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Sanches, Kátia Regina de Barros. A AIDS e as mulheres jovens: uma questão de vulnerabilidade. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 143 p.

INTRODUÇÃO

A síndrome de imunodeficiência adquirida (aids) é um problema de Saúde Pública que alcançou proporções pandêmicas. Nos últimos tempos, poucos agravos à saúde geraram tamanho grau de interesse dos profissionais de saúde, de atividade científica, de enigma e de preconceito como a aids. O número de pessoas infectadas pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), seu modo de transmissão e seu impacto na sociedade levou a aids a ser uma doença que tem uma grande dimensão social (Bennett, 1987; Velimrovic, 1987).

Na ausência de uma vacina eficaz ou tratamento efetivo para a aids, a prevenção se baseia na educação, objetivando um maior conhecimento sobre a doença, e em propostas que promovam mudanças de comportamento. Estas mudanças comportamentais são os objetivos-chave de muitos programas de controle da aids, mas os comportamentos humanos têm múltiplos determinantes, e abordagens direcionadas somente para alguns aspectos dificilmente alcançam o sucesso (Santos, 1992).

Pesquisas sobre sexualidade indicam que as práticas sexuais, como qualquer comportamento humano, têm profunda interação com as demais representações e práticas sociais, ou seja, comportamentos sexuais são social e culturalmente organizados e prescritos (Parker, 1994). Sendo assim é necessário entender o meio sociocultural no qual o indivíduo vive, seus padrões de interpretação da realidade, seus costumes locais e práticas - fatores culturais e religiosos (Janzen, 1987)

Apesar do sucesso de alguns programas educacionais voltados para homossexuais e bissexuais masculinos nos Estados Unidos da América (Kelly et al. 1991; Martin, 1987), a prevenção da disseminação do HIV tem sido particularmente difícil, seja por insensibilidade cultural, inadequação socioeconômica das propostas frente às diferentes comunidades, ou razões pedagógicas. Outro aspecto é a evolução constante da epidemia, continuamente modificando-se e necessitando de formas renovadas e adequadas de prevenção.

Sendo a prevenção, no momento, a melhor opção para o controle da epidemia da aids, é essencial o entendimento de como a doença é percebida em um contexto cultural definido para o desenvolvimento de estratégias preventivas.

Desde o início da década de 90, a transmissão heterossexual do HIV vem crescendo. Em todo o mundo, mais de 75% dos adultos infectados no início desse período adquiriu o vírus por contato heterossexual (WHO, 1992). Esse quadro reflete a tendência da transmissão heterossexual do HIV, observada não somente em países em desenvolvimento, como também no mundo industrializado, se bem que neste último, em escala bem mais moderada, e restrita a grupos de padrão socioeconômico mais baixo.

O número de casos de aids em mulheres vem crescendo. Nos Estados Unidos, e no Reino Unido, a proporçäo de mulheres vem aumentando desde o final da década de 80 (Jones, 1989; XI International Conference on AIDS, Final report, 1996). Na Europa, as mulheres representam 20% de todos os casos; já na África a proporção de mulheres é estimada em torno de 50% do total de casos (XI International Conference on AIDS, Final report, 1996).

Altas taxas da infecção pelo HIV em mulheres grávidas, como as encontradas no África Sub-Saara e em alguns países do Caribe, podem em muitas regiões ter um grande impacto sobre a sociedade. Em alguns centros urbanos de Botswana, 43% das gestantes estão infectadas pelo HIV (UNAIDS, 1998).

Estima-se que desde o início da epidemia até dezembro de 1997, a aids foi a causa de óbito de 3,9 milhões de mulheres, e produziu um total de oito milhões de órfãos (UNAIDS, 1998). Nos países industrializados a taxa de infecção pelo HIV em mulheres ainda é baixa mas está crescendo, especialmente em populações urbanas com altas taxas de outras doenças sexualmente transmissíveis e maior freqüência de uso de drogas injetáveis.

Aproximadamente 33,0% (37,4% entre as mulheres e 32,1% entre os homens) dos casos de aids notificados no Brasil, atingem pessoas na faixa etária de 20 a 29 anos, sugerindo que a infecção pelo HIV foi adquirirda durante a fase de adolescência ou quando esses indivíduos eram adultos jovens, dado o amplo período de latência (aproximadamente 10 anos) entre a infecção e a sua manifestação clínica.

Muitos programas de prevenção têm os adolescentes e os adultos jovens como populações-alvo, entretanto, diversas pesquisas demonstram que comportamentos de alto risco têm persistido e mesmo aumentado nessa faixa etária (Di Clement et al. 1990; Fisher e Misovich, 1990). Algumas explicações sobre esses fatos estão relacionadas a um inadequado conhecimento sobre a transmissão do HIV (MacDonald et al. 1990; Skurnick et al, 1991); atitudes negativas sobre o uso de preservativos (Jemmott e Jemmott, 1991; Keller et al, 1993) e dificuldades em discutir com o parceiro atual o uso do preservativo (MacDonald, et al. 1990). Somado a isso, existem fatores relacionados à imaturidade cognitiva e percepções de invulnerabilidade, próprias dessa faixa etária. Avaliações sobre alterações comportamentais sugerem que sem uma apreciação pessoal do risco, os comportamentos tendem a não se alterar, apesar do adequado conhecimento sobre as chances de infecção pelo HIV.

Atualmente, no Brasil, as mulheres compõem a população onde a infecção pelo HIV mais cresce. A maioria delas é jovem e tem parceiro fixo e único. Segundo dados do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids da Universidade de São Paulo, 71% das mulheres infectadas pelo HIV contraíram o vírus dos seus maridos, noivos ou namorados com quem se relacionaram por mais de um ano (Traumann e Monteiro, 1998). Apesar disso as campanhas de prevenção têm negligenciado grande parte das mulheres em idade reprodutiva, sendo as ações preventivas dirigidas especificamente a prostitutas e gestantes.

Como a prevenção se baseia principalmente na promoção de mudanças comportamentais, é necessário implementar pesquisas sobre conhecimento, atitudes, comportamento e percepção de risco entre pessoas sob risco ou não, para o HIV/Aids em diferentes contextos socioculturais. O objetivo principal do presente estudo é avaliar a percepção de risco face à transmissão do HIV em mulheres com idade entre 16 e 25 anos, estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Esse trabalho é dividido em seis capítulos. O primeiro apresenta uma visão geral da aids em termos clínico-epidemiológicos e sociais, de uma forma global, situando o Brasil nesse contexto.

O segundo capítulo versa mais, especificamente, sobre a situação feminina e a realidade da aids, incluindo desde as dificuldades do diagnóstico às barreiras para a prevenção. Também é apresentado o perfil epidemiológico em termos do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro e o impacto da epidemia da aids na população feminina neste estado.

O terceiro capítulo aborda os estudos sobre o comportamento humano à luz da psicologia e da sociologia. Aborda as teorias específicas de comportamento relacionadas à saúde e referencia a teoria dos scripts sociais. A concepção de vulnerabilidade também é discutida neste capítulo.

Os capítulos IV e V enfocam os conhecimentos, atitudes e percepção de risco de estudantes universitárias da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No capítulo IV são expostos os aspectos metodológicos incluindo o plano amostral, o instrumento utilizado e o plano de análise dos dados. No capítulo V apresentam-se os resultados e a discussão dos dados deste estudo.

O sexto capítulo contempla as conclusões e recomendações para trabalhos com prevenção nessa população específica.

 
 
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