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Teixeira, Eliane Tavarez Natividade . Adiamento da maternidade: do sonho à maternagem. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 77 p.

 

CAPÍTULO IV

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Inicialmente gostaríamos de ressaltar que este estudo reforçou algumas de nossas hipóteses, quanto aos possíveis nexos entre o processo de destradicionalização social e o surgimento de um novo ethos da maternidade.

Parece-nos pertinente pensar que o processo de modernização, e as conseqüentes mudanças sociais, intensificaram o desenvolvimento da reflexividade e a própria destradicionalização da ordem social, e influenciaram a vida cotidiana. As mudanças mais significativas - referem-se à reestruturação dos valores, dos costumes.

Com o questionamento dos padrões preestabelecidos, as transformações das experiências cotidianas, das relações afetivas e familiares se tornaram possíveis. A substituição progressiva das relações tradicionais entre os sexos, por uma sexualidade plástica e um modelo de relacionamento afetivo conjugal mais fluente guarda estreita relação com a expansão do processo de destradicionalização social. Na medida em que os próprios relacionamentos amorosos assumem um novo perfil - mais democrático, com papéis e funções sociais menos rígidos - imprimem suas marcas também na experiência da maternidade. Se no passado o exercício da sexualidade feminina e de ser mãe se baseavam nas estritas normas da homogamia, hoje um crescente número de mulheres escolhem não ter filhos, ou adiar a maternidade para o momento que julgam mais adequado, independente da idade.

Nessa perspectiva, o processo de "revisão de valores" deslocou a centralidade do papel materno, no sentido de integrá-lo a outros investimentos. Pode-se dizer que, em grande parte as transformações nos valores familiares acompanham a incorporação da mulher ao sistema produtivo, o crescente peso da escolarização e a dissociação entre o exercício da sexualidade e reprodução.

Cabe acrescentar que essas mudanças presentes e marcantes na família brasileira - ampliaram a autonomia feminina, não obstante tenham levado a um "acúmulo de funções", pois as mulheres passaram a dividir com o homem o sustento da casa e a exercer as "novas funções maternas".

Conforme vimos, cada vez um número maior de mulheres brasileiras vem escolhendo exercer alguma atividade profissional - independente do nível de escolaridade. Constatamos através da pesquisa, que justamente por ter possibilitado a autonomia feminina, o trabalho tende a ser muito valorizado pelas mulheres. Ainda que não possamos "generalizar" os resultados da pesquisa, sublinhamos que todo o grupo apresentou uma visão positiva de sua atividade profissional. Boa parte das mulheres entrevistadas referiram-se ao trabalho como fonte de realização pessoal ou como parte dos projetos de vida - não obstante algumas terem começado a trabalhar muito cedo em decorrência de necessidades econômicas.

Constatamos constituir-se a autonomia financeira no principal objetivo de todas as mulheres entrevistadas, ainda que não se possa ignorar a necessidade de contribuir para o sustento da família. Como vimos, as mulheres brasileiras passaram a dividir com os homens a responsabilidade pela manutenção da família, em especial, nas camadas médias e populares.

Acrescentamos que para algumas mulheres o trabalho pode ser considerado como "um dos aspectos definidores da identidade feminina", já que tem contribuído para a redefinição do papel da mulher frente à família e a própria sociedade. Sob nosso ponto de vista, a novidade reside no fato de que a busca da felicidade e da auto-realização não se restringe mais ao binômio casamento-maternidade, mas inclui o desejo de investir na profissão, mesmo se desacompanhado de um investimento no capital escolar - principalmente entre as classes populares.

É oportuno lembrar que em todas as áreas da vida pessoal, é acentuado o processo de destradicionalização. O amor, o casamento, a constituição da família e a maternidade antes vivenciados segundo os moldes preestabelecidos, passaram a conviver com outros projetos individuais, criando assim, novas demandas e novas ansiedades. Partindo dessas mudanças no "estilo de vida", parece-nos ser hoje perfeitamente normal a mulher não desejar ser mãe. E embora o "ser mãe" não figure mais como o único objetivo das mulheres, a maternidade continua tendo um peso considerável no imaginário social. Cabe sublinhar que as transformações na cultura reprodutiva contribuíram no sentido de reduzir o "peso" dessa experiência, antes quase obrigatória.

Se o desejo de ter filhos não pode ser considerado propriamente uma novidade, o ideal de "ser mãe por opção" implica numa ruptura com as aspirações fundadas em ideais arcaicos - de dedicação materna exclusiva e obrigação da maternidade. É a singularidade frente a esse desejo que legitima a reedição do exercício da função materna, hoje harmonizado com as mudanças nos papéis femininos. Contudo, se a definição do papel materno vem mudando, esta mudança não se dá sem restrições. Algumas mulheres percebem a convivência dos novos papéis - o de mãe e o de mulher trabalhadora -de maneira ambígua, em virtude do que consideram ser "deveres maternais" - maior dedicação à família e aos filhos, em detrimento das atividades fora do lar, mesmo se provisoriamente.

As transformações socioculturais imprimem suas marcas no desejo de ser mãe, em especial, após os trinta e cinco anos. Por outro lado, todos os processos que envolvem a reprodução humana continuam sendo alvo da regulação médica. Assim, as gestações acima de trinta e cinco anos ainda são consideradas "tardias". Com seu discurso terapêutico, o perito define o "normal" e o "anormal" nos comportamentos reprodutivos, define como e quando se deve ter filhos. Embora o objetivo da intervenção médica seja a prevenção dos "possíveis riscos", nem sempre esse objetivo suplanta a tendência normatizante da medicina. Conforme vimos, através dos índices de mortalidade materna, a medicalização do processo reprodutivo não garante à mulher o direito à saúde, mesmo quando a gravidez cabe na visão de risco.

As gestações após os trinta e cinco anos continuam sendo consideradas de alto risco. Entretanto, essas gestações podem ser vivenciadas com menos angústias e ansiedades, na medida em que se desmistifiquem para as mulheres, a gravidez, o parto e o puerpério, e lhes ofereça uma assistência digna.

Cada vez um número maior de mulheres vem adiando a maternidade, pois hoje é comum decidir sobre o ter filhos. Decisão na qual pesam a situação social e econômica, a maturidade e a criação de relações afetivas mais estáveis. Por outro lado, a idealização das novas funções femininas e das relações amorosas gera de expectativas mais intensas e contribui para que algumas mulheres julguem necessário adiar a realização do desejo de ser mãe para um momento ideal.

Se as mudanças aceleradas nos contextos familiares e nos papéis sociais exigem transformações no plano da subjetividade e das identidades pessoais, a idade e o critério de risco, não devem ser barreiras para o investimento em novos projetos de vida.

Acreditamos que o acesso à assistência à saúde carece ser ampliado de forma a atender as demandas femininas, e possibilitar a vivência da gravidez após os trinta e cinco anos em sua plenitude.

 
 
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