma obrigação legal de fornecimento, atendendo à universalidade do atendimento, segundo princípios da cidadania e justiça social (Rosa & Tolmasquim, 1996).

Esse atendimento se estende a áreas carentes e de baixa rentabilidade e nas regiões em que os picos de consumo são sazonais. Os altos investimentos exigidos para a distribuição de energia elétrica diante das particularidades regionais, torna o fornecimento de energia uma área de instabilidade e um risco para a iniciativa privada. Por conta dessas particularidades, o setor elétrico era organizado e administrado como monopólio estatal natural (Tolmasquim & Pires, 1996).

Na verdade, com o processo de reestruturação dos mercados, é imposta uma redefinição das lógicas que envolvem as relações de trabalho, dentro de uma perspectiva de acumulação capitalista. Neste aspecto Netto (1996) enfatiza que:

"Parece assente que conjunturas (e a palavra não se refere apenas a lapsos temporais de curta duração) de rápidas e intensas transformações societárias constituem o solo privilegiado para o processamento de alterações profissionais - seja o redimensionamento de profissões já consolidadas, seja o surgimento de novas atividades e ramos profissionais. O fenômeno, enquanto tal, nada tem de enigmático: as transformações societárias, reconfigurando as necessidades sociais dadas e criando novas (Heller, 1978), ao metamorfosear a produção e a reprodução da sociedade, atingem diretamente a divisão sociotécnica do trabalho, envolvendo modificações em todos os seus níveis (parâmetros de conhecimento, modalidades de formação e de práticas, sistemas institucional-organizacionais etc.)"(Netto, 1996, p.p. 88-89).

Ou seja, no caso específico da CERJ, a sua privatização imprime com mais relevo uma prática que já existia, mas que se intensifica a partir de então, que é o processo de terceirizar os serviços de manutenção e distribuição de energia elétrica no Rio de Janeiro.

Tendo este cenário como perspectiva, o estudo ora proposto pretende levantar alguns dos principais impactos do processo de privatização da CERJ sobre as condições de vida e trabalho dos trabalhadores nela empregados e que, por força da reestruturação do setor, da terceirização dos serviços para a CERJ em conseqüência à demissão em massa, vieram a se realocar em outras empresas - empreiteiras e cooperativas.

Temos como pressuposto o fato de que esses trabalhadores, ainda que exercendo a mesma atividade, o fazem sob condições adversas. Este é o ponto central de questionamento que se busca desenvolver: estando em um empresa recém privatizada ou em mercado de trabalho terceirizado, quais as possíveis implicações dessa mudança e a correlação desta última com as atuais condições de vida e trabalho destes trabalhadores. Essa indagação ocorre porque alguns eletricitários, apesar de estarem em empresas diferentes, na verdade são submetidos a ordenamentos e chefias que eram do quadro estatal e que continuaram na empresa, só que agora privatizada e sob condições diferenciadas.

Vivemos um momento na história em que alguns retrocessos, em termos de legislação trabalhista, estão sendo evidenciados. Ou seja, direitos adquiridos pela sociedade e pelos trabalhadores estão sendo desrespeitados, quando não eliminados, frente à atual perspectiva neoliberal, que prega o papel do Estado com menos atribuições no âmbito das políticas sociais.

"O mais amargo nesses anos recessivos é que exatamente os poucos avanços sociais conquistados no passado, como a educação pública gratuita e os serviços governamentais de saúde, vêem-se ameaçados, projetando sombrias expectativas para o futuro" (Guimarães, 1991, p. 93).

Além desta constatação, vê-se que, frente à reestruturação produtiva, os sindicatos de base estão perdendo força em seu poder de representação, conseqüência da fragmentação da classe trabalhadora, por sua vez absorvida pelas empresas que terceirizam serviços e, consequentemente, acarretando desmobilização.

Este contexto de fragmentação da categoria dos eletricitários, bem como a redução da representatividade organizacional, se torna profícuo para os novos dirigentes da CERJ. Sabe-se que têm ocorrido denúncias de precarização das condições de trabalho dos eletricitários, agora inseridos em uma outra realidade produtiva mas, muitas denúncias não alcançaram caráter de oficialidade.

Estas denúncias apontam questões como o aumento da jornada e do ritmo de trabalho, o não fornecimento dos equipamentos de segurança, instalações e viaturas que são utilizadas em condições inadequadas, o não cumprimento dos direitos adquiridos - como o pagamento de horas extras, por exemplo. Cabe salientar que tais denúncias não se referem somente aos trabalhadores inseridos em empresas contratadas pela CERJ; essa realidade também é vivenciada por quem ainda continua na empresa. Esses dados são também levantados pelos próprios trabalhadores, alguns dos quais abordados e que subsidiaram a construção deste estudo.

O poder de representatividade dos sindicatos do setor elétrico fluminense também foi profundamente abalado em suas bases. A demissão em massa dos eletricitários, a conseqüente inserção de grande parte desses trabalhadores em empresas que prestam serviço terceirizado a CERJ a falta de respostas do sindicato a esses trabalhadores sobre suas questões trabalhistas pendentes e a morosidade da justiça em decidir os processos da categoria, são alguns dos possíveis fatores que podem conduzir a um descrédito das bases pela sua representação sindical e que conduzem a um esvaziamento das assembléias, e portanto, da voz da categoria.

Adendo a isso, com a perda de representatividade, a categoria também perdeu espaço na mídia e, consequentemente, as informações à sociedade se limitam aos prejuízos e ao questionamento da qualidade da prestação do serviço. Cabe ressaltar que, nos meios de comunicação de massa, não foram levantadas as atuais condições de trabalho desta categoria, os questionamentos acerca das situação dos eletricitários, se restringiram ao âmbito acadêmico ou à entidades de abrangência restrita e específica, o CREA, por exemplo.

Ou seja, o desrespeito ao trabalhador, que também é um consumidor, não foi expresso aos demais setores da sociedade, a não ser pelo prisma da desvalorização da categoria dos prestadores de serviços públicos, sendo veiculada a suposta ineficiência e qualidade duvidosa da prestação do serviço, como justificativa para um processo de desestatização. Estes foram alguns dos argumentos que o governo utilizou para justificar a privatização destas estatais. Por vezes apareceu, mais na mídia escrita que falada, o aumento do número de acidentes de trabalho; ainda assim estas informações não tiveram muita repercussão.

O desenvolvimento desse estudo não prescinde de abordar, ainda que sucintamente, uma série de questões relevantes para o debate da perspectiva governamental de desestatização de empresas que prestam serviços ditos estratégicos.

As conseqüências da privatização afetam mais e diretamente os trabalhadores do setor de distribuição de energia elétrica. Entretanto, a sociedade como um todo foi bastante atingida. A não definição prévia de uma legislação específica para regular o setor comprometeu, e pode comprometer ainda mais, a qualidade dos serviços e o cumprimento das obrigações definidas nos contratos de concessão destas concessionárias de energia elétrica.

A assertiva supracitada se torna ainda mais relevante se levarmos em conta que o Rio de Janeiro, hoje, conta com um setor de distribuição de energia elétrica totalmente em poder do capital privado. Outro ponto a ser discutido é a diminuição de postos de trabalho direto e indireto. O repasse da concessão de exploração deste serviço para o capital privado e estrangeiro traz, como outra conseqüência, a importação crescente do ferramental e materiais utilizados para a realização do trabalho na indústria de energia elétrica.

O item seguinte trará como enfoque as considerações metodológicas, onde serão mencionadas a metodologia e as técnicas utilizadas. Serão apresentados os passos que orientaram a construção deste trabalho, bem como o aporte teórico que o orientou e conduziu. Neste momento, também será descrito o processo de ida a campo e a abordagem aos trabalhadores entrevistados.

 

1.3. - O Universo da Pesquisa

O universo a ser estudado é composto por trabalhadores pertencentes ao setor elétrico, que foram, ou ainda são, funcionários da CERJ. Tivemos como critério delimitador da população a ser investigada, algumas características a saber:

1)Ter sido funcionário da CERJ por cinco ou mais anos.

Este critério tem como finalidade uma melhor descrição do processo de trabalho na CERJ, podendo fazer uma avaliação, comparando o trabalho na CERJ estatal, com seu trabalho a partir da privatização da CERJ. Além disto, outro elemento delimitador dos atores a serem abordados, é o fato de ocuparem um destes três cargos definidos: encarregado de turma, eletricista e almoxarife:

  1. A função do encarregado de turma foi selecionada porque é um cargo, em que se é subordinado a um chefe e também tem seus subordinados; além disto, ele é o responsável pela manutenção e controle dos ferramentais de trabalho e dos equipamentos de segurança coletivo, durante a jornada de trabalho. Para chegar a esse cargo, este profissional passou por uma série de qualificações; sendo assim, ele poderá descrever as condições de trabalho, a relações de trabalho chefias/ subordinados/ chefia.
  2. O almoxarife foi a segunda categoria definida, como pretendemos levantar o processo de precarização das condições de trabalho, esta função, por estar lidando diária e diretamente com a entrada e saída de materiais do estoque, poderá nos fornecer um quadro avaliativo e comparativo entre a CERJ estatal e privatizada.
  3. Uma turma de trabalho no ramo de distribuição de energia elétrica pode ter de dois a dez trabalhadores. Sendo que em serviços de emergência, em geral, usam caminhonetes, são designados dois trabalhadores, um deles é impreterivelmente é um eletricista. Desse modo, em todas as turmas devem ter em sua composição o eletricista. Dependendo da obra, o auxiliar de eletricista pode ser dispensado, por isso a escolha do eletricista ao invés do auxiliar de eletricista.

2)Por fim, o último critério é o de que estes trabalhadores abordados estejam atualmente prestando serviço, seja na CERJ privatizada, seja em empreiteiras ou cooperativas que prestem serviço à dita empresa.

Algumas ressalvas a serem feitas dentro do universo das cooperativas, que é uma realidade bastante específica se comparada com as empreiteiras, são: i)a função de eletricista não é exercida por ex-funcionários da CERJ; ii) no âmbito dos que continuaram pertencentes ao quadro de pessoal da CERJ, não existiam mais profissionais que ocupassem o cargo de encarregado (no momento da pesquisa), uma vez que estes seriam mais idosos, teriam mais tempo de casa e estariam em tempo de se aposentar (alguns deles já aposentados no momento da privatização) sendo justamente estes os primeiros a serem desligados ou demitidos da empresa. Portanto, o número inicial que se pretendia alcançar era de 9 (nove) entrevistas, mas este número foi reduzido a 7 (sete).

 

 

Encarregado

Eletricista

Almoxarifado

Cooperativa

1

0

1

Empreiteira

1

1

1

CERJ

0

1

1

Quadro IV - Esquema das Entrevistas


Sucintamente, descrevemos, a seguir, algumas das principais características de cada uma destas funções.

O encarregado de turma ocupa uma função que se encontra concomitantemente, subordinada a outras chefias, sendo ao mesmo tempo, responsável pelos profissionais que compõem as turmas: os eletricistas e os ajudantes de eletricista. Com isso trabalham sob tensão, por serem cobrados e terem que cobrar. Os ocupantes deste cargo, diante dos momentos e realidades diferentes da reestruturação, vivenciaram diferentes circunstâncias.

Neste cargo, o profissional supervisiona a realização das tarefas, o correto uso das ferramentas e dos equipamentos de segurança. Entretanto, muitos destes profissionais acumulam duas funções, ficando também responsável pelo deslocamento das viaturas, ou seja, são também motoristas e/ou operadores de "muncks" ou guindautos. Além disso, os equipamentos coletivos de segurança, são também de sua responsabilidade. Os equipamentos de proteção coletivos (EPC’s) segundo classificação da empresa são: as viaturas, os equipamentos que são adaptados aos caminhões, por exemplo, as cestas dos guindautos para elevar o trabalhador até o local da realização da tarefa, as ferramentas de manobra e desligamentos de linha, dentre outros.

O eletricista é um profissional mais qualificado que o ajudante de eletricista. Este último, na realidade, executa as tarefas mais braçais e menos técnicas como poda de árvores, cava de buracos para colocação dos postes, entre outras. O eletricista recebe treinamentos específicos de, por exemplo, como lidar com redes de alta e baixa tensão, como montar um poste, como abrir e fechar as chaves dos transformadores para realizar manobras. Apesar dos ajudantes de eletricista ocuparem um dos últimos, senão o último cargo do nível hierárquico, deu-se preferência na abordagem dos eletricistas porque, dependendo do tipo de obra ou de serviço a ser realizado, pode-se não ter a necessidade de um ajudante, mas o eletricista é indispensável.

No caso do almoxarifado, buscou-se abordar um profissional responsável pela entrada e saída de material, para que assim fosse possível uma comparação entre a realidade da CERJ estatal e a das empreiteiras e cooperativa assim como da CERJ sob comando do capital privado. É importante enfatizar que, em termos da existência de peças e equipamentos para reposição em estoque, este é um profissional que ao ser abordado, e sendo responsável pelo almoxarifado da empreiteira e da cooperativa podendo nos fornecer um indicador do nível de degradação do sistema.

A empreiteira selecionada é uma das maiores, senão a maior e a melhor estruturada, que presta serviços à CERJ mesmo antes desta ser privatizada. A cooperativa selecionada o foi por ser a única legalmente estabelecida na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e a que estava em funcionamento, no momento da pesquisa.

Sucintamente, apresentamos, a seguir alguns dos elementos que se pretende levantar, por meio das entrevistas semi-estruturadas, que são merecedores de destaque, na construção do quarto capítulo dessa dissertação, que compreende o momento em que será privilegiada a fala dos trabalhadores sobre a privatização da CERJ.

  • O trabalho real em contraposição ao prescrito, por exemplo, procurando levantar as estratégias dos trabalhadores, diante da possível falta de material, podendo ter como resultados, os improvisos.
  • A existência de uma possível intensificação da jornada e do ritmo de trabalho, não acompanhada de proporcionalidade nos rendimentos do trabalhador, realidade vivenciada na CERJ privatizada, na empreiteira e na cooperativa.
  • A existência e a qualidade dos treinamentos, que visem o preparo dos profissionais que se inserem em empreiteiras e cooperativas.
  • O contexto das demissões dos funcionários, buscando levantar quais foram as principais modificações quanto aos direitos trabalhistas dos eletricitários.
  • PDI: Plano de Demissão Incentivada ou Plano de Demissão Imposta? Averiguar como aconteceu o processo de desligamento desses trabalhadores, no momento da privatização, e, principalmente buscar levantar se houve pressão interno sobre estes trabalhadores.

 

1.3.1. - A Ida a Campo

A entrada no campo, contou primeiramente, com uma entrevista, realizada com uma pessoa que ocupasse cargo de direção, para um conhecimento prévio da empresa e para que fosse viabilizada a entrada nesta, com vistas à abordagem aos trabalhadores. Preferiu-se iniciar pela CERJ, tendo como objetivo primeiro fazer um levantamento das principais empreiteiras e cooperativas que prestam serviço à CERJ.

De início, algumas dificuldades foram sentidas nesta marcação. Estes empecilhos e a conseqüente morosidade para a primeira entrevista, acabou contrariando o cronograma previamente estabelecido. A pretensão inicial era de que as entrevistas se realizassem entre os meses de julho e setembro, que, porém, se estenderam até o mês de outubro de 1998.

A abordagem a estes trabalhadores contou com o suporte de um questionário, com questões semi-estruturadas. Foi pedida autorização para que a conversa fosse gravada. Além disso, foram realizadas entrevistas também com pessoas diretamente relacionadas à direção das empresas. No caso da CERJ, conversou-se com a Gerência de Recursos Humanos. Na Cooperativa, com seu diretor executivo e, na empreiteira, com o diretor de obras elétricas. Exceto no caso da CERJ, pode se conhecer uma parte das instalações.

No universo das sete entrevistas, a de maior duração foi com o responsável pelo almoxarifado da empreiteira tendo durado cerca de 2h e 50 min; a mais curta foi com um encarregado da empreiteira durando cerca de 30 min.

Buscou-se, com a realização dessas entrevistas, levantar os principais elementos, captados junto ao discurso dos trabalhadores, que subsidiaram a principal parte da pesquisa, que contempla as principais e possíveis conseqüências da privatização da CERJ sobre as condições de vida e trabalho, dos trabalhadores envolvidos nesse processo.

O processo de seleção dos trabalhadores abordados seguiu algumas especificidades segundo suas diferentes inserções, a saber:

a)Na Cooperativa, no dia em que foi realizada a entrevista com o diretor executivo foi avaliada a possibilidade da entrevista com o almoxarife, o encarregado e o eletricista, tendo sido logo dito, que estes dois primeiros estavam presentes naquele momento. Então, quando fomos apresentados a estes trabalhadores, expliquei o objetivo do trabalho e logo se prontificaram a colaborar; a entrevista ficou marcada já para a semana seguinte.

b)Na Empreiteira, uma das primeiras providências foi a de avaliar a possibilidade de se levantar os ex-funcionários da CERJ, que eram contratados dela. Como não existia esse tipo de controle, um funcionário administrativo foi designado para, junto comigo, levantar essa lista, utilizando a folha de pagamento dos vales refeição, tentando levantar os nomes e funções. De posse dessa lista, entrei em contato com o responsável pelo almoxarifado. O eletricista abordado e o encarregado foram selecionados pelo tempo de casa da CERJ e a entrevista foi marcada logo no primeiro contato que tive com eles.

c)Na CERJ, o processo foi mais delicado. O eletricista foi indicado por uma pessoa conhecida que forneceu o meio de contato. Ao se realizar o contato, logo de início, o trabalhador se prontificou e marcou a entrevista, em sua própria residência. Foi por meio dele que obtive o contato com o almoxarife pertencente ao quadro de efetivos da CERJ.

Para finalizar, buscaremos expor algumas das principais dificuldades sentidas para a concretização deste trabalho, dentre as quais, algumas acabaram por suscitar novos questionamentos acerca da temática levantada.

O levantamento de algumas informações circunscritas ao atual quadro organizacional e gerencial da empresa, bem como a ida ao campo contou com algumas dificuldades. Mesmo tendo ido à empresa e conversado com algumas pessoas, não foi possível conseguir o número de funcionários efetivos da área técnico-operacional e nem o número atual de trabalhador por consumidor. Como hipótese, poderíamos concluir que a descentralização conseqüente à terceirização impede esse tipo de controle, já que se trabalha com muitas empreiteiras e cooperativas, com uma alta rotatividade nas primeiras. No momento da pesquisa, o número de efetivos estimado, segundo fala dos próprios trabalhadores abordados, é de cerca de 3% do quadro de pessoal técnico-operacional.

Outra dificuldade sentida foi a de encontrar referenciais bibliográficos ligados a problemática central deste estudo. Ou melhor dizendo, algumas bibliografias concernentes à reestruturação do setor elétrico, desde seus precursores, que foram os ingleses, ou mesmo a reestruturação do setor elétrico no Brasil, foram encontradas. No entanto, com exceção do estudo realizado na CEMIG (Companhia de Eletricidade de Minas Gerais) que abordou a questão da reestruturação na visão dos trabalhadores desta empresa, todas os outros se remetiam ao cenário mais amplo do processo de redefinição do papel do Estado nestes setores e suas conseqüências.

Frente a estas contingências circunstanciais, sentiu-se a necessidade de estar buscando informações em jornais de grande circulação e alguns artigos, alguns dos quais obtidos com o recurso de acesso à rede internacional de computadores, a internet.

A partir dessas colocações, cabe salientar que não se pretende com este estudo esgotar todas as temáticas relacionadas ao tema central, nem mesmo quanto à realidade específica vivida pelos trabalhadores das empresas investigadas, uma vez que se trata de uma dissertação de mestrado a ser realizada num tempo determinado, até mesmo por que o sujeito e o objeto do estudo - as possíveis correlações das atuais condições de vida e trabalho dos ex-funcionários desta empresa estão em pleno desenrolar no decurso da realização deste trabalho.

Ressalte-se, ainda, que é perfeitamente possível que haja mudanças ou conclusões de assuntos peculiares aos envolvidos, alguns dos quais abordados na ida a campo. Por exemplo, um dos trabalhadores, quando foi entrevistado, era um aposentado não complementado, ou seja não recebia da BRASILETROS a complementação de sua aposentadoria para continuar recebendo o equivalente a 100% do último salário da ativa. Depois de um pouco mais de uma semana da entrevista, saiu sua complementação salarial, tendo ele me comunicado isso com bastante emoção. Entremente, um erro bastante grave, cometido quando da realização das entrevistas, foi o de não se questionar sobre as considerações que estes trabalhadores teriam sobre sua representação sindical; ainda que, mesmo sem perguntar, alguns tenham se referido a este assunto.

 

1.4 - Justificativa

Para finalizar este capítulo introdutório, esclarecemos que o interesse pelo tema advém de um envolvimento pessoal bastante forte com a categoria dos trabalhadores da CERJ, uma aproximação, entretanto, permeada por uma série de indagações e questionamentos acerca da privatização e o resultado desta para esses trabalhadores. Frente a esta assertiva, tenta-se fazer com que essa vivência mais aproximada com a realidades desses trabalhadores se apresente como um desafio e não como um entrave à investigação.

À luz da ciência positivista, estaríamos diante do paradigma da neutralidade científica, do afastamento do objeto de estudo. Entretanto, não pretendendo assumir tal postura mas tentando trazer o tema à ciência, buscou-se, ao longo do desenvolvimento deste trabalho, desde a elaboração do projeto, ter a preocupação de "saber separar as coisas", o que era pessoal, por conta da aproximação com a realidade de alguns eletricitários - e o que realmente afligia a categoria dos eletricitários. Mas, deste desafio se pretende tirar a cientificidade do problema.

Através de um exercício de reflexão contínua e de alguns alertas de outros profissionais e do orientador, esse fato constituiu uma dificuldade que se buscou superar, para que esse esforço trouxesse como resultado um trabalho que mostre as atuais condições de vida e trabalho dos trabalhadores do setor elétrico em Niterói e São Gonçalo, numa realidade diferenciada, que é a do setor totalmente privatizado.

Cabe ressaltar que esta investigação não pretende ser um elemento denunciador de amplo alcance, por ter características próprias ao contexto de sua realização - uma dissertação - e que será disposta em uma biblioteca e, portanto, disponível para um público restrito. Tem-se, portanto, como proposta, trazer essa realidade para a discussão, uma vez que a reestruturação pesquisada é recente e muitas de suas repercussões serão sentidas com o passar do tempo. Mas, acima de tudo, apesar de não ser um estudo representativo em termos quantitativos, ele se pretende uma demonstração qualitativa de como esses trabalhadores viveram a privatização e as conseqüências desta sobre suas atuais condições de vida e trabalho. À luz destas problemáticas é que o próximo capítulo, ocupar-se-à dos referenciais teóricos que embasaram a construção e a discussão desta pesquisa.

 

 
 
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