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Moreira, Marilda Maria da Silva. Trabalho, qualidade de vida e envelhecimento. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. 100 p.


O Caminho Percorrido Nesta Dissertação

No beiral da minha varanda se aninhou um casal de andorinhas.

E a gente acompanhou o trabalho dos pássaros, diariamente.

(...) Mas, no fim das contas, aquele sacrifício todo tem a sua paga –

resulta infalivelmente em um novo casal de andorinhas,

tão belas quanto as primeiras, negras, lustrosas e perfeitas.

(...) Como é difícil, meu Deus, como é raro produzir,

já não digo uma andorinha inteira, mas um simples riscar de asa no céu,

uma cantiga de ave, um atrevimento de vôo.

(Rachel de Queiroz)

1.1 Objeto de Estudo

A questão da terceira idade no Brasil é de extrema relevância, pois existe a estimativa de que na segunda década do próximo milênio estaremos com mais de 31 milhões de indivíduos com idade acima de 60 anos em nosso país, fato este que nos colocará como a sexta maior população mundial de idosos. Além disto, quando falamos em terceira idade no Brasil, devemos levar em conta as diversas disparidades socio-econômicas existentes entre as regiões brasileiras que exigem políticas sociais voltadas para este setor que sejam mais adequadas à realidade da população de determinado estado ou mesmo de determinadas cidades.

Faz-se necessário, no campo da Saúde Pública, que um novo olhar esteja voltado para esta temática, visto que existe a urgência de ações, não apenas curativas, mas principalmente preventivas, a fim de que o envelhecimento possa ser encarado de forma positiva, atrelando-o à uma boa qualidade de vida.

Esta temática também é relevante para a área da Saúde do Trabalhador, pois através dela pode-se pensar no significado do trabalho na vida das pessoas e na repercussão deste sobre a qualidade de vida (tendo como base o discurso de trabalhadores aposentados, do sexo masculino, na terceira idade, que continuam, ou não, a ter um vida laborativa).

Privilegiar a fala de pessoas na terceira idade, significa reconhecer que estamos falando de um grupo de indivíduos ainda muito marginalizados pela sociedade, mas que possuem também uma vasta experiência de vida (vida esta que foi centrada no trabalho), que deve ser estudada e valorizada.

Já a relação que o trabalho estabelece com a categoria qualidade de vida é bastante complexa, pois ao mesmo tempo que o trabalho pode ser agravante do estado de saúde das pessoas e fonte de desprazer, pode também gerar satisfação e bem-estar. Sendo assim, o trabalho tanto pode influir de forma positiva quanto negativa; para o aumento ou para a diminuição da qualidade de vida.

A respeito da qualidade de vida, podemos entender que ela tem uma relação direta com o bem-estar, ou seja, quanto maior for o bem-estar sentido por determinada pessoa, melhor será a sua qualidade de vida. Entretanto, a forma como este bem-estar vai ser sentido pela pessoa não depende, unicamente, de uma dimensão subjetiva, mas está também relacionada a uma dimensão histórico-social, conforme podemos ver no Capítulo 2.

 

1.2 Objetivos

1.2.1 Objetivo Geral

  • Analisar algumas das relações existentes entre o trabalho e a qualidade de vida de trabalhadores aposentados, na terceira idade.

 

 

1.2.2 Objetivos Específicos

  • Discutir as percepções dos trabalhadores aposentados acerca de questões como: terceira idade, qualidade de vida, trabalho, aposentadoria e processo saúde/doença;
  • Discutir a existência de alguns outros elementos que possam gerar qualidade de vida na terceira idade, tais como: os programas destinados às pessoas idosas, os programas de preparação para a aposentadoria e os projetos futuros de vida.

 

1.3 Metodologia

1.3.1 Quanto ao Método de Abordagem da Realidade

Durante o período de elaboração desta dissertação buscou-se, através de uma pesquisa qualitativa, privilegiar o discurso dos trabalhadores aposentados, com o intuito de estabelecer uma tentativa de apreensão das representações sociais (valores, idéias, concepções, ideologias, atitudes, senso comum) para alcançar, através do subjetivo, a dimensão social.

O objetivo principal da realização de uma pesquisa qualitativa foi o de abordar a história de vida das pessoas (tendo como pano de fundo o trabalho), suas representações de mundo, suas concepções, a fim de realizar um trabalho teórico que não estivesse distanciado da realidade e sem finalidade de contribuição para entendimento das questões relativas ao envelhecimento, à qualidade de vida e ao trabalho. Desta forma, um esforço foi feito no sentido de se conseguir atrelar a produção de conhecimento à realidade vivida pelos trabalhadores, hoje aposentados.

Debert (1988) assinala que ao utilizarmos histórias de vida estamos possibilitando o estabelecimento de um diálogo entre informante e analista, onde o primeiro nos fornece novas dimensões sobre o objeto de análise para que, através de um quadro real, possamos reformular nossos pressupostos e nossas hipóteses sobre determinado assunto.

 

1.3.2 Tipo de Entrevistas

As entrevistas realizadas eram do tipo semi-estruturadas e obedeceram às diretrizes que se seguem (2):

  • Dados caracterizadores dos entrevistados: nome; idade; estado civil; etc;
  • Dados da história de vida que buscaram resgatar as memórias de trabalho: a profissão; quais as suas ocupações ao longo da vida; idade com que começaram a trabalhar; o significado do trabalho em suas vidas; se sentiam prazer com o seu trabalho; por que se aposentaram; se voltaram a trabalhar após a aposentadoria e por quê;
  • Dados relativos à terceira idade: a experiência de estar na terceira idade; fatores que consideram como fundamentais para um indivíduo que está na terceira idade; considerações sobre o termo "estar velho";
  • Dados relativos à qualidade de vida: o que é bem-estar (felicidade); o que é qualidade de vida; se consideram como boa a sua qualidade de vida; se acreditam que a sua qualidade de vida pode melhorar;
  • Dados relativos à saúde: como está o seu estado de saúde; fatores indispensáveis para a manutenção de uma boa saúde; as relações do trabalho com a saúde.

 

1.3.3 Perfil dos Entrevistados

Participaram da pesquisa pessoas com idades que variavam entre 60 e 89 anos, aposentadas, do sexo masculino, que continuaram ou não a trabalhar após a aposentadoria. Buscou-se com a eleição de um grupo heterogêneo apreender as diversidades e as similaridades existentes entre indivíduos com experiências em diferentes processos de trabalho.

A opção de entrevistar apenas homens foi para facilitar a análise dos dados, pois caso contrário mais uma variável seria adicionada (a questão do gênero).

Foram utilizados os depoimentos de 10 pessoas e a escolha destes entrevistados foi feita através da indicação de amigos ou de profissionais que trabalham na área da terceira idade.

Este grupo teve o seguinte perfil (anexo 2):

  • 3 comerciantes: 2 aposentados (dono de loja de auto-peças; dono de sapataria) e 1 na ativa (dono de um pequeno bar);
  • 1 profissional liberal (dono de barbearia);
  • 1 petroleiro aposentado;
  • 1 ferroviário aposentado;
  • 1 empresário;
  • 1 metalúrgico aposentado;
  • 1 barbeiro;
  • 1 faxineiro aposentado.

 

1.3.4 Análise dos Dados Obtidos

Na análise do material do trabalho de campo, tentou-se dar significado à fala, dentro de um contexto histórico, social e cultural, visando à compreensão do universo no qual os entrevistados estavam inseridos.

A opção feita aqui foi a de não ter um capítulo exclusivo com o relato das entrevistas e a sua posterior interpretação, mas pelo contrário, em cada um dos capítulos seguintes pode-se encontrar trechos das entrevistas, que permeiam e ilustram a revisão bibliográfica.


2- O roteiro detalhado das entrevistas encontra-se no anexo 1.

 
 
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