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Vianna, Eliane Chaves. A migração em um novo contexto sócio-cultural: o provisório permanente. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1998. 104 p.


COMENTÁRIOS FINAIS

 

Concluindo a Garimpagem

O tema migração com suas várias opções e sentidos, foi pensado enquanto objeto de estudo, como fenômeno enriquecedor e às vezes necessário para o crescimento e desenvolvimento humanos, por propiciar ao indivíduo o deslocamento, seja geográfico e/ou psíquico exigido por sua sede de conquistas, transformações e mudanças. Assim, criou-se a metáfora do "provisório-permanente" para contextualizar o processo migrante, e baseado segundo a literatura pesquisada, no desejo de retorno e na conseqüente condição de provisoriedade que o migrante se impõe.

Foi partindo do desejo de entender as vicissitudes migrantes, originadas pelo afastamento do contexto sociocultural original, e as novas exigências do atual contexto, que tecemos nossa discussão sobre migração, saúde e os meios utilizados por tais indivíduos para amenizarem seus sofrimentos, determinando com isso seu adoecimento, ou não. Para tanto, nossa "garimpagem" literária percorreu os conhecimentos e teorias da Antropologia Médica e Cultural, da Psicanálise, bem como da própria Psicologia e da História, buscando unir os diversos olhares, para compreendermos de forma mais abrangente os fenômenos implicados na mudança de cidade e contexto.

Nosso trabalho contou com a colaboração indiscutível de nossos entrevistados, que gentil e produtivamente nos forneceram rico e encantador material para nossa análise e descobertas sobre o viver e o sentir migrantes. Utilizamos como instrumentos as entrevistas semi-estruturadas, a história de vida e a observação direta para coleta de nosso material, que foi analisado e comparado, a partir da análise indiciária, já que pretendíamos considerar as pistas, indícios, comportamentos e discursos, às vezes considerados irrelevantes, tecendo assim um panorama do que sente e passa o indivíduo deslocado de cidade, espaço e cultura.

Apreendemos nas narrativas de nossos sujeitos, questões importantes, que foram levantadas e relembradas de forma a emocionar e prender nossa atenção, tornando as entrevistas momentos agradáveis e enriquecedores para nossa trajetória como pessoa, profissional e pesquisador .

Um dos primeiros pontos levantados em nossa investigação, se referiu ao motivo da mudança, que foi considerada uma necessidade interior, uma busca de espaço e de independência não atingidos satisfatoriamente em suas antigas cidades, além da proposta salarial e da atividade a ser desempenhada, serem bastante tentadoras.

Após definirem os motivos, partimos para a representação da migração que foi associada à pobreza, necessidade extrema de sobrevivência e falta de opção, e citaram o nordestino como símbolo de tal fenômeno, sendo este, considerado personagem místico da migração interna, exaltado em filmes, contos, músicas e principalmente no imaginário brasileiro, como representante do retirante nacional.

Assim, negaram a própria condição de migrante atribuindo a um outro, o nordestino, tal papel, visto que consideraram a mudança para a cidade de Boa Vista como uma escolha e não uma obrigação, além é claro, de pertencerem a regiões desenvolvidas e almejadas, como são as regiões sul e sudeste do Brasil. Com isso, vemos surgir através destas narrativas, as colocações feitas por Ferreira (1996) e Rebello (1997), que consideram a migração um processo alterativo.

No entanto, demonstraram de forma clara as dificuldades enfrentadas por eles, após a migração, mesmo entendendo-a como uma opção em suas vidas. Falaram das renúncias que precisaram fazer ao escolherem a mudança, principalmente o afastamento de tudo aquilo que era familiar, como costumes, hábitos, pessoas e mecanismos criados ao longo de suas construções como pessoa e profissional, para dar conta das adversidades da vida. Precisando refazer tais valores e mecanismos para enfrentarem o novo contexto e realidade, percebidos como algo ameaçador e estranho. Assim, ao procurarem seus espaços e autonomia, deixaram de lado as vantagens e benefícios de um grande centro, limitando-se à escassez cultural da cidade de Boa Vista, que não proporciona opção de lazer e entretenimento cultural, bem como aperfeiçoamento profissional, além de dificultar o acesso aos grandes centros (os verdadeiros ‘pólos de desenvolvimento e produção culturais e de conhecimento) por possuir uma localização geográfica desfavorável

Percebemos que toda escolha recai automaticamente numa renúncia, que poderia ser entendida como " a natureza histérica do desejo, obrigatoriamente condenado à insatisfação" (Cesarotto, 1996, .125), à eterna insatisfação humana. Ao escolher o novo e estranho em detrimento ao velho e familiar, o migrante conquista um lugar e um valor na nova cidade, que o engrandece, e faz gerar outros impasses, como o desejo de retorno, se chocando com o medo da perda de seu espaço como profissional reconhecido e valorizado, que dificilmente terá, ao retornar à sua região, precisando para isso, reconquistar seu lugar e posição, no meio da multidão e da competição dos grandes centros. Sendo assim, o estranho (a nova cidade) torna-se familiar e o familiar (a antiga cidade) torna-se estranho.

A migração geraria no indivíduo a necessidade de reformular seus valores, crenças utilizados para representarem ou resolverem as situações adversas, logo a mudança de contexto exigiria do migrante uma transição psicossocial, onde terá que elaborar novas saídas e meios para dar conta das atuais demandas. Nossos entrevistados verbalizaram como mecanismo de salvaguarda do Eu, o mergulho no trabalho, como forma de não pensarem em sua situação de migrante, além de tentarem preencher todo tempo disponível com alguma outra atividade, ou mesmo criando projetos para desenvolverem em seus serviços.

Concluímos, então, que este comportamento ajudaria o migrante a reforçar sua estrutura psíquica livrando-o do adoecimento, já que optou por outra forma para dar vazão a seus sentimentos e sofrimentos advindos da migração. Assim, nossos migrantes ao contrário dos pesquisados por Ferreira e Rabello, não elegeram a doença como expressão de sua dor pelo afastamento do familiar, ao contrário, resolveram sobrecarregar suas mentes e corpos com atividades relacionadas a suas profissões. Vemos, então, que os mecanismos utilizados e escolhidos pelo migrante dependerão de seu background cultural (Helman, 1994), fornecendo conteúdos e valores que determinarão suas escolhas.

A questão do provisório apresentou-se através do desejo de retorno, presente desde a partida de nossos entrevistados que pré estipularam um tempo de permanência no estado de Roraima. Desta forma a mudança sempre esteve condicionada ao retorno, determinado e planejado antes mesmo do migrante conhecer a realidade da nova cidade. Este tempo estaria ligado, então, ao tempo supostamente necessário para construírem a autonomia e a independência que foram buscar.

E ao defrontarem-se com o contexto da cidade de Boa Vista, baseado, no provisório, no temporário, pela política adotada por seus governantes e moradores, que em sua grande maioria também eram de for a, viram seu desejo de retorno ser reforçado.

Assim, nosso pressuposto de que o desejo de retorno seria intensificado pelo contexto da nova cidade, viu-se confirmado pelas narrativas colhidas, que deixaram claro o desejo de não fixação nessas terras, investindo os frutos conseguidos em suas cidades ou regiões, para não criarem laços mais fortes com este estado, já que o consideravam temporário em todos os sentidos, por ele não suprir necessidades importantes, tais como: de lazer, de cultura, aperfeiçoamento profissional e a proximidade da família, como de outras cidades mais desenvolvidas. Mas tinham a clareza que o tempo estimado, há muito já tinha sido ultrapassado, ou seja, não haviam conseguido retornar no período planejado, criando-se, assim, a condição do provisório que permanece. Logo, a metáfora criada, nos remeteu à importância e ao sentido da temporalidade, visto que ela proporciona ao indivíduo uma segurança, a possibilidade de situar-se, ao estipular um tempo, um período para cada situação e acontecimento.

O tempo e o espaço seriam categorias bem demarcadas para o estudo da migração, já que o migrante passa a referendar os acontecimentos a partir da data da mudança, usando os termos antes e depois, para localizar-se no mundo. Estabelecendo também, diferentes temporalidades para distinguir a seu antigo local e a do seu novo local. Percebemos, então, que o contexto do provisório serviria como gerador de segurança, ao informar ao migrante que sua condição de Eu deslocado geográfica e psiquicamente, é uma condição passageira amenizando, assim, o sentimento de perda ou de afastamento do familiar. O achar-se provisoriamente na nova cidade, reduziria conflitos e angústias, que pudessem impedir o migrante de continuar em sua trajetória, na busca de seus objetivos e conquistas destinadas a cidade para onde migrou.

Ao finalizarem as narrativas sobre a trajetória migrante, "nossos garimpeiros", nos confidenciaram que tal experiência significou um grande amadurecimento pessoal, visto que precisaram lutar com as próprias armas, para conquistarem seus espaços, de reconhecimento como pessoa e profissional em terras distantes e desconhecidas que embora tenham gerado dificuldades e sofrimentos, serviriam para fortalecê-los, demonstrando a capacidade que possuem de ultrapassarem seus próprios limites. Consideraram também o afastamento da família e de seu meio, fatores preponderantes para o crescimento e descoberta pessoais.

Acrescentaram, ainda, que o remontar de suas histórias estimulado por nossos encontros, proporcionou interessantes associações e conclusões, que até então, não tinham feito, por tentarem não pensar em sua condição de migrante. As entrevistas serviram como momentos de desabafo , formulações e reformulações de fatos e acontecimentos às vezes esquecidos ou deixados de lado pelo mergulho total às atividades profissionais que os impedia de relembrarem suas histórias, recobertas de aventura, alegria, sofrimento perda e conquista. Logo, História possui o fascínio do contato com o outro, de construir e reconstruir vivências e experiências que marcaram uma época.

 
 
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