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Vasconcelos, Ana Sílvia Furtado. A saúde sob custódia: um estudo sobre agentes de segurança penitenciária no Rio de Janeiro. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 66 p.

Capítulo II

Agente de Segurança Penitenciária - ASP: Uma opção?

Através dos dados coletados nas entrevistas com os Agentes de Segurança Penitenciária, percebemos que determinados temas têm maior relevância que outros, o que nos permite uma melhor aproximação sobre as implicações da atividade na saúde desse trabalhador. Levamos em conta que a vida cotidiana deles estaria condicionada por exigências impostas pela administração prisional, por dificuldades em conciliar vida no trabalho e vida fora do trabalho, assim como pela falta de perspectiva de ascensão aliada à desvalorização profissional. Todas essas questões têm o agravante de serem permeadas pelo fenômeno da violência, pano de fundo de toda atividade ligada à segurança nas prisões.

Como primeira indagação, nos perguntamos o que motivaria essas pessoas a tornarem-se ASPs, ou como os meios de comunicação, pejorativamente, preferem denominar, por que tornarem-se carcereiros?

Dejours et al. (1994), quando se referem ao conceito de "motivação", no livro "Psicologia do Trabalho", analisam vários autores e concluem que, "de qualquer forma, a Motivação como causa ou como origem dos comportamentos, permanece sem explicação...", uma vez que é preciso conduzir "inevitalmente à questão da fonte da motivação" . (Dejours et al. 1994:35-36).

Com o desenvolvimento da pesquisa fomos entendendo que o ingresso nesse trabalho obedece a fontes de motivação de natureza diversa. Razões de cunho pessoal, como por exemplo, aptidão, vontade de seguir a carreira policial, ou aquelas que derivam de circunstâncias externas: falta de opção, desemprego, facilidade em conseguir um emprego estável.

Nota-se que pelas crescentes dificuldades que o país vem passando há alguns anos, a procura por empregos mais seguros e sem grandes exigências admissionais acabou por alterar o perfil dos candidatos a função de ASP.

Ao contrário dos anteriores, nos últimos concursos, vários candidatos estavam cursando a faculdade ou já eram formados, demonstrando o interesse de pessoas mais qualificadas em ingressar na função, motivadas talvez, pela falta de opção do mercado de trabalho, fato raro de ser observado nas turmas mais antigas, onde o candidato só tinha o primeiro grau e, mais tarde, por exigência do edital, passou a ser exigido o 2º grau completo.

Não queremos, no entanto, radicalizar a compreensão acerca dessa mudança, como se a motivação dos mais antigos se desse por um desejo em seguir a carreira, e os mais novos, forçados por outras dificuldades, acabavam por ingressar na função. Assim como não devemos desconsiderá-la, uma vez que as alterações no perfil da demanda se fizeram presentes na maioria das entrevistas.

É ilustrativo o depoimento de um ASP, que hoje desempenha a função de sub-diretor em um presídio de segurança máxima, a respeito dessa alteração que, sem dúvida, vem modificando sobremaneira a composição dos quadros atuais do Desipe:

"Hoje a maioria que vem é o pessoal formado, o nível intelectual melhorou, mas em termos de trabalho, de abrir e fechar cadeado, eu posso dizer com garantia que caiu muito. Porque o cara vem pra cá numa de tentar uma escada prá ele, é um trampolim. Vem muitos com essa idéia. Tem bons funcionários novos aí, mas eu posso te afirmar que 40% é problema, faltam muito. Ele é formado em Direito, Psicólogo, Assistente Social. Hoje a gente sabe que o campo de trabalho está difícil. Vêm muitos com a idéia de "desvio de função". Quando chegam pra abrir e fechar cadeado, eles querem é uma jurídica, uma social, uma outra área onde já são formados" (ASP – subdiretor).

A expressão "abrir e fechar cadeado" sintetiza, na visão de alguns guardas, a essência do que vem a ser o cotidiano do trabalho. Nada e nenhuma exigência além disso, demarcam o valor do trabalho pela sua simplicidade, ou melhor, pela sua desqualificação. Percebe-se nessa fala uma tendência a achar que os guardas mais antigos se dedicavam mais à tarefa, demonstrando aptidão, ao mesmo tempo que justifica a frustração daqueles que já se formaram ou estão cursando uma faculdade, levando-os a almejar outras funções dentro dos quadros do Desipe que lhes retirem dessa rotina de custodiar homens presos.

"Eu acho que antes, a pessoa quando fazia concurso pro Desipe ou mesmo pra polícia civíl, existia um amor maior, a pessoa queria mesmo ingressar nesse lado policial, era uma vocação. Hoje em dia já não acontece isso" (ASP – chefe de turma).

Observa-se, com grande relevância, que a consciência das dificuldades sociais, sobretudo aquelas pelas quais suas famílias passam, aparece como estímulo para que a maioria dos agentes tenha optado por fazer o concurso, como garantia de um trabalho que lhes dê o mínimo de segurança. Ou seja, quando indagamos sobre o porquê de tornar-se um ASP, há que se levar em conta uma diferenciação de propostas, não sendo possível estabelecer generalizações a esse aspecto. Mesmo aparecendo diversas críticas à impossibilidade de ascensão da categoria, sentimentos contraditórios são observados, reforçados muitas vezes pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Essa dificuldade, conduz em alguns a necessidade de exercerem uma atividade alheia à sua formação.

"O que eu queria é que a outra coisa que eu faço, ser engenheiro, tivesse um salário condizente, que eu não tivesse que trabalhar aqui. Eu vim por questões financeiras. Porque a minha loja fechou, não tava pintando mais obra nenhuma, poucas obras, tinha que dar atenção a minha filha, planos de saúde e tal, e ai eu vim porque o salário é razoável, nível médio, é razoável o salário, é o Estado, tem a segurança de você ter estabilidade, mas nunca sonhei em ser um agente penitenciário. Sonhei ser engenheiro e fiz a faculdade, mas infelizmente a engenharia me paga o que eu ganho aqui basicamente. Pros encargos sociais que eu tenho, a família atual, a ex-mulher que eu ajudo também, os filhos. Se eu ganhasse um salário bem melhor lá, aqui eu apagaria direto, nem viria aqui, mas infelizmente a realidade é outra " (ASP – inspetor).

Esse contato forçado com uma atividade estranha ao desejo e aceita unicamente como meio de sobrevivência "condensa de alguma maneira os sentimentos de ïndignidade, de inutilidade e de desqualificação, ampliando-os...Desqualificação cujo sentido não se esgota nos índices e nos salários. Trata-se mais da imagem de si que repercute no trabalho, tanto mais honroso se a tarefa é complexa, tanto mais admirada pelos outros se ela exige um know-how, responsabilidade e riscos." (Dejours, 1992:51).

Alguns entrevistados, por outro lado, demonstram o lado vocacional da escolha. Revelam aptidão para a função de agente, expressando por meio do verbo "sonhar" a indicação de uma conquista.

" Sempre tive vontade de trabalhar pro Desipe ou prá polícia, isso aí já vem de mim. Desde a infância eu já tinha aquele sonho. Eu quero dizer o seguinte: era vocação mesmo" (ASP – portaria).

" Eu me orgulho em dizer que sou um ASP, eu fui cabo da aeronáutica por 3 anos e meio e não me arrependo nem um pouco de ter saído. Sempre exerci minha função com a maior dedicação. Não tenho nenhuma vergonha em me orgulhar da minha função. Agora a gente sabe que a sociedade cobra muito do ASP. Eu acho que o governo deveria valorizar mais, acho que nós somos um pouco esquecidos. Não existe uma valorização até maior que a polícia civíl ou a PM, porque prender é fácil, agora tomar conta dessas pessoas aqui dentro é que é difícil" (ASP – sud-diretor).

A fala do ASP, ao mesmo tempo que descreve um sentimento positivo pelo trabalho, demonstrando orgulho e aptidão, revela um ressentimento pela falta de valorização da atividade. Nesse ponto Dejours (1999) chama a atenção para o sofrimento proveniente da falta de percepção do valor do trabalho, em meio à indiferença geral, como algo muito perigoso à saúde mental do indivíduo.

"Do reconhecimento depende na verdade o sentido do sofrimento. Quando a qualidade do meu trabalho é reconhecida, também meus esforços, minhas angústias, minhas dúvidas, minhas decepções, meus desânimos adquirem sentido. Todo esse sofrimento, portanto, não foi em vão; não somente prestou uma contribuição à organização do trabalho, mas também fez de mim, em compensação, um sujeito diferente daquele que eu era antes do reconhecimento. O reconhecimento do trabalho, ou mesmo da obra, pode depois ser reconduzido pelo sujeito ao plano da sua construção da identidade. E isso se traduz afetivamente por um sentimento de alívio, de prazer, às vezes de leveza d‘alma ou até de elevação. O trabalho se inscreve então na dinâmica de realização do ego. A identidade constitui a armadura da saúde mental". (Dejours, 1999:34).

O autor, ao analisar a "psicodinâmica do reconhecimento", confere um papel fundamental que esta desempenha no destino do sofrimento no trabalho e na possibilidade de haver uma transformação do sofrimento em prazer. Trabalhar sem ser valorizado faz com que o indivúduo reduza a atividade apenas ao sofrimento advindo dela.

Independente das razões alegadas para a procura, sejam motivadas por aptidão para o cargo ou por necessidades outras, fica evidente que as turmas de agentes aprovados nos últimos concursos receberam melhor orientação por parte da instituição, através da Escola de Formação, ao contrário das turmas que entraram até o início da década de 1990.

"Quando eu fiz o concurso pra cá, em 78, nós ficamos uma semana lá na FESP, o próprio diretor da unidade na época foi um dos que deu o curso, explicando como é que era o serviço na cadeia. Aquela teoria que no fundo só fica na teoria, na prática o pessoal vê que não é nada disso" (ASP – portaria).

"A gente entra na Escola Penitenciária e tem quase 2 meses de curso. Bem ou mal é uma ambientação com as unidades. Eu não sabia de nada. Nem imaginava como seria o presídio. Nessas aulas você tem uma noção do que é que é realmente. De 0 a 10, nota 5. A gente passa a conhecer a unidade e tem noção das coisas básicas. Foi proveitoso. No espaço de pouco tempo foi proveitoso" (ASP – galeria).

Este também é um fator a ser realçado e bastante comentado pelos guardas como marco divisório entre turmas antigas e novas. As carências, no entanto, continuam. Se antes não tinham nenhuma orientação, hoje sentem falta de uma maior aproximação com o dia-a-dia das cadeias. Queixam-se da falta de preparo e aprimoramento dos agentes estagiários, que são novos no sistema e têm pouca noção do que seja trabalhar em uma unidade prisional.

"A escola ensinou pro guarda como é sobreviver bem, como se precaver de qualquer problema de integridade física nas unidades. Ensinou a revistar, descobrir armas. É mais a questão deles entrarem armados, porque ai vai botar o guarda em perigo. A questão da arma, da droga, estoque e tal. Nessa questão foi bom porque o guarda já não entra tão cru, os macetes que eles têm, de guardar a droga, como camuflar uma arma, isso eles mostraram, mas a questão de enfrentar um problema maior, ou mesmo da convivência melhor com o preso, isso eles não ensinaram" (ASP – revista).

Conforme relatamos no capítulo anterior, as aulas privilegiam questões ligadas à segurança e disciplina, carecendo de uma preparação mais condizente com a realidade que irão enfrentar na prática. Os guardas não têm um período de observação do movimento de uma cadeia, da relação com os presos, dos postos em que irão trabalhar, sabendo das tarefas rotineiras apenas quando já estão prestando serviço na unidade. O aprendizado se faz por meio dos ensinamentos e observações dos guardas mais antigos.

Uma funcionária da Escola nos relatou que a maioria fica ansiosa porque ainda não conhece o Desipe na prática, já que as aulas teóricas não mostram a vivência do cotidiano. E ficam perguntando: Será que vai acontecer alguma coisa comigo? Será que alguém vai tentar me corromper? Existem situações em que os agentes se envolvem e não sabem como agir.

"Eu tive uma decepção muito grande. Pensei até em sair. Quando cheguei na unidade prisional me deram uniforme, eu tinha que pegar no serviço 8 horas da manhã. Quando foi 7:15 eu fiquei que nem um zé mané esperando, achando que a turma toda ia se reunir ali, não via ninguém se formando, tô igual a um bobão ali. Depois chega um chefe de turma antigão e falou assim: - Como é que é seu arrombado, você não vai pro seu posto não? A decepção que eu tive foi um choque. – Vai lá pro pavilhão D que tão te esperando prá fazer a rendição. Eu não sabia onde era o pavilhão D, não sabia nada. Quer dizer, essa foi a primeira impressão que eu tive do Desipe, uma total desorganização" (ASP – inspetor).

Essa carência na preparação dos agentes em termos de atividade prática, os leva a complementar o aprendizado por meio da observação e da imitação dos que já trabalham há mais tempo.

"O aprendizado é no dia-a-dia. Alguns colegas que são mais antigos, dando uns toques, dando uma visão deles, como é que tem que ser. Mas é no dia-a-dia que você percebe como é o sistema. Aprendizado diário. Você não tem aprendizado formal. Você sai da escola e começa a imitar o que os colegas fazem. Você começa a copiar, porque são coisas básicas que tem o trabalho do agente. Basicamente é acompanhar o preso de um lugar para o outro. Nós somos o intermediário entre os internos e o resto das atividades" (ASP – chefe de turma).

Apesar de todas essas dificuldades, o pouco preparo, que lhes é passado pela escola, significa, como já falamos, um avanço em relação a turmas anteriores. O que antes era visto em uma semana, hoje se estende a no mínimo dois meses, com uma melhora no conteúdo programático, mais voltado para as exigências da atividade. As turmas anteriores à década de 90 participavam apenas de algumas palestras e logo eram "jogados" nas cadeias.

A questão da valorização profissional constitui uma das grandes frustrações dos agentes, devido à ausência de um Plano de Cargos e Salários – PCS, que lhes permita uma mudança qualitativa por meio de promoções asseguradas legalmente. Hoje, no Desipe, o agente consegue, com o passar dos anos, apenas uma mudança de classe, de 5 em 5 anos, a contar da sua admissão ao cargo. A passagem da classe A para a classe B e depois para a classe C, não significa, no entanto, ascensão na carreira, tornando improvável um progresso, uma vez que ele continua sendo ASP.

"Não tem horizontes. O guarda vai entrar guarda e vai morrer guarda. Por quê? Ele é chefe de alguma coisa mas, de repente, vem outro diretor, vai tirar e você vai ser de novo agente penitenciário" (ASP – galeria).

Em todas as reivindicações da categoria, junto ao Sindicato dos Servidores da Secretaria de Justiça, é destacado, como prioridade, a criação de um PCS, prometido por vários governos em nível estadual mas nunca posto em prática.

"Em primeiro lugar o Plano de Cargos e Salários. Os cargos que existem já são preenchidos. A Direção gosta de você e vai te indicar. Não por mérito, não que os que estejam lá não tenham méritos, mas de repente, não tem critérios, parâmetros pra você ascender. Não há investimento no guarda, pra ele fazer cursos, não existem cursos e quando existem são camuflados. O Diretor não colocou aberto num mural, ele só botou as pessoas que eram dele. Não há PCS, não há critérios para você ascender, não há profissões. Tem o que? Chefia e sub-chefia, que gera apenas uma pequena gratificação de 50 reais para o chefe" (ASP – chefe de turma).

Essas expressões subentendem a falta de estímulo, revelando sentimentos de frustração e desesperança diante da impossibilidade de alcançarem patamares mais qualificados. As chefias, únicas oportunidades de melhoria da categoria, são ocasionais e temporárias, seguindo critérios de amizade, e, portanto, ficando à mercê da "dança de cadeiras", muito comum no sistema penitenciário. É usual ouvirmos comentários como: "fulano caiu" . Aquele que era, por exemplo, chefe de disciplina deixa de ser por motivos operacionais ou por desavenças com algum superior.

Em decorrência desse fato, o "desvio de função" tornou-se prática habitual. Agentes penitenciários podem trabalhar, na seção jurídica, atendendo aos presos na condição de advogado, ou ASPs femininas desenvolvem tarefas de assistentes sociais, psicólogas, enfermeiras, também desviadas de função. Isso acaba por ocasionar um desfalque nas turmas de agentes, sendo uma reivindicação constante das autoridades penitenciárias a abertura de novos concursos, para preenchimento do quadro de pessoal tanto para guardas quanto para o nível técnico. Alem disso, os que são desviados de função vivem uma tensão constante, com medo de perderem os seus cargos e voltarem a trabalhar na turma. Um ASP trabalhando como advogado na seção jurídica de alguma unidade que tenha problemas com a direção ou haja simplesmente a troca do Diretor não tem nenhuma segurança em permanecer no cargo, podendo voltar a qualquer hora para a turma de guardas.

A inexistência de melhores horizontes profissionais é compensada, no entanto, pelo salário que, embora não seja satisfatório, é apontado como razoável, sendo considerado um dos melhores dentro da carreira policial. Outro fator assinalado como vantagem é a escala de serviço, permitindo trabalharem 24 horas e folgarem 72 . Isso proporciona aos agentes exercerem outras atividades nos dias de folga, os chamados "bicos", complementando a renda familiar. Muitas vezes o funcionário é solicitado a trabalhar em serviços administrativos na unidade prisional mas não aceita pelo fato de ter de cumprir expediente normal, o que impede a realização de trabalhos extras para aumentar a receita doméstica.

"Sempre trabalhei em serviço paralelo. Assim que eu entrei aqui no Desipe eu consegui uma vaga na Souza Cruz, como segurança, onde fiquei três anos. Pela necessidade. Se você quiser dar um conforto melhor a sua família, você tem que trabalhar. Se você pensa em ter um carrinho, se quiser melhorar a tua casa, fazer um quarto pro teu filho, tem que ter serviço paralelo e essa é uma das coisas boas do Desipe, a questão da escala, é um grande atrativo" (ASP – subdiretor).

No que concerne à jornada de trabalho, observamos que horas seguidas no plantão levam as turmas a se dividirem, ficando alguns acordados enquanto os outros descansam. Porém, o fato de permanecerem na unidade, em seus alojamentos, é realçado como apenas uma "tentativa de descanso", uma vez que a qualquer momento podem ser despertados em sobressalto, durante a noite, por motivos de brigas, tentativas de fugas, gritarias, ou seja, qualquer alteração na rotina da unidade.

"O guarda não é como alguém que tem uma atividade no escritório. Primeiro a questão do plantão. Você fica 24 horas mas você não dorme. Você vai apenas relaxar. Essa tensão nos acompanha diariamente, sempre tem a questão de pintar alguma coisa, faz parte da tua resistência no trabalho, muda as tuas horas de sono" (ASP – galeria).

Nesse sentido, é importante ressaltar a carga de trabalho imposta àquele que tem outra atividade. Depois de cumprir o seu plantão na unidade prisional, ele sai, às sete da manhã, diretamente para o bico, voltando para casa apenas na noite seguinte, sem ter tido horas de repouso satisfatórias, ocasionando, na maioria das vezes, um desgaste tanto físico quanto mental.

Dejours (1994) confere à carga mental, duas ordens de fenômenos: os neurofisiológicos e psicofisiológicos e os de ordem psicológica, psicossociológica ou mesmo sociológica, propondo a separação das duas e reservando um referencial específico à segunda, ligada ao prazer, à satisfação, à frustração, à agressividade, denominando-a "carga psíquica do trabalho". Esta não seria possível quantificarmos, uma vez que se refere aos elementos afetivos e relacionais, ou seja, vivências que são em primeiro lugar e antes de tudo qualitativas.

A atividade do ASP faz com que não seja possível relaxar mesmo nas horas de descanso no plantão, aliando sentimentos desconfortáveis de desprazer e insatisfação com agressividade constante, risco e coragem permanentes.

Entretanto, vale mencionar que, contraditoriamente ao que foi exposto acima, em alguns relatos, os agentes informaram ter uma rotina normal de trabalho apenas como ASP do Desipe, destacando que o desgaste advindo de outra atividade não é compensado em termos de ganhos, somando-se ainda uma constante exposição ao risco. "Já fiz muita segurança, bico. Atualmente o que eles pagam não vale a pena. A gente se mata pra ganhar trezentos reais, se sacrifica, sem ter nenhuma segurança porque essas firmas não te asseguram nada" (ASP – portaria).

Como se pode constatar nas reflexões anteriores, o trabalho do agente é permeado por contradições. Ao mesmo tempo que a escala de trabalho se destaca como atrativo em termos de ganhos monetários, ao propiciar a chance de ter outra fonte de renda, a relação custo / benefício desse ganho contabiliza perdas valiosas na qualidade de vida do ASP. O salário é apontado como razoável, mas a necessidade de realizar um trabalho extra demonstra ser insuficiente e traz como contrapartida muitas queixas dessa sobrecarga.

Quanto ao trabalho prescrito para os agentes, convém observar que na turma de guardas nem todos fazem as mesmas tarefas, variando de acordo com o posto para o qual está designado. Isso faz com que alguns guardas, durante o plantão, sejam mais exigidos que outros. Postos como as galerias, onde o contato direto com os presos é constante, ou os responsáveis pela revista, tanto de visitas quanto das dependências da unidade, são considerados os piores. Em outros postos, no entanto, como portaria e pátios de visita, não percebemos maiores queixas quanto à carga de trabalho. Essas diferenças podem ser observadas nos depoimentos a seguir, contrastando as exigências impostas aos que estão trabalhando no setor da revista com os que trabalham na portaria da unidade.

"O pior serviço que tem dentro da unidade é a chamada revista. Eu já fiz várias revistas, já tive o desprazer de entrar dentro de túnel. Mas sempre tive a preocupação de me precaver, tomar banho sempre, tomar leite. Hoje o nosso maior problema é o mental mesmo, é o estresse. Porque lidar com o preso não é fácil, tentar acertar, ser maleável" (ASP – galeria).

"No meu caso, trabalhando na portaria, não tenho como ficar muito estressado, não tenho contato com o preso. Isso realmente deixa o cara no dia-a-dia..., todo serviço aquela mesma ladainha, mesma reclamação, o mesmo tipo de problema. Na portaria o máximo que eu me aproximo mais do preso é da visita dele. Isso não deixa ninguém estressado" (ASP – portaria).

Embora haja distinção, os postos de trabalho são de certa maneira dependentes entre si. Se o guarda de determinada galeria detecta alguma alteração na rotina da cadeia, ele vai precisar contar com aqueles responsáveis pelas outras galerias e também os dos pátios internos, portaria, etc.

Por essa razão, o trabalho em equipe é muito valorizado. "O que eu mais gosto aqui, pelo menos na minha turma, é o companheirismo, o coleguismo, eu sinto falta" (ASP – portaria).

Em todas as falas foram observadas, com destaque, situações que privilegiam o companheirismo e a ajuda mútua. Não é de se admirar, dado que todas as exigências e carências da instituição terminam por eleger o trabalho de equipe como única alternativa viável diante da gritante desproporção numérica entre guardas e presos.

Com isso, as relações de amizade e confiança terminam por se fortalecer, extrapolando os limites da prisão. Observarmos que colegas de trabalho compartilham suas horas de lazer com as famílias e amigos. Embora haja várias coincidências, as práticas de lazer são diferenciadas. Atividades como a pescaria, praticar esportes, visitar parentes, casas de amigos, são apontadas como as preferidas pela maioria.

Em relação ao convívio familiar nos foi descrito um cotidiano que, em alguma medida, reflete o usual dos relacionamentos humanos. Quando se referem à família, apresentam situações comuns de diálogo, conflitos, expressões de carinho e afeto, discussões e brigas, apesar de ressaltarem que não há interferência do trabalho nas relações existentes.

Nesse ponto, é interessante salientar, que quando nos revelam algum problema doméstico decorrente do trabalho, este aparece em famílias de outros colegas, mas não nas suas, revelando a dificuldade em perceberem as alterações sofridas nas próprias vidas.

Em uma das entrevistas, o guarda chama a atenção para o perigo representado pela facilidade de assimilação da "sub-cultura" do preso. Expressões usuais dos internos, passam a fazer parte do vocabulário dos guardas, ultrapassando os limites da cadeia e interferindo na relação familiar.

"Já tivemos o desprazer de saber de companheiros que chegam em casa e levam a agressividade na maneira de falar com os filhos. Tem que saber diferençar, senão vai mandar tua mulher baixar a saia" (ASP – sub-diretor).

"Isso é engraçado. Na minha casa tem até uma brincadeira, porque a gente tem uma mania aqui dentro de dizer: - Quem sabe sou eu que sou o guarda! Lá em casa às vezes a minha esposa diz, brincando: Quem sabe sou eu que sou a esposa do guarda!" (ASP – diretor).

As relações sociais e familiares dos ASPs estão fortemente perspassadas pelas dificuldades inerentes à atividade que exercem no dia-dia. "Você há de convir que não estamos lidando com qualquer pessoa, estamos lidando com assaltantes, homicidas, estrupadores, sequestradores. Você fica 24 horas com aquela pessoa ali" (ASP – galeria). Medo, anseio, insegurança, agressividade estão sempre presentes nas relações que esses trabalhadores mantêm no âmbito doméstico, indicando uma falta de repouso do papel de agente, que invade a casa e o mundo, o dentro e o fora, o antes e o depois do trabalho.

Cabe destacar aqui que fatos dessa natureza adquirem preponderância no nosso estudo, uma vez que ficou evidenciada uma contaminação involuntária, decorrente das exigências do trabalho, em todas as dimensões da vida desse trabalhador. "O tempo fora do trabalho não seria nem livre nem virgem, e os estereótipos comportamentais não seriam testemunhas apenas de alguns resíduos anedóticos. Ao contrário, tempo de trabalho e tempo fora do trabalho formariam uma continuum dificilmente dissociável" (Dejours,1992:46).

Nesse sentido, a permanência em âmbito doméstico de atitudes ligadas ao trabalho, não representaria somente uma contaminação, mas também uma estratégia que não permita fugir dos estereótipos, prejudicando o condicionamento produtivo arduamente adquirido no trabalho.

Uma das saídas possíveis apontada para enfrentar essa problemática refere-se à questão religiosa, a partir do momento que a moral cristã sirva de esteio, determinando atitudes e comportamentos de uma vida mais saudável.

"Do jeito que nós somos jogados aqui dentro do sistema, só uma estrutura familiar ou religiosa para impedir um desvio de conduta. O cara que já vem com isso de casa vai se sair bem, não vai confundir as coisas" (ASP – galeria).

Quando anseiam por uma "vida normal", fora do trabalho nas prisões, principalmente nas suas relações familiares, estão indicando as dificuldades que enfrentam para conseguirem um ponto de equilíbrio em seus papéis sociais.

Perguntados sobre a possibilidade de seus filhos ingressarem no sistema penal, a maioria não se oporia, embora alguns demonstrem vontade de que eles seguissem outras carreiras. Nesse ponto, mais uma vez percebemos como as respostas refletem uma ambiguidade em relação ao valor atribuído à atividade. Ao mesmo tempo que respondem gostar do que fazem, almejam para os seus filhos algo melhor.

" Se eu pudesse, orientava pra eles fazerem outra coisa, a gente não sabe o nosso destino, eu não tenho nada contra, até gosto, mas lutaria pra não deixar, nem pra cá nem pra outro tipo de polícia, realmente é uma àrea muito suja, é brabo " (ASP – chefe de turma).

"Eu não interferia não, apenas ia passar pra eles a responsabilidade, que não é fácil. Precisa coragem, porque a pessoa que trabalha aqui no dia-a-dia não é fácil. Não é o que eles pensam de regalia. O que se passa numa cadeia, dificuldades de uma coisa e outra, presos se rebelando contra o funcionário, o funcionário tem que amenizar dentro do possível para que não haja uma rebelião" (ASP – pátio de visita).

Como fator complicador, temos o local de moradia, onde se pode observar que o maior percentual de agentes reside em bairros populares, e pertence aos estratos mais pobres da população, convivendo, muitas vezes, nos períodos da infância e adolescência, com os seus atuais custodiados, ou seja, os presos. Por esse motivo, muitos evitam frequentar bailes e pagodes, principalmente nas suas áreas de moradia, com receio de enfrentamentos com ex-internos.

"Já fiz trabalhos sociais em favela, morei em favela até os meus treze anos, minha infância foi em favela. Eu sei o que é realmente uma favela. Antigamente não tinha essa agressividade que tem hoje, tinha violência mas as pessoas que tinham a questão da criminalidade eram bastante discretas e as pessoas que não eram dali eram respeitadas, não fumava maconha nem drogas perto das pessoas, de crianças, mulheres" (ASP – chefe de turma).

"Evito por exemplo ir pra pagodes, locais que eu sou sabedor que são frequentados por certos tipos de pessoas, que além de não condizer comigo, não gosto de ter amizade com eles, acho que ninguém deve ter, não é?" (ASP – galeria).

Em decorrência desse conflito, os agentes se sentem ameaçados mesmo fora dos limites da cadeia. Receiam serem interpelados por ex-detentos na rua e sofrerem algum tipo de vingança. Isso quer dizer que as estratégias usadas dentro dos muros de uma cadeia não se resumem apenas ao mundo do trabalho. É preciso manter-se sempre alerta, nas horas de lazer, com a família, com os amigos. O medo de sofrer alguma agressão, de ser morto, persiste em todas as instâncias da sua vida. "Você lida com o preso. Não sabe quem é ele. Não sabe o que ele vai fazer quando sair lá fora. No dia-a-dia você nunca está sozinho. Está sempre ligado a esse fato." (ASP – galeria).

O medo invade todos os lugares. A ameaça está sempre à espreita, não de um ou outro preso mas do conjunto deles, uma vez que o guarda é conhecido por todos dentro de uma cadeia, não conseguindo distinguir com exatidão quem um dia esteve sob sua custódia. "Por mais que o camarada trabalhe direito, pega um malandro que tá com raiva, aqui dentro ele só tá te vendo, tu nunca encostou um dedo nele, mas se chegar na rua e ele tiver doidão, tiver com dois, três, quatro e te reconhecer, com certeza sei que vão fazer uma covardia, de graça, só pra dizer: - Aquele nunca me encostou a mão não, mas os outros encostaram. Então aquele vai pagar o pato. Ai eu não vou dar mole, né? Eu não vou subir um morro, por exemplo. É humanamente impossível o funcionário reconhecer todos os presos, mas com certeza todos eles te conhecem" (ASP – galeria).

É corrente na fala dos ASPs a vida dupla que levam em consequência do trabalho. Ao sairem da cadeia, não querem ser reconhecidos como guardas, evitando, como já falamos, lugares considerados suspeitos. Com tudo isso, sofrem também uma pena, que lhes é imposta pela própria natureza do trabalho. Sentem-se enredados nesse mundo marcado pela violência que perspassa sutilmente todas as suas relações.

 
 
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