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Cruz, Myrian Coelho Cunha da. O impacto da amamentação sobre a desnutrição e a mortalidade infantil, Brasil, 1996. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 80 p.

Capítulo 1

Introdução

 

O avanço científico tem permitido ampliar as possibilidades de investigação sobre o valor do leite humano. O leite materno é uma substância imunologicamente ativa, capaz de diminuir a incidência e/ou gravidade dos eventos mórbidos de maior prevalência na primeira infância, nas áreas em desenvolvimento (OPAS 1998). Atua protegendo a criança de diarréia (Bittencourt et al. 1993, Bhattacharya et al.1995, Popkin et al. 1990) e de infecções respiratórias (Wright et al. 1998), pois apresenta anticorpos específicos, produzidos a partir da presença de patógenos que ameaçam as mucosas digestivas e respiratórias maternas (Akré 1997).

Os nutrientes do leite humano são encontrados em composição e em condições de biodisponibilidade ideais. Essas características resultam em um processo digestivo harmônico às condições fisiológicas do lactente, assim como no melhor aproveitamento dos elementos que o compõem (Akré 1997). Além de ser um alimento capaz de satisfazer às necessidades nutricionais do lactente até o sexto mês de sua vida (OPAS/OMS 1997, Akré 1997, Valdés et al. 1996), o leite humano teria a capacidade de preparar a criança para aceitar os novos alimentos, desde que façam parte da dieta materna (Sullivan 1994, Mennella & Beauchamp 1991). Mesmo com a introdução dos alimentos complementares, o leite materno poderia ser mantido na dieta do lactente até os dois anos ou mais de vida (OMS 1991).

O leite materno atua contra a desnutrição ao exercer proteção contra infecções e, simultaneamente, suprir as necessidades nutricionais da criança. Deve-se ressaltar que os déficits nutricionais responderiam por maiores riscos de ocorrência de óbito entre crianças (Boerma et al. 1992). A amamentação estaria relacionada ainda a um maior intervalo entre gestações graças à amenorréia lactacional, embora esta associação decresça quando o período de lactação é muito longo (Pérez 1979 op cit in Valdés 1996).

A despeito das diversas vantagens da prática da amamentação para a saúde infantil, constata-se a existência de poucos estudos populacionais voltados para a avaliação de seu impacto sobre a saúde e a sobrevivência infantil. Entretanto, no Brasil, a redução da mortalidade infantil e da desnutrição infantil observada nos últimos anos esteve acompanhada de uma série de mudanças importantes, entre elas o aumento na duração da amamentação. Este fato despertaria o interesse para a realização de estudos analíticos que identificariam o impacto de fatores que poderiam gerar as condições atuais.

Além disso, as desigualdades existentes em relação às condições de vida são uma realidade para o conjunto da população brasileira. Segundo o IBGE (1999), ao final da década de 80 os índices nacionais relativos à mortalidade infantil chegam a 48 por 1000 nascimentos. A região Nordeste, no entanto, continua exibindo valores elevados nos níveis de mortalidade infantil (74 por mil nascidos vivos), enquanto a região Sul apresenta valores expressivamente menores (27 por mil nascidos vivos). Em 1998, o índice nacional alcançou o valor de 36,1 por mil. As grandes discrepâncias regionais permaneceram. No Rio Grande do Sul, o índice foi de 19,4 por mil, enquanto que, em estados como Pernambuco, Paraíba e Alagoas, os valores foram de 61,8 por mil, 64,6 por mil e 71,9 por mil, respectivamente (UNICEF 2001). Os mesmos contrastes regionais ocorrem quando a desnutrição infantil é focalizada. Especificamente em relação ao índice estatura/idade, verifica-se uma diminuição de 15,7% na prevalência dos retardos de crescimento em 1989, estimada com base na Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN), para 10,5% em 1996, segundo a Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde (PNDS). A maior redução ocorreu nas áreas urbanas, cujos índices modificaram-se de 12,5% para 7,8%, em contraste com as áreas rurais, cujas mudanças foram de 22,7% para 19% (UNICEF 1998). A amamentação garantiria condições favoráveis à sobrevivência e à saúde na infância. O aumento expressivo em sua duração poderia explicar parte da redução da mortalidade infantil e da desnutrição.

Um evidente aumento na duração da amamentação tem sido verificado em todo o mundo, a partir da década de 80. No Brasil, segundo o relatório A Infância Brasileira nos anos 90 (UNICEF 1998), a mediana de duração do aleitamento materno na última década aumentou de 5 para 7,5 meses. Esse aumento pode representar o resultado dos esforços desenvolvidos por profissionais de saúde em conjunto com a sociedade, através de organizações governamentais e não governamentais em implementar a prática da amamentação. As pesquisas realizadas no sentido de redescobrir as técnicas da amamentação têm sido fundamentais para que amamentar seja cada vez mais um ato que, além de saudável, seja agradável e viável no contexto da vida das mulheres, das famílias e da sociedade. No entanto, a duração da amamentação exclusiva, em 1999, era de apenas 33,7 dias. Os melhores índices foram verificados na região Sul, perfazendo 53,1 dias, seguida da região Nordeste, com 38,2 dias. As capitais da região Sudeste apresentaram os piores índices, com 17,2 dias de aleitamento materno exclusivo (UNICEF 2001).

 

Objetivos

O objetivo do presente trabalho é estudar o impacto do aleitamento materno, a partir de dados populacionais, sobre o estado nutricional de crianças brasileiras, no segundo ano de vida, e sobre a mortalidade infantil, no período pós-neonatal. Pretende-se ainda identificar alguns dos demais fatores intervenientes importantes que poderiam remeter à formulação ou ao aprimoramento de ações que promovam condições mais favoráveis e dignas à sobrevivência infantil.

Esta dissertação está organizada em seis capítulos, incluindo esta introdução. A revisão de literatura, contendo observações referentes aos estudos selecionados e que fundamentam a investigação realizada, está apresentada no Capítulo 2, enquanto que a metodologia aplicada é discutida no Capítulo 3.

Nos Capítulos 4 e 5, são apresentados os estudos referentes ao impacto do aleitamento materno sobre a desnutrição no segundo ano de vida e sobre a mortalidade infantil, respectivamente. Em ambos, é apresentado o tratamento dado à variável aleitamento materno, o material e os métodos aplicados, a descrição das demais variáveis incluídas no estudo, a apresentação dos modelos utilizados e os resultados encontrados. As conclusões, obtidas a partir dos estudos desenvolvidos, são exibidas no Capítulo 6.

 
 
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