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Peterson, Christopher Robert. Gíria médica: trambiclínicas, pilantrópicos e embromeds. [Doutorado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1999. 129 p.

CAPÍTULO V

CONCLUSÕES

Este estudo exploratório teve como objetivos identificar e mapear preliminarmente a gíria médica carioca e sugerir interfaces entre seus significados e a hipercrise sanitária ou transição epidemiológica no Brasil. A ausência de um estudo antecedente sobre esse tema no Brasil e meu conhecimento limitado tanto da lingüística quanto da bioética implicaram na falta de um modelo teórico a priori, daí obrigando-me a uma construção analítica ad interim. Portanto, pretendo apresentar conjuntamente duas classes de conclusões: tanto aquelas pertencentes aos objetivos iniciais quanto aos indícios e descobertas surgidos a partir da investigação. Ambas, creio, podem sugerir linhas de pesquisa para o futuro. Seguem as conclusões:

            1. Existe um estilo lexical e semântico no Rio de Janeiro que se pode denominar "gíria médica" e que se pode distinguir do jargão médico e de outros estilos discursivos.

            2. A gíria médica não é um fenômeno exclusivo ao Brasil, existindo também, pelo menos, nos Estados Unidos.

            3. A gíria médica carioca é particularmente rica em trocadilhos. Entretanto, embora existam estudos sobre o pun em inglês (Freud, 1905a; Eco, 1974), a pesquisa sugere a falta de uma referência teórica para essa forma especial de metáfora condensada na língua portuguesa. A importância de um estudo teórico sobre trocadilho é realçada pelo fato de o termo em si ser etimologicamente metalingüístico, na medida em que denota seu próprio processo de elisão recíproca e substituição mútua de lexemas.

            4. A gíria médica carioca pode ser classificada tematicamente em três áreas: a formação médica, incluindo a relação com o saber e a relação inter-especialidades; os pacientes e os serviços de saúde.

            5. As provocações inter-especialidades, além de compor uma espécie de sibling rivalry (rivalidade fraterna) na medicina, como sugerido por Coombs et. al. (1993), podem também expressar raízes históricas no desenvolvimento das especialidades.

            6. Os estudos sobre gíria médica nos Estados Unidos (Crichton, 1968; Gordon, 1983; Coombs et. al., 1993) identificam quase exclusivamente tropos para pacientes. A revisão de Coombs et. al. (1993) sugere que a gíria seja usada com maior freqüência, mais não exclusivamente, durante o internato e a residência (variável não investigada por minha pesquisa de campo).

            7. Ao contrário das revisões da gíria médica americana (e.g., Coombs, 1993), a gíria médica carioca revela vários tropos para os serviços de saúde.

            8. Entretanto, uma revisão mais recente do humor médico americano (Bennett, 1997) mostra numerosos chistes médicos ironizando tendências no sistema de saúde americano.

            9. A análise semântica da gíria médica e o confronto com a literatura de saúde pública e da bioética fornecem indícios de interfaces entre esse estilo discursivo e a construção e expressão do ethos médico, particularmente as tensões existentes no debate sobre a justiça distributiva na saúde.


Discussão

Uma ressalva fundamental à metodologia utilizada, a partir de uma crítica implícita no comentário de Trostle (1998), é que englobei sob a rubrica de "gíria médica" o que na realidade constitui, não um registro lingüístico distinto, mas um conjunto de chistes, anedotas, provérbios, atos falhos, trocadilhos e outros tropos avulsos coletados de diferentes estilos discursivos médicos. Como proposta de enfoque para pesquisa no futuro, mapearia o que Labov (1972:186) propõe como uma hierarquia superordinada/subordinada entre estilos de fala. No caso do discurso médico, teria como hipótese os registros ou estilos científico, deontológico, e clínico no pólo superordinado e as conversas de quarto de médico e longe dos ouvidos dos pacientes no pólo subordinado. Um caso à parte (ou não?) seria a diversidade discursiva dos representantes da profissão médica no Poder Legislativo. Em linhas amplas, com muitas possibilidades de deslocamento de estilos, a progressão seria, do superordinado para o subordinado, no sentido discurso científico => discurso deontológico => discurso clínico => jargão => gíria. Muito possivelmente essa relação entre estilos discursivos assumiria uma forma não-linear, mais semelhante a uma "árvore" (Jürgen Heye, comunicação pessoal) ou até um "manguezal" (Luís David Castiel, comunicação pessoal). Como observa Labov (1972:180-181), não existem falantes com um estilo único, e os médicos teriam esse amplo leque de possibilidades de deslocamento entre estilos. Tal deslocamento não seria aleatório. Como já discuti acima, o que define os estilos com relação às situações é uma questão da organização social interna da profissão médica, e os médicos têm competência comunicativa sócio-lingüística com relação ao uso desses diferentes discursos.

O mapeamento de diferentes registros lingüísticos médicos permitiria comparações com o discurso de outros atores envolvidos no processo saúde/doença, sobretudo os pacientes (ver Alves & Rabello, 1995 e Duarte, 1986). Nessa linha, Fisher (1982:51-82) fornece um exemplo de investigação de como dois discursos, do médico e do paciente, interagem com fatores sociais, econômicos e demográficos no processo de tomada de decisão terapêutica. E dentro do âmbito científico/clínico propriamente dito, Castiel (1996:101-122) analisa as práticas metafóricas em saúde, chamando atenção para interfaces entre as metáforas na clínica médica e na epidemiologia e imunologia.

Adotando a classificação de Searle (1965:138-140), alguns estilos discursivos médicos obedeceriam a regras constitutivas, enquanto outros a regras reguladoras. O deslocamento e uso seriam condicionados por fatores éticos, psicológicos e sociais, como a percepção de prestígio científico e econômico, o fato de pertencer à profissão médica como um todo e a uma área especializada. O que classifiquei até aqui como gíria seria encontrada principalmente no pólo subordinado, porém intercalado ao longo dessa gama. O estudo americano mais elaborado sobre a gíria médica (Coombs et. al., 1993) utiliza apenas um grande divisor de águas entre a linguagem médica "formal" e "informal", deixando de fazer importantes distinções, por exemplo, entre os discursos científico, clínico e deontológico no pólo "formal", ou entre o jargão e a gíria no pólo "informal". Deixar de fazer essas distinções, ao meu ver, também dificulta a identificação de justaposições ou oposições entre os diversos estilos.

Um estudo mais abrangente sobre a interação entre o discurso e a prática da medicina teria que levar em conta que "o discurso" na realidade engloba esses vários discursos (e, evidentemente, várias práticas). Já sugeri acima que os estudos sobre gíria médica tendem a focalizar quase que exclusivamente os pacientes, e a menosprezar a prática médica mais contextualizada. Da mesma forma, observa-se que a análise do discurso médico pode se estreitar ao abordá-lo apenas como sinônimo do diálogo médico-paciente. Um exemplo é o estudo do psicólogo social da Harvard Medical School, Elliot Mishler, com o título The Discourse of Medicine: Dialectics of Medical Interviews (Mishler, 1984). O autor propõe uma comparação entre duas vozes, a "da medicina" (the voice of medicine) e a do "mundo da vida" (the voice of the lifeworld). Parte integral da metodologia é a louvável busca por uma prática médica mais humanitária, adotando para tanto a seguinte definição, do Subcommittee on the Humanization of Health Care of the Medical Sociology Section of the American Sociological Association, com oito condições necessárias e suficientes para uma assistência humanizada: "a visão de pacientes como pessoas íntegras, autônomas, únicas e insubstituíveis, tratadas com empatia e calor, e que compartilham as decisões com os médicos, numa relação recíproca e igualitária" (Mishler, 1984:6). Em que pese a falácia da premissa de que a relação médico-paciente possa ser "igualitária" (talvez, idealmente, pudesse ser eqüitativa), creio que o autor está correto em propor uma atenção maior para as opiniões dos pacientes, no sentido do seu empowerment e uma melhor contextualização social e pessoal dos seus problemas clínicos (através de maior atenção para a "voz do mundo da vida"), e concordo que isso poderia ajudar a promover a conjugação da efetividade do modelo biomédico com a humanização da prática médica.

Pode-se com proveito comparar os estudos de Coombs et. al. (1993) e Mishler (1984). Ambos foram realizados por pesquisadores de grandes faculdades de medicina americanas (UCLA e Harvard), e sob a égide dos respectivos Departamentos de Psiquiatria. O primeiro trata de um estilo discursivo da medicina, enquanto o segundo analisa "o discurso da medicina". Fazendo uma leitura crítica do material e conclusões de Coombs et. al. (1993), chega-se à conclusão que um interno típico nos Estados Unidos faz sua formação num grande hospital urbano de ensino sob condições que caracterizam uma tortura psicológica: trabalha entre 90 e 140 horas por semana em quase-confinamento, sofrendo pressões de vários tipos como situações constantes de vida e morte e professores e chefes de plantão hiper-exigentes, e sobretudo tratando pacientes comatosos, irrecuperáveis, oferecendo pouco potencial de aprendizagem, ou então pacientes queixosos, pobres, alcoólatras, tabagistas, viciados, promíscuos, não-brancos, oligofrênicos e/ou que não falam inglês. Durante esse processo de tortura, o rito de passagem, sem acompanhamento psicológico, o interno não apenas deve absorver o corpus básico do discurso científico que será constitutivo da sua prática profissional (enquanto descansa entre procedimentos, é obrigado a ler centenas de páginas de texto), mas ao mesmo tempo, aprende um outro discurso, a gíria, lexicalizando todo esse cenário de horror com chistes de cunho cético. Esse outro discurso, segundo Coombs et. al. (1993), teria funções psico-sociais salutares, como a de fortalecer o sentimento de pertencer a um grupo seleto, de criar uma identidade singular, de exercer a criatividade, de manter a distância em relação ao sofrimento, de amortecer a tragédia e descarregar emoções fortes.

Chamo atenção para o fato que os dois discursos, o científico/clínico e o da gíria, são aprendidos simultaneamente, porque pode iluminar a dificuldade de Mishler (1993) em passar da constatação do disempowerment do paciente diante do médico para alguma estratégia real de mudar esse discurso. Os médicos pertencem, em sua maioria, às camadas mais abastadas da sociedade. Adquirem um conhecimento teórico e prático de grande prestígio, com poder em relação à vida e à morte, que aumenta essa diferenciação. Adquirem esse conhecimento tendo como cobaias os indivíduos e grupos que, por suposta oposição (a partir da leitura de Coombs et. al., 1993), reforçam seu sentimento de superioridade não apenas científica, como também social e moral. A partir dessa perspectiva, parece até lógico que haja dificuldade, durante a formação médica, em chegar a um discurso que trate os pacientes como íntegros, autônomos, únicos e insubstituíveis, tratados com empatia e calor, como propõe Mishler (1984).

O jargão médico, ao meu ver, inclui: 1) a referência metonímica ao paciente enquanto órgão ou doença (embora alguns holistas pudessem levantar objeções contra esse recurso lingüístico, eu diria que não apenas facilita a concentração do médico, concordando com observação pessoal de Castiel, mas também serve como peça fundamental na semiótica médica, já que não apenas a anatomia e fisiologia normais, como também as entidades nosológicas, têm manifestações mais ou menos semelhantes de um indivíduo para outro - nesse sentido, a individualização radical na compreensão do processo saúde/doença praticamente inviabilizaria o raciocínio clínico); 2) o uso de eufemismos para amortecer a percepção de sofrimento e perda; 3) o uso de termos incriptados para comunicação entre médicos nas diversas situações em que os pacientes ou os familiares se prejudicariam ao tomarem ciência da informação transmitida, em que está implícito o "privilégio terapêutico", em que o médico avalia que revelar a informação poderia prejudicar o paciente mais do que beneficiá-lo (van Delden, 1998:839) e 4) o emprego extenso de acrônimos, elipses e outros dispositivos que tendem a poupar tempo precioso (ver Anexo IV). De acordo com essa perspectiva, o jargão médico, enquanto meio falado, poderia ser visto como parte ou extensão do discurso científico, com essas características metonímicas, eufemísticas, codificadas e taquifônicas, mas sem infringir a deontologia, i.é., sem ter o caráter "marginal" da gíria. Coombs et. al. (1993), talvez por não terem feito essa distinção, classificaram como gíria vários termos e dispositivos, como eufemismos, que pertencem ao jargão.

Também é importante frisar que essa outra grande vertente da "linguagem médica formal" apresenta dois grandes campos semânticos, os discursos científico e deontológico, que se sobrepõem mas que têm regras e significados diferentes. Se adotarmos o enfoque de Searle (1965:138-139) com relação a regras discursivas em atos de fala, para a prática médica o discurso científico seria considerado constitutivo, enquanto o deontológico seria regulador. O discurso científico é constitutivo à medida que cria a possibilidade para a própria existência dessa atividade, a prática da medicina. O discurso deontológico é regulador, à medida que regula relações preexistentes (estou falando aqui do discurso em si, e não do dispositivo legal e corporativista do licenciamento por entidades de classe). O discurso deontológico, enquanto regulador, apresenta predominantemente regras imperativas, ao contrário do discurso científico. Segundo Searle, uma das características principais das regras constitutivas é que parecem tautológicas, ou seja, os falantes podem não se dar conta da sua existência. Por exemplo, poucos médicos perceberiam que, durante a formação, aprenderem essa nova língua do discurso científico, essa linguagem própria da medicina (Good, 1994:71). Nota-se que um dos principais axiomas do discurso científico é que "na medicina não existe nem sempre, nem nunca" - ou seja, seu discurso está pautado na possibilidade permanente da exceção. Mas embora tendo funções distintas, constataríamos uma justaposição temática extensa entre os discursos deontológico (com regras imperativas) e científico (com regras probabilísticas). Os dois discursos diferem até quando definem conceitos de doença. No diagnóstico, o discurso científico trabalha constantemente com probabilidades, por exemplo, quando o paciente apresenta três ou mais de um leque semi-aberto de sinais e sintomas, existe uma hipótese diagnóstica de determinada entidade patológica. Segundo o raciocínio científico/clínico, são exceções as entidades patológicas com sinais patognomônicos. Já a deontologia tende a fazer convergir os mesmos dados para uma asserção imperativa, de caráter dicotômico, categórico ou "consensual". Se considerarmos os pareceres do Conselho Regional de Medicina (CREMERJ, 1997) enquanto regulamentação do Código de Ética Médica (CREMERJ, 1988), isto é, a implementação prática da deontologia, teremos vários exemplos. Geralmente o Conselho emite pareceres sobre conceitos de doença para fins que extrapolam a ciência e a clínica propriamente ditas, por exemplo, o Parecer 05/90 (CREMERJ, 1997:182), definindo se distúrbio de personalidade (personalidade psicopática) constitui ou não doença, no caso para determinar se é admissível para fins de aposentadoria de um militar. A definição deve ser imperativa, categórica, para que tenha força legal.

Se as regras do discurso científico são constitutivas da medicina e as do discurso deontológico são normativas, quais são as regras da gíria? Provavelmente a mais importante é que resiste à catacrese. Estima-se que o discurso médico científico registrado por escrito, na forma de produção científica biomédica, representa cerca de 45 por cento de toda a produção científica mundial (Brett, 1996), o que, por sua vez, representa apenas uma pequena parcela do que é dito a cada segundo por milhões de seres humanos, em termos médicos científicos. Em comparação, há no máximo algumas dezenas de artigos escritos sobre a gíria médica, e a maior revisão (Coombs et. al., 1993) compilou pouco mais de 300 termos. Seria tentador descartar a gíria médica como um registro lingüístico sem importância. Entretanto, se no discurso científico pode-se chamar a aurícula de átrio ou a fíbula de perônio, conclui-se que aurícula e fíbula poderiam ser eliminadas do dicionário sem perda de significação. De fato, já caíram em desuso. E se fossem eliminados átrio e perônio também, logo alguém cunharia outras proto-catacreses para substituí-los. Mas quantos sinônimos há para o vírus É-bala ou trambiclínica? Não se pode eliminá-los do dicionário, não apenas porque não têm sinônimos, mas porque ainda não chegaram lá. As metáforas vivas não estão no dicionário...

 
 
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