HomeLista de Teses >  [DA BIBLIA A PSICANALISE: SAUDE, DOENCA E MEDICINA ...]


 

Scliar, Moacyr Jaime. Da Bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 168 p.

8 - PSICANÁLISE, JUDAISMO, LITERATURA

Freud pressentiu que a psicanálise seria considerada "ciência judaica", e tratou de evitar o ominoso rótulo. A presença de Jung no seu grupo era importante para isto. Médico conhecido, brilhante intelectual e, por último mas não menos importante, descendente de uma família de pastores protestantes, Jung era a figura indicada para neutralizar o estigma judaico que ameaçava a psicanálise. Freud procurou inclusive mediar a rivalidade entre Karl Abraham e Jung, pedindo ao primeiro que fosse tolerante e mesmo resignado: argumentava que, para os judeus progredirem, até mesmo um pouco de masoquismo seria necessário (Gay, op.cit., p.198).

Uma coisa, contudo, é a postura de Freud e outra é a psicanálise - cuja hora, na cultura ocidental, havia chegado. De fato, uma coisa que podemos nos perguntar é: por que tanto tempo teve de decorrer antes que esta forma de investigação e terapia fosse codificada e aplicada? Diferente de outros tipos de tratamento (a radioterapia, a quimioterapia), a psicanálise não dependia de avanço tecnológico. Não usa recursos sofisticados, não depende de equipamento, de laboratório, de drogas - o divã, que é seu clássico instrumento, está ao alcance da humanidade há séculos. Sófocles, que escreveu uma peça sobre o Édipo, poderia ter buscado evidências de conflitos edipianos nas pessoas de seu tempo; por que não o fez? A resposta só pode ser uma: não se haviam criado as circunstâncias históricas, sociais e culturais capazes de fazer emergir a psicanálise. Quando tal se deu, ela veio a se tornar um verdadeiro clima de opinião, um componente da cultura. Isto explica - para citar o exemplo mais evidente - o sucesso da psicanálise nos Estados Unidos, país a respeito do qual, aliás, Freud tinha restrições, em parte por ser europeu e detestar a riqueza recém-formada além-mar, mas em parte também por que suspeitava do "puritanismo do Novo Mundo" (Gay, op.cit., p.200). Tratou, porém, muitos colegas norte-americanos, e estes, a partir dos anos vinte, introduziram a psicanálise nos Estados Unidos. Em meios judaicos, a nova especialidade foi recebida com reverente admiração. Os judeus já não eram mais os recém-chegados emigrantes, lutando para sobreviver. Uma classe média surgira entre eles, com poder aquisitivo para pagar o tratamento, que aliás não era barato: especialidade essencialmente médica, em seu início, os preços eram os de consultório médico, bastante elevados.

Mas não se tratava só de terapia. A psicanálise, tal como o marxismo, correspondia a uma visão de mundo - a visão de mundo que os jovens não-religiosos procuravam ansiosamente. Tanto marxismo como psicanálise tinham raízes no Iluminismo (Robinson, 1971, p.4). Isto não impediu que uma cisão logo se estabelecesse. Freud era uma figura anti-estabelecimento, mas tinha pouca simpatia pelo socialismo (Gay, op.cit., p.496). De outra parte, os marxistas ortodoxos levantaram contra a psicanálise a suspeita de subjetividade ou de psicologismo: a análise social estaria sendo reduzida à análise individual, a revolução estaria sendo confundida com terapia (Jacoby, 1977, p.104). É verdade que marxistas como Wilhelm Reich foram atraídos pela psicanálise, mas acabavam ficando marginalizados. Na União Soviética de Stalin a psicanálise foi relegada ao esquecimento.

Apesar destas barreiras, contudo, as afinidades permaneciam, e não era por outra razão que militantes desiludidos com o comunismo procuravam, através da análise, entender o trauma pelo qual haviam passado. Eram, como disse Koestler no seu amargo desabafo ao deixar o Partido Comunista, os "acrobatas veteranos que tinham perdido o seu equilíbrio dialético" (Koestler, 1952, p.54) e que buscavam, no divã, recuperar este equilíbrio.

No caso dos jovens judeus há dois elementos adicionais. Em primeiro lugar, a progressiva secularização do judaísmo. Para muitos, a perda da religião representa um vácuo, sobretudo porque o indivíduo fica privado dos mecanismos de expiação da culpa. Estes são mais eficientes no caso do cristianismo, com a confissão, a penitência, sem falar no martírio, mas também estão presentes em razoável grau nos rituais do judaísmo religioso, o Yom Kippur, Dia do Perdão, sendo disto o exemplo maior.

O segundo elemento, provavelmente mais importante, é o conflito com os pais. O filho de emigrantes guarda com seus genitores uma relação peculiar. De um lado esta relação envolve amor filial, confiança, admiração. De outra parte, porém, os jovens têm a clara consciência de que os pais são diferentes dos nativos do país: falam de maneira diferente, têm costumes diferentes - são gringos, enfim. Mais: por causa da insegurança, colocam nos filhos grandes expectativas, como o mostrou o texto de Roth acima citado. Conflitos edipianos aí emergem facilmente e o recurso à psicanálise é apenas natural.

No anedotário judeu contemporâneo a psicanálise aparece com muita freqüência. As histórias são de dois tipos: sobre as pessoas que consultam os psicanalistas (ou suas mães, como logo se verá) e sobre os psicanalistas propriamente ditos. As primeiras refletem a perplexidade (às vezes deslumbrada, às vezes encantada) de pessoas simples com uma atividade que não chegam a entender bem.

Aconselhada pelo clínico geral uma mãe judia leva o filho adolescente para consultar um psicanalista. Depois da sessão ela pede para o rapaz esperar fora, volta-se para o médico e o intima:

"- Diga a verdade, doutor, o que é que o meu filho tem?

- Nada de mais. Ele sofre apenas de complexo de Édipo, que-

- Complexo de Édipo? - interrompe ela, aliviada.- Quem se preocupa com complexo de Édipo? Desde que ele ame a mãe dele, tudo bem!"

 

Ou esta outra, que também ao alude ao status representado pelo caro tratamento psicanalítico nos Estados Unidos.

 

Três senhoras judias estão na praia, em Miami Beach, falando sobre seus filhos:

 

"- Meu filho - diz a primeira, orgulhosa - todos os anos me traz aqui para Miami, hospeda-me no melhor hotel, paga todas as contas e ainda manda me buscar de avião.

- Pois o meu filho - diz a segunda - comprou-me um apartamento duplex em Nova York e todos os anos me lava a passear pela Europa.

- Pois o meu filho - diz a terceira - vai quatro vezes por semana ao psicanalista. Cada vez paga cem dólares, e sabe de quem ele fala? De mim!"

 

Numa outra historieta, psicanalista e mãe judia fundem-se. Paciente entra angustiado no consultório do anamista. Atira-se no divã e conta que teve um sonho horrível: via sua falecida mãe levantar-se do túmulo – e ela tinha o rosto do terapeuta: "O senhor era minha mãe, doutor!" E conclui, angustiado: "Saltei da cama, tomei uma Coca Cola e vim correndo para cá." "Coca Cola" , diz o psicanalista com ar reprovador, "isto é café da manhã?"

Escritores judeus contemporâneos também usam a psicanálise como tema de seus livros. Psicanálise e literatura têm muito em comum no lidar com as emoções humanas de modo que, ao menos em décadas passadas, o psicanalista freqüentemente aparecia na ficção como guia ao personagem e ao leitor nos labirintos do inconsciente. Complexo de Portnoy, de Philip Roth simula uma longa sessão de psicanálise, na qual, entretanto, o terapeuta não participa, a não ser na frase final. Woody Allen (Allen Stewart Konigsberg, nascido em 1935) faz da psicanálise um leitmotiv de seu humorismo. Conversações com Helmholz, texto que aparece na antologia Cuca Fundida (Getting Even) é um bom exemplo. Nele, somos apresentados ao Dr. Helmholz, contemporâneo de Freud, e "...conhecido por suas experiências sobre o comportamento, nas quais mostrou que a morte é um traço adquirido." Helmholz tem vários depoimentos a dar sobre o pai da psicanálise, falando inclusive de uma de suas pacientes, uma histérica com "paralisia nasal", que a impedia de "imitar um coelho quando tinha vontade":

 

"Freud analisou-a em inúmeras sessões mas, em vez de ficar fixada nele, ela ficou fixada num cabide do consultório(...). No dia em que ela fugiu com o cabide, Freud jurou que abandonaria a profissão. De fato, durante algum tempo chegou a pensar seriamente em tornar-se um acrobata, só desistindo depois que Ferenczi o convenceu de que ele nunca aprenderia a dar cambalhotas muito bem."

 

Helmholz também fala dos conflitos no círculo freudiano:

"Todos brigavam por causa de Freud. Rank tinha ciúmes de Jones. Jones tinha ciúmes de Brill. Brill tinha tantos ciúmes de Adler que chegou a esconder suas galochas. Certa vez Freud achou um puxa-puxa no bolso e deu um pedaço a Jung. Rank ficou furioso. Queixou-se de que Freud estava protegendo Jung."

 

Por fim, o próprio Helmholz briga com Freud. "A morte de Freud", explica o narrador, "foi, segundo Ernst Jones, o fato que provocou a separação definitiva entre Helmholz e Freud. Os dois raramente se falaram depois disso."

Helmholz não tem muita consideração pela psicanálise contemporânea, "um mito mantido vivo apenas pela indústria dos divãs":

"Esses analistas modernos! Cobram muito caro. No meu tempo, por cinco marcos, o próprio Freud o analisaria. Por dez marcos, não apenas o analisaria, como passaria suas calças a ferro. Por quinze marcos, Freud deixaria que você o analisasse." (Allen, 1978, p.120-128).

Psicanálise é o tema de um dos romances fundamentais deste século, A Consciência de Zeno, de Italo Svevo, um texto sobre o qual vale a pena deter-se em maior detalhe, partindo primeiro da singular figura de seu autor.

Italo Svevo foi o pseudônimo adotado por Aron Hector (ou Ettore, como era chamado na família) Schmitz (1861-1928). Como Sigmund Freud, era filho de um negociante. E, como Freud, nasceu numa cidade que era uma encruzilhada de culturas, Trieste, importante centro comercial do império austro-húngaro onde, diz Norbert Jonard, autor de importante estudo sobre Svevo, cruzavam-se "todos os povos, todas as línguas, todas as religiões" (Jonard, 1969, p.10). A cidade tinha uma grande e próspera comunidade judaica, formada sobretudo por comerciantes e industriais de origem eslava ou, como no caso do pai de Svevo, Francesco Schmitz, alemã. Trieste era um lugar politicamente conturbado. Havia na cidade um forte movimento pela unificação com a Itália, movimento do qual Francesco Schmitz, de origem renana, mas casado com uma italiana, fazia parte. Os conflitos étnicos traduziam-se na confusão de idiomas. A língua oficial era o alemão; mas boa parte da população falava italiano, o esloveno, o croata. É fácil imaginar os problemas de identidade enfrentados pelo jovem Ettore, problemas estes que já aparecem em seu nome que evoca Arão, meio-irmão de Moisés e seu companheiro na liderança dos hebreus, e Heitor, o herói da Ilíada (é significativo que a família tenha preferido Ettore, ou Hector, a Aron). Os dilemas de identidade aparecerão também no pseudônimo que, depois de outros, o escritor veio finalmente a adotar: "Italo" refere-se à Itália e "Svevo" quer dizer suábio (da Suábia, parte da Alemanha). Uma coincidência que a Freud não passaria desapercebida é que as duas palavras têm cinco letras, tal como o nome e o sobrenome de Franz Kafka, cuja leitura Svevo descreveu como "revelação" (Kafka, é, aliás, o criador de um personagem, o Samsa de "A Metamorfose" também têm cinco letras e a mesma disposição de vogais e consoantes que o sobrenome de seu criador). Triestino, Ettore partilhava as aspirações nacionalistas de seus conterrâneos e, em particular, do pai - mas estas aspirações chocavam-se com suas simpatias socialistas pelo internacionalismo. Finalmente, havia o conflito o contraste entre a vocação literária e sua opção por uma carreira empresarial.

Como Kafka, Ettore era um jovem apegado à mãe (que se chamava, significativamente, Allegra), sensível, retraído, cuja figura contrastava - e de novo Kafka, e seu conflito com o pai, vêm à lembrança - com a do exuberante Francesco, que desejava o filho forte, robusto, para sucedê-lo nos negócios com a energia que estes exigiam. Apesar da oposição do pai que via na leitura um desperdício de energia, o jovem Ettore devorava as obras de Leopardi, Flaubert, Balzac, e também Spencer, Marx e Bebel; muito cedo começou também a escrever. Quando tinha dezenove anos, porém, o pai faliu, e ele se viu obrigado a buscar trabalho como correspondente de um banco de Viena. Mesmo assim continuou a escrever; ensaios, principalmente. Jonnard transcreve um trecho significativo de Otimismo e pessimismo(1887):

"Lemos que a vida é amor, glória, prazer, mas tudo se perde por um acidente insignificante... Avançamos de catástrofe em catástrofe. Dormimos sobre ilusões destruídas, desejos olvidados, renúncias a que somos imperiosamente constrangidos pelo meio, as pessoas, o tempo." (Jonnard, op.cit., p.25)

 

Este desamparo não corre apenas à conta da personalidade de Svevo. Como nota Jonnard, ele se inscreve no quadro da crise da burguesia européia, o mesmo quadro do qual emergiu um Freud. Expressa precocemente na literatura romântica, a crise resultava da contradição entre as promessas do Iluminismo e do liberalismo e a sombria realidade das cidades européias, onde miséria e doença eram uma constante; uma crise que eclodiu em movimentos como a Revolução de 1848 e a Comuna de Paris. No mundo das idéias, surgiu a filosofia pessimista de um Schopenhauer e a "sobrevivência do mais apto" de Darwin. Esta visão, aliás, foi importante no surgimento de uma nova escola literária, que veio substituir o esgotado romantismo: o naturalismo, do qual Émile Zola foi um expoente - e cuja influência é visível na obra do jovem Svevo. O propósito de Zola era estudar a sociedade à semelhança de um naturalista, levando em conta fatores biológicos, como a hereditariedade, um propósito que também animava Svevo.

Em 1895 morreu-lhe a mãe. No mesmo ano casou, aparentemente para ter alguém que o amparasse, com a filha de um industrial de vernizes, em cuja empresa viria a trabalhar - aliás, com sucesso: inventou um verniz resistente à água muito procurado à época da Primeira Guerra, quando foi adquirido em grandes quantidades por todos os países beligerantes, o que, entre parênteses, acarretou a Svevo problemas de consciência. De outra parte, a confortável situação financeira tinha como contrapartida uma morna rotina conjugal. O resultado disto foi que, em termos de realização pessoal, escrever tornou-se, para ele, decisivo "Não há salvação fora do texto", declarou (Wigoder, op.cit., p.508).

O século vinte foi marcado por uma tríade de escritores verdadeiramente revolucionários: Marcel Proust, Franz Kafka e James Joyce. Svevo conhecia os dois primeiros através de leitura; de Joyce, ficou amigo, graças a uma feliz coincidência. Contratado pela Escola Berlitz para lecionar inglês, Joyce veio morar em Trieste, acompanhado de sua esposa, Nora Barnacle. Svevo tornou-se seu aluno. A afinidade entre ambos foi imediata, e logo estavam intercambiando textos literários. Joyce já tinha então o projeto de escrever Ulysses, cujo principal personagem é o judeu Leopold Bloom. Stanislas Joyce, irmão do escritor, contou em uma conferência que o escritor interrogou repetidamente Svevo acerca da condição judaica em busca, supõe-se, de elementos para criar a figura de Bloom (Jonard, op.cit., p.156). Svevo, a propósito, não era judeu praticante (de fato, chegou a converter-se ao catolicismo), embora tivesse consciência de sua condição judaica; como disse a um amigo, numa época em que o conceito de raça estava em ascensão: "Não é a raça que faz um judeu, é a sua vida" (Dego, 1997, p.14).

Uma outra descoberta importante foi a obra de Freud, que Svevo começou a ler em 1908. Foi uma verdadeira revelação. Svevo falou sobre o assunto a Joyce que, contudo, não se mostrou impressionado: nós, os católicos, disse, não precisamos disto, nós temos a confissão ( Jonard, op.cit., p.156). Apesar de seu entusiasmo pela psicanálise, Svevo não se analisou. Poderia tê-lo feito; era bom amigo do único psicanalista de Trieste, o Dr.Weiss; mas não quis. "O que ele temia, sobretudo, era a cura(...) Seria uma vitória do industrial Ettore Schmitz sobre o escritor Italo Svevo" diz Jonard. E cita, em apoio a esta idéia, um texto escrito pelo próprio Svevo para um jornal londrino:

"Eu era sadio, ou ao menos, eu amava tanto minha doença (se de doença se tratava) que queria preservá-la como forma de auto-defesa. O que foi interpretado por um freudiano que procurei como a dentada do animal que em mim existe no sentido de proteger a doença." (Jonard, op.cit., p.170)

 

Esta idéia, de que a doença tem de ser defendida pelo que tem de criativo, está longe de ser original. Ela remete a uma suspeita comum entre artistas - e as pessoas em geral - a saber, que neurose e criatividade estão indissoluvelmente associadas. "We of the craft are all crazy", disse Lord Byron: nós, do ofício, somos todos malucos, e acrescenta: "Some are affected by gaiety, others by melancholy, but all are more or less touched" alguns são afetados pela euforia, outros pela melancolia, mas todos são, em maior ou menor grau, atingidos (citado em Jamison, 1993, p.2). A "bela loucura" ("fine madness") teria o efeito de aumentar o poder da imaginação, intensificar as respostas emocionais além de fornecer a energia para um trabalho que muitas vezes pode ser desgastante. Tal concepção é antiga; Sócrates, por exemplo, falava na "loucura das Musas", um estado de profunda alteração da consciência e dos sentimentos, do qual brotava a criação artística: uma voz interior que Sócrates chama de daimon, e que é capaz de mobilizar o criador, de desviá-lo do que está fazendo, de impulsioná-lo com força irresistível. Este "demônio" servirá aliás como modelo para a psiquiatria do século dezenove em sua tentativa de igualar gênio e loucura (Brenot, 1997, p.14). Já Aristóteles citava especificamente a melancolia como fonte de inspiração, uma idéia que Robert Burton desenvolveria em sua Anatomia da Melancolia (Jamison, op.cit., p.50-52).

Que a criação artística é controlada por fatores inconscientes não há dúvida. Uma evidência disto é o chamado "bloqueio do escritor", a passageira ou duradoura incapacidade de produção literária. Como diz o poeta Stanley Kunitz (cit. em Nelson, 1993, p.2) "o ego edita, mas é o inconsciente que cria", e quando a comunicação entre o ego e o inconsciente está bloqueada por fatores emocionais, o processo de criação se interrompe, o que é causa de grande sofrimento. O tratamento da doença mental em pessoas criativas pode representar uma volta à "normalidade", mas se trataria, ainda segundo uma comum noção, da normalidade medíocre, estéril - um processo de acomodação. Quando alguém sugeriu ao pintor norueguês Edvard Munch, hospitalizado várias vezes por em hospitais psiquiátricos, que continuasse se tratando, o artista respondeu "Meu problema mental é parte de mim e de minha arte, que não existiria sem ele. Portando, prefiro continuar sofrendo." (Jamison, op. cit., p.241). Vários estudos mostram que a prevalência de depressão, de doença bipolar, é muito maior entre escritores, poetas e artistas do que na população em geral; igualmente maior é o risco de suicídio (Jamison, op.cit., p.88-90). Ligado a isto está o uso de drogas a que artistas recorreram, em várias épocas, buscando uma forma de mobilizar a chamada inspiração. Para isto tinham o exemplo do famoso episódio ocorrido com o poeta de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834). De acordo com sua própria versão (cit. em Nelson, op.cit., p.171-172):

"No verão do ano de 1797 o autor, então com a saúde debilitada, tinha se retirado para uma isolada fazenda entre Porlock e Lincoln. Em conseqüência de uma leve indisposição, um anódino foi prescrito, em conseqüência do quê adormeceu na cadeira no momento em que lia a seguinte frase, em ‘A Peregrinação de Purcha’: ‘Aqui Kubla Khan mandou que fosse construído um palácio, cercado por um magnífico jardim.’ Durante cerca de três horas o autor ficou imerso em profundo sono, durante o qual, está seguro, compôs não menos que duzentos a trezentos versos(...) Acordando, tomou a pena e rapidamente, furiosamente, escreveu as linhas que estão aqui preservadas. Neste momento, foi, infelizmente, chamado por uma pessoa com quem tinha um negócio em Porlock, que o reteve por uma hora; retornando à sua sala verificou para sua surpresa e mortificação que, embora retivesse alguma vaga e tênue lembrança da visão, tudo, com exceção de oito ou dez versos esparsos e imagens, tinha desaparecido."

 

O anódino que Coleridge tomou era ópio, então muito usado, inclusive por ele próprio. Este desconsolado texto mostra de um lado, a oposição entre o artístico e o prosaico, entre o sonho e a realidade; a óbvia sugestão é de que o ópio pode abrir as portas de um mundo mágico. O ópio era preferido pelos românticos, mas outras drogas o substituíram, mescalina, LSD, maconha. O uso destas acabava por revelar-se contraproducente. Como observa Anthony Storr: "Não há dúvida de que as drogas podem, temporariamente, prover acesso às fontes inconscientes da inspiração - mas seu uso habitual prejudica a criatividade" (Storr, 1972, p.265).

Em sua forma mais pura, diz Ernst Kris, a inspiração manifesta-se na esfera mágico-religiosa nas sociedades ditas primitivas. Sacerdotes, curandeiros e profetas - e depois poetas e artistas - buscarão o transe, no qual, sob ação de forças sobrenaturais, o poeta cantará seus versos e o profeta anteverá o futuro e o curandeiro expulsará os demônios da doença (Kris, 1952, p.202). Este modelo vai se perdendo à medida que a sociedade evolui, mas os criadores de todos os tempos continuam a mirá-lo nostalgicamente. Além das drogas antes mencionadas, a "escrita automática", que tem muito em comum com a associação livre freudiana, foi usada pelos surrealistas como forma de liberar a mente do controle do consciente.

Outras razões, que não o desejo de preservar o inconsciente para a criação literária, poderiam ter impedido Svevo de se analisar, a mais importante sendo a natural resistência que as pessoas têm a este tipo de terapia. De qualquer modo o interesse do escritor pela investigação psicológica de seus personagens já estava presente em dois romances, Uma Vida (1892) que descreve as obsessões de um humilde bancário fixado na mãe e incapaz de amar as mulheres, e Senilidade (1898), história de um homem traído que aceita com resignação a infidelidade da amante. Ambas as obras tiveram escassa repercussão e talvez por causa disto só em 1923, e graças ao estímulo de Joyce, Svevo viria a publicar aquela que é considerada a sua obra-prima, A Consciência de Zeno ("La Coscienza di Zeno").

O título é significativo: consciência não é só um termo que designa a dimensão ética de uma pessoa, é também a parte da mente que se opõe ao inconsciente, o lugar onde a criação adquire sua forma e também o lugar onde os conflitos da personalidade eclodirão. O nome escolhido para o personagem lembra o filósofo Zeno de Elea, que viveu no século quinto a.C. e é considerado o fundador da dialética. Dele conservaram-se vários "Paradoxos" em que se opõem o todo e a parte, o tempo e o espaço, o movimento e o do repouso, entre estes o conhecido paradoxo de Aquiles e da tartaruga (Dumont, 1973, p.88-89). Paradoxos não faltaram à vida e à carreira de Svevo - e de Kafka, e de Freud.

O "prefácio" de A Consciência de Zeno é escrito por um suposto psicanalista, o Doutor S. (uma abreviatura que tanto pode aludir a "Sigmund" como a "Svevo"). Diz esse doutor:

"Sou o médico de quem às vezes se fala neste romance com palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanálise sabe como interpretar a antipatia que o paciente me dedica.

Não me ocuparei de psicanálise porque já se fala dela o suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos da psicanálise torcerão o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho e eu supunha que com tal evocação o seu passado reflorisse e que a autobiografia se mostrasse um bom prelúdio ao tratamento. Até hoje a idéia me parece boa, pois forneceu-me resultados inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente, no momento crítico, não se tivesse subtraído à cura, furtando-me assim os frutos da longa e paciente análise destas memórias.

Publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou!... Doutor S." (Svevo, 1984, p.7)

 

O "prefácio" é explicável. Svevo tinha pedido ao Doutor Weiss que lesse os originais. Num primeiro momento o psicanalista ficou preocupado com a possibilidade de que o "Doutor S." fosse ele, Weiss (cujo sobrenome, aliás, contem duas vezes a letra "s"). Quando Svevo lhe garantiu que esse não era o caso, comprometeu-se a redigir sobre a obra um trabalho a ser publicado numa revista vienense de psicanálise - o que, acreditava Svevo, asseguraria o sucesso do livro. Chegou mesmo a imaginar que Freud lhe telegrafaria agradecendo por ter introduzido a psicanálise na literatura italiana. Mas, para sua surpresa, Weiss lhe disse que não poderia escrever sobre a obra, porque esta nada tinha a ver com psicanálise (Jonard, op.cit., p.169).

O "prefácio" pode, portanto, representar uma curiosa forma de agressão à psicanálise. O Doutor Weiss não quis saber do livro; mas foi um psicanalista, o Doutor S., quem induziu o paciente a escrevê-lo. O que, de novo, é apenas uma fantasia de Svevo. A psicanálise, como terapia, é eminentemente não diretiva; nenhum terapeuta "induziria" pacientes a fazer qualquer coisa. Agora: por que desejaria o Doutor S. que Zeno Cosini, o paciente, escrevesse sua autobiografia? Para que ela servisse de prelúdio, de ponto de partida para o tratamento, diz o prefácio. O texto estaria atrelado à terapia. Mas é o contrário que acontece: o romance se impõe, a arte derrota a técnica. Só que o doutor S. tem a última palavra: ele publica, sem autorização, ditas memórias. Vai ganhar dinheiro com isto, mas pode dividi-lo com o autor, desde que ele consinta em se tratar. É o sonho onipotente de todo neurótico: um psicanalista que implora para tratá-lo.

Ao "prefácio" do Doutor S. segue-se um preâmbulo de Zeno. A primeira frase é uma surpresa, e desanimada, indagação: "Rever minha infância?" Uma infância da qual está separado por "mais de dez lustros", e por "obstáculos de toda espécie"? Mas ele vai em frente: como o doutor deverá se ausentar de Trieste por algum tempo, terá de prosseguir só na tarefa de se analisar. E eis no que consiste sua análise: "O doutor recomendou-me que não me obstinasse em perscrutar longe demais. Os fatos recentes são igualmente preciosos, sobretudo as imagens e os sonhos da noite anterior. Mas é preciso estabelecer uma certa ordem..." (Svevo, op.cit., p.9).

Será? Será que é preciso estabelecer uma certa ordem? Num tratamento em que o princípio básico é o da livre associação? Não será esta "ordem" uma forma de resistência? Zeno prossegue: "... corri a comprar um compêndio de psicanálise e li-o no intuito de facilitar-me a tarefa. Não o achei difícil de entender, embora bastante enfadonho." (Svevo, op.cit., p.9)

Zeno assume, pois, dois papéis: o de analista (treinado pela leitura de um compêndio) e de analisando. Erroneamente ele supõe que análise é uma questão de conhecimento teórico, acessível em tratados de auto-ajuda. Munido de tal conhecimento, pretende, como Sigmund Freud, se auto-analisar. Mais: ele quer descrever a sua análise:

"Depois do almoço, comodamente esparramado numa poltrona de braços, eis-me de lápis e papel na mão. Tenho a fronte completamente descontraída, pois eliminei da mente todo e qualquer esforço. Meu pensamento parece dissociado de mim." (Svevo, op.cit.,p.9)

Não parece uma tarefa penosa, esta que Zeno vai empreender. Está alimentado, está relaxado, descontraído: alguém que vai sestear. Mas ali estão o lápis e o papel, e a modorra se vai: "...minha fronte se enruga ao pensar nas palavras, que são compostas de tantas letras. O presente imperioso ressurge e ofusca o passado." (Svevo, op.cit., p.9) Zeno está descobrindo apenas que não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo, analisar-se e descrever, no papel, a análise. Escrever é um ato que exige a presença real de quem escreve; é um ato que remete ao "agora", enquanto a análise, tal como ele a concebe, remete ao "antes". Não funciona. Uma nova experiência resulta "...no sono mais profundo e não obtive outro resultado senão um grande descanso e a curiosa sensação de haver visto alguma coisa importante durante o sono. Mas esqueci-me do que era, perdendo-a para sempre." (Svevo, op.cit., p.9) A mente de Zeno resolve o conflito pela fuga que é o sono. Paradoxalmente, neste sono aparece alguma coisa importante. Traído pelo inconsciente, Zeno esquece-a. O sonho lhe foge, como o poema fugiu a Coleridge.

Há, porém, um antídoto contra o sono: "Graças ao lápis que hoje trago à mão, mantenho-me desperto" (Svevo, op.cit., p.9) O lápis é a chave que abre a porta de seu consciente, a ferramenta pela qual a literatura impede escritores de enlouquecer. Mas ele não quer renunciar ao inconsciente, que, por mais estranho que possa ser, constitui-se no território em que ele deseja penetrar. Por fim, consegue algo: "Vejo, entrevejo, imagens bizarras que não podem ter qualquer relação com meu passado: uma locomotiva que resfolega pela encosta acima a arrastar inúmeros vagões: sabe-se lá de onde vem e para onde vai e o que estará fazendo nestas recordações?" (Svevo, op.cit., p.9-10) A desconsolada interrogação mostra a perplexidade do auto-analisando diante de imagens que evoca - e que não sabe como interpretar. E isto que "... o compêndio assegurava ser possível, por este sistema, recordarmos a primeira infância" (Svevo, op.cit., p.10). De repente, porém, o método parece dar resultado ("Vejo uma criança de fraldas...") porém, a dúvida surge ao mesmo tempo: "... por que tem de ser eu? Não se parece nada comigo; na verdade acho que se trata do bebê de minha cunhada..." (Svevo, op.cit., p.10). Claro, este devaneio, este sonhar acordado, poderiam ser o ponto de partida para uma investigação: por que o bebê da cunhada? O que significa, para Zeno, este bebê, esta cunhada - o irmão com quem ela está casada? Mas tais perguntas não ocorrem ao pretenso auto-analisando, nem há um analista para formulá-las. Zeno opta, então por se dirigir ao bebê, tão desamparado como ele:

"Pobre criança! Ainda bem que se trata de recordar a minha infância! Não saberia encontrar um jeito de te aconselhar, agora que vives a tua, sobre a importância de recordá-la para o bem de tua inteligência e de tua saúde. Quando chegarás a saber que seria bom se pudesses reter na memória a tua vida, até mesmo as partes que te possam repugnar?" (Svevo, op.cit., p.10).

 

Ou seja: a análise seria muito facilitada se o processo começasse no berço, a criança "preparando-se" para contar tudo no momento devido. Mas isto não é possível, porque a criança é movida por outro tipo de pulsão: "...inconsciente, vais investigando o teu pequeno organismo à procura do prazer", prazer este que tem o seu preço, como todos os prazeres: "...tuas deliciosas descobertas te levarão à dor e à doença"; mas não só o prazer; também "...aqueles que mais te querem." Um processo que não pode ser detido: "É impossível tutelar teu berço" (Svevo, op.cit., p.10).

No terceiro capítulo Zeno muda de estratégia. Fala com um médico; não se sabe se é um psicanalista, mas o conselho que dá é muito pouco ortodoxo: recomenda a Zeno que escreva uma "análise histórica" de sua propensão ao fumo. Não se trata de preocupação médica com o tabagismo; o doutor está pensando na dimensão psicológica do hábito de fumar: "Escreva! Escreva! O que acontecerá, então, é que você vai se ver por inteiro!" (Svevo, op.cit., p.11).

O conselho dá algum resultado. Voltando ao momento em que começou a fumar, Zeno revisita a infância. E o romance propriamente dito tem início - com uma cena de transgressão, que lembra uma versão bem-humorada da "Carta ao Pai", de Kafka. Zeno conta que, como muitos meninos que começam a fumar, roubava dinheiro do pai, e que numa ocasião foi surpreendido por este: "Eu, com uma desfaçatez que agora não teria(...) disse-lhe que fora assaltado pela curiosidade de contar os botões de seu colete." Diferente do pai de Kafka que muitas vezes reagia com fúria ao que considerava as impertinências do filho, o pai de Zeno, acreditando ou não na história, pôs-se a rir, divertido. O personagem lembra também que fumava os charutos que o pai - como Freud - usava e que deixava abandonados nos cinzeiros. E aí vem uma terceira cena, esta francamente edípica. Zeno menino, está semi-adormecido na sala da casa. O pai pergunta à esposa, Maria, que ali está costurando, se não tinha visto um charuto que ele tinha deixado, apagado, sobre a cômoda, e que não consegue encontrar: "Acho que estou doido", comenta, e sai. É o momento que o menino, talvez inconscientemente, esperava: "Enteabri os olhos e espreitei minha mãe. Ela havia voltado a atenção à costura, mas continuava a sorrir." (Svevo, op.cit., p.13) Fica implícito que o charuto foi roubado pelo menino, e que ele conta com a cumplicidade da mãe. E prossegue: "Aquele sorriso me permaneceu de tal forma impresso na lembrança que um dia o revi nos lábios de minha mulher." (Svevo, op.cit., p.13) A pergunta que se poderia fazer é: não teria o Zeno adulto procurado como mulher alguém que tivesse o sorriso de Maria?

Finalmente, um médico alerta Zeno, que o procura por dor de garganta e febre, para os problemas causados pelo fumo. Daí por diante, ele tentará, inutilmente, abandonar o cigarro. Mas Svevo não está se engajando numa campanha anti-tabagismo. O cigarro é um símbolo, como o comprova o momento que Zeno considera decisivo para abandonar o hábito: é aquele em que abandona o direito pela química. Estudar leis é uma atividade abstrata, cuja materialidade é tênue como a fumaça. Química, pelo contrário, representa a ciência, o progresso; além de envolver, como salienta Zeno, a atividade manual com reagentes, tubos de ensaio, bicos de Bunsen; atividade manual esta que é muito importante, pois uma acusação freqüentemente feita ao judaísmo era a de recusar o trabalho com as mãos, preferindo a especulação, tanto intelectual como comercial e financeira. Portanto, a decisão de Zeno é um salto semelhante ao do judaísmo quando abandona o estreito labirinto da casuística ritual-teológica, a que alude Mendelsohn, para optar pela ciência e pelo progresso da modernidade.

Mas a nova opção não resolve os problemas de Zeno. Ele sente-se preso nas cadeias de carbono; falta-lhe pendor para a química, "até mesmo pela minha inabilidade manual. Como poderia tê-la, se continuava a fumar como um turco?" (Svevo, op.cit.,p.15) Acaba convencido de que fumar é uma enfermidade. Inata: "A doença é uma convicção, e eu nasci com esta convicção" (Svevo, op.cit., p.17).

Resolve procurar um médico que cura enfermidades nervosas com o emprego da eletricidade.

A eletroterapia é um interessante capítulo na história da medicina. Tem início com os trabalhos do médico vienense Franz Anton Mesmer (1734-1815), o criador do chamado magnetismo animal, uma expressão que reflete o interesse do Iluminismo nos fenômenos magnéticos e na eletricidade (Gilman, 1994, p.1030-1031). O "banho magnético" de Mesmer foi substituído, no tratamento de doenças emocionais, por correntes elétricas de baixa voltagem, um método que antecedeu o eletrochoque.

O doutor a quem Zeno recorre não está muito interessado na complexa problemática do paciente. Zeno diz-lhe que está hesitando entre a química e o direito; ambas as profissões exigem um horário para levantar-se, coisa que ele, sofrendo de insônia, não está disposto a cumprir. Resposta do médico: "A eletricidade cura qualquer insônia" (Svevo, op.cit., p.18). Zeno queixa-se do que considera um descomunal desejo por mulheres ("Queria-as todas"), mas tudo o que o doutor consegue lhe responder é um amargo "Ninguém está feliz com sua sorte" (Svevo, op.cit., p.19). Zeno termina a eletroterapia sem muitos resultados. Arranja então um amigo, "um senhor rico que ornava seus ócios com estudos e trabalhos literários" e este amigo é quem vai entender a sua doença; uma situação semelhante ao Ivan Illitch, de Leon Tolstoi, que passa de médico em médico, mas no fim só recebe cuidados do empregado Guerassim (Tolstoi, 1963, p.98-99). Zeno ainda faz mais uma tentativa de deixar o fumo, internando-se numa casa de saúde, mas em vão.

O quarto capítulo chama-se "A morte do pai". De início, Zeno tenta minimizar a importância dessa figura em sua vida: "...não sei na verdade se a biografia de meu pai é necessária" (Svevo, op.cit., p.33) Mas em seguida, reconhece que a morte do pai, foi "uma grande e verdadeira catástrofe. O paraíso deixou de existir e eu, aos trinta anos, era um homem desiludido. Morto também." Em contraste, a morte da mãe, ocorrida quinze anos não teve tal repercussão: Zeno escreve versos em memória dela e, graças a uma fé religiosa recém-surgida, acredita-a viva, em alguma parte. Ou seja: a figura materna está preservada, é apenas uma doce lembrança.

Com o pai será diferente. Autêntico pater familias, ainda que (ou justamente por causa disso) traísse a esposa com uma costureira, ele é o grande referencial para o filho com o qual, no entanto, pouco tem em comum. Vivem bem, sem grande conflitos aparentes, até que o pai adoece. Zeno assume a responsabilidade pelo tratamento, chamando para isto um doutor Coprosich, profissional dedicado mas arrogante (terá Svevo se dado conta de que copros em grego quer dizer fezes?) que não cessa de evocar o poder conferido ao médico pelo conhecimento, à semelhança dos doutores de Tolstoi. O último gesto do moribundo, possuído pelo terror do fim iminente, é esbofetear o filho. "Meu pai morreu. U.S.", registra Zeno em seu diário, explicando que este "U.S" não é United States, mas ultima sigaretta, último cigarro. Mais uma vez ele está transformando o cigarro num símbolo, e o gesto de parar de fumar (que não se consuma), num rito de passagem: começou a fumar para igualar-se ao pai, e agora que este morreu pode abandonar o cigarro. Alguma razão tinha o médico que lhe aconselhou a começar a auto-análise pelo hábito de fumar. Mas esta tímida disposição não o absolve da culpa. Pior que isto, agora já não se trata de fantasia, mas de lembranças reais: ele se censura por não ter chamado outros médicos que, talvez, tivessem salvo o pai. Assim, "para recordar a minha intensa dor e todos os pormenores de minha desventura não tenho necessidade de sonhar, segundo querem esses senhores da psicanálise", garante Zeno (Svevo, op.cit., p.34).

Zeno encontra uma espécie de substituto para o pai no vigoroso Giovanni Malfenti, que será seu sogro, e que também trai a mulher. Malfenti tem quatro filhas, todas com nome começando por A (a letra oposta ao Z de Zeno; A-Z, começo e fim). Primeiro ele se interessa por Ada que, contudo, é séria demais. Acaba casando com Augusta, a "saúde personificada"; não a ama, mas ela o compreende: você, Zeno, precisa de uma mulher que viva só para você, e eu sou esta mulher. Ada, por sua vez, desposará o primo Guido Speier, com quem Zeno terá uma relação conflituosa.

Casado, Zeno tem de trabalhar. Como Svevo, dedica-se ao comércio, admitido por Guido como sócio. Para não fugir à regra do pater familias arranja uma amante, Carla; o que evidentemente o enche de culpa.

Ao longo deste processo, a paixão de Zeno se vai transformando em doença. Nisto, ele é um personagem de seu tempo, como o Hans Castorp de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, que ouve de seu médico uma definição: a doença não é mais que a paixão transformada. Mas Zeno não gostaria de ser um neurótico; não lhe agrada ter uma enfermidade que "...consistia numa idéia fixa, um sonho" (Svevo, op.cit., p.294). Ele gostaria de ter uma doença mesmo, uma doença orgânica como a de sua cunhada Ada, que sofre do mal de Basedow, Morbus basedowii, hipertireoidismo, uma enfermidade na qual o metabolismo se acelera. Zeno dedica-se a estudar esta situação mórbida e conclui que ela é básica para o entendimento da vida:

"...todos os organismos distribuem-se numa linha, em cuja extremidade está a moléstia de Basedow, que acarreta um consumo abundante e alucinado das forças vitais, a um ritmo imprudente; no outro extremo acham-se os organismos debilitados pela avareza orgânica, destinados a perecer de uma moléstia semelhante a um esgotamento e que, em vez disto, é uma ociosidade. A medida áurea entre as duas moléstias se encontra no centro e é designada impropriamente por saúde, não passando de uma simples pausa" (Svevo, op.cit., p.293).

 

Na verdade, Svevo está falando de dois polos, o polo maníaco e o polo depressivo, muito associados, como vimos, à atividade literária. Mais que isto, a doença é uma metáfora social: "A sociedade só avança porque os basedowianos a impulsionam e só não se precipita no abismo porque outros a detêm" (Svevo, op.cit., p.294). Finalmente, ele tem a esperança de que, mudada pelo hipertireoidismo (ainda que mais feia) venha Ada a amá-lo.

Um episódio ilustra bem a fragilidade de Zeno. Diante de outras pessoas, Guido retrata-o em caricaturas que o mostram como um homem distraído - um guarda-chuva atravessa-o de lado a lado, e ele não percebe. Todos riem e naquela noite Zeno tem uma dor lancinante no braço, um sintoma provavelmente histérico. A partir daí, toda vez que sua raiva não se pode exteriorizar, a dor reaparecerá. Mas Guido é, na verdade, o elo fraco desta complexa cadeia humana. Breve, começa a enfrentar problemas de negócios e joga na Bolsa. Um dia pergunta a Zeno se este, como químico, pode dizer qual a droga mais eficaz, o veronal puro ou o veronal sódico. A pergunta funciona como um desafio, que envaidece a Zeno: ele pode assim mostrar seu conhecimento. Mas o objetivo de Guido era outro: ele se suicida com veronal, o que aumenta ainda mais a culpa de Zeno. A morte encerra o romance propriamente dito, mas então vem um último capítulo, o mais surpreendente de todos, e que se chama "Psicanálise".

O ano é 1915. A Primeira Guerra começou, mas para Zeno o único efeito do devastador conflito é tornar a vida na cidade "ainda mais enfadonha do que antes".

Acabei com a psicanálise, declara ele. Não foi um "tratamento" longo: três meses. Nem teve bom resultado: Zeno acha-se mais desequilibrado e enfermo do que antes, e a única esperança para se curar é escrever; como o escritor Karl Kraus, ele acha que a psicanálise é, na verdade, a doença que ela pretende curar: um tratamento que "não passa de uma tola ilusão, de um truque capaz de comover apenas solteironas histéricas" (Svevo, op.cit., p.372). Mas ao menos a doença fora descoberta: "Era a mesma que em seu tempo o falecido Sófocles diagnosticara em Édipo: eu amava minha mãe e queria matar meu pai." (Svevo, op. cit., p.372). Tal diagnóstico não preocupa Zeno, ao contrário, encanta-o: "Era uma doença que me elevava a mais alta nobiliarquia, cujas origens remontavam aos tempos mitológicos" (Svevo, op.cit., p.372). O médico diz que ele está curado; Zeno não crê nisto nem crê no diagnóstico de complexo de Édipo. O argumento em que se apóia é digno de um Zeno de Elea: "A melhor prova de que eu não tinha aquela doença decorre do fato de não estar curado" (Svevo, op.cit., p.372).

A própria confissão escrita de Zeno é uma mentira. E é uma mentira, em primeiro lugar, no idioma usado: Zeno fala o dialeto triestino, mas escreve em italiano. Como na história do médico judeu que diagnosticou o momento do parto pelo idioma em que gritava a parturiente, Zeno está afirmando que só uma linguagem visceral, como o dialeto de sua infância, poderia expressar a verdade. A narrativa em si também é uma falácia, porque seletiva: "escolhemos de nossa vida os episódios mais notáveis" (Svevo, op.cit.,p.373). Mas as imagens da vida de Zeno despertam nele próprio intensa emoção, uma emoção que até ao próprio psicanalista assombra e que talvez o tenha levado a declarar o paciente curado. Só que estas imagens, diz Zeno, foram inventadas. "Inventar, porém, é uma criação, não uma simples mentira" (Svevo, op.cit., p.373): de novo, a literatura triunfa sobre a neurose, e sobre a psicanálise. Mas é uma vitória de Pirro: Zeno continua doente, sabe disto, o que deixa o analista desconcertado: "Eu estava curado e não queria admiti-lo! Mas que cegueira a minha! Ele me mostrara que eu desejava fugir com a mulher de meu pai - minha mãe! - e não me sentia curado? Obstinação inaudita, a minha!" (Svevo, op.cit., p.378). Zeno procura um clínico, o Dr. Paoli, com o propósito de pergunta se deveria continuar a psicanálise. Queixa-se de insônia, falta de memória, dores nas pernas, bronquite. E então, uma surpresa: "O Dr. Paoli examinou minha urina em minha presença. A mistura tornou-se escura e o médico ficou pensativo. Era finalmente uma análise de fato, não uma psicanálise. Recordei-me com emoção e simpatia de meu remoto passado de químico (...) Naquele tubo nada ocorria que pudesse recordar minha atitude de agradar o Dr. S., inventando novos pormenores de minha infância para confirmar o diagnóstico de Sófocles" (Svevo, op.cit., p.383). No tubo de ensaio não há resistências, não há simulações: Zeno critica, na psicanálise, a falta de objetividade que uma ciência como a química tem. "A psicanálise lembra o espiritismo", diz (Svevo, op.cit., p.384), num arroubo positivista que, provavelmente corresponde à resistência que não existe no tubo de ensaio, mas existe nas pessoas. O tubo de ensaio, contudo, reserva mais uma gratificação a Zeno: o teste da urina dá positivo para glicose. Ele tem diabete, um diagnóstico que revela-se "uma grande doçura" (Svevo, op.cit., p.384). Agora, sim, ele tem uma doença verdadeira, orgânica, uma doença bem codificada, com sinais e sintomas definidos. Só que esta alegria dura pouco: o Dr. Paoli liga para dizer que o exame estava errado.

Imediatamente Zeno arranja um outro rótulo para si próprio: ele é neurastênico. O termo neurastenia (gr. astheneia, falta de força) foi introduzido em 1873 pelo médico americano George M. Beard. No livro American Nervousness o Dr. Beard descreve a neurastenia como uma condição essencialmente americana e masculina, resultante de esgotamento nervoso, de perda da energia psicológica. Seria o resultado da vida em sociedades industrializadas, urbanizadas, competitivas e também das condições climáticas dos Estados Unidos, com sua atmosfera demasiado carregada de eletricidade. Beard era um cultor da eletroterapia e fundou mesmo uma revista dedicada ao assunto (Postel & Quétel, 1993, p.587).

Como a histeria, a neurastenia abrangia um vasto elenco de sinais e sintomas, desde insônia até queda dos dentes, passando por "irritabilidade uterina". Diferente da histeria, porém, esse era um diagnóstico respeitável; em primeiro lugar, porque se manifestava mais freqüentemente em pessoas de classes elevadas, profissionais, executivos; depois, porque segundo Beard, não afligia "primitivos", como os africanos e os índios: "A construção social da neurastenia refletia o romance do capitalismo americano" (Showalter, 1993, p.294-295). Zeno seguiu à risca os conselhos do Dr. Beard e por alguns meses sentiu-se bem; depois de novo perdeu a fé. No entanto, não se decidia a voltar à análise. Encontrando, por acaso, o Dr. S., que o convida a tentar de novo.

Finalmente a guerra chega a Trieste. Não há cenas de batalha, nem massacres, mas para Zeno, trata-se de um verdadeiro choque de realidade; por fim, ele pode parar de pensar em suas mazelas psicológicas, empenhado, como está, em adaptar sua atividade comercial à economia de guerra: comprando e vendendo, ele ganha dinheiro (tal como Svevo). Quando o Dr. S. lhe pede suas anotações (de novo: estranho pedido para um psicanalista) ele atende com satisfação: o que está no caderno não é o relato de uma doença mas sim a descrição de um homem sadio:

"E minha saúde não provem apenas do fato de que me sinto um privilegiado em meio a tantos mártires. Não é pelo confronto que me sinto são. Estou são, totalmente são. Eu já sabia desde há muito que a saúde para mim era um caso de convicção e que era uma tolice digna de um sonhador hipnagógico querer tratar-me. É verdade que ainda sofro de algumas dores(...). Às vezes ponho um emplastro aqui ou ali, mas o resto se move e luta(...). A vida não pode ser considerada uma doença pelo simples fato de doer." (Svevo, op.cit., p.401).

 

Mas a vida assemelha-se à enfermidade em outros aspectos: a explosão demográfica, a contaminação ambiental. Os animais se adaptaram à exigência da natureza; como a andorinha precisa emigrar, suas asas se desenvolveram. O homem, "animal de óculos" inventa "artefatos alheios ao corpo", artefatos estes que "se compram, se vendem, se roubam" (Svevo, op.cit., p.403). Mas estes artefatos acabarão por destruir a Terra. Zeno antecipa o pesadelo atômico, ao dizer que alguém inventará um explosivo poderosíssimo:

"diante do qual os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas(...). Um homem, um pouco mais insano que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme, que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitas e das enfermidades" (Svevo, op.cit., p. 403).

 

E com esta visão apocalíptica termina o livro. A amargura da frase final reflete a decepção de Zeno e seguramente de Svevo, cuja carreira literária até então registrava apenas uma pequena repercussão crítica - é justamente A consciência de Zeno que o projetará no cenário cultural europeu, em grande parte graças a Joyce. Mas não podemos esquecer a ironia que perpassa essas páginas, uma ironia que tem muito em comum com o humor judaico, embora não haja, no livro, qualquer alusão a judaísmo. Na verdade, Zeno ri de si próprio, de sua incapacidade de se livrar de sua neurose. A sátira à análise é apenas uma extensão da sátira que faz a si próprio. Ele é um schlemiel, um tipo desastrado, gauche, sempre às voltas com hipocondria ou com mazelas reais (Dego, op.cit., p.14). A denominação pode aludir ao personagem criado por Adalbert von Chamisso em Peter Schlemihls wundersame Geshichte (1814) ou ao general bíblico Shlumiel (Números, 2), que sempre perdia as suas batalhas. No folclore judaico são numerosas as menções ao schlemiel: ele é o sujeito que cai de costas e quebra o nariz, ou, como diz Scholem Aleichem, quando tomba sobre um monte de palha, consegue se machucar com a pedra que está por baixo (Rosten, 1977, p.415). Em suma, Zeno é um anti-herói, dos muitos que depois figurariam na literatura do século vinte. Seu ataque às idéias freudianas teria uma contrapartida num ataque do próprio Freud a uma figura do passado: Moisés.

 
 
  Início