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Sanches, Kátia Regina de Barros. A AIDS e as mulheres jovens: uma questão de vulnerabilidade. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 143 p.

VI CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

6.1 CONCLUSÕES

Esse estudo limita-se a entrevistas feitas com estudantes em um ambiente universitário. As conclusões não podem ser generalizadas e representam, no máximo, apreciações da população de estudantes do sexo feminino, recém-ingressas na Universidade.

6.1.1 Análise Geral

Essas universitárias, em sua maioria, têm idade em torno de 19 anos, são solteiras, não trabalham e recebem mesadas dos pais. Residem no município do Rio de Janeiro e são, em sua maioria, católicas. Referem a televisão e o rádio como as principais fontes de informações sobre assuntos gerais.

A principal fonte de informação sobre HIV/Aids é o jornal, embora a freqüência de utilização desse meio de comunicação não seja alta entre essas jovens. Os serviços de saúde se caracterizam como a fonte de informação de maior credibilidade, apesar de não terem sido referido com freqüência como fontes de informação. Pode-se sugerir, então, que as jovens que lêem jornal o consideram uma fonte de informação eficiente.

De uma maneira geral, essas estudantes possuem um bom conhecimento sobre os mecanismos de transmissão do HIV. Apesar disso, formas de transmissão errôneas foram citadas, apontando uma necessidade de orientação adicional quanto essa questão.

Essa amostra de universitárias é composto por jovens com pequeno número de parceiros, caracterizados como "namorados". Seus relacionamentos sexuais acontecem principalmente quando há uma relação amorosa com o parceiro. Elas associam diretamente o sexo ao relacionamento afetivo com o mesmo.

A aids é vista como uma doença fatal que pode ser transmitida por pessoas aparentemente saudáveis. Essas jovens referem que a parceria sexual múltipla pode aumentar o risco de transmissão do HIV, mesmo com o uso de preservativos.

Elas praticamente desconhecem a interferência do álcool e drogas no uso sistemático dos preservativos, provavelmente por não utilizarem essas drogas rotineiramente. Para essas universitárias, o sexo seguro baseia-se em ter um parceiro único e escolhido. A percepção de susceptibilidade pessoal é baixa.

As principais mudanças no estilo de vida sexual referidas foram as relacionadas ao tipo de parceria. Assim, o parceiro "único" ou "conhecido" se define como sendo o fator mais importante na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis

O preservativo é usado com relativa freqüência entre essas estudantes, principalmente considerando a parceria eventual. Esse uso do preservativo está mais relacionado a práticas anticoncepcionais. A não utilização é justificada pelo "conhecimento" e "confiança" no parceiro. Há uma reação favorável, por parte dos parceiros, ao pedido de uso do preservativo. Deve-se destacar também a baixa freqüência com que os preservativos são adquiridos, tanto pelas entrevistadas quanto por seus parceiros.

O álcool e as drogas não são muito utilizados por essas estudantes, mas entre as que utilizam essas substâncias, muitas o fazem antes de relações sexuais.

 

6.1.2 Vulnerabilidade à Infecção pelo HIV

A análise por componentes principais mostrou que existe um grupo de jovens que tem pequeno número de parceiros, não tem o hábito de usar bebidas alcoólicas ou drogas. Este grupo usa freqüentemente o preservativo com parceiros ocasionais, e, eventualmente, com parceiro regular. O conteúdo das respostas sugere que o preservativo é usado para a prevenção de DST/Aids com parceiros eventuais e como método anticoncepcional com parceiros regulares.

O segundo grupo é composto por estudantes que referem não usar preservativos. São possivelmente aquelas que têm relações estáveis com parceiros únicos. Entre elas o uso do preservativo é abolido por se acharem "protegidas" por esse tipo de parceria e usarem outros métodos anticoncepcionais. Outra característica deste grupo é o relato de que os parceiros se recusam a usar preservativos, levando com isso à não adoção dessa prática preventiva por parte dessas jovens.

No terceiro grupo observa-se um baixo nível de conhecimento sobre HIV/Aids e uma certa descrença dos preservativos como método de prevenção à transmissão do HIV. Essa descrença provavelmente explica a baixa freqüência de uso do preservativo nesse grupo.

Um quarto grupo foi representado pelas estudantes que têm alto grau de conhecimento sobre formas de transmissão do HIV/Aids e acreditam na função protetora dos preservativos. Apesar disso, este é o grupo que apresenta um dos mais baixos índices de uso de preservativo. Esse dado demonstra a inexistência de correlação entre grau de informação e uso de preservativo.

De acordo com o conceito de vulnerabilidade descrito por Mann e Tarantola (1996), a vulnerabilidade mínima existe quando a pessoa não relata nenhuma atividade sexual ou somente práticas de sexo não penetrativo. A vulnerabilidade cresce à medida em que a pessoa: 1-passa a ter relação sexual penetrativa com parceiro único, em relação monogâmica; 2- adere consistentemente às práticas de sexo seguro e 3- quando não aderem a práticas de sexo seguro. De acordo com essa definição e para facilitar a análise dos grupos identificados através da análise de componentes principais, classificamos a vulnerabilidade em três níveis: mínima; média (pessoas que têm atividade sexual e usam consistentemente preservativos); e alta (indivíduos que não aderem às práticas de sexo seguro).

O grupo de vulnerabilidade mínima está representado pelas estudantes que referem não ter atividade sexual. O grupo de vulnerabilidade média não foi identificado entre a população estudada. Os dois outros sub-grupos descritos podem ser classificados, segundo Mann e Tarantola, como de vulnerabilidade máxima. Entretanto, enfatizando a contribuição que esta categorização pode dar à definição de diretrizes para ações preventivas, considera-se interessante discriminá-los em níveis de vulnerabilidade alta e máxima.

Assim, classificar-se-ia como de vulnerabilidade alta o grupo que tem parceria única e que não usa preservativos de forma consistente, e como de máxima vulnerabilidade se qualificaria o grupo que independente da parceria não só não usa preservativo como também refere descrença quanto ao seu efeito protetor.

 

6.2 IMPLICAÇÕES PARA OS PROGRAMAS DE PREVENÇÃO EM HIV/AIDS

A estratégia de prevenção ao HIV implantadas no Brasil, se caracterizam por amplas ações de carater informativo, voltadas para segmentos populacionais específicos. Embora existam iniciativas isoladas de alguns Serviços de Saúde ou de Educação, estas são insuficientes se assumirmos que o Estado deveria ter o papel de desenvolver abordagens mais adequadas a cada grupo específico.

Essas estratégias de prevenção são organizadas predominantemente em torno do repasse de informações sobre o HIV/Aids e as formas de evitá-lo. Entretanto, sabe-se que fatores sociais interferem no processo saúde-doença, construindo diferentes estados de saúde e de bem estar. Além disso, os dados analisados nesse trabalho claramente evidenciam que: o aumento do nível de conhecimento sobre as formas de transmissão do HIV/Aids não se traduz diretamente, em adoção de práticas de sexo seguro.

Sabe-se que é impossível separar a prevenção do HIV de uma abordagem voltada à saúde de uma forma mais ampla, e mais especificamente da saúde sexual. No caso da população feminina, isso implicaria uma proposta de atenção integral à saúde da mulher. Ao mesmo tempo, à medida em que os caminhos que levam uma mulher a se infectarcontaminar são extremamente complexos, a prevenção do HIV não pode estar restrita exclusivamente à implementação de ações de saúde. A prevenção do HIV entre as mulheres deveria incluir também, além das estratégias de repasse de informações e de cuidados à saúde sexual e reprodutiva, estratégias de fortalecimento individual, reforço da auto-estima e estímulo à autonomia de uma forma geral.

Com base nos resultados desse estudo sugere-se para a população-alvo:

  1. Implantação ou manutenção de programas de ações de saúde relacionados à prevenção das DST/Aids, culturalmente sensíveis e direcionados a essa faixa etária e camada sócio-cultural. Esses programas devem informar sobre DST/Aids e capacitar essas jovens no que diz respeito à função protetora e uso correto dos preservativos. Além disso, devem utilizar estratégias que aumentem a auto-estima e o seu poder de negociação na relação sexual, uma vez que a opinião do parceiro sobre o uso do preservativo tem uma influência grande nesse grupo.
  2. Oferecer a essas jovens educação básica sobre sexualidade. A orientação sexual deveria ser oferecida desde o primeiro e segundo graus, antecipando-se à primeira experiência sexual, no sentido de prepará-las também para evitar as demais doenças sexualmente transmissíveis. De acordo com essa amostra de estudantes, a iniciação sexual se deu entre os 16 e 17 anos (58,6%).
  3. Promover campanhas nos meios de comunicação de massa, principalmente em televisão e jornais, que abordem a função protetora dos preservativos e desestigmatizem seu uso, uma vez que ele ainda é visto como reflexo da "falta de confiança" ou do "sexo fora da relação legitimada". Essa estratégia é necessária uma vez que os dados deste e de outros estudos apontam para a baixa freqüência na aquisição de preservativos por parte dessas jovens e a descrença por parte dessas estudantes quanto ao uso destes, como método de prevenção à infecção pelo HIV. Essas campanhas devem também lidar com a resistência masculina ao uso dos preservativos. Nesse estudo, observamos que algumas jovens referem não usar preservativos uma vez que seus parceiros se recusam a usá-los.
  4. Oferecer oportunidade de aconselhamento individual e interações preventivas grupais, com o objetivo de compartilhar experiências pessoais, discutir a percepção da susceptibilidade pessoal e modelar novos comportamentos. Isso permite que as mulheres discutam sua vida sexual e as conseqüências da adoção ou negociação das opções para a redução de risco. Essa indicação baseia-se na baixa percepção de susceptibilidade ao HIV presente nessa amostra de universitárias. Além disso, essas jovens referem o "parceiro único ou conhecido" e a "confiança" nos mesmos como as principais estratégias de prevenção adotadas.
  5. Estimular a responsabilidade sexual e reprodutiva em programas dirigidos à população masculina.
  6. Preparação de professores e alunos para atuarem como multiplicadores de informações sobre HIV/Aids. Uma vez que ainda existe conhecimento errôneo sobre formas de transmissão do HIV.
  7. Implantar programas preventivos dirigidos a estudantes universitários, com especificidade no que tange aos níveis de vulnerabilidade encontrados. Estes programas devem se voltar para temas como: a problemática da noção da relação "segura/protegida"; concepções equivocadas sobre os preservativos; resistência masculina ao uso dos preservativos; negociação de práticas de sexo seguro; e relação entre anti-concepcionais e prevenção de DST.

Esses programas deveriam ter uma abordagem ampla, de acordo com os níveis de vulnerabilidade encontrados por avaliações prévias. Objetivando o grupo de vulnerabilidade mínima e média, deve-se prover informações, motivações e habilidades que possam ajudar essas jovens a prevenir futuros riscos e envolvê-las em atividades de prevenção. Para os grupos de alta e máxima vulnerabilidade, deve-se enfatizar o papel protetor dos preservativos e adverti-las sobre os riscos do consumo de bebidas alcoólicas ou drogas antes das relações sexuais, em termos da utilização sistemática medidas preventivas.

Os programas de intervenção para essas jovens devem empreender todo o esforço possível para assisti-las, buscando a alterarção dos comportamentos que as colocam em risco, além de procurar alterar as condições sócio-econômicas que facilitem sua exposição ao HIV.

 
 
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