HomeLista de Teses >  [SAUDE E NUTRICAO NA ADOLESCENCIA: O DISCURSO SOBRE...]


 

Serra, Giane Moliari Amaral . Saúde e nutrição na adolescência: o discurso sobre dietas na Revista Capricho. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 136 p.

CAPÍTULO II

 

DISCURSO CIENTÍFICO E DISCURSO MIDIÁTICO

Neste capítulo, trataremos das diversas definições de discurso, em especial o científico e o midiático. A proposta é demonstrar que as linguagens (palavras e textos) são formações discursivas que se constituem numa rede intricada de relações que imbricam história e tecnologias, construção de conhecimento e discursos num domínio específico que produz poder. Para tanto, assumiremos a definição de formações discursivas de Orlandi (1987) e Focault (1990). Trataremos, também, das estratégias e funções do discurso midiático apoiando-nos na discussão de Adriano Rodrigues (1990). Este capítulo auxiliará teoricamente a análise e o questionamento acerca dos discursos sobre práticas alimentares para emagrecimento presentes nas matérias das revistas Capricho de 1999, que se constituirá no quinto capítulo desta dissertação.

 

O discurso e suas definições

Segundo Mouillaud (1997) discurso, como a própria palavra indica, origina-se do latim discurrere, que por sua vez vem do próprio latim currere e significa discorrer, atravessar, expor. É um exposto metódico, algo que flui (noção de continuidade), uma operação mental que se processa através de uma série de operações intermediárias e parciais (noção de descontinuidade).

O entendimento da palavra discurso varia bastante entre os diferentes enfoques das diversas tendências ou correntes que trabalham com esta questão. Para a corrente francesa, os discursos são produtos culturais entendidos como textos, como formas empíricas do uso da linguagem verbal, oral ou escrita e/ou outros sistemas semióticos no interior de práticas sociais contextualizadas histórica e socialmente. Para corrente estruturalista norte-americana, o conceito de discurso oscila entre uma definição que opõe discurso e frase, e uma definição de discurso como uso ("jogos de palavras") da linguagem verbal em contextos determinados.

Congruente com a definição de discurso como prática social, encontramos o autor Teun Van Dijk (1999). De acordo com ele, o significado principal do termo discurso é o de um evento comunicativo específico, bastante complexo, pois envolve muitos atores sociais: quem fala, quem escreve, quem escuta, quem lê. São atores que intervêm no ato comunicativo, em uma situação específica (tempo, lugar, circunstância), determinados por outras características do contexto. Este ato comunicativo pode ser escrito ou oral, usualmente combina as duas coisas. Exemplos típicos seriam a interação médico e paciente, a escritura/leitura de uma crônica ou periódico. A isto, podemos chamar de significado primário do termo "discurso". Para este autor, discurso é o termo geral que se refere ao produto verbal oral ou escrito do ato comunicativo.

Outro que também define discurso como práticas sociais é Pinto. Conforme este autor, ao definirmos os discursos como práticas sociais, significa que a linguagem verbal e as outras semióticas com que se constroem os textos sejam partes integrantes do contexto sócio-histórico e não alguma coisa de caráter puramente instrumental, externa a pressões sociais. Exercem, assim, papel fundamental na reprodução, manutenção ou transformação das representações que as pessoas desenvolvem e das relações e identidades com que se definem numa sociedade, pois é por meio dos textos que se travam as batalhas que, no nosso dia-a-dia, levam os participantes de um processo de comunicação a procurar dar a última palavra, isto é, a ter reconhecido pelos receptores o aspecto hegemônico do seu discurso. (1998)

Recorremos também para definir discurso ao autor Focault, que supera uma abordagem basicamente lingüística do discurso, uma vez que amplia seu campo de preocupação para além da palavra e do texto em si, dizendo que:

Os discursos são feitos de signos. Mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato de fala. É esse mais que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever. (Focault, 1987:56)

Ainda dentro do entendimento de que os discursos são produtos culturais, podemos citar Emile Benveniste. Este autor traz para o estudo da lingüística o problema da contextualização e privilegia a relação entre a língua e cultura como base da teoria da enunciação.

Para Benveniste, a linguagem surge como um produto da cultura, que o homem aprende e pelo qual domina a natureza. Segundo este autor, todo mecanismo de cultura revela-se de caráter simbólico e, então, a língua é definida como um sistema interpenetrante em todos os outros. Benveniste afirma que ela dá ao homem o domínio sobre o mundo.

Consoante Mouillaud (1997), a língua não é um simples suporte para transmissão da informação – é sim, aquele que permite construir e modificar as relações entre interlocutores, seus enunciados e seus referentes.

Em relação ao locutor, Benveniste nos explica que, este, ao apropriar-se do aparelho formal da língua, enuncia sua posição por índices específicos. Por conseguinte, nos fala que existe uma relação entre o locutor e seu enunciado e o mundo, onde a posição sócio-histórica dos enunciados ocupará um espaço fundamental. Este autor (re)incorpora aos estudos lingüísticos a questão da subjetividade. Ele nos chama atenção para o fato de que além de percebermos a subjetividade mascarada nos textos, temos também que falar de outros conceitos importantes para entendermos o ato de enunciação (Benveniste, 1989).

Dentre os conceitos importantes para entendermos o ato de enunciação, destaca-se o conceito de polifonia e de dialogismo apropriado por Bakhtin para entender a multiplicidade de discursos presentes no discurso.

Bakhtin (1992), afirma a necessidade de considerar os enunciados como compostos de vozes (pontos de vista, visões de mundo, tendências, etc.) que dialogam umas com as outras, e que servem para mostrar que não existe enunciado puro. A essa interação ou confronto de vozes- explícitas ou implícitas - no interior de um texto (conjunto coerente de signos) Bakhtin dá o nome de polifonia.

A forma como essas "vozes" se justapõem, ou seja, a forma como elas dialogam, este autor denomina de dialogismo. É exatamente através desta forma de diálogo que é gerada a significação, que não é dada, mas sim construída na interação.

A heterogeneidade de vozes da enunciação vai buscar referências em outras falas, em outros textos, na rede infinita entre os sentidos que constituem a linguagem.

No discurso, quando se declara algo, é sinal de que alguma coisa já foi dita anteriormente, ou que certamente virá depois, mesmo que os enunciados apareçam soberanos em si mesmos. As frases independentes podem sê-lo em gramática, mas certamente não na teoria pragmática do discurso (Mouillaud,1997).

Dessa maneira, para Mouillaud (1997), quando nos referimos a discursos, entendemos o campo pragmático da linguagem em que convivem enunciados que podem se reportar a diversos campos enunciativos ou a diversas condições de produção. O discurso é o campo do espaço midiático.

Outra contribuição importante para o entendimento e análise dos discursos é dada por Jacqueline Authier, quando ela identifica nos enunciados algumas formas de heterogeneidade que acusam a presença de outros discursos. Para esta autora a polifonia presente nos discursos se efetiva em dois planos distintos: o da heterogeneidade mostrada e o da heterogeneidade constitutiva.

A heterogeneidade mostrada pode acontecer através de formas marcadas ou não marcadas. É o caso do discurso direto, do discurso indireto, das aspas, do itálico e do metadiscurso do locutor (conjunto de expressões, glosas, retoques, comentários).Quando não é marcado, podemos citar o caso do discurso indireto livre, da ironia, da metáfora, dos jogos de linguagem, da imitação.

Pela heterogeneidade mostrada, pode-se perceber como os discursos constituem suas identidades, como delimitam seus limites e fronteiras (Authier,1990). Por outras palavras, ela nos revela a que vozes os discursos necessitam recorrer para se constituir, ao mesmo tempo, em que estabelecem uma relação entre essas vozes.

A heterogeneidade constitutiva, por sua vez, trata-se da polifonia formada pelas vozes da história e da cultura (e também, do inconsciente), que se fazem presentes em todo universo discursivo e em relação à qual o autor não tem controle racional e, às vezes, nem sequer consciência.

 

O discurso científico

Orlandi (1987), afirma que, do ponto de vista discursivo, as palavras, os textos configuram-se como partes de formações discursivas. Estas por sua vez, são entendidas como um conjunto de redes intrincadas de relações que imbricam história e tecnologias, construção de conhecimento e discursos num domínio específico, portanto, reproduzem poder (Focault, 1990).

A formação discursiva é sua relação com a formação ideológica e é caracterizada pelas marcas estilísticas e tipológicas que se constituem na relação da linguagem com as condições de produção.

Orlandi (1987:153) citando Pêcheux expõe que:

Um tipo de discurso resulta do funcionamento discursivo, sendo este último definido como a atividade estruturante de um discurso determinado, para um interlocutor determinado, por um falante determinado, com finalidades específicas. Observando-se sempre, que esse "determinado" não se refere nem ao número, nem a presença física, ou à situação objetiva dos interlocutores como pode ser descrita pela sociologia. Trata-se de formações imaginárias, de representações, ou seja, da posição dos sujeitos no discurso.

Existem portanto, vários tipos de discursos. Para a mesma autora, estes se classificam em: discurso lúdico, discurso polêmico e discurso autoritário. Este último é o de nosso interesse, pois a autora o define como sendo aquele em que a reversibilidade tende a zero, estando o objeto do discurso oculto pelo dizer, havendo um agente exclusivo do discurso e a polissemia contida. Esta situação é a que exatamente acontece no discurso tipo científico, do qual passaremos a tratar.

Para discorrermos sobre o discurso científico, recorremos a Focault, autor fundamental na definição de que os discursos funcionam de acordo com algumas regras preestabelecidas, isto é, dentro de determinadas condições de produção. Não podemos deixar de mencionar sua aula inaugural no Collège de France em dois de dezembro de 1970, quando formulou um brilhante resgate da ordem dos discursos. Esta aula transformou-se no clássico livro "A Ordem do Discurso", onde podemos encontrar um resgate histórico de como sempre os discursos representam o poder e, por isso, muitas vezes, necessitam ser controlados.

De acordo com Focault (1999), a troca e a comunicação caracterizam-se como figuras positivas que atuam no interior de sistemas complexos de restrição e, sem dúvida, não poderiam funcionar sem estes. O autor sugere que a forma mais superficial e mais visível desses sistemas de restrição é constituída pelo que se pode agrupar sob o nome de ritual.

O ritual define a qualificação que devem possuir os indivíduos que falam (e que, no jogo de um diálogo, da interrogação, da recitação, devem ocupar determinada posição e formular determinado tipo de enunciados); define os gestos, os comportamentos, as circunstâncias, e todo o conjunto de signos que devem acompanhar o discurso; fixa, enfim, a eficácia suposta ou imposta das palavras, seu efeito sobre aqueles aos quais se dirigem, os limites de seu valor de coerção.

Os discursos religiosos, judiciários, terapêuticos e, em parte também, políticos não podem ser dissociados dessa prática de um ritual que determina para os sujeitos que falam, ao mesmo tempo, propriedades singulares e papéis preestabelecidos.

Se resgatarmos a história dos discursos, podemos perceber que, em cada momento, a busca da verdade mantém-se presente, assim como, as formas de controle de sua circulação. Para falarmos, porém, do discurso científico, nos ateremos ao século XIX, quando ocorreram grandes mutações científicas.

Ainda segundo Focault (1999), estas mutações científicas podem ser lidas, às vezes, como conseqüências de uma descoberta, mas podem, também, ser lidas como aparição de novas vontades da verdade, até mesmo, porque não podemos deixar de lembrar que os discursos funcionam de acordo com rituais que garantem poder ao discurso.

Dessa forma, é certo que a vontade de verdade no século XIX não coincide nem pelas formas que põe em jogo, nem pelos domínios do objeto aos quais se dirige, nem pelas técnicas sobre as quais se apóia, com a vontade de saber que caracteriza a cultura clássica.

O discurso verdadeiro não consiste mais, desde os gregos, naquele que responde ao desejo ou aquele que exerce o poder, na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso verdadeiro: o que está em jogo é o poder subjacente ao discurso.

Segundo Braga (1999), a ciência, não por acaso, depois do século XIX, representa a mais significativa instância cultural, com uma abrangência totalizante, atravessando e impregnando todas as dimensões da existência humana em nossa sociedade. A ciência transforma-se em um instrumento de poder que acaba, muitas vezes, sendo legitimado pela sociedade que a fabrica.

A ciência é essencialmente discurso, isto é, um conjunto de proposições articuladas sistematicamente. Mas, além disso, revela-se como um tipo específico de discurso: é um discurso que tem a pretensão da verdade; entretanto, como Focault explica, verdade que não se dissocia do desejo e do poder.

Este discurso também é denominado por Marilena Chauí de "discurso competente", ou seja, aquele que pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro ou autorizado. É o discurso instituído, aquele no qual a linguagem sofre uma restrição que poderia ser assim resumida: não é qualquer um que pode dizer a qualquer outro, qualquer coisa em qualquer lugar e em qualquer circunstância. O discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada. Confunde-se, assim, com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminados para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma foram autorizados respeitando os cânones da esfera de sua própria competência (Chauí, 1990).

Diante disso, para estes autores e outros, nenhum discurso significa verdade, ou isto exigiria que existisse algum discurso verdadeiro, objetivo, neutro, que produzisse a realidade sem deformações ou sem estar sujeito a interesses.

 

O discurso midiático

Outro tipo específico de discurso que nos interessa discorrer, com intuito de levantar pistas para o entendimento das estratégias de divulgação de práticas alimentares para emagrecimento e na conseqüente influência na adoção destas práticas por parte dos indivíduos, é o discurso midiático.

Uma das principais características do discurso midiático é o fato de ele se apresentar como um discurso acabado e de funcionar, aparentemente, sem intermitências, nem vazios. O funcionamento dos discursos espontâneos, dos discursos que trocamos uns com os outros no decurso da vida quotidiana, mostra-se intermitente, pontuado por todo um conjunto de hesitações, de esperas, de rupturas, de silêncios, de derivas (Rodrigues, 1997). O discurso midiático pelo contrário, flui de maneira constante e ininterrupta, encadeia enunciados que se apresentam habitualmente de forma acabada, e esconde os seus processos de origem.

Este efeito de completude resulta da camuflagem do processo de enunciação, através do uso predominante da terceira pessoa que, como se sabe, é a forma verbal da não pessoa. O uso predominante da terceira pessoa garante ao discurso midiático, bem como, nos discursos histórico e científico, uma estratégia de universalidade referencial dos enunciados, uma credibilidade da narração dos fatos independente do lugar da fala do enunciador.

É importante falar, falar sempre, mesmo que seja para não dizer nada. Uma das funções mais importantes do discurso midiático, além da função referencial é a função fática, ou seja, falar para manter o contato com o público.

A característica distintiva do discurso midiático é o fato de o âmbito da sua legitimidade não ser delimitado pelas fronteiras de um domínio restrito da experiência, ou seja, a mídia se apropria do discurso e da experiência de diversas áreas de conhecimento.

Rodrigues (1997) explica que, enquanto o âmbito da legitimidade dos outros tipos de discurso acontece limitado a um dos domínios específicos da experiência, o âmbito da legitimidade do discurso midiático constitui-se transversal ao conjunto de todos os domínios da experiência moderna.

Para dar conta desta distinção, consideramos os discursos que não são midiáticos como discursos herméticos, ocultos, fechados, discursos entendidos por poucos. Os discursos midiáticos consistem em discursos abertos, públicos, entendidos por muitos, dado o interesse generalizado que suscitam.

O imperativo de transparência ou de visibilidade universal do discurso midiático corresponde-se diretamente a esta natureza generalizante/aberta. Desse modo, a mídia, mesmo quando utiliza termos científicos, expressa-os em palavras do domínio público, atribui a determinados termos científicos, significados mais populares.

Ao contrário, a relativa opacidade das outras modalidades de discurso refere-se à natureza fechada/oculta. Assim sendo estes discursos não se preocupam em aproximar-se do público leigo, muito pelo contrário.

Um exemplo da opacidade do discurso pode ser o discurso médico, que apresenta-se relativamente incompreensível e sem transparência para os que não são detentores da legitimidade de intervenção expressiva e pragmática no seu domínio específico de experiência.

A combinação de vários discursos provocada pelo discurso midiático é responsável pela natureza metaforizante da prática discursiva midiática. Este fato de assimilar parte da dimensão discursiva de outros saberes contribui para a função de mediação pela qual o discurso midiático é responsável. O fato de o discurso midiático se apropriar exclusivamente da componente generalizante/aberta do discurso das outras instituições tem como conseqüência uma reelaboração dessacralizante, quer dizer, sem identidade, descontextualizada, dos diferentes discursos institucionais.

Para reelaborar o discurso das outras instituições de modo a adequá-lo às exigências do discurso midiático, as instituições, precisam dotar-se, habitualmente, de um corpo especializado de profissionais da mídia. Por conseguinte, é algo que demanda uma certa especialização.

As fronteiras entre as componentes generalizante/aberta e fechada/oculta da dimensão expressiva não permanecem, no entanto, sempre claras, nem indiscutíveis: encontram-se marcadas por relações de forte tensão, que podem, muitas vezes, fazer despontar situações de conflito.

Caso a modernidade aparecesse marcada pela autonomia das diferentes esferas de experiência, as sociedades modernas correriam o risco de dissolução, de prosseguirem um conjunto de objetivos desarticulados. A instituição midiática desempenha, conseqüentemente, o papel de interligar, homogeneizar os diferentes interesses das diferentes instituições, nem que seja criando significado ambivalente.

A apropriação, por parte do discurso midiático, de parte da dimensão expressiva das outras instituições tende a naturalizar as pretensões legítimas construídas historicamente pelos corpos autorizados dessas instituições.

Adriano Rodrigues (1997) sustenta que essa estratégia pressupõe determinada relação com a memória ou, melhor dizendo, com a dimensão mnésica do discurso midiático. O entrelaçamento do esquecimento, resultante da efemeridade dos seus enunciados, com o seu retorno regular, sob a forma de retrospectivas e citações, é um dos mecanismos fundamentais deste âmbito mnésico do discurso.

O discurso midiático reforça a legitimidade das linguagens das outras instituições e garante a sua permeabilidade por todo o tecido social. Este papel de reforço resulta da projeção pública da sua experiência, que é a de reelaborar as modalidades discursivas herméticas/fechadas em modalidades discursivas generalizantes/abertas, confere – a elas maior visibilidade e ajuda-as a se manter presentes no imaginário social.

Nos casos em que as legitimidades de diferentes instituições entram em contradição ou entram em competição na luta pela imposição da sua legitimidade, o discurso midiático desempenha um papel, particularmente, importante de compatibilização.

Através da elaboração de uma retórica destinada a esvaziar os discursos em confronto das formulações mais polêmicas, a mídia os substitui por enunciados formais com os quais os detentores legítimos das diferentes posições em confronto não podem deixar de concordar.

Nos casos mais difíceis, em que não existem disponíveis processos retóricos de compatibilização entre as pretensões legítimas concorrentes, a manifestação das diferentes posições em presença, nomeadamente sob a forma de mesas-redondas, de debates entre os representantes legítimos destas pretensões ou de textos editoriais na imprensa, desempenha semelhante papel de compatibilização, e mantém a instituição dos meios de comunicação ao abrigo da contestação sistemática de que são alvo as posições contraditórias em presença.

Mas nem sempre o discurso midiático desempenha uma função harmonizadora ou de compatibilização entre as divergências. Por vezes exacerba essas diferenças. Muitos dos atuais conflitos aparecem instigados e por vezes despontados, na seqüência da sua encenação midiática como podemos observar nos exemplos extraídos das matérias da revista capricho:

"Se ela tem a tendência a engordar, então, mesmo que emagreça bastante, precisa controlar sempre, diz o médico "X". Em alguns casos, remédios podem ajudar. Sempre com orientação médica, é claro". (revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

"Os remédios só devem ser usados como último recurso, quando a pessoa está muito acima do peso, prejudicando a saúde, diz o médico "Y". (revista Capricho de 29 de agosto de 1999)

Estes dois textos encontram-se presentes em uma mesma matéria, desencadeando "choque de posições". Portanto, os discursos caracterizam-se como campos de conflitos e tensões. Estes conflitos podem acontecer entre especialistas de áreas diferentes ou entre especialistas de áreas afins.

Esta situação, muitas vezes, pode levar o destinatário do discurso a uma conseqüente dificuldade de posicionamento. Afinal, quem estará falando a verdade?

O discurso da mídia configura-se como a instituição por excelência, destinada a dar visibilidade pública às outras instituições. O fato de termos hoje à nossa disposição a instituição midiática faz com que aquilo que não seja objeto de intervenção mediadora não tenha existência socialmente reconhecida.

O discurso midiático assegura, ainda, alterações significativas no regime de funcionamento das instituições, quer acelerando quer desacelerando o ritmo e a intensidade do momento.

Assim, por exemplo, assistimos, no domínio do econômico, ora a efeitos de aquecimento e de inflação, ora a efeitos de arrefecimento ou de deflação, como resultado da projeção midiática das decisões tomadas pelos agentes com competência de intervenção na esfera de valores econômicos. O mesmo acontece nas outras instituições, quando aquecem ou desaquecem de acordo com interesses. Assistimos, claramente, a este fenômeno, quando, em determinado momento, a imprensa e a televisão dirigem-se, freqüentemente, a um problema de saúde como, por exemplo, a aids e, depois, parece que "deixam cair" no esquecimento e muito pouco mencionam, sequer, o nome da doença.

A análise das diferentes funções e estratégias que o discurso midiático desempenha permite, em virtude disso, compreender não só as suas fronteiras, mas, sobretudo, a sua permeabilidade pelos outros discursos.

O discurso midiático é unilateral, ou seja, um enunciador dirige a palavra a um público relativamente indiferenciado e ausente, que não tem possibilidade de tomar efetivamente a palavra, pelo menos no decurso da sua relação discursiva. Esta questão parece ser contornada quando se tenta aproximar os processos da enunciação midiática dos processos de enunciação do discurso face a face.

A instituição midiática utiliza habitualmente todo um conjunto de procedimentos que são definidos, de maneira esclarecedora, pelo fato de visarem "dar a palavra ao público". Um exemplo disto, mostra-se através das cartas de leitores, nas revistas e jornais. A imprensa concede um espaço para que os leitores tenham "vez e voz". No caso específico da revista Capricho, principalmente, no que diz respeito às matérias sobre práticas alimentares para emagrecimento, observamos que muitas matérias aparecem em forma de perguntas do público leigo dirigidas à redação da revista, que contacta especialistas para consultoria. Citamos, como exemplo, a matéria do dia 25 de abril de 1999, onde adolescentes fazem perguntas sobre as suas principais dúvidas a respeito de dieta e peso. Selecionamos alguns exemplos:

"dá pra emagrecer sem precisar comer só verduras e legumes(Urgh!)?" (adolescente)

"Sim. Essa história de comer só alface e grelhado para perder peso é furada." (especialista)

"Posso usar laxante para emagrecer? E um diurético?" (adolescente)

"De jeito nenhum. Os dois são medicamentos e nenhum é indicado para perda de peso." (especialista)

Estes exemplos nos remetem a lógica que está subjacente ao discurso dos especialistas que acreditam que através do repasse de conhecimentos ancorados na verdade científica e embasados na concepção de moral do certo e errado, garantirão aos clientes/pacientes informações que incorporadas, transformarão suas práticas e hábitos de vida.

Desta forma os técnicos transferem a responsabilidade para o cliente/paciente, pois se não conseguirem controlar sua própria saúde, é por sua única e exclusiva culpa.

 
 
  Início