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Moreira, Marilda Maria da Silva. Trabalho, qualidade de vida e envelhecimento. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 100 p.

Algumas Alternativas Existentes para o
Aumento da Qualidade de Vida na Terceira Idade


Os projetos do indivíduo transcendem o intervalo físico da sua existência:

ele nunca morre tendo explicitado todas as suas possibilidades.

Antes, morre na véspera: e alguém deve realizar suas possibilidades

que ficaram latentes, para que ele complete o desenho de sua vida.

(Ecléa Bosi)

 

Este capítulo objetiva apresentar três alternativas existentes para o aumento da qualidade de vida da população idosa, a saber: os programas para a terceira idade, os programas de preparação para a aposentadoria e os projetos futuros de vida.

A preocupação de mostrar essas outras vias, que podem gerar bem-estar para os idosos, deve-se ao fato de que o trabalho não pode ser encarado como a única resposta possível para o aumento da qualidade de vida na terceira idade, mesmo que ele possa realmente ser uma fonte de prazer para os indivíduos que se encontram nesta faixa etária. Vejamos essas alternativas nos itens que se seguem.

 

5.1 Programas que Visam ao Bem-Estar dos Idosos

Na década de 60, na Europa, surgiram algumas atividades voltadas para pessoas aposentadas que visavam a ocupação de seu tempo livre, sem a preocupação de prestarem outro tipo de assistência, seja ela jurídica, médica ou educacional. De fato, isto só ocorre em 1973, na cidade de Toulouse (França), com a criação da primeira Universidade da Terceira Idade, objetivando o ensino e a pesquisa (Peixoto, 1997).

No Brasil, foi o SESC, em 1964, que atuou de forma pioneira na implantação de programas voltados para o bem-estar dos idosos (não asilados), através da criação de um grupo de aposentados. Já no início da década de 70, surge o MOPI (Movimento Pró-Idoso), preocupado em "promover a formação de recursos humanos especializados, assim como desenvolver atividades socioculturais para os idosos" (Prata, 1990: 233).

Foi também o SESC, em 1977, que deu origem às Universidades da Terceira Idade, ao fundar a Escola Aberta da Terceira Idade (Peixoto,1997). Sem dúvida, as universidades para a terceira idade (9) são uma forma de aumentar a qualidade de vida da população idosa, pois proporcionam: o conhecimento (ao oferecerem uma diversidade de cursos de atualização, palestras, etc.); o debate das questões relativas ao envelhecimento; o divertimento; um espaço de convivência com outras pessoas (já que a solidão é um fator que não pode ser desconsiderado em se tratando de idosos); e finalmente, dão ainda um suporte institucional, seja jurídico, médico, etc.

Contudo, somente a partir da década de 90, podemos constatar o aumento dos programas destinados aos idosos no Brasil. Isto deve-se a alguns fatores, tais como: o Plano de Ação Mundial sobre o Envelhecimento (PAME), a Política Nacional do Idoso (PNI) e a mobilização da sociedade civil.

Em, 1982, em Viena, a Assembléia Mundial sobre o Envelhecimento (AME), patrocinada pelo ONU, traçou as diretrizes do PAME, um importante balizador das políticas sociais destinadas à terceira idade, tendo em vista a orientação, prestação de serviços sociais, implementação de programas de preparação pré e pós aposentadoria e o maior engajamento dos idosos à vida social (Cavalcanti & Saad, 1990).

No Brasil, entretanto, somente uma década depois do PAME é que podemos que ver as ações (traduzidas sob a forma de legislação) que foram ao encontro das necessidades da população idosa, através da PNI (Política Nacional do Idoso), regulamentada pelo Decreto-Lei nº 1948, de 03 de julho de 1996. Para que isto ocorresse:

"Foi necessário que o aumento expressivo deste contingente atingisse um número alarmante nas projeções para as próximas duas décadas para que as autoridades despertassem para esta realidade latente.

Aliados às projeções dos dados epidemiológicos, como forma de pressão para a tomada de iniciativas urgentes por parte do Estado, estão os lobbies feitos no Congresso Nacional, no período que sucedeu a promulgação da Constituição Federal, de 1988, pelos aposentados em torno dos 147% de aumento dos seus benefícios, visando a garantia de um patamar mínimo para o reajuste de suas aposentadorias e pensões. Este fato configurou-se como o maior movimento organizado de expressão nacional nas últimas décadas" (Moreira, 1998:37-38).

 

5.2. Os Programas de preparação para a Aposentadoria (PPA)

Os Programas de Preparação para a Aposentadoria (PPA) são fruto uma iniciativa interessante por parte das empresas, pois passaram a proporcionar aos seus funcionários (que estavam prestes a se aposentar) um espaço de reflexão sobre as possíveis perdas e ganhos relativos ao afastamento do trabalho. Além disso, os PPAs podem ser uma via para ajudar os trabalhadores a fazerem o planejamento dos anos posteriores ao seu desligamento da empresa, pois sugerem o reforço das relações familiares e de amizade, além da elaboração de projetos futuros de vida, ou seja, dão também ênfase à sociabilidade como forma suporte para se pensar os anos posteriores ao desligamento da empresa. Com efeito, isto pode ser importante para a vida das pessoas que estão prestes a se aposentar, já que não raras são as vezes em que nos deparamos com quadros de depressão e doenças na pós-aposentadoria.

No cenário atual, com a proposta do Estado para a Reforma da Previdência Social, os trabalhadores terão direito a sua aposentadoria já bem próximos da terceira idade, visto que os limites etários tendem a ser ampliados, estendendo-se para os 60 anos para os homens e 55 anos para as mulheres, o que faz com que a introdução desta temática seja imprescindível. Deste modo, os PPAs podem ser considerados uma via de aumento da qualidade de vida na terceira idade, ao fornecer um apoio substantivo para se pensar a vida após o desligamento do trabalho. A capacidade de atendimento destes programas, contudo, é ainda muito limitada, ficando restrita às grandes empresas e algumas estatais. Segundo Rey et alli (1996) ,

"no Brasil, está ganhando impulso a recomendação de que sejam estimuladas medidas que tornem menos traumática a transição da vida ativa para a de aposentado. Tal recomendação encontra-se disposta na Lei 8.842/94, de 4 de janeiro de 1984, no Capítulo IV; Art. 10, inciso IV" (p. 16).

E, finalmente, os autores ainda acrescentam que:

"É através dos programas de preparação para aposentadoria implantados que o trabalhador será mais esclarecido quanto a seus direitos e possibilidades de vida futura, afastando o receio de passar a ‘sobreviver’ tão somente, negando a si mesmo uma maior possibilidade de vida" (Rey et alli, 1996: 16).

 

5.3 Projetos Futuros de Vida

Os projetos futuros podem também se constituir como uma condição importante para o aumento da qualidade de vida na terceira idade, porque são uma forma de dar sentido à existência dos indivíduos (como seres que mantêm suas faculdades mentais ativas, capazes de poder projetar e concretizar seus desejos). Em outras palavras, a própria existência de projetos, já garante significado à vida e "criar uma razão para o significado de estar vivendo parece uma questão sempre presente na velhice. A concretização do projeto dá uma resposta possível a essa questão" (Barros, 1991:66).

Neste sentido, Bosi (1994) também acrescenta que: "nossas faculdades, para continuarem vivas, dependem de nossa atenção à vida, do nosso interesse pelas coisas, enfim dependeM de um projeto" (p. 80).

Os desejos, por sua vez, têm uma característica peculiar: podem, em uma etapa da vida, configurarem-se como um sonho e, em outra, passarem a ser um projeto, possível de ser realizado. E vice-versa, os projetos podem se distanciar da sua viabilidade tornando-se sonhos. Segundo Velho (1994), o projeto é diferente dos sonhos, justamente porque ele tem como alicerce o fato de poder ser viável, de poder ser concretizado. Desta forma, o que garante uma dimensão dinâmica à vida é o fato de tentar transformar os sonhos em projetos.

A concretização de um projeto na terceira idade tem um peso muito grande, pois mostra que o idoso, apesar das diversidades, pode superar algumas limitações (tais como: idade, condição física, etc.) e ir em busca de seus desejos, superando alguns estereótipos ainda tão arraigados em nossa sociedade (como, por exemplo, de que a pessoa idosa não consegue adequar-se à realidade presente, não consegue acompanhar os avanços impostos à humanidade, que é um ser desatualizado, sem maiores expectativas na vida).

Sem dúvida, o bem-estar proporcionado pela elaboração e/ou concretização de projetos é traduzido, inegavelmente, como um aumento da auto-estima e, consequentemente, na melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas.

Mas como incentivar a construção de projetos? Uma resposta para esta pergunta já vem sendo dada nos grupos para a terceira idade, onde são trabalhadas a potencialidade do ser humano, a sua capacidade de conceber projetos e, principalmente, de poder realizá-los.

Não obstante, este apoio não deve ser restrito aos grupos de terceira idade, já que cada um de nós tem condição de dar à pessoa idosa, que está ao nosso lado, estímulo ao seu potencial e à sua capacidade criativa, mostrando-lhe que é possível aprimorar uma habilidade manual, aprofundar seus conhecimentos, praticar esportes, enfim, que pode tornar possível a realização dos seus desejos, fazendo-a perceber que não está "velha" demais para iniciar uma nova empreitada, pois nunca é tarde para começar.

 


9- No Rio de Janeiro, é necessário destacar o trabalho da UnATI/UERJ (Universidade Aberta da Terceira Idade/ Universidade do Estado do Rio de Janeiro), criada em maio de 1992 e colocada em funcionamento a partir de agosto de 1993, por configurar-se como um importante centro de pesquisas e de serviços destinados a essa faixa etária. Este programa tem como objetivos: "a assessoria de órgãos governamentais, no que se refere a esta temática; a realização de cursos para os idosos e para a capacitação de recursos humanos; a prestação de assistência jurídica, médica e física aos idosos; a pesquisa, tanto no que se refere a estudos comparativos da realidade brasileira com países estrangeiros, como na publicação e divulgação em seminários de seus estudos. Este núcleo da UERJ complementa também o atendimento das atividades executadas no Núcleo de Atendimento aos Idosos no Hospital Universitário Pedro Ernesto" (Moreira, 1998:48-49).

 
 
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