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Sanches, Kátia Regina de Barros. A AIDS e as mulheres jovens: uma questão de vulnerabilidade. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 143 p.

IV CARACTERIZAÇÃO DE ESTUDO

  

4. 1. OBJETIVOS E HIPÓTESES

4.1. 1 Objetivo Geral

Caracterizar a vulnerabilidade individual em relação às práticas e atitudes sobre a sexualidade de estudantes do sexo feminino, do primeiro ano dos cursos de uma universidade na cidade do Rio de Janeiro, visando subsidiar intervenções preventivas à transmissão do HIV.

 

4.1. 2 Objetivos Específicos

1- Caracterizar o grupo de universitárias segundo aspectos sociodemográficos (dimensão da vulnerabilidade social).

2- Identificar o cenário cultural, relacionando as práticas sexuais e preventivas do grupo sob estudo (dimensão da vulnerabilidade social).

3- Reconhecer o cenário interpessoal através das análises sobre situações que facilitem ou problematizem as práticas preventivas (dimensão da vulnerabilidade individual).

4- Caracterizar o cenário intrapsíquico, identificando a influência da aids ao nível de mudanças percebidas pela população estudada em suas práticas sexuais e de relacionamento afetivo (dimensão da vulnerabilidade individual).

5- Correlacionar fontes de informação, conhecimentos e atitudes com a adoção e a maior ou menor sistemacidade de medidas preventivas (dimensão da vulnerabilidade individual).

4.1.3 Hipóteses do Estudo

Práticas de sexo seguro entre mulheres dependem de fatores socioculturais que envolvem informação, percepção de risco e significados das relações afetivas. Esses determinantes se inserem na dimensão da vulnerabilidade social e da vulnerabilidade individual e devem ser tomados em consideração no desenho de ações preventivas.

 

4.2. METODOLOGIA

4.2.1 Descrição

O presente estudo realizado de julho a outubro de 1995 envolvendo alunas de primeiro e segundo períodos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) utilizou questionário que compreende questões abertas e fechadas. Trata-se de um estudo transversal cujo objetivo é definir, como já dito, uma base de informações que possibilite o desenvolvimento de programas preventivos adequados, assim como sua posterior avaliação.

 

4.2.2 Plano Amostral

4.2.2.1 Caracterização da Amostra:

No município do Rio de Janeiro existem 52 instituições de nível superior, sendo uma estadual (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e 5 federais (UFRJ, UNI-RIO, Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Escola Técnica Federal e Instituto Militar de Engenharia). As 46 instituições restantes são privadas. Esses estabelecimentos oferecem 73 cursos universitários que são divididos em 4 grandes áreas do conhecimento:

1- Ciências Biológicas e da Saúde

2-- Ciências Humanas, Sociais e Artes

3- Ciências Jurídicas e Econômicas

4- Ciências Tecnológicas, Exatas e da Natureza

O número de vagas oferecidas alcança um total de 49.807 vagas, sendo 41.490 (83,3%) na rede das instituições privadas e 8.317 (16,7%) na rede pública (CEEC-MEC, 1995).

4.2.2.2 Seleção da Instituição

A Universidade Federal do Rio de Janeiro foi a universidade escolhida como local do estudo por ser uma grande e tradicional instituição de ensino. Ela reúne o maior número de vagas para o ensino superior no Rio de Janeiro e a maior diversidade de cursos (47 cursos diferentes).

Apesar da UFRJ ser seletiva no que diz respeito ao status socioeconômico de seus estudantes, sendo a maioria originária de classes mais privilegiadas da sociedade, existem diferenças significativas entre algumas áreas. Por exemplo, trinta e cinco por cento dos estudantes dessa Universidade tem pais com nível de instrução superior. A renda mensal média dos pais dos alunos é de US$443,00, entretanto, a renda mensal média dos pais de alunos do curso de engenharia elétrica é três vezes maior que a renda dos pais de alunos do curso de pedagogia (Coelho, 1992). Essa diversidade contempla em tese vários grupos socioeconômicos distintos.

A escolha baseou-se também no critério de viabilidade de realização da pesquisa, pela facilidade de acesso às faculdades e pelo interesse dos docentes.

4.2.2.3 Tamanho da Amostra:

A amostra foi calculada utilizando-se uma proporção estimada de 50% referente ao percentual da população que utiliza alguma medida preventiva em relação às DST/Aids (Sacco et al. 1993; Mickler, 1993). Utilizando-se um grau de precisão de 5%, o tamanho de amostra calculado foi de 400 indivíduos.

Através de estudos anteriores (Leme, 1994), pode-se inferir que a proporção de mulheres na faixa etária estudada que já tiveram relações sexuais é de aproximadamente 80%. Foi aumentado em 50% o tamanho da amostra, uma vez que queríamos no mínimo 400 jovens com experiência sexual, e chegamos, assim, a um total de 600 estudantes.

Optou-se pelo procedimento de amostragem probabilística com probabilidade proporcional ao tamanho das diferentes unidades. Esta opção deveu-se à necessidade de fazer-se inferência sobre a população e pela praticidade da utilização de unidades grandes (turmas). Por esse processo de seleção a probabilidade de que uma unidade seja escolhida é proporcional à grandeza da unidade (Cochran, 1977).

Foi construída uma listagem dos cursos da UFRJ, por área de conhecimento, com as respectivas ordens de grandeza (representadas pelo número de estudantes do sexo feminino matriculadas no primeiro e segundo semestre do ano de 1995) e a amplitude atribuída a cada uma das turmas. A partir da escolha de um número aleatório, via-se a que intervalo pertencia esse número e então, esse curso era o escolhido. Os demais cursos foram selecionados repetindo-se esse processo. Selecionou-se assim uma amostra de oito cursos da UFRJ, sendo dois de cada área do conhecimento. Os cursos selecionados foram: Arquitetura e Urbanismo; Serviço Social; Ciências Biológicas; Enfermagem; Engenharia Química; Matemática; Ciências Econômicas e Administração.

4.2.2.4 Seleção dos Participantes

A amostra constitui-se de alunas de primeiro e segundo períodos (diurno e noturno) dos cursos universitários selecionados. Essa população foi escolhida devido a: 1)-situar-se na faixa etária de risco para a infecção pelo HIV, pois constitui população sexualmente ativa; 2)-pela facilidade de acesso à essa população para efeito de pesquisa e ações preventivas; 3)-pela possibilidade de estudar essa população em momentos diferentes, viabilizando estudos comparativos.

Os contatos com a comissão de seleção do concurso vestibular da UFRJ foram feitos no primeiro semestre de 1995. Com essa comissão foi conseguida a listagem dos cursos, número de vagas oferecidas e número de alunos matriculados por curso, com distribuição por sexo.

Após a seleção dos cursos, contactamos os diretores de institutos e os coordenadores de graduação. Dispondo das grades de horários das turmas, esses professores auxiliaram na seleção das datas e horários mais adequados. Assim, foram escolhidas as disciplinas em cujos horários o questionário seria aplicado. Os professores dessas matérias foram contactados previamente e explicou-se a importância e os objetivos do trabalho, bem como os motivos de sua realização.

Os questionários foram aplicados nas salas de aula, durante os trinta minutos finais das aulas. As respondentes foram todas as alunas dos cursos selecionados, que estivessem presentes no momento da aplicação do questionário. Aproximadamente 4% das estudantes presentes não quiseram participar do estudo.


4.2.3 Instrumento

Tendo em vista os objetivos e a população de estudo, assim como aspectos relacionados com a viabilidade da coleta dos dados, optou-se pelo questionário anônimo, auto-aplicado, como instrumento de coleta. Ao se construírem as questões, houve preocupação quanto à linguagem empregada, atentando-se para uma comunicação fácil e rápida com as respondentes. As questões obedecem a uma ordem seqüencial, agrupadas de acordo com as variáveis dependentes sob estudo.

O questionário é composto por perguntas de múltipla escolha e perguntas de respostas abertas. As questões abrangem dados demográficos, conhecimento sobre os mecanismos de transmissão do HIV, uso de drogas, medidas preventivas quanto a doenças sexualmente transmissíveis, comportamento sexual, percepção de risco em relação à aids, uso de preservativos, bem como exposição a materiais educativos, programas e atividades sobre aids. As perguntas abertas foram necessárias, uma vez que não contávamos com parâmetros culturalmente estabelecidos para essas questões, o que dificultou a construção de opções de respostas fechadas plausíveis e culturalmente apropriadas. Um exemplar do questionário constitui o anexo 2.


4.2.3.1 Pré-Teste

O instrumento foi pré-testado em uma turma de 35 estudantes universitários da mesma universidade. Isso foi necessário para determinar sua clareza e a sensibilidade cultural do instrumento, além de gerar críticas e sugestões para o seu aprimoramento. Após a análise do pré-teste, com avaliação das críticas e sugestões, algumas perguntas tiveram sua formulação alterada e outras questões foram acrescentadas. Após essas alterações, foi elaborado o questionário definitivo.


4.2.3.2 Aplicação dos Questionários:

Os questionários foram administrados durante os meses de agosto a outubro de 1995. Após uma breve explanação sobre a pesquisa (deixando claro que essa pesquisa fazia parte de uma tese de doutorado, que era conduzida por profissionais de saúde e que tinha como um dos seus objetivos sugerir possíveis caminhos para estratégias de prevenção), e explicações sobre a importância de respostas individuais as mais sinceras possíveis, os questionários eram distribuídos. Os professores se ausentavam e o pesquisador se mantinha no local, para o caso de haver qualquer dúvida. Todos foram informados sobre a aleatoriedade na seleção dos cursos e do anonimato das respostas, visando à preservação da confidencialidade.

Observou-se receptividade, cooperação e interesse por parte dos estudantes no preenchimento dos questionários. Na maioria das turmas a necessidade de troca de informações sobre o assunto fez com que após a aplicação do questionário, fossem agendados outros encontros para uma maior discussão sobre as questões em pauta.

4.2.3.3 Validação do Questionário

Um certo número de medidas foram adotadas com a intenção de aumentar a taxa de aceitação e a qualidade das respostas, dois aspectos claramente relacionados entre si.

O primeiro passo dado nessa direção foi garantir aos participantes que o questionário fosse completamente anônimo e confidencial. O segundo cuidado foi relativo à introdução ao questionário padronizada e onde se definiam claramente quais as finalidades do mesmo. Segundo Spira (1994), os objetivos do estudo e a maneira como ele é apresentado aos participantes têm um papel fundamental para a validade do estudo.

Todas as perguntas de múltipla escolha tinham sempre uma resposta única. Isso evitava que alguém pudesse entender a "não marcação" como uma resposta. Como exemplo temos as questões sobre freqüência do uso do preservativo: Sempre - Freqüentemente - Algumas vezes - Raramente - Nunca - Não se aplica.

Pensando na possível dificuldade de recordar certos fatos, procurou-se relacionar as perguntas a um passado não muito distante. As respostas que exploram as práticas preventivas estão relacionadas às cinco últimas relações sexuais ou aos últimos 30 dias.

A qualidade das respostas pode ser avaliada pela ausência de contradições grosseiras nas respostas dos participantes aos diferentes segmentos do questionário que diziam respeito ao mesmo assunto. As perguntas sobre uso e aceitação dos preservativos é um bom exemplo.

A taxa de respostas em um estudo é convencionalmente usada como uma medida padrão de precisão das estimativas deste estudo (Blumstein et al., 1990). A proporção de "não-resposta" por questão pode indicar a qualidade das respostas. Entretanto, do mesmo modo que uma baixa taxa de não-resposta não indica necessariamente que a questão foi bem aceita ou entendida, uma alta taxa de não-resposta pode expressar uma compreensão restrita da pergunta ou simplesmente uma recusa em responder. As perguntas sobre renda individual e familiar podem se enquadrar nesse caso pois foram das raras questões com uma alta proporção de não-respostas.

De acordo com Blumstein e colaboradores (1990) existem 3 modalidades de participação seletiva que, de alguma maneira, têm efeitos diferentes sobre as estimativas acerca do comportamento sexual. 1) Participação seletiva com relação a características que são independentes do comportamento sexual. 2) Participação seletiva com respeito a atributos (por exemplo - situação conjugal) que podem estar relacionados com o comportamento sexual. 3) Participação seletiva diretamente vinculada ao comportamento sexual.

A primeira modalidade pode ser ignorada em termos de construção de estimativas, porque não-respostas dessa natureza não estão relacionada ao comportamento sexual. A segunda pode resultar em estimativas com vícios, mas que podem ser remediados se a distribuição da variável sob análise for sabidamente igual para o grupo de respondentes e não respondentes. A terceira modalidade é a mais problemática e raramente dará resultados livres de vícios.

Às estudantes que não quiseram participar foi perguntado o motivo da não aceitação. Esses motivos podem ser agrupados em 2: 1) necessidade de utilizar o tempo livre para estudar (aproximadamente 30% das estudantes que não quiseram participar); 2) sair mais cedo por motivos de transporte (aproximadamente 70%). Como a não aceitação em participar foi anterior a explanação sobre o objeto da pesquisa, poderíamos classificar os não respondentes no primeiro grupo, como fruto de seleção independente da participação na pesquisa.

Erros de medidas dão lugar a vícios (vieses) nas estimativas da prevalência dos comportamentos sexuais de "alto risco", levando a identificações erradas das populações sob risco. Além disso, dificultam as estratégias preventivas. As implicações dessas dificuldades para a utilização dos resultados desses estudos nos desenhos de programas de prevenção são óbvias.

Segundo Catania et al (1990) os erros de medidas associados com comportamentos referidos em questionários podem ocorrer de diversas maneiras: a)-Os entrevistados podem se recusar a responder as questões relacionadas a comportamentos sexuais; b)- Podem admitir comportamentos mas referi-los em menor escala; c)- Podem admitir comportamentos, e referi-los em escala maior do que a real; d)-Podem referir comportamentos que nunca aconteceram. Como não existe um "gold standard" para as respostas sobre comportamentos sexuais, é dificil detectar quando os respondentes estão referindo seus comportamentos sexuais em escala maior ou menor.

Medidas sobre comportamento sexual têm muito em comum com medidas de fenômenos subjetivos. Apesar do comportamento sexual poder, em tese, ser observado, existem apenas algumas circunstâncias especiais nas quais o testemunho de um observador pode ser usado para validar as respostas de um respondente. Fora essas circunstâncias especiais, não existem medidas independentes que permitam prover um acesso direto da extensão dos vícios presentes nas respostas de estudos sobre comportamentos sexuais (Blumstein et al., 1990).

Entretanto existem meios indiretos que podem ser usados nessas avaliações: a)-através do uso de taxas de doenças sexualmente transmissíveis (DST) na população e, b)-abordagem psicométrica.

A abordagem psicométrica de validação apresentada por Blumstein (1990), tem três pontos importantes: "Construct validity" (validade do constructo), "Criterion validity" (validade de critério) e "Content validity" (validade de conteúdo).

A validade de constructo, ou validade preditiva, é a mais efetiva e convincente estratégia mas, freqüentemente sua avaliação não é exeqüível. Por validade preditiva entendem-se processos que viabilizem uma avaliação de o quanto as medidas do estudo são preditivas (capazes de prever os resultados). No presente estudo, essa avaliação seria possível desde que acompanhada de sorologia para o HIV e outras DST da amostra sob análise. Os custos financeiros e operacionais dessa proposta fugiriam em muito aos recursos disponíveis por esta pesquisa. Uma possível aproximação dessa forma de validação seria a comparação dos resultados da pesquisa com dados de incidência de DST no segmento de mulheres universitárias. A falta de dados de vigilância epidemiológica sobre essas doenças tornou impossível essa comparação.

A validade de critério é provavelmente a segunda melhor forma. É o grau no qual as medidas concordam com outras abordagens que medem a mesma característica. No presente estudo essa modalidade de avaliação pode ser feita uma vez que algumas perguntas tinham a possibilidade de avaliar a relação entre as respostas do questionário. Como exemplo temos as perguntas sobre relações anais. A primeira pergunta se refere ao costume de ter relações anais, com as opções SIM - NÃO - NÃO SE APLICA. A segunda pergunta é sobre a freqüência de relações anais, com as opções: SEMPRE - FREQÜENTEMENTE - ALGUMAS VEZES - RARAMENTE - NUNCA - NÃO SE APLICA. Confrontando o item 3 da primeira pergunta (Não se aplica) com outra opção que não o item 6 da segunda pergunta (Não se aplica) encontramos uma alta relação entre as respostas.

É oportuno lembrar que a validade de conteúdo é um julgamento subjetivo sobre se as medidas fazem sentido. Apesar de ser uma avaliação basicamente subjetiva, com um bom julgamento, essa modalidade de validação pode ser satisfatória (Hulley e Cummings, 1988).

 

4.2.4 Plano de Análise dos Dados

4.2.4.1 Análise das Questões Abertas e Construção de Categorias de Codificação

A maioria das pesquisas sobre sexualidade realizadas durante a última década mostrou a importância de fatores sócio-econômicos na determinação de aspectos básicos do comportamento sexual. A partir do reconhecimento do papel do indivíduo e da sociedade na moldagem do comportamento sexual, a atenção passou a se concentrar no sistema de significados com vista à adequada compreensão dos padrões da sexualidade (Parker et al., 1995). O sexo não é mais visto como algo biológico e sim como uma experiência culturalmente apreendida, moldada pelo mundo interno e pelo mundo material onde vivem os seres humanos (Parker et al., 1995).

Na busca da compreensão da estrutura sexual nessa população de estudantes, é importante o conhecimento dos relacionamentos conjugais: O número de parceiros sexuais do informante; as motivação relativas ao relacionamento (motivações sexuais, sentimentais ou financeiras); a valorização da fidelidade, noções de prazer e sexualidade diferenciada por gênero. Essas questões foram importantes para a compreensão desses comportamentos, com o objetivo de que as respostas dessa pesquisa pudessem se traduzir em estratégias mais efetivas para a prevenção da aids.

As perguntas abertas foram analisadas a partir da leitura de aproximadamente 10% dos questionários e definição de núcleos de respostas. Em relação a essas perguntas, núcleos de conteúdo consistentes e estáveis foram organizados e destacados. Abaixo exemplifica-se a forma através da qual esses conteúdos foram construídos e identificados.

1- Em relação à decisão de ter relações sexuais, cinco núcleos foram construídos: 1) Sentimento - o amor ao parceiro; 2) Confiança no parceiro; 3) Atração física; 4) Condições pessoais; 5) Legitimação.

1.1 Sentimento, o amor ao parceiro - Esse núcleo engloba as respostas que associam a atividade sexual a uma relação amorosa.

"Só fiz amor com a pessoa que tenho certeza que é o amor da minha vida"

"Gostar de verdade é a certeza de não me arrepender depois"

"Tem que ser a pessoa que eu ame e com quem tenha uma certa intimidade"

"Se eu gosto muito da pessoa e se ele me corresponde"

    1. Confiança no parceiro - Esse núcleo concentra as respostas que relacionam a atividade sexual à confiança depositada no parceiro.

"Conhecer a trajetória do parceiro, vendo se pode pertencer a grupo de risco"

"Somente com pessoas confiáveis como o meu namorado"

"Conhecer profundamente o parceiro e sua intimidade"

    1. Atração física - Nesse núcleo foram englobadas as respostas que relacionavam a atividade sexual à atração física.

"O desejo, a vontade, meu espírito no momento"

"Atração pela pessoa"

"Vontade e momento"

1.4 Condições pessoais - Foram concentradas nesse núcleo as respostas que condicionam a atividade sexual a condições pessoais da estudante.

"Meu amadurecimento dentro da relação"

"Se estou preparada ou não"

"Meus sentimentos em relação a mim"

1.5 Legitimação - Esse núcleo engloba respostas que associam a atividade sexual a uma legitimação da relação do casal.

"Só transei com meu namorado. Já namoramos há 4 anos"

"Não transo com ninguém antes que tenha um compromisso sério"

"Só transo com meu marido!"

  1. A partir da pergunta sobre o que é sexo para você e para o seu parceiro, os seguintes núcleos foram destacados: 1) Sexo relacionado ao amor; 2) Sexo relacionado ao prazer; 3) Sexo como instinto; 4) Relacionado ao compromisso.

  1. Sexo relacionado ao amor

"Uma forma de expressar a amor"

"É a forma mais íntima de se relacionar com quem se gosta"

"Relacionamento de carinho e amor com a pessoa amada"

"Expressão sincera do amor"

  1. Sexo relacionado ao prazer

"Relação íntima entre duas pessoas que têm atração uma pela outra"

"Fonte de prazer e celebração de um relacionamento interessante"

"Algo que me dá prazer"

"Uma forma de prazer e relaxamento"

  1. Sexo como instinto

"Parte do dia-a-dia, supre as necessidades do corpo"

"Momento de satisfação do desejo carnal humano, além de ser método de procriação"

  1. Relacionado ao compromisso

"Complemento de uma relação estável"

"Compartilhamento do amor entre o casal"

3- As respostas da pergunta sobre se o sexo seria igual para homens e mulheres foram agrupadas nas seguintes categorias: 1) Duplo padrão, a partir de diferenças biológicas; 2) Duplo padrão, a partir de diferenças sociais; 3) Padrão único

3.1 Duplo padrão, a partir de diferenças biológicas - Esse núcleo engloba as respostas que caracterizam o sexo como sendo biologicamente diferente para homens e mulheres.

"Mulher não sente a mesma necessidade de transar que o homem"

"Para o homem é a necessidade e para a mulher tem que ter amor"

"Os homens encaram como necessidade do corpo"

"Somos fisiologicamente diferentes"

3.2 Duplo padrão, a partir de diferenças sociais - Esse núcleo concentra as respostas que caracterizam o sexo diferentemente para homens e mulheres, devido a características sociais.

"A mulher foi muito reprimida e, por isso, talvez, o sexo se misture com amor"

"Somos culturalmente condicionados a reagir diferente aos estímulos sexuais"

"O desejo é igual para todos, porém a sociedade é que o deturpa"

 

3.3 Padrão único - Esse núcleo engloba as respostas que caracterizam o sexo como tendo um padrão único tanto para homens quanto para mulheres.

"Ambos sentem o mesmo prazer"

"A distinção está na cabeça das pessoas"

4- Quatro núcleos estruturam as respostas sobre fidelidade: 1) Valor positivo; 2) Valor negativo; 3) Dependente da relação; 4) Duplo padrão.

4.1 Valor positivo - Esse núcleo engloba as respostas que referem a fidelidade como um valor positivo.

"Importantíssima para a felicidade e satisfação plena dos dois"

"Muito importante, as pessoas devem se dedicar a apenas um parceiro"

4.2 Valor negativo - Esse núcleo reúne as respostas que referem a fidelidade como um valor negativo.

"Não existe fidelidade total"

"Dispensável"

4.3 Dependente da relação - Nesse núcleo estão englobadas as respostas que referem ser a fidelidade relativa e dependente do tipo de relacionamento.

"Importante, a partir do momento que seu parceiro é seu ideal de vida"

"Em certos relacionamentos é totalmente necessária"

4.4 Duplo padrão - Esse núcleo engloba as respostas que descrevem a fidelidade como tendo padrão diferenciado para homens e mulheres.

"Legal, mas difícil de existir por parte dos homens"

"As mulheres levam muito mais em conta que os homens"

  1. As principais categorias definidas a partir da pergunta sobre os motivos que levam essas jovens a não usarem os preservativos, foram: 1) Fidelidade; 2) Confiança.

    1. Fidelidade - Esse núcleo foi formado por respostas que relacionam o não uso dos preservativos à fidelidade presente na relação.

"Sei que meu marido não possui outras parceiras"

"Certeza do relacionamento somente entre nós".

"Aposto na fidelidade do meu parceiro".

5.2 Confiança - Esse núcleo engloba respostas que relacionam o não uso dos preservativos à confiança no parceiro.

"Conheço bem o meu parceiro e seu estado de saúde"

"Conheço muito o meu parceiro e estou com ele há muito tempo"

"Somos namorados há dois anos e meio e éramos virgens"

"Confiança que temos um no outro".

"Certeza absoluta que não corríamos perigo"

É importante assinalar que esses núcleos referentes às perguntas anteriores já foram detectados na literatura que discute o papel da relação amorosa na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

Villela (1996) destaca que a sexualidade feminina, vista como vinculada à maternidade e ao mundo dos afetos, condicionaria sua existência a uma relação amorosa. Essa vinculação do prazer ao afeto demonstra que as escolhas dos parceiros estão fundamentadas e centradas nas concepções amorosas existentes na nossa cultura, onde a confiança, o amor e a proteção se relacionam entre si (Santos, 1996).

Uma pesquisa realizada por Paiva (1995) entre jovens e adolescentes na região central de São Paulo revela que nesse grupo uma das mais freqüentes associações que estabelecem com o sexo é o "amor". Além disso, acreditam que a fidelidade é importante, mas aceitam melhor a infidelidade masculina.

Em estudo qualitativo conduzido por Ludwig, 1990, o sentimento relacionado ao AMOR foi apontado como um "protetor" em termos de risco de transmissão do HIV. O estudo sobre comportamento sexual e aids, conduzido na França em 1992-93 (Spira et al., 1994), procurou compreender a extensão com que o sentimento relacionado ao amor era percebido como um elemento contraditório com a idéia de risco. Dezoito por cento dos franceses concordaram com a afirmativa: "Quando você esta amando, você não corre risco de pegar aids", e 19% discordaram um pouco.

6- As perguntas sobre o que as estudantes acham dos preservativos foram relacionadas aos seguintes núcleos: 1) Referência positiva, sem restrições; 2) Referência negativa; 3) Dependente da relação; 4) Com restrições pessoais.

  1. Referência positiva, sem restrições

"Importantes mesmo em relações fiéis"

"Necessários para garantir a integridade que, infelizmente, os sentimentos e a confiança não estão garantindo"

"Muito importantes, pois previnem várias doenças"

  1. Referência negativa

"Rasgam com facilidade"

"Profundamente incômodos"

"Algo que evita, mas não é 100% eficiente

  1. Dependente da relação

"Legal apenas se é com um cara que você não conhece"

"Eficientes e importantes para pessoas que têm muitos parceiros e desconhecidos"

"Imprescindível quando o sexo é puramente casual"

"Importantes para quem tem relações promíscuas"

"Importante quando o parceiro tem algum ponto questionável"

  1. Com restrições pessoais

"Não gosto pois tenho alergia"

"Úteis mas tiram um pouco do tesão"

"São desconfortáveis, meu parceiro demora mais para gozar"

7- A pergunta sobre a reação do parceiro ao pedido de uso do preservativo, gerou os seguintes núcleos: 1) Aceita normalmente; 2) Aceita, se for para anticoncepção; 3) Tenta não usar; 4) Nega-se a usar.

  1. Aceita normalmente

"Aceitaria normalmente, mas não há necessidade"

"Com muita clareza e certeza de sua necessidade"

  1. Aceita, se for para anticoncepção

"Normalmente, porque sabe que não é por causa de doença"

  1. Tenta não usar

"Não gosta mas me respeita e usa"

"Resiste um pouco, mas usa"

"Não gostava muito mas usava sem questionar"

  1. Nega-se a usar

"Responderia que é falta de confiança"

"Alega diminuição de prazer"

"Fica bravo, engana que coloca ou coloca e tira na hora"

"Pergunta se desconfio de sua fidelidade ou se sou infiel"

Em relação aos preservativos, certas características culturais devem ser assinaladas. O uso dos preservativos traz à tona a idéia de comportamentos sexuais irregulares ou desviantes do modelo monogâmico, onde estão embutidas a fidelidade e a confiança. O pedido para o uso do preservativo normalmente é interpretado como desconfiança do parceiro ou infidelidade por parte da mulher. Isso poderia levar a um risco social e pessoal que muitas vezes a mulher não está disposta a correr. Um risco que poderia vir a acarretar discriminação, perda do parceiro e do status social (Guimarães 1994)

 

4.2.4.2 Análise das Questões Fechadas

Com o objetivo de estudar as várias variáveis simultaneamente e determinar as relações entre elas, os dados foram submetidos a uma análise através do método de componentes principais (Morrison, 1976). Essa análise foi feita utilizando-se o pacote estatístico SYSTAT.

Para uma melhor compreensão desta análise, seguem-se alguns comentários sobre pontos fundamentais a respeito desse método. Não pretendo com isso proceder a nenhum detalhamento dos procedimentos estatísticos, o que estaria além dos objetivos desta dissertação.

A análise por componentes principais (ACP) faz parte de um conjunto de procedimentos estatísticos ditos redutores de espaço. Boschi (1991) citando Green e Rummel, aponta para uma variedade de objetivos destas técnicas de redução espacial:

1- simplificação de padrões complexos de associação entre variáveis, em dados multivariados;

2- análise exploratória para a identificação de características latentes das variáveis, com vistas a futuros experimentos;

3- estabelecimento de tipologias para o conjunto de variáveis, de maneira empírica;

4- redução da dimensão de um conjunto de dados multivariados;

5- desenvolvimento de um índice unidimensional, a partir das variáveis originais, que maximize a diferenciação entre as unidades experimentais;

6- determinação de relações hipotéticas entre as variáveis sob estudo;

7- transformação da matriz de variáveis antes da aplicação de outras técnicas, tais como regressão múltipla ou correlação;

8- representação escalar e espacial dos dados.

O presente estudo utilizou o conceito citado, particularmente no sentido de analisar a correlação entre as variáveis sobre informações, conhecimentos, atitudes, práticas e medidas preventivas em relação ao HIV/Aids.

A análise dos dados através do método de componentes principais utiliza as variáveis sem que estas sejam definidas como dependentes e independentes. Essa análise explica a variância através de algumas combinações lineares das variáveis originais, tendo como objetivo a redução e interpretação dos dados.

A análise por componentes principais estabelece, a partir de uma matriz de semelhança (variâncias/co-variâncias), um conjunto de eixos perpendiculares. Estes eixos, também denominados de "fatores", seguem uma ordem hierárquica de valores, decrescente, em função da sua contribuição para a variância total dos dados. Deste modo, o primeiro eixo da ACP representará a maior parte da variação dos dados. O segundo deve ser ortogonal ao primeiro e apresentar a segunda maior variância, e assim sucessivamente. O resultado disso é um sistema reduzido de coordenadas, proporcionando informações sobre as semelhanças do conjunto de dados.

Interpretar uma ACP consiste em tentar definir o que representa cada eixo. À medida que a importância dos eixos (isto é, a sua participação em relação à variância total) vai diminuindo, torna-se cada vez mais difícil a sua interpretação.

As correlações das variáveis com os componentes principais são denominados de "pesos", que têm valores entre zero e um. Quanto mais próximos de um, mais representativa é a variável naquele componente. Além disso, esses pesos apresentam um sinal algébrico, com valor positivo ou negativo, indicando a direção da associação: direta ou inversa.

Após encontrar a matriz solução, costuma-se utilizar um procedimento de rotação. Isto é, encontrar uma nova orientação espacial, para uma melhor interpretação em termos da estrutura de dependência das variáveis originais.

O procedimento de rotação utilizado nesse estudo foi o denominado de "varimax", de rotação ortogonal (Green, 1978).

O primeiro passo para essa análise foi a exclusão de variáveis sem expressão, como por exemplo: 1-renda individual e familiar, questão que não foi respondida por aproximadamente 80,0% das estudantes; 2- Local de residência, uma vez que a grande maioria (87,3%) declarou residir no município do Rio de Janeiro.

Para a análise desse item duas novas variáveis foram criadas: PRESERV, que se refere à freqüência do uso do preservativo tanto com parceiro fixo como eventual. Esta variável foi criada a partir da fusão das variáveis CONDREG (pergunta sobre a freqüência do uso do preservativo nas cinco últimas relações sexuais com parceiro regular) e CONDCAS (pergunta sobre freqüência do uso do preservativo nas cinco últimas relações sexuais com parceiro casual); e PSEX, que representa a variável PRESERV somada às pergunta Q22 e Q23, sobre o uso de álcool ou drogas antes de relações sexuais.

Do mesmo modo, com todas as demais variáveis, foi desenvolvida a análise por componentes principais.

4.2.4.3 Análise Segundo o Conceito de Vulnerabilidade

De acordo com a abordagem privilegiada, a análise se processará respondendo aos objetivos e de acordo com a seguinte grade de orientação:

1. Vulnerabilidade Social: Caracterização do grupo de universitárias segundo aspectos sócio-demográficos. Foram consideradas as seguintes variáveis:

1- Idade; 2- Curso universitário; 3- Local e tempo de Residência; 4- Situação conjugal; 5- Renda mensal (trabalho ou mesada); 6- Renda mensal familiar e renda per capita; 7- Carro próprio; 8- Religião e sua importância; 9-Acesso à informação.

2. Vulnerabilidade Individual: Identificar variáveis relacionadas ao cenário cultural, relacionando as práticas sexuais e preventivas do grupo sob estudo. A análise das variáveis que respondem a esse objetivo envolvem quatro itens:

2.1 Identificação das fontes de informações, conhecimentos sobre HIV/Aids, atitudes e práticas sexuais.

  1. Fontes de Informações: fontes, esclarecimento, credibilidade e conhecimento de pessoa com HIV/Aids.
  2. Conhecimento sobre aids: conhecimentos sobre as formas de transmissão.
  3. Práticas Sexuais: experiência sexual; idade da primeira relação sexual; repertório das práticas sexuais; caracterização das parcerias sexuais (número de parceiros, idade e sexo) e condições da interação sexual.

2.2 Auto-avaliação: Risco e práticas preventivas relativas à transmissão do HIV.

  1. Percepção de risco: fatores facilitadores e obstáculos à transmissão do HIV.
  2. Práticas preventivas: Conhecimento e percepção em relação a sexo seguro: Freqüência e uso consistente do preservativo; motivos para o não-uso; e formas de acesso aos preservativos.

2.3 Reconhecer o cenário interpessoal através das análises sobre situações que facilitem ou problematizem as práticas preventivas.

a) Condições de interação sexual: uso sistemático de substâncias como álcool ou drogas antes das relações sexuais; Reação do parceiro ao uso do preservativo.

b) Relacionamento afetivo: representações sobre os padrões sexuais e de gênero.

2.4 Caracterizar o cenário intrapsíquico, identificando a influência da aids ao nível de mudanças percebidas pela população estudada em suas práticas sexuais e de relacionamento envolvendo as variáveis sobre mudanças ocorridas e perspectivas de mudanças no estilo de vida sexual; e possibilidades quanto a infectar-se com o HIV.

3. Através da análise por componentes principais, buscou-se correlacionar as variáveis sobre Conhecimentos, Práticas sexuais e preventivas em relação ao HIV/Aids, com o objetivo construir uma tipologia de vulnerabilidade para a amostra sob estudo.

 
 
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