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Brandão Junior, Paulo Starling. Biossegurança e AIDS: as dimensões psicossociais do acidente com material biológico no trabalho em hospital. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 124 p.


CAPÍTULO II

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS


II .1 A Metodologia Qualitativa

Utilizamos a metodologia qualitativa por considerarmos ser esta a mais adequada para compreender as dimensões psicossociais do acidente com material biológico através das experiências dos (as) trabalhadores (as) de saúde envolvidos (as) neste processo.

A metodologia qualitativa é o caminho ideal para penetrar e compreender o significado e a intencionalidade das falas, vivências, valores, percepções, desejos, necessidades e atitudes dos (as) trabalhadores (as) de saúde após o acidente com material biológico.

Segundo Minayo (1992:10), "a metodologia qualitativa é aquela que incorpora a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais. O estudo qualitativo pretende apreender a totalidade coletada visando, em última instância, atingir o conhecimento de um fenômeno histórico que é significativo em sua singularidade". Para Barbosa (1999:58) esta metodologia "pressupõe que um número limitado de casos é expressivo de uma situação social mais abrangente. Portanto, a lógica da pesquisa qualitativa é diferente dos métodos quantitativos".


O campo de realização da pesquisa

O HSE-RJ foi a primeira instituição do Rio de Janeiro a criar um plantão de atendimento a acidentes com material biológico para funcionários desta e outras unidades vizinhas. O profissional acidentado é recebido pelo plantão do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP) que avalia o caso, orienta e medica, providenciando teste rápido de HIV da fonte, a ser confirmado pelo Banco de Sangue. No primeiro dia útil, o funcionário procura a Comissão de Infecção Hospitalar (CIFH) onde será acompanhado e a Comissão de Saúde do Trabalhador (CST) para notificação. Os três serviços desenvolvem juntos atividades de educação e prevenção.

Com objetivo de analisar as dimensões psicossociais dos profissionais de saúde que sofreram acidente com material biológico nos anos de 1997 e 1998 demos início a esta pesquisa através de um estudo piloto realizado em janeiro de 1998 (onze entrevistas). Na etapa complementar deste trabalho, entrevistamos mais dez profissionais de saúde acidentados do universo de cinqüenta e três que se acidentaram em 1997 e cento e sessenta e um em 1998. Utilizamos como método para obtenção de dados, entrevistas individuais, sigilosas e anônimas através de um questionário com perguntas fechadas e abertas (com gravação), realizadas no local de trabalho, acompanhadas de um diário de campo e de observação participante no ambiente hospitalar. O roteiro para as entrevistas teve conteúdo baseado em sondagem de campo visando a livre expressão das experiências do sujeito, a partir de perguntas formuladas de modo a facilitar suas descrições. Todos os trabalhadores foram informados do propósito da pesquisa para participarem de forma voluntária.

A pesquisa obteve a contribuição do Serviço de DIP, Serviço da CIFH, Serviço de Epidemiologia e da C.S.T. do HSE-RJ. O trabalho de campo se deu durante dois turnos (manhã e tarde) buscando acompanhar o dia a dia do HSE-RJ.

Torna-se importante ressaltar que a minha entrada em campo foi facilitada pela minha inserção no Serviço de DIP desde 1992. Inicialmente como estagiário em psicossomática, depois como psicólogo voluntário e nos últimos três anos, através de um convênio com uma pesquisa de prevenção a DST/AIDS da FIOCRUZ na qual trabalhava como pesquisador. Esse longo período de trabalho no HSE-RJ certamente contribuiu bastante para a realização das entrevistas e contatos com os Serviços do hospital.

Em janeiro de 1999 apresentei o meu projeto à Comissão de Saúde do Trabalhador e ao Serviço de DIP, além de passar a comparecer semanalmente (duas vezes por semana) no HSE-RJ. No mês de fevereiro, incluí as questões de hepatite B e C nas entrevistas e começei a participar das reuniões semanais com a CST. Em março deste ano, apresentei o projeto ao Comitê de Ética do HSE-RJ e finalmente, na primeira quinzena de abril, recebi a autorização deste Comitê para a realização das entrevistas. No mês de maio, entrei em contato com as chefias das enfermarias e clínicas do hospital e recebi a permissão para freqüentar os locais de trabalho e realizar as entrevistas com os profissionais de saúde.

No decorrer da pesquisa, pretendia criar alguns espaços de discussão para ampliar a reflexão sobre os acidentes de trabalho e suas conseqüências psicossociais no âmbito individual e coletivo. Esta proposta acabou tornando-se quase que inviável por razões políticas, administrativas e pelo próprio processo de desenvolvimento da tese resultando, inicialmente, num sentimento de frustração. Posteriormente, compreendi que estas frustrações se deram muito por idealizações que foram revistas após a análise da minha "implicação" (Lourau, 1993) no processo de pesquisa no HSE-RJ. Os meus desejos estavam esbarrando em diversas limitações como, o tempo da pesquisa, a inserção no hospital, disponibilidades e demandas dos profissionais de saúde, interação com os Serviços envolvidos e no próprio contexto político-institucional do HSE-RJ.

Já como forma de retorno aos trabalhadores de saúde, divulgamos os resultados da pesquisa preliminar através da distribuição do artigo publicado no XII Congresso Mundial de AIDS/1998 aos Serviços do HSE-RJ envolvidos na pesquisa, além do Centro de Estudos do Hospital. Conseguimos também realizar uma palestra no Serviço de DIP (divulgado para todo hospital) com a participação da CST sobre os aspectos psicossociais do acidente com material biológico.

Por fim, pretendemos apresentar os resultados finais da pesquisa aos (às) trabalhadores (as) em forma de palestras com debate, com a ajuda dos Serviços que participaram da mesma.


Os instrumentos de pesquisa

Utilizamos a técnica de entrevistas porque nos possibilita focalizar os temas já apontados, embora deixe os informantes livres para se expressarem. Desenvolvemos também registros em diário de campo e observação participante, a fim de ampliarmos nosso campo de análise sobre as condições de biossegurança, processo e organização do trabalho hospitalar e suas relações com os acidentes.

A observação participante, se justifica para que o pesquisador possa coletar dados através da participação na vida cotidiana do grupo em questão por um período de tempo determinado. O pesquisador observa as pessoas para ver como se comportam, conversa para descobrir as interpretações que têm sobre as situações vividas, podendo comparar e interpretar as respostas dadas em diferentes situações (Goldenberg, 1997).

Para seleção dos trabalhadores entrevistados, inicialmente, baseamo-nos em dados do Boletim Epidemiológico de 1997 e 1998 do HSE-RJ, onde estão caracterizados os profissionais que mais se acidentaram, juntamente com os Serviços onde esses acidentes mais ocorreram, a fim de que haja um nível satisfatório de representatividade.

Na segunda etapa do estudo, a utilização do diário de campo e da observação participante propiciou o estabelecimento de relações informais, significativamente valiosas no tratamento qualitativo dos dados que foram obtidos. Os questionários aplicados foram estruturados com questões fechadas e abertas. As questões fechadas incluíram dados pessoais como sexo, idade, estado civil, religião, profissão, tipo de vínculo com a instituição, tempo de trabalho, tempo na função referida e fatores presentes no ambiente de trabalho. Outras referem-se a atitudes e conhecimentos relacionados ao vírus HIV e situações específicas após exposição ocupacional a fluidos biológicos como risco potencial, manipulação de material biológico, utilização de material pérfuro-cortante, dirigindo-se também à existência e ao fornecimento de equipamentos de proteção individual e coletiva. As questões abertas serviram de base para identificar as impressões gerais sobre as condições de trabalho e as possíveis situações conjunturais que interferem na percepção das cargas físicas e psíquicas. Questões relacionadas à percepção dos trabalhadores sobre a organização e processo de trabalho como, ritmo acelerado, acúmulo de tarefas, pressão da chefia, repetitividade das tarefas, jornada de trabalho, entre outras, foram também contempladas. Analisamos também as repercussões do acidente na vida social (profissional, pessoal, familiar, comunidade) e as conseqüências psíquicas, físicas e sociais pós-profilaxia (efeitos colaterais, psicossomáticos etc.). Em relação aos riscos, combinaram-se questões de caráter geral sobre sua existência no local de trabalho à outras mais específicas referentes à exposição a material biológico e ao atendimento oferecido pela equipe de plantão após a exposição ocupacional.

Preocupamo-nos, também, em analisar as normas relativas à Biossegurança e AIDS apresentadas no Manual de Condutas em Exposição Ocupacional a Material Biológico (CNDST/AIDS,1997) que são utilizadas pelo HSE-RJ.

II.2 A Análise dos Dados

Os profissionais de saúde estão sendo devidamente informados sobre os riscos e possibilidades de se contaminarem no ambiente de trabalho? O atendimento dado respeita suas necessidades, decisões e desejos? Que suporte está sendo dado do ponto de vista clínico, emocional e social quando sofrem o acidente com material biológico? O que pode estar se constituindo num fator de vulnerabildade ao HIV? Qual a relação dos efeitos colaterais pós- profilaxia com os fenômenos psicossomáticos? Quais os sistemas defensivos utilizados pelos profissionais de saúde?

Percebemos algumas contradições e diferenças entre o discurso oficial apresentado pelos coordenadores do Programa de Biossegurança e a fala dos (as) trabalhadores (as) de saúde que sofreram acidente com material biológico. Estas diferentes percepções e respostas às perguntas apontadas acima serão discutidas no capítulo VI, onde apresentamos os resultados da pesquisa de campo.

Privilegiamos a experiência subjetiva dos (as) trabalhadores (as) sobre o acidente de trabalho, suas repercussões psicossociais, a percepção sobre a atividade que desenvolvem, bem como o ambiente de trabalho em geral.

Com objetivo de realizarmos a análise dos dados desenvolvemos os seguintes passos:

1) Uma leitura de todo material onde destacamos os temas e subtemas mais relevantes da pesquisa.

2) Classificação dos dados em temas e separação do material a partir de uma leitura do núcleo de significados mais recorrentes, tentando na medida do possível, realizar intercorrelações com outros temas afins;

3) A análise "final" foi o resultado de reflexões em todas as etapas desse processo, articulando o trabalho empírico com algumas inferências teórico-conceituais.

"(...) As idéias, os pensamentos e os conhecimentos são, de certa forma, sempre provisórios, sempre relativos a um determinado momento do processo" (Barbosa,1999:62).

II.3 História e Curso da Pesquisa de Campo

O acidente com material biológico e as questões que surgem após o acidente refletem a pluralidade e a complexidade deste acontecimento. Não podemos separar o que desejamos conhecer acerca do acidente com o que desejamos fazer acerca deste mesmo problema. Os riscos de acidente não envolvem apenas sistemas tecnológicos e agentes perigosos manipulados e produzidos, mas também seres humanos, complexos e ricos em suas naturezas e relações, não apenas biológicas, como também e, principalmente, sociais (Freitas & Minayo Gomes,1997). Esta constatação vem ratificar a necessidade de incorporação do saber e participação dos que vivenciam e se encontram expostos aos riscos e cargas no seu dia-a-dia, ou seja, os (as) trabalhadores (as).

O homem e sua realidade social, estão em permanente movimento, formação e transformação. E foi com esta concepção que nos permitimos reavaliar e modificar os nossos caminhos durante a pesquisa no HSE-RJ.

Na primeira etapa da pesquisa, estávamos somente preocupados com as repercussões psicossociais dos acidentes com materiais biológicos. No decorrer do processo de construção da tese (encontros e desencontros), através dos meus contatos com os (as) trabalhadores (as) e com as tramas institucionais, percebemos (meus orientadores e eu) que os nossos achados tinham "transbordado" o tema inicial do meu projeto. Os dados da pesquisa foram se acumulando e se entrecruzando e fazendo-me ver vários aspectos que não havia pensado antes, levando-me a rever os meus caminhos e a ampliar o meu campo de ação e escuta. Mesmo que se tenha um limite e um prazo para conclusão, a pesquisa será sempre um processo aberto (Minayo,1992). Neste sentido, este novo que surge acabou sendo aproveitado nas entrevistas e modificando e/ou ampliando as minhas questões durante as entrevistas. Minha própria escuta foi se modificando e cada vez que percebia mais coisas que não tinha pensado antes, as incluia no meu campo de ação.

A multiplicidade de fatores que surgiam no trabalho de campo acabou nos alertando quanto à impossibilidade de desvendarmos sucessivamente todos seus mistérios, ou seja, passamos a compreender que não tínhamos a necessidade de apreender toda a teia de forças envolvidas no evento acidente, nem buscar um único e específico agente que fundamentasse nossa análise/reflexão. Nesta busca ia compreendendo que se tratava de uma complexa trama de fatores interligados que certamente esta pesquisa não dará conta plenamente. Minha contribuição deverá ser a identificação de diversos aspectos envolvidos, ainda que não se consiga chegar a um completo entendimento sobre eles. Seja pela complexidade do objeto de estudo, enquanto problema de saúde pública, seja por deficiência do método observacional utilizado, a nossa proposta é a de apresentar os aspectos/fatores/temas/sentimentos que surgem no processo de pesquisa e minha implicação (Loureau, 1993) como pesquisador no campo.

O diário de campo, a observação participante e, principalmente, as entrevistas, compõem um dispositivo de investigação que vai se abrindo e "construindo" o campo. Os acontecimentos e os conhecimentos que surgem neste campo vão sendo utilizados e incorporados nas entrevistas seguintes. O roteiro básico da pesquisa se mantém, mas, por outro lado o que ocorre é sua ampliação, na medida que fatos novos, antes não pensados, vão aparecendo, sendo acumulados e utilizados no curso das novas entrevistas, juntamente com novos instrumentos de intervenção, como as entrevistas com os coordenadores dos serviços envolvidos no atendimento aos acidentes e com um médico da equipe de plantão. As entrevistas nos locais de trabalho não são dissociadas dos acontecimentos e movimentos que acontecem no ambiente de trabalho, inclusive as minhas vivências subjetivas, estas são também aproveitadas durante e nas entrevistas.

Destacamos, fundamentalmente, a experiência daqueles (as) que trabalham no hospital, pois esses tem um saber muito particular que advém da sua prática concreta cotidiana. O contato com os Serviços, principalmente com o DIP, que se constituiu na minha base de ação, levaram-me a participar de palestras sobre o tema, reuniões informais com os membros da equipe de plantão e encontros semanais com a CST (janeiro a março de 1999). No caso da CST, discutíamos desde estratégias de prevenção e avaliação aos acidentes, como também o porquê da alta incidência destes em determinadas clínicas. Como diz Minayo (1994) "o trabalho qualitativo coloca interrogações que vão sendo discutidas durante o processo de trabalho de campo".

 

 

 
 
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