HomeLista de Teses >  [A MIGRACAO EM UM NOVO CONTEXTO SOCIO-CULTURAL: O P...]


 

Vianna, Eliane Chaves. A migração em um novo contexto sócio-cultural: o provisório permanente. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1998. 104 p.

PARTE I -MIGRAÇÃO - UMA SAGA


1- MIGRAÇÃO

A migração não é um tema recente, nem pouco estudado, fazendo remontar a história de nossa colonização. Assim, acompanhando o processo migratório do Brasil, vemos no século passado até as primeiras décadas do atual, a presença marcante de imigrantes europeus e asiáticos, fortalecendo as lavouras cafeeiras do sul do país e de São Paulo (Santos,1994; Sales, 1991). Tivemos também o aumento das migrações internas em direção aos grandes centros urbanas, ocorrendo o êxodo rural em virtude do processo de industrialização, que correspondeu à mudanças no modo de produção e no sistema econômico (Singer, 1995). Outra característica bem demarcada de nosso processo migratório, ocorrida na década de 1980, foi a saída de brasileiros de suas cidades para outros países, configurando uma "corrente migratória", que diferia do surto de emigração de brasileiros durante os anos de repressão militar, considerada migração política (Sales, 1991). Esta realidade que demarca a contramão de nossa história até a década de 80, nos chama atenção para outra mudança significativa, apresentada no Censo de 1991: - uma desaceleração no ritmo de crescimento das regiões metropolitanas. Havendo um deslocamento e procura pelos municípios das periferias metropolitanas (Bremaeker, 1997).

Os dados do Censo de 1991 chama nossa atenção para o fenômeno da queda de crescimento das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste e o aumento do ritmo de crescimento das regiões Norte e Nordeste do país, ocorrido nos estados de Roraima, Amapá e Sergipe. Especificamente no caso de Roraima, o "aumento colossal no nível de concentração de sua população", não se processou apenas em decorrência dos fluxos migratórios, mas também em virtude do desmembramento de Municípios, com vista a criação de outros (Oliveira, 1991). Pois até junho de 1982 este estado contava com apenas dois Municípios, Boa Vista e Caracaraí, sendo desmembrados em 1° de julho, criando-se cinco Municípios. Doze anos mais tarde novo desmembramento foi feito surgindo mais três, e em 1995 o estado ganhou mais cinco novos municípios.(Freitas, 1996). Este aumento de concentração populacional também pode ser explicado pelas atividades de mineração e implantação de projetos de colonização na região norte.(Bastos e Barcelos, 1995)

Verifica-se, então, que as grandes cidades, as megalópoles (Bremaeker, 1997), estão deixando de ser tão atraentes como no passado, criando-se a tendência dos brasileiros se concentrarem " em torno de novas regiões metropolitanas, menores e mais espalhadas pelo país, onde a dinâmica econômica importa mais do que o tamanho da cidade"(Rebello, 1997 p.07). Isto estaria apoiado no "gigantismo doentio" do crescimento acelerado dessas megalópoles, deixando de garantir no mesmo ritmo de crescimento as condições básicas e necessárias a sobrevivência ou subsistência dos indivíduos, tais como serviços públicos, sociais e de transporte, bem como habitação. Fazendo surgir o desemprego, o subemprego e o aumento da criminalidade (Bremaeker, 1997).

Em março deste ano a revista Veja (1998) publicou uma reportagem de capa intitulada "Fuga Para o Interior", onde mostrou que 41% dos moradores das capitais e regiões metropolitanas estão querendo distância das metrópoles, em troca de uma vida mais tranqüila e de menos exposição à violência . No entanto, esta mudança no modo de vida da população de grandes centros, nos esclarece a reportagem, não seria "um frugal sonho campestre, pois os entrevistados desejam do interior tudo aquilo que o crescimento desordenado usurpou das metrópoles, mas com o emprego e a infra-estrutura urbana bem ao alcance das mãos"(p.71). Estamos falando, então, de uma busca dos benefícios e qualidade de vida oferecidos anteriormente pelas grandes cidades brasileiras, até serem tomadas pelo desemprego, criminalidade, mendigos, congestionamentos, poluição, ou seja, pela verdadeira loucura urbana. E verificamos no depoimento de um paulista de 43 anos, residente em Poços de Caldas, Minas Gerais, a representação desse novo retrato migratório:

"Eu queria voltar a viver numa cidade gentil como a São Paulo que conheci na infância, quando podia brincar na rua com os amigos e passear à tarde na pracinha com meus pais, sem medo de ser assaltado. Aquela minha São Paulo gentil também era uma metrópole buliçosa, que oferecia a nossa família todas as coisas bacanas de uma cidade grande". (p.71)

Menezes (1976) evidenciou em seu trabalho com um grupo de migrantes, que "a instabilidade do migrante" não se apresenta por opção própria, mais sim em "decorrência das poucas alternativas de sobrevivência que lhes são dadas pelo sistema social"(p.12)

Logo, o migrante ao sair de sua cidade indica claramente uma situação de busca, de procura de melhores condições de vida, sejam elas associadas a vida econômica e financeira propriamente dita, seja a vida pessoal e profissional, deflagrando a necessidade de abandonar seu espaço e lugar, para ganhar novos mundos, na esperança de encontrar solução e conforto para suas angustias. Rebello (1997) comenta que:

"[...] a mudança geográfica parece ser a concretização de uma demanda subjetiva que juntamente com aspectos sócio-econômicos, vão impulsionar o evento."(p.58)

Assim, a mobilidade estaria na maior parte dos casos, associada a um sonho de conquista, transformação e progresso (Ferreira, 1996), a construção de um novo mundo, onde a esperança e a luta por algo melhor, impulsionaria o indivíduo a deixar para traz suas referências.

"O migrante teria que metabolizar o seu passado (perdas, morte, distanciamento) em relação ao futuro, geralmente indefinido, que tem que ser reconstruído entre essa perspectiva de um novo lugar e o sonho do retorno, já que o migrante tende a manter uma certa fidelidade à sua terra natal. Sem essa assimilação temporal pelo psiquismo, esse passado que sofre o recalcamento, sempre ameaça impor o seu retorno, que é a própria volta do recalcado." (Ferreira, 1995, p.69)

A palavra provisório representaria, então, as várias situações da vida comum que os indivíduos se submeteriam em sua trajetória, seja em busca de aventura, experiência, espaço ou mudança, como no processo migrante, um viver temporário, que evita a criação de laços, a fixação de raízes, embora, não deixe de receber e absorver as influências do novo lugar, do outro que insiste em se tornar presente.

E o que seria o permanente?! Utilizando-nos novamente do dicionário Aurélio (Ferreira, 1986), permanente seria algo duradouro, "que permanece, contínuo, ininterrupto, constante, que tem organização estável". Dentro de nossa discussão emprestamos a este vocábulo o valor de adjetivo da palavra provisório, pois a qualifica, salienta que não é um provisório qualquer, e sim um provisório mais duradouro, que permanece, possuindo uma organização estável. Esta organização basearia-se no desejo de retorno, de não fixação , onde o migrante direcionaria sua vida e planos para a realização deste desejo, mesmo que este retorno não tenha data ou condições para acontecer, podendo essa situação perdurar por tempo indeterminado, como acontece na maioria das correntes migratórias, como salientou Sales (1991). Com isso, nasceria um contexto sociocultural peculiar, o contexto migrante, caracterizado pela situação do provisório que permanece e do viver e sentir-se em constante partida.

Ao inscrevermos o contexto sociocultural do migrante na metáfora do Provisório-Permanente, apontamos para duas categorias inevitáveis, a temporalidade e a espacialidade, pois para o migrante elas seriam referências primordiais em sua trajetória, por localizá-lo no aqui e agora, no antes, para projetar um depois, no "que era antes - lá e o que é agora - aqui" (Ferreira, 1996, p.68).

Para Menezes (1976) a mudança de contexto implicaria não apenas em deslocamento geográfico, espacial, mas também numa "reorganização temporal", pois a temporalidade passaria por uma nova cronologia, sendo delimitada pela própria mudança, ou seja, contar-se-ia o tempo a partir do momento da migração. O migrante estabeleceria como referência temporal o antes da mudança e o depois da mudança, projetando o seu o futuro no desejo de retorno.

"A sequência de eventos que constituem, na bibliografia individual, o passado e o presente, passa a ser ordenada em função do "antes" e "depois" da mudança. Este é o momento de rompimento do continuum temporal que constitui a vida cotidiana dos indivíduos e se apresenta como um momento especialmente difícil, carregado de emoção e, às vezes, encarada dramaticamente." (Menezes, 1976, p.22)

Assim, ver como provisória sua situação é localizar-se no tempo, determinando, ou pelo menos tentando estipular um período, uma fração deste tempo a este novo local e a esta nova situação. O migrante passa a referendar os acontecimentos e planos ao fenômeno da mudança, do deslocamento que não é só geográfico, mas sentido também internamente, pelas várias experiências e vivências que terá que enfrentar como sujeito fora de seu local, de seu espaço.

O tempo teria um sentido de familiaridade enraizado nas ações e atos repetitivos, como as rotinas diárias, dando um valor de algo que está dentro, próximo, nos fornecendo referenciais. O ambiente físico, o espaço que ocupamos representaria nosso suporte mnemônico, estabelecendo "quem somos através de onde viemos: uma identidade temporal não apenas ligada ao passado mas também ao futuro" (Rabinovich, 1997: p.03). Desta forma, o migrante "ao decidir construir seu devir em outro lugar, ele está também optando por um novo tempo e espaço" (Ferreira, 1995, p.70), gerando com isso a destruição do passado, através de novas práticas, mecanismos e comportamentos adotados no novo lugar.

Outra questão levantada pela temporalidade relacionada ao migrar, seria a mudança na concepção de tempo, visto que o tempo do novo lugar é sentido e vivenciado como diferente do anterior. Menezes (1976) vê salientada essa diferença no discurso dos migrantes investigados por ela que "concebem de forma diferente o tempo no meio rural e na cidade" (p.23). Logo, haveria duas temporalidades uma mais lenta e percebida através dos fenômenos naturais, e outra mais acelerada, dada pelo ritmo das cidades.

A importância do provisório na vida do migrante vai muito além de seu simples desejo de retorno, estando relacionado à sua história, a seus valores e referenciais, que estão longe, afastados, precisando criar uma imagem, uma âncora, para situar-se enquanto pessoa e indivíduo. O migrante usa portanto o provisório, o temporário, o passageiro como referência temporal, para dar um sentido de familiaridade a esse novo tempo, estabelecendo outras rotinas diárias para sentir-se dentro, próximo, já que tudo que era realmente familiar ficou preso no seu antigo tempo (antes da migração) e espaço.


2-O CONTEXTO DO NOVO LUGAR - RORAIMA, UM ESTADO PROVISÓRIO

A história de colonização de Roraima como seu processo migratório atual, parece estar assentado em objetivos "exploracionistas". O artigo de Barbosa (1994) nos deixa a impressão de que o primeiro contato com as terras roraimenses, se deu por acidente de percurso, já que o caminho fluvial percorrido por esta expedição não previa a exploração pelo Rio Negro e seus afluentes, mas com objetivos bem claros: o de "descimento de indígenas locais", para serem comercializados como escravos na sede da antiga capitania do Grão Pará e Maranhão" (p. 124-125).

Nos séculos XVII e XVIII a ocupação de Roraima, assim como de outras regiões da Amazônia, se realizou como forma de defesa e resguardo da integridade das áreas da coroa portuguesa, visto que, esta área era zona de conflito entre Portugal e outros países europeus. Desde então, várias tentativas e programas de ocupação do Vale do Rio Branco (denominação usada naquela época, para o estado de Roraima), foram processados, embora sem muito sucesso. Contudo, a criação do Território Federal do Rio Branco, em 1943, pelo Governo Vargas, marca o "início de frentes migratórias devido à atividade mineral e pela nova ação do poder central na tentativa de retirar esta região do vazio populacional" (Barbosa, 1994, p.142). Com isso, altas taxas de crescimento demográfico foram verificadas nas décadas de 1940|50 e 1950|60, continuando mesmo assim, a apresentar "a menor densidade populacional do país" (op. cit, p.142).

O processo de expansão do Território Federal de Roraima, nome instituído em 13 de dezembro de 1962 (Ramalho, 1985), ocorreu de forma mais intensa nos meados da década de 80, "quando as forças políticas tomaram para si o aquecimento da corrente migratória" (Barbosa, 1993, p.178). Assim, a atividade garimpeira tem seu auge no final dos anos 80, "iniciando forte estímulo ao crescimento populacional" (p. 182). O garimpo no final do ano de 1987 até meados de 1990, levou Roraima a criar a ilusão de que esta atividade "seria a salvação para o estado recentemente criado com a nova Constituição Nacional" (op. cit., 190). No entanto, em meados de 1990, os garimpos foram fechados, devido a intervenção federal nas áreas indígenas, levando a uma derrocada da economia do estado, já que tudo e todos giravam em torno da atividade de mineração, como o comércio, as arrecadações fiscais, bem como os novos e antigos migrantes.

Em meio a tantas dificuldades econômicas, políticas e sociais, Roraima tem uma localização geográfica desfavorável, pois é isolada e de difícil acesso (só se chegando em Boa Vista, sua capital, por via aérea ou pela estrada BR 174 que liga Roraima a Manaus, não totalmente asfaltada). Sendo este isolamento o fator principal a levar este estado a "ser um dos últimos espaços vazios a serem ocupados na Amazônia" (Barbosa,1994), contribuindo até hoje para o assolamento de seu desenvolvimento, bem como, o não interesse de seus migrantes em fixarem-se, investindo em seus locais de origem os frutos conseguidos.

Assim, o mais marcante no estado de Roraima é o pensamento do provisório, do temporário, ou seja, do não investimento a longo prazo, que encontra-se estampado no viver de sua população migrante, que possui como desejo o retorno a seu contexto sociocultural, como nas expectativas dos roraimenses em relação " ao povo que vem de fora". Desta forma, Roraima poderia ser metaforicamente comparada a um enorme garimpo, onde a "exploração" seria lema e prática, onde o provisório seria permanente tanto no pensamento econômico, político e social de seus habitantes, a medida que a maior parte de seus governantes também é migrante. "Ninguém investe no estado porque só está passando uma chuva"!(1)

Estas colocações retiradas de conversas informais e de entrevistas terapêuticas, são reforçadas por um artigo publicado num jornal de Boa Vista, escrito por um roraimense declarado:

"O reflexo de como ainda Roraima é tratado como uma província, província por aqueles que pra cá vêm sem nenhum compromisso em fazer justiça. Preocupados que estão com renda familiar para investir em seus Estados de origem". (Brasil, 1997, p.02)

Ao associarmos Roraima a um enorme garimpo, estaríamos metaforicamente dando um nome, uma representação simbólica a seu contexto sociocultural, composto por várias etnias e culturas, que juntas formariam um contexto peculiar e próprio; com hábitos os mais variados possíveis, bem como os mais estranhos também, já que alguns são frutos da mistura dessas várias culturas, representando a cultura brasileira propriamente dita.

Costuma-se dizer em Boa Vista que o mapa do Brasil está todo representado, bem como parte do mundo através de sua população e costumes. Embora a maioria perceba e deseje sua estada nessas terras como passageira, temporária, parecida com a vida garimpeira. E como se sabe, os garimpeiros armam acampamento em torno dos rios ou minas a serem explorados, permanecendo apenas o tempo necessário para explorarem a natureza, deixando suas marcas às vezes eternas, sem contudo, fixarem raízes. Assim, o viver garimpeiro é um viver provisório, um eterno deslocar-se à procura de pedras e metais preciosos, um migrante em todos os sentidos que esta palavra comporta. Da mesma forma, os migrantes de Boa Vista também estariam a procura de "pedras", acontecimentos e descobertas preciosos, desejando ao final da "garimpagem" retornarem para suas cidades carregando nas mãos os frutos desta "exploração".

Percebemos, então, que o viver migrante baseado no provisório encontraria ressonância no contexto sociocultural da cidade investigada (Boa Vista), tornando mais nítida a vontade de seus migrantes em apenas garimparem sem fixarem raízes nessas terras, condicionando suas vidas e projetos ao sonho de retorno, fato bem marcado em nossas entrevistas. Assim, o contexto do Provisório-Permanente seria uma metáfora criada para retratar o reforço do desejo de retorno do migrante a seu contexto, fornecido pela estrutura sociocultural e econômica da nova cidade.

Para melhor situarmos o conjunto de características da cidade em questão, precisaríamos, fornecer algumas informações referentes ao processo de povoamento da margem direita do Rio Branco ("quase todo território do atual estado de Roraima é constituído apenas pela bacia do Rio Branco" (Freitas, 1996, p.31) ), onde localiza-se a cidade de Boa Vista, bem como o seu tipo de clima e sua população. Gostaríamos de esclarecer que os dados sobre o nome da capital de Roraima foram coletados através de conversas informais com pessoas nascidas neste estado e entrevista realizada com a Chefe da Divisão do Departamento Histórico da Secretaria de Educação do estado de Roraima, Sra. Maria Meire Saraiva Lima, que cordialmente nos cedeu tais informações, visto haver pouco material documentado sobre a história de Boa Vista, sendo este fato bastante significativo para entendermos o contexto do provisório que impera nesta cidade. Percebemos que a pouca importância e cuidado que se teve com a construção histórica deste local, pode estar relacionada segundo, as narrativas coletadas, à sua povoação ter ocorrido em meio a objetivos exploracionistas, não tendo seus primeiros colonizadores, como governantes a preocupação de registrarem os primeiros acontecimentos envolvendo a criação e estruturação deste antigo Território Federal, já que a maioria destes cidadãos também se considerava de passagem. No entanto, a Secretaria de Educação vem tentando resgatar a memória desse povo e deste estado promovendo concursos de monografias, construindo assim futuras fonte de registro e consulta.

Em 1830, o Capitão Inácio Lopes de Magalhães estando à margem direita do Rio Branco à procura de um local para fundar sua fazenda de gado, olhou à sua volta e admirado com a vista que sua posição lhe proporcionava, exclamou: - Que boa vista, daqui se tem uma boa vista. Foi desta forma, que a primeira fazenda de gado, a fazenda Boa Vista, deu origem e nome à cidade. Atualmente, o local da antiga sede da fazenda é ocupado pelo Bar Meu Cantinho, um dos pontos de encontro tradicional das famílias locais, bem como lugar de visita obrigatório dos novos moradores deste estado. Este prédio foi tombado pelo patrimônio histórico, embora não seja a casa original da Fazenda Boa Vista, por já ter sofrido várias modificações.

Assim, esta cidade de migrantes, aventureiros ou não, emprega em seu nome o panorama inusitado das margens do Rio Branco, que encanta e acalanta a saudade, melancolia e tristeza de seus moradores vindos de outras terras como o referido Capitão.

Boa Vista possui clima quente e úmido, com duas estações definidas, o inverno das chuvas que vai de abril a setembro e o verão, época da seca e dos ventos, indo de outubro a março.

Sua população em 1994 foi estimada em 172570 habitantes, contra 253059 no estado todo. Foi habitada originalmente pela tribo dos índios Paravilhanas ou Paraviana, que desapareceu por terem sido expulsos com a chegada dos Macuxis, principal tribo do estado de Roraima, que já bem aculturada hoje em dia, vive nas áreas de lavrado e na região das serras.

Os migrantes costumam atribuir às pessoas nascidas em Boa Vista, a qualificação de macuxi, diferenciando, assim as pessoas da terra dos demais habitantes oriundos de outros estados. No entanto, tal denominação não é bem aceita, já que carrega a intenção de discriminá-los, atribuindo características pejorativas como a preguiça, deficiência cultural, e outras características negativas, segundo a cultura e ponto de vista dos migrantes, que as relacionam ao viver do índio. Assim, para a maior parte da população roraimense, a proximidade ou descendência indígena, significaria uma desvalorização em relação as pessoas de outros estados, levando-os a rechaçarem suas origens e história, já que carregariam até hoje o peso da colonização com fins apenas exploracionistas, onde o nativo é visto e tratado como ser inferior e subalterno.

O "ser de fora", nestas terras não traria a marca da discriminação, presente na trajetória migrante verificada nos estudos de Menezes (1976), Sales (1991), Ferreira (1996) entre outros autores pesquisados, ao contrário, seria um fator de.valorização principalmente para o profissional de nível superior oriundo das regiões sul e e sudeste do país, que vê sua importância e utilidade aumentadas, justamente por possuir esta característica, passando da posição de discriminado a discriminador.


3-MIGRAÇÃO E PROCESSO SAÚDE-DOENÇA

Ao "garimparmos" a literatura sobre migração e processo saúde/doença, verificamos grandes achados como: o desejo do provisório contido no pensamento do migrante desde sua partida; e as conseqüências negativas à sua saúde física e mental, causadas pela mudança de contexto sociocultural.

O migrante ao sair de seu espaço em busca de melhores condições de vida, sejam elas econômica, pessoal ou profissional , levaria consigo a idéia de retorno; retorno este que, em suas fantasias representaria ganhos, descobertas, vitória; um regresso em melhores condições. A migração seria entendida como uma fase de transição, um rito de passagem, onde a dificuldade de permanecer no seu meio, seria a fraqueza, a imaturidade frente a problemas e provas da vida. A mudança para outras terras seria o processo de fortalecimento, de amadurecimento, o vivenciar da crise e seu retorno "por cima", a vitória, a resolução da crise (Woortmann,1990):

"A migração teria, então, um sentido simbólico-ritual, para além de sua dimensão prática. Ela é parte de um processo que reintegrará a pessoa na sociedade com o status transformado de rapaz para o de homem. A comparação entre fracos e fortes é útil justamente porque ela nos permite perceber essa dimensão simbólica, que poderia ficar oculta por traz das necessidades práticas dos fracos.[...] Para torna-se homem é preciso enfrentar o mundo, mesmo entre os fortes, e retornar vencedor, o que será atestado pelo dinheiro trazido na volta."(p.36)

Os migrantes valorizam as pessoas que se mudam (e, portanto, a própria atitude), definindo-as como "pessoas de coragem". Criticam aqueles que adotam a atitude inversa e preferem submeter-se a condições precárias de vida a correrem o risco, pois interpretam este comportamento como uma forma de reacionarismo e acomodação. (Menezes, 1976, p.18)

O que pesaria, então, na hora da partida seria a certeza do retorno, dando forças e estabelecendo metas ao migrante, levando-o a suportar condições as mais adversas em sua trajetória. O desejo de retorno, se tornaria o elo entre seu passado e seu presente, proporcionando certa estabilidade a seu futuro. Preso a este desejo o migrante manteria suas raízes, seus conteúdos culturais tão importantes para ele, como forma de dizer e sentir quem é.

"Lançar-se neste espaço é lançar-se ao outro. Desta forma, inicia-se um movimento de duplicação do sujeito, onde ele se vê na partida e no retorno. Com o deslocamento ele é transplantado em uma nova realidade, onde precisa se desdobrar, fazendo face às diferenças, reparando as fissuras e elaborando as perdas, frustrações e novas experiências, para romper a paralisação da duplicação e afirmar-se enquanto subjetividade e alteridade."(Ferreira, 1996, p.140)

No entanto, este sentimento de reconhecimento do eu se torna abalado com os referenciais e conteúdos desse novo mundo, tão almejado, mas estranho e ameaçador pela distância que impõe a tudo que era familiar e próprio ao indivíduo antes da migração. Assim, veríamos presentes na trajetória migrante a mistura de dor, sofrimento, amadurecimento e a procura de um outro eu, constituído a partir destas tantas experiências proporcionadas pela migração.

"Por outro lado, o indivíduo é inserido em uma outra realidade, onde, logo de início, seu psiquismo é confrontado com uma nova realidade, diferente e estranha. A partir daí, uma demanda de sentido se faz urgente, para que não seja invadido por essa estranheza." (idem: 79)

Sales (1991) comenta que "as intenções de volta fazem parte do processo migratório" (p.23), sendo um componente importante para a decisão do imigrante de se submeter a condições de vida e trabalho precários, justamente por considerar sua situação provisória. No entanto, a autora baseando-se em estudos empíricos, nos diz que o retorno na maioria dos casos não é mais possível, como na corrente migratória analisada por ela, Governador Valadares-Boston. Criando-se a forte tendência desses indivíduos fixarem-se no local escolhido para a migração, sem contudo, deixarem de vislumbrar um possível retorno.

Para Menezes (1979) a comunidade de origem perceberia a mudança, enquanto categoria, como uma "perda temporária de alguns membros, pois pressupõe o retorno destes indivíduos, embora sem uma previsibilidade de tempo".(p.21)

Ferreira (1996) em seu estudo sobre as vicissitudes migrantes assinala "que a idéia de partida geralmente está atada a um sonho de retorno", sendo, este sonho um possível fator dificultador no processo de aproximação do sujeito ao seu novo lugar de vida, aumentando as resistências no estabelecimento de novas relações. Podendo gerar um maior sentimento de estranheza em relação ao lugar e a si mesmo.

Teríamos, então, uma relação direta entre migração e provisoriedade, inscrita no desejo do migrante de retornar a seu contexto, mesmo que esse retorno não aconteça no tempo planejado, ou como na maioria dos casos, não venha a acontecer (Sales,1991)

Interessantes associações foram traçadas por Ferreira (1996) e Rebello (1997) entre mudança de contexto e adoecimento. Os dois autores partem de suas práticas de atendimento psicológico, para mostrarem a interferência do estranhamento, "de uma certa estranheza" (Ferreira, 1996), expressos no adoecimento do migrante, em virtude do novo, do "não familiar". Assim, levantam a questão de se perceber a localidade de nascimento dos sujeitos que procuram atendimento, não apenas como rotina no preenchimento de prontuários, mas como um dado preponderante na escuta do paciente. Torna-se necessário compreender como os autores conceituam o termo estranhamento, para então, pensarmos na sua associação com o migrar.

Ferreira utiliza o texto "O Estranho" de Freud (1919), para explicar o estranhamento vivenciado pelo migrante, ao defrontar-se com sua nova realidade, ou seja, a do novo local.

Freud, impelido em estudar o tema da estética, que entendia por "teoria das qualidades do sentir" (p. 275), abordou o tema do estranho, já que o considerava um ramo desse tipo, significando aquilo que é assustador e provoca medo e horror. Utilizou o estudo de Jentsch (1906), sobre o estranho, (por ser a única literatura médico-psicológica que conhecia sobre o assunto), dicionários de diversas línguas, (para aproximar as palavras em alemão "unheimlich", que seria o posto do que é familiar, "heimisch", nativo e "heimlich", doméstico), bem como o conto "O Homem de Areia" de Hoffmann, para tentar definir a categoria estranho.

Partindo de Jentsch, viu o termo ser relacionado ao "que é assustador com o que provoca medo e horror" (Freud, 1919, p.276). Concluiu, que o estranho era assustador, justamente porque não é "conhecido e familiar". No entanto, esclareceu que "que nem tudo o que é novo e não familiar é assustador" (idem: 277), não podendo desta forma ser invertida a relação. Assim, algo precisaria ser inserido ao não familiar, para torná-lo estranho.

"De um modo geral, Jentch não foi além dessa relação do estranho com o novo e não familiar. Ele atribui o fator essencial na origem do sentimento de estranheza à incerteza intelectual, de maneira que o estranho seria sempre algo que não se sabe como abordar. Quanto mais orientada a pessoa está, no seu ambiente, menos prontamente terá a impressão de algo estranho em relação aos objetos e eventos nesse ambiente." (Op. cit., p.277)

Ao visitar os diversos dicionários para buscar uma definição para "Heimlich", descobre que esta palavra tem o "significado que se desenvolve na direção da ambivalência, até que finalmente coincide com o seu oposto, unheimlich"(Op. cit., p.283). Percebemos, então, que o estranho é algo familiar, que deveria ser mantido oculto, mas que insistiu em se pronunciar.

Analisando o conto de Hofmann, Freud, chegou ao "fenômeno do duplo", demonstrando esse fenômeno através dos personagens, "que devem ser considerados idênticos porque parecem semelhantes, iguais".

"Essa relação é acentuada por processos mentais que saltam de um para outro desses personagens - pelo que chamaríamos, telepatia - , de modo que um possui conhecimento, sentimentos e experiência em comum com o outro. Ou é marcada pelo fato de que o sujeito identifica-se com outra pessoa, de tal forma que fica em dúvida sobre quem é o seu (self), ou substitui o seu próprio eu (self) por um estranho. Em outras palavras, há uma duplicação, divisão e intercâmbio do eu (self)." (Freud, 1919, p. 293)

E foi a partir desse jogo do duplo que Ferreira (1996) teceu suas hipóteses sobre as vicissitudes migrantes, afirmando que o desejo de migrar, de deslocar-se está relacionado ao lançar-se ao outro.

"A vivência migrante poderá passar por essas três situações. No primeiro momento, o migrante está culpado por trair suas origens e ao mesmo tempo, gostaria de se livrar do tributo dessa origem. Num segundo momento, ele deve se desprender das raízes para seguir seu destino de migrante, isto é, reconstruir sua identidade. Ele sofre assim o fascínio de ser outro e a ameaça de ser destronado de seu eu. Na terceira fase, o sujeito faz um certo acordo com o outro, podendo ceder para que ele se presentifique, ao mesmo tempo que fique preservado seu eu." (Ferreira, 1996, p.111-112)

Sendo assim, o surto psicótico apresentado por seu paciente Nano, um migrante nordestino, seria expressão do sentimento de diferença e desconforto que a mudança de contexto sociocultural pode causar. A migração é entendida como um processo de "lançar-se ao outro", iniciando um movimento de "duplicação do sujeito": "Com o deslocamento ele é transplantado em uma nova realidade, onde precisa se desdobrar, fazendo face às diferenças, reparando as fissuras e elaborando as perdas, frustrações e novas experiências" (idem:140)

Rebelo (1997) de forma épica nos traça os Embates e as Ressonâncias da Migração, através da metáfora Banzo, aprendida de sua experiência terapêutica em posto de saúde. Seus pacientes apresentavam uma "moléstia estranha" que estava associada a vivência da migração. Pois como o "Nano" de Ferreira (1996), seus atendidos também eram nordestinos, aventurando-se na cidade do Rio de Janeiro. Assim, deixa claro que as dificuldades e sofrimentos implicados no processo de mudança de "um a outro", na "migração de uma pessoa a outra", estariam relacionados ao afastamento do contexto sociocultural.

"Confirmamos, assim, que o migrante utiliza ‘a doença como metáfora’ (Sontag, 1984) para transformar o não familiar em familiar. Ele busca um ‘acolhimento’ institucional (nos serviços de saúde), um ‘nome’ para o que está sentindo, a sua inscrição como cidadão, a saída do anonimato, a re-patriação".(Rebello, 1997, p.82-83)

O processo migrante, então, incorreria em processo alterativo, onde o migrante se entregaria a um "outro espaço", onde "será percebido como diferente", indo buscar no discurso do "outro local" bases para construir ou situar "seu novo mundo". Ferreira refere-se a alteridade e a cultura como processos indissociáveis do estudo e da compreensão do migrante. Pois o "lançar-se ao outro", implicaria em "absorção" e "repulsão" de conteúdos e estruturas culturais. O migrante buscando uma reformulação de seu mundo, abriria mão de seus conteúdos socioculturais, adquiridos em seu contexto cultural originário, introduzindo os conteúdos fornecidos por seu atual contexto.

Reforçando as idéias de interligação entre cultura e alteridade, contidas no processo migrante,. verificamos em Jovchelovitch (1995) e em Brandão (1986), a importância da alteridade e da cultura no processo de formação do Eu.

Jovchelovitch, nos diz que a alteridade é condição necessária para o desenvolvimento do Eu, que não aconteceria sem os conteúdos fornecidos pelo contexto sociocultural, contidos nas sociedades. Brandão, no entanto, nos afirma que o "reconhecimento da diferença é a consciência da alteridade", já que considera como sinônimo de diferença o outro, que possui história, construções e explicações em muito apreendidas de sua cultura:

"O outro sugere ser decifrado, para que os lados mais difíceis de meu eu, do meu mundo, de minha cultura sejam traduzidos também através dele, de seu mundo e de sua cultura. Através do que há de meu nele, quando, então, o outro reflete a minha imagem espelhada e às vezes ali onde eu melhor me vejo. Através do que ele afirma e torna claro em mim, na diferença que há entre ele e eu ."(Brandão, 1986, p.07)

Contudo, não se espera afirmar ser a cultura ou o meio, únicos formadores de nossas estruturas psíquicas e sociais.

A Antropologia Médica é também grande fornecedora de estudos sobre a migração, enfocando as conseqüências da mudança para a vida física e psíquica do migrante. Em Helman (1994) encontramos a mudança de cultura como "experiência estressante", pois envolveria rupturas importantes com o espaço vital do indivíduo. O migrante ao deixar sua cidade, deixaria também amigos, familiares, como crenças, valores e pressupostos, muitas vezes, não mais condizentes com sua nova realidade. Desta forma, a experiência da "emigração geralmente significa uma profunda transição psicossocial, análoga, em alguns aspectos, ao luto ou à deficiência". (p.259)

Eisenbrush, citado por Helman (1994), "criou a expressão luto cultural para aqueles grupos de pessoas que sofreram perdas traumáticas de sua cultura e local de origem". "As mudanças estressantes" vivenciadas por esse grupo de pessoas, seriam comparadas, ao sofrimento vivido por indivíduos em luto, podendo até envolver "reações de luto patológicas e atípicas".

Encontramos, então, significativa relação entre mudança de contexto sociocultural e a manifestação de algum mal estar, que será representado ou interpretado por quem o sofre, a partir de suas experiências, histórias e conhecimentos formados ao longo de sua vida. Desta forma, compartilhamos das idéias de Helman (1994), que afirma ser o background cultural dos sujeitos, importante condutor de manifestações sejam físicas, psíquicas ou sociais:

"Portanto, o background cultural exerce importante influência em muitos aspectos da vida das pessoas, incluindo suas crenças, comportamentos, percepções, emoções, línguas, religiões, estrutura familiar, alimentação, vestuário, imagem corporal, conceito de espaço e tempo, além das atitudes em relação à doença, dor e outras formas de infortúnio." (p.24)

Ressonâncias no discurso de Helman são encontradas e percebidas, ao se pensar a relação médico/paciente. Onde teremos universos distintos falando sobre um mesmo assunto ( será mesmo?), sem encontrarem muitas vezes consenso e compreensão em seus discursos.

Camargo Júnior (1992), alerta para a dicotomia "sofrer e saber; subjetividade x objetividade", ou seja, as dificuldades de comunicação e interesse entre pacientes e médicos. Onde cada um veria o mundo através de filtros de suas representações, tendo o imaginário médico, a racionalidade científica como escudo protetor:

"Os médicos agem, de forma geral, como se as doenças fossem objetos concretos, esvaziados de qualquer significado, seja psíquica, seja cultural. Isto faz com freqüentemente aquilo que o médico vê como problema seja bastante diverso das preocupações do paciente." (p.217-218)

O modelo biomédico, que domina a medicina científica moderna, justificaria a dificuldade de comunicação e compreensão entre médicos e pacientes, pois seu foco central seria a doença, que precisa ser identificada e se possível eliminada pelo médico, tornando tudo a seu redor irrelevante, mesmo o paciente e seu sofrimento. Pois, "o saber médico é um saber sobre a doença, não sobre o homem, o qual só interessa ao médico enquanto terreno onde a doença evolui". (Clavreul, 1983). Assim, a escuta médica estaria a procura de sinais, dicas que enunciassem sintomas presentes e visíveis no corpo físico, evidenciando a doença.

Para Camargo Júnior (1992) o discurso médico, considerado como " "verdadeiro", científico, mesmo que não seja exatamente assim" , conseguiria na maior parte dos casos manter o paciente distanciado e sem compreensão de sua própria situação. Através de palavras difíceis (por serem específicas de uma determinada área de conhecimento), os médicos passam as informações, para seus pacientes e familiares, sendo compreendidos apenas pelos já "iniciados". Este autor atribui a esta postura médica, "a preferência de determinados setores populacionais pelos curandeiros, por estes explicarem o que as pessoas sentem de forma a fazê-las compreender.

A Antropologia Médica usa os termos disease e illness para diferenciar a visão do médico da visão do paciente. Helman (1994) retira o significado destes dois termos de Cassel, onde disease (enfermidade), "é o que o órgão tem", a patologia, o quadro clínico, considerado pelo médico e illness "é o que o homem tem", a resposta subjetiva dada ao mal estar, tanto pelo paciente, quanto por aqueles que o cercam. Estas visões diferentes seriam explicadas por este autor, a partir do conceito de cultura que utiliza:

"[...] podemos observar que cultura é um conjunto de princípios (explícitos e implícitos) herdados pelos indivíduos enquanto membros de uma sociedade em particular. Tais princípios mostram a eles a forma de ver o mundo, de vivenciá-lo emocionalmente e de comportar-se dentro dele em relação a outras pessoas, a deuses ou a forças sobrenaturais, e ao meio ambiente natural.(p.23)"

Assim, a cultura seria uma "lente herdada", e esta "lente cultural", teria o aspecto de dividir o mundo e as pessoas que o "habitam em diferentes categorias, cada uma com denominação própria"(p.23). Teríamos, então, categorias sociais como: "homens ou mulheres, crianças ou adultos, parentes ou estranhos, sadios ou doentes," entre outras. Outra subdivisão verificada dentro de uma sociedade complexa , a partir das várias subculturas criadas, seria as subculturas profissionais, como a de médicos, psicólogos, assistentes sociais, militares e profissionais da justiça. Que formariam grupos à parte, "com seus próprios conceitos, regras e organização social". "Embora cada subcultura seja desenvolvida a partir de uma mesma cultura maior, e compartilhe muitos de seus conceitos e valores, esta também possui feições características e únicas". (p.24)

Para Helman a proposta médica, devido sua formação, criaria nos formandos e profissionais uma espécie de "endoculturação", que seria a aquisição de "uma perspectiva particular" "dos problemas de saúde". Desta forma, a escuta médica estaria fadada a "decodificar" as "diseases", a partir das queixas dos pacientes (illness), utilizando as "referências biológicas", de modo a estabelecer um diagnóstico físico da enfermidade.

Kleinman et al (1978), nos mostram que médicos clínicos ocidentais, não consideram devidamenteos aspectos psicológicos e socioculturais, tão interessantes quanto os biológicos, por considerarem estes "mais básicos", "reais" e "clinicamente significativos", dentro da "realidade clínica". Com isso, o discurso do paciente perde características e significados importantes, ao serem adotados modelos fechados e enquadrados numa lógica biológica e num dualismo mente/corpo, onde fatores socioculturais e psicológicos não seriam interpretados, construindo-se diagnósticos incompletos ou falhos.

Assim, verificamos que o background cultural servirá como fator decisório para a elaboração de explicações ou formas de viver a saúde ou a doença. Baseado nesta conclusão, elegemos a Teoria das Representações Sociais, como suporte teórico para entendermos as representações socialmente construídas, por sujeitos pertencentes a uma determinada cultura e inscrito em uma subcultura específica, frente a sua experiência migratória.

Para a Psicologia Social as representações sociais, segundo seu criador Moscovici, deveriam dar conta de uma realidade que compreendesse as dimensões físicas, sociais e culturais, abrangendo em seu conceito as dimensões cultural e cognitiva, dos meios de comunicação e das mentes das pessoas, da objetividade e da subjetividade (Guareschi,1995).

Minayo (1995), no entanto, nos diz que as representações sociais seriam visões sobre a realidade, sendo um importante material de pesquisa das ciências sociais, "enquanto imagens construídas sobre o real".

O real para Birman (1991), necessitaria da mediação da ordem simbólica, para se constituir como realidade. Assim, a ordem simbólica, ofereceria consistência significativa para que toda comunidade dotada da mesma tradição histórica e lingüística, pudesse compartilhá-la.

"Isso implicaria dizer que a realidade é uma construção eminentemente intersubjetiva e simbólica, não existindo pois fora dos sujeitos coletivos e históricos, que são ao mesmo tempo os seus artífices, os seus suportes e os mediadores para a sua transmissão". (p.08)

Portanto, as representações, estariam inscritas na realidade percebida ou vivida por cada indivíduo, e que a partir delas (representações), estabeleceriam explicações, justificativas e formulações para suas doenças ou seu estado de saúde. Com isso, afirmaríamos como Herzlich (1991), "que a representação tem função orientadora das condutas".

Jovchelovitch (1995), nos diz que a Teoria das Representações Sociais, "se articula tanto com a vida coletiva de uma sociedade, como os processos de construção simbólica". Os sujeitos sociais elaborariam explicações para o vivido e percebido em suas experiências, buscando dar sentido e ordem ao mundo, pois precisam compreendê-lo para buscarem seu lugar.

Utilizamos as leituras sobre as representações sociais, principalmente as de saúde\doença, como ajuda teórica, para a compreensão do processo migratório e suas conseqüências e reflexos no viver migrante e para identificação dos mecanismos usados para o seu não adoecimento. Para tanto, nos apossamos do discurso e narrativas de nossos entrevistados para melhor compreender o vivido e o sofrido com a migração e as representações surgidas a partir desse processo na nova cidade, que também pode ser baseado no provisório como acontece na cidade de Boa Vista, visto que, "a mediação privilegiada para a compreensão das representações sociais é a linguagem". (Minayo, 1997)



4- O CONTEXTO SOCIOCULTURAL DO MIGRANTE


O PROVISÓRIO-PERMANENTE

A metáfora do Provisório-Permanente foi criada como forma de representar o viver migrante, um viver condicionado ao desejo de retorno às suas origens e raízes, adiando realizações e feitos que signifiquem ou imprimam um sentido de fixação, de permanência definitiva na nova terra. Como já mencionado, o sonho da partida estaria atada ao desejo de retorno (Rebello, 1997; Ferreira, 1996; Sales, 1991; Woortmann,1990; Menezes, 1979), usado como forma de não trair seu local e origem, além de significar a imagem de alguém que venceu, ao regressar com os frutos garimpados nesse novo lugar.

Utilizando a definição do dicionário "Aurélio", metáfora seria o uso de uma palavra, buscando um outro sentido que não o seu, fundamentando uma "relação de semelhança entre o sentido próprio e o figurado" ( Ferreira, 1986), não se resumindo a dimensão verbal segundo Castiel (1996), por ela incorporar outros aspectos que não somente os cognitivos, mas também os afetivos, sensoriais e suas interações com o ambiente de cada indivíduo, não assumindo apenas o sentido propriamente dito da palavra empregada, mas as representações decorrentes das imagens formadas por cada pessoa que a utiliza. Teríamos, então, a interferência da cultura, dos pensamentos e do modo de vida na construção dessa figura de linguagem.

Para Rorty (1991) não podemos atribuir as categorias verdadeiro ou falso para a linguagem metafórica, visto que, esta passa pela representação da "realidade", criada por cada indivíduo, devendo, contudo, ser avaliada por seus resultados, por sua capacidade de tentar direcionar novas formas de descrever o mundo. Desta forma a metáfora funcionaria segundo White (1994) como:

"(...) um símbolo, e não como um signo: vale dizer, ela não nos fornece uma descrição ou um ícone da coisa que representa, porém diz-nos que imagens procurar em nossa experiência culturalmente codificada a fim de determinar de que modo nos devemos sentir em relação à coisa representada." (p. 108)

Tomando o corpo humano como exemplo de atribuições metafóricas, utilizaríamos os importantes trabalhos de Susan Sontag (1984, 1989) para nos direcionar nos enigmas referentes ao adoecer humano e as relações que ele estabelece entre a mente, o corpo físico e a sociedade. Em seu livro A Doença Como Metáfora (1984), nos traz as fantasias e estereótipos que duas doenças, a tuberculose e o câncer, estabeleceram ao longo dos tempos, constituindo "reflexos de uma concepção segundo a qual a doença é intratável e caprichosa - ou seja, um mal não compreendido -, numa era em que a premissa básica da medicina é a de que todas as doenças podem ser curadas". (p.o9)

Como a tuberculose e o câncer, a AIDS neste final de século assumiu a "metáfora do mal", sendo representada por uma série de imagens tais como: "uma praga" ( a praga gay); "uma invasão invisível" ( o contagio aconteceria por qualquer tipo de contato com uma pessoa portadora do vírus); "uma punição moral" ( onde existiriam culpados e inocentes); "um invasor"( envolvendo xenofobia e "invasão de estrangeiros); "uma guerra" ( guerra deflagrada pela conduta) ou "uma força primitiva"( hedonismo). Esse conjunto de metáforas associado a esta grave doença nos coloca frente a medos, inseguranças, ansiedades vivenciados pelo mundo moderno, criando-se formas de interpretar e representar o processo saúde/doença, através da percepção popular. Assim, são atribuídos conceitos e prerrogativas religiosas e morais, para justificarem as moléstias graves e cujas origens ainda não são bem compreendidas, transformando-as em doenças populares (Helman, 1994).

Vemos, então, a importância das narrativas e representações socialmente construídas para o campo da saúde, podendo serem usadas tanto para entender melhor o sofrimento e o discurso dos pacientes e de seus familiares, como para dificultar seu tratamento e bem viver, pelo preconceito e discriminação que tais metáforas podem gerar. E para nós importa ressaltar o valor da linguagem metafórica enquanto forma de representar e entender o mundo e seus fenômenos, como a migração e o contexto sociocultural que a envolve. Baseados nesta importância, criamos a metáfora do Provisório-Permanente, para representar o viver migrante e o contexto que estas pessoas estariam inseridas, que em muito depende das características e fatores da nova cidade

Se adotarmos a definição da palavra provisório retirada de Ferreira (1986), teremos como termos definidores os vocábulos passageiro, temporário, interino e surgiria em nossas mentes a imagem do turista, do viajante, daquele indivíduo que está de passagem, que retira do local visitado as novidades, curiosidades e aventuras que uma pessoa de férias e sem compromisso com o local pode desfrutar, reconhecendo aquele espaço geográfico como mais uma experiência e vivência em sua trajetória, sabendo, portanto, que retornará a seu espaço, à sua casa. Esta visão de turista, nos é muito cara para entendermos o sentimento migrante em relação a cidade estudada (Boa Vista) visto que, nossa experiência como migrante e profissional de saúde nestas terras, nos levou a refletir sobre o sentimento de aventura e falta de compromisso, presentes no discurso de pacientes, bem como de outros moradores migrantes, que não se percebiam como moradores ou residentes, vislumbrando apenas a hora do retorno, do regresso a seus locais de origem. Pensando como turistas, evitavam criar laços com este lugar, adiando ou negando qualquer situação que os levassem a consolidação de vínculos com a nova terra.

Outra associação de provisoriedade e migração que poderíamos estabelecer, refere-se a condição de inquilino, aquele que ocupa o espaço de outrem, e por isso mesmo encara esse espaço como provisório, temporário, sujeito as exigências e deveres acordados em contrato e quem sabe as intempéries de seu senhorio. O inquilino também adiaria ou evitaria vínculos com esse espaço, que não é seu, condicionando as benfeitorias do imóvel aos acordos e entendimentos com o proprietário, deixando até de empregar um toque próprio a este ambiente, para não deixar marcas de sua presença, como por exemplo a fixação de um quadro à parede. Viveria, então, na iminência da partida se submetendo às vezes a condições desfavoráveis por conta desta expectativa. Assim, este personagem ocuparia um espaço anteriormente preenchido por alguém, espaço este que ainda preserva sinais e indícios desse outro, como objetos deixados ou esquecidos ou a correspondência nominal a este outro que insiste em chegar.

Ferreira (1994) em um artigo que parte do filme "O Inquilino" de Roman Polanski (1976), e de um caso clínico de crise psicótica, nos aponta o "fantasma do outro", "a inquietante estranheza"( termo cunhado por Freud), a mistura de atração, fascínio e "ameaça de possessão" que o outro nos causa. Utiliza essas duas linguagens ( o cinema e a clínica) para falar do espaço do migrante, dos confrontos e dificuldades que enfrenta ao chegar na nova cidade, da importância desse outro em sua trajetória, das conseqüências e ameaças de se ocupar o espaço de outrem.

"A condição mesma da casa alugada, do lugar de inquilino, já assinala para o sujeito a falta de seu habitat próprio. Inquilino é aquele que habita a casa de outrem, que não tem a sua própria casa. O prédio onde o personagem vai habitar está longe de representar o doce lar. Longe do espaço familiar, o sujeito sente-se sem o seu invólucro. Ao perder seu espaço mínimo de referência, o sujeito fica aberto à incidência ameaçante e arrebatadora do outro." (Ferreira, 1996, p.45)

A palavra provisório representaria as várias situações da vida comum que os indivíduos se submeteriam em sua trajetória, seja em busca de aventuras, experiências, espaço, ou de mudança, como no processo migrante, um viver provisório, temporário, que evita a criação de laços, a fixação de raízes, embora, não deixe de receber e absorver as influências do novo lugar, do outro que insiste em se tornar presente.

E o que seria o permanente?! Utilizando-nos novamente do dicionário Aurélio (Ferreira, 1986), permanente seria algo duradouro, "que permanece, contínuo, ininterrupto, constante, que tem organização estável". Dentro de nossa discussão emprestamos a este vocábulo o valor de adjetivo da palavra provisório, pois qualifica, diz-nos que não é um provisório qualquer e sim um provisório que permanece, que tem uma organização estável. E esta organização estável, basearia-se no desejo de retorno, de não fixação, onde o migrante direcionaria sua vida e planos ao do sonho de retorno, mesmo que esse retorno não tenha data ou condições de acontecer. Embora, o inquilino e o migrante vejam suas situações como passageiras, temporárias, elas podem perdurar por tempo indeterminado, o que acontece na maior parte das situações. Nasceria, então, um contexto sociocultural peculiar o contexto migrante, caracterizado pela situação do provisório que permanece, do viver e sentir-se em constante partida, mesmo sem previsão, ou "criando-se a forte tendência de fixarem-se neste novo local sem deixarem de pensar num possível retorno", como nos assinala Sales ( 1991).

Sendo assim, traçamos nosso primeiro pressuposto, a partir do pensamento do provisório, baseado na "mentalidade administrativa e sociocultural do estado de Roraima" (Brasil, 1997), bem como em estudos sobre migração que também colocam o provisório como fato e desejo presentes na realidade migrante (Menezes,1976; Piore,1979; Sales,1991; Ferreira,1996; Rebello,1997):

- O "Provisório-Permanente" seria um contexto sociocultural característico da cidade de Boa Vista e, como tal, intensificador das dificuldades e mudanças sofridas com a migração.

Estaríamos metaforicamente atribuindo ao contexto do provisório, a própria condição migrante, onde o desejo de retorno estaria presente desde sua partida. E ao encontrar na cidade de destino condições e estruturas socioculturais e econômicas, propícias ao reforço deste pensamento de não fixação, teríamos o contexto do Provisório-Permanente.

E para a formulação de nosso segundo pressuposto, reforçamos a importância da influência da cultura e de suas subdivisões, bem como da dicotomia de visões geradas a partir desta subdivisão. Ou seja, das diferentes formas de leitura de mundo e de sua expressão, devido a existência de várias subculturas presentes em uma sociedade complexa. Assim, este pressuposto estaria baseado nas diferentes formas de entender a experiência migratória , principalmente no que diz respeito aos mecanismos usados para amenizar os sofrimentos e/ou agravos à saúde:

- O migrante criaria mecanismos e explicações para sua experiência migratória, baseadas em seu background cultural e utilizaría-se de tais mecanismos como forma de amenizar seus sofrimentos implícitos no processo migratório, determinando, assim seu adoecimento ou não.



1- Expressão usada na Região Norte do país para designar curto período de uma determinada situação,associando-se às chuvas constantes porém, passageriras da região.
 
 
  Início