HomeLista de Teses >  [ACIDENTE DE TRABALHO COM MATERIAL BIOLOGICO EM TRA...]


 

Braga, Daphne. Acidente de trabalho com material biológico em trabalhadores da equipe de enfermagem do Centro de Pesquisas Hospital Evandro Chagas. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 75 p.

5. Descrição do Acidente de Trabalho com Material Biológico

5.1 Considerações

Neste capítulo o objetivo é avaliar o que no início deste texto denominamos de desenho do acidente típico em hospital. Para isso, construímos um formulário em parceria com a enfermeira Suely Lages, onde buscamos retratar a problemática do acidente de trabalho com material biológico proveniente do uso de instrumentos perfuro-cortantes no CPqHEC.

Dados como: idade, sexo, tipo de jornada de trabalho (plantonista ou diarista), número de trabalhadores que se acidentaram com perfuro-cortantes e descrição do acidente foram utilizados.

 

5.2 Caracterização da População Estudada

O CPqHEC possui 54 trabalhadores que compõem a equipe de enfermagem. Dentre estes, 41 são técnicos em enfermagem e 13 são enfermeiros. Destes trabalhadores, 21 foram estudados através de um formulário auto-aplicável com questões pertinentes às atividades laborais e o acidente de trabalho com instrumento perfuro-cortante.

Quanto ao sexo, 85% dessa população é composta por mulheres e 15% por homens, conforme ilustrado na figura1.

Dos trabalhadores que se acidentaram com material biológico, 33% são do sexo masculino.

Quanto a idade dos trabalhadores da equipe de enfermagem varia entre 21 e 53 anos com média de idade de 36 anos (+ ou – 8 anos). Este dado não permitiu encontrar um perfil referente a faixa etária mais suscetível ao acidente estudado.

 

5.3 Distribuição da jornada de trabalho dos trabalhadores avaliados da equipe de enfermagem do CPqHEC: Figura 2.

Dos 21 trabalhadores estudados, 21,5% são plantonistas e trabalham 24 horas semanais (uma vez por semana). Outros 21,5% trabalham 40 horas semanais, descansando nos finais de semana. E a maioria dos trabalhadores da equipe de enfermagem, 57%, trabalha na jornada de 12 por 36 horas de descanso.

 

5.4 Distribuição dos trabalhadores avaliados que exercem outra atividade de trabalho fora do CPqHEC: Figura 3.

Dos 21 trabalhadores avaliados, 38% exercem outra atividade fora do CPqHEC, enquanto 62% trabalha apenas no referido hospital.

 

5.5 Distribuição dos trabalhadores que se acidentaram no CPqHEC: Figura 4.

No grupo avaliado, 66% dos trabalhadores se acidentou no referido hospital, enquanto que somente 34% dos trabalhadores da equipe de enfermagem não relatou ter sofrido acidente com material biológico no CPqHEC.

 

5.6 Distribuição dos tipos de acidentes mais freqüentes no hospital (Figura 5).

Dos trabalhadores acidentados, 58% dos acidentes ocorreram enquanto descartavam o material, 28% enquanto realizavam punção venosa e 14% quando lavavam o material após o uso em algum procedimento.

 

5.7 Distribuição da notificação dos acidentes com material biológico, no CPqHEC, entre os anos de 1995 e 1998. Figura 6.

Dos trabalhadores acidentados somente 22% realizaram a notificação, enquanto que 78% dos trabalhadores não realizaram a notificação.


Figura 1






Figura 2




Figura 3




Figura 4





Figura 5



Figura 6

 

5.8 O processo de análise dos dados

Sendo o objetivo deste estudo de caracterização do acidente típico em hospital, através da observação do cotidiano do trabalho da equipe de enfermagem, planejamos uma trajetória de análise com os seguintes passos:

Distribuição de freqüência dos dados, examinando tendências e identificando variáveis referentes ao tipo de jornada de trabalho no CPqHEC, e sua relação com o trabalhador que se acidentou e, também, com relação ao trabalhador que não se acidentou, observando a existência de associação entre as três jornadas de trabalho no CPqHEC.

 

5.9 Análise dos resultados:

Num universo de 21 trabalhadores da equipe de enfermagem do CPqHEC, através do referido formulário, pode-se observar que:

-Quanto ao gênero, existe uma predominância de mulheres na força de trabalho da equipe de enfermagem. De um universo de 21 trabalhadores, somente 3 pertenciam ao sexo masculino.

"Historicamente as atividades de cuidar dos doentes com características tecnológicas próprias de assistir, higienizar, alimentar, prover dos elementos indispensáveis ao bom desenvolvimento do enfermo, seguindo os padrões da divisão social do trabalho, sempre estiveram ligadas à mulher " (Pitta, 1999:132).

Quanto ao tipo de jornada de trabalho no CPqHEC dos trabalhadores da equipe de enfermagem, podemos afirmar que mais da metade do grupo analisado ter uma jornada de 12 horas de trabalho por 36 de descanso.

Um dado significativo que encontramos sobre este grupo de trabalhadores, refere-se ao número de que se acidentou e que trabalha na jornada de 12/36h.

Quanto aos turnos de trabalho podemos observar que a ocorrência de acidente com material biológico é mais freqüente na jornada de 12/36 h. Essa ocorrência mais elevada no turno referido pode ser atribuída ao fato de o ritmo de trabalho ser mais intenso no período diurno e, pode também, estar relacionada ao fato de que a maioria dos procedimentos terapêuticos serem realizados neste período. Podemos supor que o ritmo intenso de trabalho, com conseqüente sobrecarga de tarefas, pode Ter grande significado na ocorrência do acidente típico em hospital.

Outra observação relevante refere-se a fato de que a menor incidência de acidentes com material biológico é no final de semana. Possivelmente, podemos associar a diminuição dos acidentes neste período a diminuição do ritmo de trabalho.

Assim sendo, dos trabalhadores que responderam ao formulário e relataram algum tipo de acidente com perfuro-cortante, mais de 60% já havia de acidentado pelo menos uma vez, com material biológico. Este dado confirma que o acidente típico em hospital é o acidente com perfuro-cortante. Se a maioria dos trabalhadores que respondeu ao formulário já se acidentou, medidas preventivas tais como uso de luvas ao realizar qualquer procedimento que envolva a possibilidade de contaminação com material biológico e, principalmente ações educativas e treinamento, deverão ser priorizadas, dado a importância do evento.

Outro dado de suma importância, é o da notificação do acidente de trabalho. Podemos afirmar que o trabalhador da saúde não notifica o acidente. A subnotificação dificultou bastante a coleta de dados para esta dissertação.

Um dado importante pode ser encontrado na pesquisa realizada por Lages(1998) sobre a subnoticação dos acidentes ocorridos no hospital entre os anos de 1995 e 1998. Em sua pesquisa Lages utilizou a análise recordatória para confirmar que já haviam ocorrido 19 acidentes neste período.

No questionário auto-aplicável, possivelmente devido a não identificação de quem o respondia, tornou-se possível confirmar o dado de subnotificação pois 66% dos trabalhadores que o responderam, relataram pelo menos um acidente com material biológico.

-Quanto a distribuição do tipo de acidente mais freqüente no CPqHEC, na equipe de enfermagem, podemos afirmar que a maioria dos acidentes com material biológico, ocorre na hora do descarte e não ao realizar um procedimento junto ao paciente como havíamos pensado anteriormente. A punção venosa aparece em segundo lugar e a lavagem de material em terceiro.

 
 
  Início