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Brandão Junior, Paulo Starling. Biossegurança e AIDS: as dimensões psicossociais do acidente com material biológico no trabalho em hospital. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 124 p.


CAPÍTULO V

EXPERIÊNCIA SUBJETIVA DO (A) PROFISSIONAL DE SAÚDE FRENTE AO ACIDENTE COM MATERIAL BIOLÓGICO

Neste capítulo analisamos a experiência subjetiva dos (as) profissionais de saúde após o acidente frente a AIDS, a biossegurança, as condições, organização e processo de trabalho hospitalar. As repercussões psicossociais na vida pessoal, familiar e profissional, juntamente com as reações pós-profilaxia medicamentosa e o atendimento oferecido pelo Programa de Biossegurança, também foram contemplados como temas essenciais para a discussão das dimensões psicossociais desse evento.

Os Programas de Biossegurança geralmente visam somente a aplicação do manual de condutas contra a exposição ocupacional a material biológico desenvolvido pela CNDST/ AIDS. Desta maneira, os (as) trabalhadores (as) não são consultados sobre suas experiências com EPI’s e EPC’s e sobre as possibilidades de sofrerem acidentes, para que as normas possam adequar-se à sua realidade. A parceria entre os técnicos e os (as) trabalhadores (as) facilitaria a compreensão, participação e desenvolvimento da Biossegurança em sua instituição. Neste sentido, consideramos importante a valorização do conhecimento dos (das) profissionais de saúde para identificarmos os fatores envolvidos no acidente e qual a melhor maneira de intervirmos no ambiente de trabalho.

V.1 Descrição e causas de acidentes

Segundo a Ergonomia Contemporânea, a discrepância entre o trabalho prescrito e o real é uma das origens básicas da carga de trabalho. No caso dos (as) trabalhadores (as) de saúde acidentadas, pudemos perceber que essas discrepâncias tendem a gerar condições e metas de trabalho muitas vezes incompatíveis com suas necessidades humanas de saúde e satisfação no trabalho. Como exemplo, podemos destacar os relatos de estresse por sobrecarga de trabalho, ritmo de trabalho intenso e corre-corre nos plantões.

"Na hora da emergência, na hora que a gente tá fazendo, trabalhando, em teoria é tudo bonitinho mas na prática mesmo, na hora que precisa se pega o primeiro material que tem, a única coisa que você tem que fazer é proteger a mão".

De acordo com a descrição das trabalhadoras, os acidentes ocorreram por vários motivos. Dentre eles apareceram com maior freqüência o recapeamento de agulha, a não utilização de EPI’s, a falta de atenção do (a) profissional, o ritmo de trabalho intenso e as condições de trabalho. A inadequação dos EPI’s também foi apontado como um dos problemas que causam acidente.

As trabalhadoras, muitas vezes reencapam as agulhas por insuficiência de caixas coletoras (descarpax) e também para evitarem que os (as) trabalhadores (as) da limpeza se acidentem, demonstrando solidariedade com os (as) colegas. Há uma cobrança do Programa de Biossegurança quanto às regras de precauções universais mas, por outro lado, muitas vezes existem insuficiências ou inadequação de EPI’s e EPC’s nos locais de trabalho. Entretanto, não podemos deixar de apontar que o ato de reencapar a agulha também está relacionado com a cultura hospitalar, principalmente, pelo fato dos (a) trabalhadores (as) da área de enfermagem em sua formação, até o ano de 1986, terem aprendido a realizá-lo em sua atividade de trabalho. Neste sentido, fica claro que essa atitude de reencapar a agulha não pode ser reduzida a um mero "dado frio" de causação dos acidentes, sem uma análise desses outros aspectos intervenientes.

"Eu cuido na enfermaria de dezenove pacientes. Eu tenho uma caixa. Então para não reencapar a agulha eu tenho que jogar no lixo e aí vem um profissional que tem menos conhecimento ainda para manusear o lixo e se contamina!"

"Logo após o acidente, antes a gente nem tinha este descarpax, depois disso é que vieram estas caixinhas coletoras, onde a gente deposita as agulhas usadas. A gente reencapava a agulha porque não tinha onde jogar fora."

Outro aspecto importante que precisamos refletir é o da associação do acidente com a falta de atenção ou negligência do (a) trabalhador (a), individualizando dessa forma o problema. Nesse contexto, um dos efeitos imediatos que observamos nas trabalhadoras foi o sentimento de culpa por terem sofrido o acidente. Acreditamos que este sentimento esteja relacionado com a produção da subjetividade do "ato inseguro" como responsável pelo acidente, presente nos discursos dos gestores das organizações hospitalares, programas de biossegurança (inclusive do HSE-RJ) e no Manual de Precauções Universais da CNDST/AIDS (1997,1998 & 1999). Este Manual está voltado eminentemente para os ensinamentos técnicos de como o (a) trabalhador (a) deve se prevenir contra os acidentes com materiais biológicos, privilegiando normas de condutas individuais. Neste, destacam-se as orientações em torno da maneira correta de utilização dos EPI’s, EPC’s e de como realizar o descarte de material contaminado. Consideramos de suma importância essas informações para a orientação e prevenção dos acidentes, no entanto ela só contempla um aspecto do problema, tornando-se ao nosso ver limitada e perigosa. Perigosa porque ao passarem a mensagem de "ato inseguro" reforçam a responsabilidade individual do (a) trabalhador (a) pelo acidente gerando o sentimento de culpa no profissional acidentado. Além disso, a redutibilidade inerente à categoria do ato inseguro não contempla a variabilidade do ser humano já que estas não podem ser enquadradas como parâmetros nos modelos clássicos de prevenção, como nas análises de risco e acabam sendo, ou desprezadas, ou simplificadas por categorias como esta.

"Foi falta de atenção minha mesmo, falta de cuidado".

Como os (as) trabalhadores (as) de saúde, em sua maioria, conseguem, apesar dos constrangimentos da situação do trabalho hospitalar, preservar um equilíbrio psíquico e manter-se na normalidade?

De acordo com Dejours (1988), o conflito entre a organização do trabalho e o funcionamento psíquico pode ser reconhecido como fonte de sofrimento e este sofrimento suscita sistemas defensivos. Esses sistemas levam à modificação, transformação e, em geral, à eufemização da percepção que os (as) trabalhadores (as) têm da realidade que os fazem sofrer. Entre esses sistemas encontramos as estrtégias defensivas defesas coletivas e ideologias defensivas de profissão. Essas defesas são construídas pelo coletivo de trabalhadores que, para funcionar, requerem a participação de todos os membros do coletivo. Além disso, elas contribuem para assegurar a coesão e a construção do coletivo de trabalho, com vistas também à atender aos objetivos da organização.

"Fui reencapar a agulha e ela acabou transpassando a capa e furou o meu dedo e eu estava sem luva."

No caso da não utilização de EPI’s pelas trabalhadoras entrevistadas, encontramos justificativas nos fatores relativos à organização de trabalho, além das questões associadas às precárias condições de trabalho. Esses fatores podem Ter também como conseqüência a criação de ideologias defensivas. Essa ideologia entre os (as) trabalhadores (as) é utilizada para evitar o reconhecimento do risco de acidente e de contaminação no cotidiano do trabalho. Esse reconhecimento gera ansiedade e medo no (a) trabalhador (a), tornando quase que insuportável a atividade de trabalho. Ao transformar a percepção da realidade ocultando o perigo, o trabalho torna-se possível. É importante assinalar que os (as) profissionais de saúde, ao longo da história, criam regras de ofício (Cru, 1987) para lidarem com as adversidades do trabalho. Esta riqueza pode ser verificada, como, por exemplo, no caso da falta de material que trocam com os outros setores do hospital ou trazem de outras instituições de saúde, organizando um estoque informal administrado pelos (as) trabalhadores (as). De acordo com Cru, não é suficiente utilizar procedimentos apreendidos e padronizados, é preciso sobretudo recombiná-los com precisão em função das circunstâncias, adaptá-los à sua forma do momento, aos seus recursos pessoais, à sua própria história. Cada um passa por uma fase de adoção e de adaptação no trabalho. Uma arte de viver é assim cultivada. Chamamos atenção para o resgate deste saber de ofício acumulado historicamente, que poderia ser utilizado em uma perspectiva preventiva.

V.2 Condições de trabalho no HSE-RJ

Todas as trabalhadoras apontaram a precarização do trabalho - falta de material, falta de recursos humanos e excesso de trabalho - como fator gerador de desgaste físico e mental no ambiente hospitalar.

Como se não bastassem as dificuldades de se enfrentar sérios desafios com a saúde dos (as) pacientes diariamente, agora é preciso também estar alerta com a própria segurança no cotidiano do trabalho hospitalar. As manifestações de desgaste do (a) trabalhador (a) se expressam de diversas formas, como pelo cansaço, alta irritabilidade, desânimo e sono perturbado, caracterizando a fadiga patológica. Participando efetivamente deste processo, destacamos o medo subjacente à ansiedade, o medo de sofrer o acidente e do esgotamento.

"As condições são precárias, as piores possíveis, tanto em termos de higiene quanto de material de trabalho em comum: roupas de cama, material da própria higiene do paciente, sabão e água! Falta assim muitas coisas, principalmente dar os cuidados básicos ao paciente. Sem contar os medicamentos que acho que isso deve ser geral. Às vezes medicações básicas nós não temos!".

"Eu estou cansada, desanimada porque nós estamos sobrecarregados no trabalho, temos paciente demais, funcionários de menos, então tá todo o setor, tá todo mundo muito cansado, fica um alto índice de licença médica, porque um tá fazendo trabalho de dois, três, então o que acontece, nós estamos cansados, estressados e desanimados com o setor. As máquinas são de última geração mas o fator humano está cansado".

Na análise dos serviços envolvidos na Biossegurança são raras as discussões sobre os temas citados acima, sendo que esses tornam-se quase "invisíveis" quando são publicados os dados sobre os acidentes no Boletim epidemiológico do HSE-RJ (1997 e 1998).

No que se refere às condições salariais, a maioria das trabalhadoras conforma-se com o salário pela comparação que fazem com a maioria da população brasileira, apesar de estarem há cinco anos sem receber nenhum reajuste salarial. No entanto, não deixam de associar suas condições salariais como um dos elementos que contribuem para o maior desgaste no trabalho.

"Eu sei que está defasado, mas em relação ao Brasil eu sei que não estou tão mal. Mas sei que meu poder aquisitivo diminuiu. Trabalho em casa e tenho que dar atenção aos meus filhos".

"O salário caiu pra caramba né, caiu à beça, tá difícil porque já estamos com cinco anos sem aumento. Mas como todo país está assim, a gente vai levando. Agora que a gente merecia mais, isso merecia. Até os pacientes falam que a gente trabalha muito. Porque é estressante, você acaba se envolvendo emocionalmente com os pacientes, é mãe né, porque todas nós somos mães também, então mexe muito com a gente."

Biossegurança

De acordo com a experiência das trabalhadoras, a falta e a inadequabilidade dos EPI’s e a precariedade das informações sobre a biossegurança contribuem para o sentimento de exposição constante ao risco de acidente no local de trabalho.

A falta de conhecimento sobre os mecanismos de transmissão e dos métodos de proteção tem levado muitos (as) profissionais a recusarem o atendimento ao (a) paciente soropositivo (a) e a suspenderem endoscopias, biópsias e até mesmo cirurgias, dentre outros procedimentos invasivos. Quando passam a conhecer o estatus sorológico do (a) paciente, observamos que estes mesmos profissionais realizam estes procedimentos sem proteção adequada.

"Péssima! Péssima! Um dia tem luva outro dia não. Você fica exposto 24 horas por dia. Quem trabalha no reuso precisa ter capote de plástico grosso até aqui, com luva grossa e bota, precisa de superproteção. Nós trabalhamos com o lado humano e a máquina!"

"Nós tínhamos avental no começo, pra oferecer ao médico, pra botar em cima do capote e não temos mais. Às vezes as luvas são insuficientes e você têm que ter cuidado para não usar e gastar muito. Acho que essas luvas não são de boa qualidade porque muitas arrebentam, estouram. Esse é um motivo de estresse pra gente também".

V.3 Processo e organização do trabalho

A atual divisão de trabalho no HSE-RJ cria obstáculos ao bom atendimento e insatisfações entre os (as) trabalhadores (as). A distribuição das tarefas parceladas até o seu máximo cria dificuldades de comunicação e realização dos objetivos manifestos de um hospital - cuidar da saúde de sua clientela (Silva,1998).

De acordo com as profissionais de saúde entrevistadas o tempo reduzido para a realização das tarefas, o ritmo intenso de trabalho e a necessidade de realizar várias atividades simultaneamente são características da rotina de trabalho no HSE-RJ. Esses fatos, somados à inexistência de espaços de trocas, planejamentos das atividades e à insuficiência de pausas de trabalho, conforme nossas observações, acabam sobrecarregando física e psiquicamente os (as) trabalhadores (as).

"Tem uma pessoa cuidando de dezenove pacientes. Então tem dias que a medicação dá para levar mas tem outros que tem pacientes com três, quatro a cinco antibióticos, você tem que correr, você não para, é direto, não precisa nem de relógio. Começa a trabalhar, faz a medicação de manhã e quando você parou, tá na hora de almoçar. Acabou de almoçar, tá na hora da medicação das quatorze horas e assim sucessivamente. Você termina e já esta chegando a janta e aí tem os testes (a imoglicoteste...) você tem que preparar a insulina e aí quando você termina já está na hora da medicação das dezoito horas. Quando você vê, os colegas já estão chegando, não tem tempo nem de pensar, de modo geral não. É bastante trabalhoso".

A crise econômica que o país atravessa também vem atingindo o HSE-RJ há algum tempo, levando-o a um processo gradativo de sucateamento dos seus serviços. No processo de observação dos serviços constatamos que na Hemodiálise, que atende pacientes renais crônicos com prognóstico difíceis, os (as) profissionais de saúde apresentam uma sobrecarga emocional e afetiva alta frente a dor e o sofrimento dos pacientes graves. A presença de criança nesta unidade também é freqüente. Apesar disso, foi um dos locais onde mais encontramos integração entre os membros da equipe. Na UMI encontramos uma série de dificuldades no plano da organização do trabalho e das relações de poder. A maioria das trabalhadoras consideraram insuficiente e corrido o tempo disponível para o desempenho das atividades. Na Clínica Médica, a falta de coordenação e interação da chefia com a equipe de enfermagem ampliava em muito as ansiedades advindas da falta de suporte técnico administrativo para que as trabalhadoras pudessem corresponder as inúmeras demandas dos pacientes e familiares.

A diferença entre o trabalho prescrito e o real ocorre sobretudo pela variabilidade dos elementos que constituem um processo de trabalho. O reconhecimento desta variabilidade e do saber do (a) trabalhador (a) de saúde que propicia a regulação do processo de trabalho em situações reais passa, então, a ser básico para o estudo do acidente com material biológico em hospital geral. A diferença entre o trabalho prescrito e real se encontra também, na inadequação entre as características dos métodos de trabalho, equipamentos e processos impostos, e as características das pessoas que trabalham, sejam elas do ponto de vista físico, cognitivo ou afetivo.

"Muito trabalho, muita coisa pra fazer, então eu acredito que quando a gente tá com muita ocupação ao mesmo tempo acaba acontecendo um acidente, ...então quando você vai fazer, vai executar o seu trabalho, você não executa com precisão, você aplica porque tem muita coisa pra fazer, têm uma porção de injetáveis pra preparar..."

V.4 Repercussões psicossociais na vida pessoal, familiar e profissional

As trabalhadoras apresentaram um sofrimento psíquico intenso logo após o acidente e durante o tratamento pelo medo de estarem contaminadas com o vírus HIV. Em alguns casos, esse sofrimento repercutiu no corpo através de reações psicossomáticas que se confundiam com os efeitos colaterais da medicação.

"Eu me senti a própria doente. É uma coisa muito ruim, péssima! Na hora eu quis engolir cloro, queria lavar a boca com cloro! É claro que iria queimar tudo! A vontade é sair e sei lá! Na hora a gente fica louca!"

"No primeiro acidente fiquei muito angustiada, muito tensa, consegui emagrecer bastante, pela tensão que eu vinha sofrendo"

As repercussões psicossociais após o acidente estão intimamente ligadas às representações que o (a) profissional e o círculo social têm da AIDS, geralmente como algo aterrorizante associado à morte - "o grande mal do século". Nesses momentos a religião demonstrou exercer uma função importante de suporte psicossocial somado ao apoio familiar, quando esse é possível.

"Aí meu Deus num tá acontecendo isso!" Eu fiquei assim, "Meu Deus", "Meu Deus" o tempo todo!"

"Eu fiquei durante seis a sete meses com aquela preocupação, de apresentar algum sintoma, ficar com alguma pneumonia, um resfriadinho; não fiquei totalmente certinha não! Com aquela certeza não, atualmente estou mais tranqüila. Já fiz outro HIV, mas até pouco tempo atrás isso ainda repercutia muito na minha cabeça "

Quanto às repercussões na vida familiar, a maior preocupação era com uma possível reação negativa dos familiares e do parceiro. Em algumas situações, os familiares chegaram mesmo a criticá-las pelo acidente, reforçando o sentimento de culpa da acidentada. Em outros, os familiares ficavam tão preocupados que aumentavam o estresse da profissional. Por esses motivos, muitas vezes evitavam contar aos familiares sobre o acidente e como conseqüência sentiam-se sozinhas e sem apoio. No caso dos parceiros, o maior temor era de incompreensão e acusação de infidelidade, o que chegou a acontecer com três trabalhadoras. "Nesse mundo de contradições, mentiras e meias-verdades, as mulheres estão constantemente sujeitas à culpa e à vergonha, e forçadas ao silêncio sobre seu sofrimento, mesmo quando procuram tratamento, e mesmo quando suspeitam que contraíram o vírus HIV"(Giffin & Lowndes, 1998:286).

"Minha mãe ficou muito preocupada falou que eu tinha que tomar cuidado, pra ser mais atenta e me cobrando né!"

" Pô, tu vê lá, tu tem certeza, como é que foi? Não o médico falou que o risco é mínimo, não teve perigo. O meu companheiro ficou nervoso, como fica até hoje. Olha você vê lá! você está usando luvas, está de máscara, pelo amor de Deus! Eu nem chego com a roupa do hospital perto dele, ele fica apavorado."

"Eu nem falei nada para ninguém, porque só tenho os meus filhos e eles são pequenos, iam ficar abalados e no momento eu estou separada do meu marido. É por isso que eu sofri logo que me acidentei, não tinha com quem me desabafar! Não podia falar nada com os meus filhos se não iam ficar apavoradas, são crianças!"

Torna-se importante ressaltar que a relação saúde e trabalho não diz respeito apenas às pessoas diretamente engajadas no processo de trabalho, isto é, aos (as) trabalhadores (as). Com efeito, percebemos que a linha divisória entre espaço de trabalho e espaço privado é muito tênue. Toda família é requisitada pelo (a) trabalhador (a) em seu esforço em enfrentar as dificuldades no trabalho, como no caso do acidente com material biológico. O cônjuge, os filhos e às vezes até os pais do (a) trabalhador (a) são atingidos indiretamente pelos efeitos da situação do trabalho sobre aquele (a) que nela se encontra exposto.

Repercussões no Trabalho

Em alguns casos as entrevistadas tiveram o apoio dos (as) colegas para enfrentar as dificuldades pós-acidente, enquanto em outras relataram a dificuldade de trabalhar por causa do medo de sofrerem um novo acidente.

A cobrança das normas de precauções pelo Programa de Biossegurança deixou alguns serviços "estressados". Esse fato ocorreu principalmente após a publicação no Boletim Epidemiológico do HSE-RJ, informando os setores que apresentavam a maior incidência de acidentes no hospital. No entender de algumas entrevistadas, o seu local de trabalho ficou estigmatizado e esse fator contribuiu para um maior número de acidentes e subnotificações. As cargas de trabalho já são tão grandes para os (as) trabalhadores (as) no ambiente hospitalar, que a comunicação do acidente só faria aumentar a ansiedade gerando outros sofrimentos, tais como o enfrentamento do teste anti-HIV, a expectativa do resultado, o tratamento associado à AIDS e as reações dos familiares e colegas de trabalho.

"Nos primeiros dias eu fiquei com medo, quase não conseguia nem trabalhar direito, fiquei desmotivada, preocupada, ficava pensando nisso o tempo todo. Cobrando da chefia o resultado dos exames... (acidente em 1997)"

"Ficou todo mundo chateado, preocupados e tudo, parece que estressou geral, todo dia era um que se acidentava, teve até gente que furou o dedo e não foi procurar o plantão. A gente sabe que não têm cura, então se tiver eu não vou procurar não. Tavam falando que o pessoal da maternidade não sabia trabalhar por causa do Boletim, que informou que a maior incidência era no nosso setor".

Após o acidente, as informantes passaram a utilizar mais os EPI’s e redobraram o cuidado na execução do trabalho e com a equipe. Entretanto, algumas trabalhadoras ainda utilizam o diagnóstico do (a) paciente para usar os EPI’s, revelando com essa atitude um sistema de defesa ideológico. As transformações ocorridas no trabalho após o acidente fizeram com que as trabalhadoras passassem a se sentir discriminando os (as) pacientes, o que também aumentou a preocupação com o risco de contaminação da equipe de limpeza por desprezarem as agulhas nas latas de lixo.

"Agora tenho muito mais cuidado, fica até ruim, a gente deixa de fazer muita coisa, com o paciente. Eu agora uso máscara o tempo todo, não quero nem saber, é até ruim para o paciente! É até discriminatório! Sem máscara, luvas, roupão eu não entro, mesmo que o paciente fique constrangido".

"Eu parei de reencapar a agulha, tenho pena dos serventes, de vez em quando sou chamada atenção. Ah! Eu posso me furar, fazer o quê? A obrigação é a chefe colocar as caixas aqui adequadas. Parei de reencapar e falo com as colegas a mesma coisa".

Contudo, todas as informantes reivindicam maiores informações e proximidade do Programa de Biossegurança com os (as) trabalhadores (as) nos locais de trabalho.

"A gente tinha que ter mais acesso às informações novas, até pra se sentir mais seguro e lidar melhor com os pacientes, ter menos medo e ansiedade. Talvez o melhor fosse que vocês viessem ao local dar a palestra, distribuir material novo porque temos outros empregos e filhos e não temos tempo".

No contato com os pacientes, uma das maiores mudanças verificadas foi a de passarem a percebê-los como uma ameaça potencial de contaminação. Essas mudanças tiveram como efeito imediato um aumento de ansiedade nas profissionais de saúde. Uma das funções do sistema defensivo coletivo (Dejours,1988) criado por essas trabalhadoras no ambiente hospitalar era evitar esse sentimento na rotina de trabalho. Na medida que "perdem" esse sistema defensivo de que forma lidarão com essa ansiedade no trabalho? Quais serão as consequências para a sua saúde no trabalho? Outro aspecto importante que constatamos entre as trabalhadoras acidentadas foi a substituição da ideologia de sacrifício e doação pelos pacientes, uma característica da identidade dessas profissionais de saúde (Silva,1998), por uma postura mais técnica e "profissional".

"Hoje em dia temos que considerar que tudo é risco, que todo paciente é de risco. Temos que reconhecer que não podemos mais fazer as coisas pensando só no paciente! Temos que nos proteger de todas as maneiras! Mesmo que como conseqüência o paciente se sinta discriminado!"

"Fiquei mais ansiosa, mas não passei para eles. Eu sentia a ansiedade dentro de mim !"

"Senti assim uma ansiedade, de não querer fazer... A gente vive direto com os pacientes, é a enfermagem quem cuida dessas secreções todas, quem fica no "front"!"

A maioria das profissionais de saúde passaram a ficar com medo de sofrer outro acidente no trabalho, sendo que algumas (três) destas, até hoje, demonstram preocupação com a possibilidade de contaminação pelo acidente que sofreram. Atualmente, a maioria dessas trabalhadoras considera-se grupo de risco e alguns setores do hospital ficaram com o estigma de maior risco de pegar AIDS, através do acidente com material biológico. Esses aspectos relatados revelam a intensidade das repercussões psicológicas e sociais do acidente no ambiente de trabalho. Neste sentido, reforçam a necessidade do reconhecimento e inclusão das dimensões psicossociais nos programas de prevenção e assistência aos acidentes nas Instituições de Saúde.

"Fiquei com medo de sofrer outro acidente. Agora, o medo de ficar pensando em estar contaminada, acho que estou superando. Só me lembro quando alguém me chama para fazer exame".

"Eu faço parte de um grupo de risco, mas não que eu tenha ficado com mais medo. Passei a observar mais, ficar mais atenta, precavida, esse é o termo certo".

"...Quando vejo sangue assim, nem tanto as secreções, mas sangue para mim, pô! Antes eu ficava mais tranqüila, como eu sei de outras colegas que ficaram apavoradas e não puncionaram a veia mais".

"Eu vejo assim, muitas pessoas têm medo desse setor. O fato de nós trabalharmos aqui com paciente que faz hemodiálise acham que nós temos mais probabilidade de adquirir a AIDS do que eles, entendeu. Olha, cuidado, heim!"

V.5 Repercussões do uso da medicação

Hoje em dia sabemos que a associação de duas ou mais drogas é muito mais eficiente contra o HIV, tornando o vírus praticamente indetectável no sangue. Sabemos que essas drogas (AZT, Videx, Crixivan, Epivir, etc) são bem toleradas e todas as evidências sugerem que os efeitos colaterais, se surgirem, regridem espontaneamente com a suspensão dos medicamentos (CNDST/AIDS, 1997).

A indicação de tratamento representa, para muitos (as) profissionais de saúde, a gravidade do acidente, pois associam esse fato diretamente com a contaminação pelo vírus da AIDS. A possibilidade de aceitar e reconhecer o tratamento como necessário dependerá de vários fatores, dentre eles o significado e representação que o (a) trabalhador (a) tem desse tipo de acidente em sua vida. As questões relativas ao surgimento de efeitos colaterais parecem depender de vários elementos, como a maneira como são atendidos (as), o conhecimento prévio da profilaxia, a representação que fazem das medicações ("vai cair o cabelo, vou ficar roxo, ter diarréia..."), do sentimento de estar com AIDS e do medo da discriminação social (família, amigos e colegas de trabalho). O sofrimento psíquico aumenta de acordo com as fantasias relacionadas à AIDS, como por exemplo, o sentimento de "ser uma pessoa suja", vinculada à questões morais e preconceitos ligados a área sexual (promiscuidade, homossexualismo). Muitos (as) passam a sentir-se com AIDS e dizem que ficarão iguais "àqueles paciente cadavéricos". Outros (as) iniciam a profilaxia com a certeza de que apresentarão reações às medicações e esse pensamento já está se tornando parte da cultura hospitalar. Esses aspectos ainda são de difícil manejo para os profissionais que atendem e acompanham os (as) acidentados (as).

"A gente sente um calor como se estivesse fervendo o sangue, muito calor mesmo dos pés a cabeça! Um calor terrível! Aí tomei um de manhã e outro a noite. Aí, quando eu vim conversar, não precisou mais, a médica disse que foi de baixo risco, disse que aqueles dois comprimidos foram o bastante! Me deu muito calor, a gente sente muito calor! Uma quentura mesmo no corpo assim de modo geral, não era um calor natural!" Parei de tomar o remédio e os sintomas passaram!"

"Vem assim o pânico, uma vontade de sair gritando ao mesmo tempo que você sai pensando que já está com a doença. É um monte de conflitos juntos. Em casa no primeiro dia me senti enojada de mim. Continuo com as minhas dúvidas sobre a capacidade do remédio de impedir a infecção! "

"Na hora deram o AZT e um outro remédio que eu não lembro mais! Pra mim foi um preventivo, um medicamento preventivo, tomei bem, acho que foi até por isso que eu não tive nada, não senti nada. É pra evitar, então eu vou tomar. Eu acredito que eu não tenha sentido nada por isso".

Algumas trabalhadoras relataram um sentimento de discriminação e desconfiança, principalmente da parte dos parceiros, de que tinham pego AIDS com outro homem. Ficavam com medo de contar sobre a medicação aos familiares porque eles não entenderiam ou ficariam bastante preocupados. Quando conseguem o apoio de familiares e/ou colegas de trabalho conseguem enfrentar melhor o período da profilaxia.

Segundo Giffin & Lowndes (1998), as atitudes e valores dos (as) profissionais de saúde, especialmente os (as) médicos (as), são forjados no contexto das crenças sociais e culturais e, portanto, marcados pelas ideologias de gênero (assim como as de classe e de raça/etnia). Os parceiros das profissionais de saúde não são esclarecidos sobre o acidente pelos médicos com a justificativa de não se envolverem em problemas da esfera privada de um casal, entre outros. Com isso grande parte dos parceiros não comparecem aos serviços para compartilharem do tratamento e muitos inclusive, desconfiam do acidente, acusando-as de serem infiéis.

Não podemos deixar de mencionar as dificuldades de negociação sexual e a divisão de responsabilidades entre o casal, principalmente porque uma das orientações básicas no período da profilaxia é a utilização da camisinha com o parceiro. "Negociar o preservativo com o parceiro, recusar o sexo inseguro ou exigir o uso de proteção são posições muito difíceis de serem assumidas pela maioria das mulheres, especialmente as que estão em relações estáveis. Podem inclusive, implicar na possibilidade de agressão física, na desconfiança e recriminação, no abandono e, consequentemente, na perda do sustento econômico e emocional. A situação se agrava quando as mulheres têm filhos"(Barbosa, 1997:17).

"Poderiam pensar o quê? Ah! Ela fez um sexo por aí e pegou a doença, tá enganando né! Tá querendo culpar o doente dizendo que foi contaminada! Até o colega de trabalho mesmo, se não falam isso pensam né! Fica a mesma coisa por isso eu não falei".

"A impressão é de que você está com a doença. Logo eu que a minha preocupação é toda com a minha família! Fiquei com receio de contato, né! Por isso não contei. Com as colegas de trabalho comentei as minhas sensações, do calor pelo meu corpo e elas começaram a me encarnar!"

V.6 Atendimento da equipe de plantão

A grande maioria das trabalhadoras mostrou-se abalada emocionalmente após o acidente e expressaram a necessidade de um suporte psicossocial no primeiro momento do atendimento. Consideraram que o atendimento é muito técnico e sem a preocupação com o "lado humano" do (a) profissional acidentado. O despreparo de alguns médicos (as) no atendimento foi apontado como mais um reforço ao sofrimento psíquico do (a) acidentado (a). Em alguns casos, estes (as) chegaram a levar "broncas" por não seguirem as normas de biossegurança, sendo culpabilizados (as) pelo acidente.

Dificilmente os (as) plantonistas contemplam a multiplicidade de fatores envolvidos no acidente como aqueles que envolvem o processo e a organização do trabalho hospitalar. O atendimento técnico acaba mascarando todas as expectativas, fantasias e ansiedades sofridas pelo (a) trabalhador (a) após o acidente. Entretanto, as subnotificações, muitas vezes, expressam uma estratégia de defesa coletiva das experiências citadas acima que reforçam o sentimento de angústia no (a) acidentado (a).

Em relação aos exames e seus resultados, algumas trabalhadoras sentiram-se discriminadas durante o atendimento após o acidente por serem funcionárias do hospital. Segundo seus relatos, o Banco de Sangue dá prioridade aos pacientes, em relação a realização dos exames, deixando os funcionários em segundo plano. Outras ficaram traumatizadas com o teste anti-HIV, que por si só já é um fator ansiogênico, pela demora no resultado ou sumiço do exame, reforçando o sentimento de descaso e revelando a precariedade do sistema público de saúde.

Como sugestões, as profissionais de saúde consideram importante a existência de uma equipe treinada e especializada no atendimento e acompanhamento psicossocial aos que sofrem o acidente. Sobre os resultados dos exames, acham que deveriam ser entregues com mais rapidez e de forma organizada. Reclamaram de um espaço e atenção maior aos (as) trabalhadores (as) no que concerne a sua identidade profissional e reconhecimento institucional. Nesse aspecto, o (a) profissional de saúde considera que ainda não tem o seu lugar de cidadão respeitado e valorizado em sua instituição. Sobre o tema da biossegurança reivindicam maiores informações e esclarecimentos.

"Fui bem orientada tecnicamente! Mas a outra parte psicologicamente foi zero, zero, zero. Nada. O ser humano não têm apoio nenhum!"

"No DIP foi ótimo, o médico de lá foi residente daqui, conhece o pessoal, já conhecia a gente, atendeu muito bem, fez aquele questionário, todas aquelas perguntas! Passou todas as orientações, o que era necessário".

"...a gente ainda leva uma bronca porque não estava usando luva! Eu não tenho condições de fazer medicação, isso é subhumano! Não tem como fazer medicação com luva numa enfermaria de dezenove pacientes, ninguém faz! Aí você vai levar uma bronca porque tem que fazer com luvas!"

V.7 Associação do acidente com a AIDS

Todas as trabalhadoras associaram o acidente com a possibilidade de contaminação pelo vírus da AIDS. De acordo com elas, isso acontece porque a AIDS é mais perigosa que as hepatites, não têm cura e a medicação não resolve o problema, só adia o momento da morte. Acreditam que esses pensamentos ocorrem por causa da mídia que cria alarde em torno da AIDS. Após a contaminação imaginam que o paciente terá uma sobrevida sofrida e pouco tempo de vida. Consideram que para lidarem com a existência da AIDS, só mesmo através da religião. A religião é vista como um fator de proteção de todos os males que a AIDS pode causar. O vírus HIV carrega a morte anunciada e somente a religião pode protegê-las.

Em relação à biossegurança, as entrevistadas associaram a probabilidade de contaminação pelo vírus HIV à morte. A falta de informação sobre biossegurança também contribui para essas percepções.

As concepções sobre a AIDS que as profissionais de saúde possuem são muito semelhantes às da sociedade em geral, que ainda discrimina e contribui para a morte social dos (as) portadores ao vincular o vírus HIV com a "grande peste e as sujeiras do mundo" - as drogas, a promiscuidade e o homossexualismo. Nesse sentido, quando sofrem o acidente vivenciam todas essas discriminações existentes em si próprios, aumentando o sofrimento psíquico e a dificuldade de elaborarem e superarem essa fase.

" ...Então é como se você estivesse no corredor da morte! Esperar a morte! A morte têm que ser uma coisa para mim inesperada! Agora você ficar contando os minutos, os dias será que é hoje ou amanhã..."

"Eu acho que isso vem da mídia que põe muito mais pavor no HIV, talvez por causa da promiscuidade, o tóxico, por alguma coisa nesse sentido e não dá ênfase nenhuma a Hepatite. Eles fazem propaganda, falam muito mais, botam um pavor, um cuidado muito maior".

"Só mesmo Deus para dar graça, não deve ser mole não! A pessoa pode até tá saudável, portadora sã, mas só em saber que carrega o vírus, já é para acabar com a pessoa. Acho que para segurar mesmo só a nível espiritual " .

 
 
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