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Silva, Ademir Brandão. Gestão ambiental na indústria: uma avaliação do comportamento dos setores químico e petroquímico com relação aos passivos ambientais e os problemas causados em torno da Baía de Guanabara. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 118 p.

5 RESULTADOS OBTIDOS

5.1 Análise final do questionário enviado

5.1.1 Política de Gestão

Entende-se gestão ambiental como sendo a forma pela qual uma empresa se mobiliza, interna e externamente, visando conquistar uma qualidade ambiental considerada ideal. Para atingir essa meta, ao menor custo de forma permanente, pode-se indicar como uma estratégia à adoção do Sistema de Gestão Ambiental (SGA). (Almeida, 2000).

A figura 7 mostra o comportamento das empresas colaboradoras com relação à política de gestão, no qual se observa que todas as empresas afirmam ter preocupações com relação às questões ambientais e garantem terem conseguido transformar essas preocupações em algo mais concreto, entretanto, cerca de 8% não garantem que os resultados alcançados estejam dentro do esperado. Existe uma posição unânime em que se afirma à importância do PDBG no contexto do Rio de Janeiro e a maioria das empresas pesquisadas, cerca de 92%, considera relevante sua importância neste Programa. Contudo, pode-se verificar que 75% dessas empresas efetivamente participam do PDBG e todas consideram que o Governo do Estado tem responsabilidade direta com relação aos problemas da Baía de Guanabara.

Com relação ao conceito de Desenvolvimento Sustentável, todas garantem ser um ponto de grande importância apesar de 8% das empresas pesquisadas não garantirem que fazem algo com relação a esta questão.

Figura 7: Desempenho das indústrias com relação à Política de Gestão.

 

O conceito de desenvolvimento sustentável foi apresentado em 1987 pela Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas e publicado no Relatório Brundtland - "... aquele desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das gerações futuras atenderem as suas próprias". (Nosso Futuro Comum, 1988, p. 46) - que transmitia o desejo ou vontade de mudança de paradigma para um estilo de desenvolvimento e crescimento que não se mostrasse excludente socialmente e danoso ao meio ambiente. (Revista Proteção, 1999).

A fiscalização efetiva do Poder Público é um aspecto importante no que diz respeito às questões ambientais, no qual cerca de 59% das empresas pesquisadas afirmam que não existe tal procedimento e, com isso, não se fazem cumprir as Legislações Ambientais vigentes.

Aproximadamente 25% das empresas pesquisadas afirmam que o fator econômico se sobrepõe em relação ao desenvolvimento sustentável. Todas acreditam que a certificação ambiental possa contribuir para melhorar a qualidade ambiental e a imagem da própria empresa com relação ao mercado, entretanto, 6% das empresas não possuem informações necessárias para conseguir a certificação.

Todas as empresas afirmam possuir uma política de gestão ambiental, de segurança e de saúde ocupacional e, cerca de 8% delas apontam deficiências relacionadas a essa política, mas não entram em maiores detalhes sobre esse ponto. Quanto ao gerenciamento de risco de processo, cerca de 84% das empresas consultadas garantem possuir um programa específico, sendo que 16% apontam deficiências relacionadas a esse programa.

 

5.1.2 Legislação Ambiental

A figura 8 mostra o comportamento das empresas colaboradoras com relação à legislação ambiental, no qual se observa que aproximadamente 84% das empresas pesquisadas possuem Licença de Operação, sendo as que ainda não conseguiram obtê-la, buscam regularizar essa situação o mais breve possível. Ao perguntarmos sobre a existência de algum termo de conduta ou termo de compromisso por parte da empresa, com relação às questões ambientais, verificou-se um universo de 58% que afirmam possuir tal compromisso.

Figura 8: Desempenho das indústrias com relação à Legislação Ambiental.

A maioria das empresas, cerca de 92%, garantem existir um pré-requisito legal para que se cumpra com as normas ambientais e 8% confirmam um não atendimento desses pré-requisitos. Com isso, verifica-se que 33% das empresas já obtiveram multas ou autuações nos últimos três anos, sendo que, 25% garantem que as causas dos problemas foram devidamente sanadas.

 

5.1.3 Objetivos, Metas e Responsabilidades

Com relação aos objetivos e responsabilidades de uma empresa, entende-se que deve haver um comprometimento mútuo na relação Gerência e Funcionários no que se diz respeito ao controle ambiental. (La Rovere, 2000). Cabendo a Gerência da companhia criar meio, para poder atingir as metas previamente definidas, de forma a reduzir os passivos ambientais em seu processo industrial.

Observa-se que, de uma forma geral, todas as empresa colaboradoras garantem possuir objetivos e metas compatíveis com a política de meio ambiente, segurança e saúde ocupacional, tendo um Setor responsável pela gestão de meio ambiente, com Gerências e as CIPA’s - Comissão Interna de Prevenção de Acidentes - atuantes, mas apenas 8% afirmam possuir documentação atualizada.

 

5.1.4 Comunicação e Documentação

O simples fato de implementar o instrumento de comunicação interna entre as várias funções e níveis da organização e das partes externas, garante a agilidade e confiabilidade do fluxo de informações na empresa. O processo de comunicação inclui o estabelecimento de planos para a divulgação interna e externa das atividades ambientais da empresa.

A documentação em uma empresa é fundamental para garantir o controle de implantação do Sistema de Gestão Ambiental. Na realidade, vem facilitar uma avaliação permanente e possíveis revisões, caso necessário, além de reforçar a conscientização dos empregados sobre responsabilidades no cumprimento dos objetivos e metas previamente estabelecidos. (Almeida, 2000).

A figura 9 mostra o comportamento das empresas colaboradoras com relação à comunicação e documentação, onde se observa que, em sua totalidade, possuem comunicação interna com relação às atividades com potencial de gerar impactos ao meio ambiente, segurança e saúde ocupacional, entretanto, cerca de 16% afirmam que essa comunicação não é eficaz.

Aproximadamente 84% das empresas pesquisadas garantem informar, de forma sistemática, aos órgãos públicos sobre o destino final dos passivos ambientais produzidos, mas cerca de 8% das empresas não mantém uma comunicação em nível de prevenção contra impactos ambientais. Somente 50% das empresas consultadas possuem um Mapa de Risco Ambiental sobre os passivos ambientais que são gerados, transportados ou estocados.

Figura 9: Desempenho das indústrias com relação à Comunicação e Dcumentação.

Todas garantem possuir um controle de documentos e dados sobre passivo ambiental e em sua maioria, cerca de 92% das empresas, esses documentos encontram-se atualizados, facilmente localizados e disponíveis para consultas. Aproximadamente 42% das empresas afirmam que a população tem informações sobre a geração de passivos ambientais bem como o seu destino final.

 

5.1.5 Plano de Contingência

Entende-se como plano de contingência ao conjunto de procedimentos e ações, referentes à integração dos diversos planos de emergências setoriais, bem como a definição dos diversos recursos humanos, materiais e de equipamentos complementares para a prevenção, controle e combate à emergência.

A contingência é uma situação de risco, inerente às atividades, processos, produtos, serviços, equipamentos ou instalações industriais e que ocorrendo se caracteriza em uma emergência. Essa por sua vez é toda a ocorrência anormal, que foge ao controle de um processo, sistema ou atividade, da qual possam resultar danos a pessoas, ao meio ambiente, a equipamentos ou ao patrimônio próprio ou de terceiros, envolvendo atividades ou instalações industriais. (CONTEC, 2000).

A figura 10 mostra o comportamento das empresas colaboradoras com relação ao plano de contingência, onde se observa que somente 70% das empresas pesquisadas fazem parceria em um plano de emergências e ratificam a necessidade de se fazer revisões periódicas nos procedimentos de execução deste plano, bem como, habituais treinamentos para torná-lo rápido e eficaz. Cerca de 40% dessas empresas informaram que houve necessidade de se colocar em prática ao menos uma vez, muito embora, as empresas que fazem parte do plano de contingência tenham optado por não informar se a população diretamente afetada com relação aos passivos ambientais é assistida de alguma forma.

Figura 10: Desempenho das indústrias com relação ao Plano de Contingência.

 

5.1.6 Auditoria Ambiental

A auditoria ambiental é um instrumento que poderá ser utilizado por empresas para auxiliá-las a controlar o atendimento a políticas, práticas, procedimentos e requisitos estipulados com o objetivo de evitar a degradação ambiental. Trata-se de uma importante ferramenta para a obtenção de maior controle e segurança do desempenho ambiental de uma empresa, bem como, evitar acidentes.

Entende-se auditoria como sendo uma avaliação independente, relacionada a um determinado assunto, realizada por especialistas no objeto de exame, que faz uso de julgamento profissional e comunica o resultado aos interessados. Ela pode ser restrita aos resultados de um dado domínio, ou mais ampla, abrangendo os aspectos operacionais, de decisão e de controle. (La Rovere, 2000).

Constatou-se que, aproximadamente, 82% das empresas pesquisadas afirmam que passam ou passaram por processos de auditorias internas ou externas e obtiveram resultados satisfatórios com relação à questão dos passivos ambientais gerados.

 

5.1.7 Passivos Ambientais

A figura 11 mostra o comportamento das empresas colaboradoras com relação aos passivos ambientais, onde se observa que cerca de 40% das empresas pesquisadas afirmam terem passivos ambientais que são gerados em várias fases dos processos industriais, todavia, garantem possuírem algum programa de abatimento desses passivos. Um número pequeno de empresas, aproximadamente 10%, consideram como sendo grande a quantidade de passivos produzidos em suas instalações ao final de cada processo. Cerca de 56% das empresas pesquisadas estocam os passivos ambientais no interior das empresas, contra 44% que optaram por não divulgar essa informação.

Aproximadamente 11% das empresas pesquisadas afirmam que o passivo ambiental produzido pela companhia é transportado e estocado em outro local (não divulgado), 22% afirmam que essa prática não é adotada pela companhia e a maioria, cerca de 67%, optaram por não responder essa pergunta.

Sabe-se que 22% das empresas pesquisadas procuram comercializar de alguma forma o material residual gerado no processo industrial, cerca de 34% não adotam essa prática e 44% optaram por não responder a pergunta formulada. Questionou-se também a possibilidade de se reaproveitar de alguma forma passivo produzido pela própria empresa, com isso, 56% responderam acenando de forma positiva enquanto que 44% optaram por não responder a pergunta formulada.

Com relação à destruição do passivo ambiental, cerca de 44% das empresas consultadas garantem ser uma prática comum enquanto que o restante, cerca de 56%, optaram por não responder essa questão. Com relação à possibilidade de descartá-lo com algum tratamento cerca de 50% garantem que sim, por outro lado, 10 % afirmam que não fazem qualquer tipo de acompanhamento e 40% da empresas consultadas optaram por não responder.

Durante o processo de transporte e estocagem, cerca de 60% das empresas afirmam não haver contato físico entre dois ou mais desses materiais, entretanto somente 40% garantem uma clara identificação desses passivos quando estocados ou transportados. Com relação a um possível reaproveitamento, a maioria das empresas afirma haver necessidades de se realizar grandes alterações nos processos existentes e, para que ocorram alterações ou adaptações nas instalações, aproximadamente 20% têm a necessidade de grandes investimentos, outros 20% relatam não ser necessários grandes investimento e o restante, cerca de 60%, optou por não responder a pergunta formulada.

 

 

Figura 11: Desempenho das indústrias com relação aos Passivos Ambientais.

No que se diz respeito à necessidade de um intercâmbio entre indústrias no trato desse passivo ambiental, cerca de 20% afirmam ser necessária essa troca de conhecimento, 30% garantem não haver esse tipo de necessidade e o restante opta por não responder a questão. Na maioria das empresas consultadas, aproximadamente 60%, existe uma preocupação da Gerência com relação ao passivo ambiental e mostram-se dispostos a resolver o problema do destino final adequado para esse material. Entretanto, somente em 30% das empresas consultadas existe um programa de melhoria na linha de processo de forma a reduzir a geração de passivo ambiental.

 

5.1.8 Capacitação e Treinamento de Pessoal

Acredita-se haver necessidade de verificação dos aspectos da proteção ambiental e sua consideração para efeito de treinamento de pessoal. Desta forma, a capacitação dos funcionários envolvidos no trato direto com os passivos ambientais faz parte do controle gerencial da empresa.

A figura 12 mostra o comportamento das empresas colaboradoras com relação à capacitação e treinamento de pessoal. Segundo informações recebidas pelas empresas consultadas, todos os funcionários de todas as empresas possuem capacitação técnica compatível com as tarefas que desenvolvem, entretanto, em 20% destas empresas não existe um treinamento permanente do corpo técnico com relação às questões ambientais. No que diz respeito ao trato direto com os passivos ambientais, cerca de 40% das empresas pesquisadas garantem ser boa à política de capacitação técnica do pessoal, 20% afirmam não ser ideal e 40% não responderam esta questão.

Na maioria das empresas, cerca de 70%, existe uma avaliação técnica dos funcionários e em 20% dos casos não se faz necessário qualquer tipo de avaliação. Em 44% das empresas existem trabalhadores contratados ou firmas terceirizadas para o manuseio do passivo ambiental, cerca de 12% garantem que não e 44% não responderam essa questão. Aproximadamente 78% das empresas consultadas garantem que os funcionários contratados são devidamente treinados e o restante, cerca de 22%, afirmam que não.

 

 

 

 

Figura 12 Desempenho das indústrias com relação à Capacitação

Treinamento de Pessoal.

 

5.1.9 Riscos e Impactos Ambientais

São vários os conceitos de risco, mas um ponto comum entre eles é a inclusão da noção de probabilidade. Para Conway (1982), risco é definido como a medida da probabilidade e da severidade de efeitos adversos; Inhaber (1982) o defini como a probabilidade de ocorrer acidentes e doenças, resultando em ferimentos ou mortes.

Para o Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA, 1986), impacto ambiental é definido como qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; a qualidade dos recursos ambientais.

O efeito de um impacto pode ser positivo ou negativo, por outro lado, o efeito de um risco é sempre negativo, adverso. Os estudos de risco incluem sempre o conceito de probabilidade e os de impacto não necessariamente. (Brilhante, 1999).

A figura 13 mostra o comportamento das empresas colaboradoras com relação aos riscos e impactos ambientais. Segundo informações recebidas, todas as empresas possuem uma sistemática de identificação de riscos de processos e de impactos ambientais, além de garantirem possuir documentação das ações realizadas para esse controle. Cerca de 89% das empresas pesquisadas possuem um plano de emergência, o restante afirma que não, e em sua totalidade existe um relatório de ocorrências anormais.

Figura 13 Desempenho das indústrias com relação a Riscos e Impactos Ambientais.

Com relação situações de emergências, cerca de 89% das empresas confirmam terem passados pelas consideradas de pequeno porte, cerca de 44% tiveram ocorrências de médio porte e 22% as de grande porte. Somente 44% das empresas colaboradoras confirmam existência de uma fiscalização por parte do órgão público, contra 22% que garantem que tal fiscalização não existe. A maioria das empresas colaboradoras, cerca de 78%, possui um seguro que poderá ser acionado em casos de emergências.

 

5.2 Análise geral das entrevistas realizadas

5.2.1 Passivos Ambientais e as micro e pequenas empresas

Dentro da definição dada com relação ao porte das empresas, foram pesquisadas algumas microempresas responsáveis por transporte de produtos diversos, entre eles produtos químicos. Basicamente essas empresas eram formadas pelo proprietário que normalmente é o encarregado pela administração da companhia, por uma secretária ou atendente que tem como atribuição fazer o primeiro contato com os clientes, cerca de dois ou três motoristas, aproximadamente dois ou três ajudantes para cada motorista, esse último depende do número de veículos da empresa, e um vigia de trabalho diurno.

Em vista disso, na impossibilidade de se obter respostas satisfatórias com relação à aplicação do questionário, foram realizadas entrevistas com os responsáveis pela empresa a fim de se obter melhores informações para a conclusão do trabalho. Atendendo as solicitações feitas pelos proprietários dessas empresas, tais entrevistas não foram consideradas para efeito de estatística para análise final do questionário em anexo na dissertação, além de não serem citadas na relação de empresas colaboradoras.

Pode-se observar um total desconhecimento da maioria dos itens relacionados no questionário, ou seja, Política de Gestão, Legislação Ambiental, Plano de Contingência e até Saúde e Segurança Industrial.

Constata-se que, em função da necessidade de se manter a empresa, eram realizados transportes de produtos químicos de indústrias químicas de pequeno e médio para locais considerados distantes do local de origem. Esses produtos eram transportados em caminhões do tipo baú (fechado) e abandonados durante o período da madrugada.

Questionados sobre o tipo de produtos químicos transportados, todas afirmam que normalmente esses produtos eram dispostos em sacos plásticos, tambores de ferro ou em bombonas de plástico e que o contato físico com o produto era considerado pequeno.

Segundo a FEEMA, até o momento foram identificados cerca de vinte e cinco depósitos clandestinos de produtos químicos abandonados no Estado do Rio de Janeiro. Constata-se ainda a existência de vários tipos de produtos para diversos fins no interior desses depósitos e, que algumas das vezes, armazenados de forma indevida o que provoca risco de contato entre materiais incompatíveis. Entre os produtos encontrados está matéria-prima para fabricação de corantes diversos, perfumes, produtos farmacêuticos, solventes entre outros, desta forma, há necessidade de se recolher amostras dos produtos, muitos sem qualquer identificação, para análise e só então saber estudar o destino final que poderá ser dado ao material estocado.

A FEEMA possui um grupo de técnicos que trabalham em conjunto com a Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, durante vinte e quatro horas, com finalidade de atuação rápida em situações de emergências, ou seja, isolamento de áreas de risco, recolhimento de produtos químicos perigosos depositados em diversos locais e de forma indevida, atendimento aos acidentes envolvendo produtos químicos, acompanhamento no transporte de produtos químicos entre outros.

Um triste exemplo da solução encontrada pelas pequenas indústrias com relação ao destino final de seu material de processo é o transporte e abandono em áreas distantes da companhia produtora, como o ocorrido em 2000, segundo o Relatório de Operação do 2º Subgrupamento de Bombeiro Militar do Rio de Janeiro, com o despejo de cerca de 150 quilos de cianeto de sódio junto a uma área residencial no bairro de Água Santa - RJ, em um terreno baldio, onde um grupo de meninos brincava. Os sacos contendo o produto foram deixados no terreno durante o período da madrugada e fica cerca de 200 metros de um clube de recreação bastante freqüentado pelos moradores do local. Pode-se constatar ainda que, no mesmo bairro, próximo do local existe ainda uma via expressa bastante movimentada e uma fábrica de água mineral.

O cianeto de sódio é uma substância tóxica usada pela indústria metalúrgica e na fabricação de agrotóxicos. É uma droga capaz de, mesmo em doses mínimas, matar uma pessoa por asfixia num curto espaço de tempo. A morte acontece a partir de uma reação química no estômago onde a substância combinada com o ácido clorídrico existente no suco gástrico, forma o cianureto de sódio, que mata em poucas horas. O produto em grandes quantidades pode também intoxicar através de inalação e da sua absorção pela pele, além disso, poderá contaminar o lençol freático caso consiga atingi-lo. O material foi recolhido com auxílio da Defesa Civil e encaminhado para o aterro químico da Bayer em Belford Roxo - RJ.

O custo final do passivo ambiental produzido por microempresas e algumas vezes por média empresas, que antes deveriam ser de responsabilidade da própria companhia, neste caso, passa a ser do Poder Público, conseqüentemente do contribuinte, quando esse assume a responsabilidade de se dar um destino final adequado a esses materiais ou produtos abandonados em locais diversos no Estado do Rio de Janeiro.

 

5.2.1 Passivos ambientais e as médias e grandes empresas

Em instalações de grande e médio porte, a repercussão de um acidente que venha provocar algum prejuízo ambiental ou a saúde daqueles envolvidos de forma direta ou não com a empresa, sem dúvidas irá provocar um abalo na imagem da companhia. Existe hoje uma certa movimentação na tentativa de melhorar cada processo industrial, quer seja através de investimentos em automação, treinamento de pessoal ou qualquer outra forma para tentar reduzir o material residual de final de processo. Existe uma certa conscientização de que não basta estocá-lo em uma área distante no próprio terreno da companhia a espera de que no futuro "alguém possa fazer alguma coisa a respeito daquele material", ou então, faz-se a seguinte afirmativa: "depois resolvo sobre aquilo".

Sabe-se que estocar pura e simplesmente refugos não irá resolver o problema, ao contrário irá aumentá-lo, tornando a solução mais cara e trabalhosa, devido ao seu volume, necessitando de um número maior de pessoas envolvidas no problema e, conseqüentemente, aumentando o risco com relação ao meio ambiente.

Uma das perguntas do questionário enviado para as empresas, dos setores químico e petroquímico, fala sobre a necessidade de intercâmbio entre indústrias no trato do passivo ambiental e, como esperado, todas aquelas que afirmam ter passivo ambiental garantem haver necessidade desse intercâmbio. Um bom exemplo dessa troca de experiências é o que está sendo realizado com sucesso entre uma indústria fabricante de borracha sintética - PETROFEX - e a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Várias são as aplicações da borracha sintética fabricada pela PETROFEX, tais como: pneus, banda de recapagem, calçados, mangueiras, correias, artigos médicos-hospitalares, peças para indústria automotiva entre outras. Durante o processo de fabricação da borracha é inevitável à produção ou geração de uma enorme quantidade de um material que, até então, não possuíam nenhuma utilidade ou valor comercial.

Esse material que é uma espécie de lodo vinha sendo depositado e acumulado durante anos em um terreno ao lado da fábrica formando verdadeiras montanhas de um passivo ambiental. Com isso, através de um trabalho em parceria com pesquisadores, alunos de mestrado e doutorado da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - a PETROFEX encontrou uma solução para um problema antigo com o reaproveitamento do lodo no processo industrial como combustível na produção de energia nas caldeiras. Esse material acumulado é desidratado (retirado à água), triturado e reaproveitado para queima nas caldeiras industriais (caldeiras de grande porte) da própria fábrica em substituição ao óleo combustível que era comprado de uma fornecedora.

A utilização desse passivo ambiental como fonte de combustível no processo industrial vem solucionar parcialmente o problema de um dos agentes poluidores carreados para a Baía de Guanabara, contudo, há necessidade de se realizar ajustes ou alterações nos parâmetros de atomização das caldeiras (pressão de ar e combustível) de forma a conseguir um melhor rendimento do equipamento, evitando ou reduzindo assim a emissão de poluentes lançados na atmosfera.

Uma particularidade com relação ao Setor Farmacêutico é a posição definitiva com relação à geração e a existência de passivos ambientais desse segmento industrial no qual, segundo informações recebidas, não existem nenhum tipo de resíduo em qualquer instalação industrial. Curiosamente, a FEEMA ratifica essa informação dada por esse segmento industrial até porque não se verifica em seus arquivos qualquer tipo de levantamento sobre esse problema. Buscando uma resposta mais técnica sobre essa questão na FIRJAN, obtêm-se uma resposta informal de que esse segmento de indústria funciona como uma "caixa preta" de forma a evitar ao máximo uma "exposição desnecessária" de seu processo de fabricação, dando uma idéia mais clara do motivo pelo qual não se consegue maiores informações dessas indústrias no que se diz respeito a passivo ambiental.

Segundo a FEEMA o Centro Tecnológico de Resíduos - CENTRES - tinha a função de estocar grande parte dos passivos ambientais de várias industrias fluminenses. Na realidade o CENTRES era uma empresa de processamento e estocagem transitória (coletiva) de resíduos tóxicos industrial, analisados pela FEEMA, e localizado no município de Queimados - RJ. Entretanto, após um incêndio ocorrido em abril de 1998, este local passou a estar sob intervenção da própria FEEMA.

A Licença Prévia (LP) foi concedida em janeiro de 1989, com exigência de definições de projetos de monitoramento das águas superficiais, subterrâneas e do percolado. A Licença de Instalação (LI) foi concedida em 1990, prorrogada por cinco anos, para operar como pátio de estocagem transitória de resíduos, contudo, a idéia de se construir um aterro industrial e um Centro de Processamento esbarrou com problemas políticos com a Prefeitura de Nova Iguaçu -RJ (na época Distrito de Queimados), além da falta de recursos de ordem financeira.

Após vistoria e fazendo utilizar-se de mecanismos legais, foi determinadas a imediata interdição da empresa e a aplicação de três multas: uma pelo lançamento de 80 mil litros de efluentes contaminados em uma vala; outra pelo derramamento de resíduos no solo, provocados por vazamento e deterioração de recipientes; e a terceira por deposição inadequada de tambores de resíduos contaminados. A figura 14 mostra uma foto que ilustra o ocorrido na cidade fluminense de Queimados, dando uma idéia clara do destino final do resíduo de várias que foram transferidos e estocados no CENTRES.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 14: Foto que ilustra o destino final do passivo ambiental armazenado no CENTRES

Fonte: Coelho, 1998.

Uma grande parte do material estocado no local já foi transferida para fábricas de cimento e para a BAYER onde foram incinerados, sendo que a dificuldade maior é a clara identificação de o que era de quem dentro da empresa, ou seja, bombonas e tambores de determinadas empresas continham resíduos incompatíveis com sua atividade, além de materiais a granel espalhados por barris e mesmo sobre o solo.

 
 
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