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Serra, Giane Moliari Amaral . Saúde e nutrição na adolescência: o discurso sobre dietas na Revista Capricho. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 136 p.

CAPÍTULO III

 

MÍDIA E CONTRADIÇÕES DA ADOLESCÊNCIA:
OBESIDADE E CORPO IDEAL

 

Neste capítulo, assumimos o conceito de adolescência com base na sua construção social, mostrando como a sociedade determina comportamentos e padrões aos adolescentes. A partir disso, trataremos do crescimento das prevalências da obesidade entre adolescentes no Brasil e no mundo. Chamaremos a atenção para o fato de que nem sempre gordura e calorias estão diretamente associadas à saúde e que as carências nutricionais, entre adolescentes, revelam-se, hoje, como problemas preocupantes.

A mídia tem contribuído para a mudança de hábitos alimentares entre adolescentes, especialmente, no que se refere ao crescimento do consumo de lanches calóricos e pouco nutritivos, os chamados fast foods.

Trataremos, ainda, da contradição entre mensagens veiculadas pelos meios de comunicação: por um lado pregam o consumo de lanches rápidos que em sua maioria levam à obesidade e, por outro, difundem um novo padrão estético calcado no corpo ideal, esguio, esbelto e musculoso.

Buscamos, finalmente, mostrar a relação destes adolescentes com a instituição midiática, que pode ser vista como mediadora, ou melhor, porta-voz das necessidades que devem ser geradas fundando-se na lógica de uma sociedade regulada pelo mercado.

 

Adolescência: um recorte

Adolescência, do latim adolescere (crescer) é uma fase da vida que pode ser definida em sua dimensão psicobiológica e em sua dimensão histórica, política, econômica, social e cultural. A definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), refere-se à dimensão biológica e psicológica da adolescência.

Para a OMS, a adolescência compreende a faixa etária que vai dos 10 aos 19 anos. Caracteriza-se por mudanças físicas aceleradas e características da puberdade, diferentes do crescimento e desenvolvimento que ocorrem em ritmo constante na infância. Essas alterações surgem influenciadas por fatores hereditários, ambientais, nutricionais e psicológicos (OMS,1965).

Reforçando a dimensão psicobiológica da adolescência, encontramos Zagury (1995), que nos explica que a adolescência é uma fase caracterizada pela transição entre infância e a juventude. A adolescência, para ela, compreende um momento extremamente importante do desenvolvimento, com características muito próprias, como: período de conflitos, necessidade de afirmação, mudanças físicas e psicológicas, associadas à impaciência e à irresponsabilidade.

Para tratarmos da dimensão sócio-cultural da adolescência recorrermos a Abramo (1994), que em seu estudo sobre expressão de grupos juvenis no cenário urbano brasileiro, nos anos oitenta, nos mostra que a adolescência mostra-se, também, marcada por um sentimento de contestação e se caracteriza por um período de críticas, sobretudo, no que tange às transformações da ordem estabelecida.

A autora destaca o movimento dos "punks" e "darks", que têm uma forma peculiar de protestar, basicamente no universo do lazer e do consumo, sem procurar alternativas no sistema produtivo e institucional. Mas, apesar de não apresentarem uma proposta de mudança da situação, tal movimento sinaliza o sentimento de insatisfação com as condições de emprego, a falta de oportunidade e a injustiça social e, dessa forma, faz uma "intervenção crítica no espaço urbano".

Luz (1993) também nos traz contribuições da dimensão sócio-cultural da adolescência, pois nos mostra que a própria ordem social constituída define o status, o papel e as possibilidades de integração do adolescente, classificando-o como imaturo. Essa concepção associa a irresponsabilidade jurídica e civil à necessidade de proteção, alijando o jovem das decisões políticas e econômicas. Apenas aos vinte e um anos, o jovem torna-se um cidadão completo. A imaturidade, portanto, não deve ser só vista como determinada por aspectos psicobiológicos, mas também, por interesses políticos e/ou econômicos.

Monteiro (1999) considera que a literatura antropológica também tem trazido contribuições relevantes para esse debate ao revelar a influência do momento histórico, do contexto social, econômico e cultural na modelação das representações e práticas diversificadas durante essa etapa da vida. Conforme esta autora, a adolescência não compreende um conceito fechado e rígido, mas determinado por uma sociedade. Nesse sentido, a juventude deve ser pensada como um "fenômeno plural" intimamente ligado às condições materiais e simbólicas do meio.

Tanto o conceito de adolescência estabelecido em sua dimensão psicobiológica como o determinado em seu âmbito sócio-cultural, revelam-se fundamentais para demonstrarmos a nossa opção em recortar esta faixa etária para realização de tal estudo, bem como, nos possibilita a análise sob o ponto de vista técnico-científico do impacto dos novos padrões alimentares na saúde dos adolescentes. Dessa forma, ajuda-nos, também, a compreender como os adolescentes se constituem no público alvo da mídia, no que diz respeito ao consumo de novos produtos e na adesão ao novo padrão estético corporal.

 

A situação da obesidade entre os adolescentes

No Brasil, houve um grande crescimento das prevalências de obesidade, nos últimos 25 anos, conforme dados epidemiológicos que evidenciam de forma alarmante a situação da obesidade entre adultos. Comparando-se duas pesquisas realizadas no intervalo de 15 anos (ENDEF - Estudo Nacional de Despesa Familiar, 1974/75, e PNSN - Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição, 1989), verifica-se que a prevalência da obesidade entre adultos do sexo masculino aumentou de 3,1% para 8,2% e, do sexo feminino, cresceu de 5,9% para 13,3%. Ao comparar os dados da PNSN com os dados da Pesquisa de Padrão de Vida (PPV), de 1996/97 - realizada somente nas regiões nordeste e sudeste do país, Carlos Augusto Monteiro (1999) demonstra que a prevalência da obesidade aumentou entre os homens nas duas regiões (de 2,4% para 4,7% na região nordeste, e de 5,8% para 8,0% na região sudeste). Entre as mulheres houve aumento no nordeste (de 7,7% para 12,3%) e uma discreta redução no sudeste (de 14,1% para 12,4%).

No caso de crianças e adolescentes, no Brasil, carecemos de estatísticas que forneçam um mapeamento geral do problema no nível nacional em todas as faixas etárias. Segundo a PNSN (1989), a obesidade (peso/estatura mais dois desvios padrões) atingia de 8% a 9% das crianças de 2 e 3 anos, e 5% das crianças entre 7 e 10 anos de idade (Taddei ,1995).

O Instituto Annes Dias (INAD) realizou, em 1999, um estudo com 6.214 escolares do município do Rio de Janeiro, com idade entre 7 e 10 anos e constatou um total de 6,5% de crianças com relação entre peso e estatura dois desvios padrões acima do parâmetro estipulado pelo National Center Health Statistic (NCHS), considerado referência para avaliação do estado nutricional. Confirma-se assim, que os índices de obesidade infantil merecem preocupação, à medida que utilizamos um padrão de referência de crianças norte-americanas, ou seja, com realidades bem diferentes das nossas, e, mesmo assim, encontramos índice alto de obesidade na infância.

Estudo realizado por Priori (1994), com 95 adolescentes paulistas do sexo masculino, utilizando a proposta de Veiga e colaboradores (1992) para índice peso e estatura, observou que 19% dos pesquisados apresentavam sobrepeso ou obesidade. Baseando-se nos critérios de classificação do estado nutricional recomendado pela World Health Organization (WHO, 1995), o autor encontrou 14,7% de sobrepeso entre estudantes de São Paulo com pequena diferença entre os sexos (14,0% e 15,6% para o sexo feminino e masculino respectivamente).

Tomando-se por base os dados da PNSN, Fonseca e colaboradores (1998) utilizaram o IMC (Índice de Massa Corporal) para avaliação de sobrepeso em adolescentes e elegeram como ponto de corte o percentil 90 da distribuição de crianças brasileiras, e encontraram um percentual de 23,9% de sobrepeso para meninos e de 7,2% para as meninas (Oliveira, 2000). Este achado deve-se às limitações do IMC, já que este não separa massa magra (músculos), de massa gorda (tecido adiposo) e ossos. Isto pode influenciar no peso, especialmente, dos meninos que têm uma estrutura corporal (ossatura e músculos) mais desenvolvida que a estrutura corporal das meninas, sem dizer que o ponto de corte percentil 90 é bastante sensível, ou seja, engloba mais indivíduos falso-positivos.

Sichieri e colaboradores (1995), também, tendo como base os dados da PNSN, observaram que os adolescentes brasileiros são mais magros do que os americanos, e esta diferença foi menor para as meninas, no período pós-pubertário. Meninos norte-americanos com 17 anos de idade eram cerca de 10 quilos mais pesados do que os brasileiros, e, em relação às meninas, a diferença era de apenas dois quilos. Na região Sul, a distribuição do índice de massa corporal (IMC) para meninos foi bem próxima à dos norte-americanos e as meninas mais velhas apresentaram tendência para obesidade.

A magnitude do problema pode ser ainda avaliada baseando-se em alguns estudos sobre a prevalência de obesidade em adolescentes realizados em outros países. Um bom exemplo é o estudo de Broussard e colaboradores (1991), que estimaram a prevalência de sobrepeso (IMC maior ou igual ao percentil 85) entre índios americanos e nativos do Alasca com idades entre 13 e 19 anos, e concluíram que o sobrepeso atingia 24,5% dos meninos e 25% das meninas.

Informações colhidas do Terceiro National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES III) mostraram que no período 1988-91 houve um aumento de prevalência de sobrepeso entre adolescentes americanos de 12 a 19 anos na ordem de 20% entre o sexo masculino e 22% entre o sexo feminino (Center Diseases Control - CDC,1994).

Outro estudo realizado entre crianças e adolescentes de uma comunidade nativa do Canadá, na faixa etária de 2 a 19 anos, utilizou os dados do NHANES III, realizado nos Estados Unidos e demonstrou a existência de um aumento significativo na prevalência de sobrepeso. Para meninos, o percentual de sobrepeso representou 27,7% e, para as meninas, 33,7% (Hanley et al, 2000).

 

Mudanças nos hábitos alimentares e possíveis conseqüências na saúde dos adolescentes

A adolescência configura-se como o período de maior velocidade do crescimento do indivíduo, caracterizando-se pelo "estirão" da altura, o que implica numa necessidade de maior aporte calórico e de nutrientes.

Uma das possíveis causas do aumento da obesidade, particularmente, entre os adolescentes consiste na incorporação da prática alimentar dos lanches rápidos, conhecidos como fast foods, que muitas vezes substituem as grandes refeições (almoço e jantar), ou constitui-se num complemento excessivo dessas refeições. Em ambas as situações, os fast food comprometem o estado nutricional, levam à obesidade ou a um quadro de carências nutricionais. Geralmente, os lanches rápidos são ricos em calorias e pobres na quantidade de ferro, cálcio, vitaminas e fibras (Gambardella, 1999).

A prática alimentar dos lanches rápidos apresenta-se tão difundida, que as pessoas deixam de sentar-se à mesa, para ir a uma lanchonete, fato que espelha a mudança do sentido social do ato de comer. O programa de lazer de muitas crianças e adolescentes moradores dos grandes centros urbanos, já penetrando como prática no interior, resume-se a freqüentar uma lanchonete do tipo fast food. Podemos ilustrar com um discurso de uma adolescente retirado de uma matéria da revista Capricho:

"...a pastelaria virou um programa" (revista Capricho de 23 de maio de 1999)

Juntamente a esta prática alimentar, estudos têm mostrado que muitos jovens não praticam nenhuma atividade física, e isto aumenta as suas chances de se tornar obeso, pois além do excesso calórico, em virtude do aumento do consumo, há uma diminuição do gasto, via sedentarismo.

As escolas que possuem cantinas próprias aderiram também aos fast food. Segundo reportagem publicada pelo Jornal do Brasil, em nove colégios do Rio de Janeiro (agosto/1997), o lanche fast food ganha de longe sobre os alimentos in natura. Na lista dos preferidos, o "carro-chefe" é a dupla cheesburguer e refrigerante. A reportagem registra, também, que levar merenda de casa significa "pagar mico", e confirma que o adolescente, em fase de auto-afirmação, econômica ou social, espera um reconhecimento por parte do grupo do qual faz parte.

Consumir o alimento pronto/industrializado considera-se como um status, uma condição de poder adquirir/consumir mercadoria, e vai de encontro à idéia de trazer o lanche de casa, prática tida como demonstração de "fraqueza", "pobreza", submissão a regras domésticas e exposição de privacidade. Além de tudo isto, representa o deslocamento do alimentar-se em casa para alimentar-se na rua, reforçando a idéia de que realmente o sentido de comer à mesa com os familiares tem mudado, e, também, engloba uma forma de demonstrar que os adolescentes não são mais crianças e estão entrando no mundo adulto.

A publicidade e o marketing estimulam este tipo de prática alimentar, mediante a afirmação de que se come mais "rápido" e mais "barato", moldando e esculpindo a nova face do espaço e do tempo. O homem contemporâneo não pode mais perder tempo, como nas palavras de Silva (1994). Tempo é trabalho, tempo se consome e se vende, tempo é signo de status, tempo é mercadoria, tempo é dinheiro. Dessa maneira, é bastante compreensível que a preocupação com a escassez do tempo nas sociedades capitalistas avançadas tenha dado margem à expansão espetacular das lanchonetes fast food.

Outra questão que esta prática alimentar trouxe ao cenário resume-se na homogeneização/padronização. O que se come aqui no Brasil deve ter o mesmo gosto e paladar do que se come, por exemplo, no Japão.

Hoje, num fim de semana, ao subir o elevador de um edifício de residências, sentimos o mesmo "cheiro" de comida do primeiro ao último andar.

Os restaurantes cada vez mais se especializam e se diversificam para aproximar as pessoas de seus gostos e preferências, e mais ainda, se esforçam para diminuir cada vez mais à distância entre o que se "come" na França e o que se "come" no Brasil. Segundo Câmara Cascudo (1993), as práticas culinárias estão ligadas às transformações dos costumes domésticos, diferenciados conforme culturas, lugares e classes sociais. Para o autor, hoje, assiste-se, cada vez mais, a uma homogeneização dos hábitos alimentares, a uma universalização de necessidades calóricas, vitamínicas, e a uma padronização de gostos e paladares.

Estudos sobre a alimentação de grupos de adolescentes brasileiros indicam ocorrência de inadequação alimentar com carência de ingestão de produtos lácteos, frutas e hortaliças e excesso de açúcar e gordura (Gambardella,1996). Os mesmos estudos apontam, também, baixo consumo de alimentos protéicos nas principais refeições, sendo menor ainda no jantar. Esta informação pode indicar que o fornecimento de ferro não esteja garantido à população de adolescentes estudada.

Lerner (1994) observou baixo consumo em alimentos, de fontes de vitamina C que poderiam aumentar a biodisponibilidade de ferro na dieta, uma vez que este mineral apresenta inadequado consumo entre a população. Diante disso, a diminuição da biodisponibilidade de absorção do ferro, causada pelo baixo consumo de alimentos como fontes de vitamina C, somado ao baixo consumo de alimentos protéicos que são excelentes fontes de ferro, pode estar indicando um quadro carencial de ferro, que pode levar ao desenvolvimento de anemia.

Segundo Freire (1997), a distribuição da anemia ferropriva chegou a atingir cerca de 1,3 bilhões de pessoas em 1991. Em 1994, cerca de 94 milhões de pessoas nas Américas eram portadoras desta carência nutricional.

Em relação a hipovitaminose A, esta também é considerada como um dos grandes problemas nutricionais em saúde pública. Em relação a sua etiologia, pode-se destacar a ingestão inadequada de alimentos fontes de vitamina A. Trabalhos realizados em diferentes regiões do Brasil, revelaram que os alimentos fonte de vitamina A são alvo de várias crenças religiosas e econômicas, proibições e tabus alimentares. Um bom exemplo, foi a mistura de "manga com leite". Para que os escravos não consumissem o leite que seria comercializado, os senhores de engenho "criaram" o tabu de que a mistura de "manga com leite" fazia mal. Outras práticas alimentares, que primam pela ausência da vitamina A, como, por exemplo, lanches rápidos são também responsáveis pelo aumento da hipovitaminose A (Ramalho & Saunders, 2000).

Com base em Matsudo (1999), estudos epidemiológicos e experimentais evidenciam uma correlação positiva entre atividade física e diminuição da mortalidade, sugerindo também um efeito positivo nos riscos de enfermidades cardiovasculares, no perfil de lipídios plasmáticos, na manutenção da densidade óssea, na redução de dores lombares e nas melhores perspectivas no controle de enfermidades respiratórias crônicas e de diabetes. Ele explica, ainda, que, em nosso meio, diversos levantamentos apontam uma prevalência de 70% de sedentarismo, índice extremamente superior a outros fatores de risco como obesidade, diabetes, hipercolesterolemia, hipertensão e tabagismo. Ele também confirma indicações de que o sedentarismo está-se tornando o "inimigo número um da saúde pública".

Dentro deste cenário, a obesidade aliada ao sedentarismo ganha status de problema, de questão de saúde pública, já que a obesidade aparece como a condição que aumenta o risco de morbidade para as principais doenças crônicas - hipertensão, dislipidemias, diabetes, doenças coronarianas, alguns tipos de câncer e colecistite.

A estética corporal atual e os mecanismos para alcançá-la

Os meios de Comunicação, de um modo geral, bombardeiam os indivíduos com propagandas que de um lado estimulam o uso de produtos dietéticos e cultuam um corpo esteticamente perfeito e, de outro, instigam ao consumo de lanches tipo fast food. Neste conflito, situa-se o adolescente, que deseja comer o sanduíche e consumir um modus vivendi descontraído, jovem, moderno mas, também, quer manter-se magro e esteticamente "adequado", segundo padrões estabelecidos, Assim, ele necessita ser desejado, querido e aceito, manter o corpo bonito, esbelto, esguio, pois isto representa a expressão maior do erotismo/desejo.

Dessa forma, cria-se e intensifica-se, a problemática do comportamento alimentar do adolescente, que passa a ser a maior vítima deste embate, já que vivem em busca de aceitação social.

Propagandas que divulgam estereótipos de modelos famosos, por exemplo, podem levar o adolescente a querer ter "um corpo" como o destes modelos, criando nele, desse modo, o desejo de ser e de consumir tal estilo, incitando-o, muitas vezes, a experimentar diversas práticas que não são recomendáveis do ponto de vista nutricional. Em virtude disso, desconhecer ou desconsiderar a presença e a influência hegemônica da mídia na formação da opinião, dos desejos, das atitudes, dos valores, dos comportamentos e da subjetividade torna-se quase impossível.

Assiste-se, cada vez mais, a uma exacerbação do "culto ao corpo", resultado do novo padrão estético físico, aquele do indivíduo esguio, esbelto, com muitos músculos, alto, enfim, um modelo das passarelas universais. Em função disso, surgem diversos mecanismos para alcançar o padrão ideal de corpo.

Neste contexto, quem não faz "dieta" pensa em fazer, quem já fez, vai fazer de novo. Tem-se, devido a isto, dois segmentos claros na sociedade: aquele que se constitui de obesos ávidos para emagrecer, e aquele formado por indivíduos que fazem de tudo para não engordar. Ambos os segmentos aderem com muita facilidade aos apelos da mídia em relação às práticas alimentares para emagrecimento, aos novos produtos dietéticos e aos outros mecanismos que garantem um corpo esteticamente perfeito e aceito pela sociedade.

Quanto aos produtos dietéticos, foi realizada uma pesquisa, em 1997, pela Escola de Nutrição da Universidade do Rio de Janeiro, junto a 103 adolescentes freqüentadores de quatro centros comerciais da cidade, pertencentes a uma faixa etária compreendida entre 10 e 18 anos. O questionário versava sobre a lembrança deles quanto aos produtos dietéticos divulgados pelas propagandas. Detectou-se, que 98% lembravam de alguns produtos. Os produtos mais citados foram: refrigerantes, balas e gomas de mascar. Outra pergunta da pesquisa relacionava-se ao motivo pelo qual o adolescente consumia determinado produto dietético. Foram relevantes as respostas ligadas ao desejo de emagrecer e à curiosidade de experimentar produtos divulgados na mídia (Fernandes et al., 1998).

A pesquisa "Saúde e Nutrição", desenvolvida em 1995 e 1996, no município do Rio de Janeiro por Sichieri (1998), revelou que o uso de adoçantes tem seu maior consumo entre as mulheres de todas as faixas etárias.

A busca por um corpo "esteticamente perfeito" leva adolescentes do mundo todo a experimentar práticas alimentares que comprometerão a qualidade de sua saúde. Em pesquisa realizada com 1359 estudantes de 13 a 15 anos nos Países Baixos, foi mostrado que 13% das meninas e 5% dos meninos estavam em "regime alimentar". Isto vem mostrar que o sentido da alimentação passou a ser o de medicalização, ou seja, a alimentação em muitos casos passou a substituir os remédios para emagrecimento.

Se antes era criticado o uso de medicamentos para emagrecimento, hoje, a própria alimentação através de práticas não recomendáveis assume o papel deles na saúde dos indivíduos. No entanto, a pesquisa mostra, ainda, que daqueles adolescentes que faziam "regime", somente a metade estava com sobrepeso. Isto mostra claramente a preocupação dos adolescentes em não engordar. Encontrado com freqüência e passível de ser analisado é o "regime" que não inclui refeições importantes. Muitos seguem este tipo de "regime". Os meninos que faziam tais "regimes" faltavam mais às aulas e o uso de medicamentos era mais comum entre as adolescentes que faziam "regimes". Esses dados indicam que nem todo "regime" implica num comportamento saudável entre os adolescentes (Sichieri & Veiga, 1999).

Sob o ponto de vista do consumo alimentar, parece importante observar que adolescente magro não significa, necessariamente, adolescente com hábitos alimentares saudáveis. Estudos realizados na Carolina do Norte, nos Estados Unidos em uma amostra de estudantes de 53 escolas, em 1995 apontam que 9,7% das meninas e 4,0% dos meninos relataram vomitar ou usar laxativos para perder peso. Uma das conclusões desses estudos leva a crer que adolescentes podem engajar-se em formas de atingir perda de peso que comprometem a saúde, associadas a distúrbios alimentares e psicológicos (Sichieri & Veiga, 1999).

Os distúrbios alimentares e psicológicos mais comuns e que têm a incidência cada vez mais crescente, caracterizam-se por: anorexia e bulimia nervosa. De acordo com Ribeiro et al (1998), a incidência mundial da anorexia está estimada em um indivíduo para cem mil. Se considerarmos, porém, apenas as mulheres jovens e brancas, de países desenvolvidos, esta taxa se eleva para uma mulher entre duzentas. Há evidências de que a incidência esteja aumentando nas últimas décadas, em países como os Estados Unidos e os da Europa, além de ser oportuno considerar os grupos de risco, ou seja, pessoas preocupadas com o peso e a forma física (modelos, bailarinas, aeromoças e artistas).

Conforme Vilela (2000) e de acordo com a maioria dos estudos, a taxa de prevalência da anorexia nervosa é de 0,5% a 1% e para bulimia nervosa, entre 1,0% e 1,5% em mulheres; já para os homens a taxa é muito menor. A anorexia nervosa é uma enfermidade predominantemente adolescente, coincidindo entre os estudos mais bem documentados com faixa etária de 12 a 25 anos. Antes e depois destas idades a incidência do transtorno é irrelevante do ponto de vistas estatístico. Foi observado, também, que, dentro desta faixa, os momentos de maior risco ficam entre os 14 e 18 anos. Já a bulimia nervosa tem o seu começo mais tarde, em torno de 16 a 19 anos, embora não seja incomum que isto ocorra na terceira ou quarta década da vida.

Aliado a todas estas mudanças nos padrões alimentares e estéticos corporais existe, também, uma escassez de programas de assistência ao adolescente, que levem informações corretas, que desmistifiquem algumas idéias sobre como emagrecer e como conquistar o corpo ideal. Em virtude desta escassez de programas, muitos adolescentes buscam informações nos meios de comunicação, notadamente, nas revistas.

Nestas revistas que hoje circulam no mercado, as modalidades discursivas das "dietas" divulgadas, apesar de se apropriarem de discursos científicos para se legitimarem, muitas vezes, não traduzem nem expressam uma lógica ou procedimento técnico admitido como válido no campo da nutrição e muito menos, promovem uma mudança qualitativa no comportamento alimentar. O que se vê, freqüentemente, são receitas "milagrosas" para emagrecimento, divulgadas por personalidades famosas. Tais mensagens suscitam no consumidor o desejo de experimentarem "regimes" que prometem perda de peso rápida e saúde perfeita.

Moraes (1997:147), citando Muniz Sodré nos diz que:

a mídia se constitui em vigorosa ponta-de-lança de um novo modo de organização social e relacional, e que a imposição da "era da informação" correspondeu, à afirmação de um padrão de desenvolvimento humano e social baseado em crescentes contingências teletecnológicas e comerciais, viabilizando uma nova estratégia de controle e de sujeição (pela via tecnológica), que Focault já havia discutido (pela via disciplinar; a equação: disciplina, verdade e poder), dissimulando- pelos recursos de técnicas- a existência de interesses e lutas.

A comunicação, como tecnologia e modelo informacional que invade todas as esferas do social, manifesta-se como um modelo convencional de relação social que apresenta um estado de consciência entre os sujeitos envolvidos e é produzida para dar a conhecer este estado de consciência, através de sinais valorizados socialmente, sejam eles elementos reais ou simulacros.

 

Discursos midiáticos sobre práticas alimentares e gênero: mulheres como alvo preferencial -

Todas essas mudanças nos padrões alimentares e estéticos nos mostram que a lógica das práticas alimentares e da corporalidade contemporânea, apesar de serem generalizadas, parecem ter "endereços certos", ou seja, as mulheres.

Em seu livro clássico "A Máquina de Narciso", Muniz Sodré (1990) esclarece porque nos referimos às mulheres como alvo das novas mudanças nas práticas alimentares e no novo padrão estético. O autor, ancorado na função "reprodutora" da mulher, chama a atenção para a revalorização pós-moderna desta e para sua implicação efetiva: a supervalorização como força sexual e como força de moda, isto é, como um poder circulatório de signos e modelos que se universaliza com o mercado capitalista de consumo. A "liberação" feminina passa por uma necessária adesão da mulher a uma série modelar oriunda da ordem (masculina) do capital - que a obriga a assumir e a interiorizar efeitos narcísicos de sujeito: o privilegiamento erótico do seu corpo, sua demarcação semiótica como suporte de investimentos tecnonarcísicos (discursos publicitários, eróticos, pedagógicos, etc.) Não se trata mais, evidentemente, do corpo concreto, ambivalente, da mulher, mas de sua fetichização a serviço da lei do mercado.

Assumindo, portanto, a definição de que a adolescência é construída socialmente e que, assim como Sodré diz em seu livro A Máquina de Narciso, o corpo da mulher transmuta-se em poder circulatório de signos e modelos que se universaliza com o mercado capitalista de consumo, vemos o corpo da menina/adolescente como fetiche a serviço da lei de mercado. A menina/adolescente passa a ser treinada para reproduzir o modus vivendi contemporâneo. Ela deve comer o que todos comem, usar as roupas que todos usam, ter o mesmo corpo que todos possuem.

Não é por acaso que as grandes leitoras de revistas no estilo da revista em análise (CAPRICHO), uma revista que do início ao fim divulga moda, estilos e padrões, caracterizam-se como meninas/adolescentes. E esta observação é confirmada pelo Instituto Marplan (1998), que desenvolve pesquisa de opinião junto a leitores das revistas da Editora Abril. Para respaldar nossa afirmação, basta mencionar que uma menina/adolescente colecionadora nos cedeu as revistas CAPRICHO de 1999 para análise.

Outra constatação de que as mulheres são alvo do novo padrão estético corporal aparece na matéria da revista Veja de quatro de fevereiro de 1998, cujo título é: "O Feitiço do Corpo Ideal" - insatisfação com a auto-imagem e luta contra a gordura se transformam em obsessão. São elementos inéditos da pesquisa realizada pelo Instituto Jaime Troiano- Estratégias do Consumidor - sobre imagem que têm de si as mulheres entre 20 e 45 anos de São Paulo das Classes A e B. Os resultados revelam que, de dez entrevistadas, nove declaram profunda insatisfação com o próprio corpo. A pergunta era: "se a senhora pudesse mudar alguma coisa em sua aparência, o que mudaria?" Mais da metade delas gostaria de bater o olho no espelho e encontrar uma imagem bem mais esguia do que a real. Elas querem afinar a silhueta como um todo, ou perder massa corporal localizada, como, por exemplo, perder a barriga e/ou diminuir as nádegas. Além disso, quase sessenta por cento das entrevistadas fazem "dieta" para perder peso.

A mesma reportagem informa que uma organização não-governamental americana chamada About Face, em defesa da imagem das mulheres gordinhas, reuniu num único trabalho os resultados de várias pesquisas sobre como o sexo feminino é abordado pela estética da magreza. Alguns resultados foram: em 1992, as revistas americanas destinadas a mulheres estampavam 10,5 vezes mais artigos relacionados a dietas e perda de peso do que as revistas masculinas. A reportagem revela outro dado interessante: 69% dos personagens femininos das séries de televisão são magros, contra apenas 17,5% dos homens. As mulheres gordas são apenas 5% do total, enquanto os homens gordos, 26%.

Estes dados são interessantes, pois retratam também,a realidade das revistas CAPRICHO.Mesmo nas revistas que não apresentam nenhuma matéria ligada direta ou indiretamente a temática, dificilmente se encontra um modelo fora do padrão estético corporal esguio e magro, o que confirma dados da pesquisa acima descrita. Este assunto será abordado de forma mais detalhada no quinto capítulo referente aos resultados.

 
 
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