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Braga, Daphne. Acidente de trabalho com material biológico em trabalhadores da equipe de enfermagem do Centro de Pesquisas Hospital Evandro Chagas. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 75 p.

1. O Objeto de Estudo – o acidente de trabalho com material biológico

Este capítulo tem como objetivo apresentar o tema desta dissertação – acidentes de trabalho com material biológico – e, também, algumas considerações teórico-metodológicas seguidas no desenvolvimento do estudo. Também buscamos mostrar como o acidente com material biológico deve ser tratado, a partir de informações do Manual de Condutas em Acidentes com Material Biológico, confeccionado pelo Ministério da Saúde. Finalmente, destacamos dois tipos de acidentes com material perfuro-cortante, que avaliamos no quinto capítulo deste trabalho.

A literatura mundial faz referência a aproximadamente 6000 casos de infecção acidental em trabalhadores de hospital, envolvendo 100 diferentes tipos de agentes de risco biológico. No entanto, no Brasil, são praticamente inexistentes dados relativos a acidentes e infecções associados ao trabalho em laboratórios e hospitais. Os dados disponíveis referem-se aos casos ocorridos em outros países, principalmente nos Estados Unidos. (Sukin&Pike, 1951); (Sullivan &Songer, 1978); (National Studies of Health, 1974). Podemos afirmar que a subnotificação dos acidentes no Brasil dificulta em demasia o aumento de pesquisas sobre o assunto e, principalmente, ações sobre o problema.

Assim sendo, o cenário do acidente de trabalho no ambiente hospitalar sofreu, nos últimos anos mudanças significativas com o surgimento da Síndrome da Imunodeficiência Adqüirida (AIDS), uma vez que a possibilidade de transmissão dessa doença por via ocupacional ganhou visibilidade com o avanço da epidemia.

Neste sentido, a atenção dos trabalhadores da saúde para o risco de contaminação com o vírus da AIDS, se deu a partir do primeiro caso comprovado de contaminação ocorrido em um hospital da Inglaterra em 1984 (Teixeira&Valle, 1996).

Muito embora a AIDS ocupacional seja um fato concreto, seu risco de contaminação acidental após exposição percutânea é de aproximadamente 0,3%, enquanto a probabilidade de se adquirir hepatite B é significativamente maior, podendo atingir até 40% dos casos. Para o vírus da hepatite C, o risco varia entre 2% e 10% (Rapparini,1998).

Os acidentes de trabalho com sangue e outros fluidos potencialmente contaminados devem ser tratados como emergência médica, uma vez que para atingir maior eficácia, as intervenções para a profilaxia da infecção do HIV e da hepatite B, necessitam ser iniciadas logo após a ocorrência do acidente. No entanto, é importante ressaltar que as medidas pós-exposição não são totalmente eficazes, sendo necessário manter ações educativas permanentes, tal como relata Rapparini (1998).

As precauções universais, atualmente denominadas de precauções básicas, foram instituídas com base no princípio de que todo paciente deve ser considerado como potencialmente infectado, independente do diagnóstico definido ou presumido de doença infecciosa. Tratam-se de medidas que devem ser utilizadas na manipulação de sangue, secreções e excreções, assim como no contato com mucosas e pele com áreas de integridade comprometida. Incluem recomendações sobre o uso de equipamentos de proteção individual (luvas, gorros, óculos, capotes) com a finalidade de reduzir a exposição do trabalhador da saúde ao sangue ou fluídos corpóreos, e cuidados específicos na manipulação e descarte de materiais perfuro-cortantes.

O Ministério da Saúde recomenda, em caso de exposição percutânea ou cutânea, à lavagem exaustiva com água e sabão ou solução antisséptica degermante (PVP-iodo ou clorexidina). No caso de exposição em mucosas, é recomendada a lavagem exaustiva com água ou solução fisiológica (Manual de Condutas em Acidentes com Material Biológico, 1997).

As medidas específicas de quimioprofilaxia para o HIV concentram-se, em sua maioria na associação entre 2 ou 3 medicamentos, como AZT, 3TC e Indinavir / Nelfinavir, apesar de só existirem estudos comprovando o efeito benéfico do AZT. No entanto, a indicação do uso de anti-retrovirais deverá ser baseada em função do tipo de acidente ocorrido. No caso de possibilidade de o paciente-fonte possuir o vírus do HIV, o uso de Indinavir ou Nelfinavir deverá ser priorizado (Ministério da Saúde, 1997).

A quimioprofilaxia deverá ser iniciada dentro de 1 ou 2 horas após o acidente. Alguns estudos têm mostrado benefício na profilaxia quando introduzida em até 24 ou 48 horas após o acidente. O início da medicação pode ser recomendado até 1 ou 2 semanas após acidentes graves (Ministério da Saúde, 1997).

Quando a condição sorológica do paciente-fonte não é conhecida, o uso de quimioprofilaxia deve ser decidida em função da possibilidade de infecção pelo HIV deste paciente. Quando indicada, a quimioprofilaxia deve ser iniciada e reavaliada a sua manutenção de acordo com o resultado da sorologia do paciente-fonte.

Para a prevenção de hepatite B, existem disponíveis, a vacina e a gamaglobulina hiperimune.

Quanto a Hepatite C, não existe intervenção específica para prevenir a transmissão do vírus após o acidente de trabalho.

Os critérios de gravidade na avaliação do risco do acidente relacionam-se diretamente com a quantidade de vírus presente no paciente-fonte e, o volume de material biológico. São considerados acidentes graves aqueles que:

-envolvem o paciente-fonte com AIDS em estágios avançados da doença ou com infecção aguda pelo HIV (viremias elevadas);

-lesões profundas provocadas por material perfuro-cortante;

-presença de sangue visível no dispositivo invasivo;

-agulhas previamente utilizadas em veia ou artéria do paciente-fonte (ex: flebotomias ou gasometrias), dentre outros decorrentes de exposição de áreas cutâneo-mucosas (Ministério da Saúde, 1997).

Neste estudo foram analisados especificamente os acidentes decorrentes de punção venosa e aqueles ocorridos ao descartar o material perfuro-cortante. Destacamos esses dois tipos de acidentes, a partir da demanda identificada no trabalho citado de Lages (1998). Os dois tipos de acidentes supracitados foram os que mais ocorreram no período de 1995 a 1998, na equipe de enfermagem do CPqHEC.

 

1.2 Objetivos

1.2.1 Geral

-Conhecer o perfil dos trabalhadores que se acidentou com material biológico, estabelecendo relações com as variáveis exploradas no formulário auto-aplicável, utilizando princípios teórico-metodológicos da pesquisa-social e da ergonomia contemporânea.

1.2.2 Específicos

-Conhecer as características do processo e da organização do trabalho da equipe de enfermagem tendo como objetivo identificar o acidente típico em hospital.

-Apontar para o desenvolvimento de uma metodologia de avaliação do acidente típico em hospital, tomando como recorte privilegiado o processo e a organização do trabalho, estimulando assim, os trabalhadores a discutir os caminhos para a prevenção do acidente com material biológico. (Este objetivo foi explorado de forma diferenciada, através de reuniões sistemáticas com alguns trabalhadores do hospital, onde foram discutidas questões referentes às condições de trabalho).

 

1.3 A Pesquisa-Ação no CpqHec e outros aspectos metodológicos

Neste item, abordamos, sobretudo o caminho que trilhamos, nestes dois anos de pesquisa na área de internação do Centro de Pesquisas Hospital Evandro Chagas, no período de abril de 1998 a março de 2000.

Para facilitar a compreensão, o item foi dividido em duas partes: a primeira de caráter teórico, porém elucidativo quanto ao método escolhido para nortear o estudo. A segunda parte, de caráter prático, onde são relatadas as etapas do processo de desenvolvimento do trabalho de campo.

Ao iniciar a pesquisa, desejávamos construir um desenho do acidente de trabalho com material biológico no CPqHEC, sobretudo aqueles decorrentes da utilização de material perfuro-cortante, o que se manteve como um objetivo do estudo até a conclusão. Para isso fomos buscar contribuições das Ciências Sociais e da Ergonomia Contemporânea para as análises dos acidentes de trabalho no ambiente hospitalar, para podermos finalmente delinear o acidente típico em hospital.

É possível afirmar que este trabalho incorporou princípios teórico-metodológicos da pesquisa social. A pesquisa-ação é um tipo de investigação implicada neste estudo, o que se relaciona com um posterior desdobramento, em parceria com os trabalhadores organizados do CPqHEC. Um exemplo de desdobramento de uma proposta como esta, vinculada por nosso trabalho seria o desenvolvimento de um projeto de treinamento dos trabalhadores da equipe de enfermagem a ser realizado no próprio local de trabalho, apontado como caminho para a prevenção do acidente com material biológico, pelo próprios trabalhadores.

1.3.1 Algumas considerações teórico-metodológicas sobre o desenvolvimento do estudo.

Cecília Minayo (1996) entende por metodologia em ciências sociais a escolha do caminho e instrumental próprios da abordagem da realidade.

"(...) é o conjunto de técnicas que possibilitam a apreensão da realidade e também o potencial criativo do pesquisador" (Cecília Minayo,1996:22).

Thiollent define pesquisa-ação como:

"(...) um tipo de investigação social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo" Thiollent (1994:15).

Thiollent (1994) relata ainda que o objetivo da pesquisa-ação consiste em resolver ou, pelo menos, em esclarecer os problemas da situação observada. Outra característica desta metodologia é que o pesquisador procura ter uma atitude de elucidação dos aspectos das situações apresentadas, sem imposição unilateral de suas concepções próprias (Thiollent, 1994).

Tendo em vista a opção metodológica que optamos seguir neste estudo, caracterizamos, o campo de estudo. Entendemos por campo, na pesquisa qualitativa, o recorte espacial e teórico correspondente ao objeto a ser investigado.

Cecília Minayo afirma que:

"a pesquisa social trabalha com gente, com atores sociais em relação, com grupos específicos. Esses sujeitos de investigação, primeiramente, são constituídos teoricamente enquanto componentes do objeto de estudos. No campo, fazem parte de uma relação de intersubjetividade, de interação social com o pesquisador, daí resultando um produto novo e confrontante tanto com a realidade concreta como com as hipóteses e pressupostos teóricos, num processo mais amplo de construção de conhecimentos" (Cecília Minayo,1996:105).

Ressaltamos ainda, a partir de Cecília Minayo que o trabalho de campo, em pesquisa qualitativa, constitui uma etapa essencial, que a rigor não poderia deixar de ser pensada sem ele (Cecília Minayo, 1996).

"(...) cada vez que o cientista social retorna às fontes vivas de seu saber, àquilo que nele opera como um meio de compreender as formações culturais mais afastadas de si, faz filosofia espontaneamente" (Levi-Strauss,1975:222 apud C.MINAYO, 1996:106).

Tendo em vista tal caracterização do trabalho de campo, lembramos que, este estudo contribui para a análise do acidente de trabalho com material biológico, onde através do instrumental da abordagem antropológica, sobretudo a etnografia, buscamos compreender as particularidades deste evento complexo que é o acidente de trabalho no ambiente hospitalar.

Triviños, referindo-se especificamente aos estudos etnográficos que estão contidos na pesquisa qualitativa, ressalta as dificuldades desta abordagem:

"A tentativa de definir o que se entende por etnografia não é tarefa fácil. Em forma muito ampla podemos dizer que ela é o estudo da cultura. No entanto, não há nada mais complexo que desvendar os propósitos ocultos ou manifestos dos comportamentos dos indivíduos e das funções das instituições de determinada realidade cultural e social. Logo, a função do etnógrafo não é tanto estudar a pessoa, e sim aprender das pessoas" (Triviños,1987,p.121).

Com uma perspectiva de superação da visão do acidente de trabalho de uma forma inespecífica e a-histórica, o nosso estudo do acidente de trabalho no hospital decorrente da utilização de material perfuro-cortante conta também com a contribuição da ergonomia situada, como perspectiva teórico-metodológica, porque entendemos que é preciso conhecer o trabalho para que se possa transformá-lo, tal como aponta o ergonomista Wisner (1994), ou seja, o saber do trabalhador da equipe de enfermagem foi priorizado nesse estudo. Através do instrumento do diário de campo colhemos informações no hospital que subsidiaram o estudo dos acidentes com material biológico.

Embora saibamos que acidentes com material biológico não acontecem somente com enfermeiros ou técnicos de enfermagem nos limitamos a observar a rotina de trabalho da equipe de enfermagem, dada a relevância do problema apresentado e também ao limite a realização de uma dissertação de mestrado.

O objetivo maior desta análise consiste em não somente concluir que os acidentes fazem parte do cotidiano daqueles que trabalham, mas principalmente, apontar condições concretas que possam ser traduzidas como dispositivos de transformação das condições de trabalho, pelos trabalhadores da equipe de enfermagem.

O treinamento foi o caminho apontado pelos trabalhadores deste hospital, como sendo o meio resolutivo desse problema de saúde do trabalhador.

Entretanto, é preciso ter em mente que os acidentes não são eventos fortuitos ou até mesmo imprevistos. São eventos complexos e que necessitam de intervenções complexas, onde não somente uma ou duas disciplinas possam compreendê-los em sua totalidade. Em sua análise, utilizamos categorias como: processo de trabalho e processo de trabalho em saúde.

1.3.2 Os participantes do estudo

Foram considerados para esse estudo: enfermeiros com curso superior e técnicos de enfermagem, componentes da equipe de enfermagem, do setor de internação do CPqHEC. A escolha deste grupo se deu em função da magnitude em termos do número de acidentes de trabalho com material biológico e de sua subnotificação, tal como já detectado por Lages (1998). O trabalho de Lages indica as dificuldades que a subnotificação impõe a coleta dos dados e as análise dos acidentes. Dos 19 acidentes analisados, somente 3 haviam sido notificados ao NUST (Núcleo de Saúde do Trabalhador), os demais foram analisados através de uma busca ativa pela referida autora, o que implica que os trabalhadores se lembrem da ocorrência do acidente.

1.3.3 Recolhendo Informações

O diário de campo foi um instrumento que nos guiou até o final deste estudo. Anotávamos tudo que víamos e ouvíamos: situações de trabalho; conversas sobre o trabalho, enfim todo tipo de informação que nos fizesse entender melhor a dinâmica do trabalho no hospital. Buscamos ouvir muito o que tinham a dizer sobre o trabalho no hospital e, principalmente, sobre o acidente com material biológico.

Neste processo de ligação ao hospital no qual passamos a ser conhecidos por todos os trabalhadores, principalmente pela equipe de enfermagem do setor de internação, contamos de forma bastante importante com a colaboração da enfermeira Suely Lages. De um modo geral, enfermeiros e técnicos de enfermagem foram sempre prestativos, quando precisávamos de ajuda para entender como se dava a divisão do trabalho na enfermagem.

A seguir, com base no trabalho citado de Lages (1998), foi elaborado um formulário auto-aplicável de coleta de dados. Solicitamos, então, aos trabalhadores da área de internação do CPqHEC, que o respondessem. Para isso o formulário foi deixado disponível, em uma pasta, no setor de internação. Explicávamos a finalidade do mesmo onde reforçávamos a questão do anonimato, ou seja de que não seria preciso colocar o nome. Achamos que poderíamos comprometer a análise dos dados, se buscássemos identificar o trabalhador que tivesse se acidentado. Visávamos tipificar o acidente e não identificar quem se acidentou.

Quanto ao formulário, foi dividido em três blocos de perguntas. No primeiro, questões referentes aos dados pessoais como: cargo/ocupação, idade, sexo e escolaridade. No segundo, questões sobre os dados profissionais, como: data de ingresso no CPqHEC, jornada de trabalho e realização profissional. O terceiro bloco refere-se às questões vinculadas ao acidente de trabalho, que estão voltadas para a sistematização do saber do trabalhador sobre o evento acidente típico em hospital. Buscamos colher informações sobre a descrição do acidente, o tipo de exposição que originou o evento, o conhecimento dos trabalhadores sobre as precauções universais e a importância da notificação do acidente, seja ele de que tipo for. O formulário encontra-se em anexo, no final deste texto.

 
 
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