HomeLista de Teses >  [A MIGRACAO EM UM NOVO CONTEXTO SOCIO-CULTURAL: O P...]


 

Vianna, Eliane Chaves. A migração em um novo contexto sócio-cultural: o provisório permanente. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1998. 104 p.


PARTE II - METODOLOGIA


O presente estudo refere-se a uma Pesquisa Social Estratégica (Minayo,1992), sobre migração e a influência do novo contexto sociocultural como agente facilitador ou não de dificuldades e sofrimentos. Segundo Minayo, a Pesquisa Estratégica teria a "finalidade de lançar luz sobre determinados aspectos da realidade", mesmo não prevendo soluções práticas para os mesmos, sendo "particularmente adequada às investigações sobre saúde" (p.26).

Foram usados os discursos e representações socialmente construídas como material indispensável à investigação sobre a migração e o viver migrante, assim, privilegiamos a fala, o vivido, o sentido e o simbolizado pelo indivíduo que sente necessidade de explicar suas experiências (Jovchelovitch,1995). Adotando, portanto, a Metodologia Qualitativa, como estratégia de abordagem, por ser ela capaz de "incorporar o significado e a intencionalidade como fundamentais às construções humanas, contidas em seus atos, relações e estruturas sociais" (Minayo, 1992, p.10). O fato desta metodologia permitir a proximidade entre entrevistado e entrevistador, foi decisório em nossa escolha, visto que, "autor e intérprete fazem parte do mesmo contexto". Ou seja, o investigador também é migrante na cidade escolhida para o estudo e oriundo da região sudeste como os sujeitos a serem investigados, além de possuir outras características em comum com seus entrevistados.

Sendo assim, coube ao investigador tratar cuidadosamente de suas impressões e interpretações acerca do material colhido, partindo da proposta de Velho (1978), de que "o processo de estranhar o familiar torna-se possível quando somos capazes de confrontar intelectualmente, e mesmo emocionalmente, diferentes versões e interpretações existentes a respeito de fatos, situações" (p.45) .O investigador, então, esforçou-se em transformar o "Exótico em familiar e o Familiar em exótico" (Da Matta, 1978).

1-Valorizando a Fala

O elemento escolhido como fonte de construção e reconstrução da história e vivência migrantes foi a fala, a palavra, fundamental veículo para interação de pessoas ou grupos, definindo e estabelecendo referências do contexto sociocultural, profissional e pessoal dos atores sociais. E foi através da fala, que buscamos interagir com nossos entrevistados, dando-lhes liberdade de expressão e tempo para remontarem suas experiências, sejam elas referentes à migração em si ou à vida pessoal como um todo.

Para Minayo (1992), a fala revelaria "condições estruturais, de sistemas de valores, normas e símbolos" (p.109) e ao mesmo tempo transmitiria por seu porta-voz, representações de determinados grupos, situando-os histórica, social, econômico e culturalmente.

Cardoso (1989) observa que a linguagem falada carrega em si uma variedade de informações, estabelecendo uma relação efetiva entre entrevistado e entrevistador, permitindo que ambos criem e reflitam sobre ela simultaneamente. Assim, pesquisador e depoente, por serem sujeitos da história, constróem conjuntamente suas narrativas ao entrelaçarem suas histórias, logo, a construção da fonte oral não advém de um trabalho solitário e individual feito pelo historiador, mas da interrelação destes dois personagens como nos esclarece a autora:

"Não há como negar que nossas histórias se misturam com a de nossos narradores e que por nossa vez, transformamo-nos em narradores também. Nossas formas de compor a história interligam-se à maneira de nossos sujeitos conceberem o ontem e o hoje [...] A fonte oral não é estática e individualizada, porque resulta da comunicação estabelecida entre dois seres humanos que vivem a história" (pp. 47-48).

Em nossa pesquisa pretendeu-se, através das fontes orais, estabelecer um intercâmbio entre narrador e ouvinte, preservando as histórias de vida que são repassadas e imortalizadas pelas narrativas. Pois, as trocas e descobertas realizadas entre narrador e ouvinte, torna rica a experiência de vida, transmitindo conhecimentos, valores, lembranças, enfim, história; material imprescindível para a construção e preservação da cultura de qualquer sociedade.

Assim, privilegiamos o trabalho da historiadora Maria Helena Cardoso (1989) como base de nossas investigações no trabalho de campo, sem contudo adotá-lo como método, visto não termos seguido passo a passo seus quatro módulos de entrevista. Ela propõe um caminho para construção de fontes orais que vem sendo utilizado em pesquisas sobre saúde, como nos trabalhos de Rebelo (1997) e Souza (1998), entre outros. Buscamos retirar desta autora pensamentos e caminhos que consideramos interessantes para construímos os relatos orais, nossa principal fonte de pesquisa.

Cardoso (1989) destaca a oralidade como forma primorosa de comunicação entre os sujeitos, possibilitando um recurso a mais para as descobertas e conhecimentos sobre a complexidade humana, ou seja, todo sujeito teria algo a transmitir, a repassar de sua história, de sua vida. Sendo assim, sua proposta de Construção de Fontes Orais reconhece como fundamental a relação estabelecida entre entrevistado e entrevistador, pois quanto melhor e mais próxima se der a comunicação , mais rico o material colhido. Assim, as histórias se entrelaçariam, não permanecendo o investigador à parte da entrevista, mas sendo um co-autor: "É de sujeitos humanos vivos ligados por uma atividade em comum que nascem as fontes orais" (p.48).

Cardoso constrói, então, um caminho para apreensão das fontes orais, trabalhando com três tipos de memórias: "a coletiva (experiência da vida comunitária), a individual (expressando desejos e conflitos) e a histórica (recordação dos fatos de forma entrelaçada)" (Rebello,1997, p.41). Seu método, então, é composto por quatro módulos de entrevistas interdependentes, de forma a construir um todo, tendo como finalidade principal o desenho da "construção da identidade ideológica, ética, psíquica, política e social dos entrevistados" (Cardoso, 1989, p.61). No entanto, a existência de quatro módulos não significaria, necessariamente, a realização de quatro entrevistas apenas, e sim quantas forem necessárias para a construção das histórias de nossos investigados.

O primeiro módulo consiste "numa entrevista previamente marcada" com os entrevistados, sem o uso de gravador. Neste primeiro contato, é feita a apresentação da proposta de trabalho, estabelecendo-se os primeiros passos para uma comunicação baseada no respeito e na confiança. Esta entrevista tem como objetivo a coleta de dados básicos do entrevistado, transformando-os num "retrato" do investigado, resultando num paper.

O segundo módulo tem como objetivo a reconstrução da história pessoal do entrevistado, desde sua infância até os dias atuais. Delimitaria-se, assim, a identidade sociocultural do depoente.

O terceiro módulo "volta-se prontamente para o registro das relações entre inserção social e ação política do entrevistado" (Cardoso, 1989, p.72). Por ser um módulo essencialmente temático, torna-se necessária a elaboração de um roteiro prévio de entrevista, não tendo esse, no entanto, o objetivo de limitar a livre associação ou outras manifestações do entrevistado. Sua finalidade, então, seria a de fazer a ligação entre os objetivos da pesquisa e as histórias dos entrevistados, focalizando suas experiências sociais e o tema central da pesquisa.

O quarto módulo objetiva a complementação dos módulos anteriores, "contribuindo para a contrachecagem" do material até então recolhido (Rebello, 1997 p. 42). Neste momento, o entrevistado fala livremente sobre sua experiência migratória, interpretando-a , possibilitando a verificação das divergências ou convergências do discurso.

Com a valorização das fontes orais, pretendemos dar voz ao vivido e sentido por nossos personagens, que ao relembrarem e relatarem suas experiências, nos é aberto um imenso caminho de questionamento sobre a migração e o viver migrante. E ao nosso ver, só podem ser estudados ou mesmo pensados, através de experiências reais, que trazem consigo as marcas e sinais deixados na trajetória da mudança, do deslocamento e do crescimento. Com isso, ao ouvirmos nossos migrantes nos colocamos a seus dispor , para que sentissem segurança, confiança e liberdade para remontarem suas histórias, tão valiosas para nossa investigação. Com este pensamento, observamos nossos interlocutores de forma ampla, registrando no gravador as palavras e silêncios e em nossa mente (para depois passarmos para nosso diário de campo), as expressões faciais, suores, tremores, choros, trocas e fugas de olhares , ou sejam, as várias formas de linguagem, que usamos para nos comunicar, mesmo que às vezes de forma inconsciente.

Foram entrevistados sete profissionais de saúde migrantes, oriundos das regiões Sul e Sudeste do país, que exerciam suas atividades no Hospital Geral de Roraima (HGR). Para a seleção da amostragem qualitativa foram estabelecidos alguns critérios que descreveremos no capítulo III (Sujeitos da Pesquisa: Nossos garimpeiros - Os Migrantes), no entanto, dois em especial, surgidos no trabalho de campo, pareceram nos determinantes para a definição dos sujeitos de nossa pesquisa são eles: a aceitação voluntária e a disponibilidade de tempo para "nossos encontros".

Como estratégia para a entrada em campo, tivemos como primeiro passo, a apresentação da proposta de trabalho à direção do HGR e a solicitação para realização da referida pesquisa nesta instituição. Nossa proposta foi aceita, com a máxima cordialidade e cooperação, fato que facilitou nosso acesso e permanência no hospital. A própria direção nos apresentou aos funcionários, explicando o motivo de nossa presença, possibilitando assim, o livre acesso às dependências desta instituição e nos forneceu uma lista contendo os nomes e áreas de atuação de todos os profissionais de nível superior. A partir desta lista foi feito o levantamento do local de nascimento e tempo de serviço destes sujeitos, com ajuda do Serviço Social. De posse destes dados, pudemos selecionar nossos migrantes, para em seguida estabelecermos contato, apresentando nossa pesquisa e forma de abordagem, para que voluntariamente aderissem ou não à investigação.

Na apresentação de nossa proposta de trabalho esclarecemos aos "candidatos" a investigados, da possibilidade das entrevistas serem realizadas em outro local que não apenas o HGR, ficando a critério deles a escolha de dia, hora e local. Assim, algumas entrevistas foram realizadas na casa do entrevistado, em consultório particular e no Hemocentro do estado.

Utilizamo-nos das técnicas da Observação Direta (realizada simultaneamente com as entrevistas e nas conversas informais nos corredores do hospital investigado, nos momentos de espera para o início de nossas "conversas a dois com propósito bem definido") e da Entrevista (dividida em duas etapas, onde na primeira utilizamos a história de vida e na segunda, um roteiro para a entrevista semi-estruturada) para coleta do material de pesquisa (Cruz Neto, 1996)

A observação direta se dá através do contato direto do investigador com o fenômeno a ser observado, com o intuito de apreender a realidade vivenciada, na qual os atores sociais estão inseridos. Sua relevância se baseia na possibilidade do investigador captar dados e fenômenos que não são atingidos por meio da entrevista (Chizzotti,1995).

Desta forma, através da observação direta realizada no próprio ambiente de trabalho de nossos entrevistados, pudemos captar a estrutura, procedimentos e pensamentos imperantes neste hospital, marcados por uma nova política administrativa, comentada e questionada, tanto pelos profissionais, quanto pelos usuários desse serviço e que muito estava influenciando a vida pessoal e profissional de nossos migrantes, um verdadeiro momento de angústia pela instabilidade gerada por esta política. Para tanto, lançamos mão de conversas informais com outros profissionais que não só os entrevistados, de queixas e comentários ouvidos nos corredores, bem como, de gestos e comportamentos verificados na rotina desta instituição envolvendo nossos migrantes, outros profissionais e usuários do serviço. Tais observações e impressões retiradas do ambiente institucional foram registradas num instrumento chamado Diário de Campo, instrumento "pessoal e intransferível", um "amigo silencioso" (Cruz Neto, 1996, p.63), a quem confidenciamos nossas angustias, questionamentos e percepções retiradas do ambiente de pesquisa e que nos acompanhou do início ao fim do trabalho de campo. O diário de campo pode ser um bloco ou um caderno, onde serão anotadas "todas as informações, que não sejam o registro das entrevistas formais"(Minayo, 1992). Estas informações foram confrontadas, na fase de análise, com os dados obtidos com as entrevistas, ajudando portanto, como complemento para nossas conclusões, visto que a análise se fundamentou em pistas, indícios, sinais, ou seja, naquilo que às vezes não é dito.

A entrevista nos auxiliou na apreensão do significado da migração, ressaltando suas especificidades e vicissitudes a partir do discurso dos sujeitos que a estavam vivenciando, servindo de rico material para análise, por referir-se à comunicação direta com aquele que representa o universo investigado, o migrante. Assim, a utilização desta técnica reafirma nosso interesse pela palavra, pelo verbalizado, visto ser ela "uma comunicação que reforça a importância da linguagem e do significado da fala". (Cruz Neto,1996, p.57)

Nossa investigação foi dividida em duas etapas de entrevistas, na primeira, a História de Vida como estratégia de conhecimento mais detalhado de nossos entrevistados, servindo também como meio de aproximação e desinibição, pois nossos atores sociais viram nesta técnica a oportunidade de rememorarem suas histórias, acontecimentos e passagens, às vezes, esquecidas ou deixadas de lado, e como eles mesmos definiram, uma boa oportunidade de reavaliarem e desabafarem sobre tais fatos. O relato abrangeu acontecimentos que os próprios sujeitos acharam importantes, a partir da solicitação do entrevistador para falarem de suas trajetórias até o momento da migração. Partiram, então, de suas infâncias, indo até o momento que estavam vivenciando. Esses primeiros encontros foram marcados por muita emoção, onde a alegria e a tristeza ao relembrarem suas histórias, ajudou bastante na relação com o entrevistador, que passou a ter um papel de ouvinte contumaz, um parceiro neutro para possíveis reflexões, haja visto, que os próprios entrevistados iam direcionando a conversa e pensamentos reflexivos que às vezes eclodiam.

Assim, a história de vida foi adotada como elemento complementar das entrevistas semi-estruturadas, aplicadas numa segunda etapa de trabalho e direcionadas para o tema desta pesquisa. Os relatos muitas vezes feitos em forma de confidências e/ou desabafos nos forneceu um perfil detalhado de nossos informantes, favorecendo uma ampla análise do vivido e sentido com a migração, nosso verdadeiro enfoque.

Para Cruz Neto (1996), a história de vida teria como função principal "retratar as experiências vivenciadas, bem como as definições fornecidas por pessoas, grupos ou organizações" (p.58). Já Minayo (1992) a considera um "instrumento privilegiado" para interpretação do processo social, a partir das pessoas envolvidas , sendo as experiências subjetivas dados importantes que "falam além e através dela" (pp. 126-127).

Cientistas sociais que se utilizam desta técnica acreditam serem um bom complemento para as entrevistas, questionários e a observação participante, fornecendo, assim, um reforço a estes instrumentos de coleta de dados, "por acrescentar dados pessoais e visões subjetivas a partir de determinado lugar social".(Minayo, 1992, p.127)

A entrevista semi-estruturada caracteriza-se por articular questões abertas e estruturadas, possibilitando uma abordagem de certa forma livre, sem rigidez na formulação das questões, havendo a elaboração de um roteiro composto por poucas questões. O roteiro tem como objetivo servir de guia ao entrevistador, não sendo um instrumento de cerceamento para o entrevistado, ou seja, constitui-se num mecanismo para orientação de uma "conversa com finalidade", um facilitador de abertura, de ampliação e de aprofundamento da comunicação" (Minayo, 1992, p.99).

Assim, a entrevista semi-estrutrada teria a qualidade de elucidar de maneira mais ampla possível as interrogações que o pesquisador pretende investigar no trabalho de campo.

Nosso roteiro baseado no tema da migração apresentou como tópicos principais os seguintes temas: 1) motivo da migração e programação do tempo de permanência; 2) dificuldades com a migração; 3) processo de adaptação; 4) concepção da nova cidade; 5) Percepção de mudanças após a migração; 6) a cidade de origem - a saudade; 7) o desejo de retorno; 8) o viver migrante. Tais questões não descartaram a possibilidade do entrevistado acrescentar outras que achasse relevantes.

Mediante consentimento dos entrevistados, feito num encontro prévio onde colocamos nossos objetivos e procedimentos de pesquisa, todos os demais encontros foram marcados pela presença e utilização do gravador.


2 - O Paradigma Indiciário como Proposta de Análise

Minayo (1992) nos esclarece e nos conforta ao comentar que a fase de tratamento do material é considerada pelos pesquisadores, uma fase de impasse, onde nos deparamos com grandes obstáculos. Um deles, chamado de "ilusão transparente" (p. 197), expressão que a autora retira de Bourdieu, e que seria a compreensão instantânea dos dados colhidos, "como se o real se mostrasse nitidamente ao observador" (p.197). Buscando não cair nesta armadilha, refletida na facilidade de interpretar os dados, com a simples leitura e compreensão das narrativas extraídas de nossas entrevistas, nos apoiamos no paradigma indiciário, ou seja, fomos além daquilo que está aparente, que é revelado como verdade clara, dando ênfase ao implícito, ao visivelmente não identificado.

Desta forma, nossa análise baseou-se nas falas, impressões e observações produzidas do contato com os entrevistados e seu ambiente de trabalho, sempre com a preocupação de irmos além do meramente relatado ou do simplesmente respondido. Assim, vimo-nos influenciados por nossa formação clínica em psicologia, que trabalha basicamente com o não dito, o não revelado claramente, com as contradições, pausas, silêncios, lapsos, negações e repetições, bem como, com o relato da história de vida, para buscarmos no passado explicações para o presente e quem sabe subsídios para projetarmos o futuro. Através destes indícios, tentamos entender as atitudes, mudanças e mecanismos criados e utilizados pelos migrantes para representarem suas experiências migratórias.

A análise e interpretação dos dados realizaram-se pelos princípios da análise indiciária proposta por Ginzburg (1991), onde o "gosto pelo detalhe revelador" (p.08), marca suas obras. O trabalho deste historiador consiste em aplicar a seus textos literários uma reflexão sobre "os sinais aparentemente negligenciáveis" (Rebello, 1997, p.43).

Ginzburg nos mostra como, no final do século XIX, emergiu de forma discreta no ambiente das ciências humanas, o paradigma indiciário, embora, não teorizado de forma clara, mas "amplamente operante de fato" (p.08). Partindo do crítico de arte Morelli, do personagem de Arthur Conan Doyle, o detetive Sherlock Holmes e do pai da psicanálise, Freud, ele elabora o paradigma de um saber indiciário, que se baseia, na busca e utilização dos pormenores reveladores à elaboração do conhecimento. Um paradigma que se firma nos detalhes, no que aparentemente é irrelevante, mas que na verdade é de fundamental importância na construção e explicação do conhecimento científico. Este autor delineia uma analogia entre o método moreliano (criado "para atribuição dos quadros antigos", que ensinava de forma segura a distinguir uma cópia e um original, podendo devolver a seu verdadeiro autor obras às vezes não assinadas e atribuídas incorretamente a outro), .o método indiciário utilizado pelo detetive Sherlock Holmes (que através de pistas, "de indícios imperceptíveis para a maioria desvendava seus crimes) e o método psicanalítico de Freud para interpretação dos sintomas. Esta tripla analogia nos traz como referencial, pistas mínimas e aparentemente insignificantes, que permitem desvendar "uma realidade mais profunda, de outra forma inatingível". Assim, trabalha com detalhes negligenciados, para trazer à tona surpreendentes descobertas e interpretações, construindo hipóteses e sugerindo conclusões:

"Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas - sinais, indícios que permitem decifrá-la [...] Essa idéia constitui o ponto essencial do paradigma indiciário". (Ginzburg, 1991, p.177)

"Pistas: mais precisamente, sintomas(no caso de Freud), indícios(no caso de Sherlock Holmes), signos pictóricos(no caso de Morelli)".(op.cit, p.150)

Sendo assim, nossa análise não se pautou apenas no concreto, representado, pelas respostas e discursos de nossos migrantes. Fomos além, analisando também conteúdos afetivos, que nos forneceram importantes contribuições no momento de traçarmos um perfil do tipo de migração estudada, bem como de seus personagens, que não foram considerados meros relatores de histórias e vivências, mas "formuladores de teorias científicas ou de senso comum - na criação de uma realidade consensual" (Spink, 1995, p.142). Acreditamos que na complexa formação do Eu, que abarca sistemas sociais, culturais, históricos e psíquicos, os enigmas e interrogações motivam a constante busca de preenchimento e de completude pessoais, levando esses indivíduos, em sua ânsia por respostas e definições, além de seus limites e planos, construindo a tão maravilhosa arte humana de criar explicações para os fenômenos vivenciados e presenciados, retirando de conteúdos internos, das dimensões sociais e do saber popular, material para suas representações de mundo.


3 - Universo a ser garimpado


3.1 - Local da investigação

A pesquisa foi realizada no Hospital Geral de Roraima (HGR), localizado na cidade de Boa Vista, capital do estado de Roraima. A instituição escolhida caracteriza-se como hospital de referência para todas as clínicas, sendo o maior hospital do estado, comportando assim, grande número de migrantes em seu quadro funcional, visto que a maioria dos profissionais de saúde vieram de outros locais, a convite do governo do estado, devido à ausência de profissionais do próprio local. Outro fator decisório para a escolha desta instituição, refere-se às relações profissionais que a pesquisadora estabeleceu na época que pertencia ao quadro funcional do governo do estado, como profissional de saúde, dado que facilitou sua entrada e permanência nesta instituição. Assim, sua aceitação dentro do HGR, foi considerada satisfatória, não sendo vista como uma total estranha, mas como alguém que já havia vivenciado a rotina institucional de um hospital, desejando agora estudar seus habitantes.

Cabe-nos ressaltar que no período da pesquisa, fortes transformações e mudanças administrativas e políticas se processavam neste local. Uma delas era a implantação do PAI (Plano de Atendimento Integral a Saúde) "importado" da cidade de São Paulo, que muito estava mexendo com a tranqüilidade de profissionais e usuários desta instituição.

Tal proposta acabava com a Cooperativa de Profissionais de Saúde, responsável até então pelos contratos de todos os profissionais de nível superior, com exceção daqueles funcionários da União cedidos ao estado de Roraima. As contratações se davam através da cooperativa porque o estado não possuía um quadro de profissionais, visto nunca ter realizado concurso após a extinção do Território Federal.

O PAI propunha novas formas de contratação, salário, jornada de trabalho, bem como uma nova organização político-administrativa, criando funções e setores, acabando também com direitos trabalhistas, que embora não fossem oficializados pela Cooperativa, vinham sendo pagos por ela. Tais informações incompletas e superficiais, foram colhidas junto aos profissionais, que não estavam muito a par das novas propostas, mostrando-se ansiosos e apreensivos por estas mudanças. No entanto, não consideramos necessário a investigação mais detalhada sobre essa nova política, sendo relevante para nós apenas perceber as consequências por ela geradas, como o clima de extrema insegurança e insatisfação que pairava sobre aquele ambiente, servindo como pistas para nossa análise. O fato de adotarem uma política de saúde também importada, ou seja, migrante, nos chamou atenção para nossa metáfora do Provisório-Permanente, mostrando-se e definindo-se no convívio com nossos sujeitos.O PAI era mais uma tentativa da política de saúde de modificar um sistema não solidificado e estruturado como o adotado no estado de Roraima. Lembramo-nos, ainda, que a própria pesquisadora ao ser convidada a trabalhar neste estado, tinha como tarefa ajudar na implantação de uma proposta na área da saúde mental, que não foi co implantada, sendo consequentemente descartada por falta de incentivo e ajuda do governo, levando seus profissionais a abandonarem este serviço ou buscarem outras áreas de atuação a partir do esfacelamento do programa de saúde mental. Assim, estas observações e associações serviram de complemento para a análise das entrevistas.

Logo, ao escolhermos o HGR como local de nossa investigação, vislumbrávamos um ambiente com grande contingente de migrantes para que pudéssemos selecionar aqueles que melhor representassem nosso universo de pesquisa, possuindo as características seletivas adotadas por nós, tais como: ser migrante oriundo das regiões sul ou sudeste do país, profissional de saúde de nível superior, além de estar inserido no mercado de trabalho deste estado. Assim, esta instituição funcionou como ambiente ideal para a escolha de nossos sujeitos.

 

3.2 - Sujeitos da pesquisa

Nossos garimpeiros - Os Migrantes

O personagem escolhido para este estudo é o migrante nascido ou que tenha passado a maior parte de sua infância ou adolescência numa grande ou média cidade das regiões sul ou sudeste, tomando assim, como referência, o contexto sociocultural deste local. Outra característica importante refere-se ao seu grau de instrução e formação, pois falaremos de profissionais de saúde de nível superior que desempenham suas atividades no HGR. Este trabalho, então, falará do sofrimento, alegria, descoberta e vivência de pessoas que por convite, seja profissional (em sua grande maioria) ou familiar, deixaram o grande centro para aventurarem-se numa cidade pouco desenvolvida da região norte do país. Sendo assim, abrimos mão do legendário migrante brasileiro (o nordestino), como referencial de representação da migração.

Os sujeitos de nossa pesquisa são migrantes adultos de ambos os sexos, que preenchem os seguintes requisitos: profissionais de saúde de nível superior, inseridos no mercado de trabalho logo após a chegada no estado de Roraima, e exercendo suas atividades profissionais no HGR, além de residirem neste estado a pelo menos dois anos.

O número de migrantes entrevistados foi determinado pela quantidade de profissionais que atendiam às nossas exigências e que possuiam disponibilidade e desejo de participarem da pesquisa. Desta forma, selecionamos sete profissionais que se dispuseram prontamente a nos ajudar e com disponibilidade de tempo suficiente para nossas entrevistas, visto que, dos dez eleitos, três não conseguiram horário entre suas atividades para nos dispensar. No entanto, este fato em nada interferiu em nosso trabalho, pois a abordagem qualitativa não possui um critério numérico para sua amostragem, pois como nos afirma Minayo (1992) " uma amostra ideal é aquela capaz de refletir a totalidade nas suas múltiplas dimensões" (p.102). Usamos, então, como princípios para definir o número de migrantes, a escolha de sujeitos que possuíssem as características que desejávamos conhecer; informantes de diferentes áreas profissionais vinculadas à saúde, para possibilitar a apreensão de semelhanças e diferenças, além do esforço para que "a escolha do locus e do grupo de observação e informação" contivesse "o conjunto das experiências e expressões" que se pretendia objetivar com a pesquisa (p.102). Sendo assim, " a questão da validade dessa amostragem está na sua capacidade de objetivar o objeto empiricamente, em todas as suas dimensões". (p.103)

Nossa amostragem, então, contou com quatro médicos de especialidades diferentes, sendo dois homens e duas mulheres, duas assistentes sociais e uma enfermeira. Características como: a formação; o maior número de pessoas do sexo feminino e de profissionais de medicina, bem como a predominância de sujeitos oriundos do estado de São Paulo, foi resultado da realidade encontrada em campo e não uma escolha ou preferência do pesquisador. Gostaríamos ainda de esclarecer que a grande quantidade de migrantes "importados" deste grande centro, foi devido a visitas feitas pela antiga secretária de saúde a hospitais conceituados da cidade de São Paulo à procura de profissionais que desejassem trabalhar no estado de Roraima.

Como já foi mencionado, nosso desejo de estudar a migração não se baseou na pessoa do nordestino, o migrante brasileiro por excelência, mas em indivíduos oriundos de grandes centros, que atualmente representam o novo fluxo migratório, ou seja, a fuga dos grandes centros e a procura por locais em desenvolvimento. Cabe ainda ressaltar, que a escolha do profissional de saúde, se deve ao fato de nossa investigação referir-se às questões de saúde e tais sujeitos, ao nosso ver, serem importantes informantes sobre a associação entre mudança de contexto e adoecimento, ou seja, nos interessava ver como os profissionais de saúde lidavam e resolviam seus problemas de adaptação, sofrimento e falta advindos da migração, já que são eles os grandes intermediários entre a "illness" vivenciada pelo paciente e a "disease" diagnosticada pelo médico e sua equipe.(Helman,1994)

Os Garimpeiros

Estamos denominando garimpeiros os sujeitos de nossa pesquisa, baseando-nos para isso, na associação estabelecida entre migração e garimpo, descrita por nós no início deste trabalho, onde comparamos o viver garimpeiro ao viver migrante e o contexto sociocultural da cidade de Boa Vista a um enorme garimpo, sendo o provisório, o passageiro, o temporário fatores permanentes nos pensamentos, atos e projetos de seus moradores e governantes. Assim, para preservarmos a identidade de nossos entrevistados optamos por nomeá-los garimpeiros e numerá-los como forma de diferenciação.

Esclarecemos ainda, que a transcrição das entrevistas foi feita de forma integral e literal, preservando fidedignamente o relato de nossos sujeitos. No entanto, escolhemos apenas alguns fragmentos para ilustrarmos seus pensamentos e opiniões, ou seus argumentos e quando necessário, foram feitas sutis modificações para obtermos maior clareza e facilidade de leitura. Para a apresentação dos migrantes-garimpeiros, utilizamo-nos do resumo da história de vida, selecionando dados relevantes às suas caracterizações, mas sempre com a preocupação de não expô-los, visto ser a cidade em questão pequena, ficando assim, estes profissionais em certa evidência.


Garimpeiro I

Médica, 32 anos, nascida numa grande cidade da região Sudeste, solteira, coordena um dos programas da Secretaria Estadual de Saúde. Foi para Roraima através de convite de pessoa da família, que lhe conseguiu uma vaga como médica e coordenadora do programa vinculado a sua especialidade. Está há dois anos e seis meses nesta cidade. Seu vínculo com o HGR se dá através da cooperativa de saúde do estado, sendo também funcionária concursada da Fundação Nacional de Saúde, além de atender em consultório particular. Possui um companheiro e atribui a esta relação grande parte das motivações de permanecer ainda em Roraima. Considera como principal motivo de sua migração a necessidade de construir algo que fosse realmente seu , bem como a de conseguir um emprego que pudesse dar conta de suas dívidas, além de desejar mudar algumas coisas que a incomodavam internamente.

 

Garimpeiro II

Médico, 39 anos, casado, três filhos, natural de uma grande cidade do Sudeste, morando em Boa Vista há dois anos. Sua ida se deu a convite da antiga secretária de saúde do estado, que fazia visita ao hospital onde trabalhava, objetivando recrutar profissionais interessados em trabalhar em Roraima. Foi a princípio sem família, para perceber a cidade e a possibilidade de adaptação, após ficar dois meses sozinho, solicitou a vinda da família, que não se adaptou e retornou dois meses após a chegada. Desempenha suas atividades no HGR e no Hemocentro do estado através de vínculo com a cooperativa de saúde. Ainda conserva seu antigo emprego na cidade de São Paulo por ser funcionário estadual e ter solicitado licença sem vencimento. Alegou como principal motivo da migração a vida atribulada dos grandes centros, com congestionamentos e a correria do dia a dia para dar conta dos vários empregos.

 

Garimpeiro III

Médico, 38 anos, casado, dois filhos, nascido numa cidade da região Sudeste, está em Boa Vista há dois anos e dois meses, por ter recebido convite da antiga secretária de saúde, que recrutava médicos no hospital em que trabalhava em São Paulo. É funcionário federal, fato que facilitou sua decisão na hora de partir, pois conseguiu transferir-se para Roraima sem prejudicar seu emprego. Além de cumprir sua carga horária com funcionário estável, possui contrato com a cooperativa de saúde, exercendo suas atividades no HGR e no Hemocentro estadual. Colocou como motivo principal de sua mudança, a vida tumultuada de um grande centro, com engarrafamentos, necessidade de trabalhar em vários locais diferentes, dificultando o convívio familiar. Sendo assim, ressaltou que dois fatores pesaram muito em sua decisão: a má qualidade de vida da cidade grande e as péssimas condições de trabalho e assistência do serviço público de saúde.

 

Garimpeiro IV

Médica, 35 anos, casada, três filhos, nascida num estado da região Sudeste. Foi para Boa Vista há dois anos através de convite da secretária de saúde, que estava a procura de médicos que se dispusessem a trabalhar em Roraima, oferecendo a ela e a seu marido, que também é médico, as coordenações dos programa de saúde de suas respectivas especialidades. Desempenha suas atividades no HGR através de vínculo com a cooperativa de saúde, além de ter seu próprio consultório. Tanto ela como o marido não possuem mais ligação com seus antigos empregos. Mencionou como motivos da ida para Boa Vista, o convite para assumir a coordenação e a vida atribulada de um grande centro, que estava dificultando o relacionamento familiar pela falta de tempo, devido às muitas atividades que eram obrigados a ter.

 

Garimpeiro V

Assistente Social, 38 anos, nasceu numa pequena cidade da região Sul, mas sua formação se deu na capital do estado onde morava até a mudança para Boa Vista. Mora há sete anos nesta cidade e vive há quatro com seu companheiro com quem tem dois filhos. Considera este relacionamento fator decisivo para sua permanência em Roraima. Foi sozinha para este estado através de convite, feito por telefone pela Superintendente da extinta Legião Brasileira de Assistência (LBA), que havia recebido referências suas de colega em comum. O convite era para assumir a Gerência de Programas desta instituição, por um período de seis meses, mas acabou ficando por mais seis meses. Findo este prazo, conseguiu emprego no recém inaugurado HGR, onde já trabalha há seis anos. Não possuiu mais vínculo profissional com o Sul do país , mantendo apenas com a cooperativa de saúde. Colocou como principal motivo da migração a proposta salarial e a possibilidade de aventurar, conhecer outra realidade que não apenas a sua, pois achava sua vida muito estacionada.

 

Garimpeiro VI

Assistente Social, solteira, 27 anos, natural de uma grande cidade do Sul. Foi para Boa Vista há dois anos e seis meses, logo após terminar sua faculdade pois precisava arranjar um emprego, embora já tivesse a garantia de conseguir uma vaga como professora na cidade de General Câmara, onde sua família reside. No entanto, preferiu aceitar o convite de seu tio que morava em Boa Vista, para tentar algo na sua área. Ao chegar em Roraima conseguiu uma vaga de assistente social na Secretaria Estadual do Trabalho e Bem Estar Social (SETRABES), ficando nesta instituição menos de um mês, indo trabalhar na polícia militar, onde permaneu por cerca de dois anos. Seis meses após a sua chegada, conseguiu a vaga de assistente social no HGR tão almejada por ela. Atualmente só desempenha suas atividades neste hospital, através da cooperativa de saúde. Possui um companheiro, tendo sido o início deste relacionamento um fator decisivo para não retornar a seu estado.

 

Garimpeiro VII

Enfermeira, 34 anos, casada, uma filha, nasceu no Sul do país. No entanto, foi para uma grande cidade da região Sudeste aos 5 anos de idade devido à transferência de seu pai que era militar, ficando nesta cidade até sua ida para Boa Vista, que se deu há seis anos. A mudança para o estado de Roraima aconteceu através de convite feito a seu marido por amigos , que tinham uma proposta de trabalho na área dele, ciências contábeis, visto que o mercado de trabalho no Rio estava saturado. Assim, seu marido foi sozinho para perceber as condições de trabalho e do próprio local. Ela permaneceu no Rio até tirar férias, pois já trabalhava como enfermeira para o estado e em clínica particular. Ao conhecer a cidade decidiu se mudar de vez , solicitando licença sem vencimento no estado e pedindo demissão de seu outro emprego. Ao chegar em Boa Vista entregou seu curriculum, ficando um mês sem trabalhar. Foi contratada pelo estado através da cooperativa de saúde, não possuindo mais ligação com seus antigos empregos no Rio de Janeiro.


4 - Narrativas e Vivências Migrantes

Confrontando as falas com as teorias e conceitos pesquisados sobre nosso tema, vimos surgir cinco grandes tópicos de análise, são eles: A Representação da Migração; O Motivo; As Dificuldades; O Novo Contexto; Os Mecanismos, que foram denominados de forma metafórica, onde o cinema, a música e o imaginário popular se fizeram presentes no momento de nomeá-los. Optamos por introduzir as falas de nossos migrantes aos tópicos de análise, para em seguida comentá-los e discuti-los.

 


4.1 - Representando a Migração


A Nordestificação

" Eu nunca pensei na idéia de ser migrante, nunca me vi como uma migrante - A figura do nordestino que vai para São Paulo, ele vai para ficar, para melhorar de vida, vai com o intuito de morar lá, ele leva tudo. Essa era a idéia que eu tinha de migrante".

(garimpeiro I)

 

" A gente é migrante geográfico e até na cabeça, a gente está migrando sempre…Crescimento pessoal, profissional, emocional, é você lidar com as adversidades, sendo migrante você está trocando informações, tanto pra mais quanto pra menos, você está acumulando bagagem e experiência."

(garimpeiro II)

 

" Quando eu estava no Sudeste falavam em migrante, eu sempre imaginava um nordestino chegando na rodoviária com as trouxas, passando o maior sufoco. Eu nunca havia parado para pensar nisso: eu sou migrante já fui pra lá, já fui pra cá, interessante…"

(garimpeiroIII)

 

" Aqui todo mundo é migrante. Eu nunca havia pensado nisso antes. O migrante que eu tinha na cabeça, era aquele que pensa em ficar a vida inteira, por isso talvez não me considerei uma migrante, por meus laços aqui. E eu tinha a imagem do nordestino que ia para São Paulo sem emprego, que pertencia a um nível mais baixo, eu só tinha essa idéia."

(garimpeiro IV)

 

" Eu sempre pensei em migrante por motivo de sobrevivência. O pessoal do nordeste que vai para São Paulo. O nordestino que sai da sua terra seca por causa da sobrevivência, ele é obrigado, praticamente obrigado. Neste caso ele foi empurrado a procurar emprego numa cidade grande para sobreviver e possibilitar o sobrevivência de sua família. Por esse aspecto especificamente, eu não me considero uma migrante, eu vim para construir a minha família. Foi uma escolha minha vir, como foi uma escolha ficar."

(garimpeiro V)

 

" A migração é a busca do auto-conhecimento, um corte no cordão umbilical."

(garimpeiro VI)

 

" Ser migrante é a pessoa sair de sua terra natal e tentar a vida em outra terra, procurar se adaptar, crescer, melhorar."

(garimpeiro VII)



Seja nos filmes, nos livros, nas músicas ou nos estudos científicos nacionais, o nordestino é visto e simbolizado como o migrante brasileiro, aquele que chora por sua terra, transformando essa dor em poesia, garra e referência.

Ao analisarmos as falas e representações sobre a migração e o migrante, percebemos o domínio das associações, migração - nordestino, migração - pobreza. A maioria de nossos sujeitos representou a migração através da figura do retirante nordestino, aquele que é expulso de sua terra, que vislumbra um grande centro ou uma cidade mais desenvolvida que a sua, como salvação, como única possibilidade de sobrevivência. Sendo assim, associaram migrante e migração a um contexto carente e fatalístico, um contexto diferente do vivido por eles, visto considerarem suas situações de vida mais privilegiadas, onde a opção e o desejo sobressaíram mais, que a necessidade e a obrigação. Pois, para eles, a mudança geográfica não significou meio extremo de sobrevivência e sim, uma possibilidade de crescimento, independência e descobertas, abrangendo tanto o campo profissional, como o afetivo e o pessoal.

Parece-nos, então, que ao partirem deste referencial culturalmente criado por nós, brasileiros, nossos entrevistados tiveram dificuldade de se perceberem ou de intitularem-se como migrantes, visto não serem nordestinos, não terem fugido da seca, e possuírem escolaridade, podendo fornecer mão-de-obra qualificada e necessária ao novo contexto, fato que facilitaria o acesso à nova cidade. Outro ponto levantado por eles, refere-se à questão da escolha, ou seja, haviam optado pela mudança de cidade, controlavam, assim, a situação de transferência, mudança e permanência. Pois, para eles o nordestino não teria opção, não controlaria seu desejo e ato, sendo expulso e obrigado a abandonar sua terra.

Para Ferreira (1996: 217-218):

"[-] a representação do migrante mais dominante no imaginário coletivo atual é a de um indivíduo ou de indivíduos chegando à cidade, mal equipados mental e instrumentalmente para o modo de viver urbano. O migrante aparece, assim, representado pela imagem da carência lingüística, simbólica, material e instrumental. A mítica do esforço e da luta para vencer na cidade faz parte desse universo representacional, já que ele tem que fazer do carecimento, o combustível para funcionar no espaço da urbe."

Logo, migrante seria sinônimo de pobreza e falta. Consequentemente a chegada do nordestino à cidade de São de Paulo, é a melhor ilustração da migração no imaginário coletivo dos brasileiros.

Teríamos, então, um referencial sociocultural, criado para definirmos a migração, que tem suas origens em nossa história, na migração campo-cidade, com a criação dos centros urbanos, com o processo de industrialização, que provocou o êxodo rural e a procura pela cidade, fonte de emprego e possibilidade de melhores condições de vida (Singer, 1995). Logo, nossos migrantes afirmaram em suas representações sobre migração a influência do background cultural na criação de explicações e na elaboração de mecanismos para suavizar as dificuldades e sofrimentos advindos do processo migratório.

O documentário "Tem que Ser Baiano?", de Henri Gervaisieu (1991), nos retrata a proliferação desse imaginário coletivo do migrante brasileiro, através do preconceito de que os nordestinos sofrem nos grandes centros, usando como exemplo a cidade de São Paulo, que os generaliza e os exclui, nomeando a todos de baiano, forma pejorativa de tratar o "invasor", pobre, desprotegido e sem cultura, que contribui para o inchaço e a pobreza da cidade de São Paulo.

Buscando estabelecer um paralelo entre nossos achados e comentários (utilizando-nos impreterivelmente das pistas rastreadas em nossas observações e entrevistas) e a teoria psicanalítica (já que ela também se pauta em indícios, no que está incoberto e imperceptível aparentemente) vasculhamos "O Estranho" de Freud (1919) para tentarmos entender o sentimento de estranheza fornecido pela migração e o dado de estranhá-la como fato, como fizeram alguns de nossos entrevistados ao negarem (2) a condição de migrante. No entanto, não tivemos a pretensão de traçar uma análise profunda deste texto, tão complexo e rico, visto que este trabalho não se refere a um estudo da migração através de uma análise exclusivamente psicanalítica. Ao contrário, nos interessa saber como poderíamos utilizar conceitos psicanalíticos, muitos dos quais já popularizados e introduzidos no vocabulário de nossa população, para explicar a experiência migrante e o contexto do provisório-permanente.

É sabido que, para a psicanálise, o acaso não existe, havendo uma regra de interpretação que consiste em dizer que todo exemplo dado por um indivíduo possui sua marca, ou seja, tem a ver com seu inconsciente, uma superdeterminação que leva à escolha desse, e não de outro exemplo ou imagem (Cesarotto,1996). Assim, eleger a situação do nordestino chegando a São Paulo, como representação da migração, é muito mais que uma simples cena de preconceito ou segregação. Ao adotarem esta simbolização, nossos migrantes estariam aludindo ao outro, o nordestino, como posição de estrangeiro, daquele que necessita deslocar-se, e não daquele que deseja (3) fazê-lo, pois a posição de ser desejante é atribuído a si próprio, como forma de diferenciação e afastamento de uma situação, percebida como negativa, inferior e sem controle, vivenciada pelo outro, ou seja, a migração incorreria em processo alterativo (Ferreira, 1996).

Para melhor ilustrarmos como ocorre o processo alterativo decorrente do estranhamento, fomos buscar em Cesarotto (1996) importante contribuição para entendermos como a psicanálise explica tal processo:

" Numa primeira e definitiva identificação consigo mesmo, o sujeito humano se aliena de si quando mais esperava se integrar. O espelho, parâmetro de exterioridade, oferece-lhe a chance de se enxergar interior, mas ao preço de se ver como um outro. Nesta relação com o semelhante, a figura que se reflete aparece invertida, coincidindo o lado direito com o esquerdo, e vice-versa. Esta assimetria é o elemento que impõe a diferença no registro do idêntico, forçando a alteridade. Por este viés, aquilo que seria o mais conhecido e familiar, a própria imagem, vira estranho" ( p.115).

Assim, nos pareceu que os entrevistados usaram em suas narrativas o parâmetro da exterioridade, do espelhamento para enxergarem-se interiormente, precisando atribuir a um outro a vivência e a realidade migrante. O não reconhecimento da própria imagem seria o estranho, o sinistro, aquele que vem de fora e ameaça, ou seja, o familiar é transformado em estranho, havendo, então, a bifurcação do eu, o nascimento do duplo. Desta forma, como nos informou Ferreira (1996), o migrante seria apreendido como representante fenomênico do estrangeiro, por sua representação emblemática do diferente.

 


4.2 O Motivo

Por que Migrar, Mudar o quê?

" Eu vim meio fugindo de lá, por três motivos, o primeiro porque eu tinha esse problema de querer começar alguma coisa, em algum lugar e tirar essa insegurança de residente. O segundo, porque eu estava precisando pagar as minhas dívidas. E o terceiro é que eu vivia me apaixonando pelas pessoas erradas, sempre, sempre. Isso era uma coisa que eu queria mudar."

(garimpeiro, I)

 

" Todo mundo veio para tentar melhorar o desempenho profissional, financeiro. Uma vez que você se desloca, a migração é isso aí, a melhora das condições gerais de vida, mesmo que a região seja inóspita por alguma situação."

(garimpeiro II)

 

" Do ponto de vista profissional, lá eu estava insatisfeito, trabalhando muito em condições precárias. E estava ruim o meu relacionamento familiar, cheio de cobrança, eu não conseguia mais parar em casa."

(garimpeiro III)

 

" Primeiro pelo convite, em grande parte pelas minhas condições de vida, pela minha família constituída, uma família grande. E eu estava cansada do meu emprego, não tinha muitas perspectivas e queria que o meu marido saísse do emprego em que estava. Aqui haveria muita coisa a se fazer, como a coordenação que me foi oferecida, um estado ainda virgem de estudo na minha especialidade."

(garimpeiro IV)

 

" eu não conhecia ninguém, mas eu vim, eu vim com o espírito de conhecer, de aventurar. O salário e a possibilidade de uma vida, sei lá. Minha vida era muito estacionada, eu acho que não tinha perspectiva para minha vida lá (Curitiba)."

(garimpeiro V)

 

" Necessidade de voar, de começar alguma coisa sozinha, de avaliar se eu teria condições de começar algo longe de todos. Fazer uma experiência, dar um corte no cordão umbilical."

(garimpeiro VI)

 

" Surgiu uma oportunidade na área do meu marido, pois no R. o campo dele estava saturado. Ele veio trabalhar aqui, e eu vim também."

(garimpeiro, VII)



O desejo de deslocamento, mudança, representaria o "lançar-se ao outro", um outro desconhecido e desejado, um outro necessário para construção e formação dos indivíduos, que pela incompletude inerente a todo ser humano, acredita poder preencher tal vazio, com a posse ou ao ser possuído pelo outro. Este outro, vislumbrado na figura do novo local, o local de destino, visto como fonte de possibilidades e riquezas. O processo migratório, então, incorreria num jogo de sentimento e pensamento, à primeira vista antagônicos, já que o novo é percebido como ameaçador, mas altamente aspirado.

Assim, é o "desejo" (Laplanche e Pontalis, 1991), termo psicanalítico que teria como causa a falta, a ausência, que precisa ficar em suspenso, sem realização para que a vida não perca sua razão de existir, sendo a marca da incompletude essencial " para garantir a correlativa margem de movimento" (Cesarotto, 1996, p.125):

" Como salvaguarda, entende-se, então, a natureza histérica do desejo, obrigatoriamente condenado à insatisfação, chave de sua perenidade" (op.cit., p.125).

Este desejo de mudança, transformação, relatado por nossos entrevistados como motivo da migração, encontra ressonância no estudo de Ferreira (1994), quando analisa a saída como busca de emancipação e da construção de uma identidade singular, realizando um desejo coletivo, o do desafio de uma vida em terras estranhas. Logo, o ato de deslocar-se não estaria apenas vinculado a conteúdos materiais e concretos, como o ganho financeiro, mas passaria também pela instância de conteúdos mais profundos e internos referentes ao psiquismo. A migração enunciaria no imaginário coletivo, a possibilidade de conquistas e ganhos, não conseguidos no local em que se estava como a busca da autonomia e independência, necessários ao bom desenvolvimento psíquico dos indivíduos, recaindo num processo de individuação (Vaitsman, 1994).



4.3 O Sofrimento e as Dificuldades Migrantes


A Saudade

" Eu ainda deixo o quarto gelado à noite para poder dormir de cobertor. Eu me lembro das noites do Sudeste, por causa desse friozinho gostoso. Então, eu continuo mantendo isso, eu não suporto passar calor de jeito nenhum à noite para dormir."

(garimpeiro I)

 

" De vez em quando dá uma tristeza, você fica pensando se seus filhos estão passando necessidade, apesar de conversar, de telefonar, mas é você aqui e eles lá, você vai avaliando. Você quer ver, quer tocar, sentir."

(garimpeiro II)

 

" A gente sempre foi hiperurbano, de vez em quando dá uma saudade de um shopping, dos familiares, dos amigos."

(garimpeiro III)

 

" Eu estou muito longe dos meus pais, da minha terra natal e eu nunca pensei em ficar aqui o resto da vida. Sinto falta da família, de ir a bons restaurantes, das coisas boas que há num grande centro. Ser migrante é viver com muita saudade, às vezes desesperadora e ter que engolir a seco essa saudade."

(garimpeiro IV)

 

" Às vezes eu tinha depressão, quando ficava seis meses sem ir em casa, eu entrava em depressão, eu chorava de saudade da família."

(garimpeiro V)

 

" O migrante vai sofrer sempre pela falta da família, que está longe."

(garimpeiro VI)

 

" Às vezes a gente vai a alguma festividade, e tudo ajuda a lembrar da nossa terrinha. A gente sente uma saudade muito grande, uma melancolia, uma saudade mesmo, de pai e de mãe."

(garimpeiro VII)


Como vimos, a migração não é só revestida de ganhos e conquistas, pois o deslocamento, o afastamento do familiar, engloba sofrimentos, perdas, solidão, saudades, incertezas e inseguranças, um conjunto de sentimentos e vivências, que o Eu agora deslocado (seja geográfica ou psiquicamente) precisa suportar. A busca interior por um espaço, por uma independência vivenciada na trajetória migrante, geraria angústias e sofrimentos decorrentes do processo de adaptação à nova cidade e condição, deflagrada nitidamente pela saudade do contexto sociocultutal e familiar ao qual o migrante fazia parte antes da migração. Pois, para ele, o choque cultural enfrentado no ato da mudança intensificaria a percepção da perda e do afastamento do familiar, simbolizados pela solidão e saudade, sentimentos sempre exaltados nos estudos sobre migração (Menezes, 1978; Sales, 1991; Ferreira, 1996; Rebello, 1997). Como afirma Bianco-Feldman:

"[-] Estas memórias estão intrinsecamente associadas às camadas de tempo e espaço anteriores à emigração, ou seja a ‘saudade da terra’".[...] "Em qualquer parte do mundo, imigrantes são considerados por suas elaborações de imagens da terra natal sentimentalizada em canções, poesias e narrativas." (1992,p.35 e 46)

Ao afastar-se de seu contexto sociocultural, o migrante precisa criar referências e mecanismos para lidar com os percalços da migração, pois seus antigos estratagemas não mais dão conta de sua nova realidade neste outro lugar. Assim, precisa introjetar conteúdos do novo contexto, para elaborar (4) saídas para suas atuais necessidades e experiências, salvaguardando a integridade do Eu. Menezes (1976) em seu estudo comenta sobre as mudanças decorrentes do processo migratório:

"[-] a transferência física de uma pessoa implica não só numa mudança de posição no sistema de relações sociais como também no rompimento com uma realidade que se apresenta conhecida, rotineira e pragmática, a realidade da vida cotidiana." ( p.12)

Retornando as narrativas percebemos como se desenvolvem as mudanças e os rompimentos na vida e no viver de nossos entrevistados:

" Quando eu cheguei aqui, era angustiante ficar à toa, eu estava em pique de residência (refere-se à vida agitada e corrida dos médicos residentes). Então, deixava muito a desejar, sem vida social, sem agitação, não a agitação de boite, mas uma vida mais acesa. As coisas não funcionavam do jeito que eu queria, até porque não existia matéria-prima para esse funcionamento. Comecei a dar uma freada, ver melhor a realidade do estado, dos centros de saúde, dos profissionais. Porque até isso é diferente. Lá embaixo, os auxiliares de enfermagem têm um nível, aqui eles têm outro completamente diferente."

(garimpeiro I)

 

" Existem muitas dificuldades, não só minhas, não só na área da saúde, mas no todo. Por exemplo, o fato daqui ser isolado do resto do Brasil, como costuma se falar, as coisas se processam de um forma muita lenta e isso deixa muito a desejar. Os planos da gente, não se concretizam com a vibração e o entusiasmo que a gente achava."

(garimpeiro IV)

 

" Eu senti muita dificuldade de relacionamento com os meus colegas de trabalho, que também não eram daqui e já estavam há cinco, dez anos em Boa Vista. Eles rechaçavam qualquer profissional que viesse de fora e trouxesse coisas novas, pois estavam viciados, não sabiam trabalhar se não tivesse muito dinheiro envolvendo os projetos."

(garimpeiro V)

 

" A diferença daqui é o comércio e a grande dificuldade da gente é com a alimentação e o vestuário, aqui tudo é mais caro e de má qualidade. Outro problema é a moradia, pois as casas daqui são bem diferentes das de lá de baixo (refere-se as regiões sul e sudeste do país), o tipo de casa."

(garimpeiro VII)

 

Logo, lançar-se ao novo, ao diferente também geraria dor e desconsolo, por se estar longe daquilo que era familiar e próximo, como cultura, família, amigos, impulsionando o migrante a seguir em sua trajetória de ganhos, perdas, ausências e faltas, representada pelo contexto do provisório-permanente, do desejo de retorno. Ao chegar na cidade de destino, percebe que seus espaços e vazios existenciais não podem ser preenchidos, a cidade almejada não é a cidade ideal, e nem nunca será, tornando-se o migrante um eterno insatisfeito, à procura de seu espaço e local. Desta forma, prossegue em sua caminhada colocando metas, objetivos e planos a serem alcançados, utilizando-os como meio, mecanismo de estruturação e defesa, para as vicissitudes da vida, podendo ser visto e simbolizado como personagem máximo da trajetória e desenvolvimento humanos, e Ferreira (1996) nos auxilia nesta reflexão:

"Ao pensar a relação intrínseca do ser humano com o outro, com o tempo, com o espaço e com as perdas, vimos o migrante como um companheiro mítico. Ao deixar para trás seus objetos e espaços preciosos, para construir em outro lugar o seu devir, ele experiencia de forma mais dramática um itinerário que é de todos nós. Para forjar nossa consciência, nossa autonomia e nosso devir, temos que elaborar nossas perdas e estabelecer alianças com a diferença do outro, que também vive em nós" (Ferreira, 1996, p.240).



4.4 O Novo Contexto


O Provisório-Permanente

"Não sei se é descontínuo, mas é muito provisório. Eu nunca pensei em ficar, eu não considero descontínuo, porque eu nunca pensei em ir ou ficar. Na verdade eu continuo querendo ir, eu só não fui ainda. Eu demorei muito para montar o consultório, porque eu tinha idéia de voltar em dois anos, a princípio. Hoje eu quero voltar, mas não tenho data para isso acontecer. Por isso eu não investi realmente aqui, porque eu tinha idéia de voltar em dois anos e pronto."

(garimpeiro I)

 

"A realidade encontrada aqui trouxe insegurança, tanto que eu mantenho um pé lá. Você tem um certo lá, um certo aqui, mas tem que criar certeza aqui. De qualquer maneira, é uma decisão que fica pro ano que vem (a decisão de continuar ou retornar). E vai empurrando, não há nada na vida como o tempo."

(garimpeiro II)

 

" O permanente às vezes é uma coisa utópica, distante, a gente sonha com o permanente. Mais segurança, crescer num lugar, fincar raiz, como se fosse uma planta, mas não é possível, existe uma biodiversidade, e o resto é espaço, a gente às vezes consegue, às vezes não. E a provisoriedade relacionada à cooperativa é que me incomoda, porque se eu cair doente, meu salário seria reduzido à quinta parte do que ganho, porque só essa parte é permanente, me garante o direito de adoecer. A falta de segurança e estabilidade da cooperativa incomodam bastante. Nós estamos inseridos num contexto social, então, esse sonho acaba não dependendo só de você, sendo difícil colocar se é provisório, se é permanente."

(garimpeiro III)

 

"A maioria das pessoas com que eu convivo vem de uma outra estrutura e de repente se vê naufragado aqui, e quer sair, quer fazer um pé de meia, alguma coisa para o estado, mas não deseja ficar. Eu não penso em ficar aqui para sempre."

(garimpeiro IV)

 

"Eu já tinha passagem para voltar, era uma certeza que eu jamais poderia deixar de ter. Ter uma passagem já paga na minha mão, para voltar. Isso me dava uma segurança, porque eu sabia que se qualquer coisa desse errado eu tinha certeza que eu poderia voltar, mesmo se não tivesse um centavo. Foi uma das coisas que eu nunca fiquei sem, a minha passagem de volta."

(garimpeiro V)

 

"Eu não consigo pensar nesta palavra aqui ( permanente), eu me nego a pensar nesta palavra aqui, permanente não! O provisório-permanente, acho que são as circunstâncias, essa eu consigo pensar. São circunstâncias que te seguram, as coisas vão melhorando, você vai se estabilizando e acaba ficando mesmo. Meu tio está nessa há vinte anos, vive dizendo que vai embora, mas permanece aqui."

(garimpeiro VI)



As narrativas acima nos confirmam o desejo de retorno ao contexto sociocultural do migrante e a influência do contexto da nova cidade reforçando ou mesmo estimulando esse desejo. A instabilidade gerada pela cooperativa de saúde, que não estabelece nenhum vínculo oficial, como a assinatura de um contrato que dê garantias trabalhistas a esses profissionais, é considerada como grande fator negativo, e gerador de insegurança. Sendo assim, vemos surgir a teia do provisório-permanente, onde o desejo de retorno existente desde a partida, é intensificado pelas dificuldades encontradas no novo lugar, mas outras situações e acontecimentos levariam o migrante, embora insatisfeito, a permanecer nesta cidade.

Como nos salientou Ferreira ( 1996), toda migração implicaria "em rupturas de ligações e confrontos de valores e de sistemas simbólicos" (p.84), levando o migrante a criar outras formas para explicar e representar os fenômenos vivenciados com a mudança. Assim, elaboraria novos mecanismos e sistemas de valores para dar conta da nova realidade, que passariam a referendar o mundo no seu novo local. Talvez por isso sinta tanta dificuldade em retornar a seu antigo contexto, mesmo com as insatisfações do atual.

As dificuldades de retorno do migrante, como o seu desejo em realizá-lo, é bastante discutida entre os pesquisadores deste tema, que afirmam que na maioria das correntes migratórias, o retorno não seria mais possível, criando-se a tendência destes se fixarem na cidade para qual migraram, sem deixarem no entanto, de idealizarem um possível retorno (Sales 1991) e Rebello (1997) faz um alerta sobre esta dificuldade de retorno:

"Podemos pensar que não há retorno possível para o migrante que já experimentou um rompimento, uma "morte", uma cisão. Fazer de volta o mesmo percurso, significaria retomar memórias que foram "silenciadas", pondo em risco toda a sua integridade"(Rebello, 1997, p.73).

 

O Tempo

"Acho que perdi muito da minha agilidade, eu era bem mais rápida. Em São Paulo, eu acordava às seis horas da manhã, às sete já estava no hospital, já aqui, entrava no serviço às oito, quando não entrava às oito horas e trinta minutos. A impressão que dá é que se está perdendo tempo."

(garimpeiro I)

 

"A velocidade é diferente, lá (São Paulo) você tem uma velocidade maior, aqui você pára e anda. Cada dia que você anda, mesmo que seja no Rio ou em São Paulo, você fica dois anos atrasado, aqui você fica seis. Eu brinco às vezes que o tempo aqui custa a passar."

(garimpeiro II)

 

"Ter contato com outras pessoas, culturas, mesmo o fato do índio, é interessante. A gente chega aqui e vê que tem um povo que ainda vive na idade da pedra, como os ianomamis. [-] Todo lugar onde as pessoas têm muito tempo ocioso, se fala muita besteira. A minha cidade é um polo industrial, então, não tem muito movimento, pois está todo mundo trabalhando, ocupado, não sobrando tempo para ficar nas calçadas ou nos portões conversando, como aqui."

(garimpeiro III)

 

"Por ser isolado do resto do Brasil, como costuma se falar aqui, as coisas se processam de uma forma muito lenta, e isso deixa muito a desejar. Eu fiquei dois anos mais velha, em São Paulo não daria tempo de perceber."

(garimpeiro IV)

 

"Eu acho que três anos de Boa Vista significam seis anos lá fora (regiões sul e sudeste do Brasil), em termos de experiência profissional principalmente. Aqui você trabalha contra a máquina, brigando contra as circunstâncias e sem recurso nenhum."

(garimpeiro VI)



Como nos textos pesquisados sobre a migração, as narrativas de nossos migrantes nos remeteram às categorias tempo e espaço, que no presente trabalho encontram-se inscritas na metáfora do provisório-permanente. Percebe-se, então, que ver a sua situação como provisória na cidade de Boa Vista, ajudaria o migrante a localizar-se no tempo, pois estaria estipulando um período destinado a sua nova condição e a este novo lugar, que apresenta um ritmo temporal diferente do vivenciado em seu antigo contexto. Assim, haveria duas temporalidades distintas percebidas pelo migrante: a do seu lugar e a do novo lugar, onde o ritmo lento da nova cidade o levaria a uma defasagem cultural que contribuiria para sua permanência, visto que, sente-se ultrapassado ou fora do contexto de sua antiga cidade, com o passar dos dias. Tal diferenciação de temporalidade é comparada às narrativas migrantes, encontradas em estudos como os de Menezes (1976), Ferreira (1996), Rebello (1997) entre outros, que ressaltam as alterações vivenciadas com a mudança do campo para a cidade:

"Na multiplicidade de subjetividade percebemos que construir um novo espaço, num outro tempo força o confronto, põe em relevo as dualidades rural \ urbano, natureza \ cultura, eu \ outro." (Rebello, 1997, p. 79)

Partindo, então, da própria situação migrante, vemos demarcados por nossos sujeitos, limites que definiriam suas posições no mundo, pois delimitaram seus processos, experiências e desejos, utilizando como marco referencial a mudança, ou seja, o antes e o depois da migração, bem como o desejo de retorno à sua cidade ou o desejo de saída da nova cidade. Assim, teríamos passado, presente e futuro representados pela nova e atual situação, a de migrante, aquele que está fora, e este estar fora, em alguns momentos dos discursos coletados, significaria estar alheio, de fora dos acontecimentos e realidade do "mundo lá debaixo", do mundo desenvolvido das regiões sul e sudeste do país, estando portanto, fora de seus espaços e tempos.

Outro comentário que poderíamos tecer sobre a provisoriedade migrante, refere-se à suposta segurança que o sentir-se de passagem gera, ao camuflar a perda ou o afastamento do familiar gerado pelo deslocamento geográfico. Assim, o estar provisório na nova cidade reduziria as angústias e sofrimentos advindos da mudança de contexto sociocultural, incentivando o migrante a continuar em sua trajetória, na busca de seus objetivos e conquista.


4.5. O Mecanismo

Não Posso Parar...

Não, não, não posso parar.

Se paro, eu penso,

Se penso, eu choro.

Não, não, não posso parar...

(Moacir Franco)


" Não é muito interessante ficar pensando, porque eu posso não chegar e desistir antes, acho que é uma forma de defesa... Namorar foi um mecanismo. Procurar alguma coisa que está faltando, como religião, trabalhar, estudar e sair de Boa Vista nos finais de semana em que não estou trabalhando. Até um tempo atrás, eu trabalhava todo sábado no consultório, porque é um dia tranqüilo e eu não fazia nada, então, trabalhava."

(garimpeiro I)

 

" Você se embrenha em ler e trabalhar e na hora em que fica chato você liga para casa, conversa uma ou duas horas, mas é diferente, mas você conversa e vai tentando uma válvula de escape. Preenche todo o tempo possível para não ficar pensando."

(garimpeiro II)

 

"Eu sempre fui de parar muito para pensar, sair andando. Às vezes eu estou de cabeça quente, pego a bicicleta vou andar à noite, vou pensando. Mas aqui, cada vez faço menos, estou trabalhando num ritmo, que não sobra tempo."

(garimpeiro III)

 

" Aumentei minha carga horária, e tenho vontade de aumentar cada vez mais. O trabalho é a peça onde você se apoia, eu acho que é um jeito de poder agüentar, sei lá."

(garimpeiro IV)

 

" Eu ganhava bem, então a cada quatro meses eu ia para casa inclusive quando eu achava que estava entrando em depressão, eu viajava. Passava uma semana, e voltava."

(garimpeiro V)

 

" O dia-a-dia, o convívio do dia-a-dia, trabalho, alguma coisa de literatura, um bate papo e uma farra caseira."

(garimpeiro VI)

 

" No meu caso, a saudade é controlada pelo trabalho, é o trabalho que ajuda. A gente trabalhando muitas vezes disfarça, tira esse negócio da cabeça."

(garimpeiro VII)



Estas narrativas nos fizeram lembrar da cantiga mencionada na epígrafe do capítulo, usada em acampamentos de colégios militares, por seus alunos, como forma de estímulo, para não desistirem de tarefas e desafios impostos por seus superiores. Utilizavam a pequena canção para ocuparem o tempo e a cabeça, como um forte refrão para conseguirem chegar ao fim do caminho, sem contudo apagarem as marcas deixadas por tais desafios, que até hoje são exaltadas e relembradas como duras e necessárias conquistas para o desenvolvimento pessoal e profissional, imprescindíveis à carreira militar, visto que, estes acampamentos também geravam sofrimento, luta e desafio e a cada dia encontravam uma surpresa e um obstáculo que precisavam superar ou resistir. Percebemos, então, a grande semelhança entre o não pensar, para não chorar dos alunos em acampamento e do não pensar na situação migrante, vivenciada por nossos entrevistados, usando o trabalho e o preenchimento total de seu tempo como forma de não desistirem de suas metas.

Vemos, então, que os sujeitos de nossa pesquisa foram criando mecanismos e saídas para tentarem se adaptar ao novo contexto, ou pelo menos suavizar as dificuldades encontradas e vivenciadas com a nova realidade. Deixar de pensar, ocupar todo tempo disponível, entrar em contato com a família que está longe, bem como viajar e trabalhar, parecem ser as principais saídas encontradas para suportarem a atual situação, já que o lazer e a parte cultural da cidade de Boa Vista, deixam muito a desejar, não servindo como mecanismo.

No entanto, é no trabalho que eles parecem se apoiar, aumentando a carga horária, elaborando ou vislumbrando projetos que possam desempenhar em seus ambientes de trabalho, ocupando desta forma suas mentes com pensamentos voltados para o profissional, impedindo que outros tomem conta, levando ao desânimo e ao abandono de ideais e metas, elaborados para a nova cidade. Não pensar, significaria uma forma de negar a condição migrante, de Eu deslocado, de sujeito afastado de seu contexto e referência.

Logo, a negação (5) seria o mecanismo (6) utilizado pelos migrantes para suportarem tais dificuldades e não desanimarem antes do tempo. E como já foi mencionado, nossos sujeitos a princípio negaram a própria condição de migrante, delegando a um outro este papel, ao nordestino. Desta forma, representaram a utilização deste mecanismo de defesa pelo ato de não pensar na situação que estavam vivenciando, preenchendo todo tempo disponível com o trabalho, segundo eles, a verdadeira meta que possuíam. Com este comportamento impediam, que pensamentos e idéias negativas à cerca da condição de estrangeiro, pudessem perturbá-los, levando a não realização dos planos e metas formulados para a estada em Boa Vista.

Percebemos, então, através das narrativas, que o deslocamento geográfico ocasionaria um deslocamento do Eu. O eu deslocado precisa criar novos mecanismos e estratégias para lidar com as vicissitudes da migração geradas pela nova condição, pois os conteúdos fornecidos por seu contexto sociocultural não mais dão conta de suas necessidades e experiências na nova cidade. Precisariam, portanto, introjetar os conteúdos do novo contexto para elaborar novos meios e saídas para salvaguardar o Eu, mas a negação da condição imigrante dificultaria esta elaboração (processo de desidentificação). (Ferreira, 1996)


4.6 Uma Escolha, uma Renúncia

" Eu sinto falta da minha família, principalmente da minha mãe, de casa, de minhas amigas. Mas não é uma falta que me atrapalhe, é uma falta que eu não tenho necessidade de continuar sentindo. Porque quando eu cheguei aqui já vim meio preparada para não ter as pessoas que tinha lá (São Paulo)."

(garimpeiro I)

 

" Quem vem de um grande centro tem problemas de adaptação, por causa do referencial. Você tem que baixar um pouco a bola, pois quem teve acesso a informação, quer sempre mais."

( garimpeiro II)

 

" Eu sou funcionário público e tive algumas dificuldades para conseguir a liberação (refere-se ao pedido de licença e transferência que precisou fazer para se mudar para Roraima) e minha esposa também era funcionária pública. Eu possuía um vínculo federal e outro municipal e ela era do estado. Conseguimos a licença sem vencimento no município e no estado, e a minha transferência para Boa Vista, pelo vínculo federal. Só que o prazo venceu e tivemos que pedir exoneração."

(garimpeiro III)

 

" Quando retorno a São Paulo, vêm todas as dificuldades dos tempos que eu passei por lá e queria sair. Mas eu gosto das coisas que têm lá para me divertir: dos passeios, cinema, teatro. Essas coisas da vida, da gente ficar um pouco mais chique, se arrumar mais, eu gosto. Além dos meus pais estarem lá, é a minha terra."

(garimpeiro IV)

 

" A oferta salarial era tentadora, eu vim para receber cinco vezes mais do que eu ganhava em Curitiba. Então, financeiramente melhorou, mas profissionalmente, eu estacionei, parei desde que saí de lá. Isso para mim foi muito negativo, sinto falta de uma reciclagem."

(garimpeiro V)

 

" Embora eu tenha conseguido me estabilizar relativamente, é tudo muito longe, eu estou muito longe da minha família, de grandes amigos. Você constrói todas as suas relações e deixa tudo, para tentar construir isso tudo em outro lugar, é muito difícil."

(garimpeiro VI)

 

" Logo no início você sente aquela falta, das coisas que você tinha lá, e não tem aqui."

(garimpeiro VII)

 

O título acima foi escolhido em alusão ao filme Intersection - Uma Escolha, uma Renúncia, de Mark Rydell (1994), comentado por um paciente nosso em processo terapêutico. O filme fala do dilema enfrentado por um bem sucedido arquiteto: continuar com a esposa e a filha ou recomeçar a vida ao lado de sua amante. Esta obra representa de forma clara a busca e as dúvidas existenciais dos seres humanos, que desejam o prazer, mas temem as perdas e renúncias destas futuras conquistas, nos transmitindo a realidade de nossas escolhas e desejos, a necessidade de estarmos atentos para a responsabilidade ao optarmos por uma situação em detrimento a outra, ou seja, a eterna incompletude e insegurança que acompanham a nossa formação e desenvolvimento psíquicos.

E foi baseado nessa premissa de que uma escolha exige automaticamente uma renúncia, que analisamos as narrativas de nossos migrantes, como exemplo do processo de mudança que ao mesmo tempo, gera dor e prazer; angústia e satisfação.

Segundo os migrantes, ao partirem, fizeram uma escolha que resultou na renúncia do convívio familiar, do acesso aos bens de consumo e serviço que um grande centro proporciona, como opção de lazer, cultura, aperfeiçoamento profissional e a troca de experiência. Tudo isso em nome da conquista de independência, autonomia e busca pessoal, que não eram mais possíveis serem alcançados em suas cidades ou estados. Assim, perceberam que a migração foi em suas vidas uma mistura de perdas e ganhos, de conquistas e abandonos, deflagrando sentimentos como o da solidão, da insegurança, da satisfação pelo espaço conquistado na nova cidade, como pessoas e profissionais, além do ganho financeiro.

Logo, a busca pelo prazer (7) que começa pela falta, recai em tantas outras faltas e ausências, decorrentes de escolhas e conseqüentes renúncias, visto que o novo exigiu o abandono e distanciamento do antigo e conhecido, dos referenciais até então, utilizados para o reconhecimento e diferenciação do eu.



As Novas Conquistas e Referenciais - O Familiar se Torna Estranho

" As pessoas daqui, tanto os nativos, quanto os migrantes, acreditam mais num médico que é de São Paulo. Assim, estar aqui sendo de São Paulo é bem melhor. No entanto, você tem a impressão de que está perdendo tempo, de que as coisas estão acontecendo nos outros lugares e você não está acompanhando e seus dias estão indo embora."

( garimpeiro I)

 

" A volta assusta, assusta todo mundo, então, você vai ter que dar um tempo para se readaptar e ver. Assusta, porque no decorrer do tempo você ganha por estar aqui, mas posso também está perdendo por ficar aqui. A instituição em que eu trabalhava ( em São Paulo) precisou colocar alguém no meu lugar e essa pessoa está lá tocando, e em São Paulo você se recicla, faz uma troca, aqui não."

(garimpeiro II)

 

" Não é difícil ser migrante aqui, em termos de oportunidade, esse é um estado que oferece oportunidade para quem vem de fora."

(garimpeiro III)

 

" Aqui as pessoas realmente te reconhecem, te ajudam. A gente é bem recebido, é bem acolhido, acho que a importância se dá pela própria carência. Então, o serviço da gente se torna importante, as pessoas tentam agradar."

(garimpeiro IV)

 

" As pessoas aqui da terra recebem bem a gente que é de fora."

(garimpeiro V)

 

" Graças a Deus eu nunca tive problemas, fui bem recebida. A carência aqui é grande e a maioria dos profissionais, também é de fora."

(garimpeiro VII)

No entanto, conseguiram criar novos mecanismos para suportarem tais perdas, estando vinculadas a outros ganhos desejados e conquistados na nova cidade, criando-se também novos impasses, como o desejo de retorno se chocando com a satisfação do espaço profissional e pessoal atingidos com a migração. A decisão de retornar à suas regiões de origem, recaindo em novas renúncias, como a da fama, do reconhecimento ou do ganho financeiro. Sendo assim, nossos migrantes verbalizaram o atual dilema de suas vidas: permanecerem em Boa Vista e continuarem sendo os profissionais reconhecidos, imprescindíveis e bem remunerados, que são, ou retornarem para um centro mais desenvolvido que possa lhes proporcionar opção de lazer, cultura e aperfeiçoamento profissional, além da maior proximidade da família. No entanto, a saída de Roraima é entendida como ameaçadora, como um dia foi a chegada, pois não se sentem mais pertencentes ao antigo local, já que a distância de Boa Vista em relação aos grandes centros dificultou o acesso a cursos, congressos e trocas com outros profissionais mais atualizados, gerando assim, um desnível entre os profissionais que são, e os que deveriam ser para retornarem ao Brasil (8), além da vida tumultuada de uma grande cidade, situação a que talvez não consigam se readaptar, devido à tranqüilidade de se viver numa cidade afastada e pouco desenvolvida, como é Boa Vista.

"E agora nós dois estamos ( ele e a esposa) assim. Sabe, não adianta correr demais, a não ser que tenha uma oportunidade boa, aí sim, sairíamos de Boa Vista."

(garimpeiro III)

 

" Eu iria com as crianças na frente e o meu marido ficaria aqui. Depois que eu estivesse arrumada, ele iria. Porque largar tudo, com três filhos, a gente não tem condições. Aqui, nós fomos bem aceitos no consultório, vamos bem no serviço, somos reconhecidos."

(garimpeiro IV)

 

" Um dos motivos por que eu acho difícil sair daqui, é a defasagem profissional, porque se eu voltar hoje e for competir no mercado de trabalho, ficarei muito atrás, com certeza. A não ser, que eu consiga emprego no mesmo lugar onde já trabalhei, lá, o pessoal me conhece e sabe que eu posso desenvolver um trabalho."

(garimpeiro V)

 

" Só que, para ir embora daqui não basta pegar a mala e bater de porta em porta, porque há outras coisas em que se pensar, não podemos sair na loucura e começar tudo do zero."

(garimpeiro VI)

 

" A gente já tem um trabalho, já se adaptou, largar tudo isso para começar de novo, demora mais tempo, fica mais difícil."

(garimpeiro VII)

Nossos garimpeiros, então, entendem a volta a suas regiões como o abrir mão do espaço conquistado, voltando a ser mais um profissional que necessita começar de novo em sua trajetória para lutar por um lugar de reconhecimento e conquista.

Ao fazermos um paralelo, entre tais angústias e dúvidas, vemos se delinear em nossa frente a discussão do familiar versus estranho, que acompanhou toda nossa discussão sobre o processo migrante, visto que, o novo contexto e posição anteriormente vivenciadas como estranhas e ameaçadoras, hoje tornaram-se familiar e próximos, passando a ser estranho e duvidoso o contexto sociocultural a que pertenciam, por não se perceberem mais inseridos ou preparados para ele, como nos mostram as narrativas abaixo:

"Olha, é tão estranho, é muito estranho, porque é uma sensação assim: - puxa, eu queria tanto chegar, mas quando chego é tão diferente. Tem poluição, trânsito, eu acho horrível. Ficar na casa dos outros, sinto falta da minha casa, da liberdade de estar na minha casa, com o meu carro, independência. Estar na casa da minha mãe é bom, mas existe cobrança, para onde você vai, a que horas volta. Esse é o momento estranho."

(garimpeiro I)

 

"Claro que o retorno assusta, assusta todo mundo, você vai ter que dar um tempo para se adaptar. O contato com a cidade é bom e é ruim. Se tiver que voltar, fugiria do trânsito, arranjaria outras alternativas, helicóptero, centralizaria as atividades para fugir dessas coisas. Sairia daquele concreto todo."

(garimpeiro II)

 

"Toda vez que eu vou, fico preso em congestionamento e começo a amaldiçoar a cidade. Digo que nunca mais vou voltar. Acho que a última vez que tive por lá isso aconteceu muito comigo, eu já não me senti muito do lugar, as coisas vão mudando, é como se não fosse mais a casa da gente."

(garimpeiro III)

 

"Você vai para São Paulo, eu sei que em São Paulo e no Rio está difícil de viver, a gente cria até um certo medo, no primeiro instante, parece aquele cara do interior, aquele caipira que chega lá e se assusta. Aí, você sente saudade da calma, da tranqüilidade do trânsito de Boa Vista, da parte pessoal, onde as pessoas realmente te reconhecem, te ajudam. De repente, voltar e ter teu lugar é apavorante, acho que quanto mais você fica aqui, mais você se desliga das coisas de lá, e se torna difícil voltar. Eu não sei como é voltar."

(garimpeiro IV)

 

"Quando eu constituí família aqui passei a sentir falta de Boa Vista. Ia, para a casa dos meus pais e me sentia uma visitante. Sentia falta do meu espaço aqui, quer dizer , essa raiz foi aos poucos se criando aqui, sem eu perceber. Só percebi quando cheguei em casa e me estranhei lá, me senti mais daqui do que de lá."

(garimpeiro V)

 

"Da primeira vez que eu fui, tive uma sensação estranha de não pertencer mais ao local. Cheguei de braços abertos e as pessoas estavam muito fechadas. Da segunda vez, eu já fui prevenida, para não ser bem recebida."

(Garimpeiro VI)

Verificamos que nossos migrantes ao criarem mecanismos e referências para a nova situação, recairam em processo de desidentificação, "no trabalho de elaboração da identidade migrante" (Ferreira, 1996, p.160). Ou seja, abriram mão das identificações apreendidas ao longo de suas construções pessoais e individuais para dar lugar a um outro, incorrendo em processo de duplicação, para dar conta das novas exigências surgidas pelo atual contexto, bem como das suas próprias necessidades e aspirações de mudança e conquista, como da independência, da autonomia e da busca de espaço e lugar próprios. Assim, a desidentificação seria entendida como processo desejado e necessário na trajetória migrante.

"Em relação ao migrante, vimos que ele tende a vestir uma nova indumentária para tentar se livrar daquela que ele portava anteriormente, neste sentido, o processo mais interessante no trabalho de elaboração da identidade migrante, é o processo de desidentificação, seja para dar conta do outro que ele assume, seja para reelaborar as encarnações anteriores" (op.cit., p.160).


4.7 Os Frutos do Garimpo

"Maturidade e experiência. Eu cresci muito no aspecto de convivência social, pois tive que fazer novas amizades, já tinha feito isso outras vezes, mas aqui é diferente , porque as pessoas são diferentes. E para mim, tem sido ótimo em termos de crescimento, tanto profissional, quanto de relacionamento afetivo. E essa situação de estar longe de casa, de estar numa cidade nova e diferente, de estar montando alguma coisa ou querendo montar, fazer algo que fique."

(garimpeiro I)

 

"Está valendo à pena, porque só está me enriquecendo, em termos de valor humano. Tanto que hoje, estou aqui, não pela opção do convite e sim pela opção daquilo que conquistei."

(garimpeiro II)

 

"É na experiência pessoal que a gente mais aproveita, na luta para tentar encontrar um lugar, onde a gente trabalhe, seja útil, onde as pessoas se relacionem com respeito mútuo. A gente vai passando por diversas experiências, tendo diversos contatos, o enriquecimento pessoal é muito grande."

(garimpeiro III)

 

"Eu acho que valeu à pena, na minha vida particularmente foi uma experiência que uniu muito a família. Eu conquistei um espaço até econômico, comprei minhas coisinhas, meu carro, minha casa. Vi que nos primeiros momentos difíceis agüentei firme."

(garimpeiro IV)

 

"Conquistei o meu espaço, e melhorei financeiramente."

(garimpeiro V)

 

"Está sendo uma experiência boa , era mais egoísta, estou mais tranqüila para resolver as coisas, mais segura, menos ciumenta. Formei uma família que é excepcional, não tem como não falar nisso. Eu adoro aquelas pestinhas, foi uma coisa muito importante na minha vida."

(garimpeiro VI)

 

Foi uma experiência boa, serviu para crescer mais como pessoa, como profissional. Eu recomendaria essa experiência a outras pessoas, pois ajuda o nosso interior, até na parte familiar. Ao se afastar da família você se torna mais auto-suficiente, e isso é bom para o crescimento do ser humano."

(garimpeiro VII).

Se a princípio, nosso garimpeiros representaram a migração através do sofrimento, dor, perdas e renúncias, ao final de nossa entrevista, verbalizaram o lado mais suave e benéfico da migração. Considerada, então, como um processo enriquecedor, visto que, pela mudança de contexto apreenderam outras formas de lidar com as adversidades. Atingiram um espaço de reconhecimento onde são valorizados e respeitados, sendo a autonomia e a independência da família, fatores exaltados como grandes conquistas.

Logo, a migração pode ser encarada como fenômeno representacional da trajetória humana, onde a necessidade de renúncias, perdas e ganhos levam o indivíduo a reelaborações psíquicas e sociais, para o equilíbrio e salvaguarda do eu, sendo a cultura e o meio em que está inserido grandes suportes identificatórios, para a elaboração de mecanismo para enfrentar e entender os fenômenos ocorrentes no mundo que o cerca. Ferreira nos ajuda a pensar esta questão ao esclarecer que:

"Enfocamos aqui a experiência migrante como representação dramática do movimento constituinte da subjetividade e da alteridade. A ruptura, a renúncia, o deslocamento no espaço do outro e a reelaboração dessas experiências são exigências colocadas a todo ser humano para que possa se afirmar enquanto eu. Neste sentido, o migrante é um representante mítico da jornada que todos nós empreendemos em nosso devir de sujeitos" (Ferreira, 1996, p.o6).

Fechemos nossos comentários sobre as narrativas migrantes dando vazão à própria fala de nossos personagens , que declararam como satisfatórias as entrevistas e encontros para abordagem de nosso tempo, recobertos de emoção, desabafo, formulações e reformulações acerca das experiências pessoais decorrentes da migração.

"Foi um situar dentro da história, na verdade a gente normalmente não faz muito isso, a não ser que alguém puxe pela gente É sempre bom reavaliar, mas em algumas circunstâncias você coloca um objetivo, e reavaliar pode levar você a não atingir o objetivo. Reavaliar, pensar sempre é bom, mesmo a parte que incomoda."

(Garimpeiro I)

 

"Foi até gostoso, mas isso é de cada um, eu gosto de parar e pensar, sempre tive essa característica de me retirar um pouquinho, e ultimamente não estava dando tempo para fazer. Estou curtindo este tempo, não tenho mais nada para falar, mas fiquei com uma sensação positiva."

(garimpeiro III)

 

"Foi ótimo, eu fiz uma ‘psicoterapia’, foi terapêutico. Estou num momento em que há dez meses não vou a minha cidade, e falar sinceramente das coisas, não é com qualquer um que se pode falar."

(garimpeiro IV)

"Foi bom, gostei. É bom relembrar quando a experiência foi boa, no entanto eu digo que não existe experiência negativa, porque toda experiência nos ensina alguma coisa. O sofrimento faz a gente aprender mais, crescer, do que só com que é bom."

(garimpeiro V)

 

"É muito gostoso, não é muito fácil às vezes, tranca um pouco. É bom relembrar os fatos gotosos."

(garimpeiro VI)




2- Estamos nos referindo ao mecanismo de defesa "negação", verificado por Freud em seus estudos sobre a histeria. Tendo como definição: "Processo pelo qual o sujeito, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou sentimentos, até então, recalcados continua a defender-se dele negando que lhe pertença"(p.293) .LAPLANCHE, J. & PONTALIS,J.B., (1970).Vocabulário da Psicanálise. Santos Livraria Martins Fontes.

3- Estamos nos referindos as definições de desejo e necessidade, fornecidas pela psicanálise. Ver em LAPLANCHE, J. & PONTALIS,J.B., (1970).Vocabulário da Psicanálise. Santos, Livraria Martins Fontes.


4- Termos psicanalíticos que significam: Introjeção- "O sujeito faz passar, de um modo fantasístico, de "fora" para "dentro", objetos e qualidades inerentes a esses objetos." (p.248); Elaboração- "Este trabalho consiste em integrar as excitações no psiquismo e em estabelecer entre elas conexões associativas." (p.143). Ver em LAPLANCHE, J. & PONTALIS,J.B., (1970).Vocabulário da Psicanálise. Santos Livraria Martins Fontes.

5- Mecanismo de defesa do ego, verificado por Freud em seus pacientes histéricos. Ver em LAPLANCHE, J. & PONTALIS,J.B., (1970).Vocabulário da Psicanálise. Santos Livraria Martins Fontes.

6- Estamos nos referindo aos mecanismos de defesa, termo psicanalítico utilizado por Freud para conceituar que os fenômenos psíquicos que apresentariam diferentes tipos de operações para especificar a defesa a ser utilizada pelo ego. Ver em LAPLANCHE, J. & PONTALIS,J.B., (1970).Vocabulário da Psicanálise. Santos Livraria Martins Fontes.

7- Estamos nos referindo ao Princípio do Prazer, segundo Freud, que seria a redução da quantidade de excitação. Ver em LAPLANCHE, J. & PONTALIS,J.B., (1970).Vocabulário da Psicanálise. Santos Livraria Martins Fontes.

 
 
  Início