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Brandão Junior, Paulo Starling. Biossegurança e AIDS: as dimensões psicossociais do acidente com material biológico no trabalho em hospital. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 124 p.


CAPÍTULO IV

DIMENSÕES PSICOSSOCIAIS DO ACIDENTE COM MATERIAL BIOLÓGICO

Neste capítulo apresentaremos os principais resultados encontrados na pesquisa de campo (incluindo a primeira e segunda etapa), através da análise do conjunto de respostas relacionadas aos temas presentes no roteiro de entrevistas.

Inicialmente, mostraremos os dados de identificação dos (as) trabalhadores (as) juntamente com a caracterização da sua inserção na área de saúde e no HSE-RJ. Posteriormente, forneceremos um perfil das atitudes e conhecimentos relacionados ao vírus HIV, exposição ao vírus HIV no trabalho e sua profilaxia e situações específicas após o acidente. Por fim, analisaremos a experiência subjetiva do profissional de saúde frente ao acidente com material biológico.

Em janeiro de 1998, entrevistamos onze profissionais de saúde (cinco médicos, dois enfermeiros e quatro auxiliares de enfermagem) que sofreram acidente no ano de 1997. Estes profissionais estavam trabalhando nos serviços de UTI Neonatal (dois), Pediatria (quatro), Unidade Materno-Infantil (três) e DIP (dois).

No primeiro semestre de 1999, realizamos mais algumas entrevistas. Nesse momento entrevistamos, dois enfermeiros e oito auxiliares de enfermagem que sofreram acidentes no ano de 1997 (cinco) e 1998 (cinco). Estes profissionais trabalhavam nos Serviços de Hemodiálise (cinco), Unidade Materno-Infantil (três) e Clínica Médica (dois), setores que apresentaram um alto número de notificações de acidentes no período supracitado, segundo o boletim epidemiológico do HSE. Inicialmente, entrevistaríamos somente mais nove profissionais acidentados do ano de 1997, que seriam suficientes para complementar nossa amostra em uma pesquisa qualitativa. Ao tentarmos contatar os (as) profissionais de saúde encontramos diversas dificuldades como: licenças, aposentadorias, além da saída dos (as) estagiários (as) e residentes do HSE que já tinham terminado o seu vínculo com a Instituição. Por este motivo resolvemos, complementar nossas entrevistas com profissionais que se acidentaram no ano de 1998, que curiosamente apresentou o triplo de notificações de acidentes (161) em relação ao ano de 1997.

Análise dos resultados segundo a faixa etária, sexo, categoria profissional, estado civil e religião

Os (as) profissionais de saúde entrevistados (as) caracterizam-se por comporem em sua maioria (dezesseis profissionais) uma força de trabalho com faixa etária (tabela 1) acima de trinta anos. Todas as entrevistadas são do sexo feminino (tabela 2) e tinham a característica de serem pessoas mais maduras e com experiência anterior no mercado de trabalho. A grande maioria dos (as) profissionais acidentados (as) são do sexo feminino, tanto no ano de 1997, quanto em 1998. A maioria dos (as) profissionais de saúde entrevistados (as) foi da equipe de enfermagem (enfermeiras, auxiliares e técnicas de enfermagem) (tabela 3) que, segundo o Boletim Epidemiológico de 1997/1998, apresentou o maior número de notificações de acidentes no HSE-RJ.

As equipes de enfermagem são compostas essencialmente por mulheres, cujo emprego constitue-se na maior (quando não única) fonte de renda da família. Entretanto, apesar delas se apresentarem como provedoras do sustento da casa e da família, permanece muito forte na concepção deste trabalho, a idéia de sacerdócio e de doação. Como as características do trabalho feminino são consideradas próprias da natureza feminina, sem valor, tanto no nível simbólico, quanto no econômico, é minimizada no mercado de trabalho.

Historicamente as atividades de cuidar dos pacientes através da assistência, higiene, alimentação e provê-los dos elementos indispensáveis ao bom desenvolvimento seguindo os padrões da divisão social do trabalho, sempre estiveram delegadas à mulher. A predominância feminina na força de trabalho em saúde vem crescendo cada vez mais até mesmo na categoria médica, reafirmando um tendência à feminização do setor.

"A profissão médica há algum tempo passou a ficar semelhante à dos professores, ou seja, com salários achatados. Por este motivo, os homens vêm abandonando cada vez mais esta profissão, só ficando nas especialidades que ainda dá dinheiro como a cirurgia plástica, por exemplo. Os homens sempre foram muito ambiciosos, querem ficar ricos e com a profissão médica só terão condições de sobreviverem. Sendo assim, as mulheres avançam neste campo porque são muito mais assistencialistas e humanistas" (Comentário de uma médica sobre as questões de gênero no hospital).

De acordo com Mello Filho (1992), por séculos as mulheres foram "doutoras" no atendimento aos doentes, afastadas de livros e leis, aprendendo umas das outras e passando experiência de vizinha a vizinha, de mãe para filha. Foram chamadas de mulheres sábias pelo povo, e bruxas e charlatães pelas autoridades.

Segundo o estado civil (tabela 4), dez trabalhadoras tinham parceiros fixos enquanto onze somente parceiros ocasionais. Este fato é de grande importância ao analisarmos, por exemplo, as repercussões do acidente na vida amorosa destas profissionais, como a necessidade do uso da camisinha e o questionamento de sua fidelidade pelo parceiro.

Chamou a atenção o fato de todas as trabalhadoras entrevistadas afirmarem que tinham religião (tabela 5) sendo a maioria católica (treze), apesar de uma tendência crescente nas últimas décadas de protestantes na população fluminense. Este aspecto torna-se relevante na medida que a religião funciona como suporte psicossocial para lidar com o medo da contaminação pelo vírus da AIDS conforme demonstram as falas abaixo:

"Ah! Meu Deus num tá acontecendo isso! Eu fiquei assim, meu Deus, meu Deus o tempo todo, até me acalmar..!"

"Ah! Diziam que não tinham kit! Mas eu sou funcionária! Aí eu não fui mais. Entreguei a Deus para poder voltar a trabalhar!"

 

IDENTIFICAÇÃO DOS (AS) ENTREVISTADOS (AS)

1) Número de trabalhadoras segundo a faixa etária

IDADE
Número

20-30

31-40

41-50

51-60

Total

5

6

6

4

21

 

2) Número de trabalhadoras segundo o sexo

SEXO

Número

Feminino

Masculino

Total

21

-

21




3) Número de trabalhadoras entrevistadas segundo sua categoria profissional

Categoria profissional

Número

Médica

Enfermeira

Auxiliar de enfermagem

Total

5

4

12

21

 

3.1) Número de trabalhadoras entrevistadas segundo o ano do acidente

Ano do acidente

Número

1997

1998

Total

16

5

21

 

4) Número de trabalhadoras segundo o estado civil

Estado Civil

Número

Solteira

Casada

Amigada

Separada

Total

10

7

3

1

21

 

5) Número de trabalhadoras segundo a religião

Religião

Número

Não

Sim

Católica

Espiritualista

Candomblé

Protestante

Total

-

21

13

4

2

2

21

 

Análise dos resultados sobre o Trabalho em Saúde

As trabalhadoras estão na profissão em sua maioria (tabela 6) há mais de cinco anos (dezesseis). Treze trabalham no HSE há mais de cinco anos, ou seja, já ultrapassaram o período probatório para escolha de sua profissão (vocação) ou de atividade economicamente mas rentável. Esses dados são importantes porque contradizem o mito de que os acidentes ocorrem em sua maioria entre estagiários (as) e residentes.

Trabalham em turnos fixos ou alternados e sentem como "hora corrida" o tempo destinado a executar as tarefas e quase não fazem pausas. Consideram o trabalho insalubre e perigoso. O ritmo de trabalho acelerado é uma constante entre os (as) trabalhadores (as) de saúde e um dos fatores geradores de desgaste físico e mental que propiciam a diminuição de atenção na atividade do trabalho.

O HSE-RJ oferece serviços de diferentes especialidades, incluindo a quimioterapia, radioterapia, hemodiálise, além do serviço de emergência. Em relação aos acidentes, procuramos entrevistar os profissionais envolvidos com os Serviços (tabela 7) que apresentaram o maior número de notificações conforme o Boletim Epidemiológico do HSE-RJ.

Doze trabalhadoras estão há mais de cinco anos no seu setor de atividade (tabela 7) e a maioria das entrevistadas já possui vínculo empregatício estabelecido enquanto uma minoria é composta por residentes e estagiários. Todas elas estão envolvidas diretamente no atendimento aos pacientes.

Segundo Valle (1998), os profissionais de saúde que trabalham em hospital percebem como maior risco o ser humano - "a periculosidade do outro e não somente dos instrumentos do trabalho".

Doze trabalhadoras estão no seu setor por opção (tabela 8), enquanto cinco por transferência, para cobrirem a necessidade de pessoal do serviço; três estavam fazendo residência e uma foi trabalhar em seu setor por imposição (conflitos com a chefia). Por outro lado, o que chamou a atenção foi que a maioria gostaria de continuar em seu local de trabalho (tabela 9), apesar de muitas não terem ido para o seu setor por opção. Cinco trabalhadoras gostariam de mudar de setor por questões relativas ao cansaço, sobrecarga de trabalho, falta de estímulo, valorização e respeito ao profissional e por identificação com outro tipo de clientela.

Os dados apresentados da tabela 6 a 9 demonstram que a questão da experiência, tempo de trabalho e identificação com o setor não são fatores de proteção ao acidente como no caso do HSE-RJ. Esta constatação contraria determinadas posições apresentadas por algumas coordenações municipais de DST/AIDS de que a inexperiência seria um dos fatores preponderantes do acidente. Por outro lado, estes dados reforçam nossa discussão sobre a multiplicidade de fatores envolvidos no acidente como a questão de gênero (jornada dupla de trabalho...) por exemplo, que não tínhamos dado conta na primeira etapa da pesquisa.

Cinco profissionais possuem outro trabalho na área de saúde (tabela 10) enquanto que a maioria só trabalha no HSE-RJ. No entanto, desconfiamos que tal informação possa estar distorcida por medo de serem penalizadas, já que pela legislação só podem ter um vínculo único com descanso remunerado.

Torna-se importante ressaltar que todas as trabalhadoras entrevistadas, evidenciaram sua participação no trabalho doméstico. A grande maioria trabalha no horário diurno em regime regular de trabalho e uma minoria em plantões diurnos de 12/36 horas. Encontramos muitos (as) médicos (as) residentes acumulando plantões extras e alguns (as) auxiliares de enfermagem com dois vínculos regulares diários de trabalho, por questões financeiras. A existência de múltiplos trabalhos contribui para o desgaste físico e mental do (a) trabalhador (a), tornando-se mais um fator preponderante para o acidente e na repercussão psicossocial deste na sua vida.

6) Tempo de profissão na área de saúde e no HSE-RJ das trabalhadoras entrevistadas

Tempo de Profissão
(Anos)

Número

0 a 5

6 a 10

11 a 20

+ de 20 >

Total

No HSE-RJ

1 a 5

6 a 10

11 a 20

Total

5

3

7

6

21

Número

8

1

12

21

 


7) Número de trabalhadoras entrevistadas no HSE-RJ de acordo com sua área de atuação (Setores/Serviços)

ÁREA DE ATUAÇÃO

Número

Hemodiálise

Pediatria

Unidade Materno-Infantil

UTI Neonatal

Clínica Médica

DIP

Total

5

4

6

2

2

2

21

 

7.1) Tempo em que as trabalhadoras entrevistadas estão em sua área de atuação (Setores/Serviços)

Tempo de atuação? (Anos)

Número

1 a 5

6 a 10

11 a 20

Total

9

2

20

21

 

8) Motivo pelo qual as profissionais de saúde entrevistadas permanecerem em seu setor de trabalho

Motivo

Número

Opção

Transferência

Residência

Imposição

Total

12

5

3

1

21

 


9) Número de trabalhadoras, segundo a manifestação de interesse em mudança de Setor

Interesse de mudança de Setor?

Número

Sim

Não

Total

5

16

21

Para onde?

  • Clínica Cirúrgica

  • Em final de carreira seria para o ambulatório

  • DIP

  • Cirurgia Pediátrica

  • Centro Cirúrgico

10) Número de trabalhadoras, que afirmaram ou negaram trabalhar em outra área/Unidade de saúde

Trabalho em outra área/Unidade

Número

Sim

Não

Total

6

15

21


Qual?

  • Enfermaria do Hospital Sousa Aguiar à 22 anos
  • Clínica Médica
  • Pintura - já fez exposição!

  • Consultório

  • Posto de Saúde

  • Maternidade


V.1 - Atitudes e Conhecimentos relacionados ao vírus HIV

A grande maioria das entrevistadas considera-se vulnerável ao vírus HIV no trabalho (tabela 12) enquanto quase a metade delas (oito) consideram-se protegidas fora do trabalho com o argumento de terem um parceiro fixo. Foi uma surpresa constatar que ainda hoje as profissionais de saúde acreditam que a existência de parceiro fixo significa um meio de prevenção à AIDS, pois sabemos através da CNDST/AIDS (1998) do aumento vertiginoso da incidência de contaminação entre as mulheres com parceiro fixo no Brasil.

Entre as mulheres, a confiança nos parceiros e a falta de diálogo para exigir o uso da camisinha são as afirmações mais freqüentes. Muitas trabalhadoras dizem que "os parceiros não querem usar e elas acabam concordando". Chamamos a atenção que a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que no ano 2000 a proporção de mulheres e homens contaminados será de um para um (CNDST/AIDS,1998).

"Tinha medo de me contaminar com o meu parceiro porque ele se recusa a usar camisinha"

Ao saberem que um colega do seu setor é soropositivo, as entrevistadas afirmaram, em sua maioria, que consideram uma tristeza, mas que apoiariam e ajudariam o (a) "colega". O fato de considerarem uma tristeza se deve ao sentimento de que a AIDS é incurável, sem retorno e que a pessoa está condenada a morte. De outra forma, acreditam que com a religião ( "a gente só pode se agarrar a Deus" ) e um apoio psicológico podem lidar melhor com essa fatalidade.

A AIDS é provavelmente a doença que mais rápido teve sua etiologia e epidemiologia desvendadas e, paralelamente a estas descobertas, foram sendo relatados casos de profissionais de saúde que adquiriram o HIV em decorrência de suas atividades (Nesson-Vernat&Oksenhendler,1986). Esse fato tornou a assistência aos pacientes um grave e sério problema para os (as) profissionais de saúde. Esses (as) profissionais estão constantemente sob pressão na luta contra o HIV. O HIV gera pressões emocionais para o pessoal da área de saúde, como a tristeza de ver os (as) pacientes morrerem, o medo de contrair o vírus e o estigma relacionado ao HIV. Tratar os problemas do HIV sem os conhecimentos necessários, treinamento, supervisão e apoio, pode dificultar ainda mais o atendimento aos pacientes e gerar mais tensão no trabalho. Dificilmente outra doença contemporânea tem se revelado de modo tão multifacetado quanto a AIDS, trazendo à cena, com evidência, a importância de seus aspectos emocionais, sociais, econômicos, culturais e políticos. Os conhecimentos e experiências dos (das) trabalhadores (as) devem ser valorizados juntamente com a necessidade de sua participação nas decisões em seu trabalho.

Somente seis profissionais de saúde concordaram que a AIDS mudou a conduta sexual das pessoas enquanto quinze discordaram. Segundo a CNDST/AIDS (1998), o comportamento sexual mudou entre os homossexuais, um dos primeiros grupos a ser atingidos pela AIDS no mundo ocidental. Por outro lado, entre os heterossexuais o índice de contaminação vem crescendo assustadoramente. O aumento dos casos entre os heterossexuais faz-se acompanhar de uma expressiva inserção das mulheres no quadro epidemiológico, constado na redução da razão por sexo, entre todas as categorias de exposição, de 23 homens:1 mulher (1984) para 3 homens:1 mulher (1996/97). Mesmo que haja indivíduos ou grupos mais expostos, é toda a sociedade que está imediatamente implicada no processo (Carrara,1996). Esses fatos denotam o quanto é complexa a questão da prevenção ao vírus HIV e que somente a informação não muda comportamento.

A grande maioria das profissionais de saúde consideram que as pessoas com DST’s ou HIV deveriam informar seus parceiros sobre sua condição, demonstrando compromisso ético com a questão. Somente uma ficou em dúvida. A grande preocupação é como fazer se o paciente se recusar a contar sua condição. Este fato cria um conflito nos (as) profissionais de saúde porque a legislação não é muito clara sobre este assunto. Neste sentido, ficam com muitas dúvidas e receios de tomarem alguma atitude, apesar do incômodo. O comitê de ética do hospital, por ser muito novo, ainda não teve a oportunidade de aprofundar esse tema entre os (as) trabalhadores (as) do HSE-RJ.

"Considero um crime, quando se omite e nós profissionais de saúde nos omitimos! Tem acontecido muito das mulheres serem portadoras e o parceiro não saber" (auxiliar de enfermagem)!

Em relação aos seus próprios medos, mitos e preconceitos sobre a sexualidade, a maioria das trabalhadoras concordaram que o reconhecimento desses é fundamental para a prevenção da AIDS e as DST’s. Esse tema torna-se importante, pois muitas trabalhadoras acidentadas demonstraram o receio de discriminação dos parceiros e familiares pela desconfiança de infidelidade e promiscuidade. Esses preconceitos impedem por exemplo a utilização do preservativo durante período de profilaxia gerando conflitos entre os casais.

A grande maioria das profissionais considera discriminatória a recusa de trabalho para as pessoas soropositivas e somente uma demonstrou dúvida. Este fato demonstra solidariedade e reconhecimento da cidadania aos portadores do vírus HIV.

"Isso é maldade! Penso sempre que poderia ser com a gente ou um familiar! Nós pedimos a Deus que não aconteça mas é muito triste! Acho que falta muita humanidade nas pessoas!

"Já tem uma situação triste! Supõe-se que não tem muito tempo e ainda assim vamos privá-lo de uma qualidade de vida!"

Todas as trabalhadoras consideraram que os soropositivos têm direito ao sigilo de seu diagnóstico, desde que não coloquem em risco a vida de outras pessoas.

Doze profissionais já tinham realizado o teste anti HIV (tabela 15) antes de sofrerem o acidente, enquanto nove nunca tinham feito. A maioria das profissionais que já tinham realizado o teste o fizeram porque era rotina no seu setor (risco no trabalho) e outras por falta de confiança no parceiro. No caso das trabalhadoras que não realizaram o teste, justificaram pelo fato de não se considerarem em situação de risco ou não pertencerem a grupo de risco. Duas pessoas tinham medo de fazer o teste e uma única pessoa se considerou irresponsável e displicente por não ter feito. Atualmente, não existe mais a realização do teste no HSE-RJ como rotina, até porque nenhum serviço ou instituição pode exigí-la de seus (as) trabalhadores (as). Por outro lado, sabemos que o teste envolve vários aspectos como o direito ao sigilo, a confidencialidade e um profissional competente que acompanhe a realização do pré e pós-teste, principalmente, por causa das repercussões psicossociais. Neste sentido, muitos profissionais de saúde evitam pensar nesta questão, não somente como um sistema defensivo do reconhecimento de risco de contaminação no trabalho, mas também para não terem que se confrontar com sua vulnerabilidade em sua vida privada.

"Eu trabalhava na hemodiálise e lá se lida muito com o sangue! Grande risco!"

"Tinha medo de me contaminar com o meu parceiro porque ele se recusa a usar camisinha"

"Nunca achei que fosse necessário, apesar de antes não usar as precauções!"

"A gente sabe de tanto caso assintomático!"

 

12) Percepção da vulnerabilidade ao HIV no trabalho e fora do trabalho

Vulnerável ao HIV

Número

No trabalho

Sim

Não

Não sabe

Total

Fora do trabalho

Sim

Não

Não sabe

Total

 

17

3

1

21

 

12

8

1

21



15) Número de pessoas que já haviam feito o teste anti - HIV antes de sofrer o acidente

Teste anti - HIV

Número

Sim

Não

Total

12

9

21

 

 

IV.2 - Atitudes e Conhecimentos sobre a profilaxia contra a Hepatite

Este tema só foi incluído nas entrevistas da segunda etapa da pesquisa quando entrevistamos mais dez profissionais de saúde.

A maioria das trabalhadoras sabem que a vacinação contra o vírus da hepatite B é um meio de prevenção seguro e eficaz contra a contaminação no trabalho. Neste caso, a conscientização se transformou em atitude, já que quase todas as profissionais de saúde entrevistadas na segunda etapa da pesquisa já tinham se vacinado (tabela 16 e 17). Essas trabalhadoras apresentaram uma alta consciência da necessidade de prevenção, possivelmente devido à implantação do Programa de Biossegurança no HSE que já estava em seu terceiro ano de funcionamento quando realizamos essas entrevistas.

"Porque trabalhamos em hospital, sabemos que é preventivo e nós tomamos, principalmente aqui na clínica médica que têm um número grande de pacientes".

"Para prevenção pois somos grupo de risco"

Em relação ao esquema de profilaxia pós-exposição ao vírus da hepatite B, somente quatro trabalhadoras demonstraram conhecimento completo. Este fato torna-se mais um complicador quando o profissional tiver que seguir a prescrição, dificultando a aderência ao tratamento.


Obs.
As questões 16 e 17 foram introduzidas no questionário de 1999.

16) Número de profissionais que tiveram ou não Hepatite

Hepatite

Número

Sim

Não

-

10

 

17) Número de profissionais vacinadas contra a hepatite B

Vacina contra hepatite B

Número

Sim

Não

9

1

 

IV.3 - Situações específicas do acidente e sua profilaxia

Procuramos compreender quais as representações das trabalhadoras sobre a profilaxia medicamentosa após o acidente, desde o seu conhecimento sobre o tema até a percepção sobre a tolerância aos medicamentos.

Sobre a profilaxia medicamentosa, quinze profissionais de saúde concordaram que esta pode reduzir o risco de contaminação, enquanto cinco apresentaram dúvidas, e uma outra não acreditava neste fato. Algumas trabalhadoras ainda não acreditam neste tipo de tratamento ou consideram exagerado ter que tomar medicações para se prevenirem da infecção após o acidente.

"Vi pessoas serem contaminadas após a vacina!"

" Só vamos saber daqui a uns anos. É muito escuro isso aí!"

Somente seis profissionais consideram que nas doses atuais os medicamentos são bem tolerados pelas profissionais de saúde. Por outro lado, seis discordam e nove têm dúvidas sobre este tema, o que demonstra a existência de uma expectativa, crença ou mesmo a experiência de que estes medicamentos causam efeitos colaterais. Esta percepção também esta associada às representações que essas trabalhadoras têm da AIDS (doenças e morte).

" Acho que não deveria ser usado para dia nenhum pois o efeito colateral é tão grande que eu mesmo interrompi!"

"As pessoas estão estressadas e acham que é uma dose excessiva".

"Não sei se é efeito psicológico pois as pessoas acham que vão sentir as coisas, no meu caso não ocorreu nada".

"No meu caso não tive nada mas outras colegas sentiram várias coisas".

Somente dez trabalhadoras conhecem o período de utilização dos medicamentos no caso de um acidente de risco. Por outro lado nove têm dúvidas e duas discordam. No caso do efeito do AZT na redução de risco (80%) para soroconversão após o acidente, somente dez profissionais de saúde conhecem este fato, enquanto uma discorda e dez demonstraram dúvidas. A falta de conhecimento sobre esse tema dificulta a aderência ao tratamento no momento em que o profissional precisar seguir a prescrição medicamentosa.

Ainda um último aspecto relevante diz respeito à forma como é veiculada a informação sobre a assistência ao acidentado. Como exemplo temos um cartaz com um boneco correndo, informando a necessidade de urgência na comunicação do acidente ao plantonista do serviço de DIP: "Não se desespere! A AIDS e a Hepatite B podem ser evitadas". Seis profissionais de saúde consideraram que este cartaz dá a impressão de que a falta de rapidez levaria fatalmente a contaminação. Esta associação aumenta a ansiedade e o medo de contaminação após o acidente além de levar a subnotificações como forma de defesa desses sentimentos. Consideramos também necessário repensarmos sobre o impacto restrito das campanhas educativas visando mudanças de normas de comportamento, até porque estudos sobre várias delas apontam para a inadequação da linguagem utilizada com relação ao público-alvo. Somente seis trabalhadoras apresentaram conhecimento completo sobre a profilaxia após o acidente. Esses fatos demonstram a necessidade da participação dos (as) trabalhadores (as) nas campanhas educativas e a inclusão da dimensão psicossocial no tocante às representações sobre o acidente e a sua profilaxia.

IV.4 - Situações específicas após exposição ao vírus HIV no trabalho

De acordo com Dejours (1988), evitar o sentimento de medo no trabalho seria uma das premissas básicas do sistema de defesa coletivo dos (as) trabalhadores (as). Constatamos em nossa pesquisa que um número considerável das profissionais entrevistadas passaram a ficar com medo, durante suas atividades no trabalho, após o acidente. Será que este coletivo "perdeu" seu sistema defensivo? Se for verdade, quais serão as repercussões futuras para essas trabalhadoras em sua saúde biopsicossocial? Entretanto algumas trabalhadoras passaram a apresentar uma postura "pró-ativa" no trabalho, cobrando mais da chefia e da instituição os seus direitos, principalmente relativos a biossegurança.

Dezessete profissionais passaram a utilizar EPI’s após o acidente sendo que o restante utiliza somente (dois) algumas vezes ou continuam não utilizando (dois).

"Passei a usar mais as luvas e selecioná-las."

"Eu agora uso máscara o tempo todo, não quero nem saber, é até ruim para o paciente! É até discriminatório!’

"Passei a tomar um pouco mais de cuidado com a agulha, encapar a agulha! Agora não encapo mais! Fiquei mais cuidadosa. Passei a usar mais os EPI’s."

Treze trabalhadoras passaram a sentir ansiedade e medo em alguns momentos no atendimento aos pacientes enquanto três sempre.

"Hoje em dia temos que considerar que tudo é risco, que todo paciente é de risco"

"Fiquei mais ansiosa mas não passei para eles. Eu sentia a ansiedade dentro de mim."

A maioria passou a se preocupar bastante com a equipe em relação às técnicas de biossegurança.

"Eu procuro que tenha o material suficiente para a proteção da equipe cobro muito mais né."

"Passei a chamar mais atenção da chefia pra cobrar mais material."

"...principalmente essas meninas novas que estão chegando, elas não tem muita noção. É um pessoal vindo da cooperativa! Sempre comento com elas sobre como se protegerem."

Quatorze trabalhadoras passaram a ficar com medo de se contaminar durante sua atividade de trabalho e três em alguns momentos.

"Fiquei com medo de sofrer outro acidente! Agora o medo de ficar pensando em estar contaminada acho que estou superando".

"Fiquei traumatizada em relação ao glicoteste que foi o que me furei!...Quando vejo sangue assim, nem tanto as secreções, mas sangue para mim, pô! Antes eu ficava mais tranqüila, como eu sei de outras colegas que ficaram apavoradas e não puncionaram veia mais."

 

IV.5 - Atitudes, conhecimentos e condições de Biossegurança

A maioria dos (as) profissionais de saúde concorda que se preocupam com os acidentes mas, paradoxalmente poucos (as) utilizam os EPI’s. Reconhecendo a complexidade do evento "acidente" e compreendendo-o como uma multiplicidade de forças interatuante e dinâmica, percebemos nesta espiral, também, o sistema defensivo coletivo dos (as) trabalhadores (as). Neste sentido, quando nas entrevistas as trabalhadoras afirmam que poucas utilizam os EPI’s, percebemos nesta afirmativa a existência de um sistema de defesa coletivo nesse comportamento. A exposição ao acidente não se dá somente pelas peculiaridades desse trabalho, mas também pelas condições, organização e processo de trabalho hospitalar ilustrada pelas diversas falas das profissionais entrevistadas. Essa complexidade faz com que os (as) trabalhadores (as) vivam uma experiência subjetiva de perigo constante no ambiente hospitalar. Dejours (1988) nos fala da insuportabilidade desse sofrimento psíquico (patogênico) na rotina do trabalho, fazendo com que os (as) trabalhadores (as) coletivamente desenvolvam sistemas defensivos. O problema maior, como nos exemplos abaixo, é quando constroem os sistemas defensivos em forma de ideologias defensivas. Ou seja, ao desafiar o perigo aumentam o risco de sofrerem acidentes. A alternativa ao nosso ver seria que os (as) trabalhadores (as) pudessem criar dispositivos de encaminhamentos criativos do sofrimento, utilizando-se das "regras de ofício"(Cru, 1987) a seu favor.

"Tem pessoas que não acreditam que possa ocorrer com ele acham que têm experiência suficiente para não se acidentar."

"Na época da vacina muitos profissionais de saúde fugiram, ficaram com medo! Tento ter o máximo de calma possível quando atendo paciente HIV para evitar o acidente comigo e com os colegas".

Na pesquisa preliminar, cinco profissionais discordaram e dois ficaram em dúvida se a proteção à exposição ao sangue seria a principal forma de prevenção ao HIV. Estas visões demonstram que muitos (as) trabalhadores (as) nesta época não acreditavam na possibilidade de contaminação no trabalho, como pude constatar em alguns momentos durante meu trabalho de campo.

"Já me acidentei várias vezes, mas nunca tinha procurado a equipe de plantão porque não acreditava na contaminação"

Quando perguntados (as) se o hospital oferecia condições básicas de biossegurança a maioria respondia afirmativamente. No entanto, nas observações feitas nesta e em outras questões, principalmente durante as perguntas abertas, as profissionais de saúde afirmaram o contrário. Inicialmente as entrevistadas ficaram com receio de fazer críticas à instituição, mas aos poucos iam se soltando, adquirindo confiança no entrevistador e acabavam revelando as contradições institucionais.

s vezes por falta de luvas guardamos algumas para utilizar no dia seguinte. Acontece muito aqui!"

"A falta de material de proteção é um dos maiores problemas atualmente nos hospitais, é o que anda me estressando!"

"Além da falta de material, a necessidade de atender o paciente imediatamente, mesmo sabendo que é um doente de risco!"

De acordo com as falas das trabalhadoras, em sua maioria, as condições de biosegurança no HSE-RJ são precárias e responsáveis pela insegurança no trabalho e o risco de um acidente. Essas circunstâncias levam ao aumento do estresse no ambiente hospitalar, principalmente nos casos em que elas necessitam prestar atendimento de urgência aos pacientes.

"Na campanha de vacinação da 3ª idade estavam jogando as seringas em sacos plásticos por falta de descartex. Muito pela falha da administração. Não temos aventais plásticos descartável há bastante tempo! Estávamos até improvisando a base do saco de lixo como avental! Depois paramos porque não temos que improvisar!"

"O negócio é mais material, falta uma seringa, falta uma agulha, falta uma medicação, aí fica difícil para o profissional trabalhar..."

"Às vezes falta luvas, falta material. Tem determinadas coisas que você pode fazer depois, mas se o doente passar mal, você tem que socorrer de imediato, né; aí é que vem o risco"

 
 
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