| |
Bergmann, Anke. Prevalência de linfedema subsequente a tratamento cirúrgico para câncer de mama no Rio de Janeiro. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2000. xiv, 142 p.
2. CÂNCER DE MAMA
2.1 Aspectos gerais do câncer de mama
As células cancerígenas, por definição, proliferam de forma oposta às normais e são capazes de invadir e colonizar os tecidos circunjacentes. A célula sofre uma mutação inicial no material genético sendo necessário diversas mutações adicionais, para que se desenvolva uma neoplasia. A aceleração deste processo resulta da ação de agentes mutagênicos (iniciadores tumorais), como por certos agentes não mutagênicos (promotores tumorais) que afetam a expressão do gene, estimula a proliferação celular, e altera o equilíbrio entre as células mutantes e não mutantes. Sendo assim, vários fatores contribuem para o desenvolvimento de um determinado câncer, e visto que alguns desses fatores podem ser removidos do meio ambiente, uma proporção de cânceres pode ser, a princípio, prevenida (Alberts, 1994).
Em relação ao câncer de mama, o período crítico de oncogênese, parece corresponder ao intervalo entre a menarca e a primeira gestação a termo, pois o lóbulo mamário, nessa fase, encontra-se em amplo processo de divisão celular até o final da adolescência. Quando a proliferação é intensa, a célula fica mais susceptível a agentes carcinogênicos, podendo resultar em mutações e transformações malignas. O desenvolvimento tumoral é lento, expressando-se com maior freqüência a partir dos 35 anos, sendo cada vez mais freqüente com o progredir da idade (Barros, 1994).
A história natural do câncer de mama demonstra uma fase clínica mais longa que a da maioria dos outros tumores, com padrão de crescimento e disseminação mais heterogênea. Da mesma forma, parece que sua fase pré-clínica (período compreendido entre o aparecimento da primeira célula maligna, a transformação de um câncer in situ em invasivo, a formação de metástases e o aparecimento de um tumor com tamanho ou características adequadas ao diagnóstico clínico) também é longa na maioria dos casos. Depois do surgimento da primeira célula maligna, a velocidade de crescimento do tumor fica na dependência do tempo de duplicação de suas células. Cada célula cresce até um determinado ponto, realiza uma divisão binária, ocorrendo a duplicação do seu material genético (ciclo celular) (Chagas, 1997).
As maiorias das pacientes com diagnóstico de câncer de mama possivelmente já deveriam ter o câncer cinco ou dez anos antes da sua detecção, e uma porcentagem substancial já terá metástases estabelecidas por vários anos, mesmo que não sejam detectadas por exames físico, radiográficos, cintilográficos ou ressonância magnética.
A partir da instalação do tumor primário de mama, ocorrerá a sua propagação às estruturas vizinhas e à distância, podendo esta ser por: via direta, atingindo seqüencialmente os ductos, parênquima mamário, podendo progredir até o tecido perimamário, culminando com a invasão de tecidos adjacentes; via linfática, que ocorre concomitante com a disseminação sanguínea, através da embolização das células neoplásicas ao serem veiculadas pela linfa; e por via vascular, originando-se a partir de pequenas veias intramamárias (Chagas, 1997).
A determinação da extensão da neoplasia mamária e de sua tendência à progressão tumoral, é obtida através da classificação por estádios, a fim de que se possa instalar um adequado tratamento. Este processo requer uma análise objetiva dos dados clínicos e histopatológicas (Yeatman, 1993).
A classificação atualmente utilizada é a proposta pela Union Internationale Contre lê Cancer (UICC) e pelo American Joint Commitee on Cancer (AJCC) em 1988, sendo referida como classificação TNM, onde T é a dimensão do tumor primário (quadro 2), N a presença ou ausência de metástases para linfonodos regionais (quadro 3) e M a presença ou ausência de metástases à distância (quadro 4). O grupamento por estádios encontra-se no quadro 5. A classificação pós-cirúrgica é designada pTNM, onde a graduação histopatológica (G) pode ser inserida (quadro 6) (Ministério da Saúde, 1989).
A classificação tem como objetivo auxiliar o planejamento terapêutico, oferecer subsídios para o prognóstico, permitir avaliação dos resultados do tratamento, proporcionar intercâmbio de informações entre diferentes centros, e fornecer elementos para a continuidade das pesquisas clínicas ligadas ao câncer mamário (Telles, 1997).
Quadro 2 - Classificação T
|
T |
Descrição | |
Tx |
Tumor primário não pode ser avaliado | |
T0 |
Sem evidência de tumor primário | |
Tis |
Carcinoma in situ (intraductal, lobular e Paget do mamilo, sem tumor). | |
T1
T1a
T1b
T1c |
Tumor ≤ 2,0 cm
Tumor ≤ 0,5 cm
Tumor > 0,5 cm e < 1 cm
Tumor > 1,0 cm e ≤ 2 cm | |
T2 |
Tumor > 2,0 cm e ≤ 5 cm | |
T3 |
Tumor > 5,0 cm | |
T4
T4a
T4b
T4c |
Extensão para parede torácica / pele
Extensão para parede torácica
Edema de pele / ulceração ou nódulos satélites na pele
T4a + T4b | |
T4d |
Carcinoma inflamatório |
Fonte: UICC (Ministério da Saúde, 1989).
Quadro 3 - Classificação N
|
Clínico |
|
Patológico |
| |
Nx |
Linfonodos não acessíveis |
Nx |
Idem | |
N0 |
Ausência de metástase em linfonodos regionais |
N0 |
Idem | |
N1 |
Metástase em linfonodo (s) axilar (es), homolateral (is), móvel (is). |
pN1 |
Metástase em linfonodo(s) axilar (es) homolateral (is), móveis. | |
pN1a |
Somente micrometástases
(≤ 0,2 cm) | |
pN1b |
Metástases em linfonodos, com no mínimo uma > 0,2 cm | |
pN1bi |
Metástase em 1 a 3 linfonodos, com no mínimo uma > 0,2 cm e todas as outras menores do que 2 cm em sua maior dimensão. | |
pN1bii |
Metástase em 4 ou mais linfonodos, com no mínimo uma > 0,2 cm e todas as outras < 2,0 cm em sua maior dimensão | |
pN1biii |
Extensão do tumor além da cápsula do linfonodo metastático < 2,0 cm em sua maior dimensão | |
pN1biv |
Metástase em um linfonodo ≥2,0 cm em sua maior dimensão | |
N2 |
Metástase em linfonodos axilares fixos uns aos outros ou a outras estruturas |
pN2 |
Idem | |
N3 |
Metástase em linfonodos da cadeia mamária interna homolateral |
PN3 |
Idem | Fonte: UICC (Ministério da Saúde, 1989).
Quadro 4 - Classificação M
|
M |
Descrição | |
Mx |
Presença de metástase à distância não pode ser avaliada | |
M0 |
Ausência de metástase, exceto axila e mamária interna homolateral | |
M1 |
Presença de doença fora da mama, axila ou mamária interna homolateral | Fonte: UICC (Ministério da Saúde, 1989).
Quadro 5 - Grupamento por estádios
|
Estadiamento |
T |
N |
M | |
Estádio 0 |
Tis |
N0 |
M0 | |
Estádio I |
T1 |
N0 |
M0 | |
Estádio IIA |
T0
T1
T2 |
N1
N1
N0 |
M0
M0
M0 | |
Estádio IIB |
T2
T3 |
N1
N0 |
M0
M0 | |
Estádio III A |
T0
T1
T2
T3 |
N2
N2
N2
N1, N2 |
M0
M0
M0
M0 | |
Estádio III B |
T4
Qualquer T |
Qualquer N
N3 |
M0
M0 | |
Estádio IV |
Qualquer T |
Qualquer N |
M1 |
Fonte: UICC (Ministério da Saúde, 1989).
Quadro 6 - Graduação histopatológica
|
Graduação |
Descrição | |
GX |
Grau de diferenciação não pode ser avaliado | |
G1 |
Bem diferenciado | |
G2 |
Moderadamente diferenciado | |
G3 |
Pouco diferenciado | |
G4 |
indiferenciado | Fonte: UICC (Ministério da Saúde, 1989).
No quadro 7, está apresentada a classificação dos tumores malignos da mama. Os tumores não invasivos são assim denominados por respeitarem a membrana basal epitelial. O carcinoma ductal in situ pode apresentar tamanho variável, de focos microscópicos a alguns centímetros, quando se torna palpável, podendo ser associado à descarga hemorrágica pelo mamilo e necrose, com posterior calcificação. O carcinoma lobular in situ é de diagnóstico mais difícil, uma vez que não apresenta sintomatologia e não é detectável a mamografia, sendo geralmente um achado histológico, tendendo a ser multifocal, multicêntrico e bilateral. Os carcinomas invasivos surgem quando as células epiteliais malignas ultrapassam a membrana basal, invadindo o estroma mamário, sendo o carcinoma ductal infiltrante o mais comum (Gomes, 1997).
Quadro 7 - Classificação dos tumores de mama
|
A - Tumores malignos epiteliais | |
Não invasivos |
Carcinoma ductal in situ (intraductal)
Carcinoma lobular in situ | |
Invasivos |
Carcinoma ductal infiltrante
Carcinoma ductal infiltrante com componente intraductal predominante
Carcinoma lobular invasivo
Carcinoma mucinoso
Carcinoma medular
Carcinoma papilífero
Carcinoma tubular
Carcinoma adenocístico
Carcinoma secretor
Carcinoma apócrino
Carcinoma metaplásico
Carcinoma inflamatório
Carcinoma de células em anel de sinete | |
Doença de Paget do mamilo |
| |
B - Tumores mistos epiteliais mesenquimais | |
Tumor filóide maligno
Carcinossarcoma |
| |
C - Tumores malignos diversos | |
Sarcoma
Angiossarcoma
Linfoma
Mieloma
Melanoma maligno
Carcinoma epidermóide |
|
Fonte: Fonte: UICC (Ministério da Saúde, 1989).
O prognóstico do câncer de mama leva em consideração alguns fatores: status axilar é o mais importante fator prognóstico, uma vez que define de forma segura a necessidade de terapia adjuvante; grau de diferenciação tumoral; tamanho tumoral; tipo histológico; necrose tumoral; elastose; invasão vascular; receptores hormonais; citometria de fluxo; timidina; oncogenes; catepsina D; e anticorpos monoclonais (Silva, 1997; Eisenberg, 2000).
2.2 Epidemiologia do câncer de mama
A história natural do câncer de mama sofreu mudanças bastante profundas com o passar do tempo. Os princípios e os conceitos que regiam o conhecimento sobre a história natural da doença se modificaram quando foi observada que a evolução da doença era condicionada por fatores biológicos intrínsecos a doença. Compreendeu-se a importância de, no momento da intervenção, haver ou não células metastáticas em órgãos distantes. Inicialmente acreditava-se que o carcinoma mamário se difundia somente por via linfática, e posteriormente por hematogênica. Essa concepção contribuiu para a radicalidade do tratamento (Veronesi, 1992).
Atualmente, a gênese do câncer de mama e seus fatores de risco vêm recebendo uma importante consideração, uma vez que estes fatores são cruciais quando se pensa na prevenção do câncer de mama. Vários fatores contribuem para o desenvolvimento de um determinado câncer, e visto que alguns desses fatores podem ser removidos do meio ambiente, uma proporção de cânceres pode ser, a princípio, prevenida. (Alberts, 1994).
O desenvolvimento do câncer de mama é decorrente de vários fatores interelacionados, sendo estes fatores biológicos e ambientais.
O câncer de mama é raro em homens, sendo a proporção de 1 homem para cada 100 mulheres. Em relação à idade, é mais raro entre os jovens, existindo um aumento crescente dos índices de incidência específicos por idade até a menopausa. As mulheres brancas apresentam um índice global maior de incidência de câncer de mama que as mulheres negras, sendo esta diferença significante somente após a menopausa. O estrato social elevado também tem sido mais associado ao câncer de mama. As mulheres solteiras apresentam incidência menor de câncer de mama, quando comparadas com as casadas. O câncer de mama apresenta taxas bem distintas entre os países, sendo maiores nos Estados unidos, Canadá, e norte da Europa.(Kelsey, 1993; Vessey, 1993; Marchant, 1997).
A gênese do câncer de mama é bastante complexa e pouco conhecida, porém há uma forte evidencia que os hormônios ovarianos são um fator na patogênese, acreditando-se que eles afetam o risco de câncer de mama ao aumentar a atividade mitótica. O estrogênio sozinho induz a alguma divisão celular, mas associado a progesterona (o que ocorre durante a fase lútea do ciclo menstrual), a divisão celular é aumentada, levando a um risco maior de desenvolvimento do câncer de mama (Kelsey, 1993).
A distribuição familiar no desenvolvimento do câncer de mama tem sido freqüentemente estudada, uma vez que o risco de vir a ter câncer de mama entre os familiares com história familiar de mãe ou irmã com câncer de mama diagnosticada principalmente quando jovens, é mais elevado, quando comparado com o risco da população geral. Os riscos observados entre os familiares com câncer de mama são compatíveis com o modelo genético. A maioria das análises de segregação dos tipos de câncer de mama evidencia a existência de um ou mais genes autossômicos dominantes levando ao incremento da susceptibilidade do câncer de mama. Apesar de qualquer história familiar de câncer de mama ser associada ao aumento do risco, somente a história de câncer de mama em parentes de primeiro grau são mais consistentes com o risco. O câncer de mama, com importante componente genético, ocorre na idade jovem, com probabilidade maior de bilateralidade, aparecendo em vários membros da família em três ou mais gerações.
Os fatores relacionados à vida reprodutiva das mulheres que podem estar positivamente associados ao aumento da incidência de câncer de mama englobam a primeira gestação após os 30 anos, menarca anterior aos 11 anos, menopausa após os 55 anos, a nuliparidade e a existência de ciclos menstruais de curta duração (Kelsey, 1993).
A menarca precoce tem sido demonstrada como um risco aumentado na maioria dos estudos caso-controle realizados. As mulheres que tem menarca precoce e estabelecem rapidamente um ciclo regular tem um risco maior em relação aquelas com menarca tardia e longos ciclos irregulares. Esta observação sugere que o ciclo ovulatório regular aumenta o risco de câncer de mama, uma vez que os níveis de estrogênio são maiores durante a fase lútea normal, e o índice de exposição acumulativa ao estrogênio é maior.
Evidências indicam que os hormônios endógenos são importantes na patogênese do câncer de mama. Entre os tumores exógenos, a terapia de reposição hormonal é sugerida como um aumento de risco quando utilizada combinada (estrogênio e progesterona). A relação entre o uso de contraceptivos orais e câncer de mama sugere que o uso prolongado aumenta o risco de diagnóstico de câncer de mama em mulheres com menos de 45 anos (Marchant, 1997; Kelsey, 1993).
Por vários anos, uma associação entre peso corporal, constituição corporal e risco de câncer de mama entre mulheres na pós-menopausa tem sido sugerido, sendo a obesidade considerado fator de risco de desenvolvimento de câncer de mama em mulheres na pós-menopausa, porém na pré-menopausa, teria um efeito protetor (Marchant, 1997; Kelsey, 1993).
O papel das dietas na etiologia do câncer de mama, particularmente a rica em gordura, foi suspeitada em alguns estudos, porém não foi confirmada em estudos analíticos (Kelsey, 1993).
A hipótese de que o consumo de álcool aumenta o risco de câncer de mama tem sido controversa. O tabagismo não parece estar envolvido.
As mulheres que apresentam células epiteliais atípicas ou células hiperplásicas sem atipias na punção aspirativa, densidade nodular na mamografia e biópsia com doença proliferativa benigna em mama apresentam também um risco maior em desenvolver câncer de mama (Marchant, 1997).
Entre os fatores ambientais considerados de risco ao câncer de mama, a exposição à radiação ionizante é sabidamente associado ao câncer de mama. Os campos eletromagnéticos assim como os pesticidas também têm sido apontados como possíveis responsáveis pelo aparecimento deste tipo de câncer (Kelsey, 1993).
2.3. Tratamento do câncer de mama
O tratamento para o câncer de mama vem sofrendo mudanças bastante significativas nos últimos tempos. Inicialmente, o tratamento cirúrgico realizado era a mastectomia radical preconizada por Halsted, que representava a tentativa cirúrgica de curar o câncer pela remoção da glândula mamária, dos músculos peitorais e dos linfonodos axilares e algumas vezes dos supraclaviculares e da mamária interna. Nos últimos 40 anos, surgiram inúmeras propostas relacionadas ao tratamento cirúrgico, objetivando a preservação dos músculos peitorais, a conservação da mama e a minimização do esvaziamento axilar. A radioterapia, então, passou a ser utilizada como adjuvante no tratamento locoregional do câncer de mama. Entretanto, sendo o câncer uma doença sistêmica, tornou-se evidente a necessidade de alguma forma de tratamento sistêmico em adição ao tratamento local, para que a mortalidade por câncer de mama sofresse alguma influência (Chaves, 1999).
Atualmente, o tratamento do câncer de mama é interdisciplinar. A correta associações do tratamento cirúrgicas, da radioterapia e dos tratamentos sistêmicos são indispensáveis quando se pensa em maior sobrevida e no controle local da doença (Leite, 1999).
Vários fatores influenciam a escolha do tratamento para câncer de mama. Importantes considerações incluem o tamanho e o tipo histológico da lesão, a habilidade e experiência da equipe multidisciplinar e o desejo da paciente (Marchant, 1997).
Tratamento cirúrgico
O tratamento cirúrgico tem como objetivo controlar a doença loco-regional, estadiar cirurgicamente para estabelecer os grupos de alto risco para recorrência local, orientar a terapia sistêmica, proporcionar maior sobrevida, identificar grupos de maior risco de metástase à distância e sempre que possível, evitar mutilação ou oferecer à paciente o benefício da reconstrução mamária (Franco, 1997).
a) Cirurgias radicais
- Mastectomia radical a Halsted consiste na retirada da glândula mamária, associadas à retirada dos músculos peitorais e a linfadenectomia axilar completa. Atualmente é um procedimento incomum, devido à alta morbidade a ela associada e a resultados bastante satisfatórios de técnicas mais conservadoras (Chaves, 1999).
- Mastectomia radical modificada consiste na retirada da glândula mamária e na linfadenectomia axilar, com preservação de um ou ambos os músculos peitorais. Constitui o procedimento cirúrgico realizado na maioria das pacientes com câncer de mama nos estádios I, II e III. Este procedimento é indicado: na presença de tumor acima de três cm, sem fixação à musculatura; em pacientes com recidiva após tratamento conservador; ou que apresentem qualquer condição que as tornem inelegíveis ao tratamento conservador; e em pacientes que não concordem com a preservação da mama (Franco, 1997; Marchant, 1997). É denominada de mastectomia radical modificada Patey, quando ocorre a preservação do músculo grande peitoral. Quando os dois músculos peitorais são preservados, é chamada mastectomia radical modificada Madden.
- Mastectomia total (simples): consiste na retirada da glândula mamaria, incluindo o complexo areolar e aponeurose do músculo peitoral. Os linfonodos axilares são preservados. É indicada nos casos de: carcinoma ductal in situ; recidiva após cirurgia conservadora; lesões ulcerativas em pacientes com metástases a distância onde o controle local promove melhor qualidade de vida; pacientes idosas com risco cirúrgico elevado ou que não possuem adenopatias axilares palpáveis ou evidência de doença a distância; e em pacientes selecionadas para tratamento profilático (Marchant, 1997).
- Mastectomia subcutânea: Consiste na retirada da glândula mamária, conservando os músculos peitorais e suas aponeuroses, pele e complexo aréolo-papilar. Por deixar tecido mamário residual com possibilidade de alterações hiperplásicas e degeneração maligna, seu uso é bastante questionado (Franco, 1997). Segundo Marchant (1997) uma série de complicações são associadas a este procedimento, incluindo hematoma e subseqüente fibrose, não devendo ser empregado no tratamento do câncer de mama. Como tratamento profilático, seus resultados são inferiores ao da mastectomia simples.
b) Cirurgias conservadoras
O tratamento cirúrgico conservador do câncer de mama compreende uma cirurgia limitada, possibilitando remover o tumor primário com uma margem de tecido mamário normal em torno da lesão, acrescido ou não da dissecção axilar, seguido da radioterapia, no intuito de eliminar a doença residual microscópica (Brito, 1994).
A principal vantagem do tratamento conservador é cosmética. Não existem dados que indiquem que a sobrevida seja menor em cirurgias conservadoras quando comparada com os procedimentos radicais. Assim sendo, cabe ao cirurgião selecionar aquelas pacientes que, com uma adequada ressecção, seja possível um bom resultado estético. As pacientes que apresentem tumores multicêntricos, ou uma lesão grande em mama pequena, não se beneficiam desta técnica. Pacientes com lesão central envolvendo o complexo aréolo-papilar podem ser tratadas pela ressecção papilar, com atenção especial ao resultado estético. A idade avançada não é contra-indicação (Marchant, 1997).
Os tratamentos conservadores incluem:
- Tumorectomia: consiste na remoção do tumor com margens de tecido circunjacentes de um cm, histologicamente negativas, sem necessidade de retirada da aponeurose do músculo peitoral maior ou pele, sendo indicada em tumores até 1,5 cm. Nos casos de lesões não palpáveis, a marcação por estereotaxia deve ser realizada previamente ao ato cirúrgico. A paciente deve ser informada da possibilidade de cirurgia de maior porte posteriormente, caso a histopatologia indique presença de lesão maligna difusa. Deve ser associada à linfadenectomia axilar e complementada pela radioterapia, oferecendo um bom resultado estético, porém com um índice de recidiva um pouco maior que as quadrantectomias (Franco, 1997).
- Quadrantectomia: Consiste na remoção do quadrante da glândula mamária onde se localiza o tumor, com margens cirúrgicas de tecido normal de 2 a 2,5 cm, incluindo a ressecção da aponeurose subjacente ao tumor com ou sem segmento cutâneo. A quadrantectomia com esvaziamento axilar e radioterapia proporciona melhores resultados em tumores até 2 cm (Franco, 1997).
c) Linfadenectomia axilar
A linfadenectomia no tratamento do câncer de mama tem finalidade prognóstica, de planejamento terapêutico pós-operatório e de controle do câncer na axila.
O comprometimento dos linfonodos axilares é o fator prognóstico isolado de maior importância, sendo que as pacientes com comprometimento dos mesmos terão uma evolução pior, tanto em termos de recidiva local quanto em relação metástases à distância. A dissecção completa da axila envolve a retirada dos três níveis axilares e, como conseqüência, algumas complicações importantes podem ocorrer, como o seroma, hemorragia, linfedema, entre outras. Devido a estas complicações, ultimamente tem sido bastante discutido sobre a validade das dissecções radicais, em relação ao prognóstico. A dissecção dos níveis mais baixos (I e/ou II) oferece a mesma informação, sendo de mais fácil execução e menor risco de complicações (Faria, 1994).
Com relação ao planejamento terapêutico pós-operatório, a presença de linfonodos axilares metastáticos, associado a outros parâmetros como o tamanho do tumor, grau de invasão, tipo histológico, cinética celular, presença de receptores hormonais e a necrose tumoral são importantes na determinação da necessidade de tratamentos adjuvantes sistêmicos (Gomes, 1997).
A dissecção cirúrgica da axila, também tem sido indicada como tratamento local. Entretanto, estudos têm demonstrado que a dissecção completa não é indispensável para o controle, nem a única forma de tratar a axila. A dissecção dos níveis I e II e a radioterapia exclusiva também conseguem controlar a axila, com menor risco de complicações (Faria, 1994).
Segundo Bland (1999), o não esvaziamento axilar irá resultar em um subestadiamento, pois mais de 28% das pacientes em estádio tumoral I irão apresentar comprometimento dos linfonodos ao ser realizado a linfadenectomia axilar. O argumento de que todas as pacientes irão receber alguma forma de terapia adjuvante (hormonioterapia ou quimioterapia), tornando a linfadenectomia opcional, assume que a terapia adjuvante pode, efetivamente, tratar todo o tumor residual axilar. Um estudo cuidadoso, realizado no Rhode Island Tumor Registry, confirmou que a sobrevida é pior quando a linfadenectomia não é realizada, estando compatível com o resultado de uma meta-análise que demonstrou um benefício médio de sobrevida de 5,4%, quando foi realizada a linfadenectomia profilática.
Para que a linfadenectomia seja realizada somente nos casos em que há o comprometimento de linfonodos, pesquisas utilizando a técnica do linfonodo sentinela vêm sendo discutidas, objetivando estadiar a axila, sem a necessidade do seu esvaziamento formal. Com isso, na presença do linfonodo sentinela histologicamente negativo, não haveria necessidade do esvaziamento total axilar. São necessários estudos a longo prazo para provar a validade dos métodos e demonstrar se os resultados são equivalentes. No momento, esta técnica está sendo usada somente em estudos clínicos (Bland, 1999).
Outras técnicas de imagem foram estudas, objetivando prevenir o esvaziamento ganglionar, ou limitá-los. Entre elas, a ultra-sonografia axilar no pré-operatório apresentou valor preditivo positivo importante, entretanto a sua sensibilidade foi insuficiente (Borgeois, 1998). A imunocintigrafia realizada com injeções subcutâneas tem sido reportada com uma boa sensibilidade, porém as séries são pequenas para demonstrar o seu papel no estadiamento da axila no pré-operatório. A linfocintigrafia apresentou resultados insatisfatórios e com números insuficientes (Borgeois, 1998).
d) Morbidades associadas ao tratamento cirúrgico para câncer de mama
As complicações decorrentes do tratamento para câncer de mama, publicadas em estudos relevantes nas duas últimas décadas, encontram-se nas tabelas 1 e 2.
O seroma foi à complicação que apresentou de maior prevalência, oscilando entre 2% a 53,1% (Chiverton, 1987; Tadych, 1987), entretanto, sua importância direta na qualidade de vida das mulheres é pequena. O seroma ocorre como conseqüência da lesão dos vasos linfáticos e sanguíneos durante a ressecção cirúrgica da mama, dos linfáticos e dos tecidos adiposos associados à transudação da linfa e o acúmulo de sangue no campo operatório (Bland, 1993).
A lesão do nervo intercostobraquial leva a alterações de sensibilidade na axila e região interna do braço, sendo motivo de queixas freqüentes. A prevalência observada nos estudos variou entre 1,5% (Siegel, 1990) a 87% (Chiverton, 1987), sendo que Warmuth (1998) observou que 32% dos relatos de lesão nervosa ocasionaram interferências nas atividades de vida diária das mulheres.
A lesão do nervo torácico longo causa uma importante complicação denominada "escápula alada", que evolui com dor e diminuição dos movimentos da cintura escapular. Apresentou prevalência de 1,5% (Siegel, 1990) e 12,6% (Paci, 1996).
As complicações cicatriciais como deiscência, infecção, necrose e retardo de cicatrização foram muito observadas. A infecção cicatricial foi a mais prevalente, de 0,8% a 41% (Siegel, 1990; Sauter, 1993). A necrose foi muito freqüente no estudo realizado por Jolly (1981), entretanto nos outros estudos sua prevalência oscilou entre 0,3 e 3% (Corneillie, 1984; Chiverton, 1987).
A limitação articular foi objeto de vários estudos, devido a sua importante interferência na rotina de vida das mulheres estudadas. Suas prevalências foram de 3,1% (Siegel, 1990) a 34,3% (Aitken, 1989).
Entre todas as morbidades decorrentes do tratamento para câncer de mama, o linfedema é uma das principais, devido a sua alta prevalência, a sua cronicidade, e aos aspectos psico-sócio-funcionais envolvidos com o seu aparecimento.
Quadro 8 - Complicações relatadas em estudos realizados na década de 80
|
Autor / Ano / País |
Desenho |
N |
Resultados | |
complicação |
% | |
Jolly / 1981 / USA |
descritivo |
179 |
Seroma
Necrose
Linfedema
Necrose com enxerto |
45,0
38,5
29,6
12,3 | |
Mozes / 1982 / Israel |
Caso-controle |
226 |
Complicações cicatriciais
Celulites |
31,4
23,9 | |
Corneillie / 1984 / Belgica |
coorte |
379 |
Edema precoce
Linforréia
Seroma
Linfedema crônico
Infecção cicatricial
Hematoma
Deiscência cicatricial
Necrose
Trombose venosa axilar
Embolismo pulmonar |
25,1
17,5
12,5
8,9
1,3
1,3
0,8
0,3
0,1
0,1 | |
Aitken / 1984 / USA |
descritivo |
204 |
Seroma
Infecção cicatricial
Seroma e infecção |
9,3
3,4
0,9 | |
Tadych / 1987 / USA |
descritivo |
49 |
Seroma
Linfedema |
53,1
10,2 | |
Chiverton / 1987 / Inglaterra |
transversal |
172 |
Lesão do nervo intercostobraquial
Linfedema
Infecção cicatricial
Necrose
Hematoma
Seroma |
87,0
25,0
7,0
3,0
3,0
2,0 | |
Rytov / 1988 / Dinamarca |
coorte |
57 |
Linfedema
Limitação articular |
17,5
14,0 | |
El Din / 1989 / Belgica
|
descritivo |
100 |
Complicações cicatriciais
Infecção cicatricial |
34,0
25,0 | |
Aitken / 1989 / USA |
Transversal |
94 |
Limitação articular
Linfedema
Interferência nas AVD’s
Seroma
Infecção cicatricial |
34,3
25,9
23,7
21,3
7,4 |
Quadro 9 - Complicações relatadas em estudos realizados na década de 90
|
Autor / ano / país |
Desenho |
N |
Complicação |
% | |
Siegel / 1990 / USA |
descritivo |
234 |
Seroma
Flebite
Limitação articular
Linfedema
Lesão parcial do nervo torácico longo
Lesão do nervo intercostobraquial
Infecção cicatricial
Abscesos
Hematoma |
4,2
3,1
3,1
2,7
1,5
1,5
0,8
0,4
0,4 | |
Simon / 1992 / USA |
coorte |
273 |
Celulite |
5,5 | |
Sauter / 1993 / USA |
coorte |
20 |
Seroma
Infecções cicatriciais
Cicatrização tardia
Necrose
Linfedema |
47,0
41,0
29,0
12,0
12,0 | |
Paci / 1996 / Itália |
transversal |
476 |
Lesão do nervo intercostobraquial
Linfedema crônico
Limitação articular
Edema precoce
Seroma
Lesão do nervo torácico longo
Infecção cicatricial
Necrose |
45,0
30,2
18,9
16,4
14,3
12,6
2,9
2,5 | |
Browse / 1996 / Inglaterra |
coorte |
67 |
Seroma (com imobilização de MS)
Seroma (com movimentação livre de MS) |
43,0
31,0 | |
Canavese / 1997 / Itália |
coorte |
375 |
Seroma
Deiscência e necrose
Infecção cicatricial
Hematoma
Infecções extraoperatórias |
25,6
6,1
5,1
5,1
3,5 | |
Lilfegren / 1997 / Suecia |
coorte |
381 |
Dor MS
Dormência
Fraqueza no MS
Linfedema
Limitação articular |
40,0
20,0
20,0
16,0
4,0 | |
Warmuth / 1998 / USA |
transversal |
432 |
Lesão do nervo intercostobraquial (ICB)
Interferência nas AVD’s pela lesão ICB
Dor axila, plastrão ou MS
Interferência nas AVD’s pela dor
Linfedema
Limitação articular
Infecção mama ou MS |
35,0
32,0
30,0
29,0
15,0
8,0
9,0 | |
Abdullah / 1998 / Inglaterra |
coorte |
120 |
Déficit sensório
Dormência tardia
Dormência precoce
Lesão do nervo intercostobraquial
Dor precoce
Dor tardia |
58,3
51,7
39,2
39,2
23,3
17,5 | |
Salmon / 1998 / França |
coorte |
128 |
Lesão do nervo intercostobraquial
Limitação articular |
5,47
5,47 | |
Kakuda / 1999 / USA |
transversal |
95 |
Dor Plastrão
Fraqueza em MS
Linfedema
Dor MS
Sensação de firmeza no MS |
36,0
33,0
31,0
28,0
25,0 |
Radioterapia
A radioterapia é fundamental no tratamento do câncer de mama, e a maior parte das pacientes será beneficiada por este recurso em alguma etapa da doença, quer como tratamento adjuvante, ou como paliativo.
A radioterapia associada à cirurgia no câncer de mama operável diminui o risco de recidiva loco-regional e aumenta o tempo livre de doença (Miziara, 1997). Suas indicações mais usuais são no pós-operatório (após cirurgias radicais em pacientes com alto risco de recidiva local e após cirurgias conservadoras em tumores invasivos, in situ, e tumores ocultos da mama), no pré-operatório (carcinoma inflamatório e resposta ruim a quimioterapia neo-adjuvante), exclusiva (lesões inoperáveis ou no carcinoma inflamatório) e paliativa (em metástases ósseas, ganglionares, cerebrais e com compressão medular) (Leite, 1999).
O local de aplicação da radioterapia pode ser a mama residual, a parede torácica, ou áreas de drenagem linfática, incluindo linfonodos da axila, fossa supraclavicular e mamária interna.
Os efeitos colaterais relacionados à radioterapia podem estar ligados a técnica empregada, ao local tratado, à dose utilizada, ao fracionamento e ao tipo de irradiação utilizada no "boost" no tratamento conservador.
Os efeitos colaterais agudos são aqueles que ocorrem na vigência da radioterapia, com duração de poucas semanas, estando associados à dose total. Os efeitos sistêmicos, como fadiga e enjôos, são raros. As reações agudas mais comuns são eritema, descamação e necrose de pele.
Os efeitos tardios costumam aparecer após alguns meses, estando mais relacionados ao fracionamento, são irreversíveis e mais graves. Podemos citar: teleangiectasia, edema difuso de mama, retração de pele, alterações na pigmentação da mama, fibrose, necrose gordurosa, pneumonite actínica, linfedema, entre outros menos freqüentes (Benk, 1994).
Tratamento sistêmico do câncer de mama
A quimioterapia e a hormônioterapia são tratamentos adjuvantes do câncer de mama, desempenhando importante papel no controle da doença à distância. O câncer de mama é freqüentemente uma doença sistêmica e as variações no tratamento loco-regional não afetam substancialmente a sobrevida, entretanto, o controle da doença a distância resulta com melhores resultados. Outro aspecto é que, quando o câncer se torna detectável clinicamente, já pode ser considerado avançado, pois já teve a oportunidade de estabelecer micrometástases à distância (Oliveira, 1994).
Em doença inicial de mama, a intenção do tratamento sistêmico é aumentar as chances de sobrevida da paciente, através da destruição de microfocos da doença, instalados anteriormente ao diagnóstico de câncer, o que independe do tratamento local realizado, estando subordinado ao status hormonal, idade, receptores hormonais e o comprometimento dos linfonodos axilares, sendo este o principal fator prognóstico do câncer de mama.
Quando a axila é histologicamente negativa, o tratamento adjuvante é indicado se a paciente apresentar dois fatores prognósticos principais (dimensão tumoral > 2cm, receptor estrogênico negativo, grau histológico II-III e idade < 35 anos), que são determinantes de má evolução. Tendo observado a necessidade de tratamento adjuvante, a decisão sobre a terapêutica a ser utilizada (hormônioterapia ou quimioterapia) dependerá de três principais fatores: idade, receptor estrogênico e o status hormonal (pré e pós-menopausa) (Brandão, 1999).
O tratamento adjuvante nas pacientes com axila positiva, melhora de forma muito significativa, a sobrevida livre de doença. A quimioterapia pode ser realizada com o esquema CMF (ciclofosfamida, methotrexate e fluorouracil), associada ou não a adriamicina e ao tamoxifeno. A escolha do melhor esquema terapêutico dependerá do status hormonal, número de linfonodos comprometidos e do receptor estrogênico (Brandão, 1999).
A quimioterapia realizada antes do tratamento cirúrgico denomina-se neo-adjuvante. Tem como objetivo, reduzir a dimensão do tumor para torná-lo operável, ou proporcionar a possibilidade de uma cirurgia conservadora (Brandão, 1999).
A morbidade relacionada ao tratamento é considerada a maior preocupação do uso da terapia sistêmica. A quimioterapia apresenta como efeitos colaterais agudos: náuseas e vômitos, mucosite, alopecia, leucopenia e plaquetopenia. Os efeitos tardios são amenorréia, insuficiência cardíaca congestiva e leucemia.
As complicações mais relacionadas a hormônioterapia são: náuseas e vômitos, anorexia, ganho de peso, fogachos, leucorréia, sangramento vaginal, prurido vulvar, alopecia, cefaléia, tromboflebite, entre outros.
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