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Brandão Junior, Paulo Starling. Biossegurança e AIDS: as dimensões psicossociais do acidente com material biológico no trabalho em hospital. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 124 p.


CAPÍTULO I

A DIMENSÃO PSICOSSOCIAL NO TRABALHO

"El predomínio casi hegemónico de lo económico sobre lo social; de la economia como un fin sobre el hombre - limitado a ser considerado como recurso y o consumidor; de las variables monetarias, fiscales y financieras sobre la producción; de lo material sobre los valores ético-morales, de la competencia y el individualismo sobre la equidad, la solidariedad y la justicia social; del consumo ilimitado sobre la satisfacción de las necessidades básicas de grandes mayorias y de las futuras generaciones; etc" (OPAS, OEA, PNUD, PNUMA, BID e Banco Mundial, 1995:3).

O trabalho é uma atividade tão específica em nossas vidas pois pode funcionar como fonte de construção, realização, satisfação, riqueza, bens materiais e serviços úteis à sociedade humana. Entretanto, o trabalho também pode significar escravidão, exploração, sofrimento mental, doença e morte.

No passado, em alguns séculos antes da Revolução Industrial era comum os homens conceberem os seus instrumentos de trabalho, realizando-o artesanalmente e de forma prazerosa. Com a chegada da divisão social capitalista do trabalho, os pequenos artesãos tiveram que se separar da concepção e produção do seu produto, limitando-se a exercer funções previamente determinadas por outrem. Com o início do sistema fabril, os (as) trabalhadores (as) foram submetidos (as) a normas rígidas que causaram desadaptações no sistema habitual de trabalho humano, tendo como conseqüência abalos na estrutura familiar, social, física e mental dos (as) trabalhadores (as) (Machado et al., 1997).

 

I.1 Processo de Trabalho

"A apropriação do conceito "Processo de Trabalho" como instrumento de análise possibilita reformar as concepções ainda hegemônicas que ao estabelecerem articulações simplificadas entre causa e efeito, numa perspectiva uni ou multicausal desconsideram a dimensão social e histórica do trabalho e da Saúde/Doença". (Minayo-Gomes & Thedim-Costa, 1997:27)

No final da década de 60 e início de 70, há um questionamento global da organização capitalista do trabalho, relacionando o processo de trabalho com a saúde. Uma nova compreensão das relações trabalho-saúde/doença surge, entre outras, a partir das contribuições de vários autores "filiados" à Medicina Social Latino-americana (MSL), os quais introduzem a discussão sobre a determinação social do processo saúde/doença e a importância fundamental do trabalho para o estudo desta determinação. A MSL propõe a incorporação da categoria processo de trabalho, na qual o foco não se restringe à sua composição ambiental constituída de vários fatores/agentes de risco e externa ao (a) trabalhador (a), mas como uma "categoria" explicativa que se inscreveria nas relações sociais de produção existentes entre o capital e o trabalho (Lacaz, 1996).

A relação capital-trabalho cria situações específicas de risco à saúde do (a) trabalhador (a). O (a) trabalhador (a) constitui-se no elemento mais importante do processo de trabalho de uma organização. Ele fica exposto à ação patogênica de substâncias físicas, químicas e biológicas, uso e desgaste do corpo no processo de produção e de relações sociais e pessoais potencialmente lesivas à saúde. Combinam-se outras situações de risco fora do micro ambiente de trabalho articuladas com suas condições de vida em decorrência direta e/ou indireta dos processo de produção existentes, como: diferenças salariais, acesso a serviços de saúde, preventivos e curativos, acesso a informações sobre o problema de "saúde" e educação em geral.

Em 1988, no Brasil, através da nova Constituição Federal, cria-se a Lei Orgânica de Saúde, que consagra o Sistema Único de Saúde e no seu interior as ações em Saúde do Trabalhador. O processo de trabalho pretende ser a categoria central para a análise da Saúde do Trabalhador e também como expressão concreta das relações de exploração por meio de sua organização e divisão. A área de Saúde do Trabalhador não se limita à identificação de fatores de risco ou de protetores, mas evidencia e incorpora a relação da saúde com a inserção social e a dinâmica do processo de trabalho.

As ações na área de Saúde do Trabalhador andarão passo a passo com o exercício da cidadania relacionado ao direito à vida, materializado na legislação, na ação e organização do Estado, no poder de influência de sindicatos e da sociedade organizada como um todo. Por isso, as ações nessa área devem se articular com os movimentos de trabalhadores (as), democratizando as negociações ainda excludentes Estado-Instituições, e fortalecendo a questão saúde como critério presente no jogo político, econômico e técnico dos investimentos e estratégias produtivas.

Riscos, Cargas de Trabalho e o Processo de Desgaste

No processo de produção capitalista o (a) trabalhador (a) atua como mercadoria/força de trabalho e não produz para si, mas para o capital, que detém os meios de produção. A lógica da produção passa pelo processo de valorização do capital, através da produção de mais-valia. Essa questão é de vital importância, pois o conceito de desgaste está associado a um processo de trabalho que fragmenta a relação entre o (a) trabalhador (a), os meios de produção e o produto resultante do trabalho. O trabalho é subordinado à lógica de acumulação, sendo os (as) trabalhadores (as) submetidos (as) a toda uma sorte de riscos derivados dos materiais, ambientes, máquinas, instrumentos e uma organização do trabalho que impõe a coerção e o ritmo da produção através de métodos de trabalho, relações hierárquicas e sistemas punitivos (Brito & Porto,1992).

O esvaziamento das experiências profissionais do (a) trabalhador (a) gera o sentimento de desqualificação e corte em sua identidade profissional, representando a alienação progressiva em relação aos processos de produção. O trabalho torna-se estranho aos desejos e interesses da pessoa. Além da separação entre concepção e execução, outras formas de divisão do trabalho foram sendo implantadas, originando atividades laborais cada vez mais segmentadas. Esta fragmentação do trabalho serviu simultaneamente para intensificar o ritmo das atividades e para favorecer o aumento do controle exercido sobre os desempenhos dos trabalhadores, provocando fadiga, superexploração, ansiedade, acidentes e uma série de doenças. Ou seja, fragmentando o próprio trabalhador.

A hierarquização e a divisão de tarefas constituem aspectos essenciais na organização do trabalho. Do ponto de vista dos interesses do capital, deverão funcionar de modo a garantir, simultaneamente, a máxima eficácia do processo de produção e a máxima sujeição possível dos (as) trabalhadores (as). Segundo Seligmann-Silva (1994), os dispositivos e processos psicológicos e psicossociais utilizados como forma de pressionar os trabalhadores são de toda ordem. As tecnologias de controle como a disciplinarização dos mecanismos de trabalho, a gestão dos afetos realizados pelos serviços de Recursos Humanos e as novas formas mais sofisticadas de controle - introjeção da dominação, controle recíproco, etc. - têm importante peso para a vida psíquica dos (as) trabalhadores (as), quer em termos de cansaço físico, mental e de tensão, quer no efeito alienante. Observamos ainda a ocultação do desgaste aos (as) trabalhadores (as) através da monetarização dos riscos no trabalho. Tal prática leva o (a) trabalhador (a) a aceitar condições de insalubridade e risco de vida (periculosidade) pagos em dinheiro, ao invés de exigir a transformação das condições de trabalho. Pela ação do aparelho ideológico institucional, fica em segundo plano a questão da saúde e da integridade física e mental do (a) trabalhador (a). A monetarização dos riscos, desse modo, irá se articular aos mecanismos psicológicos e psicossociais de negação do próprio risco.

Tecnologias e Riscos

A difusão de processos de trabalho industriais teve como conseqüência a criação e expansão de diversos riscos para a saúde dos (as) trabalhadores (as). Isto porque um grande número de tecnologias industriais de fabricação envolvem riscos para a saúde, pois concentram energias e materiais que o corpo humano está despreparado para enfrentar sem mecanismos especiais de proteção. Embora de forma dinâmica e flexível, o ser humano possui limites para enfrentar determinadas alterações ambientais que impedem ou desfavorecem à manutenção e expressão de sua vida. O uso de novas tecnologias tornam maiores as exigências de concentração mental e a tendência é tornar o trabalho mais intenso e complexo. O acidente com máquinas e instrumentos de trabalho associados a material biológico e o desgaste físico e mental decorrentes de ritmos elevados de trabalho e mecanismos rígidos de coerção, são alguns dos exemplos de casos onde o (a) trabalhador (a) pode adoecer em função do trabalho.


I.2 Cargas de trabalho, Carga Psíquica e a Organização de Trabalho

Laurell e Noriega (1989), no intuito de distanciarem-se do conceito de Risco, por considerarem-no insuficiente para apreender a lógica global do processo de trabalho, utilizam-se do que denominam Carga de Trabalho abarcando tanto as físicas, químicas e mecânicas quanto as fisiológicas e psíquicas que interatuam dinamicamente entre si e com o corpo do (a) trabalhador (a). Assinalam que estas últimas "não têm materialidade visível externa ao corpo humano". Noriega (1993) passa a atribuir às exigências - enquanto requerimentos decorrentes da organização do trabalho e da atividade do (a) trabalhador (a) - um papel relevante na conformação dos perfis de saúde-doença dos coletivos de trabalhadores (as), ao distinguí-las dos riscos, relacionados aos objetos e meios de trabalho.

" A categoria "carga de trabalho" pretende alcançar uma conceituação mais precisa do que temos consignado até o momento com a pré-noção de "condições ambientais" no que diz respeito ao processo de trabalho. Dessa forma busca-se ressaltar na análise do processo de trabalho os elementos deste que interatuam dinamicamente entre si e com o trabalhador, gerando processos de adaptação que se traduzem em desgaste, entendido como perda da capacidade potencial e/ou efetiva corporal e psíquica. Vale dizer, o conceito de carga possibilita uma análise do processo de trabalho que extrai e sintetiza os elementos que determinam de modo importante o nexo biopsíquico dos trabalhadores e confere a estes um modo histórico específico de "andar a vida"(Laurell,1987:110).

Dejours (1994), propõe reservar aos elementos afetivos e relacionais da carga mental um referencial específico denominado carga psíquica do trabalho. O rebaixamento de tensão, a descarga da energia pulsional segundo o modelo freudiano é a origem e a fonte mesma do prazer, isto é, do alívio da carga psíquica de trabalho. Se o trabalho permite essa descarga ele passa a ser um instrumento de equilíbrio para o (a) trabalhador (a).

A organização do trabalho é de certa forma, a vontade de outro, ela determina não somente a divisão do trabalho, mas também a divisão dos homens. A carga psíquica do trabalho resulta da confrontação do desejo do (a) trabalhador (a), que possui uma história pessoal, motivações e necessidades psicológicas que confere a cada indivíduo características únicas, à injunção do empregador contida na organização do trabalho. Quando não há mais arranjo possível da organização do trabalho pelo (a) trabalhador (a), quando a relação do (a) trabalhador (a) com a organização do trabalho (conflito com a tarefa) é bloqueada, o sofrimento começa. Para transformar um trabalho desgastante em um trabalho prazeroso, precisa-se flexibilizar a organização do trabalho, de modo a deixar maior liberdade ao (a) trabalhador (a) para rearranjar seu modo operatório.

Análise das cargas em seu conjunto e o marco da lógica global do processo de trabalho

É na interação entre as cargas dos diferentes grupos que se começa a vislumbrar plenamente a necessidade de analisá-las em seu conjunto e no marco da lógica global do processo de trabalho. Tomando a questão dos acidentes como exemplo, torna-se evidente que a perspectiva que somente contempla as condições (as cargas mecânicas) e os atos inseguros (o "descuido do (a) trabalhador (a)") tem uma baixa capacidade explicativa e é, ademais, mistificadora. Se, pelo contrário, se analisa a dinâmica do acidente a partir da lógica do processo de produção, aparecem novos elementos "causais" e uma articulação totalmente distinta entre eles. Entendendo as cargas como os elementos que sintetizam a mediação entre o trabalho e o desgaste do (a) trabalhador (a), a dinâmica do acidente quase sempre envolve várias delas. Essa combinação de cargas tem em cada caso uma conformação singular. Como exemplo, poderíamos ilustrar um profissional de saúde trabalhando numa posição incômoda (carga fisiológica), fatigado porque alterna turnos (carga fisiológica e psíquica), com tensão nervosa pela pressão da chefia imediata e pelo alto ritmo de trabalho (cargas psíquicas); atravessado por uma série de cargas que, por seu turno, não só se somam como se potencializam entre si e dão concretude ao processo de trabalho de modo singular. O "ato inseguro", ou seja, a conduta equivocada ou o "descuido" do profissional de saúde, nessas condições, dificilmente pode ser considerada como sendo exclusivamente de sua responsabilidade, mas como produto de uma combinação de cargas determinada pela lógica global do processo de trabalho.

A situação de trabalho constitui-se num conjunto complexo que inclui as condições físicas, químicas, biológicas e psíquicas do ambiente de trabalho, os aspectos técnicos, a organização prescrita e a organização real das atividades de trabalho, bem como a gestão das mesmas; a caracterização dos canais formais de comunicação e das relações interpessoais. O regime de trabalho em turnos alternados (muito comum na área hospitalar), também conhecido como turnos de revezamento, tem sido bastante estudado internacionalmente pelos agravos que acarreta para a saúde física, psíquica e social, transtornando, principalmente, os biorritmos naturais do sistema nervoso, da área endócrina (glandular) e do aparelho digestivo. No caso do ritmo do trabalho, os (as) trabalhadores (as) geralmente consideram que o próprio processo de trabalho condiciona o ritmo acelerado. A ansiedade relacionada às "pressões de tempo" geralmente são indissociáveis das tensões "por pressão de chefia". A ocorrência de fadiga, muitas vezes, está associada a exigências específicas determinadas pelo conteúdo das tarefas. Quando a função desempenhada é complexa e exige simultaneidade de focos de atenção e de atuação prática (como no caso dos (as) profissionais de saúde que lidam diretamente com os pacientes), a fadiga mental se torna perceptível em menor espaço de tempo. Por exemplo, quando à complexidade da função exercida se acrescenta o esforço de manter a atenção voltada para a possibilidade de sofrer acidente.

Podemos encontrar interrelações entre a fadiga e a tensão com as condições gerais de vida. A acumulação do cansaço que conduz à fadiga patológica pode ser facilitada quando a distância entre o local de trabalho e local de moradia são extensos. Torna-se ainda mais penoso quando não existem meios de transporte suficientes ou providos de um mínimo conforto. Acrescenta-se a necessidade de despertar várias horas antes da entrada no horário do turno, tendo em vista a espera e o tempo de condução ou mesmo, o tempo a ser gasto com uma longa caminhada e a violência urbana.

As circunstâncias laborais, em situações bastantes variadas no hospital, podem conduzir à constituição de sentimentos de culpa. Tendo cometido uma falha de desempenho ou se acidentado, o (a) trabalhador (a), muitas vezes, volta a acusação contra si mesmo (a), incorporando pontos de vista do Programa de Biossegurança ("ato inseguro" como fator causal) e deixando de considerar causas como o próprio processo e organização hospitalar.

I.3 Ergonomia

Para melhor compreender como riscos ou cargas e exigências se manifestam concretamente nos processos de trabalho, é pertinente o instrumental desenvolvido pela corrente da Ergonomia Situada (Daniellou, 1989 & Vidal 1995). Esta considera a atividade humana de trabalho seu objeto de estudo principal onde uma das origens básicas da carga de trabalho está relacionada às discrepâncias entre o trabalho prescrito e o real. Projetistas, planejadores e gerentes tendem a gerar condições e metas de trabalho muitas vezes incompatíveis com as necessidades humanas de saúde e satisfação dos (as) trabalhadores (as). Como conseqüência dessa contradição/inadequação, surge a carga de trabalho, onde as esferas física, cognitiva e psíquica do ser humano individual e coletivo que efetiva um dado trabalho gera um processo de adaptação desestruturante da pessoa ao nível de saúde, a curto, médio ou a longo prazos. Assim, a carga de trabalho pode desencadear processos patológicos mais sutis ou objetiváveis, articuladas às características das condições de vida e da história de cada pessoa. A distinção entre tarefa prescrita e atividade real, previsível diante da variabilidade de condições de trabalho, ocorre sobretudo em face de situações que exigem a interferência constante dos trabalhadores para manter a continuidade da produção ou prevenir eventos acidentários.

I.4 Psicopatologia e Psicodinâmica de Trabalho

Quando o foco de atenção volta-se prioritariamente para os aspectos ligados à organização do trabalho, aparecem com maior significância os efeitos de caráter psicossocial. Os postulados da Psicopatologia do Trabalho e, mais recentemente, da Psicodinâmica do Trabalho (Dejours, 1994) abrem novas perspectivas, superadoras da visão monolítica e restritiva da nocividade do trabalho que induz o caminhar pelo terreno do sofrimento mental. Em contrapartida, buscam desvelar na organização real do trabalho as estratégias adaptativas intersubjetivas, de defesa/oposição, latentes na tensão entre a procura de prazer/reconhecimento dos sujeitos e os constrangimentos externos advindos das situações de trabalho.

Como fazem os (as) trabalhadores (as) para resistir aos ataques ao seu funcionamento psíquico provocados pelo seu trabalho? O que fazem para não ficarem loucos?

A existência de um estado compatível com a normalidade, o sofrimento no trabalho, implica em uma série de mecanismos de regulação. Implica, antes de tudo, em um estado de luta do sujeito contra forças que o estão empurrando em direção à doença mental. É na organização do trabalho que devem ser procuradas estas forças. De acordo com Dejours (1988), a organização do trabalho exerce sobre o homem uma ação específica, cujo impacto é o aparelho psíquico. Em certas circunstâncias, surge um sofrimento que pode ser atribuído ao conflito entre uma história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos e uma organização de trabalho que os ignora. Esse sofrimento de natureza mental inicia quando o (a) trabalhador (a), já não pode fazer nenhuma mudança na sua tarefa no sentido de torná-la mais de acordo com suas necessidades fisiológicas e seus desejos psicológicos, isso é, quando a relação do indivíduo com o trabalho é interrompida, impedida de movimento.

A organização do trabalho é entendida não só como a divisão do trabalho (divisão das tarefas entre os (as) trabalhadores (as), os ritmos impostos e os modos operatórios prescritos) mas também, e sobretudo, a divisão de homens para garantir a divisão de tarefas, representada pelas hierarquias, as repartições de responsabilidade e os sistemas de controle.

Sofrimento psíquico, trabalho e sistemas de defesas coletivas

O sofrimento é inerente ao ser humano e à vida em sociedade, estando presente na realidade do trabalho. Pode contudo, Ter uma trajetória patológica, daí que o sofrimento mental no trabalho vem preocupando especialistas do mundo inteiro. O impacto da globalização na organização do trabalho, as exigências crescentes de maior qualificação profissional, a competitividade, a precarização do trabalho e a ameaça constante do desemprego têm causado os mais diversos efeitos sobre a saúde mental dos (as) trabalhadores (as).

No caso da atividade real de trabalho, muitas vezes a percepção de riscos gera medo. Entretanto, a necessidade de ter que executar as tarefas contrapõe-se à emergência de manifestações deste medo. Nas situações em que o trabalho é exigido em ritmo intenso e rápido, há um considerável incremento de ansiedade, pois, à medida que o cansaço cresce, o (a) próprio (a) trabalhador (a) vai percebendo a dificuldade de dividir sua atenção entre a execução da tarefa e os cuidados para evitar acidente. O esforço para controlar o medo gera enorme tensão. Esta tensão diz respeito também, muitas vezes, aos esforços para utilizar incômodos EPI’s (equipamentos de proteção individual) ou aos conflitos e riscos assumidos para recusar o seu uso. Como exemplo temos as máscaras que prejudicam a visão e, por conseguinte, ao invés de protegerem, aumentam os riscos de acidente. O medo é causado pela necessidade de administrar e conviver com as mais variadas situações de risco. Dejours (1988) alerta que o medo relativo ao risco pode ficar sensivelmente amplificado pelo desconhecimento dos limites desse risco ou pela ignorância dos métodos de prevenção eficazes. Além de ser um coeficiente de multiplicação do medo, a ignorância também aumenta o custo mental ou psíquico do trabalho. O inesperado durante a atividade do trabalho causa uma certa impotência pelo fato do (a) trabalhador (a) não saber o que se passa em outras áreas. Isso traz um grande desgaste psíquico, pois exige maior controle para que sua atitude não piore a situação.

Em suas primeiras investigações, Dejours (1988) demonstrou que os (as) trabalhadores (as) em grupo são capazes de reconstruir a lógica das pressões de trabalho que os fazem sofrer. E, também, podem fazer funcionar sistemas defensivos coletivamente construídos para lutar contra os efeitos desestabilizadores e patogênicos do trabalho. "Contra o sofrimento, a ansiedade e a insatisfação os trabalhadores constroem sistemas defensivos" (Dejours, 1988:36).

O conflito entre a organização do trabalho e o funcionamento psíquico pôde ser reconhecido como fonte de sofrimento, mas este também suscita sistemas defensivos. Essas defesas levam à modificação, transformação e, em geral, à minimização da percepção que os (as) trabalhadores (as) têm da realidade que os (as) fazem sofrer. De vítimas passivas, os (as) trabalhadores (as) colocam-se na posição de agentes ativos de um desafio, de uma atitude provocadora ou de uma minimização diante da dita pressão patogênica. Os sistemas defensivos funcionam como regras e como toda regra, eles supõe um consenso ou um acordo partilhado. Os sistemas coletivos de defesa só se sustentam se for por consenso, dependendo de condições externas e atuam sobre a percepção da realidade.

Por outro lado, estes sistemas coletivos de defesas também podem chegar a configurar-se em verdadeiras ideologias defensivas. Estas funcionam inteiramente desvinculadas de qualquer perspectiva política libertadora e respondem unicamente à necessidade de suportar a penosidade do trabalho e, acima de tudo, ao medo e à ansiedade de conviver cotidianamente com os riscos de acidente e de vida. Favorecem, portanto, à dominação e à exploração, pois estão voltadas exclusivamente para a negação coletiva dos riscos.

Os (as) trabalhadores (as) constróem também, verdadeiras regras de trabalho (ou de ofício) que não estão de acordo com a organização do trabalho oficial. Elaboram verdadeiros princípios reguladores para a ação e para a gestão das dificuldades ordinárias e extraordinárias observadas no curso do trabalho (Cru, 1987). O (a) trabalhador (a) desenvolve um tipo de inteligência em constante ruptura com as normas e as regras, uma inteligência fundamentalmente transgressiva denominada "inteligência astuciosa". Esta inteligência funciona sempre em relação a uma regulamentação feita anteriormente (pela organização oficial do trabalho) que ela subverte para dar conta da variabilidade, pelas falhas da prescrição, pelas necessidades do trabalho e para atender os objetivos com procedimentos mais eficazes, ao invés da utilização estrita dos modos operatórios prescritos. Ela não leva somente à atenuação do sofrimento, mas a atingir, como contrapartida de seu exercício bem sucedido, o prazer (Dejours, 1994). O maior desafio é saber quais são as ações possíveis de modificar a trajetória para o sofrimento patogênico em outra direção, a do sofrimento criativo. Quando o sofrimento pode ser transformado em criatividade, quando há margens de liberdade na transformação, gestão e aperfeiçoamento da organização do trabalho, ele traz uma contribuição que beneficia a identidade do (a) trabalhador (a), aumentando a resistência do sujeito ao risco de desestabilização psíquica e somática. O trabalho passa então a funcionar como mediador para a saúde (Dejours, 1994). De outra forma, quando não há nada além de pressões fixas, rígidas, incontornáveis, inaugurando a repetição e a frustração, o aborrecimento, o medo ou o sentimento de impotência, temos o sofrimento patogênico.

I.5 Efeitos colaterais e fenômenos psicossomáticos: As relações entre saúde e Normalidade

A normalidade pressupõe uma construção feita por cada um dos sujeitos, uma luta incessante para reconquistar o que se perde, refazer o que se desfaz, reestabilizar o que se desestabiliza. A normalidade é freqüentemente conquistada a custo de certas patologias crônicas, notadamente patologias somáticas, para onde submerge uma parte do sofrimento que não consegue encontrar soluções adequadas, isto é, soluções que passem pela transformação da situação concreta de maneira a adequá-las melhor às necessidades e aos desejos do sujeito.

As doenças evoluem por avanços, por crises, na vida das pessoas e, muitas vezes, elas acontecem quando alguma coisa de penoso ocorre na vida psíquica e afetiva do indivíduo. São conhecidos numerosos exemplos onde a doença física pode ser desencadeada por ocasião de uma situação afetiva insustentável, ou seja, no momento em que o sujeito está, de certa forma, pressionado por um impasse psíquico. No centro da relação saúde-trabalho, a vivência do (a) trabalhador (a) ocupa um lugar particular que lhe é conferido pela posição privilegiada do aparelho psíquico na economia psicossomática. Neste contexto, a insatisfação em relação ao conteúdo significativo da tarefa em uma organização de trabalho rígida e imposta, pode engendrar um sofrimento cujo ponto de impacto é antes de tudo mental. Todavia, o sofrimento mental resultante de uma frustração a nível de conteúdo significativo da tarefa, pode igualmente levar a somatizações. A somatização é o processo pelo qual um conflito que não consegue encontrar uma resolução mental, desencadeia no corpo desordens endócrino-metabólicas que é o ponto de partida de uma doença somática.


O Caminho da Somatização

A Psicossomática é uma das mais fecundas áreas de interface para o desenvolvimento da pesquisa sobre o fenômeno humano. Nos últimos setenta anos surgiu um grande número de trabalhos que levantaram questões para a compreensão dos vários aspectos que tangem os processos do ser humano, na saúde, na doença e na condução de sua experiência concreta de ser vivo, social e culturalmente determinado.

O corpo não é o exterior, sendo a mente seu interior. Os processos psíquicos não se dão "dentro" do homem. O corpo não lhe é um mero veículo, ou uma veste, ou um calçado. O corpo e a mente interpenetram-se. Não há processos puramente orgânicos e nem unicamente mentais. Embora se devam respeitar as especificidades dos registros, havendo assim uma esfera biológica, uma esfera físico-química, dimensões simbólicas organizadas por esferas sociais e culturais, e uma esfera própria ao psiquismo, há contudo, uma continuidade no fenômeno humano (Ávila, 1997).

As diferentes situações de oposição da vida comum constituem autêntico estado de conflito, provocando tensões progressivas. O limiar de aceitação dessas tensões é específico para cada pessoa. Quando essa capacidade defensiva de elaboração do processo mental se esgota, as cargas psíquicas transbordam, desaguando no corpo. É onde começa o desvio da saúde, pela leitura desarmoniosa e desequilibrada precedida pelas instâncias do aparelho mental, na mediação dos acontecimentos do mundo externo que afligem o indivíduo, simultaneamente com os objetos do seu mundo interno. O homem necessita enfrentar, operar e resolver fenômenos sucessivos em diferentes períodos. Ele só pode se desenvolver, estando em equilíbrio com suas estruturas psíquicas e somáticas, através da mediação da mente (Capisano, 1997).

De acordo com Dejours (1988), a somatização pode atingir tanto um sujeito com estrutura neurótica quanto psicótica, e estes episódios ocorrem geralmente quando o funcionamento mental do sujeito é momentaneamente colocado fora do circuito. Seguindo essa linha de raciocínio, os fenômenos psicossomáticos podem ocorrer em qualquer trabalhador (a), não dependendo dele (a) apresentar ou não uma estrutura psíquica denominada psicossomatose (Mc Dougall,1991) para poder somatizar.

A saúde mental não é, seguramente, a ausência de angústia, nem o conforto constante e uniforme. A saúde é a existência da esperança, das metas, dos objetivos que podem ser elaborados: é quando há o desejo. O que faz as pessoas viverem é o desejo e não só as satisfações (Dejours, 1993).


Psicossomática e Trabalho

O (a) trabalhador (a) não chega ao seu trabalho como uma máquina nova. Ele tem uma história pessoal, que se concretiza por uma certa qualidade de aspirações, de desejos, motivações e necessidades psicológicas. Isto confere a cada indivíduo características únicas e pessoais que combatem o mito do (a) "trabalhador (a) médio (a)" tão ao gosto do Taylorismo. O (a) trabalhador (a), em função de sua história, dispõe de vias de descarga preferenciais, que não são as mesmas para todos e que participam daquilo que se chama estrutura da personalidade.

Sem a pretensão de medir a carga psíquica, Dejours (1993) propôs um modelo para explicar o processo de vias de descargas preferenciais, e no caso específico de nosso tema, a via visceral. Ou seja, submetido a excitações vindas do exterior (informações visuais, auditivas, táteis etc.) ou do interior (excitações instintuais e pulsionais, inveja, desejo) o trabalhador retém energia. A excitação quando se acumula, torna-se a origem de uma tensão psíquica, popularmente chamada de tensão nervosa. Para liberar esta energia, o (a) trabalhador (a) dispõe de muitas vias de descarga, que são, esquematicamente a via psíquica, via motórica e via visceral. Quando a via mental e a via motórica estão fora de ação, a energia pulsional não pode descarregar senão pela via do sistema nervoso autônomo e pela desregulação das funções somáticas (é a via visceral).

Dentro destas proposições, concordando com Dejours (1993), precisamos avaliar se a tarefa à qual está afetado o (a) trabalhador (a), oferece um escoamento conveniente da sua energia psíquica. Neste sentido, no caso da carga psíquica, o perigo principal será o da subutilização ou o da repressão das aptidões psíquicas, fantasiosas ou psicomotoras, que ocasiona uma retenção de energia pulsional ("tensão nervosa").

O bem-estar psíquico não provém da ausência de funcionamento, mas ao contrário, de um livre funcionamento em relação ao conteúdo da tarefa. Se o trabalho favorece esse livre funcionamento, ele será fator de equilíbrio, se ele se opõe, será fator de sofrimento e doença.


Os efeitos colaterais e a relação terapêutica

A Organização Mundial de Saúde (1972), definiu efeitos colaterais como reação adversa produzida por um medicamento, ou seja, qualquer efeito prejudicial ou indesejável que se apresente após a administração das doses normalmente utilizadas no homem para a profilaxia, o diagnóstico e o tratamento de uma enfermidade. Considera-se que os termos "reação adversa", "efeito indesejável" e "doença iatrogênica" são equivalentes e respondem à definição anterior.

De acordo com Michael Balint (1975), a droga mais freqüentemente usada na prática médica é o próprio médico. Sabe-se que inúmeros fatores podem interferir iatrogenicamente no relacionamento médico-paciente, sobretudo aqueles que dizem respeito à formação do profissional, às condições de trabalho do local da consulta e aos perfis de personalidade dos protagonistas desse encontro (Sougey & Carvalho, 1997).

Discutindo a consulta médica do ponto de vista sócio-psicossomático, Pontes e col. (1986) afirmam que "todos os atos do homem ocorrem correlatamente nas três áreas do seu existir: corpo, mente e mundo exterior". É comum pacientes apresentarem fantasias em relação ao médico, ao medicamento e à própria evolução do tratamento. Os pacientes devem, portanto, ser esclarecidos sobre as características e objetivos do tratamento, informados sobre os possíveis efeitos indesejáveis e sobretudo sobre as razões que motivaram aquela prescrição.


I.6 Vulnerabilidade do profissional de saúde ao HIV

O Brasil ainda não conta com um sistema de vigilância nacional de doenças ocupacionais relacionadas a agentes de risco biológico. Em decorrência de fatores culturais, psicossociais, institucionais e do próprio Sistema de Saúde brasileiro, o número de subnotificações ainda é muito grande em nosso país. Acreditamos que estes fatores também contribuem para a vulnerabilidade dos (as) profissionais de saúde ao HIV.

Segundo o conceito de vulnerabilidade, para o vírus HIV o risco de infecção está mais associado a fatores sociais, econômicos e culturais que aos biológicos. Desde os "trabalhos pioneiros de Jonathan Mann e outros investigadores da Universidade de Harvard, EUA, este conceito busca explicar a maior ou menor possibilidade de infecção de determinado grupo humano através da conjunção de fatores individuais, sociais, econômicos e políticos em uma dada sociedade. Esse conceito, portanto, implica avançar além de um enfoque limitado que considere somente os comportamentos individuais como determinantes do risco. E mais, coloca em questão a própria concepção de risco tradicionalmente adotada pela epidemiologia (Villela,1998)" (Barbosa,1999:16).

De acordo com Ayres (1997), a vulnerabilidade ao HIV/AIDS pode ser definida como o esforço de produção e difusão de conhecimento, debate e ação sobre os diferentes graus de suscetibilidade de indivíduos e coletividades à infecção, adoecimento ou morte pelo HIV, segundo a particularidade de sua situação quanto ao conjunto integrado dos aspectos sociais (ou contextuais), programáticos (ou instintucionais) e individuais (ou comportamentais) que os põem em relação com o problema e com os recursos para seu enfrentamento. Como horizonte teórico e instrumental conceitual, a vulnerabilidade surge, em síntese, como um modo de avaliar objetiva, ética e politicamente as condições de vida que tornam cada um de nós expostos ao problema e os elementos que favorecem a construção de alternativas reais para nos protegermos a todos.

"O conceito de vulnerabilidade busca estabelecer uma síntese conceitual e prática das dimensões sociais, político-instintucionais e comportamentais associadas às diferentes suscetibilidades de indivíduos, grupos populacionais (como os profissionais de saúde) e até mesmo nações à infecção pelo HIV e suas consequências indesejáveis (doença e morte)" (Ayres,1997:32).

O conceito ainda predominante em nossa sociedade, principalmente nos casos de acidentes com material biológico, é o de comportamento de risco, que universaliza a preocupação com o vírus HIV e estimula um ativo envolvimento individual com a prevenção. Mas o conceito de comportamento de risco também mostrou limites importantes como elemento norteador de estratégias de conhecimento e intervenção na AIDS. A tendência à culpabilização individual é a sua outra face. Quando o comportamento do indivíduo é trazido para o centro da cena, a conseqüência inevitável é que se atribua à displicência - para dizer o mínimo - sobre a eventual falha na prevenção.

Segundo Mann e demais colaboradores da Coalizão Global de 1992, para a avaliação da vulnerabilidade ao HIV/AIDS existem três planos interdependentes de apreensão da maior ou menor vulnerabilidade: comportamento pessoal, ou vulnerabilidade individual, contexto social, ou vulnerabilidade social e programa nacional de combate à AIDS ou vulnerabilidade programática.

Para o caso dos (as) trabalhadores (as) de saúde, indicadores específicos falam sobre situações sociais e programáticas que extrapolam os limites da percepção e possibilidade de transformação de cada indivíduo isoladamente.

Há parcerias entre a coordenação do Programa de Biossegurança dos hospitais e os (as) trabalhadores (as) de saúde? Existem bases racionais e democráticas para a definição dos conteúdos dos programas? Há fonte suficiente, estável e bem administrada de recursos materiais? Há monitoramento do desenvolvimento do programa, retroalimentando igualmente objetivos e metas? Até que ponto podem diminuir essa vulnerabilidade? O que podem fazer para gerar mudanças nos serviços e na instituição para diminuir a vulnerabilidade? Como suas atitudes individuais e coletivas podem facilitar essas mudanças?


I.7 Gênero, trabalho e hospital geral

Este tema no decorrer da pesquisa de campo apareceu em diversos momentos no contato com os (as) trabalhadores (as) de saúde (categorias profissionais predominantemente femininas) que sofreram algum tipo de acidente com material biológico no HSE. Esta peculiaridade demonstrou a necessidade da inclusão da questão de gênero na discussão e análise da multiplicidade de fatores envolvidos na vivência subjetiva do (a) trabalhador (a) após o acidente.

O hospital é um lugar de concentração de trabalho feminino e este é um tema que precisamos incorporar na análise, já que quase a totalidade dos (as) profissionais de saúde que mais se acidentaram, segundo o Boletim Epidemiológico de 1997 e 1998 do HSE, é constituída de mulheres (auxiliares de enfermagem, enfermeiras e médicas). No hospital, normalmente, os homens ocupam espaços masculinos "clássicos", concentrados nos serviços de obras e manutenção e, nos grandes complexos hospitalares, nos serviços de engenharia, carpintaria, nos serviços de segurança, no setor de compras e de estoques de material. No setor administrativo, pode-se dizer que os homens ocupam o postos de maior qualificação dos setores de informática e de custos, especialmente.

No setor assistencial é a profissão médica que concentra o sexo masculino, apesar de já terem ocorrido grandes mudanças deste perfil nas últimas décadas. Em certas especialidades e em certos setores do exercício médico há uma tendência à concentração feminina. As mulheres estão predominantemente nos setores assalariados e nas especialidades da saúde pública e da pediatria, por exemplo. Os argumentos geralmente utilizados são os já clássicos, como os relacionados às "qualidades femininas" (como para a pediatria).

A feminização do trabalho de enfermagem, articula-se com a visão de desqualificação dessa profissão e com os baixos salários das profissionais e a formação de enfermeiras que não contempla a crítica à própria naturalização do trabalho feminino. A relação existente entre maternagem/cuidados e trabalho de enfermagem, ao se tornar natural, insiste em se burocratizar e endurecer, impedindo-as de experimentar outras formas de pensar e viver o trabalho na área de saúde. "No caso das enfermeiras, se a qualificação se expressa na aquisição legítima do diploma de formação, a desvalorização desse mesmo diploma é influenciado não só pela "profissão de mulher", mas também pela hierarquia dos saberes na sua relação com a medicina, que atesta a articulação ao nível do sistema organizado de saúde - sobretudo hospitalar - da divisão sexual e sócio-técnica do trabalho" (Lopes, 1996:78).

Dessa forma quais as questões relativas as relações de gênero que permeiam a vivência subjetiva das trabalhadoras após o acidente? Como as representações do "papel da mulher" com os seus parceiros podem interferir no sentimento de discriminação, uso da camisinha e na vida sexual da trabalhadora após o acidente? Até que ponto a "jornada dupla de trabalho" pode estar se constituindo num fator de vulnerabilidade ao acidente?

Acreditamos que o manejo desse conjunto de conceitos e noções mediadoras nos dará maiores condições para melhor compreender a dimensão psicossocial da exposição ocupacional a material Biológico sofrido pelos Profissionais de Saúde no HSE-RJ.

 

 
 
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