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Scliar, Moacyr Jaime. Da Bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 168 p.

2 - A FASE TEOLÓGICA OU BÍBLICA

De maneira geral, as idéias sobre saúde, doença e tratamento na tradição judaica envolvem os três modelos antes mencionados: mágico-religioso, empírico e científico que, como foi dito, podem coexistir de forma "telescopada" em uma sociedade. Mas estes modelos apresentam características peculiares na cultura judaica. Algumas destas características serão aqui apresentadas.

Consideremos, inicialmente, a época bíblica. O termo "Bíblia" é grego e significa "livros". De fato, a Bíblia é antes uma coleção de livros. Em hebraico, esta coletânea chama-se Tanach, uma sigla formada por três letras: o T de Torah (que, por sua vez, é a coleção dos cinco livros de Moisés, o Pentateuco), o N de Neviim (Profetas) e o CH de Chetubim ou Ketubim (Escritos). A Bíblia começou a ser escrita provavelmente entre 950 e 850 a.C. e tem vários autores, o que se comprova pelos diferentes estilos ou tradições. A mais antiga é a tradição Javista, comumente simbolizada pela letra J, de Javeh ou Jeová: o nome de Deus era pronunciado apenas uma vez ao ano, pelo sacerdote, no templo de Jerusalém. A segunda tradição é Eloísta: Eloim ou Adonai era a denominação dada a Deus nas preces cotidianas. Depois vêm a tradição do Deuteronômio (D), denominação que vem do grego deutero-nomos, segunda lei, mas é uma tradução inapropriada do hebraico: deveria ser "cópia da Lei", porque esta parte da Bíblia repete em parte a narrativa e as prescrições de outros livros bíblicos. Finalmente, há a tradição Sacerdotal (P, do inglês Priestly). O conjunto destes livros foi denominado, pelo cristianismo, Antigo Testamento, em contraposição ao Novo Testamento, que narra a vida de Jesus (no presente texto, e por comodidade, Bíblia e Antigo Testamento serão usados como sinônimos, a menos que haja menção expressa em contrário).

Do ponto de vista do binômio saúde-doença, no relato bíblico predomina o modelo religioso (a menção à magia propriamente dita é muito rara). Diferente, porém, de outras religiões da antigüidade, aqui não são espíritos malignos os responsáveis pela doença. Ainda que as concepções referentes à saúde e enfermidade dos hebreus tenham sido influenciadas por culturas hegemônicas, particularmente a egípcia (Berger, 1995, p. 16) a religião hebraica tem aspectos chamativos. A doença quase sempre é vista como punição, mas esta punição vem do Senhor: "Se não me escutardes e não puserdes em prática todos estes mandamentos, se desprezardes as minhas leis (...) porei sobre vós o terror, a tísica e a febre..." (Levítico, 26:16). Mas aqueles que cumprem os preceitos divinos têm outro destino: "Servireis ao Senhor vosso Deus e ele abençoará vosso pão e vossa água e afastará de vosso meio as enfermidades." (Êxodo, 23:25). Deus é o médico por excelência: "Eu sou o Senhor que te curou (Êxodo, 15:26). A figura do médico praticamente inexiste no Antigo Testamento. Em alguns casos os profetas, intermediários da divindade, realizam curas, até milagrosas. Eliseu salva - ou traz de volta à vida - o filho de uma viúva (1 Reis: 17); Elias ressuscita uma criança (2 Reis: 4). Também Elias promove a cura do general sírio Naaman, que sofria de uma doença de pele (2 Reis: 5). Quando Ezequias, rei de Judá, adoece, o profeta Isaías, a princípio, desengana-o; depois que o rei chora copiosamente e implora a Deus que o salve, o Senhor manda que Isaías o cure, o que o profeta faz, prescrevendo que um emplastro de figos seja colocado sobre as feridas do enfermo (Isaías, 38).

Quanto a médicos (rof’im), aparecem raramente. A primeira menção ocorre no Gênesis (50:1-3), mas aí se trata tão somente do embalsamento do patriarca Jacob. Em Jeremias há uma metafórica, e desanimada, alusão aos médicos. E no muito citado caso do rei Asa (2 Crônicas 16:12), portador de uma séria enfermidade dos pés, o paciente morre por ter consultado médicos ao invés de recorrer ao Senhor (Kottek, 1995, p. 34).

A ausência de médicos, contudo, não significa uma aceitação da doença ou da morte. Como o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, a vida é sagrada, e ele é obrigado a preservá-la. A existência pós-terrena, escassamente mencionada na Bíblia (Berger, op. cit., p. 16), não serve como escusa para abandonar os cuidados com o corpo. Estes cuidados dizem basicamente respeito à higiene, às práticas dietéticas e à profilaxia de determinadas doenças. A terceira parte do Levítico, capítulos 11 a 15, especialmente, contem uma série de prescrições referentes a uma variedade de situações.

Uma doença recebe peculiar atenção: a lepra (tzaraat, em hebraico). Tanto é assim que o diagnóstico é confiado ao sacerdote. Critérios para tal são mencionados, alguns de certeza: "Tumor, pústula ou erupção" na qual "os pelos se tornaram brancos e a parte afetada aparece mais afundada que o resto da pele" (Levítico, 13: 2,3), outros, de probabilidade (exigindo, neste caso, um novo exame, após isolamento de sete dias). Mas a anestesia não é mencionada nem o espessamento dos nervos superficiais, que são pontos essenciais para o diagnóstico (Chambers, 1998, p. 1270), de modo que a avaliação sacerdotal necessariamente envolvia um grau de imprecisão. Provavelmente sob o rótulo de lepra outras situações eram incluídas, mesmo porque não há muitas indicações de que a doença fosse freqüente na antigüidade. Um estudo de mais de 18 mil esqueletos recuperados em trabalhos arqueológicos não mostrou as lesões ósseas da enfermidade antes do sexto século a.C. (McNeill, 1976, p. 144). E Celso, o famoso médico romano do primeiro século d.C., considerava-a rara (Biraben, 1995, p. 299). Rosebury (1976, p. 47) sugere que as lesões em realidade fossem sifilíticas, o que justificaria as precauções bíblicas: a sífilis é mais contagiosa do que a lepra. Tal posição, contudo, envolve uma outra polêmica, relacionada ao surgimento da sífilis no Velho Mundo. Como a doença se disseminou na Europa a partir do final do século quinze, levantou-se a hipótese de que teria sido trazida da América pelos marinheiros de Cristóvão Colombo. Outros autores sustentam que infecções por treponemas existiam na Europa desde a antigüidade sob a forma de doenças benignas, transmitidas pelo contato ocasional. Com a elevação do padrão de vida, à época dos descobrimentos marítimos, os treponemas cuja transmissão dependia do contato pele a pele foram substituídos por cepas mais agressivas, de transmissão sexual. Uma teoria correlata sustenta que o agente causador da sífilis já existia tanto no Velho como no Novo Mundo, e que a disseminação da doença na Europa, a partir do século quinze, ocorreu devido à liberação de costumes, maior deslocamento de pessoas, guerras e a abolição papal dos leprosários, que provavelmente abrigavam muitos portadores de sífilis (Crosby Jr., 1972, p. 122-164; Brandt, 1993, p. 562-564).

O diagnóstico da lepra pelo sacerdote do Templo não era exatamente um procedimento médico (no máximo, tratava-se de "inspeção sanitária"). Nenhum tratamento, mesmo tentativo, era instituído. O objetivo era rotular o paciente como "puro" ou "impuro". E, se se tratava de "impureza", via-se nas lesões a evidência do castigo divino do qual a pele era um alvo habitual. Quando o Faraó proíbe a saída dos hebreus do Egito, o Senhor diz a Moisés e Aarão que recolham fuligem do forno e a lancem ao céu. Com o que provocam "nos homens e nos animais", o surgimento de tumores que depois se transformam em pústulas (Êxodo, 9:8-10). Até mesmo Maria (Miriam), irmã de Aarão e meia-irmã de Moisés é castigada com a lepra por ter criticado a Moisés (Números, 12: 1-10). E quando quis por à prova Jó o Senhor feriu-o "com chagas malignas desde a planta dos pés até o alto da cabeça" (Jó, 1:7). Nem todas as doenças mencionadas na Bíblia resultam de castigo divino (Baruk, 1985, p. 71) mas é óbvio que, quando este castigo ocorre, ele deve ser bem visível: a pele é o local ideal para isto. Mais: implica a segregação do pecador.

Que o tabu funcionou, mostra-o o fato de que o cristianismo também o endossou. O estabelecimento de leprosários na Europa já no quarto século da era cristã é provavelmente o resultado da cristianização do Império Romano (McNeill, op.cit., p. 145). "Seguindo os preceitos do Levítico", diz Rosen, "a Igreja assumiu o encargo de combater a lepra. O Concílio de Lyon, em 583, restringiu a associação livre de leprosos com pessoas sadias, política seguida, e refinada, por concílios posteriores (...). Um leproso representava uma ameaça pública. Assim, a comunidade, no intuito de proteger seus membros sadios, o expulsava. Sendo a doença incurável, ele se tornava um proscrito para o resto da vida. Muito antes de receber a bênção misericordiosa da morte física, já se o considerava, socialmente, morto" (Rosen, 1994, p. 60).O modelo de diagnóstico era semelhante ao da Bíblia, mas agora era formada uma comissão, composta de um bispo, vários clérigos e - inovação - um leproso, considerado especialista na matéria. Rotulado o problema do examinando como lepra, procedia-se ao processo de exclusão. "O leproso vinha vestido com uma mortalha, lia-se a missa solene para os mortos, jogava-se terra sobre os doentes; então os padres o conduziam, acompanhado de parentes, amigos e vizinhos, até uma choupana ou leprosário, fora dos limites da comunidade" (Rosen, op. cit., p. 61). Cuidar dos leprosos nos lazaretos era parte das atribuições de várias ordens religiosas cristãs (Risse, 1994, p. 56). "Desde a alta Idade Média", diz Foucault (1961, p. 13-16) "até o fim das Cruzadas os leprosários multiplicaram sobre toda a superfície da Europa suas cidades malditas. Segundo Mathieu Paris haveria até 19.000 deles na cristandade." Mas, no fim da Idade Média, "a lepra desapareceu do mundo ocidental". Resultado da interrupção do intercâmbio com o Oriente, este sendo repositório de infecção? Talvez, mas não é este o aspecto que interessa a Foucault e sim o do estigma, que agora passará à loucura, o leprosário sendo substituído pelo hospício.

O conceito de "puro" e "impuro" também se estende aos animais usados na alimentação. Dos animais aquáticos, por exemplo, só são permitidos os peixes que têm escamas e barbatanas. A lista de proibições é extensa, e inclui aves de rapina, répteis, vários tipos de insetos (Levítico, 11: 1-47); o tabu mais conhecido é o do porco, aliás comum a outras etnias do Oriente Médio. A questão que se coloca é: tinham como objetivo, tais proibições, a profilaxia de doenças? Em algumas situações, este parece ser o caso. Ostras e moluscos, que se incluem na categoria dos proibidos, e que freqüentemente se desenvolvem em águas próximas à descarga de esgotos são responsáveis por brotes epidêmicos de hepatite A (Margolis, 1992, p. 132). E a carne de porco é a maior fonte de infecção humana por Trichinella spiralis (Rausch, 1992, p. 269). Trata-se, contudo, de doenças em que os agentes etiológicos e os mecanismos de transmissão são de descoberta relativamente recente; o legislador bíblico teria de basear-se em observações empíricas bastante acuradas para fazer uma associação de causa e efeito. Além disto, na maioria dos tabus (aves de rapina, por exemplo) não fica evidente que doença ou doenças evitariam; finalmente, o que é mencionado não é o risco de enfermidade, mas sim a impureza do alimento.

Por todas estas razões sustenta Mary Douglas (1966, p. 49) "Quanto mais nos aprofundamos nestas regras e em outras similares, mais óbvio se torna que estamos estudando sistemas simbólicos" . Em outras palavras, os animais são proibidos, não por causa dos danos que podem causar, mas por aquilo que simbolizam. O que não é exclusivo do judaísmo Assim, numerosas culturas vêem com repulsa, ou, ao menos, com ambivalência, os répteis, e particularmente a serpente, que "encarna a psique inferior, o psiquismo obscuro, aquilo que é raro, incompreensível, misterioso" (Chevalier & Gheerbrant, 1982, p. 867) e a própria Bíblia faz dela a tentadora que precipita Eva, e depois Adão, em pecado. Baseado na constatação de que o medo aos répteis é aparentemente inato em macacos, manifestando-se logo após o nascimento, Sagan levanta a hipótese, um tanto fantasiosa, que esta aversão "recapitule" a ancestral rivalidade entre mamíferos e répteis (Sagan, 1977, p. 135-160).

Para Mary Douglas, contudo, a simbologia é outra, e tem a ver com a concepção bíblica do "sagrado como integridade". Nada que escape a determinado padrão é tolerado; no caso dos animais para a alimentação, diz a autora, "os ungulados ruminantes e de casco fendido são o modelo do tipo adequado" (Douglas, op. cit., p. 71). Os outros são tabu. Exemplo: "o camelo, pois, embora rumine, não tem o casco fendido" (Levítico, 11:4).

O antropólogo Marvin Harris (1977, p. 35) tem outra explicação, que poderia ser classificada como "ecológica": a Bíblia e o Corão condenaram o porco porque a criação deste animal era uma ameaça à integridade do ecossistema natural e cultural do Oriente Médio. Os povos que lá viviam eram em geral nômades que percorriam o deserto, cujo clima quente e seco é danoso para o porco, animal que transpira pouco e que, por causa disto, precisa manter a pele úmida - daí a razão de chafurdarem na própria urina e fezes se não houver outra fonte de umidade. Além disto é um animal que se move com lentidão, o que dificultaria o deslocamento da tribo. Finalmente, entre as comunidades pastoris e agrícolas da região, os animais valorizados eram aqueles que forneciam leite, queijo, adubo e que podiam ser atrelados a um arado. O porco não fornecia nada disto, mas em compensação sua carne é tenra, suculenta, adiposa - tentadora, em suma. Estava então criado o dilema: as tribos não deviam ter porcos, mas queriam ter porcos - para comê-los. O legislador bíblico resolveu a situação declarando o animal tabu.

Discussões similares à acima obviamente não fazem parte da Bíblia, que é um texto eminentemente prescritivo, não analítico. A razão para que as ordens sejam cumpridas é de que elas emanam da divindade, e portanto não necessitam da racionalidade humana. Nem pode ser discutidas: quando o Senhor ordena a Abraão que sacrifique seu filho Isaac ele se dispõe a fazê-lo sem discussão. O desígnio divino é insondável.

 
 
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