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Scliar, Moacyr Jaime. Da Bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 168 p.

4 - FASE MÉDICO-FILOSÓFICA

"No início do século VII", diz Seltzer (1989, p.209):

"os judeus eram preponderantemente um povo de diáspora - uma teia de comunidades espalhadas da Espanha à Pérsia e da Europa Central ao Saara. Apesar da perda de sua pátria, mantinham uma identidade e uma interconexão social. O judaísmo era a religião de um povo e os judeus eram o povo de uma religião".

 

Esta situação mudou dramaticamente com a disseminação do islamismo e as conquistas territoriais das tropas muçulmanas, que em 644 já dominavam Pérsia, Egito, Palestina e os atuais Iraque e Síria - regiões em que se concentrava a maioria da população judaica. Em princípio os dominados deveriam se converter ao Islã, mas foi aberta uma exceção para cristãos e judeus, reconhecidos como "Povos do Livro". Seguidores de Escrituras de inspiração divina, eram os dhimi (dependentes): tinham direito à vida, à propriedade, à autonomia judicial e religiosa, desde que se submetessem às autoridades muçulmanas e pagassem impostos - especialmente pesados no caso dos agricultores, o que estimulou a migração judaica para as cidades, agora em expansão.

Nos centros urbanos, os judeus experimentaram um processo de ascensão social; surgiu "uma crescente classe média de comerciantes, pequenos fabricantes, banqueiros, médicos, intelectuais", que se constituía em um "estimulante campo social para novas tendências que estavam surgindo na cultura intelectual judaica" (Seltzer, op. cit., p. 319). Para este desenvolvimento colaborou a tolerância dos primeiros governantes muçulmanos que, inclusive, facilitaram a unificação das comunidades judaicas. Os eruditos judeus agora dispunham de uma base social e geográfica ampliada; seus interesses intelectuais se alargaram para incluir ciências naturais, medicina, filosofia e poesia.

Este fenômeno foi particularmente visível na Península Ibérica muçulmana. Ali havia, desde os últimos tempos do Império Romano, uma comunidade judaica, perseguida de forma intermitente, mas brutal, pelos reis visigodos. Depois que a região foi conquistada (entre 711 e 715) por um exército árabe-bérbere, essa comunidade cresceu consideravelmente, com o afluxo de migrantes vindos do norte da África e do Oriente Médio. Surgiu assim a cultura sefardita (o termo vem de Sefarad, a designação bíblica para a Espanha; os judeus que lá viviam eram os sefaradim ou sefarditas). Sob a dinastia omíada os judeus chegaram a alcançar altas posições na corte. Assim, Hasdai ibn Shaprut (915-970?) foi empregado por dois grandes califas omíadas, Abd al-Rahman III e Hakam II, como diplomata, administrador da aduana - e médico da corte.

Ibn Shaprut não foi o único médico judeu conhecido, nem o único a combinar a profissão médica com outras ocupações. De fato, esta foi uma marca da medicina neste período. Não se tratava, observa Ron Barkai (1995, p. 45), de uma "medicina judaica"; ao contrário, o que ocorreu foi um processo de abertura, de intercâmbio cultural. Os muçulmanos traduziam os textos gregos que eram também lidos pelos judeus. Teve assim continuidade o trabalho dos chamados helenistas, que, durante o período de dominação greco-romana na Palestina haviam tido acesso às obras de Platão, Aristóteles, Pitágoras e outros. Este movimento intelectual fora encarado com desconfiança pelas lideranças judaicas tradicionais, que viam nos helenistas uma espécie de "entreguistas" e rejeitavam os costumes gregos (como a nudez nas competições esportivas), considerados imorais. O antagonismo chegou ao auge quando a Judéia passou ao controle de Antíoco III, que reinou de 223 a 187 a.C; acabou culminando com a revolta dos Macabeus. Apesar disto, os filósofos judeus helenistas, dos quais o mais notável foi Fílon (25 a.C.? - 50 d.C.?) nascido em Alexandria, então o mais centro da diáspora judaica, procuraram compatibilizar a tradição judaica com o pensamento grego; o historiador Artapano, também de Alexandria, onde viveu no século II a.C., sustentava que Moisés na verdade era um grego, Musaeus. Curiosamente, foi a nascente Igreja cristã que adotou os textos de Fílon, condenados pelos sábios rabínicos.

Na filosofia judaica da época o mais influente sistema de pensamento greco-arábico foi o aristotelismo, sobre o qual trabalharam al-Farabi (872-950), Averróis (ibn Ruschid 1126 -1198) e Avicena (Abu Ali al-Husain ibn Abdallah ibn Sina, 980 - 1037), o "gigante desta era do pensamento árabe" (Margotta, op. cit., p. 111-112). Médico aos dezoito anos, Avicena era também poeta, teólogo, filósofo; escreveu sobre matemática, química, mineralogia. Sua obra mais importante foi o al-Qanun (Cânone), em cinco volumes. Nela, procura compatibilizar as idéias de Aristóteles, Hipócrates e Galeno. Traduzido para o latim, o Cânone dominou o pensamento médico na Idade Média.

A influência aristotélica foi importante do ponto de vista da medicina. Ao contrário do neoplatonismo, que se voltava exclusivamente com o espírito, a filosofia de Aristóteles partia da observação do mundo natural para, sobre ela, construir sua metafísica. Os escritos relacionados à biologia representam cerca de um terço da obra aristotélica. É um enfoque biológico ligado à ciência da natureza (physis), na qual apenas a presença da alma (psyche) separa os seres vivos dos não vivos. Para alguns autores não se trata de uma grande contribuição: "Aprendemos que há muitas espécies de aves e peixes; que alguns animais vivem na terra e outros no mar; que as aves tem asas e outros animais tem pés. (...) É uma mistura de credulidade, observação imperfeita e referência anedótica" (Medawar & Medawar, 1983, p. 28). De fato, não faltam erros evidentes na obra artistotélica: o homem tem mais dentes do que a mulher, o sêmen é estéril antes dos 21 anos, prolapso uterino é sinal de excessivo desejo. Apesar disto, foi grande a influência de Aristóteles nas ciências naturais. Darwin considerava Lineu e Cuvier "divindades", mas, acrescentava, ambos não passam de aprendizes, quando comparados a Aristóteles (Cotten, 1973, p. 39-40).

Como os filósofos, os médicos árabes e judeus basearam primariamente seu trabalho na literatura grega, traduzida para o árabe por volta dos séculos oitavo e nono e cuja origem era a escola hipocrática-galênica. Claudius Galeno (129-203), em particular, foi uma grande influência, inclusive porque cronologicamente mais próxima. Nascido em Pergamon, na Ásia Menor - então um centro filosófico e médico importante - Galeno cedo familiarizou-se com as grandes correntes do pensamento em sua época. Estudou em Alexandria, voltou a Pergamon e depois estabeleceu-se em Roma, onde sua reputação cresceu extraordinariamente - foi médico de dois imperadores, Marco Aurélio e Lucius Verus, o que pode explicar (mas não justificar) a sua conhecida e absurda vaidade: nos textos, não apenas se auto-elogiava abundantemente, como fazia questão de falar mal de outros médicos. Conhecedor, e pesquisador, da anatomia e da fisiologia, era também um mestre do diagnóstico, ainda que seu arsenal terapêutico fosse necessariamente limitado. Não faltam erros na sua imensa obra; acreditava, por exemplo, que o sangue passava de um lado do coração para outro através de poros invisíveis, conceito que subsistiu até que William Harvey (1578-1657), o descobridor da circulação sangüínea, demonstrasse o equívoco dessa assertiva. Mesmo assim, suas idéias disseminaram-se amplamente e atravessaram os séculos, particularmente no que se refere à teoria humoral (Sigerist, 1958, p. 48-57).

O termo grego "humor" designa qualquer fluido orgânico, natural, seja o sangue dos animais ou a seiva das plantas, mas também a essência dos deuses. Na concepção hipocrática, quatro eram os humores: o sangue, a linfa, a bile amarela e a bile negra (atrabile), condicionantes de quatro temperamentos: o sangüíneo, o linfático, o colérico e o melancólico. Do equilíbrio entre estes resultaria a saúde; do desequilíbrio, a doença. Ainda que Galeno não aceitasse a identificação completa destes humores com os líquidos corporais, estabeleceu uma relação entre eles e os quatro elementos componentes do universo, o fogo, a água, a terra e o ar, com as quatro estações. Assim, como o fogo e o verão, a bile é quente e seca; como o outono e a terra, a bile negra é fria e seca; como a primavera e o vento, o sangue é quente e úmido; como o inverno e a água, a linfa é fria e úmida (Nutton, 1994, p. 281-290). O corpo era visto como um microcosmo que reproduzia os característicos do macrocosmo, o universo.

Estas idéias estavam diretamente conectadas à filosofia grega. Heráclito falava de um permanente e universal conflito entre fogo e água. Empédocles, filósofo-médico, descrevia a participação dos quatro elementos no corpo; assim, o osso seria formado de terra, água e fogo. "Neste vasto cenário cosmológico deve ser situado o ‘Corpus Hipocrático’", diz Nutton (op.cit., p. 283). Não por outra razão sustentava Galeno que os melhores médicos são, por necessidade, filósofos, ponto de vista endossado (Strohmaier, 1995, p. 138) por um dos maiores médicos-filósofos muçulmanos, Muhamad ibn Zakaria al-Razi, conhecido no Ocidente como Rhazes (869- 925). Mas a obra hipocrática vai mais além da reflexão sobre saúde e enfermidade, abordando o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento de doenças. Por exemplo, o Caso VII do tratado de Hipócrates sobre Epidemias (Richards, 1973, p. 18), e que tudo indica tratar-se de difteria:

"A mulher que jazia doente na casa de Aristion, e sofria de angina[dor de garganta], relatou suas queixas numa voz indistinta. Língua vermelha; depois com manchas.

No primeiro dia, temperatura alta, calefrios.

No terceiro dia, rigores, febre alta; inchação avermelhada no pescoço, descendo em direção às mamas; extremidades frias e lívidas, respiração acelerada; líquido ingerido retornava pelas narinas: não podia engolir. Parou de urinar e evacuar.

No quarto dia, todos os sintomas pioraram.

No quinto dia, morreu."

A obra hipocrática também contem recomendações gerais, como: "Investiga o passado, diagnostica o presente, prevê o futuro". Aliás, o prognóstico é importante na visão hipocrática e figura em boa parte dos Aforismos. Obviamente, numa época em que a intervenção terapêutica era tão limitada, como se constata pelo caso acima, o prognóstico tinha papel importante, sobretudo nos casos em que poder e riqueza estavam envolvidos. Finalmente, há os preceitos éticos, entre os quais o famoso "Ajuda, ou, ao menos, não prejudiques", o Primum non nocere, dos latinos - sem falar no juramento hipocrático, abaixo mencionado.

A influência hipocrática é visível na obra de Asaf Judaeus, talvez o mais antigo dos escritores médicos judeus (Friedenwald, 1967, p. 22-23), que viveu na Mesopotâmia, no sétimo século. O texto seguinte o exemplifica:

"Cuidado para não causares a morte de alguém pela administração do suco de raízes venenosas. Não administres a uma esposa adulta um abortifaciente. Não te deixes levar à tentação pela beleza de uma mulher. Não divulgues qualquer segredo confiado a ti; não prejudiques a ninguém. Não digas do bom que é mau, nem do mau que é bom. Não imites os feiticeiros que despertam a dissídia entre os casais através de encantamentos, da magia e da feitiçaria. Não participes num ato de infâmia para receber recompensa. No teu tratamento, não uses os métodos dos idólatras (...). Põe tua confiança no Eterno, o Deus da Verdade; Ele mata e Ele dá a vida; Ele fere e cura a ferida..."

É grande a semelhança com o chamado juramento de Hipocrátes, cuja autoria, aliás, é objeto de controvérsia. Há quem sustente (Richards, op. cit, p. 22-23) tratar-se de uma espécie de manifesto pitagórico, elaborado uma geração após Hipócrates. Evidência disto seria o fato de que há, no juramento, alusão a deuses; tal alusão nunca aparece na obra hipocrática, que, ao contrário, privilegia as forças da natureza. De qualquer modo há muitos pontos em comum entre os dois textos: a menção a venenos ("Não darei venenos a ninguém, mesmo que mo peçam", diz o chamado juramento de Hipócrates), a advertência contra o aborto ("Abster-me-ei de administrar às mulheres grávidas pessários abortivos"), a questão do segredo médico ("Guardarei segredo sobre o que vir e ouvir"), a necessidade de evitar a tentação do sexo ("Evitando a sedução das mulheres"). E, em contrapartida ao apelo aos deuses gregos (Apolo, Esculápio, Higéia e Panacéa), Asaf invoca o Senhor.

Semelhança com a obra hipocrática apresenta também o trabalho de Isaac ben Solomon Israeli, também conhecido pelo nome árabe de Abu Yakub Ishak ibn Suleiman Al-Israeli (830?-932?), que nasceu no Egito e viveu no norte da África. Como Hipócrates, ele recorre a aforismos, o segundo dos quais ("A ciência da medicina é extensa e a vida do homem é curta") reproduz, quase literalmente, o "A vida é curta, a arte, longa" hipocrático. Eis alguns outros aforismos (Friedenwald, op. cit., p. 24-26):

"(...) 4. Assim como o médico não deve agir apressadamente, ele também não pode ser negligente e procastinador, porque no caso de muitas doenças, não há tempo a perder.(...) Em se tratando de doenças agudas deve pensar e agir rápido.

(...) 11. O médico não cura; ele prepara e aplaina o caminho para a Natureza, da qual vem a cura verdadeira.

(...) 15. A missão do médico é dupla, preservar a saúde e curar a doença. A primeira é mais importante. (...)

(...) 17. O médico que promete a cura de uma doença está assumindo uma grande responsabilidade.

(...) 21. É preferível curar o paciente por meio de alimentos ou de uma dieta sadia do que usando remédios, especialmente purgativos, que são contrários à Natureza.

(...) 23. Propõe-te a usar sempre os remédios mais simples, porque é mais fácil saber como agem.

(...) 25. Nunca te proponhas a realizar curas milagrosas, porque estão baseadas na ignorância e na superstição.

(...) 27. É conveniente para o médico que seja moderado à mesa e não um glutão. Se, por causa do excesso alimentar, adoecer, as pessoas perguntarão:

‘Como pode curar outros alguém que não cura a si mesmo?’

(...) 29. Evita condenar outros médicos. Todos têm o seu mau dia. Que teus sucessos falem por ti; não procures te valorizar com a desgraça alheia.

30. Procura visitar e tratar doentes pobres e necessitados, porque é uma obra meritória.

31. Tenta acalmar o paciente, encorajando-o a esperar pela cura, mesmo que não estejas convencido desta possibilidade; isto ajudará nele as forças da natureza;

(...) 38. Quando o paciente não segue tua prescrição, ou quando seus familiares e criados não cumprem tuas ordens, ou se mostram desrespeitosos, é melhor desistir do tratamento.

39. Estabelece os honorários quando a doença se encontra na fase mais grave, porque assim que o paciente estiver curado, os serviços que prestaste serão esquecidos.

40. Quanto mais altos teus honorários, maior a tua respeitabilidade. Se cobras pouco, tua arte será considerada insignificante.

(...) 42 A menos que a situação o exija, não visites o paciente muito seguido e nem fiques muito tempo na casa dele, porque ver o médico de novo é uma alegria para o paciente.

43. Uma clientela muito grande confunde o médico em seu julgamento e o faz errar.

(...) 46. Preocupa-te em tratar os nobres e os ricos, porque eles te pagarão bem, te elogiarão e lembrarão de ti após a cura, enquanto as pessoas comuns, depois de curadas, até te odiarão ao lembrar o que cobraste." (Friedenwald, op. cit., p. 24-26).

 

Como se pode ver, estes aforismos fornecem três tipos de orientação. Em primeiro lugar recomendam que o tratamento seja simples e baseado na força curativa da natureza, a vis medicatrix naturae da expressão latina. Depois, envolvem preceitos éticos, na relação com o paciente e com outros médicos. Finalmente, dão alguns conselhos bastante práticos, e até astutos, sobre honorários e prestígio.

Preceitos éticos similares são encontrados no testamento de Judah ibn Tibbon (1120-1190), que viveu em Granada, na Espanha muçulmana, e dirigido a seu filho:

"Que tuas palavras sejam uma cura para os doentes (...). Se receberes pagamento dos ricos, atende gratuitamente os pobres.(...) Acostuma-te a examinar os remédios e as ervas medicinais que usas ao menos uma vez por semana. Não receites algo cuja ação não conheças..." (Friedenwald, op. cit., p. 27).

Tais preceitos têm relação com a Bíblia e o Talmude, mas, de resto, as obras dos numerosos escritores médicos judeus, escritas muitas vezes em árabe, são indistinguíveis de trabalhos similares por muçulmanos ou cristãos. Na verdade, freqüentemente tratava-se de tradução, para o árabe ou o hebraico, de tais trabalhos; assim, Shlomo ibn Ayub (Granada, século XIII) traduziu o Livro da Procriação, escrito no primeiro século pelo famoso médico grego Soranus, considerado o fundador da ginecologia e da obstetrícia; Hasdai ibn Shaprut fez a tradução da Matéria Médica, de Dioscorides. Hanain ibn Ishaq redigiu uma introdução à medicina, baseada em Hipócrates e Galeno. O livro de ibn Ayub é particularmente curioso, porque ele dramatizou a obra de Soranus, sob a forma de um diálogo entre a jovem Dinah e seu pai Jacob, este descrevendo à filha o funcionamento do corpo feminino. Graças a tais ensinamentos ela e o marido "tiveram filhos e filhas, que se espalharam por toda a Terra" (Barkai, op. cit., p. 65-67).

Foi, portanto, uma época de avanço para a medicina, resultante sobretudo da cooperação entre grupos de culturas diferentes. Para Virchow, foram os judeus e os árabes que conduziram o progresso da ciência médica no começo da Idade Média; no caso dos judeus, ele via nesta contribuição a evidência de um "talento hereditário" para medicina (cit. em Friedenwald, op. cit. p. 5).

O mais famoso dos médicos-filósofos judeus no mundo árabe foi Moisés ben Maimon (1135-1204), também conhecido por Maimônides (a forma grega de seu nome) ou Abu Imran Musa ibn Maimun (a forma árabe) ou ainda Rambam, acrônimo para Rabi Moisés ben Maimon. Nasceu na Córdoba árabe, importante centro filosófico e médico, tanto árabe como judaico: ali vivia, entre outros, Hasdai ibn Shaprut. Maimônides era de uma família de juízes e eruditos cuja confortável existência foi bruscamente interrompida quando a região passou a ser controlada pela intolerante dinastia árabe dos Almôadas. A família teve de fugir, primeiro para o Marrocos, depois para a Palestina e finalmente para o Egito, então governado pelo sultão Saladino, muito mais conciliador em relação às minorias. Um novo desastre ocorreu então: o irmão de Maimônides, que comerciava com jóias, pereceu num naufrágio, o que não apenas enlutou a família como a arruinou financeiramente. Maimônides viu-se obrigado a buscar o sustento para si e os seus. Tornou-se médico, profissão em que mostrou competência, e na qual obteve extraordinário êxito: um poeta da corte escreveu que, se a lua se submetesse aos cuidados de Abu Imram, ele a livraria das manchas e até impediria que minguasse. Estabeleceu-se em Fostat, perto do Cairo. Sua clientela, imensa, incluía o Sultão Saladino e várias outras pessoas importantes. Assim ele descreveu sua atividade, numa carta ao discípulo Samuel ibn Tibbon, que pretendia visitá-lo:

"Eu moro em Fostat e o Sultão reside no Cairo [distância aproximada: 2,5 km]. Minhas obrigações para com ele são muito pesadas. Tenho de visitá-lo todos os dias, de manhã cedo; e se há algum problema com ele, ou com um de seus filhos, ou com alguma das mulheres do harém, não ouso deixar o Cairo. Também tenho de atender os membros da corte. Se tudo corre bem volto a Fostat à tarde, fatigado e esfomeado. Encontro a sala de espera cheia de gente, judeus e gentios, nobres e gente comum, amigos e inimigos. Desmonto do cavalo, lavo as mãos e como algo - a única refeição em vinte e quatro horas. Atendo os pacientes, escrevo prescrições e instruções para suas doenças. Os pacientes continuam a chegar, às vezes até as duas da manhã. Converso com eles e os medico já deitado, de pura fadiga. Às vezes estou tão cansado que mal consigo falar." (Robinson, 1943, p. 177-178).

 

É possível que Maimônides estivesse exagerando para afastar um visitante não desejado. É certo, porém, que trabalhava muito; prova disto é a vasta obra que deixou (escrita em árabe, e depois traduzida para o hebraico), e que é principalmente filosófica. Seu livro mais importante é o Guia dos Perplexos, um compêndio para principiantes em filosofia religiosa. O principal objetivo de Maimônides era demonstrar que judaísmo e filosofia - sobretudo a filosofia aristotélica - não eram incompatíveis. Diz Henri Atlan (1986, p. 116) "Maimônides cristalizou ao redor de si a clivagem entre filósofos ditos racionalistas e místicos, no que concerne ao judaísmo". Completa Seltzer (op. cit., p. 381), "Maimônides afirma vigorosamente o primado da razão. Sua concepção de fé significava que o indivíduo tinha de alcançar uma prova das crenças centrais do judaísmo tão completa quanto a mente humana possa atingir. Algumas de suas declarações a respeito beiram o agnosticismo". Comprovam-no os critérios que estabeleceu para se testar a veracidade de uma idéia ou de uma informação: "O homem não deve acreditar em nada que não seja evidenciado pela razão, como as ciência matemáticas, por seus sentidos, ou pela autoridade de profetas e santos." (Friedenwald, op. cit., p. 201). A ordem destes critérios fala por si só.

A obra médica de Maimônides, menos conhecida, está longe de ser desprezível. Escreveu sobre uma variedade de assuntos, indo de hemorróides a comentários sobre Hipócrates, de temas administrativos ao tratamento da impotência. Seu texto mais importante é Aforismos segundo Galeno. São mil e quinhentos aforismos que resumem a obra galênica, com comentários do próprio Maimônides. Os assuntos abordados dão uma idéia do que era a medicina naquela época: órgãos do corpo humano, humores, bases e métodos da arte médica, pulso e sua interpretação, sinais de doença na urina, causas e sinais de doenças, febres, sangria, purgas, vomitórios, cirurgia, doenças das mulheres, regras para a saúde, exercício, banho, comida e bebida. Vê-se, por exemplo, que a urinoscopia era uma parte importante do diagnóstico. Com Galeno, Maimônides ensina que é preciso olhar tanto a urina como o sedimento. Urina clara com sedimento normal mostra que o organismo está funcionando bem, que a natureza completou seu trabalho. Urina turva, que, contudo, se torna clara, formando-se então o sedimento, mostra que o organismo já começou a trabalhar. Urina turva que clareia sem que nenhum sedimento se forme indica que o organismo não completou seu trabalho. Já urina que, emitida turva, continua turva, é mau sinal.

Maimônides não hesita em contrariar Galeno. Este afirma, por exemplo, que o diabete é uma doença rara. Ao contrário, sustenta Maimônides, que conta ter acompanhado vinte e três casos (atribui a doença à água do Nilo). O livro fez sucesso, e era lido até o século dezessete (Friedenwald, op. cit., p. 208).

A pedido do grão-vizir al-Fadil, cujo interesse pelo assunto deveria ter óbvias razões, Maimônides escreveu Venenos e Antídotos, em que examina desde mordeduras de cobras e picadas de escorpião até envenenamento por substâncias tóxicas. Recomenda medidas que até há não muito tempo eram populares, como o uso de torniquete no acidente ofídico. Preconiza sugar o ferimento, alertando porém que não deve ser feito por pessoas com feridas na boca.

Também a pedido de um outro nobre, desta vez o sultão al-Malik al-Afdal, que sofria de depressão, Maimônides escreveu um Regime de saúde (Regimen sanitatis, na tradução latina). Dá conselhos sobre higiene, dieta, remédios caseiros a serem usados na ausência do médico, banhos, higiene sexual, moradia. Há uma agenda completa de vida: levantar cedo, fazer ginástica, leitura leve, conversação agradável, sesta após o banho (nos dias de banho). Como o sultão padecia também de hemorróides, Maimônides aconselha a respeito: evitar purgativos, comer frutas de sobremesa. Nesta obra, Maimônides dá vazão à sua veia filosófica, fazendo considerações sobre a importância de uma vida baseada na ética e em valores reais. Já o Kitab Sharh Asmai al-Uqqar (Tratado sobre a Asma) relacionava uma grande quantidade de plantas e outras substâncias usadas no tratamento da doença.

Boa parte dos textos de Maimônides constam de conselhos sobre saúde - aquilo que hoje se classificaria como "auto-ajuda", mas que ele entendia de outra maneira: a saúde é expressão da sabedoria. A medicina não é só assunto do médico: "O estudo da medicina é um dos principais empreendimentos humanos", diz no Tratado dos Oito Capítulos. Esta sabedoria é aquilo que tira o homem do domínio dos instintos e projeta-o no campo da inteligência. O homem nunca deveria comer, afirma, exceto quando tem fome, nem beber, exceto quando tem sede; e não deve retardar o ato de evacuação. Não se deve comer até a saciedade; deve-se deixar sempre insatisfeita uma "quarta parte do apetite". Durante a refeição, deve-se beber pouca água, e misturada com vinho. Devemos comer sentados ou reclinados sobre o flanco esquerdo. Não devemos fazer esforço físico após as refeições. A alimentação deve ser de tal modo balanceada que as fezes jamais sejam duras; a dificuldade de trânsito intestinal, e nisto Maimônides cita Galeno, induz à doença. Para o sono, basta-nos oito horas: o homem deve se levantar antes que o sol surja. Não convém dormir de bruços nem de costas, e sim de lado, "no princípio da noite do lado esquerdo, depois do lado direito" (Browne, op. cit., p. 398).

Maimônides dedica especial atenção aos problemas emocionais. Os fenômenos psicossomáticos não lhe passam desapercebidos; se um homem tem um desgosto súbito, seu rosto ficará sombrio, sua voz se tornará rouca e fraca, sua cabeça penderá, sua pele se tornará fria; tudo isto, explica, porque o sangue recolhe-se para o interior do corpo, levando consigo o calor natural. Para evitar a melancolia e outros problemas psicológicos, é preciso fortalecer a personalidade com as virtudes filosóficas e a moral da Torá; quanto mais sábio e virtuoso é o homem, menos ele sofrerá com a infelicidade súbita, pois ser feliz ou infeliz é algo que depende mais do imaginário do que da realidade (Bouaniche, 1990, p. 39-43).

Uma questão delicada é a relação entre os conselhos médicos e as prescrições religiosas. Maimônides procura compatibilizá-los. No Guia dos Perplexos, justifica algumas leis dietéticas da Torá:

"Sustento que todo alimento proibido pela Torá é insalubre (...). A razão principal pela qual a Torá proíbe a carne de porco baseia-se na circunstância de serem os hábitos e a alimentação dos suínos imundos e asquerosos (...). A graxa empanzina, perturba a digestão, torna o sangue frio e denso; é mais própria para combustível do que para a alimentação humana."

 

Em outro trecho, contudo, reconhece (antecedendo Mary Douglas) que a proibição pode ter um valor principalmente simbólico: "Carne cozida em leite é, sem dúvida, um alimento grosseiro, que sobrecarrega o aparelho digestivo; mas, a meu ver, foi mais provavelmente proibida por se relacionar com idolatria. Era talvez parte de um rito ou de uma solenidade pagã." Reconhece, ainda, que as características estabelecidas na Torá para tornar um alimento permitido - por exemplo, o fato de o animal ser ruminante e ter cascos fendidos, ou de o peixe ter escamas e barbatanas - não explicam a razão desta permissão: "São apenas indícios pelos quais as espécies animais recomendadas se distinguem das espécies proibidas." (Browne, op. cit., p. 384-385). Maimônides não tinha em alta conta o conhecimento científico dos rabinos; o que estes expressavam, em relação a fenômenos naturais, eram opiniões, não a verdade revelada por Deus.

Maimônides era um racionalizador. Mas era também um conciliador: procurava compatibilizar a lei mosaica com os conhecimentos de seu tempo e com a tradição filosófica grega. Seu prestígio no mundo judaico era enorme; ele era um chacham, um sábio, e nestas condições recebia consultas das comunidades judaicas de todo o mundo, acerca dos mais variados assuntos relacionados à ética e à religião. Suas responsa (latim: respostas) eram reverentemente colecionadas e são parte de sua obra escrita.

 

Para Friedenwald (op. cit., p. 214), Maimônides era mais que filósofo e médico; era um filósofo na medicina e um terapeuta na filosofia, "uma síntese completa". Mas é o próprio Friedenwald (op. cit., p. 200) quem nota: a medicina não era o interesse primeiro de Maimônides. Cita uma carta dele a Jonathan de Lunel: "A Torá, à qual fui introduzido na infância, tornou-se minha esposa; mas a empregada que ela trouxe [a medicina] tornou-se sua rival e agora absorve boa parte de minha atenção." A comparação é interessante. Quase a mesma - e também na carta a um amigo (Laffitte, 1993, p. 59) - fez Tchekhov, porém invertendo os termos da metáfora:

 

"A medicina é minha esposa, a literatura minha amante. Quando uma me aborrece, passo a noite com a outra. Ainda que tal procedimento não seja regular, não é monótono, e, ademais, nenhuma delas sai perdendo com a minha infidelidade. Se não tivesse minhas atividades médicas, dificilmente poderia consagrar à literatura a minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos."

E qual o papel do médico? Maimônides está bem consciente da precariedade diagnóstica e terapêutica de seu tempo. Sua estratégia é a da prudência; toda intervenção deve reforçar a ação curativa da natureza. O médico que adota esta postura, deve ser procurado sempre, porque o seu papel é de manter a saúde e não apenas combater a doença: neste sentido, Maimônides mostra uma clara mentalidade preventiva (Bouaniche, op. cit., p. 32-35).

Como os rabinos da época talmúdica, muitos filósofos judeus tornaram-se médicos. No caso dos rabinos, tal fato correspondia à tradição segundo a qual não se podia fazer da Torá um instrumento de trabalho, uma fonte de renda. Para os rabinos, primeiro, e para os filósofos, depois, a medicina aparecia como uma ocupação ideal. O componente técnico da profissão era mínimo; como se viu, o processo diagnóstico dependia basicamente da observação e do raciocínio. O médico ouvia as queixas do paciente, fazia um exame clínico sumário (até o século dezoito não era hábito pedir ao doente que se despisse) que consistia basicamente em ver a língua, a pele, tomar o pulso, avaliar a temperatura corporal, palpar a região dolorosa, olhar a urina - e não muito mais. Não havia um diagnóstico etiológico, nem mesmo uma nosologia. Prescrevia-se plantas medicinais, purga, sangria às vezes; o médico fazia recomendações quanto ao modo de vida. Sua autoridade para isto era, sobretudo, moral. Se a doença resultava, como dizem as Escrituras, de uma violação da lei sagrada, então uma orientação para a volta ao caminho do bem teria poder curativo. Não por outra razão Maimônides compara os médicos aos rabinos e aos sábios (Kottek, op. cit., p. 39). A medicina baseia-se na compaixão e disposição para ajudar o próximo, o que é parte da prática religiosa e, numa dimensão diferente, também da filosofia.

Já as lideranças judaicas freqüentemente se opunham ao estudo da filosofia nos moldes gregos. Em 1305 os rabinos de Barcelona lançaram uma proclamação proibindo os membros da comunidade de "estudarem os livros gregos sobre a sabedoria da Natureza"; mas havia uma exceção: "Excluímos desta proibição o estudo da medicina, mesmo que ligada à ciência, porque a Torá deu permissão para curar." (Barkai, op. cit., p. 83).

O componente teórico - conhecimento, sabedoria - tinha primazia sobre o componente prático. No seu tratado sobre asma, Maimônides deixa isto bem claro. O conhecimento, diz ele, é mais importante que a prática. O aprendiz, que observa o trabalho de um mestre e o imita, tem menos capacidade do que aquele que recorre aos livros: "A profissão médica não é análoga ao ofício do carpinteiro ou do tecelão" (Barkai, op. cit., p. 47).

Livros eram importantes. A medicina sempre foi uma profissão do texto, mesmo numa época em que, inexistindo a imprensa, tais textos tinham de ficar confinados aos manuscritos, aliás considerados preciosidades - muitos deles, ricamente ilustrados, atravessaram os séculos; é fácil imaginar como era importante, para pessoas ricas ou poderosas, terem em sua biblioteca uma obra de alguém da estatura de um Maimônides. Mais tarde, tal reverência foi vista com olhos críticos. O grande clínico inglês Sir William Osler (1904, p. 49-53) chegou a protestar contra o que considerava o excesso de matéria escrita na medicina; é preciso deixar de lado os livros, dizia, e ler o paciente como um texto. O certo é que Maimônides não era exceção: médicos escrevem, e escrevem desde a antigüidade. O mesmo faziam-no rabinos e filósofos, também integrantes do reduzido círculo dos letrados. Resulta daí uma base comum para a associação médico-filosófica.

A medicina dava prestígio e dinheiro, coisas muito importantes para uma minoria sempre insegura, não raro perseguida e marginalizada, muitas vezes expulsa de cidades, regiões ou países. Neste sentido, aliás, representava outra vantagem: era uma profissão "portátil"; sendo basicamente conhecimento, podia ser "levada" de um lugar para outro, mesmo porque os médicos judeus costumavam ser poliglotas. E, nos lugares a que chegavam, eram freqüentemente bem recebidos. Diz Ausubel (op. cit., p. 533-534):

"Mesmo em períodos catastróficos para o judaísmo, os médicos judeus ligados às cortes de imperadores e califas, papas e reis, arcebispos e príncipes, recebiam proteção especial e gozavam de privilégios(...). A tradição religioso-ética da arte de curar associada a uma carreira profissional honrosa e honrada (podendo ser também lucrativa), tudo isto tornava a medicina uma das profissões mais atraentes para os judeus".

 

Mas isto implicava uma transformação cultural: do sacerdote do Templo encarregado da pureza ritual, ao rabino que aconselhava sobre a saúde e a doença, e depois ao filósofo-médico há um processo de progressiva laicização. Que é, afinal, o processo de evolução da medicina, quando deixa para trás a fase mágico-religiosa. É claro que, o conceito de ciência sendo dependente da cultura, este processo não avançava de forma contínua, homogênea. No tempo dos médicos-filósofos, e mesmo muito depois, não eram poucos os judeus que recorriam a curandeiros e práticas mágicas, várias destas baseadas na religião. Havia livros que orientavam a respeito; o mais famoso (Barkai, op. cit., p. 85) era O Uso dos Salmos. Ali é recomendado, contra febres, o Salmo 107 de David, escrito de forma direta e depois ao contrário. Amuletos com a expressão "Abracadabra", também era usado. Era preciso escrever as palavras em hebraico, em sucessivas linhas, cada linha com uma letra a menos, com o que teríamos, em letras latinas, a seguinte imagem, cuja semelhança com uma pirâmide invertida (a pirâmide sendo um clássico símbolo mágico) é evidente:

 

ABRACADABRA

ABRACADABR

ABRACADAB

ABRACADA

ABRACAD

ABRACA

ABRAC

ABRA

ABR

AB

A


Outro texto, As Propriedades dos Animais , fala das virtudes curativas (para a lepra, por exemplo) da carne de cegonha , ave que em hebraico tem o nome de hassidah. O termo também quer dizer "santa". A cegonha é uma ave santa porque, diz a tradição, sacrifica-se pela própria ninhada - e "banha-se" antes do coito. A tudo isto acrescentou-se a numerologia cabalística, que se desenvolveu grandemente no final da Idade Média.

Não só os médicos-filósofos escreviam sobre o exercício da medicina. Filósofos e poetas abordavam o assunto; às vezes com admiração, mas não raro com agressiva ironia; pode-se imaginar que o sucesso dos médicos, colegas de letras mas não de rendimentos, despertasse neles certa inveja. Friedenwald (op. cit., p. 75-93) reuniu uma extensão coleção de textos satíricos contra a medicina escritos por eruditos judeus do período medieval . O primeiro deles é de Joseph Zabara, um poeta que também era médico e que viveu em Barcelona na segunda metade do século doze. Traduz a rivalidade entre os filósofos propriamente ditos e os médicos:

"Um filósofo adoeceu gravemente, a tal ponto que seu médico o desenganou; mesmo assim o paciente se recuperou. Um dia, na rua, encontrou o doutor. ‘Você voltou do outro mundo’ disse este. ‘Verdade’, respondeu o filósofo, ‘e vi nesse outro mundo os terríveis castigos que os médicos recebem, pois matam seus pacientes sem a menor preocupação. Mas não se preocupe, eu declarei, sob juramento, que você não é médico’."

Em um poemeto, Zabara diz que o médico leva vantagem sobre o Anjo da Morte: este liquida suas vítimas, mas não cobra nada, ao passo que o médico sempre apresenta sua conta.

Outro poeta do período foi Jedaiah ben Abraham Bedersi, autor do Sefer Hapardes (Livro do Jardim). Nesta obra há uma coleção de máximas, algumas das quais elogiam os médicos ("Os habitantes de uma cidade tem mais obrigação para com seu médico do que para o rei"; "Só dois homens podem contemplar a face do rei, o artista e o médico") ou o defendem ("Quando precisas de um médico, tu o vês como um deus; quando ele te salva do perigo, como um rei; quando termina o tratamento, como um ser humano comum; quando te apresenta a conta, como um diabo"). Outras, porém, são muito críticas da profissão:

"Quatro tipos de situação alegram quatro tipos de homens. A lua cheia alegra o ladrão; a população corrupta alegra o governante; a imoralidade de uma pessoa alegra seus inimigos; e a cólera do Senhor contra os humanos alegra os médicos."

"Há duas questões desconcertantes: quem executará o carrasco quando ele for condenado a morte? Quem tratará o médico da cidade quando ele ficar doente?"

"Há muitas doenças leves que o médico declara graves para cobrar mais."

"Se não matou muita gente, não é médico."

"A maioria dos médicos chega a uma idade avançada: o Anjo da Morte não quer interromper o trabalho deles."

A estas máximas, Bedersi agrega uma historieta. Dois tipos de pessoas, diz ele, não serão admitidos no Mundo da Recompensa (o céu): o músico e o médico. Quando lá chegarem, os guardiães, Noé e Matusalém, lhes dirão: aqui ninguém precisa ser alegrado com música nem curado de doença; vão para o Mundo do Castigo (o inferno). Lá serão igualmente rejeitados pelos guardiães, Og e Golias, que argumentarão: aqui ninguém pode ser ajudado pela música ou curado pela medicina. Os dois se refugiarão numa montanha, onde o músico tocará para o médico e o médico tratará as doenças do músico, por toda a eternidade.

"Uma bolsa cheia de dinheiro", diz o poeta Isaac ben Solomon al-Habib (1370-1426), "cura qualquer doença, mas sua falta é uma ferida dolorosa, que nenhum médico pode tratar." E versos de um autor anônimo (publicado em Constantinopla, 1577) dizem: "Quando o médico cura, vangloria-se de seu trabalho; quando mata, foi Deus quem levou o paciente."

Esta tradição satírica teria continuidade, por exemplo, no epitáfio imaginário que Manuel Francês (1630-1703) colocou no túmulo de um médico:

"Ó tu que lês estes versos, dá graças ao Senhor,

por nunca teres caído nas mãos deste doutor.

Se tal acontecesse, aqui não estarias,

deste epitáfio sendo o atento leitor."

Ou no versos que o poeta Moses Haym Soschino publicou em 1778:

"Como é possível, eu me pergunto, que nas mãos deste homem que tenho por tolo, as pessoas esvaziem sacos de dinheiro pensando que é médico?"

Falar mal dos médicos e da medicina é um hábito antigo. Nem mesmo a medicina grega escapava, como mostra a carta que Catão, o Censor (Marcus Porcius Cato, 234-149 a.C.) escreveu ao filho sobre os gregos e seus médicos: "...É uma raça sem valor e intratável, e acredito falar como um profeta ao prever: o conhecimento deles corromperá qualquer nação. Os médicos gregos juraram matar, com sua prática, todos os estrangeiros. Proíbo-te de tratar com eles." (Robinson, op. cit., p. 85). Do médico Themison de Laodicea, que viveu no primeiro século a.C., disse o poeta Juvenal: "As doenças dançam ao redor dele em bando", mencionando a grande quantidade de pacientes que era capaz de matar "em um único outono". Um dos mais conhecidos epigramas do poeta Marcial (Marcus Valerius Martialis, 38? - 102? d.C.) é dirigido ao médico Thessalus, que treinava discípulos junto ao leito de seus pacientes:

"Lânguido jazia eu e tu vieste rápido para me ver,

rápido vieste e contigo cem discípulos.

Os cem me palparam com suas mãos geladas:

gota eu não tinha e agora, por Apolo, dela sofro."

Friedenwald menciona, com destaque especial, uma sátira de En Maimon Galipapa, que viveu na Provença, provavelmente em fins do século treze, e cujo nome, curiosamente, lembra Moisés ben Maimon. Esta obra extraordinária, de uma ironia corrosiva, tem por título Os Aforismos do Médico, e, afrontosamente, imita os aforismos hipocráticos. Na tradução hebraica destes, cada aforismo começa com a expressão Amar Abucrat, "Disse Hipócrates". Galipapa transforma-a para Amar Oyeb, "Disse Oyeb(o inimigo)".

O primeiro capítulo tem como título O Portão da Vaidade e assim inicia:

"Disse Oyeb: ‘A vida é vaidade; o trabalho é encarado com desprezo; o tempo apremia, o cotidiano pressiona. Os doentes são tolos, e confiam num médico - herético ou ateu, ajudado por estúpidos e mal-intencionados. Mas há um tempo para a vida e outro para a morte, um tempo para a cura e outro para seguir a sombra da morte. Não há como controlar a vontade de Deus."

 

O que temos aqui é uma clara cópia daquele surpreendente livro bíblico, o Eclesiastes: "Vaidade das vaidades(...) tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga sob o sol?(...) "Há um tempo para nascer e um tempo de morrer(...) Um tempo para matar e outro para curar." Não é coincidência. Note-se que "Eclesiastes" é único título em grego no Antigo Testamento (Eclesiastes é a tradução do hebraico qohelet, diretor de academia rabínica), mas isto não é necessariamente uma homenagem: escrito à época em que a Palestina pertencia ao império ptolomeu, com sede em Alexandria, o Eclesiastes procurava, em seu tom melancólico, refutar os valores de pretensos sábios, possivelmente helenistas. Da mesma maneira, Galipapa condena os médicos que, heréticos herdeiros da cultura grega, não sabem que só Deus decide sobre a vida e a morte.

A seguir, Oyeb faz uma crítica mais terrena:

"Não procure o médico quem estiver doente(...) Ele virá com soberba e arrogância, mas apenas para aumentar os males(...). Ele pisca, ele faz gestos com os dedos - incrementar os honorários é a única coisa em que pensa."

Faz uma pequena concessão, admitindo que, em princípio, a medicina não é tão má assim:

"Oyeb disse: ‘A fundação da medicina resultou de sabedoria e seus caminhos são retos.’

Mas, acrescenta, em seguida:

‘Recentemente, arrivistas tomaram conta da profissão. Sabem pouco, são ignorantes, cabeças-ocas, mas dizem: somos sábios, conhecemos os segredos da ciência. Só querem dinheiro.’

Oyeb começa, então, a descrever o modus operandi dos doutores:

"Na primeira visita ele pergunta: ‘Por que estás deitado? Levanta, se queres que tua doença e tuas dores melhorem. Evita vinho e sexo. Não comas carne, subjuga teu apetite: toma sopa de cevada, que é bom para os asnos, ou come um pouco de pão com lentilhas e sopa’. Mas a febre aumenta, e a dor."

Ou seja: tudo que é bom faz mal. O doutor impõe um regime ascético ao paciente, sem resultado. Oyeb passa ao exame físico:

"O doutor faz uma grande encenação: mexe o braço do paciente para a esquerda e para a direita, toma o pulso (...) mas não é capaz de distinguir a sua própria mão direita da esquerda.(...) Em relação à urina do paciente, dirá muitas mentiras. Sacode o urinol, olha o sedimento. Se é vermelho, ele o mirará com tristeza e dirá que é uma sentença de morte. Mas se o sedimento é branco, igualmente sentenciará que não há esperança. Para ele, só há escuridão e caos. (...) Em relação às febres, diária, terçã ou quartã [malária] cometerá infinitos erros. Desde que receba os honorários, não lhe importa que o paciente sobreviva ou morra."

 

Examina depois alguns recursos terapêuticos; em primeiro lugar, o clássico clister, que até há poucas décadas era ainda usado:

"Oyeb disse: ‘Quando alguém está com constipação, o médico enfia-lhe uma seringa no reto e faz sua injeção de qualquer jeito. O paciente não pode suportar, e chora alto, mas o doutor diz: ‘Fica quieto até que as fezes saiam. Ou queres continuar constipado e assim morrer antes do tempo? Vou te limpar da impureza.’"

 

No "aforismo" seguinte é a diarréia que incomoda - e o paciente se queixa de que o médico não consegue "fechar as portas do meu ventre". Depois, há um curioso jogo, em que o médico acusa o paciente - agora surdo - de não tê-lo ouvido:

"Oyeb disse: ‘Quando alguém tem dor de ouvido o médico vem, examina, cobra seus honorários e então prepara os remédios. Caso não haja melhora, ele diz que é culpa do paciente, que não ouviu os seus conselhos. O paciente replica: ‘Eu lhe obedeci, o senhor é que não lembra que remédio me receitou. O pior é que fiquei surdo.’"

 

Mas de onde vem tanta maldade? Oyeb insinua que os doutores são comparáveis ao diabo:

"O médico dirá coisas maravilhosas, para enganar as pessoas. Ele proclamará ao mundo: ‘Quem quer viver que me procure e eu lhe darei o tratamento adequado, que foi para mim preparado desde antes do tempo de Asmodeu, rei dos demônios.’ (...) Abominação há em seu coração e ele não tem consciência; mesmo quando sua ignorância é evidenciada e ele é denunciado, continuará a praticar o mal."

E como é a prática do mal?

"Fala demais, gabando-se de seu conhecimento. Quando vai prescrever, ergue a mão, para que vejam o seu anel. Escreve em língua estranha - porque sua ciência é estranha - mas assim engana melhor o paciente. Suas maneiras são péssimas; entre uma frase e outra, ele cospe. Diz ao droguista: ‘Leva este líquido ao paciente, cobra o que puderes, e leva o dinheiro antes que ele morra. Se morrer, a terra o cobrirá. Não nos importa, porque continuaremos vivos.’"

Como seria de esperar, Oyeb não tem a menor confiança nos textos médicos:

"O erro do médico leva ao crime, querelas e disputas. Do morto ele diz que está vivo, do vivo, que está morto; jamais fala a verdade. Ele é o agente da Grande Ceifadora; é o assistente do Anjo da Morte e seu mensageiro. Reúne livros médicos, velhos e novos, de variada espécie, exibe-os - mas não os lê. Se há erros ali, não os descobre, não os corrige. Se perguntado sobre um capítulo ou se solicitado a fornecer a indicação de um bom tratado, adiará a resposta e depois dirá: ‘Queres me examinar? Vai-te, sai daqui! Terá um homem como eu de responder a tolos? Eu sou o médico, que cura todas as doenças!’"

 

E como cura doenças? Eis os ingredientes que, imagina Oyeb, estejam em um "remédio para todas as doenças":

"As presas de uma serpente, o rugido da tempestade, o negror de um etíope, a brancura das mulheres, o óleo da disputa e da contenda, a cauda de um lagarto..."

No capítulo quinto o autor subitamente muda o tom. Oyeb, o inimigo, transforma-se em Ohev (o amigo), que anuncia:

"Agora me arrependo. Falei mal dos médicos, mas foi com boas intenções: queria despertar sua consciência, fazer com que estudem mais seu livros. Que sejam eles corretos em seu trabalho, e fortes. Que não gastem seus dias em vaidade e fingimento. Que caminhem diante do povo sem medo; deste dia em diante haverá paz entre nós. Não mais falarei de suas falhas. De inimigo, passarei a amigo."

 

À exortação que se segue, não falta, contudo, ironia:

"Médicos, fazei com diligência e decência o vosso trabalho; e cobrai em prata ou em ouro... Como diz aquele provérbio, que pode ser um lema para vós: ‘A boa fortuna não vem para o homem fiel.’" (Friedenwald, op. cit., p. 84-93)

Esta tradição satírica acompanhará, como uma sombra, o desenvolvimento da medicina na cultura judaica e acabará, como veremos, inspirando grandes escritores.

Na Idade Média européia o destino judaico foi bem diferente. Em primeiro lugar, porque as circunstâncias eram diferentes. A Europa constituía-se então "num universo de fome" (Le Goff, 1964, p. 229). O Império Romano ocidental se tinha desintegrado em meados do século quinto. Sobre suas ruínas as tribos germânicas vencedoras, agora convertidas ao cristianismo, haviam estabelecido reinos em que o poder era dividido com os senhores feudais. O atraso econômico era geral; a grande maioria da população sobrevivia em condições de miséria absoluta. A expectativa de vida ao nascer não passava de trinta e cinco anos, e baixou para os vinte anos depois das epidemias de peste que começaram em 1348 (Park, 1996, p. 59). Malária, varíola, diarréia, desnutrição, problemas da gravidez e do parto, todas estas situações cobravam um alto preço em vidas. Como na época bíblica, via-se na doença um castigo de Deus; a cura tinha de vir dos céus. "Durante quase toda a Idade Média, pensava-se que a cura dependia de contato direto com as relíquias de algum santo: era preciso tocá-las, tomar água ou vinho em que tivessem sido mergulhadas, dormir junto a uma tumba ou comer resíduos dali retirados" (Park, op. cit., p. 64). Como estas providências em geral requeriam viagens ou peregrinações, sempre muito difíceis, as populações recorriam também a curandeiros e médicos locais. A diferença entre estes não era clara; médicos podiam usar encantamentos, curandeiros podiam medicar ou operar (Rousselle, 1976, p. 1090). Crenças mágicas dominaram o começo da Idade Média. O "Abracadabra", já citado, era muito popular, mas havia outros rituais: Sextus Placidus tratava febres com uma lasca de porta por onde um eunuco houvesse passado. Marcellus Empiricus curava abscessos tocando-os com três dedos da mão esquerda, cuspindo, e repetindo três vezes uma fórmula mágica. São Patrício quase foi morto por um druida invejoso que lhe deu cerveja envenenada; salvou-se porque fez o sinal da cruz sobre o copo, recitando ao mesmo tempo uma fórmula encantatória (Robinson, op. cit., p. 193-194).

A tradição hipocrática, galênica e árabe preservou-se nos mosteiros, como o de Monte Cassino, no sul da Itália. Ali textos da medicina greco-árabe eram traduzidas para o latim. Além disto os mosteiros (os beneditinos destacaram-se nesta área) proporcionavam cuidados aos enfermos (McVaugh, 1997, p. 56). É também na Idade Média que o hospital emerge como uma instituição importante:

"O hospital medieval é universal e indiferenciado, como os lugares eclesiásticos no recinto dos quais, durante muito tempo, funcionou. Idealmente destina-se a acolher e a cuidar toda pessoa, considerada viator ou infirmus, mas na realidade recebe quem quer que esteja numa situação precária" (Agrimi & Crisciani, 1995, p. 162-163).

Não por outra razão o hospital bizantino era chamado de xenodóquia (do grego xenos, estrangeiro): acolhia os forasteiros, assim como outras instituições recebiam os peregrinos, os velhos, as crianças abandonadas. Nas classes dominantes a situação era diferente. Os reis francos, por exemplo, tinham seus médicos particulares; estes tinham posição de destaque. Não isenta de riscos; antes de morrer, Austrechild, a esposa do rei Guntram, ordenou que seus dois médicos fossem executados: "Meus amigos vão lamentar minha morte, mas os deles também" (Park, op. cit., p. 64)

Restrições foram impostas à prática da medicina pelos judeus. Como no caso de Catão, o Censor, temia-se que, sob o pretexto de tratar doenças, assumissem controle sobre as pessoas (Roth, 1963, p. 17). Quem os consultasse poderia incorrer na ira divina. Em 576 Leunast, importante eclesiástico de Bourges, fez uma peregrinação ao santuário de Saint Martin de Tours, em busca de cura para sua catarata. Obteve alguma melhora, mas resolveu também submeter-se a uma sangria com um médico judeu. Ficou cego. Adequada punição, proclamou o bispo Gregório de Tours, para quem procurou ajuda judaica depois de receber uma graça divina (Nutton, op. cit., p. 83). Também havia na proibição um aspecto prático: através dela os outros praticantes da medicina eliminavam um concorrente importante (Park, op. cit. p. 77).

Não era a única proibição a incidir sobre os judeus: eles não podiam ter terras, não podiam comerciar produtos primários, estavam excluídos das corporações de artesãos. Foram assim empurrados para a ocupação que acabou por caracterizá-los: a usura. A visibilidade que assim adquiriram tornou-os alvos fáceis, sobretudo à época das Cruzadas, quando grandes massacres ocorreram na Europa.

Este processo de exclusão nem sempre funcionava, porque era grande a fama dos médicos judeus. Assim, em alguns casos, poderiam atender pacientes, desde que sob a vigilância de médicos cristãos. Pouco a pouco vão voltando à cena, e nos últimos séculos da Idade Média já os encontramos em diversos lugares da Europa. O imperador Frederico II (1194-1250) conhecido como Stupor Mundi, Esplendor do Mundo pelo arrojo de suas inovações, era um conhecedor da obra de Maimônides e encorajou a difusão do conhecimento científico judaico, inclusive na língua hebraica.

Importante mudança ocorreu na Península Ibérica. Com a ascensão ao poder da fanática dinastia almôada, as comunidades judaicas começaram a ser perseguidas. Muitos judeus apoiaram a reconquista cristã, como antes tinham apoiado os árabes. De início, porém, os governantes cristãos os encararam com suspeita. No entanto, com as lutas entre os vários reinos então surgidos, passaram a pedir apoio a muçulmanos e judeus, que voltaram a adquirir posição de destaque nas cortes, como financistas, administradores - e médicos. O médico do rei Afonso VI de Castela (1065 - 1109), Josef ibn Ferrizuel, era tão influente que as comunidades judaicas tratavam-no por Nassi, príncipe (Roth, op. cit. p.79-80).

No sul da Europa, na Itália e na França, sobretudo, os médicos judeus também eram ativos. Dizia-se que a famosa escola de Salerno (precursora das escolas de medicina e da institucionalização profissional) fora fundada, no século décimo, por quatro pessoas: o rabi Helinus, o grego Pontus, o árabe Abdala e o cristão Salerno. Seguramente uma lenda, mas alusiva ao espírito tolerante da instituição, que não apenas admitia o ensino em grego, árabe e hebraico, como também era aberta às mulheres. Ali surgiu um tratado de obstetrícia, De Mulierum Passionibus Ante, In et Post Partum, de autoria de Trotula, cuja identidade nunca foi estabelecida: não se sabe se o nome de uma pessoa ou uma designação usada para todas as parteiras da época. Detalhe interessante é que o famoso texto elaborado pela escola em meados do século treze, o Regimen Sanitatis Salernitarum, um tratado de higiene, era composto em versos. Apesar da tradição de tolerância, há nessa obra um ataque aos "marginais" da profissão, neles incluídos o empírico, o monge, o barbeiro, a mulher velha - e o judeu (Park, op. cit. p. 76).

O que não era um fato isolado. Com as cruzadas se haviam reacendido as perseguições anti-judaicas. O Concílio de Latrão (1179) proibiu a usura, impediu cristãos de aceitarem serviços de judeus (e das parteiras) e exigiu que morassem em locais separados, o que abriu caminho para a instituição do gueto. Vários países - a Inglaterra, notadamente - os expulsaram; as cruzadas freqüentemente se acompanhavam de massacres e o mesmo acontecia durante os surtos de peste: os judeus eram acusados de provocar a doença envenenando os poços. Na Península Ibérica, milhares de judeus aceitaram o batismo para escapar à morte. Surgiram assim os cristãos-novos ou marranos, muitos dos quais continuavam a praticar seu judaísmo em segredo. Em 1492 os judeus foram expulsos da Espanha, deslocando-se, em sua maioria para Portugal. Sob pressão dos reis católicos espanhóis, Fernando e Isabel, Dom Manuel o Venturoso determinou, em 1497, que os judeus fossem batizados, à força se necessário. Daí o fenômeno do marranismo: nominalmente cristãos, muitos conversos continuavam praticando a religião em segredo. Vários, entretanto, emigraram para a tolerante Holanda.

Era tão grande o número de profissionais de origem judaica portuguesa ou espanhola que a condição de médico tornava imediatamente a pessoa suspeita de judaísmo. (Simon, 1982, p. 11-14). Exemplos são: Manoel Alvarez, médico em Évora, executado pela Inquisição; Dionísio Rodrigues, médico do rei Dom Manuel; Antonio Alvares Ribeiro, médico de Afonso VI, Luiz Alves, Francisco de Azevedo, de quem se diz ter obtido do papa Clemente X a bula suspendendo temporariamente a ação da Inquisição em Portugal, Moisés Solomon Azevedo, Diego Barassa, Samuel Leon Benavente, Manuel Bocarro, prisioneiro da Inquisição, Manuel Brudo, Abraham Bueno, Joseph Bueno, Efraim Bueno, Salomon Bueno, Isaac Cardoso, Miguel Cardoso; o "grupo dos Castros": Benedict Castro, Ezequiel de Castro, Joseph Castro, Balthazar Isaac Orobio de Castro, Moses Orobio de Castro, André Antonio de Castro, médico do Duque de Bragança, Juan Rodrigo Nuñez de Castro, médico de Felipe IV, Estêvão Rodrigues de Castro, Rodrigo de Castro, Baruch Nehemias de Castro, um dos "pais" da ginecologia; Isaac Abravanel, que se tornou ministro na Espanha, Manuel de Melo, médico de Henrique IV de França, Garcia d’Orta, médico de D.João III e que, refugiado na Índia, dedicou-se ao estudo da botânica, elaborando enciclopédico tratado sobre o assunto, e muitos outros. Dois nomes merecem destaque especial: Amatus Lusitanus e Abraham Zacuto.

João Rodrigues (Roiz) de Castelo Branco (1511-1568), também conhecido como Amatus Lusitanus (os médicos judeus portugueses não raro recorriam ao ápodo Lusitanus, como que a sublinhar orgulhosamente sua origem) era filho de marranos. Estudou medicina em Salamanca, praticou algum tempo em Portugal e depois, fugindo à perseguição, foi para Antuérpia, onde se tornou médico de celebridades e escreveu um tratado sobre botânica médica, o Index Dioscorides. Pedanius Dioscorides, que viveu em Anazarbus (sul da Turquia) no primeiro século da era cristã foi um pioneiro nesta área que, na Renascença, ganharia um novo impulso. Ilustrados por artistas como Hans Weiditz, da escola de Dürer, os tratados a respeito eram obrigatórios nas universidades. Além disto, novas plantas estavam entrando na Europa, vindas do Oriente (como era o caso dos componentes da teriagra, lendário antídoto) ou da América, como a quina, usada no tratamento da malária, e o guaiaco, medicação anti-sifilítica, que concorria com o mercúrio preconizado por Paracelso, e ainda a salsaparilha, o sassafrás, a coca. Garcia d’Orta que, como já foi dito, era um ardente defensor da botânica médica, importava plantas do Oriente (Wear, op. cit., p. 306-307).

Amatus Lusitanus não ficou em Antuérpia. Em 1540 o Duque de Ferrara, Ercole II d’Este, nomeou-o professor de medicina na universidade daquela cidade. Ali trabalhou com o famoso anatomista Giovanni Battista Canano na dissecção de cadáveres: o que também era uma inovação da modernidade, pois até então a manipulação do corpo morto era proibida. De Ferrara foi para Ancona, de lá para Pesaro; quando a Inquisição chegou à cidade fugiu para Ragusa (a mobilidade era uma característica dos médicos cristãos-novos ou judeus). Finalmente estabeleceu-se em Salônica, onde muitos judeus viviam sob a proteção do sultão turco.

O outro nome importante é o de Abraham Zacuto (1576-1642), conhecido como Zacuto Lusitano. Era neto do famoso médico e astrônomo do mesmo nome. O primeiro Abraham Zacuto, astrônomo do rei Dom João II e de Dom Manuel, foi figura de destaque na época dos descobrimentos: tendo treinado Vasco da Gama no uso do astrolábio (o instrumento é, inclusive, mencionado por Camões em Os Lusíadas).

Como Amatus Lusitanus, Zacuto Lusitano estudou medicina em Salamanca, e também em Coimbra; também praticou medicina em Lisboa e radicou-se em Amsterdam, onde publicou De Medicorum Principum Historia, coleção de aforismos sobre ética médica (Feingold, 1995, p. 88-11).

Os nomes citados, e sua trajetória, evidenciam a importância dos judeus, ou cristãos-novos, na medicina em Portugal.

"A medicina judaica era preferida.(...) Enquanto a medicina árabe decaía a olhos vistos, a judaica conservava toda a tradição árabe, depois acrescentada com as inovações de origem européia.(...) Portugal despachou pela Europa afora, nos séculos XVI e XVII, enormes levas de médicos, alguns dos quais para reputadas escolas universitárias. Os resultados do recenseamento efetuado em 1614 mostram um grande número de médicos judeus exilados por suspeita de judaísmo e contratados pelas melhores famílias européias." (Gomes, 1981, p. 251-252).

Além do conhecimento, os médicos cristãos-novos eram, na maioria, poliglotas, o que lhes permitia acesso a tratados científicos em várias línguas; podiam também tratar pacientes de outras etnias. Era tão importante essa presença que, em 1606, teve de ser fundado um "Colégio dos Médicos Cristãos-Velhos". Em 1653 foi editado um "Regimento dos Médicos e Boticários Cristãos-Velhos". (Gomes, op .cit., p. 252)

Um dos lugares para onde Portugal "despachou" médicos foi o Brasil. Em sua clássica História Geral da Medicina Brasileira, Lycurgo Santos Filho examina a presença dos cristãos-novos no que chama de primeiro período da medicina no Brasil: do século dezesseis até princípios do século dezenove. Os profissionais habilitados eram os físicos, médicos propriamente ditos, e os cirurgiões. Os físicos, que se localizaram nas principais cidades e vilas, nas sedes das capitanias, ocupando os cargos oficiais, eram "cristãos-novos quase todos" (Santos Filho, 1991, p. 303). Vieram em geral depois que, em 1547, D. João III conseguiu do papado a instalação do tribunal do Santo Ofício em Portugal. Os territórios recém-descobertos poderiam ser um refúgio para a inevitável perseguição. Assim, cristão-novo era o licenciado Jorge Valadares, considerado o primeiro diplomado a exercer a profissão no país. Integrando a comitiva do governador-geral Tomé de Sousa, foi designado para o cargo recém-criado de físico-mor de Salvador. O sucessor de Valadares, Jorge Fernandes era "meio cristão-novo", segundo Santos Filho; foi sucedido por mestre Afonso Mendes, "cirurgião-mor das partes do Brasil", suspeito de judaísmo. Outro cirurgião-mor de Salvador, mestre José Serrão, era cristão-novo (Santos Filho, op. cit., p. 304 -309). Santos Filho limita-se a estes quatro exemplos, mas Bella Herson, na exaustiva pesquisa que incluiu arquivos em vários países, levantou uma lista muito maior, sobretudo de condenados pela Inquisição, lembrando que muitos judaizantes eram deportados de Portugal para o Brasil (Herson, 1996, p. 93).

Santos Filho não demonstra qualquer entusiasmo pelo nível científico ou cultural dos primeiros médicos no Brasil: "(...) foram de humilde condição(...) broncos, iletrados(...) não ocuparam posições de relevo na sociedade ou na administração. Não formaram entre ‘os homens bons’ da governança. Não alcançaram prestígio e fortuna." Os físicos dos séculos dezesseis e dezessete "entendiam mais de astrologia do que patologia", mais de cartas de navegação do que de textos médicos, aliás escassos: "Uns poucos físicos e cirurgiões trouxeram do Reino livros de arte hipocrática." Por estas razões, conclui, a população preferia buscar a ajuda dos jesuítas. O objetivo maior dos físicos era retornar à Europa, inclusive porque aqui eram muito mal pagos. Por outro lado, os filhos das famílias de alta condição social evitavam seguir a carreira médica (Santos Filho, op. cit., p. 309-324).

Esta descrição contrasta com o prestígio que gozavam os médicos cristãos-novos em cidades européias. Podemos supor que, para o Brasil, teriam vindo os médicos menos preparados, de menor capacidade ou de menor ambição, ou, como assinalou Herson, aqueles deportados. Em muitos países europeus, contudo, os doutores de origem judaica destacavam-se, não apenas profissionalmente, como também pela importante contribuição que deram ao debate filosófico da época (Gomes, op. cit., p. 254-262). Em primeiro lugar, era clara a sua preocupação ética: vários deles escreveram sobre o assunto. O que remete à herança talmúdica e bíblica, mas pode corresponder a uma injunção da época; por muitos vistos com maus olhos, eles tinham de se provar profissionais acima de qualquer suspeita. E suspeitas surgiam sempre. Foi o que ocorreu, por exemplo, quando da polêmica mantida por Amatus Lusitanus com o médico e botânico Pier Andrea Mattioli, a respeito de Dioscorides. Em resposta às críticas de Lusitanus, Mattioli acusou-o de agir por "fúria cega", similar à "heresia que o cegava em relação à vontade divina" (Feingold, op. cit., p. 84). Talvez por causa desta, e de outras acusações, Amatus Lusitanus incluiu, em uma de suas Centuriae (coletânea médica), uma espécie de testamento sobre sua carreira como médico que contem, inclusive, alusões ao juramento hipocrático:

"Juro por Deus Todo-Poderoso que nunca, em minha prática médica, afastei-me da herança que em boa-fé me foi confiada; que nunca enganei ninguém; que nunca cometi exageros ou deturpações para ganhar mais: não cobicei dinheiro por meus serviços médicos e tratei muitos sem receber e com igual carinho. Altruísta, recusei a remuneração que me era oferecida, preferindo a cura do paciente à sua riqueza. Tratei por igual cristãos, muçulmanos e judeus. A posição social do paciente nunca influiu em minha conduta; tratei todos igual. Nunca fiz ninguém adoecer. Sempre disse a verdade. Não favoreci boticário algum, a não ser baseado no caráter e competência. Nas minhas prescrições, agi com moderação. Nunca revelei um segredo que me foi confiado. Nunca ministrei uma droga venenosa. Não pratiquei abortamentos. Em suma, nada fiz que fosse indigno de um médico honrado e distinto. Fui diligente e jamais abandonei o estudo dos bons autores. Os muitos estudantes que me procuraram foram como filhos para mim; fiz o que estava a meu alcance para treiná-los e para ensinar-lhes a boa conduta. Publiquei meus escritos médicos não por ambição, mas para contribuir, em alguma medida, para melhorar a saúde da humanidade. Deixo a outros decidir se consegui realizar-me; este, ao menos, foi o meu objetivo, o objetivo pelo qual rezei."

 

Os médicos judeus tinham um outro problema, este de natureza filosófico-religiosa, surgido quando o racionalismo, impulsionado pelos ventos das mudanças sociais e culturais, se impôs. Foi uma verdadeira convulsão no judaísmo, pois era também a época em que chegava ao auge a corrente místico-religiosa representada pelo cabalismo. A Cabala, explica o grande estudioso do tema, Gershom Scholem (1989, p. 3) "é o termo tradicional e mais comumente usado para designar os ensinamentos esotéricos do judaísmo e do misticismo judaico, especialmente nas formas adquiridas do século doze em diante; no sentido mais amplo, significa todos os sucessivos movimentos esotéricos do judaísmo" . Na verdade, o misticismo judaico é muito mais antigo; estava ligado à astrologia dos caldeus, à demonologia dos babilônios e persas, ao culto de Serapis-Ísis do Egito helenístico, à metempsicose hindu, ao quietismo Sufi, ao ascetismo cristão, ao neoplatonismo (Ausubel, op. cit., p. 102).

Em busca da "sabedoria oculta" que explicaria o universo e o sentido da vida, os cabalistas procuravam significados secretos nos textos bíblicos. Convencidos de que as vinte e duas letras do alfabeto hebraico tinham sido os instrumentos com os quais Deus criara o mundo, buscavam o meio de combinar tais letras de modo a liberar as poderosas forças nela ocultas. Tratava-se também de uma numerologia, já que as letras hebraicas correspondem a números.

A Cabala representava uma esperança para os judeus sempre ameaçados. Paralelamente a ela surgiu, no início da modernidade, um forte movimento messiânico. Que, de novo, não era o primeiro; à época de Cristo eram numerosas as seitas apocalípticas, a mais conhecida sendo a dos essênios. Os falsos messias eram líderes carismáticos que se propunham a apressar o fim dos tempos, levando os judeus de volta à Terra Santa. O mais famoso deles foi Shabetai Tzvi (1626-1676), nascido em Smirna. Homem estranho, mas de magnético poder sobre as pessoas, Tzvi associou-se, na Palestina, ao cabalista Nathan de Gaza. A mensagem dos dois propagou-se pelas comunidades judaicas e logo um grande número de judeus estava preparados para segui-los até a Jerusalém, onde, de acordo com uma visão de Natan de Gaza, Tzvi entraria cavalgando um leão e acompanhado por uma serpente de sete cabeças. Mas as autoridades turcas, que detinham o poder sobre a Palestina, não concordavam com o plano. Mais: prenderam Tzvi, que acabou se convertendo ao islamismo, recebendo do sultão um cargo na corte e até uma nova mulher. Mesmo assim pretendia continuar seu movimento messiânico que foi, contudo, enfraquecendo progressivamente, ainda que uma seita, os Donmeh, continuassem acreditando (até o presente século) que ele retornaria como Messias (Wigoder, 1991, p. 472).

Portugal também sentiu os efeitos do movimento messiânico. Ali chegou, em 1527, David Reubeni, propondo ao rei D. João uma aliança contra os turcos. O marrano Diogo Pires, impressionado com Reubeni, resolveu assumir o seu judaísmo. Mudou o nome para Salomão Molcho (uma variante do hebraico melekh, rei), estudou a Cabala na Palestina e voltou à Europa; junto com David Reubeni, tentou conseguir o apoio do Imperador Carlos V, mas foi preso e queimado na fogueira pela Inquisição em Mantua. Reubeni, também preso, teve destino incerto; provavelmente foi queimado também. (Roth, 1979, p. 107).

Estes movimentos místicos mostram uma cisão no judaísmo. Pois, ao mesmo tempo, o racionalismo que informava boa parte do trabalho talmúdico e da obra de um Maimônides, continuava em ascensão. Duas figuras expressam-no bem. Uriel da Costa, ou Uriel Acosta (1585-1640), nasceu no Porto, de família convertida ao catolicismo. Contudo, ele retornou ao judaísmo e fugiu com sua família para Amsterdam. Lá entrou em choque com os rabinos, dirigindo à sinagoga um texto chamado Propostas contra a Tradição, em que condenava a rigidez ritual e preconizava uma religião mais aberta. Em conseqüência foi excomungado e tornou-se um verdadeiro pária. Para voltar à comunidade, teve de se submeter à penitência pública, que incluiu açoitamento. Depois disto, suicidou-se (Wigoder, op. cit., p.106).

Obra mais significativa realizaria Baruch (ou Benedito) Espinosa (1632-1677). Nascido em Amsterdam, de pais portugueses, muito cedo iniciou-se na filosofia. Atraído pelo racionalismo cartesiano, questionou, como Uriel da Costa, a tradição rabínica e foi também excomungado; mas prosseguiu em sua carreira como filósofo, teve seu trabalho reconhecido e chegou a ser convidado para ocupar a cátedra de filosofia na Universidade de Heidelberg; recusou, para continuar o seu trabalho sem as injunções de um cargo. Sua obra mais conhecida é o Tractatus Theologico-Politicus, publicado anonimamente em 1670, e que é um ataque racionalista à religião. Como observa Pierre Macherey, o filósofo não hesita em submeter dogmas espirituais ao crivo da inteligência: "Por Deus, eu entendo...", diz ele, e esse "eu entendo" (intelligo) semelhante ao Cogito cartesiano, não apenas defende o primado do pensamento independente, como também é corajosamente formulado na primeira pessoa, substituindo um "entende-se" que poderia ser menos arriscado (Macherey, 1998, p. 36). Espinosa afirma a existência de uma substância infinita no Universo, que é a Natureza ou Deus; não via nenhum sentido em contrapor a eternidade de Deus à finitude da matéria. Este "colapso" da divindade no mundo natural, chamado de panteísmo pelos contemporâneos, era visto como profundamente herético, e a acusação de "espinosismo" podia ser um anátema (Jacob, 1988, p. 117-119), inclusive na comunidade judaica.

"Se o marxismo retira Deus da História", diz Pinharanda Gomes, "Espinosa retira a transcendência ao Antigo Testamento. À luz de sua crítica o Testamento, formado por obras várias e de teor desigual, é o espaço da Lei e da Profecia(...). Nenhuma nação é singularmente escolhida por Deus. Espinosa afasta-se das concepções mais fundas do rabinismo e da tradição e põe no homem os problemas e as soluções." (Gomes, op. cit., p. 283).

No Tratactus Theologico-Politicus diz Espinosa que o método de interpretar a escritura não difere muito do método de interpretar a natureza. No caso da natureza, a história natural (um conceito lançado por Bacon) permite estabelecer os axiomas que definem os fenômenos naturais. No caso das Escrituras, procura também extrair princípios básicos, que explicarão a intenção dos autores. Essa idéia de "autores" já era revolucionária, posto que, para os religiosos judeus, as Escrituras tinham origem divina. E Espinosa ia mais adiante negando a possibilidade de milagres, por contrariarem as leis do mundo natural. Seu judaísmo era, portanto, uma expressão do "desencantamento do mundo", de que falaria Max Weber, um desencantamento que trocava o agnosticismo cabalístico pela racionalidade do natural (Berman, 1984, p. 58-59). Mas não há negativismo nesta atitude; como observa Jean-Paul Dollé, Espinosa substitui o julgamento moral baseado em noções estanques do Mal e do Bem por uma arte de viver, "condenando tanto a idéia de um Deus tirânico como as paixões tristes", nestas incluídas o ódio e a culpa (Dollé, 1998, p. 42-43). Espinosa é um psicólogo de primeira grandeza; a sua descrição dos processos mentais é ainda válida, pelo detalhe e pela precisão (Alexander & Selesnick, op. cit., p. 98). Em Ética, ele sustenta que "a alma humana está ligada ao corpo" (Espinosa, 1973, p. 146); que os nossos problemas emocionais têm causas naturais: "Nós padecemos, na medida em que somos uma parte da Natureza" (Espinosa, op. cit., p. 231); e que a paixão ("afecção") pode controlar o comportamento humano: "A força de uma paixão qualquer, ou seja, de uma afecção, pode superar as outras ações do homem" (Espinosa, op. cit., p. 232). Alegria ou tristeza podem resultar da imagem de uma coisa passada, ainda que esta coisa não mais exista (Espinosa, op. cit., p. 188); em outras palavras somos afetados por nossas fantasias, mais do que pela razão, o que é especialmente verdadeiro no caso da culpa ou vergonha, que "...é uma espécie de tristeza; ela não tem relação com a razão" (Espinosa, op. cit., p. 273). Estas idéias evidenciam a posição de Espinosa como um precursor da moderna psicologia, e de Freud em particular: "O que Freud chama de saúde mental, Espinosa denomina de liberdade da mente" (Alexander & Selesnick, op. cit., p. 100).

As idéias de Espinosa tiveram repercussões imediatas na medicina praticada pelos judeus: "A crise latente na maior parte desses médicos é a questão da religião frente ao inusitado da ciência" (Gomes, op. cit., p. 254). Um exemplo é o de Baltasar Orobio de Castro. Médico e catedrático de metafísica numa universidade espanhola, foi preso pela Inquisição, acusado de práticas judaicas. Confessou sob tortura e, num auto-de-fé (1656), aceitou a Igreja. Depois ensinou medicina em Toulouse; por fim, depois de uma crise de consciência, foi para Amsterdam, onde retornou ao judaísmo. Adotou uma postura fundamentalista, atacando ferozmente Espinosa. Dividia os marranos que assumiam seu judaísmo em dois grupos: aqueles que, humildes, se submetiam à religião e outros que "tendo estudado ciências seculares como lógica, física, matemática e medicina na terra da idolatria [a Península Ibérica], chegam cheios de vaidade e arrogância" (Yovel, 1989, p. 51).

Alguns, como Rodrigo de Castro, procuravam conciliar as duas coisas: o médico equivale ao sacerdote, quando já não pode salvar o corpo, deve salvar a alma. Já Manoel Bocarro Francês, que mantinha correspondência científica com Galileu Galilei, opunha-se às teses místicas da Cabala. Tal debate refletia a conjuntura de uma época de transição, em que o novo e o velho, o científico e o mágico estavam lado a lado. É o caso da Cabala que, diz Henri Atlan (op. cit., p. 125) "ultrapassou o limite da tradição judaica propriamente dita para influenciar as filosofias do Renascimento de onde nasceu a ciência clássica". Esta é também a época da alquimia, precursora da química, a época em que a astrologia se confunde com a astronomia, tudo isto influenciando, por exemplo, a medicina de um Paracelso. Observa Atlan (op. cit., p. 125): "Este esquema de pensamento nos parece hoje, e muito justamente, anti-científico, mas foi ele que abriu o caminho para o pensamento científico" .

Estas aventuras do espírito nem sempre eram bem toleradas pelo poder constituído, como o mostra a caça às bruxas, que desempenhavam um papel importante na assistência aos doentes: enquanto as universidades ainda estavam se consolidando, e a medicina se institucionalizando como profissão, os rituais mágicos representavam o recurso que a população buscava. "Por toda a Europa", diz Wear (op. cit., p. 243), "as bruxas curavam". Eram rituais de fertilidade ou cura; por exemplo os benandanti da Itália diziam-se capazes de curar a retenção urinária. Mas as bruxas também podiam causar doença à distância, acusação pela qual muitas vezes foram levadas à fogueira.

Por outro lado, a medicina dava passos importantes. Um deles, já mencionado, foi a introdução da anatomia no currículo das faculdade. O tabu bíblico-medieval em relação a cadáveres foi superado, primeiro por artistas - Leonardo da Vinci dissecava corpos de pacientes falecidos no Hospital Santo Spirito. Rafael, Dürer e Michelangelo seguiram seus passos. Mas o primeiro grande nome da anatomia médica foi Andreas Vesalius (1514-1564) autor do maciço e brilhantemente ilustrado De Humani Corporis Fabrica. Crítico de Galeno, a quem acusava de conhecer somente a anatomia animal, Vesalius sustentava que o conhecimento do corpo humano só pode ser obtido através da dissecção, o que ele mesmo fazia, enquanto dava aulas; ao contrário de Maimônides, por exemplo, os pioneiros da moderna anatomia consideravam os textos como de menor importância em relação à observação e à manipulação do cadáver. O ensino da anatomia recebeu um importante apoio da Reforma protestante, tanto por parte de Lutero, como de Calvino e Melanchton (Wear, op. cit. p. 288-289).

Outro avanço importante foi a descoberta da circulação sangüínea (1628) por William Harvey, um avanço que ninguém menos do que René Descartes considerou fundamental. A introdução do microscópio ajudou a afastar ainda mais a anatomia e a fisiologia da eséculação galênica. Finalmente, a disseminação das armas de fogo e os ferimentos que causavam apressaram o desenvolvimento da cirurgia, campo em que se destacou o francês Ambroise Paré (1510-1590).

O que temos aí é uma verdadeira mudança de rumo. Já não estamos diante de uma medicina contemplativa, baseada na sabedoria de alguém; não, agora se trata de uma atividade eminentemente prática em que a mão soma-se ao olho, numa valorização do trabalho manual que a antigüidade greco-romana e o medievo não conheciam. Obviamente, em muitos casos havia sido necessário uma intervenção mais direta no corpo do enfermo, mas isto, na maioria das vezes, era relegado pelo médico a outros grupos. Os partos estavam a cargo das parteiras (um dos poucos procedimentos permitidos às mulheres). Quanto à sangria e intervenções cirúrgicas, ficavam por conta de sangradores e barbeiros, que, em Portugal, eram conhecidos como "idiotas" (Gomes, op. cit., p. 251).

Agora era diferente. Agora o médico dissecava, operava, manuseava espécimes. Logo estaria também percutindo e auscultando. A medicina apoiava-se cada vez mais em dados concretos - e que começavam a ser traduzidos em números - e menos na abstração humoral.

A medicina em geral e aquela praticada pelos judeus em particular - que se apoiava sobretudo na autoridade do conhecimento e da sabedoria - foram colocadas em xeque por estas novas tendências. Vimos que Amatus Lusitanus trabalhou com dissecção anatômica, mas a atitude de Abraham Zacuto frente às descobertas de Harvey foi de "benevolência expectante". Zacuto elogiou o trabalho, mas, na sua própria descrição da circulação sangüínea, repete Galeno, dizendo, por exemplo, que a veia cava tem a função de levar o sangue ao estômago e intestinos para nutri-los (Friedenwald, op. cit., p. 313).

Pretendendo-se ciência, a medicina não aceitava mais estas errôneas concepções. Ao mesmo tempo, a modernidade alterava dramaticamente a conjuntura judaica. Grandes mudanças estavam por ocorrer.

 
 
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