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Levigard, Yvone Elsa. A interpretação dos profissionais de saúde acerca das queixas do nervoso no meio rural: uma aproximação ao problema das intoxicações por agrotóxicos. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 90 p.

Capítulo III - Resultados Comentados

 

III.1 - As Circunstâncias de Vida e a Saúde dos Trabalhadores da Região

Assim como as cores da vegetação impõem-se à paisagem, pontilhando de rosa os tons de verde, algumas características sobressaem nas observações e no discurso das pessoas que vivem na região. Os ônibus lotados e de horários esparsos que fazem a travessia da área urbana para os povoados rurais de Nova Friburgo, levam uma população em que quase todos se conhecem, se cumprimentam e trocam idéias durante a viagem. No trajeto, grupos de crianças pequenas, indo ou vindo da escola, procuram posicionar-se perto do motorista para contar-lhe as novidades do dia. Depois, na porta de casa ou da escola, se despedem acenando e, muitas vezes, abraçando seu ‘confidente’. Os locais de espera dos ônibus constituem um rico espaço de diálogo. Foi assim, esperando o ônibus na praça de Lumiar, que aprendemos com uma moradora de Boa Esperança, local onde não há telefones, que "nas horas de necessidade, quando não se tem orelhão, se procura as orelhas." Em Boa Esperança, nos degraus do armazém do Sr. Pedro* , ouvimos de Maria* , sua filha, que dobrava as camisas dos times do jogo de futebol dominical, que "apesar do lugar ser muito tranqüilo, as pessoas são muito nervosas (...), (que) umas guardam o nervoso e outras são muito inquietas."

Algumas pessoas relataram seus problemas de saúde e de vida em geral. A "fraqueza", a "tonteira" o "nervoso", os problemas com o "veneno", os problemas "de circulação nas pernas" e de "estômago" dentre outros, além de questões como o baixo preço dos produtos agrícolas, a dificuldade em obter a aposentadoria e a falta de saneamento são temas recorrentes. Ouvi de Lúcia* , moradora de Boa Esperança, que o marido está com colite hemorrágica por causa do "veneno" e teve que abandonar a agricultura e virar pedreiro.Lúcia, assim como outras pessoas da região, guarda as notas fiscais da compra de agrotóxicos como comprovante do trabalho rural. D. Inês* , uma senhora idosa, "que não sabe bem a idade, mas já passou bem dos cinquenta anos", disse que em sua casa "tem sido bem difícil, há muita fraqueza". Ela quebrou o braço e não tem podido ir trabalhar com o marido na roça. O casal não consegue aposentar-se porque não consegue comprovar o tempo de trabalho e ambos foram criados na roça e trabalham desde a infância. Do mesmo modo, o Sr Manoel* , que também trabalha na terra desde criança, explicou que foi picado por uma cobra quando estava na lavoura e como demorou muito para chegar à cidade, teve uma infecção, quase morreu e acabou perdendo três dedos de uma das mãos. Muitos meses depois do acidente, conseguiu receber meio salário mínimo do INSS e, como o dinheiro era pouco, teve que voltar a trabalhar nas plantações. Ele queixou-se do baixo preço que obtém na venda dos produtos, exemplificando que precisa colher cem quilos banana d’água para ganhar R$ 10,00 (dez reais), pois só recebe R$ 0,10 (dez centavos) por quilo.

D. Cristina* , de São Pedro da Serra, fazendo uma retrospectiva dos problemas de saúde da população, disse que antigamente o maior problema de saúde da população era a "doença de nervos", sobretudo entre as mulheres, que "represadas e desvalorizadas, piravam". Quando predominou na região o plantio de flores, as pessoas começaram a adoecer, também, por causa do uso de agrotóxicos. "Os homens ficavam esquecidos ou falavam coisas que não deviam, e muitos morreram." Segundo ela, atualmente o maior problema de saúde é o alcoolismo. Luiz* , de Stucky, que é uma região de plantio de flores, também fez menção a uma época em que usava-se muito agrotóxico e pessoas suicidavam-se sem motivo aparente. Jucélia* disse que o uso de agrotóxicos em Lumiar é muito intenso e que as pessoas acham que "não tem perigo de usar, que é uma coisa boba, simples. (...) Depois quando aparecem os sintomas, as pessoas não associam e acham que é outra doença." Sonia* , de Lumiar, disse que há muitos jovens doentes devido aos agrotóxicos, "que tiram completamente a energia das pessoas. Muitos agricultores não conseguem mais trabalhar; quando muito conseguem fazer jardinagem." Ela explicou, ainda, que ao invés de se capinar o solo, utiliza-se o "mata-mato" (agrotóxico), que vem eliminando vários tipos de vegetação, inclusive a macela, que não é mais encontrada na região. D. Cristina (São Pedro da Serra) e Sonia (Lumiar) relataram, ainda, que o esgoto é despejado diretamente nos rios, que não há uma cultura de construção de fossas sépticas, que os rios viram uma lixeira e não se pode tomar água das nascentes.

Associando as narrativas da população local às entrevistas com os profissionais do Programa Saúde da Família e à pesquisa bibliográfica, esboçamos a seguinte síntese sobre as circunstâncias de vida e de saúde dos trabalhadores da região.

A terra é o centro de referência da economia e da cultura da população local. A agricultura é a principal atividade produtiva, envolvendo homens, mulheres e, também, as crianças no plantio e colheita de inhame, feijão, milho, tomate, pimentão etc. Devido ao relevo da região, grande parte das lavouras está localizada em encostas, no alto das montanhas. As estradas são de terra, estreitas e sinuosas, sendo que os moradores contam com poucos ônibus para o seu deslocamento. De modo geral, as casas já têm abastecimento de água encanada, precariamente instalado pelos próprios moradores, mas carecem de fossas ou de um sistema de saneamento, sendo ainda freqüente e usual o despejo do esgoto diretamente nos rios.

No decorrer da última década algumas mudanças têm ocorrido naquela região, trazendo tanto benefícios quanto problemas para a população local. Talvez o maior benefício seja a ampliação da rede educacional, fato que possibilitou o acesso das crianças à pré-escola e ao ensino fundamental, afastando-as parte do tempo do penoso trabalho nas plantações. Também os adultos estão tendo acesso à escola, o que tem diminuído o índice de analfabetismo, que é muito alto, sobretudo nas pessoas acima de 50 anos. Alguns fatores têm contribuído para a mudança no perfil ocupacional dos habitantes, tais como o fato de a região ter se transformado em pólo turístico, a desvalorização dos produtos agrícolas e, também, o projeto do Ibama de proteção da Mata Atlântica, que proíbe as plantações em determinadas áreas e tem multado agricultores já estabelecidos. Sá Rego (1988: 126) afirma que "o pequeno produtor, desestimulado com a produção agrícola e atraído pelos altos preços oferecidos, loteia e vende suas terras (...) perdendo suas áreas de trabalho, que se transformam em áreas de lazer ou de moradia, improdutivas" e denuncia que o processo de desaparecimento das áreas agrícolas próximas aos centros urbanos que vem ocorrendo no estado do Rio de Janeiro "expressa uma aliança entre os interesses das prefeituras e os do capital comercial e imobiliário, pois às primeiras não interessa manter áreas agrícolas pois estas não arrecadam o Imposto Predial e Territorial Urbano - IPTU - e, sim, o Imposto Territorial Rural - ITR - que vai diretamente para o INCRA, não se constituindo em fonte de recursos para o governo municipal." (Sá Rego, 1988:126 apud Musumeci: 1987: 88)

O incremento da construção civil tem gerado o aumento da oferta de trabalho para os homens em atividades diversas como pedreiro, marceneiro, jardineiro e pintor. Também as mulheres têm deixado as lavouras e ido trabalhar no comércio ou nas pousadas e nas casas de veraneio como faxineiras. Alguns agricultores têm alugado ou até mesmo a vendido as suas terras, ou parte delas, para a construção de pousadas, bares e restaurantes. Isto tem gerado uma espécie de favelização em algumas localidades, como vem ocorrendo em Boa Esperança de Cima, pois, ficando sem parte de suas terras, as famílias tendem a se aglomerar, acomodando-se em terrenos cada vez mais reduzidos. As decisões sobre o uso e desmembramento das propriedades são ocasionadas por reveses financeiros ou decisões arbitrárias dos patriarcas, gerando alguns conflitos familiares quanto ao destino da região e das gerações futuras. A criação de gado está tornando-se cada vez mais freqüente, uma vez que os abatedouros clandestinos são numerosos e se multiplicam com a conivência da população. Sintetizando, enfim, as mudanças que estão ocorrendo na região, Sá Rego (1988: 226) diz que "o passado está relacionado ao trabalho agrícola, que tinha como objetivo fundamental assegurar a produção da subsistência do grupo familiar. (...) O presente está mais próximo da cidade e do trabalho na fábrica e no comércio "

As condições de trabalho têm determinado, ao longo do tempo, problemas de saúde bem definidos na população da região, dentre os quais encontram-se as lesões por esforço repetitivo e as doenças ósteo-musculares, as intoxicações por agrotóxicos, o alcoolismo, a depressão e a hipertensão. Há referências, também, quanto ao aumento significativo de casos de câncer de mama entre mulheres jovens, de câncer de fígado e de câncer de próstata.

As lesões por esforço repetitivo traduzem-se, de modo geral, em osteoporose, artrose, hérnia de disco e bico de papagaio e estão relacionadas à postura dos agricultores e à sustentação de peso excessivo no processo de trabalho, muitas vezes iniciado na infância. As doenças ósteo-musculares, expressas através de caïmbras, mialgias, esporão do calcanhar e tendinites, sobretudo nas pernas e coxas, são resultantes do fato de os agricultores terem que subir e descer os morros o tempo todo, uma vez que as lavouras situam-se em encostas.

O número de pessoas hipertensas de ambos os sexos é muito elevado, sendo que as mulheres ficam hipertensas mais cedo, geralmente na faixa dos 30 anos. A dieta da população tem na carne de porco um de seus ítens básicos, sendo muito gordurosa e salgada. O clima frio, a altitude e o uso de pílulas anticoncepcionais como método anticonceptivo preferencial são outras causas apontadas. A utilização de agrotóxicos nas lavouras, o alcoolismo e a depressão também foram relacionados à etiologia da hipertensão, segundo os profissionais de saúde.

As intoxicações por agrotóxicos, expressas através da diminuição das defesas imunológicas, da anemia, da impotência sexual masculina, da cefaléia, da insônia, de alterações da pressão arterial, de distimias (alterações do humor) e de distúrbios do comportamento (surtos psicóticos) são freqüentes entre os agricultores, determinando, por vezes, a proibição médica do trabalho na lavoura e a orientação para outro tipo de atividade profissional. Os homens que trabalham sulfatando a terra são aqueles que mais se intoxicam. Mas a exposição aos agrotóxicos é generalizada, sendo usual no processo de trabalho o agricultor ir na frente pulverizando as lavouras e sua mulher ir atrás carregando a mangueira e recebendo o veneno. Muitas vezes as crianças também participam desta tarefa. É igualmente grave a situação das famílias dos agricultores que plantam flores (rosas e palmas), uma vez que suas casas situam-se no centro do terreno, ficando as pessoas completamente expostas à aspersão do produto.

Segundo os médicos entrevistados, o veneno (agrotóxico) é um elemento que faz parte da vida dos agricultores, havendo entre eles a crença de que os agrotóxicos são indispensáveis à lavoura, de que sem eles não há colheita. Esta crença é produto de uma ideologia que vem sendo forjada desde a década de 70, como parte de uma estratégia de dependência de longo alcance criada pelas multinacionais (Chiavenatto, 1991). Múltiplos são os tentáculos desta estratégia, que insinua-se nas políticas agrícolas, na formação acadêmica dos agrônomos e na lógica de plantio dos agricultores. A sua reprodutibilidade ocorre em todas as instâncias discursivas (Peres, 1999), abrangendo conotações tanto científicas quanto do senso comum, evidenciando-se nas palavras do agricultor, do extensionista, do engenheiro agrônomo, da indústria química e, inclusive, dos profissionais de saúde.

Por outro lado, segundo os profissionais entrevistados, esta crença na indispensabilidade do uso dos agrotóxicos nas lavouras não encontra contrapartida no que diz respeito ao uso dos equipamentos de proteção, percebidos pelos agricultores como de difícil aquisição devido ao alto custo e, também, como muito incômodos, inadequados para o clima local, tal como descrito nas pesquisas de Castro (1999) e de Curi de Souza (1999). Segundo Brito e Porto (1992), esta questão da não utilização dos equipamentos individuais está relacionada, dentre outros aspectos, à falta de informação e de percepção cognitiva dos riscos presentes no processo de trabalho. No que concerne à aplicabilidade de técnicas alternativas para a lavoura, tais como a utilização do adubo orgânico e do rodízio auto-sustentável, o assunto começa a ser debatido em reuniões que congregam os agricultores, os técnicos da Emater e os profissionais da área da saúde.

As observações acima mencionadas serão objeto de um tratamento mais aprofundado através da análise do conteúdo das entrevistas realizadas com os profissionais do Programa Saúde da Família.

 

III.2 - A Interpretação dos Profissionais de Saúde acerca do Nervoso no Meio Rural

As entrevistas com os profissionais do Programa Saúde da Família permitiram apreender como principais problemas de saúde da população local a hipertensão arterial, as verminoses, as intoxicações por agrotóxicos, as manifestações de nervoso e as doenças músculo-esqueléticas, não necessariamente nesta ordem. O entrelaçamento destes agravos evidencia sua relação com os hábitos de vida e com os processos de trabalho e realça questões sociais, econômicas e ambientais.

No que tange mais especificamente ao tema das queixas de nervoso, observamos que no relato dos profissionais (13) há quase unanimidade na afirmação de que apesar da beleza e da calma da região, as pessoas são muito estressadas, muito nervosas. As intoxicações por agrotóxicos, a desvalorização econômica da atividade agrícola, a sobrecarga de trabalho, a perda progressiva da terra como referencial de vida, o cansaço com os grandes deslocamentos para o centro da cidade, o fechamento de fábricas no município e conseqüente desemprego na área urbana, a falta de perspectiva para construir o futuro, o isolamento social, a insatisfação conjugal, a aculturação a valores diferentes daqueles do grupo de origem, e a falta de lazer são os principais determinantes apontados para as manifestações de nervoso nas comunidades, o que corrobora a literatura sobre o nervoso (ver capítulo I). Esta constelação de causas é acrescida de outros fatores, onde a cultura e a consangüinidade entrelaçam-se.

"A carga genética, consangüinidade e a própria questão cultural também são importantes. Há muitos casamentos dentro do próprio grupo durante gerações e gerações (...) Há muitos casos de filhas engravidadas, pelos próprios pais, o que é outra causa de nervoso entre mulheres. (...) É um assunto do qual ninguém fala. (...)" (psicólogo)

De fato, para Gomes e Rozemberg (2000) o viés hereditário e fatalista apareceu como um dos eixos interpretativos das queixas de nervoso nas entrevistas com moradores da região. Na bibliografia estudada destacamos ainda as observações de Duarte (1988: 201) acerca da homologia que existe em um certo plano simbólico entre a representação do sangue e a do nervos, que se expressa discursivamente no núcleo da força/fraqueza (ver capítulo I). Nesta associação, "a representação do sangue, tomado em oposição à criação, está intimamente presa à representação sobre a família."

Na expressão de uma médica (Dra. L.), há uma "endemia de depressão", que é percebida por muitos profissionais como estando em estreita relação com o uso de agrotóxicos, sobretudo nas comunidades onde a atividade econômica ainda é predominantemente agrícola. A médica acima mencionada diz, inclusive, ter uma "teoria" a respeito da depressão das pessoas da região, segundo a qual a causa fundamental é a exposição aos agrotóxicos, uma vez que "os homens vão na frente sulfatando e as mulheres (e, também, as crianças) vão atrás carregando a mangueira." A sua observação corrobora o que Herzlich (1991) assinala como notável talento de os entrevistados assumirem a posição de teóricos. Corrobora, também, a constatação de outras pesquisas realizadas nesta mesma região rural de Nova Friburgo, como as de Castro (1999) e de Peres (1999), que evidenciaram o problema da intoxicação por agrotóxicos entre esposas e filhos que "puxam a mangueira" durante a sulfatação. Dentre os médicos entrevistados que trabalham nos postos de saúde (5), somente um (1) não estabeleceu enfaticamente esta relação entre nervoso e agrotóxicos.

Para os demais:

"As intoxicações por agrotóxicos são o principal problema da população. (...) A clínica do agrotóxico é o nervoso, tudo passa pelo neurológico. (...) Há queixas de nervoso sempre. (...)" (Dr. A.)

"Quase todas as alterações de conduta entre agricultores está ligada ao uso de agrotóxicos. (...) (Estes determinam) distimias -alterações do humor- e distúrbios do comportamento - surtos alucinatório-delirantes, maníacos e depressivos." (Dr. D.)

As pessoas tornam-se deprimidas, enfraquecidas, ou nas palavras do entrevistado, "com o raciocínio lento, apáticas, caladas demais.(...) O sistema nervoso central vai murchando. As pessoas ficam debilitadas do ponto de vista motor(...) As células nervosas perdem a capacidade de fazer a sinapse (...) É um agrobroxante, porque o agricultor se torna impotente sexual, o que desarma a família. A esposa tem desejo, ele tem desejo, mas não consegue ter relações sexuais. (...) Os rapazes ficam impotentes com vinte e poucos anos. (...) Às vezes suportam saber que as mulheres arranjaram um amante e não dizem nada para não desmanchar o casamento." (Dr. A.)

Cabe ressaltar que no desenvolvimento das entrevistas tomamos o cuidado de não anunciar "a priori" o nosso interesse em verificar o nexo associativo entre as queixas de nervoso e a exposição aos agrotóxicos. Conforme pode-se observar no quadro I, em anexo, o roteiro das entrevistas foi organizado a partir de uma questão mais geral, que procurava identificar as principais queixas de saúde dos usuários dos postos de saúde. Nosso intento sempre foi a de acompanhar o processo narrativo dos profissionais e, neste fluxo, procurar aprofundar o material que ía emergindo. O que nos surpreendeu, na realidade, foi o fato de verificar a pronta emergência do nexo causal já no início de várias entrevistas, tal a preocupação dos profissionais do Programa Saúde da Família que atendem na região com este problema. O roteiro de perguntas precisou ser percorrido até a última questão apenas com um único entrevistado, um médico, que não trouxe o problema da intoxicação espontaneamente ao longo das respostas anteriores

Na região estudada, a beleza das montanhas, das cachoeiras, da vegetação e, em especial, das flores oculta riscos que o conhecimento mais apurado revela. Nas palavras de um dos médicos, "os plantadores de flores e suas famílias estão 100% intoxicados". Alguns agricultores precisam abandonar as lavouras e tornar-se jardineiros nas casa de veraneio ou nas pousadas, intoxicados e sem forças para trabalhar com a enxada. "De lavradores eles passam a cortadores de grama", conforme as palavras de uma professora (Sá Rego, 1988). Embora em muitos casos seja vantajoso "virar jardineiro", em alguns depoimentos coletados no presente estudo observamos que esta não foi uma opção de mudança, mas uma conseqüência da doença. Tal circunstância mobiliza intensamente os agricultores tanto do ponto de vista individual, quanto no que diz respeito ao seu papel familiar e coletivo. Conforme nos mostra Tedesco (1999), o trabalho na terra (produção agrícola) está vinculado às relações sociais que estruturam a família e sua ação na natureza, envolvendo valores e diferenciações de papéis e hierarquias.

Um exemplo particularmente sensível relacionado à questão das mudanças de papéis no meio rural nos é trazido por Scheper-Hughes (2001), que estudou recentemente o aumento da incidência de casos de esquizofrenia entre rapazes de uma comunidade agrícola na Irlanda. Segundo a autora, com a desvalorização da atividade agrícola as moças do povoado começaram a migrar para os centros urbanos, onde encontravam oportunidades de trabalho, enquanto os rapazes da localidade, que antes auxiliavam seus pais na lavoura, assumiram o papel anteriomente delegado às irmãs, ou seja, o de cuidar dos afazeres domésticos, das crianças pequenas e dos velhos.

O discurso dos profissionais do PSF sobre o nervoso na região estudada revela, igualmente, uma demarcação muito nítida de gênero. Os homens em sua grande maioria são descritos como alcoólatras; as mulheres como deprimidas. Enquanto os homens se reúnem depois do trabalho para beber, as mulheres ficam em casa, enfrentando a jornada doméstica. A sobrecarga de trabalho, a insatisfação conjugal e o isolamento social são, dentre outros fatores, apontados como responsáveis pela depressão e envelhecimento precoce nas mulheres. A sobrecarga de trabalho, a falta de lazer e a impotência sexual são apontados, dentre outros fatores, como relevantes na depressão e alcoolismo masculino.

"As pessoas ficam voltadas só para o trabalho. (...) A vida é muito vazia, sem lazer.(...) As pessoas são muito estressadas, principalmente as mulheres, que têm depressão e hipertensão. (...) As mulheres acima de 50, 60 anos são todas dependentes de psicotrópicos. Gente jovem, também. (...) Os homens na sua grande maioria são alcoólatras." (enfermeira A. P.)

"O alcoolismo, tanto nos homens quanto nas mulheres está relacionado à falta de lazer." (enfermeira A. P.)

" Muitos casos de hipertensão, depressão e suicídio parecem estar relacionados ao uso de agrotóxicos. O alcoolismo, também. (...) Os agrotóxicos dão muito problema de estômago. Aí as pessoas bebem para não sentir dor de estômago. (...) Há depressão tanto em homens quanto em mulheres." (auxiliar de enfermagem R.)

"Aqui os casais não têm aquele carinho (...). Aí a pessoa vê aquilo na televisão e não tem em casa e sente falta." (prático de farmácia e vereador)

Outra questão fundamental presente nos depoimentos diz respeito ao aumento de casos de suicídio, tal como mencionado por alguns autores (Furtado 1998; Pickett et al., 1998 e Conger, 1999), assim como de crimes gerados por condutas impulsivas. Em relação aos casos de suicídio, foi reiteradamente expresso pelos entrevistados que as pessoas tomam agrotóxicos para suicidar-se, o que se confirma nos dados estatísticos do SINITOX do ano de 1999 (CICT/FIOCRUZ, 2000), segundo os quais 120 dos 232 óbitos por suicídio registrados naquele ano nos centros de intoxicação de referência do território nacional foram causados por agrotóxicos de uso agrícola. Evidentemente há que se incluir nesta estatística o uso do aldicarb ou temik, popularmente conhecido como "chumbinho", que é um agrotóxico inseticida do grupo dos carbamatos, de alta toxicidade. (ver capítulo I.2). Especificamente no Estado do Rio de Janeiro, a sua comercialização como raticida nos centros urbanos ganha dimensões de epidemia, sendo muito utilizado nas tentativas de suicídio, conforme mostram os estudos de Meirelles (1995) e de Levigard et al. (1998).

"As moças engravidam e algumas suicidam-se tomando veneno, agrotóxico." (Dr. P.)

"O nível de suicídios é alarmante em toda a região da montanha (...) de Nova Friburgo, principalmente entre os homens, devido à aculturação, à falta de perspectiva de construir um futuro. Entram em depressão. (...) Os suicídios são principalmente por envenenamento. Tomam desfolhante mesmo." (psicólogo)

"As pessoas vivem no limiar entre a apatia e a conduta violenta. (...) Ocorrem crimes devido a condutas impulsivas (...) A depressão tem levado muitas pessoas ao suicídio. As pessoas se suicidam tomando desfolhante, agrotóxico. " (Dr. A)

As alterações bruscas de humor observadas com certa freqüência em pessoas da população recebem na literatura denominações tais como síndrome de alexitimia ou "burnt-out syndrome". A alexitimia, cujo significado etimológico é "sem (a) palavras (lexis) para os afetos (thimos)" indica uma séria dificuldade para expressar as emoções e é atribuída a causas diversas, tais como alterações neurológicas (Toscano-Islas, 1998), doenças psicossomáticas, alcoolismo e adição a drogas, assim como a fatores relacionados aos modelos de comunicação familiar e/ou social (Otero, 1999). Para Loyello (1983), a falta de uma dimensão de futuro em grupos populacionais que vivem em situação economicamente desfavorável, traz um intenso sentimento de impotência que pode, às vezes, desencadear, condutas agressivas e violentas.

Dentre os profissionais de saúde entrevistados, dois médicos associaram as alterações bruscas de comportamento à exposição aos agrotóxicos. O parecer destes médicos encontra relação com a pesquisa de Weiss (1998), realizada na Universidade de Madison, nos Estados Unidos, segundo a qual a exposição de agricultores e suas famílias aos agrotóxicos produz, dentre outros agravos, alterações no sistema endócrino, mais especificamente nos níveis do hormônio da tireóide, desencadeando déficit de atenção e/ou hiperatividade em crianças, assim como irritabilidade, alterações de humor e comportamento agressivo em adultos. Esta pesquisa assinala a gravidade do problema em relação às gestantes, cujos fetos são atingidos por estas alterações hormonais, o que repercute em seu desenvolvimento posterior.

De modo geral, os profissionais do Programa Saúde da Família entrevistados mostraram uma sensibilidade aguçada com relação às queixas de nervoso, expondo a sua preocupação com determinados processos de trabalho e hábitos da população, assim como com a venda indiscriminada de calmantes em farmácias da região. No que concerne a questão ocupacional, observa-se na maioria dos relatos uma ênfase na exposição aos agrotóxicos, assim como nos múltiplos fatores que têm determinado mudanças nos papéis profissionais dos moradores das comunidades. O problema do consumo de calmantes por parte da população revela uma situação dilemática para muitos profissionais de saúde, sobretudo para os médicos. Apesar da resistência que a maioria dos médicos entrevistados manifestou com relação à prescrição de calmantes, estes são vendidos livremente, sem receita, em muitas farmácias, seja no povoado próximo, seja na cidade de Friburgo.

O consumo de remédios para o problema de nervos pela população rural indica, segundo Rozemberg (1994a), a introjeção por parte dos agricultores da lógica mercantil que permeia o discurso biomédico, onde o remédio para os nervos, em sua concretude, encerra significados tais como o do auto-controle e do fortalecimento físico e emocional. O incremento do consumo de calmantes em regiões rurais, tal como ocorre nos centros urbanos, evidencia também um esquema mercantil que transforma a doença em mercadoria e fonte de lucros (Loyello, 1983).

Este incremento sem controle pode levar a uma situação de alto risco, expondo trabalhadores já intoxicados por agrotóxicos a uma dupla intoxicação, com sérias conseqüências para sua saúde.

 

III.2.1 - As atitudes e as contradições dos profissionais no atendimento à população

Nossos resultados permitiram evidenciar alguns fatores que interferem no estabelecimento ou não do nexo associativo por parte dos profissionais entrevistados: 1) a proximidade ou o distanciamento da prática do atendimento às comunidades; 2) a abordagem desde uma perspectiva clínica ou desde uma perspectiva política; e 3) o tempo de permanência e a conseqüente familiaridade com o processo de trabalho agrícola que permite constatar a epidemia de intoxicação por agrotóxicos são alguns destes fatores. Eles fazem com que a discussão sobre as adversidades vividas pela população, expressas no nervoso, ganhe relevância ou não no discurso dos profissionais. O distanciamento do atendimento pôde ser constatado em três circunstâncias, a saber: na entrevista com o Coordenador do Programa Saúde da Família de Nova Friburgo, na entrevista com o prático de farmácia, recém-eleito vereador e no evento sobre saúde e educação. Na entrevista com o coordenador, observamos que o seu relato sobre os problemas de saúde da população era mais genérico, voltado, sobretudo, para os resultados da aplicação do Programa em termos de diminuição da ocupação dos leitos hospitalares no centro do Município e para sua expansão nas áreas urbanas. Como ele, o prático de farmácia e atual vereador enfatizou aspectos mais abrangentes, concernentes à organização do atendimento médico e da necessidade de medidas de saneamento na região. Já os profissionais que atendem regularmente a população mostram-se preocupados com o problema da exposição ocupacional aos agrotóxicos e, espontaneamente, ao falar sobre o "nervoso" estabeleceram o nexo associativo entre os dois problemas.

No evento organizado em São Pedro da Serra, chamou nossa atenção que os agricultores convidados para a mesa redonda "Agrotoxicidade, Adubo Orgânico e Desmatamento - conseqüências e alternativas" praticamente não tiveram voz, nem vez. Sempre que um agricultor ensaiava dar sua opinião ou depoimento a respeito do tema, era interrompido pelo coordenador da mesa, que dava a palavra a interlocutores graduados ou a um candidato à eleição. Segundo depoimento de um dos organizadores do evento, outras circunstâncias evidenciaram, também, um certo descompromisso dos profissionais com a população propriamente dita, como, por exemplo, o fato de o ônibus que iria transportar participantes da comunidade vizinha de Benfica ter sido deslocado para buscar políticos em Friburgo, o que impediu a participação dessas pessoas no evento.

A reflexão a respeito das narrativas contidas nas entrevistas e depoimentos nos permitem perceber algumas nuances e, até mesmo, algumas contradições entre o discurso e a prática, sobretudo entre os profissionais graduados. Se, por um lado, a prática profissional os aproxima de uma compreensão da realidade local e de um movimento voltado para as necessidades expressas pelas comunidades, por outro lado, a internalização dos vieses funcionalistas da formação acadêmica, ela própria submetida a pressões do mercado, leva alguns profissionais a apresentarem um duplo discurso. Assim sendo, percebemos o desejo do engenheiro agrônomo em orientar os agricultores para o plantio com adubo orgânico, com abandono progressivo dos agrotóxicos, enquanto sua fala traía seu intento ao denominar os agrotóxicos como "defensivos agrícolas", em franco duelo lógico com as noções de veneno e de remédio (Peres, 1999). Faltava-lhe, também, experiência de evidências concretas com as alternativas "orgânicas" que fundamentassem seu raciocínio, assim como a prática do exercício da troca de experiências, onde o confronto entre o saber do agricultor com o conhecimento cientificamente organizado, mobiliza e aprofunda os saberes, podendo fazer emergir uma compreensão da realidade inédita (Freire, 1982).

Do mesmo modo, um dos médicos entrevistados foi enfático em associar a sintomatologia de nervoso com o contexto de intoxicação por agrotóxicos, descrevendo perturbações diversas, tais como insônia, irritabilidade, distimias e, inclusive, surtos psicóticos maníaco-depressivos. Além disso, defendeu a necessidade de conscientizar os agricultores em relação a técnicas alternativas de plantio e criticou a livre comercialização de agrotóxicos e de calmantes. O relato de moradores revelou, porém, que a conduta terapêutica do referido médico consistia fundamentalmente na prescrição de grande quantidade de ansiolíticos, antidepressivos, neuroléticos etc, o que ía diametralmente em oposição ao seu discurso. Nos perguntamos, então, sobre estas contradições e a dificuldade que teríamos tido de constatá-las sem o uso de triangulação metodológica, onde o conteúdo das entrevistas foi permanentemente relacionado e confrontado ao depoimento de moradores da região e aos estudos preliminares sobre o contexto de vida e de trabalho.

Outros médicos do Programa Saúde da Família envolvidos na assistência à população e que pensam, igualmente, que as manifestações de nervoso podem ter relação com a exposição aos agrotóxicos relataram formas diversas de tratar os pacientes. Nestes casos informaram adotar, dentre outros métodos terapêuticos, a fitoterapia, a homeopatia, a administração de vitaminas, sobretudo B12, assim como a orientação verbal quanto à importância de mudanças nos hábitos de vida (caminhar, fazer exercícios, ter atividades de lazer etc.) e de trabalho (necessidade do uso de equipamento de proteção individual, não sulfatar a terra nos dias de chuva, prestar atenção na orientação do vento, tomar um copo de leite por dia, tomar banho frio após aplicação do agrotóxico, lavar a roupa do trabalho separadamente, não reutilizar vasilhame de agrotóxico etc). Nos casos de pacientes cronicamente intoxicados informaram orientar, também, para a mudança de atividade profissional. Constatamos que o foco das recomendações médicas, de modo geral, recai na mudança de comportamentos individuais. Além disso, deparamo-nos com o questionamento a respeito da eficácia de programas de educação em saúde que estejam dissociadas das representações sociais dos grupos aos quais destinam-se. Conforme assinala Rozemberg (1994b), a reprodutibilidade discursiva por parte da população rural de conteúdos educativos, não implica em sua introjeção. Estes conteúdos só encontram permeabilidade se estiverem consoantes com as representações que a população tem a respeito dos temas tratados.

Os médicos do Programa Saúde da Família entrevistados apontam ainda dois problemas de difícil manejo, a saber: o alto índice de alcoolismo na população e a venda indiscriminada nas farmácias de remédios para o nervoso (antidepressivos, ansiolíticos neuroléticos e anticonvulsivantes). Do mesmo modo em que são freqüentes os casos de intoxicação cruzada, onde o álcool potencializa a intoxicação por agrotóxicos e vice-versa, são usuais os casos de pessoas intoxicadas devido ao uso inadequado de medicamentos.

"Há um farmacêutico em Friburgo (...) que dá calmantes, qualquer calmante. Ele ficou riquíssimo. (...) As pessoas misturam tudo, antidepressivo, ansiolítico etc." (Dra. L.)

"A situação das mulheres é muito degradante (...) Elas trabalham de domingo a domingo e não têm liberdade para sair. Ficam isoladas. (...) A mulher sente o nervoso e, sem prescrição nenhuma recebe os remédios e controla o nervoso, mas não as causas (...) Há muita facilidade de conseguir o medicamento nas farmácias." (psicólogo)

Particularmente no que concerne a situação das mulheres da região, mencionamos o estudo de Teixeira (1999) realizado em Lumiar e em São Pedro da Serra, que mostra que embora a atuação feminina local seja fundamental nas esferas produtiva e reprodutiva, o seu trabalho continua sendo considerado secundário e complementar ao trabalho do homem e o seu papel no processo decisório familiar ainda é de subordinação ao marido. A insatisfação decorrente destas circunstâncias é expressa nas queixas de tristeza, nervoso, depressão etc.

Observa-se uma crença comum entre os profissionais entrevistados de que as mudanças no processo de trabalho agrícola dependem, em grande parte, do investimento que as prefeituras vierem a fazer na educação das crianças e adolescentes. A questão mostra-se, no entanto, muito mais complexa e envolve segundo Calazans et al.(1983) a necessidade de se contrastar os discursos e os programas institucionais com as representações dos trabalhadores em relação aos temas próprios de suas vivências. Na mesma linha de pensamento, Pinto (1981: 77) esclarece que "o processo de educação de adultos não deve ignorar o conjunto ideológico e, menos ainda, sua estreita vinculação com a produção e as relações sociais que dela derivam."

A pertinência desta crença expressa pelos profissionais do Programa Saúde da Família depara-se ainda com outro obstáculo: projetando no futuro e em ações externas as perspectivas de mudanças, estes profissionais estão deixando de valorizar as relações e as práticas vigentes dentro da própria comunidade e até mesmo a sua própria atuação, que se faz presente nas intervenções cotidianas, sejam elas visitas domiciliares, orientações ou consultas. Talvez isto ocorra devido à falta de uma efetiva troca de saberes, assim como de estímulo para uma participação mais ativa da população. Como diz Briceño-León (1996:16), "a educação como arte de usar conhecimentos implica em um trabalho que deve deliberadamente buscar a participação dos indivíduos para assim lograr e poder sustentar as metas de saúde. Para fazê-lo, é necessário conhecer o ser humano e suas circunstâncias e buscar contar com ele ou ela para todas as ações de saúde."

Tomando por referência estas considerações, concluímos que o eixo norteador de um processo de educação em saúde deveria situar-se na articulação entre a singularidade das situações cotidianas e das práticas sociais, assegurando a possibilidade de uma reflexão crítica com potencial de transformação da realidade.

 


* - Os nomes são fictícios.
 
 
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