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Brandão Junior, Paulo Starling. Biossegurança e AIDS: as dimensões psicossociais do acidente com material biológico no trabalho em hospital. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 124 p.


INTRODUÇÃO

"A AIDS é mais do que um problema de saúde, é um assunto para todos nós cidadãos, porque diz respeito a tudo que consideramos certo ou errado, diz respeito às nossas crenças, valores, idéias, enfim, diz respeito ao direito, à vida civil, sexual, afetiva e condições de trabalho de todos nós, mesmo que nos obriguemos a repensar nossa postura enquanto pessoa e cidadão".

Giovana Delvan S. Davi, 1996

 

Na condição de psicólogo, com especialização em Medicina Psicossomática, iniciei em janeiro de 1991 um trabalho de atendimento psicoterápico ambulatorial a pacientes HIV/AIDS e seus familiares no Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP) do Hospital dos Servidores do Estado (HSE-RJ), como voluntário, sob a supervisão da Chefe da Psiquiatria. Em junho de 1992, comecei a trabalhar no Serviço de Atenção Especial de DST/AIDS (SAE) do Centro de Saúde Vasco Barcellos, a convite do Serviço de Saúde Coletiva do município de Nova Iguaçu, após aprovação em concurso público para esta prefeitura. Em minha experiência profissional nesses serviços fui percebendo de forma mais rica o quanto os (as) profissionais de saúde têm sido importante no tratamento dos pacientes HIV/AIDS, uma espécie de elo para o restabelecimento de seu equilíbrio psicossomático e social. Por outro lado, grandes são as dificuldades enfrentadas por esses profissionais para cumprirem esse papel. É uma área onde predominam reações baseadas em padrões morais e preconceitos profundamente arraigados. Não são raros os casos de recusa de atendimento e discriminação, na assistência aos pacientes. Evidentemente, uma vez que fazem parte desta sociedade, não seria de se esperar que entre os profissionais de saúde os comportamentos fossem radicalmente diferentes dos demais. Além disto, a alta taxa de letalidade, apesar do "coquetel" (grupo de medicamentos com a capacidade de destruição do vírus HIV), leva o profissional a deparar-se freqüentemente com a morte. O próprio fato de ainda não existir cura para AIDS, mesmo já se tendo conseguido uma maior eficácia no tratamento e controle da doença, gera nos profissionais de saúde um angustiante sentimento de impotência. Como se não bastasse, a preocupação em adquirir o vírus HIV no trabalho é cada vez maior, principalmente pelo fato do tema acidente com material biológico e AIDS estar na "ordem do dia" nas Instituições de Saúde.

Esse último tema - Biossegurança e AIDS - tornou-se, no decorrer do ano de 1996, progressivamente objeto de minha atenção. Nesse período, juntamente com duas residentes de medicina do Serviço de DIP do HSE-RJ, desenvolvemos uma pesquisa sobre "O impacto biopsicossocial que os trabalhadores de saúde sofrem ao lidarem direta ou indiretamente com os pacientes HIV/AIDS no Hospital Geral", com a supervisão da Chefe do Serviço de DIP.

Nessa pesquisa aplicamos quarenta e um questionários com perguntas abertas e fechadas, em profissionais do Serviço de DIP do HSE-RJ onde obtivemos algumas respostas sobre o tema biossegurança, que reforçaram meu interesse por esta questão: 80,49% consideram-se vulneráveis ao vírus HIV, mas somente 53,65% fizeram o teste HIV; 48,78% consideram-se "vítimas da AIDS," no que tange ao aspecto psicológico e social em seu ambiente de trabalho; 17,07% vivem preocupados com o risco de contaminação no trabalho, por fim, 73,17% não se sentem preparados para lidar com a morte dos pacientes, principalmente quando a morte está associada ao tema da AIDS.

Durante o ano de 1997, conforme levantamento realizado no Hospital dos Servidores do Estado pelo Serviço de DIP, Comissão de Saúde do Trabalhador (CST) e Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CIFH), foram notificados 53 acidentes em profissionais de saúde (principalmente, médicos (as), enfermeiros (as) e auxiliares de enfermagem) por exposição a fluidos biológicos, dos quais 47 foram do tipo pérfuro-cortante (89%) e 6 de contato (11%). Em relação aos locais de ocorrência do acidente, destacou-se a Unidade Materno-Infantil (UMI)/Berçário (23,8%) e a Clínica Médica (16,7%), onde procuramos saber quais as particularidades destas unidades que levaram a uma maior incidência de acidentes.

Diante desses dados participei, em janeiro de 1998, junto com a Chefe do Serviço de DIP, uma médica residente e outra da CIFH, de uma nova pesquisa com os profissionais de saúde (médicos (as), enfermeiros (as) e auxiliares de enfermagem) do HSE-RJ para avaliarmos o impacto psicossocial que esses (as) trabalhadores (as) sofrem ao passarem por algum tipo de exposição ocupacional a material biológico. Na fase preliminar da pesquisa (estudo piloto desenvolvido em janeiro de 1998), através de uma metodologia qualitativa realizamos entrevistas com onze profissionais de saúde (cinco médicas, duas enfermeiras e quatro auxiliares de enfermagem) que se acidentaram com material biológico no ano de 1997 dos cinquenta e três que foram notificados neste período, segundo o Boletim Epidemiológico do HSE-RJ. Essas entrevistas foram realizadas no local de trabalho, onde aplicamos um questionário com perguntas fechadas e realizamos uma entrevista com perguntas abertas (com uso de um gravador). Todos os participantes foram informados dos propósitos da pesquisa e aceitaram dar a sua contribuição de forma voluntária.

Os temas mais relevantes sobre as experiências, percepções e conhecimentos relatados pelas onze trabalhadoras foram os seguintes:

· Vulnerabilidade ao vírus HIV

Sete profissionais julgaram-se vulneráveis ao vírus HIV, entretanto seis profissionais nunca tinham feito o teste anti-HIV ("displicência", "não havia situação de risco", "não pertenço a grupo de risco"...) antes de sofrerem o acidente.

· Risco de acidente no trabalho

Dez profissionais consideraram que a falta de material disponível de proteção faz com que ocorram acidentes no trabalho. Contudo, oito profissionais afirmam que a maioria dos colegas preocupa-se com os acidentes mas poucos se protegem.

· Conhecimento sobre Biossegurança

Somente metade das profissionais entrevistadas demonstraram ter conhecimento pleno sobre este tema.

· Causas de acidentes

Entre as principais causas de acidente, apresentaram um conjunto de fatores como: descuido, imprudência, cansaço físico, corre-corre nos plantões, ter que trabalhar em três ou quatro empregos para sobreviver, falta de esclarecimento sobre biossegurança (educação continuada) para os (as) profissionais, estresse emocional e falta de condições ideais de trabalho (equipamentos, recursos humanos).

· Repercussões na vida profissional e pessoal

Após o acidente, nove profissionais (seis sempre e três algumas vezes) passaram a ficar com medo de contaminação no trabalho, aumentaram a precaução e preocupação com a equipe. Relataram também ansiedade, depressão e medo da morte na expectativa do resultado do teste anti-HIV. Apresentaram aumento no uso do preservativo, bem como destacaram o medo de discriminação no trabalho, do (a) parceiro (a), da família e do círculo social.

· Reações ao tomar a medicação

As pessoas entrevistadas expressaram sentimentos de pânico, preocupação intensa com efeitos colaterais, além de relatarem a ocorrência de reações psicossomáticas durante o uso da medicação.

· Relato de uma profissional da equipe de plantão sobre os (as) trabalhadores (as) acidentados (as)

"Percebi uma grande ansiedade à respeito da busca dos medicamentos na farmácia. O profissional se sente paciente!"

Normalmente, o (a) profissional de saúde após o acidente, sente-se ameaçado (a) em sua condição psicossocial, preocupado (a) com o seu futuro, sua família, seu trabalho e, principalmente, associando o acidente com a contaminação pelo vírus HIV. Ao serem encaminhados para a farmácia, parece que todas as suas fantasias relacionadas a AIDS são concretizadas. Nesse contexto sentem-se com AIDS e são percebidos (as) pela comunidade do hospital (colegas de trabalho, pacientes...) como mais um (a) paciente aguardando na fila para receber seus "anti-retrovirais".

Biossegurança e AIDS

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) foi identificada pela primeira vez em 1981. A partir desta época a epidemiologia da AIDS passou a relacionar essa doença a uma possível transmissão por um agente infeccioso, até a identificação do retrovírus que a causava (Montagnier et al., 1983).

A AIDS, em um espaço social, mostra-nos o impacto de uma doença que além dos problemas de sua disseminação, nos revela uma série de contradições com implicações diretas no tratamento individual. Nesse conflito, em termos psicossociais, podemos facilmente mostrar a oposição entre individual e coletivo quando a coletividade que discrimina é a mesma que tem que criar as condições para o atendimento terapêutico. A AIDS referida à morte transmissível, cria especificamente uma solicitação para se considerar essa dimensão psicossocial, o que coloca um desafio para o conhecimento médico, tocando numa dimensão existencial. A AIDS é um desafio que se coloca além do modelo médico restrito, impondo as instituições a consideração da dimensão psicossocial.

Conceitualmente, a Biossegurança tem sido tratada, em estudos de pesquisadores brasileiros (Teixeira, Valle, & Oda, 1996) e pela própria Comissão de biossegurança da Fundação Oswaldo Cruz (1996), como um "conjunto de ações voltadas para a prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às atividades de pesquisa, produção, ensino e desenvolvimento tecnológico e prestação de serviços, riscos que podem comprometer a saúde do homem, dos animais, do meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos desenvolvidos (Valle & Teixeira, 1998:13)".

Segundo Granato (1997), tão antiga quanto a epidemia causada pelo HIV, a preocupação dos (as) profissionais da área de Saúde com a AIDS tem aumentado intensamente. Por um lado, como lidar com a enorme sobrecarga de trabalho existente nos hospitais e por outro, como evitar a exposição ao vírus HIV trabalhando em condições tão distantes das ideais?

A real adoção das medidas de Biossegurança assume uma importância vital para a melhoria da qualidade da assistência à saúde, criando um ambiente seguro, tanto para o (a) profissional, quanto para o (a) usuário (a) dos serviços de saúde. O surgimento da AIDS coloca em relevância esse fato, visto que existe uma possibilidade de contaminação profissional, mesmo que esse risco seja baixo.

O Centro de Controle de Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) editou, a partir de 1974, classificações de agentes etiológicos, com base no risco e procedimentos a serem seguidos nas instituições de saúde e laboratórios, segundo os quatro níveis, incluindo também indicações relativas à construção dos laboratórios e dos equipamentos de segurança. Para os laboratórios clínicos, outras normas foram publicadas como precauções universais na manipulação segura de sangue e fluidos corporais, bem como para o descarte de lixo hospitalar. Um outro manual sobre biossegurança em laboratório foi publicado pelo Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos (CDC, 1993).

Em 1987, o CDC publicou documento intitulado "Recomendações para prevenção de transmissão de HIV em instituições de saúde" (1987). A recomendação é que as precauções com sangue e fluido corpóreo devem ser adotadas para todos (as) os (as) pacientes, independentes da constatação ou não da infecção sangüínea. Essa extensão passou a ser chamada de "Precauções universais para sangue e fluidos corpóreos". Sob esse novo critério, sangue e fluidos corpóreos de qualquer paciente são considerados potencialmente infecciosos para o vírus HIV, da hepatite B e outros patógenos sangüíneos. Essas precauções visam evitar a exposição dos (as) trabalhadores (as) de saúde a patógenos do sangue por via parenteral, por via da membrana mucosa ou da pele não intacta. Além disso, a imunização com vacina contra a hepatite B é recomendada como um importante auxiliar nas precauções universais de trabalhadores (as) de saúde que manejam sangue (Oda et al., 1996:248)

Até setembro de 1992, o CDC registrou 32 casos de AIDS ocupacional em trabalhadores (as) do setor saúde e 69 casos de infecção com HIV, possivelmente ocupacional. Entre os casos confirmados como ocupacionais, 27 (84%) foram resultantes de exposição percutânea, 4 (13%) de exposição mucocutânea e 1 (3%) de ambos os tipos de exposição. Trinta foram expostos a sangue contaminado com HIV, um a concentrado viral de HIV e outro teve exposição percutânea a um fluido não caracterizado de paciente não identificado. Um total de 7 (22%) desses (as) trabalhadores (as) desenvolveram AIDS (Oda et al., 1996:244).

Para o caso da AIDS ocupacional, o CDC implantou nos Estados Unidos, a partir de 1991, um sistema de monitoramento que tem permitido identificar a magnitude do risco, bem como seus níveis nas diferentes atividades realizadas no setor da saúde. Este sistema tem contribuído para o aperfeiçoamento das políticas de prevenção e controle e vem subsidiando com dados concretos as ações governamentais de cunho legal e normativo (Oda et al., 1996:252).

Até junho de 1996, foram documentados pelo CDC, 52 casos de profissionais da saúde infectados pelo HIV-1, no exercício de suas atividades. Em 111 outros profissionais, a infecção ocorreu possivelmente em decorrência de sua atividade profissional, porém não foi possível determinar uma exposição específica. Em outros países do mundo, foram relatados 27 casos de profissionais com acidentes documentados e 40 possíveis outros, sem exposição comprovada (Granato,1997).

O Brasil ainda não conta com um sistema de vigilância nacional de doenças ocupacionais relacionadas a agentes de risco biológico. Em decorrência de fatores culturais, psicossociais, institucionais e do próprio Sistema de Saúde brasileiro, o número de subnotificações ainda é muito grande em nosso país.

Um levantamento da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro constatou 1310 acidentes ocupacionais entre janeiro de 1997 e o mês de agosto de 1998 (dados parciais), com risco de contaminação por HIV, hepatite B e hepatite C para profissionais que trabalham em 49 Unidades de Saúde (postos de saúde, hospitais municipais, estaduais, universitários e privados). O risco de contaminação por HIV com perfuração de agulha é de 0,3%, por hepatite B, pode chegar a 40% dependendo da concentração do vírus no corpo do paciente e, por hepatite C, varia de 4 a 10%. Dos acidentes notificados até agosto de 1998, no município do Rio de Janeiro, não houve caso confirmado de contaminação pelo vírus HIV. Entretanto, é impossível afirmar que estes não tenham ocorrido. De acordo com Rapparini (1998), no período supracitado a média de idade entre os (as) profissionais acidentados (as) era de 34 anos; a maioria dos acidentes (77,8%) ocorreu em profissionais do sexo feminino e 72% dos acidentes ocorreram entre 07:00h e 19:00h. Novecentos e cinqüenta e quatro acidentes (72,8%) ocorreram com pacientes-fonte conhecidos, sendo que destes, 213 (22,3%) eram sabidamente HIV positivos e 617 (64,7%) tinham, no momento do acidente, condição sorológica anti-HIV desconhecida. As categorias profissionais mais freqüentemente envolvidas foram: equipe de enfermagem (38, 9%), médicos (as) (19,9%) e a equipe de limpeza (15,3%). A maior parte dos (as) profissionais não era vacinada para hepatite B (37,6%), ainda que esta vacina esteja disponível nos Centros Municipais de Saúde. As causas dos acidentes foram, na sua grande maioria, de fácil prevenção, sendo 18,5% dos acidentes provocados por recapeamento de agulhas. Em quase 8% dos acidentes havia história prévia de acidentes nos últimos seis meses.

Apesar de ter promovido campanhas pontuais, desde o início de sua criação, como o vídeo de "Biossegurança" produzido junto com o Nutes/UFRJ em 1989, somente há três anos a Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis/AIDS (CNDST/AIDS) vem desenvolvendo uma campanha crescente de prevenção e assistência relativas à Biossegurança e à AIDS.

A Coordenação Nacional de DST/AIDS é subordinada ao Ministério da Saúde, e assessorada pela Comissão Nacional de AIDS, pelo Comitê Diretivo de Pesquisa e pelo Comitê Nacional de Vacinas. O princípio norteador da atuação da CNDST/AIDS tem sido o da descentralização, e a condução política privilegia o estabelecimento de parcerias que viabilizem, potencializem e dêem maior sustentabilidade às ações propostas, com uma gama imensa de entidades da sociedade civil e outros orgãos do próprio Governo. Isso faz crescer a importância das coordenações estaduais e municipais no processo, bem como distintos segmentos da sociedade civil - organizações não-governamentais que lidam com a AIDS (ONGs), universidades, empresas privadas, sindicatos, entre outros. Os principais desafios hoje colocados são a redução da incidência da AIDS nos diferentes segmentos populacionais em situação de risco e vulnerabilidade, a garantia dos direitos de cidadania e de uma melhor qualidade de vida para as pessoas que vivem com o HIV e AIDS (CNDST/AIDS, 1998).

O Brasil é um dos países mais afetados pelo HIV/AIDS em todo o mundo, situa-se entre os quatro primeiros países com maior número de casos registrados. Entretanto, ao mesmo tempo, fornece um dos melhores exemplos de uma resposta ampliada e multi-setorial à epidemia, tanto por parte do governo quanto, mais especialmente, da sociedade civil.

A AIDS de hoje não é mais a mesma de dezenove anos atrás. Cada vez mais, novos anti-retrovirais e terapias para as infecções oportunistas são pesquisadas e liberadas para uso, trazendo melhores perspectivas. Esses avanços aliados ao fato do Brasil distribuir gratuitamente anti-retrovirais na rede pública, trazem para muitos a falsa idéia de que a AIDS já se transformou em uma doença crônica e que já está controlada, idéias estas que contribuem para a banalização da doença.

Por outro lado, assistimos propostas de cortes nos orçamentos da União, os quais são reflexos não somente da crise econômica que o país enfrenta atualmente, como também da política neoliberal imposta pelo governo federal, não priorizando investimentos na área social. O corte na Saúde prenuncia o comprometimento de diversos serviços de saúde em todo o Brasil, sendo que muitos deles já se encontram extremamente ineficientes devido às instalações precárias com conseqüências diretas não só para os (as) pacientes, como também para as condições de trabalho dos (as) profissionais de saúde. As condições adversas do trabalho advindas da falta de material necessário para um bom atendimento (medicamentos, exames laboratoriais), riscos concretos de contaminação (biossegurança), excesso de trabalho, ter que atender os pacientes rapidamente, falta de recursos humanos necessários e a ameaça de privatização de alguns setores do Hospital, contribuem para aumentar a vulnerabilidade do (a) trabalhador (a) de saúde ao acidente hospitalar.

Assim, a vulnerabilidade do profissional de saúde estaria profundamente imbricada em comportamentos e vivências subjetivas relativas à organização e ao processo de trabalho hospitalar, e às condições sociais mais amplas, como o acesso a serviços e a existência de políticas públicas de Biossegurança que contemple a dimensão biopsicossocial, superando o preventivismo puramente técnico. Neste sentido, as estratégias de prevenção de alcance social, ou estrutural, são indispensáveis para o controle dos acidentes. Entre estas, destaca-se a importância fundamental da ação dos (as) trabalhadores (as) de saúde organizados para que os recursos disponíveis para o controle dos acidentes sejam justos e efetivamente implementados.

O (a) trabalhador (a) de saúde, em seu ambiente de trabalho, precisa sentir que há um profissional (ou uma equipe) ao seu lado para dar-lhe também um suporte psicossocial, defendendo seus interesses principalmente quando ele (a) mais precisar, quando estiver mais vulnerável e frágil, como no caso do acidente com material biológico.

O esforço de constituir uma resposta ampliada ao HIV/AIDS exige mais do que um reconhecimento da extensão e importância da epidemia. Requer a vontade política para implementar ações necessárias para a prevenção, assistência e apoio e, para mitigar o impacto da epidemia, bem como para estabelecer um ambiente de apoio que reduziria a vulnerabilidade da população ao HIV/AIDS.

A opção por pesquisar as dimensões psicossociais do acidente com material biológico em hospital resulta da constatação da necessidade de uma avaliação global sobre quais as forças e demandas sociais estão em jogo, que recursos técnicos estão disponíveis para avaliar e controlar os acidentes de trabalho decorrentes do processo e organização do trabalho hospitalar e quais as possibilidades concretas de serem efetuadas as mudanças.

No centro da relação de saúde-trabalho, a vivência do (a) trabalhador (a) ocupa um lugar particular. Dentro dessa concepção, gostaríamos que essa pesquisa pudesse contribuir com a Coordenação Nacional de DST/AIDS, através da inclusão da dimensão psicossocial nos Programas de Biossegurança desenvolvidos nas instituições de saúde. Acreditamos que o Programa da CNDST/AIDS possa privilegiar a experiência subjetiva dos (as) trabalhadores (as) sobre o acidente de trabalho, suas repercussões psicossociais, a percepção sobre a atividade que desenvolvem, bem como o ambiente de trabalho em geral.

Com essas preocupações, esta pesquisa teve como objetivo geral analisar as dimensões psicossociais do acidente com material biológico entre os (as) trabalhadores (as) de saúde do Hospital do Servidores do Estado do Rio de Janeiro, visando especificamente:

· Analisar a relação do Processo e Organização do Trabalho com a exposição ocupacional à material biológico pelos profissionais de saúde;

· Investigar a relação dos efeitos colaterais experimentados pelos profissionais de saúde pós-profilaxia com os fenômenos psicossomáticos;

Organizamos a dissertação em seis capítulos. No primeiro, a Dimensão Psicossocial como aporte teórico e no seguinte algumas considerações sobre a metodologia qualitativa, análise dos dados e "história" e curso da pesquisa de campo realizada. No terceiro capítulo, enfocamos a exposição a material biológico no trabalho hospitalar iniciando com um breve histórico sobre a Instituição Hospitalar e o HSE-RJ em particular. Finalizamos este tema com a visão do Programa de Biossegurança sobre os acidentes. No quarto e quinto capítulo apresentamos e discutimos os resultados obtidos na pesquisa sobre as Dimensões Psicossociais do acidente e a Experiência Subjetiva do profissional de saúde frente a este evento.

No sexto e último capítulo concluímos nossa pesquisa através de uma análise suscinta dos principais pontos abordados neste trabalho e com algumas sugestões para ampliação do campo da Biossegurança Hospitalar.

 
 
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