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Scliar, Moacyr Jaime. Da Bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 168 p.

6 - A DOENÇA E O MÉDICO NO IMAGINÁRIO JUDAICO

Como se viu, até a emancipação judaica a alusão a médicos aparecia em textos religiosos ou filosóficos, estes sobretudo de natureza ética, caracterizando o "casamento entre a ciência e a ética" (Feingold, op. cit., p. 89). À medida, contudo, que a medicina foi se separando da religião e da filosofia, constituindo-se em profissão independente, codificada, reconhecida pela sociedade civil, o médico judeu começa a aparecer - como personagem - em histórias, quer no anedotário popular, quer nos textos de grandes escritores. Diferente do que acontecia nos textos anteriores, estas referências são, muitas vezes, marcadas pelo humor.

O que é o humor judaico? Esta pergunta deve ser precedida de um outra: o que é o humor, em geral? Para Aristóteles, o cômico nada mais é do que um aspecto do feio, mas de um feio não doloroso ou destrutivo, exemplo disto sendo as máscaras cômicas usadas na comédia, que se caracterizavam exatamente por isso, pela feiura. Para Cícero, a fonte do humor está na surpresa, na expectativa que se resolve de maneira inusitada. Na Renascença, Ben Jonson acentuará o caráter moralístico, pedagógico do humor. Já Darwin procurou encontrar as raízes do riso no comportamento partilhado pelos humanos com os animais, notando que sons vocais funcionam, entre membros da mesma espécie, como expressão de reconhecimento mútuo ou de apelo sexual (Bergler, 1956, p. 52). Henri Bergson, autor de um clássico sobre o tema (Le Rire, 1901), acreditava que a impressão cômica resultava de um comportamento mecânico, grotesco:

"Alguém, a correr pela rua, tropeça e cai: os transeuntes riem. Não se riria, acho eu, caso se pudesse supor que de repente lhe veio a vontade de sentar-se no chão. Ri-se porque a pessoa sentou-se sem querer.(...) Talvez houvesse uma pedra no caminho. Era preciso mudar o passo ou contornar o obstáculo. Mas, por falta de agilidade, por desvio ou por obstinação, por certo efeito de rigidez (...) os músculos continuaram realizando o mesmo movimento, quando as circunstâncias exigiriam coisa diferente. Por isso a pessoa caiu." (Bergson, 1980, p. 14).

 

O riso é sempre social, mesmo quando responde a um estímulo puramente físico: a pessoa não ri quando faz cócegas em si própria, mas ri se é outra pessoa que faz cócegas nela. Mas o riso, observa Bergson, envolve um elemento de agressividade de quem ri contra a pessoa que é objeto do riso.

Sigmund Freud estudou o humor em O chiste e sua relação com o inconsciente, publicado em 1905. O que primeiro lhe chamou a atenção foi a similaridade dos mecanismos de elaboração do humor com aqueles que assinalou nos sonhos. Um destes mecanismos, por exemplo, é a condensação: a junção de dois termos produz um efeito cômico. Cita um personagem de Heinrich Heine, um vendedor de loteria que gabando-se de sua intimidade com o milionário Rotschild, diz: "Rotschild tratou-me muito ‘familionarmente’ (familionär). A condensação também existe nos sonhos (Freud, 1954, p. 15-16). Freud estuda a seguir a motivação do humor (do chiste, no caso) e conclui, como Bergson, pela existência de um elemento de agressão.

O humor tem vinculações culturais. É possível falar no humor de certos grupos - o humor irlandês, por exemplo. É claro que este tipo de humor resulta, sobretudo, de um contexto histórico peculiar. O humor judaico é um fenômeno relativamente recente; diferente dos gregos e romanos, que cultivaram a sátira como uma forma de expressão, não encontramos, no judaísmo antigo, expressões de humor. Originariamente um grupo nômade, em constante atrito com seus vizinhos, os hebreus não teriam muitas razões para tal (Altman, 1971, p. 126). Diz Judith Stora-Sandor (1984, p. 37):

"Se a manifestação escrita ou oral do humor não se faz senão sob a forma de ironia e mais particularmente por uma ironia reflexiva que engloba a própria pessoa do ironista e do mundo que habita, não se pode falar de humor nem na Bíblia, nem no Talmude. Esta noção exige, com efeito, um certo distanciamento entre o produtor do humor e seu objeto, atitude que exclui o espírito do sério, favorecendo uma visão cética e lúdica, mesmo se o contexto, o tema fundamental abordado pelo humorista é sério. O olhar de um ‘outsider’ é aquele que melhor traduz esta visão humorística de mundo. Ora, como poder-se-ia falar de um distanciamento entre os autores dos textos bíblicos e talmúdicos e o propósito que os anima? Não apenas eles estão profundamente engajados na elaboração destes ensinamentos, como eles têm também a tarefa de transmiti-los, de educar seus correligionários e de manter a coesão grupal".

 

A palavra "riso" aparece 29 vezes na Bíblia, mas em 13 vezes com conotação negativa: riso designa zombaria (Ziv, 1986, p .47).

Ainda que se possa encontrar, na Bíblia, no Talmude e em textos do medievo, as raízes mais remotas do humor judaico (as historietas talmúdicas sendo um exemplo disto), não há dúvida de que tal forma de humor é relativamente recente, datando de meados do século passado, e ligada a um cenário particular: as aldeias judaicas da Europa Oriental. Ali nasceu o humor judaico tal como hoje é conhecido. E nasceu como uma resposta às duras condições de vida, às perseguições, aos massacres. O humor judaico é um humor peculiar, um humor de auto-ironia; a agressão mencionada por Bergson e Freud é, por assim dizer, arrebatada ao agressor. Tem duas características (Ziv, op. cit., p. 56):

1. É um humor que distorce uma realidade trágica tornando-a cômica, e portanto menos assustadora e ameaçadora: funciona como mecanismo de defesa. Neste sentido é um "humor absurdo", intelectualizado;

2. Procura preservar a coesão grupal, mostrando o que é especial em "nós", em contraposição a "eles", os não judeus. Isto explica por que uma anedota sobre judeus, contada por não judeus, pode ser considerada anti-semita.

O humor judaico é um humor que induz à reflexão. Não provoca o riso fácil e sim o contido, melancólico sorriso. Por todas estas razões Freud interessou-se profundamente pelo humor judaico. Boa parte de O chiste e sua relação com o inconsciente é dedicada à análise de historietas bem conhecidas de personagens judeus. Conclui Freud (op. cit., p. 111): "Caso especialmente favorável para o chiste aparece quando a crítica se dirige contra a própria pessoa como membro de um grupo(....). Esta condição de auto-crítica explica-nos que, da cultura popular judaica tenha resultado um grande número de excelentes chistes" . Mas esta colocação pode corresponder, ao menos em parte, a um estereótipo, porque freqüentemente o anedotário judaico também se refere a situações do cotidiano, a o casamento, a vida em família, o universo dos pedintes (schnorrers), dos negociantes, dos rabinos. Mesmo nestas situações, contudo, que poderiam ser rotuladas de normais, o elemento melancólico, de ansiedade misturada ao ceticismo, está presente. Este ceticismo pode atingir as expectativas mais transcendentes, como a espera do Messias. Uma anedota, por exemplo, termina com a seguinte frase: "Não se preocupe. Deus nos protegeu do Faraó e de muitos outros inimigos. Ele nos protegerá do Messias também" (Novak & Waldoks, 1981).

Com a emigração maciça de judeus da Europa Oriental para os Estados Unidos o humor judaico foi transplantado, mas para solo fértil. Os humoristas judeus, populares não só na comunidade judaica como entre o público em geral, tornaram-se profissionais, muitos deles famosos por seus livros, artigos jornalísticos, peças teatrais, filmes ou cartuns: Woody Allen, Jack Benny, Milton Berle, Mel Brooks, Lenny Bruce, Art Buchwald, Red Buttons, Cid Caesar, Eddie Cantor, Al Capp, Rube Golberg, os irmãos Marx, Zero Mostel, Saul Steinberg, Gene Wilder, para citar apenas alguns exemplos.

Boa parte do anedotário judaico é dedicado à doença e à medicina. É claro que isto nada tem de excepcional. Histórias humorísticas sobre doença, por mais delicado que seja o tema, e sobre a medicina, fazem parte de muitas culturas. No caso dos médicos, tais histórias, tanto no anedotário popular como na literatura, já vinham da antigüidade greco-romana; tornaram-se muito mais freqüentes à medida que a medicina se impôs como instituição, o que envolve poder - um poder que, não adequadamente usado, desperta uma hostilidade não raro justificada. O número de sátiras famosas envolvendo médicos é grande, desde Molière (Le Médécin Malgré-lui) até Machado de Assis (O Alientista). Em sua introdução à peça teatral The Doctor’s Dilemma, Bernard Shaw faz uma crítica demolidora à medicina. Afirma que "(...)quanto à honra e consciência, os doutores as têm em mesmo grau que qualquer outra classe de pessoas, nem mais, nem menos" mas manifesta seu protesto quanto a atos médicos, sobretudo as intervenções cirúrgicas desnecessárias: "quanto mais descomunal é a mutilação, tanto mais ganha o mutilador; quem corrige uma unha encravada recebe apenas alguns xelins; aquele que corta suas entranhas receberá centenas de guinéus" (Shaw, 1957, p. 9-10). No anedotário e nos textos literários judaicos, como se constatará, o ataque é menos violento. Vejamos primeiro, contudo, a questão da doença.

A endogamia que até há algum tempo era a regra entre comunidades judaicas pode explicar a maior freqüência de doenças na qual a transmissão genética desempenha algum papel, como é o caso do diabete mélito, da doença de Leo Bürger, da colite ulcerativa (Garland, Garland & Gorham, 1992, p. 905). Mas não é a isto que se refere o imaginário judaico, e sim à doença de maneira geral, a doença como um modo de vida. De novo, nisto o judaísmo não é exceção; diante da enfermidade, o humor pode ser "um útil substituto para a coragem que caracteriza o domador de leões" (Enright, 1989). No caso do judaísmo, porém, o humor em relação à doença se insere no complexo da relação familiar. A família judaica da Europa Oriental e dos emigrantes na América, gira em torno à figura de uma mãe superprotetora que estabelecia fortes, e, não raro, neuróticos, vínculos com os filhos. Neste contexto, a doença pode até funcionar como elemento de chantagem emocional. "Eu disse que não estava bem", é, segundo o folclore, o típico epitáfio da mãe judia. Com freqüência as histórias falam em uma curiosa satisfação proporcionada pela oportunidade para chamar atenção do outro mediante o sofrimento. Existe, diz Dan Greenburg, uma "Técnica de Sofrimento Básico", que toda mãe judia deve aprender:

"Para dominar a Técnica de Sofrimento Básico você deve começar com um estudo intensivo dos comerciais de Dristan [analgésico] na televisão. Preste muita atenção na face do ator que ainda não tomou Dristan. Note os olhos semi-cerrados, a fronte enrugada, a boca caída - a dolorida expressão de quem tem sinusite não drenada ou gastrite severa. Esta é a Expressão Facial Básica. Estude-a bem. Pratique-a em frente ao espelho várias vezes ao dia. Se alguém surpreende você ao fazê-lo, e pergunta o que está acontecendo, diga: ‘Estou bem, não é nada, já vai passar’." (Greenburg, 1980, p.15)

 

Mas o sofrimento não é monopólio da mãe judia. Homens também podem experimentá-lo, como mostra a seguinte historieta:

Tzvi Landau convencera-se de que, acometido de várias doenças, estava à beira da morte e ninguém conseguia mostrar-lhe que isto não era verdade. Desesperado, seu médico sugeriu que consultasse um grande especialista. Este também nada encontrou:

- Senhor Tzvi, suas doenças só existem na sua imaginação. Não há nada errado com o senhor. Com sua saúde, o senhor vai ver para enterrar sua mãe, seu pai, sua esposa e até seus filhos.

Ao que Tzvi Landau replicou, triunfante:

- Ah, doutor, eu sei que o senhor está dizendo isto só para eu me sentir bem! Mas não adianta, eu não vou me sentir bem!

 

A consulta com o médico reveste-se de características peculiares. Se o doutor é sábio, deve conhecer de antemão o que o paciente tem; desta maneira, o diálogo pode tornar-se quase surrealista com o paciente respondendo, à clássica maneira judaica, uma pergunta com outra pergunta:

"- Como é que o senhor se sente?

- E como é que eu poderia me sentir? Bem?

- Onde é que o senhor tem dor?

- E onde é que eu não tenho dor?

- Mas quando é que o senhor se sente mal?

- Mas quando é que eu não me sinto mal?

- Quando começou?

- Quando vai terminar?" (Levenson, 1997, p. 141)

 

A doença, real ou imaginária, passa a se tornar uma característica: em Annie Hall, de Woody Allen, Alvy, o personagem judeu visita a família de Annie, não judia, e conclui que nada tem a ver com eles: não apenas têm a aparência americana típica, como são absolutamente sadios, nunca ficaram doentes. Ou seja: duas realidades que, como o azeite e a água, não podem se misturar.

Dan Greenburg ensina a arte do que chama "preocupar-se com criatividade", que consiste em transformar os temores comuns da vida em verdadeira infelicidade. Para isto é preciso escolher uma "Preocupação Tridimensional". No caso de doença as dimensões são as seguintes:

"Dimensão 1: A enfermidade que você escolheu permite não só complicações perigosas como também um tratamento longo, custoso, doloroso, humilhante?

Dimensão 2: Os sintomas precoces que caracterizam esta enfermidade são vagos o suficiente para estarem presentes num resfriado comum ou num mal-estar gástrico?

Dimensão 3: A enfermidade que você escolheu dá a possibilidade de deixar o trabalho por uns dias para internar-se em um hospital e fazer todo tipo de exames e testes para confirmá-la?"

 

A Preocupação Tridimensional pode ser grandemente potencializada pelo Pensamento Negativo, "a capacidade de imaginar coisas horríveis, de ruminar preocupações":

"Há apenas três ou quatro meses você submeteu-se a um check-up geral que mostrou boa saúde. Ainda assim, você pode ter esperanças. Em primeiro lugar, como pode estar seguro de que desde então não surgiu um problema sério em seu organismo? Em segundo lugar, como pode estar seguro de que você não esqueceu de contar ao médico algo que, no momento, lhe pareceu supérfluo mas que pode ser o verdadeiro indício de uma enfermidade? E, mesmo que você não tenha esquecido nada, quem lhe garante que o médico é mesmo competente e que interpretou sem erros toda a informação que você lhe forneceu? Mesmo que o médico seja competente, será que ele fez um exame clínico completo? E o que é, afinal, um exame clínico completo? Quem sabe ele esqueceu de fazer alguma prova, justamente aquela que poria em evidência a sua doença? Por exemplo, ele mandou fazer um exame radiográfico completo? E mesmo que você tenha feito esses estudos - será que você não se mexeu durante as radiografias? E mesmo que você não se mexeu, será que não confundiram seus exames com os de alguém com boa saúde?" (Greenburg, 1966, p. 15-20).

 

Na base destas narrativas está a hipocondria clássica, aquela preocupação com saúde e doença física ou mental cuja intensidade perturba o curso normal da vida e é desproporcional aos problemas que podem realmente existir (Baur, 1988, p. 1). Hipocôndrio, um termo usado desde a época hipocrática, designa a região subcostal (gr.: hypo, sob, chondros, cartilagem - costal, no caso). Foi Galeno quem ligou o termo a uma variedade de doenças tornando-o, portanto, popular. Posteriormente, a hipocondria passou a ser ligada à melancolia, este um termo também recuperado da cultura grega, mas que se difundiu muito na Renascença. Robert Burton, autor do famoso Anatomia da Melancolia, estendeu-se longamente na descrição dos sintomas hipocondríacos que, para ele, incluíam eructações, flatulência, suores frios, zumbidos nos ouvidos, vertigem. Burton sugeria dieta, exercícios e purgativos, mas recomendava também enganar o paciente, se para tal houvesse oportunidade. Narrava o caso de uma mulher que se convencera de haver engulido uma serpente; o médico deu-lhe um emético e, ao material vomitado, adicionou subrepticiamente uma cobra, à visão da qual a mulher curou-se. A enfermidade era encarada como uma espécie de fraqueza moral; foi o médico francês Jean-Pierre Falret que, em 1822, afirmou tratar-se a hipocondria primariamente de uma desordem mental. Freud, contudo, considerou a hipocondria não-analisável, resistente ao tratamento psicoterápico. A tendência atual é ligá-la à ansiedade bem como à depressão (Baur, op. cit., p. 21-33).

Ansiedade e depressão são respostas à culpa, e a culpa é um traço persistente na tradição judaico-cristã, uma tradição que começa, na narrativa bíblica, com a idéia do pecado original e se continua com uma série de transgressões, como o episódio do Bezerro de Ouro. Reik vê acentuar-se a culpa com a desintegração nacional judaica após Salomão:

"A agonia e a angústia da nação não fizeram com que os judeus se voltassem contra Jeová; eles voltaram-se contra si próprios. Um menino que é punida pelos pais e não entende a causa dessa punição, assume, no entanto, que algum erro deve ter cometido. Não dúvida da sabedoria e da justiça dos mais velhos - ele deve mesmo ser culpado. Os judeus concluíram que, se Jeová os entregou aos inimigos, era porque haviam pecado. (...) Os profetas não criaram o sentimento de culpa como um fenômeno de massa, mas eles o mantiveram vivo, fazendo da existência pecaminosa dos judeus a causa dos infortúnios da nação e da catástrofe que previam" (Reik, 1957, p. 222-223).

 

O cristianismo, contudo, proporcionou mecanismos eficientes de absolvição: a identificação com um Cristo martirizado, a confissão, a penitência. No judaísmo, os rituais de absolvição são em muito menor número; além disto, a acusação de deicídio não deixaria de cobrar seu preço, e bem assim a de usura, de especulação, de conspiração para controle do mundo (via imprensa, via capitalismo, via comunismo). É claro que a situação de opressão e de ameaça vivida pelas comunidades judaicas - sem falar no Holocausto - poderia ter representado uma punição suficiente; no entanto, tão logo os padrões de vida melhoraram - o que aconteceu na América - a culpa retornou, e com ela a ansiedade, para cuja descarga a hipocondria passa a ser de novo um canal, precário, mas facilmente disponível. O que nos remete ao clássico trabalho de Zborowski sobre dor e etnias (Zborwski, 1952, p.16-30). Este autor estudou três grupos de pacientes norte-americanos residentes na cidade de Nova York: pessoas de origem judaica, de origem italiana e WASPs (White, Anglo-Saxon, Protestant): brancos, anglo-saxões, protestantes, ou seja, os descendentes dos primeiros povoadores. Diante da dor, as reações eram diferentes com os dois primeiros grupos queixando-se muito e os WASPs agüentando resignadamente. Mas, enquanto as pessoas de ascendência italiana buscavam alívio o mais rápido possível, os judeus buscavam um esclarecimento sobre o que estava acontecendo. Como diz Konner, num comentário a esse trabalho: "Os judeus ficavam tão ansiosos acerca do significado da dor que muitas vezes preferiam sentir essa dor, por mais miseráveis que ela os fizesse, a ter um falso sentimento de segurança sobre uma possível doença." (Konner, 1991, p. 267). Também estavam mais propensos a aceitar o sick role, o papel de doente. Mechanic fez um estudo similar, mas desta vez introduzindo um controle para a renda dos grupos. Sua conclusão: "O estudos sugere a existência de uma considerável consistência nas variações étnicas quanto ao comportamento na doença.". Ou seja: comportamentos e atitudes são modulados pelo contexto social e histórico, ao qual se acrescentam os aspectos culturais, como o mostra o trabalho de Anderson. Estudando a mortalidade infantil em grupos étnicos de oito cidades americanas no período de 1911 a 1916 verificou que em todos eles este indicador era maior do que entre os americanos natos - com uma exceção: a dos emigrantes judeus que tinham a menor taxa de mortalidade infantil, apesar de viverem em condições de pobreza e confinamento semelhante a de outros grupos. Anderson concluiu que esta diferença provavelmente se devia a fatores de ordem cultural (Anderson, 1958, p. 10-24).

Se há doença, há medicina. Repete-se na América o fenômeno constatado na Europa: o grande afluxo de judeus às escolas de medicina. De novo, trata-se de uma profissão de prestígio, capaz de proporcionar status e um confortável nível de vida, sobretudo nos Estados Unidos. Representa ainda a continuidade da tradição judaica de respeito ao conhecimento: o médico é o sábio do passado atualizado e investido dos novos poderes da ciência. A estes estímulos se pode ter acrescentado a familiar hipocondria: de tanto ouvir falar em doença em casa, os jovens talvez se sentissem motivados a seguir a carreira médica.

"Meu filho, o doutor" passa a ser uma expressão de orgulho cada vez mais freqüente. Uma mãe judia está passeando no parque com os dois filhos pequenos. Alguém lhe pergunta que idade têm as crianças. "O clínico está com quatro e o cirurgião com dois", é a resposta. Na furiosa sátira Complexo de Portnoy, Philip Roth imagina o protagonista ouvindo um admirado, e - subliminarmente queixoso - relato da mãe:

"Encontrei a mãe de Seymour na rua e ela me contou que o filho é agora o maior cirurgião de cérebro do hemisfério ocidental. É dono de seis casas de campo em Livingston, todas com estilo diferente, todas novas, projetadas por Marc Kugel; pertence às congregações de onze sinagogas e no ano passado levou a mulher e as duas filhinhas - tão bonitas que já foram contratadas pela Metro e tão inteligentes que já poderiam estar na universidade - para uma excursão de oitenta milhões de dólares pela Europa e sete mil outros países, alguns dos quais nem se ouviu falar, pois foram criados em homenagem a Seymour. Além disto, ele é tão importante que em todas as cidades que visitou os próprios prefeitos lhe solicitavam que permanecesse algum tempo a fim de fazer certas operações - quase impossíveis - em cérebros, isto em hospitais construídos especialmente para Seymour; mais, na sala de operações faziam tocar a canção temática do filme Exodus, para que todos soubessem qual a religião dele - veja só a que grau de importância chegou o seu amigo Seymour! E que prazer dá a seus pais!" (Roth, 1984, p. 74-75).

 

O prazer que um filho doutor dá aos pais só pode ser comparado, em magnitude, ao desprazer causado pelo filho que opta por ocupações de pouca importância, ou, pior ainda, que não tem profissão. É preciso dizer que a profissão valorizada varia com o tempo e com a região; na Rússia pré-revolucionária a grande carreira, para os jovens judeus, era a de violinista, como o retrata Isaac Babel em seu conto O Despertar:

"Famosos virtuosos...Em minha casa não se falava se outra coisa, a não ser de Misha Elman, que o próprio czar isentara do serviço militar, de Zimbalist, que havia sido apresentado ao rei da Inglaterra e havia tocado no Palácio de Buckingham, de Gabrilovitsch, cujos pais haviam comprado duas casas em São Petersburgo" (Babel, 1963, p. 264-265).

 

A arte deu lugar à ciência como mecanismo de afirmação social. O cômico Lenny Bruce satirizou em um de seus shows a decepção dos pais que não tinham filho doutor: "Muitas pessoas perguntam: ‘por que vocês mataram Cristo’? Ora, nós o matamos porque ele não queria ser doutor, esta é a razão pela qual o matamos" (Novak & Waldoks, op. cit., p. 219).

"Minha filha, a doutora" já era uma expressão mais difícil de usar, quando a medicina era uma profissão seguida predominantemente por homens. Mas havia uma solução: casar a jovem com um doutor. A mãe judia recorreria a todos os recursos para isto. Numa festa, uma destas dedicadas genitoras levanta-se, aos gritos: "Um médico! Há um médico aqui?" E quando o doutor, alarmado, se apresenta, pensando tratar-se de uma emergência, ela sorri, sedutora: "Ah, doutor, se o senhor soubesse a moça que eu tenho para o senhor...". Numa variante, a mãe fica sabendo que há na cidade uma convenção de quiropodistas. Pergunta o que é, descobre que são profissionais que cuidam dos pés, e decide mandar imediatamente a filha ao local: com a quantidade de calos que a moça tem, certamente arranjará um marido ali.

A figura do médico já tinha aparecido na ficção judaica, por exemplo, nos trabalhos do mais famoso escritor no idioma iídiche, Scholem Aleichem - um pseudônimo que corresponde à tradicional saudação judaica, "A paz seja convosco". Nascido Scholem Rabinovitch em Pereseyeslav (Ucrânia) em 1859, dedicou-se a uma série de ocupações antes de tornar-se escritor. Sua obra era imensamente popular tanto na Europa como nos Estados Unidos, onde faleceu, em 1916. Scholem Aleichem escreveu contos, romances, peças teatrais, histórias infantis; seus personagens são sempre a gente comum, as figuras do povo. O cotidiano judaico, tanto o das aldeias como das cidades, ali está vividamente retratado. E um de seus textos satíricos, "Visita ao médico" (Scholem Aleichem, 1959, p. 175-181) retrata uma consulta ao doutor:

"Faça-me um favor, doutor. Ouça-me até o fim. Não estou pedindo para escutar o meu coração ou coisa no gênero; sobre minha doença, falarei daqui a pouco, e direi tudo o que há de errado comigo. Eu só queria que o senhor ouvisse o que eu tenho a dizer. Nem todos os doutores permitem que seus pacientes falem. É um mau hábito deles - não deixam as pessoas abrirem a boca. Tudo o que sabem é escrever prescrições, olhar o relógio, tomar o seu pulso, a sua temperatura e o seu dinheiro. Mas disseram-me que o senhor é diferente. Disseram que o senhor ainda é jovem e que não é tão fanático pelos rublos como o resto dos médicos. esta é a razão pela qual vim consultar com o senhor e obter seu conselho."

 

A seguir, o personagem diz ao que realmente veio: quer falar de sua vida, não da doença. Afirma não temer a morte, porque, tendo passado dos sessenta, já viveu bastante; além disso, viver e morrer é a mesma coisa - por causa das preocupações: onze filhos (de três casamentos), dificuldades nas várias coisas que tem de fazer para ganhar a vida. Apesar disto, é de boa cepa: "sempre fui saudável, nunca tive sequer um problema de estômago", mas teve o azar de cair, não diz por quê, nas mãos dos médicos:

"Eles começaram a me enfiar gotas, pílulas e ervas goela abaixo. Cada um vem com um remédio diferente. Um diz para fazer dieta, outro diz para comer à vontade... Um diz para caminhar, outro para ficar deitado, imóvel. Um deles manteve-me por cinqüenta e dois num tratamento à base de cloreto de prata. Fui num segundo doutor, que me disse: ‘Cloreto de prata? Deus o livre! Cloreto de prata vai matar você.’ Então prescreveu um pó amarelo - o senhor provavelmente sabe de que se trata. Mas fui num terceiro médico e que fez ele senão rasgar a prescrição do pó amarelo, receitando-me umas ervas? E que erva ruim era aquela. Cada vez que eu a tomava, via o Anjo da Morte. Finalmente, voltei para o primeiro doutor, aquele do cloreto de prata e contei-lhe a história da erva que fazia minha vida miserável. Ele ficou possesso: ‘Eu prescrevi cloreto de prata! Por que você tinha de andar de médico em médico como um idiota?’ ‘Baixe sua voz’, respondi. ‘Eu não tenho nenhum contrato com o senhor. Os outros médicos também precisam viver. Eles têm mulher e filhos como o senhor.’ O senhor precisava ver, estava cada vez mais furioso. Finalmente, disse-me para voltar ao outro médico. Ao que respondi: ‘Não preciso de seu conselho. Se eu quiser, vou lá, mas por minha vontade.’ Tirei um rublo do bolso e coloquei-o sobre a mesa. Pensa que ele apanhou e me jogou na cara? De jeito nenhum. Eles gostam de rublos, mais do que nós, gente simples. Agora: sentar e examinar direito um paciente, isto eles não fazem. E nem deixam a gente falar. Há pouco tempo fui a um outro colega seu - senhor conhece, nem vou mencionar o nome. Entrei no consultório, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, mandou-me tirar a roupa e deitar na mesa. Por que? Porque ele queria me examinar. Muito bem, me examinar. Mas por que não podia ele dizer sequer uma palavra? Só podia me apalpar, e dar aquelas batidinhas com os dedos? Ah, sim, ele estava com pressa. Não tinha tempo. Havia outras pessoas na sala, todas esperando para ser ‘o seguinte’. É uma moda de vocês, médicos. Vocês têm o ‘seguinte’, como na fila do correio. O quê? O que está o senhor me dizendo? Que não tem tempo também? Ah, o senhor também tem ‘o seguinte’! O senhor, um doutor jovem, já está com gente esperando lá fora? Olhe, se o senhor continuar assim, vai arranjar problemas, não clientela. E não precisa ficar zangado. Eu não esperava sair daqui sem pagar. Não sou daqueles que querem favores de graça. O senhor não quis me ouvir, mas uma coisa nada tem a ver com a outra. Pagarei sim, pagarei pela visita. Como? O senhor não quer nada? Bem, não vou lhe forçar. Talvez o senhor tenha outra fonte de renda, não sei. Fazendo um dinheirinho extra, hein? Bem, que tenha boa sorte. Adeus. perdão se tomei seu tempo. Mas o tempo de um doutor não é para isso?"

 

O que temos aqui são queixas em relação ao atendimento médico. Que nada têm de original; ao contrário, muitos são os pacientes que se queixam do atendimento impessoal, da pressa do doutor, de suas lacônicas respostas e também do tratamento: os sais de prata, mencionados neste texto, eram usados - com resultados sempre duvidosos - numa variedade de situações. Ou seja: o médico judeu é cada vez mais semelhante a seus colegas. O traço judaico, no caso, corre à conta da peculiar insolência do potencial cliente que reclama da falta de tempo do médico e até faz advertências. O médico não vai lhe cobrar, mas isto não quer dizer que ele se sinta grato; ao contrário, até faz advertências ("Olhe, se o senhor continuar assim, vai arranjar problemas, não clientela") e levanta suspeitas sobre as fontes de renda do doutor. É um caso típico de chutzpah (aramaico: desfaçatez, impudência), o dispositivo social através do qual a pessoa, mesmo pobre e insignificante, podia tratar como igual o rico e poderoso. A chutzpah é um característico freqüente do pedinte judeu, o schnorrer - inclusive no que se refere à saúde e doença, como mostra a seguinte historieta. Um pobre vai pedir a Rotschild (o nome desta família de financistas ficou sinônimo de milionário) ajuda para consultar um famoso especialista do estômago. Rotschild quer ajudar mas pondera que a consulta pode ser feita com um médico que não cobre honorários tão elevados. Ao que o schnorrer reage com irritação: para o meu estômago, diz ele, quero o melhor médico.

No texto de Scholem Aleichem temos, portanto, resíduos da tradição judaica - mas estes se encontram no homem que vai à consulta e não no médico; não por acaso a narrativa é feita na primeira pessoa. Já o doutor, ou os doutores, nada têm de característico; as queixas do narrador em relação a eles são queixas comuns em relação aos médicos, inclusive e principalmente nos dias que correm. Como diz Chantler em recente editorial de revista médica (Chantler, 1998, p. 670-1671) os níveis de saúde podem ter aumentado, mas as pessoas estão cada vez mais desconfiadas dos doutores e do "sistema médico" (as aspas são do articulista). Numa enquete feita na cidade de Madison, Winsconsin, em relação às qualidades de um bom médico, verificou-se que 45% das respostas referiam-se à competência, à qualificação, mas 41% diziam respeito ao interesse do profissional pelo paciente e 37% à sua capacidade de bom relacionamento (Mechanic, 1964, p. 444-453).

Se podemos falar de uma identidade judaica e de uma identidade médica, a primeira se dissolve na segunda, na medida em que a medicina vai se tornando mais universal. A chutzpah, contudo, continua igual. Em termos de judaísmo é como se pudéssemos falar em duas forças, uma centrífuga, que tende a afastar as pessoas de seu fechado núcleo étnico, projetando-as na sociedade geral - e a medicina moderna é uma dessas forças - e outra centrípeta, representada pela tradição e pelos costumes. Ao final do texto, o narrador deixa o consultório médico; seu problema de saúde, se é que existe, não foi resolvido; mas ele conseguiu desabafar, dizer o que pensa de uma medicina em relação à qual tem muitas desconfianças. E muitas expectativas não preenchidas: o que ele queria, era não apenas um remédio para o estômago, se é que tinha um problema no estômago, como principalmente conselho, orientação e apoio em relação á sua atribulada vida: um médico-rabino, era o que pedia, dentro dele, uma desamparada voz.

Que é a voz da infância. A esta voz alude uma outra historieta, baseada no fato de que na Rússia os judeus tinham três idiomas. Na aldeia, falavam o iídiche ancestral. Quando melhoravam um pouco de vida, aprendiam o russo. E, se por acaso se tornavam afluentes, passavam, como os russos ricos e pretensiosos, para o francês. Aconteceu que uma dessas jovens de classe alta casou, engravidou, e estava a ponto de dar à luz. O médico foi chamado, disse que ainda não era o momento, e sentou-se no salão, lendo o jornal. De repente a jovem começou a gritar, em francês, que a criança estava nascendo. A mãe, nervosa, quis que o doutor interviesse, mas este, sem tirar os olhos do jornal, garantiu: ainda não chegou a hora. Daí a pouco, a parturiente começou a gritar de novo - desta vez em russo. De novo o médico assegurou: ainda não chegou a hora. Mas quando a moça pôs-se a gritar em iídiche, ele se levantou: agora, sim, chegou a hora. Ele sabia que o iídiche era a voz mais autêntica da jovem, a voz das vísceras, a voz que, com certeza, e traduziria o que ela realmente estava sentindo. Ouvir esta voz - num consultório médico - exigiria uma sensibilidade especial, a sensibilidade que o doutor no texto de Scholem Aleichem não tinha. O que marca uma ruptura com o passado.

Mas esta ruptura não seria definitiva. O elo rompido seria refeito, em insólitas circunstâncias, com o advento da psicanálise.

 
 
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